o PIB, o deflator, o défice e a dívida

Há cerca de mês e meio publiquei no ECO – Economia Online um artigo de opinião relativo à proposta do OE2017 ao qual chamei “Um orçamento habilidoso”. Nele identificava um conjunto de riscos, em particular a estimativa avançada pelo Governo para o PIB nominal. Desde então, confirmou-se o que previa: a única entidade dita oficial cuja taxa de crescimento do PIB para 2017 estava então ainda acima da estimativa avançada pelo Governo, a Comissão Europeia de Monsieur Moscovici, reviu-a em baixa (de 1,7% para 1,2%) e para abaixo do previsto pour son ami Mariô Centenô (1,5%).

Hoje foi a vez da OCDE fazer semelhante. Baixou a sua estimativa para 2017, embora apenas muito ligeiramente, de 1,3% para 1,2%. E baixou também o valor projectado para o deflator do PIB (de 1,0% para 0,9%). O deflator é importante porque tem influência directa sobre as estimativas das receitas fiscais, que são apuradas com base no PIB nominal (volume+deflator). E neste momento quer a OCDE quer a CE apontam para crescimentos do PIB nominal (de 2,1% e 2,5%, respectivamente) inferiores ao que é previsto pelo Governo português (3,0%). Sem surpresa, as projecções para o défice, induzidas pelo lado das receitas, também diferem das do ministério das Finanças. Para pior. E falta o lado das despesas…!

Evidentemente, o défice pode muito bem ser o que cada Governo quiser. Os malabarismos orçamentais deste ano são disso reveladores. Entre os pagamentos em atraso aos fornecedores do Estado, a retracção do investimento público enquanto variável chave de consolidação orçamental, e as cativações permanentes (vulgo cortes ou austeridade) que o Governo divulgou apenas no ocaso do ano (e apenas em inglês), o plano b que o spin do Governo garante nunca ter existido, chegaremos ao final de 2016 com o menor défice orçamental, mas a maior dívida pública, dos últimos 42 anos! C’est magnifique. Aguardemos, pois, por 2017. Provavelmente com défice um bocadinho maior e uma dívida pública maior ainda. Monsieur Moscovici? Oh mon Dieu! Monsieur Costa? (mestre do contra factual) “Se não tivéssemos tido de implementar os vossos cortes é que teria sido!”

O legado económico de Fidel Castro

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Tinha 14 anos, embora jurasse ser dois anos mais novo. Empunhou a caneta e escreveu uma carta ao então Presidente dos Estados Unidos da América, Franklin Delano Roosevelt, com um pedido insólito: queria uma nota de 10 dólares. Nunca tinha visto uma, e gostaria de a ter. «O seu amigo, Fidel Castro» — rematou. Indelevelmente, este pedido marcaria o legado de Fidel Castro. A Cuba revolucionária e socialista havia de se comportar como um ‘mendincante’, ora suplicando pela ajuda da União Soviética, ora suplicando pelos favores da Venezuela, desta forma suprindo as suas necessidades económicas.

O meu ensaio sobre o legado económico de Fidel Castro no jornal ECO.

o rato (2)

“Após a demissão de António Domingues da CGD, João Galamba deixou um pedido aos partidos de direita: que não sejam “dois partidos que não olham a meios para atingir os fins.” (via Negócios)

(da série “o rato”)

É engraçado que são precisamente aqueles que não olharam a meios que agora se queixam! Francamente, é preciso ter muita lata.

 

reformas antecipadas

Tenho, desde há muito, que a Segurança Social será a maior ameaça de longo prazo à economia portuguesa. O inverno demográfico registado nas últimas décadas e a discriminação negativa que em Portugal se pratica contra a família, estou certo, tratarão de o confirmar. A insolvência do sistema de pensões será assim a consequência de uma problemática que, embora potenciada por decisões políticas, é na sua essência demográfica. Naturalmente, num País que incentiva a indiferença e a ignorância dos cidadãos como escolhas racionais, só quando o céu se abater sobre os portugueses é que estes acordarão. Os políticos também, não fossem eles próprios (salvo excepções) produtos da mesma racionalidade.

Por esta razão, é para mim incompreensível que ainda existam em Portugal dois regimes de reformas antecipadas. No regime geral da Segurança Social só pode pedir a reforma antecipada quem tenha pelo menos 60 anos de idade e 40 anos de carreira contributiva. É um regime para portugueses de segunda, curiosamente a maioria dos portugueses. Já na função pública e afins, para portugueses de primeira, contam os 55 anos de idade e 30 de serviço. Na prática, os portugueses de segunda têm de trabalhar mais 10 anos, com a agravante de terem de começar a trabalhar 5 anos mais cedo, do que os de primeira. E quanto a equidade e justiça estamos conversados.

A incapacidade política de pôr termo a esta indecência tem sido transversal da esquerda à direita. É certo que ao longo dos anos têm existido algumas correcções. E que a existência de penalizações às reformas antecipadas também disciplina o sistema. Mas a dualidade de critérios permanece e é, por isso, inaceitável. É, aliás, duplamente inaceitável porque é a caixa geral de aposentações, e não o regime geral da segurança social, que mais depende das transferências do orçamento do Estado. Portugueses de primeira e portugueses de segunda. E não há quem acabe com esta pouca vergonha.

Proponho, assim, o seguinte: em vez de fazer convergir as regras no sentido das mais exigentes, que se faça ao contrário! Faça-se, pois, a convergência das regras no sentido das menos existentes, que hoje vigoram apenas para a função pública. Estou convencido que o partido que o fizesse ganharia muitos votos entre os portugueses de segunda (ainda que talvez pudesse perder entre os de primeira…). Talvez até se poupasse alguma coisa nas pensões a pagar. E talvez, talvez mesmo, se estimulasse o emprego! Seriam só vantagens. Nada como (não) tentar.

dá vontade de morrer (4)

“António Domingues demite-se” (via ECO – Economia Online)

Em suma, o indigitado presidente executivo da CGD acalentou até ao final a expectativa do regime de excepção que lhe haviam prometido. Mas in extremis, atraiçoado num acordo que não se concretizou, demitiu-se. Embora muito tardiamente (o que para sempre acalentará a questão sobre o que havia para não mostrar) António Domingues foi coerente.

Num país decente, esperar-se-ia agora que também o Governo fosse coerente. Porque o processo relativo à indigitação da administração foi mal conduzido do princípio ao fim. E também, verdade seja dita, porque ainda ninguém percebeu por que raio precisa a CGD de 5 bis. Digo mais: o Governo que meta 10 bis e qualquer um fará um grande trabalho na CGD! Tantas empresas estratégicas se tornarão viáveis (e tantas empresas viáveis se tornarão estratégicas). Tudo isto à conta do contribuinte, é certo.

A série “dá vontade de morrer” não acabou ainda.

Este homem também ganhou hoje

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Conforme indicam as primeiras projecções, François Fillon venceu as primárias da direita francesa.

O politicamente correcto não permite excepções

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Numa entrevista ao Journal du dimanche, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, diz estar pronto para se apresentar às primárias do partido socialista. Para Valls, o livro dos dois jornalista do Monde, Gérard Davet e Fabrice Lhomme, “Un président ne devrait pas dire ça”, que conta as inconfidências de Hollande no decorrer de conversas privadas tidas entre o ainda presidente da França e os dois jornalistas no decorrer do seu mandato, pode ter sido a gota de água que o força a decidir-se.

Não deixa de ser curioso que possa ser este livro a pôr um termo final na carreira de Hollande. Na verdade, e como ainda este mês referiu Patrick Besson, Hollande mostrou-se neste livro tal qual ele é, um homem inteligente e apaixonante, e não como pareceu ser durante 5 anos, um pateta vazio. Alguém que pensa os assuntos e fala deles sem receio das palavras. O politicamente correcto fez mais uma vítima neste ano de 2016: Hollande. Ao homem que quis ser normal não é permitido ser excepcional. Mesmo que tenha capacidades para isso.

Um palhaço é um palhaço

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Justin Trudeau, Primeiro-Ministro do Canadá sobre a morte do facínora Fidel Castro.

“It is with deep sorrow that I learned today of the death of Cuba’s longest serving President.

“Fidel Castro was a larger than life leader who served his people for almost half a century. A legendary revolutionary and orator, Mr. Castro made significant improvements to the education and healthcare of his island nation.

“While a controversial figure, both Mr. Castro’s supporters and detractors recognized his tremendous dedication and love for the Cuban people who had a deep and lasting affection for “el Comandante”.

“I know my father was very proud to call him a friend and I had the opportunity to meet Fidel when my father passed away. It was also a real honour to meet his three sons and his brother President Raúl Castro during my recent visit to Cuba.

“On behalf of all Canadians, Sophie and I offer our deepest condolences to the family, friends and many, many supporters of Mr. Castro. We join the people of Cuba today in mourning the loss of this remarkable leader.”

Leitura dominical

Um sucesso com precedentes, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

(…) O prof. Marcelo, especialista em selfies e obituários, chamou a Fidel Castro uma personalidade “marcante”, “cujo peso na história não se pode negar”. De facto, a criatura marcou sobretudo as suas incontáveis vítimas, executadas, torturadas ou, nos dias em que acordava bem-disposto, apenas presas por delito de opinião. E não serei eu a negar o tal “peso” de Fidel na história, a par de figuras estimáveis como Estaline, Hitler, Mao, Pol Pot, os ditadores argentinos e, numa escala modesta mas comparável na barba, o estrangulador Landru. Por sorte, dele e nossa por osmose, o prof. Marcelo ainda foi a tempo de conhecer o Carniceiro, perdão, o Comandante de Havana. Temos, em suma, um presidente esclarecido. Já os americanos terão o sr. Trump, que considerou Fidel um “ditador brutal”. Tamanha ignorância assusta.

Em defesa da municipalização da Carris

O meu artigo desta semana no Observador: Em defesa da municipalização dos transportes.

É indiscutível que a manutenção a 100% da dívida no Estado é profundamente injusta mas importa reconhecer que passar empresa com défice significativo e passivo avultado não seria fácil de outra forma. O mais importante — vale a pena realçar novamente — é que a responsabilidade pelas obrigações futuras incorridas pela nova gestão fiquem estritamente circunscrita ao nível da autarquia de Lisboa, sem ajudas estatais ou possibilidade de bailouts.

Fidel e a Comissão Europeia a que temos direito…

Trump e a esquerda

Qual é o problema da esquerda com Trump? Por Rui Ramos.

Qual é, afinal, o problema das esquerdas com Trump? Trump propôs-se rasgar tratados de comércio, reduzir compromissos militares, aumentar o défice. Não é isso, num mesmo patamar de demagogia, que desejam os inimigos do “neoliberalismo” e da “austeridade”? Muitos eleitores da esquerda americana não viram onde estava o problema, e votaram Trump. São racistas, diz-se agora. Mas em 2008, quando elegeram Obama, também foram racistas?

Alguém dê uma garrafa de champanhe a Ana Gomes, please!

«Vai hoje a enterrar um canalha.
Morreu no dia dos Direitos Humanos. E deixou o nome: de ditador assassino e corrupto.
Durante anos viajou, na casa que levei às costas, de país para país, uma garrafa de champanhe. Para abrir no dia em que Pinochet morresse ou fosse preso.
Tive de a abrir, na falta de outra, em 1998, estava eu em Nova Iorque – para celebrar a queda de outro ditador assassino e corrupto: Suharto.
Substitui-a no mesmo dia, o patife chileno não perderia pela demora…»

(aqui)

Mensagem aos jornalistas sérios

Não morreu um líder histórico, nem um revolucionário, nem um lutador. Morreu, antes de tudo, um ditador sanguinário, responsável directo pela morte de 17 mil pessoas e pela pobreza extrema de largos milhões. A morte de um ditador noticia-se assim:

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E não assim:
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Ainda vão a tempo.

25 de Novembro de 2016 na Venezuela

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Hungry Venezuelans Flee in Boats to Escape Economic Collapse, por Nicholas Casey (texto) e Meridith Kohut (fotografias).

(…) “I’m leaving with nothing. But I have to do this. Otherwise, we will just die here hungry.” (…)

Espera-se, a todo o momento,  que o governo revolucionário venezuelano coloque em marcha um conjunto de medidas mágicas que resolverá de vez a escassez de bens essenciais e que potenciará os bons resultados do modelo socialista.

 

25 de Novembro, sempre!

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No dia 25 de Novembro de 1975 foi colocado o ponto final ao PREC (Processo Revolucionário em Curso). A esquerda radical que hoje governa o país, recorria então à violência, à ameaça, intolerância e censura que colocavam Portugal no mesmo rumo da Albânia de Enver Hoxha ou da República Democrática Alemã.

À beira de um novo totalitarismo, militares como Jaime Neves e Ramalho Eanes derrotaram a esquerda radical, defenderam a liberdade e colocaram Portugal na rota da democracia Ocidental. Desde então os caminhos tomados são discutíveis mas até por isso, agradeço a quem lutou e consagrou a liberdade para todos. Obrigado Jaime Neves.

Que significa “se as eleições fossem hoje”? (2)

Convém relembrar o que “diziam” as sondagens cerca de um ano antes do governo PS levar o país à beira da bancarrota e ter de pedir um resgate (meus destaques). Em 2010:

Quase 60% dos portugueses acham que José Sócrates mentiu no Parlamento sobre o seu desconhecimento do negócio PT/TVI.

(…)

Mas nem essa “mentira” nem a alegada ligação de José Sócrates a escândalos recentes lhe retiram condições para governar. Aliás, se as eleições fossem hoje, o PS voltava a ganhar e reforçava mesmo a sua votação, ficando à beira da maioria absoluta.

As eleições afinal não foram naquele dia da sondagem. Acabaram por ter lugar no ano seguinte (2011) e PS nem esteve próximo da maioria absoluta.

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A esquerda não socialista

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Foto: Ed Alcock / M.Y.O.P.

Quem é Emmanuel Macron? O meu artigo no Jornal Económico sobre o candidato de esquerda não socialista às presidenciais francesas, que pode pôr um ponto final nos preconceitos da esquerda.

A esquerda não socialista

‘La bataille qui est la notre, c’est de rendre les individus capables’

Emmanuel Macron, L’Obs, 10/11/2016

Emmanuel Macron é, a par com François Fillon, a figura política francesa mais interessante do momento. Conselheiro de Hollande, ex-ministro da Economia, Macron foi responsável pela lei com o seu nome que visava desregulamentar a lei do trabalho, mas que caiu porque Hollande e Valls não aguentaram a pressão dos sindicatos.

Macron tem 38 anos e, como lembra a cantora Françoise Hardy, além de cortês é alguém de esquerda que se define como não socialista. É o primeiro de muitos que estão para chegar. Em França, Espanha e em Portugal. A esquerda não tem de ser socialista e Macron está a mostrar o que isso significa. Os efeitos na política francesa serão imensos, agora que as sondagens colocam o PS na mão de Arnaud Montebourg, que é contra a globalização, é proteccionista e tem uma visão da economia que se situa entre Donald Trump e Marine Le Pen.

A 10 de Novembro, o L’Obs publicou uma entrevista com Macron em que este elencava as suas propostas para a lei laboral e para o ensino. Criticando o modelo actual, regulamentador, injusto e ineficaz, que favorece os que trabalham no Estado ou nas grandes companhias, em detrimento dos que o fazem por conta própria ou nas pequenas empresas, Macron propõe uma lei laboral que, não esquecendo o que considera ser essencial para a esquerda, difira de sector para sector de acordo com as suas especificidades. Para ele, diálogo social passa por nem tudo ter de ser prescrito por lei. Empresas e trabalhadores devem ter espaço de manobra para acordarem as regras de trabalho que mais lhes aprazem.

O mesmo raciocínio tem relativamente ao ensino. Neste domínio, defende um tratamento diferenciado entre as escolas, com o Estado a compensar financeiramente os professores que queiram leccionar nos estabelecimentos situados em zonas sensíveis. Ao mesmo tempo, suprime a carta escolar e o determinismo que o local de residência tem na escola que um aluno deve frequentar. O direito de escolha dos indivíduos é finalmente aceite por alguém de esquerda.

As presidenciais francesas vão ser muito importantes devido à possibilidade de Marine Le Pen vencer. De acordo com as últimas sondagens, esta dificilmente não passará à segunda volta, a não ser que Emmanuel Macron se consiga explicar. Se o fizer, a esquerda, depois de Hollande, Tsipras, Corbyn e Iglésias, verá, finalmente, uma luz ao fundo do túnel.

Christophe Guilluy é um geógrafo francês que alertou há dias na Le Point para a percepção comum de abandono que trabalhadores, agricultores e empregados de escritório, que tanto votam à esquerda como à direita, têm dos problemas. O sentimento de abandono puxa-os para a extrema-direita. E neste desafio de os fazer regressar, Macron à esquerda, tal como François Fillon à direita, pode ter um papel fulcral. Esperemos que consiga.

Que significa “se as eleições fossem hoje”?

«Se as eleições fossem hoje». Esta é a habitual introdução das sondagens sobre as preferências políticas dos inquiridos no momento. Nesta última o PS estaria próximo da maioria absoluta.

Porém, considerem o seguinte: uma legislatura tem duração de 4 anos. Ainda só passou 1 ano. Se as eleições fossem hoje algo teria acontecido para Governo de António Costa ter caído em desgraça. Com tal em mente, se as eleições fossem hoje acham que estaria mesmo PS próximo da maioria absoluta?

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Trazer a Tesla Gigafactory para Portugal?

À hora que escrevo este post, o grupo no Facebook “Bring Tesla Gigafactory to Portugal!” já supera os 30 mil membros. No início do mês o Web Summit trouxe a Lisboa milhares de empreendedores e despertou a curiosidade (mediática!) dos portugueses. Ora, num país com tanto socialista, é de louvar o recente entusiasmo pela actividade empresarial.

"Tesla Model S headlight" - Yahya S. @flickr.com (creative commons, edited)
“Tesla Model S headlight” – Yahya S. @flickr.com (creative commons, edited)

No entanto, faço aqui um desafio àqueles que estão a tentar convencer o presidente e fundador da Tesla Motors, Elon Musk, a construir uma fábrica de baterias em Portugal: usem todos argumentos disponíveis mas não peçam ao Estado para beneficiar UMA empresa, o Estado deve tratar TODAS as empresas como iguais. E há cerca de 1 milhão de empresas em terras lusas!

Elon Musk certamente poderá ser mais facilmente convencido pelo Primeiro-Ministro António Costa se este lhe prometer avultados benefícios fiscais. E, politicamente, o secretário-geral do PS até conseguiria “comprar” bastantes votos com tal notícia (criação de postos de trabalho, seria o slogan imediatamente ecoado nos órgãos de comunicação social). Mas e as centenas de milhares de empresários portugueses (e estrangeiros) que todos os dias lutam para criar valor para os seus clientes? Não merecem eles igual tratamento? Quantos postos de trabalho seriam assim criados?

Cheios de gente que desistiu

E se os desiludidos destes novos tempos, em vez de álcool afogarem as mágoas com abacates? O meu artigo no ‘i’.

Cheios de gente que desistiu

If you are under 40 and starting to read this, I politely suggest that you turn the page.” Foi assim que o colunista australiano Bernard Salt iniciou o seu artigo no “Australian”, em Outubro. Nascido em 1956, Salt escreveu sobre os cafés hipster difíceis de frequentar por quem esteja na meia-idade: os assentos são demasiado baixos para quem depois precisa de se levantar, o barulho dificulta a conversa e por aí em diante.

Mas o que mais chocou este baby boomer foi o preço. Cerca de 22 dólares australianos (15 euros) por uma fatia de pão com queijo feta grelhado e pêra-abacate esmagada. Com 60 anos, Salt diz pagar isso na boa. Mas a pergunta sai-lhe na escrita e causou polémica na Austrália: porque é os putos não poupam este dinheiro e compram uma casa? Quinze euros várias vezes por semana dá quanto?

As palavras de Salt causaram indignação, mas batem no ponto. E este artigo interessou-me porque, apesar de duas décadas mais novo que Salt, também não percebo. Quando estava nos 20, poupava. Não lanchava em sítios caros nem tomava o pequeno-almoço na rua. Poupava. Pensava no meu futuro, que na altura não tinha fim e valia a pena pensar nele. Divertia-me sem torrar dinheiro.

E o que vejo quando olho para os novos cafés de Lisboa, pejados de gente a gastar dinheiro que eu tenho mas que prescindo de deixar ali, ponho-me a pensar que talvez a questão seja mesmo essa. Os millennials, a geração do milénio, não gosta do futuro que vê e come abacates para esquecer. Aqueles sítios estão cheios de gente que desistiu.

falsifiability!

A ideia de que as poupanças são necessárias para financiar o investimento é afirmada frequentemente por jornalistas, economistas e políticos e, verdade seja dita, está de acordo com o que é ensinado em quase todos os cursos de economia do mundo e com o que está escrito em quase todos os livros do mesmo tema. No entanto é falsa. A causalidade em questão assenta numa interpretação errada da identidade em Contabilidade Nacional, que diz que o investimento é igual à poupança (…) Como cada activo financeiro é o passivo financeiro de outro agente, no agregado (numa economia fechada ou no mundo inteiro) a posição financeira líquida é nula e, portanto, a melhoria do balanço só pode ser feita pela acumulação de activos não financeiros. Ou seja, no agregado, só podemos poupar activos não financeiros o que significa que o que poupamos é igual ao que investimos, ou melhor, o que poupamos é o que investimos. Como se pode, ver isto não diz nada acerca do financiamento do investimento. Neste aspecto as despesas de investimento não diferem em nada das despesas de consumo.”, Pedro Pratas (economista) no Jornal Económico.

Dizia Karl Popper que a busca de novo conhecimento se faz pela refutação do velho conhecimento. Popper chamou-lhe “falsifiability”. No entanto, não creio que seja o caso do texto citado em cima. Para além de não se perceber o que lá está escrito – pelo remate final do artigo (“ao incentivarmos a poupança podemos obter o efeito contrário do pretendido”), posso apenas presumir que se trata de defender o estímulo ao consumo como motor da economia portuguesa -, o autor parece esquecer-se de um pequeno detalhe (chamemos-lhe um pormaior) nada irrelevante: esquece-se que Portugal exibe uma dívida externa líquida de 100% do PIB.

Católico e liberal

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«Je suis profondément laïque dans ma conception du pouvoir, mais j’ai un engagement religieux, j’ai une foi et je n’accepterai pas que l’État m’empêche de la pratiquer»
François Fillon, Le Point, 23/08/2016.

Caso Fillon seja o candidato da direita às presidenciais francesas muito se falará do seu liberalismo económico e do seu catolicismo. É possível ser-se liberal e católico? A resposta está aí em cima.

O extremismo que nos deveria preocupar

O conselho de Estado francês decidiu proibir a emissão deste vídeo sobre crianças com síndrome de Down na televisão francesa. O motivo? Poderia importunar mulheres que optaram por abortar embriões com esse problema.

Nesta busca incessante por extremismo nos outros, talvez devessemos parar de vez em quando e olhar para dentro. Um em cada sete embriões humanos são abortados em Portugal. Um embrião humano com menos de 10 semanas tem hoje menos direitos de acordo com a lei do que um peixe de aquário. Só em Portugal foram abortadas 15 mil vidas humanas com o patrocínio estatal no ano passado.

Uma autêntica anedota

Portugal é uma autêntica anedota, e nós os palhaços que financiam o circo. Não há outra forma possível de comentar o assunto em infra:

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A violência simpática da esquerda que nos salva da barbárie

O meu texto de hoje no Observador.

‘Apoiar assassinos, ditadores, protoditadores e catalisadores de pobreza generalizada, sendo estes de esquerda, é bom. Visitar um evento na única democracia decente do Próximo Oriente é mau.

Vai daí, um blogue anarquista decide punir o chefe português provocador que ousou associar-se ao extorsionário cubano, perdão, aos guerrilheiros terroristas colombianos, perdão, (muito pior!), aos israelitas. Fizeram muito bem. Pintalgaram-lhe o restaurante de tinta encarnada. É para o chefe aprender. Deixo aqui a justificação do ato:

‘O vermelho que escorre no vidro é o sangue que Avillez avilta com a sua colaboração culinária. A cola que veda a fechadura é a fome provocada que Avillez quer gourmet. As ementas recheadas de realidade são a face visível de que ‘o destino das nações depende da forma como elas se alimentam.’

Eu não percebi nada do que queriam dizer, ofereço um bombom a quem traduzir a algaraviada, mas em boa verdade as sequências de palavras e frases vindas das pessoas de extrema-esquerda costumam gritar falta de lógica formal e conteúdo revelador de um autor com QI aí, no máximo, 79. Pelo que não me espantei. Como de resto considerei a lambuça pretensiosa a armar ao poético refrescantemente consistente com o que esperamos da extrema-esquerda. Gosto sempre que não me desfaçam as desilusões.

E o chefe nem pode argumentar que não estava avisado, que estes anarquistas, perdão, anjinhos, que destroem propriedade privada são leais e avisam atempadamente o mundo das consequências das suas aleivosias. Depois do chefe ter ignorado os avisos feitos na ‘imprensa dos monopólios’ (e quem ousa ignorar avisos de maluquinhos deste calibre?), os criminosos, perdão, os justiceiros decretaram ‘que não nos encheu os olhos, deixando um travo amargo nos nossos estômagos de poetas, que apenas um copo de ação direta – essa forma máxima de poesia – mitigará’. Mais uma vez não se percebe nada, mas dá para rir com o estilo de escrita adolescente. E para nos questionarmos se os ‘estômagos de poetas’ não estarão a necessitar de transplante à conta da ingestão de comprimidos com substâncias alucinogénias.’

O texto completo está aqui.

Como maximizar a imigração ilegal do México para os EUA

Um artigo brilhante de Tyler Cowen: What If Trump Wanted More Illegal Immigration? Wait, He’s On It!

Imagine that a new U.S. president, different from the one we just elected, set out to maximize the number of illegal Mexican immigrants. Maybe he or she saw electoral advantage in this, or maybe just thought it was the right thing to do. But how to achieve that end? Imagine also that I was called into the Oval Office to give advice.

I would start by recommending an enormous new program of fiscal stimulus and construction. Let’s rebuild our roads, bridges and power grids, and put up some new infrastructure as well, including perhaps an unfinished border wall. That will require a lot of labor, and Mexican labor, including that of the illegal variety, is common in the construction business. The financial crisis, and the resulting freeze-up in the housing market, was a major reason why Mexican migration to the United States went into reverse, so a new building program might counteract that trend.

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a virtude violada

“A municipalização da Carris e o recorde na dívida pública dizem-nos muito sobre a última década. A dívida gere-se, não se paga. A economia é comezinha. O primado da política, sempre.”

Destaque do meu artigo de hoje no ECO – Economia Online.