Sobre Carlos Guimarães Pinto

Economista, consultor de gestão e comentador de coisas.

Porque esconde o PS as suas contas? Os erros já encontrados e os grandes riscos ainda escondidos.

O PS orgulha-se de ter sido o único partido a apresentar contas do impacto das suas medidas. Ontem, depois de apresentarem uma revisão ao seu plano com apenas 4 meses, os líderes do PS voltaram a enfatizar que apenas o PS fez os cálculos ao impacto das suas medidas. Seria um bom motivo de orgulho, e um bom exemplo para as outras forças políticas, se provassem que as fizeram realmente. A questão é que até hoje ainda não provaram. Mostraram uns números finais, é verdade, mas os cálculos para chegar a esses números estão ainda por revelar. Em resumo, o PS diz que fez um estudo que não disponibiliza e que, convenientemente, prova que as suas medidas eleitorais vão ter um impacto positivo no país. Suspeito? O Gato Fedorento explica melhor. Até conseguirem provar que fizeram os cálculos, só se pode concluir que não só não fizeram as contas (o que os coloca lado-a-lado com os outros partidos), como mentiram (algo que nenhum dos outros partidos fez).

Esta falha em mostrar os cálculos é ainda mais relevante pelo facto de ser Mário Centeno o coordenador do plano. Mário Centeno não foi chamado pelo PS por ser militante, pescador ou benfiquista. Foi chamado por ser um economista e um académico respeitado. Foi chamado para dar respeitabilidade ciêntífica ao plano. Como académico respeitado tem a obrigação redobrada de fazer com que os seus estudos sejam replicáveis e os dados publicamente disponíveis. Esta transparência é particularmente importante porque, como provou o famoso exemplo de Rogoff-Reinhart, mesmo os melhores académicos cometem lapsos.

Apesar de não darem acesso aos cálculos, ontem já foi possível vislumbrar um erro colossal no plano macroeconómico do PS. Embora eu gostasse muito que os números na caixa vermelha abaixo fossem correctos, a verdade é que estão completamente errados. A carga fiscal é 10 vezes superior ao que o PS mostra no seu plano. Mesmo revelando apenas uma ínfima parte do seu modelo, é possível encontrar um erro desta dimensão (ver abaixo).

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(retirado da página 28 do documento macroeconómico do PS às 9.30 do dia 20 de Agosto)

Mas gralhas de Excel à parte, há uma razão ainda melhor para que o Ps mostre os seus cáclulos: todo o plano macroeconómico do PS assenta no pressuposto de que as medidas terão um impacto positivo no PIB. O cálculo desse impacto no PIB está completamente escondido na folha de cálculo. E se o impacto não acontecer? E se o PS fizer toda aquela despesa pública que promete e o PIB não se mexer. Em baixo, podem ver o que acontecerá se o PS cumprir com o seu plano para a despesa e receita, mas o crescimento prometido (e que não dizem como calcularam) não acontecer:

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Se o crescimento que o PS garante que vai acontecer mas não revela como calculou não se concretizar, o défice continuará sempre acima de 3% e a dívida pública será 8pp superior ao que está no plano. No último ano, o défice será mais do dobro do que o PS tem no seu plano, algo dificilmente aceite pelas entidades europeias.

Finalmente o leitor poderá questionar-se sobre o porquê de eu ter dúvidas sobre a forma como foi calculado o crescimento económico no plano macroeconómico do PS. É simples: apesar de afirmarem que a economia portuguesa está destroçada, o PS promete já daqui a dois anos um nível de crescimento que Portugal não tem há 15 anos.

Por isso, repito aqui o meu apelo a Mário Centeno: se confia realmente nos cálculos que fez, disponibilize-os ao público, como um bom académico e homem de ciência. Mostre que não está apenas a contribuir para que o país afunde novamente daqui a uns anos.

P.S.: Como forma de dar o exemplo, e apesar de isto ser apenas um blog, fica aqui disponível a simples folha de cálculo utilizada para calcular os impactos acima. Cálculos disponíveis para todos verem e criticarem, se acharem conveniente.

Os números do plano macroeconómico do PS são inventados?

A dúvida mantém-se. O Grupo de trabalho do Partido Socialista, liderado por Mário Centeno, continua a não disponibilizar ao público a folha de cálculo do plano macroeconómico. Apesar de se vangloriarem de terem feito as contas, não há nenhuma prova de que o tenham feito: o PS apenas disponibilizou uns números finais sem indicação de como chegaram a eles.

Alguns comentadores apontaram o facto de eu não fazer este apelo a nenhum dos outros partidos. Há um bom motivo para isso. Para começar, é óbvio que os planos económicos do PCP e do Bloco de Esquerda não interessam a ninguém. Os únicos que importam são os da coligação e os do PS. Seria bastante positivo que a coligação disponibilizasse publicamente a folha de cálculo utilizada nas previsões do Documento de Estratégia orçamental. Aliás, eu defendo há algum tempo que mesmo as folhas de cálculo dos orçamentos de Estado deveriam ser disponibilizadas, mesmo que apenas ao nível agregado. Mas há uma diferença importante que faz com que seja muito mais importante que o PS revele as suas contas: o documento de estratégia orçamental do governo foi auditado pela UTAO e pela Comissão Europeia. Já o plano macroeconómico do PS não foi auditado por ninguém. Ninguém fora do PS teve acesso à folha de cálculo do plano macroeconómico, se é que ela existe mesmo. Claramente não faria sentido ter a comissão europeia ou a UTAO a auditar um programa político. Esse é o papel dos eleitores. Mas para que os eleitores possam auditar as contas do PS, é preciso que o PS as disponibilize. Isso continua por fazer.

Até prova em contrário, só podemos concluir que os números finais do plano macroeconómico do PS não foram calculados, mas inventados.

Apelo a Mário Centeno

Mário Centeno afirma hoje no Diário Económico que o Partido Socialista tem um plano com a contabilização detalhada das suas medidas. Para além do facto de que, apenas 3 meses depois de ser apresentado, o plano macroeconómico já estar desactualizado ao ponto de prevêr uma taxa de desemprego em 2016 superior à actual, há um problema com estas declarações: os cálculos do plano macroeconómico nunca foram disponibilizados ao público.

O que o PS apresentou foi apenas uma tabela com resultados finais. O Partido Socialista e a equipa de Mário Centeno nunca disponibilizou a folha de cálculo com as fórmulas para chegar a esses resultados. Tanto quanto sabemos, até podem ter sido inventados. Não se conhecem pressupostos, mecanismos de cálculo ou fórmulas, apenas resultados finais. Mário Centeno fala em “mecanismos de propagação económica”, mas desconhecem-se os pressupostos que ele assumiu para esses mecanismos. Fica aqui então o meu apelo a Mário Centeno e restante equipa: no âmbito das melhores práticas académicas, disponibilize ao público a folha de cálculo do seu plano macroeconómico. Por cada dia que passe sem que essa folha de cálculo seja disponibilizada publicamente, sentir-me-ei mais à vontade para concluir que os números do plano macroeconómico do PS foram inventados.

Transparência: PS planeia criar desemprego

Há dois dias o INE anunciou que a taxa de desemprego tinha baixado para 11,9%. Por curiosidade fui ver o que o Partido Socialista prometia no seu plano macroecómico anunciado há pouco mais de 3 meses. Na página 95 do documento, está o seguinte:

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O PS prometeu uma taxa de desemprego de 13,6% no final deste ano e 12,2% no final de 2016, em ambos os casos acima do valor actual.

Partido Socialista sobre o seu próprio legado

Depois do cartaz reciclado às testemunhas de Jeová, está aí o novo cartaz do Partido Socialista.

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Este cartaz fala do drama de uma senhora que perdeu o emprego em 2010, ano em que o governo do Partido Socialista bateu o record histórico de despesa pública e défice. Não, este cartaz não é satírico. Foi mesmo o Partido Socialista que o fez e o está a espalhar pelas ruas.

Sobre o emprego e emigração

Falei aqui de alguns mitos sobre o desemprego e respectivos sinais de preocupação. Tendo desmistificado a histeria reinante demonstrando que afinal o “verdadeiros números do desemprego” não tinham tido uma evolução assim tão diferente dos números oficiais, houve quem se insurgisse (e ainda bem, este é o sítio certo para isso) contra a não inclusão do impacto da emigração no desemprego.
Compreendo perfeitamente que o façam, afinal a atenção mediática ao tema tem sido grande. Há bons motivos para não o fazer, no entanto. O primeiro dos quais é básico: os emigrantes estão, na sua maioria, empregados. Considerar emigrantes empregados nas estatísticas do desemprego ainda é mais deslocado do que contar, como eu fiz, com os trabalhadores em part-time. Segundo motivo é que os emigrantes são apenas um lado da história. Há também que contar com os imigrantes e os emigrantes que regressam. Se aqueles que saem do país ajudam a baixar a taxa de desemprego (na verdade, só têm um efeito de curtíssimo prazo), então aqueles que entram ou regressam deveriam fazê-lo a subir. Temos que olhar então para o saldo migratório:

saldomigratorio2Entre os que entraram e saíram do país ao longo destes quatro anos, houve um saldo negativo de 128 mil. Valor elevado, mas longe dos 500 mil que alguns falam.

Falemos então no emprego: a economia destruiu emprego nos últimos 4 anos desde a entrada da Troika. Mais precisamente, temos hoje menos 200 mil empregos no país do que em Maio de 2011 quando o país precisou de pedir ajuda internacional:

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No gráfico podem ver a evolução no número de empregados. Destaquei 5 pontos que merecem alguma atenção para compreender exactamente o que se passou com o emprego:

– O ponto 1 corresponde a Janeiro de 2010. Para quem não se lembra, o ano de 2010 foi um ano record na história portuguesa em termos de despesa pública e défice (batendo o anterior record que tinha sido 2009). O que aconteceu ao emprego com essa avalanche de investimento público? Caiu a pique. Entre Janeiro de 2010 e Maio de 2011, o país perdeu cerca de 5781 empregos por mês. Foram 93 mil empregos em 17 meses. Para efeitos de comparação, nesta legislatura perderam-se 4097 empregos por mês.

– O ponto 2 corresponde ao início desta legislatura. Desde o início da legislatura até hoje perderam-se 200 mil empregos. Este ponto é, obviamente, apenas simbólico. Ninguém no seu perfeito juízo esperaria que um país que tem que pedir ajuda financeira internacional não passasse por uma crise. Quem quer que governasse, iria assistir a uma queda no emprego. Mesmo que assim não fosse, o governo tomou posse apenas em Junho de 2011. As primeiras medidas relevantes de corte de despesa aconteceram meses depois e os seus efeitos na economia também só se sentem algum tempo depois. Em terceiro lugar, porque nesses primeiros meses ninguém apresentou uma alternativa ao que estava a ser feito. O PS chegou nuncou chumbou nenhuma medida do governo na AR. Ou seja, qualquer governo não syrizico teria feito o mesmo. Atribuir responsabilidade políticas por acções sobre as quais não existia qualquer opção, faz pouco sentido.

O ponto 3 corresponde a Março de 2012, 9 meses depois do governo tomar posse. Este ponto é importante porque marca o fim de toda a perda líquida de empregos da legislatura. Todos os empregos perdidos a partir deste ponto foram reconquistados mais tarde. Ou seja, toda a perda líquida de empregos nesta legislatura aconteceu nos primeiros 9 meses após a tomada de posse.

– O ponto 4 corresponde ao ponto mais baixo em termos de emprego, 18 meses depois do início da legislatura. Nessa altura, tinham sido perdidos 400 mil empregos. Destes, metade foram reconquistados nos 2 anos e meio que se seguiram.

– A velocidade de recuperação a partir de 2013 foi impressionante, mas houve uma travagem na recuperação, correspondente ao ponto 5. O ponto 5 coincide com o aumento do salário mínimo nacional. O país andava a ganhar 8 mil empregos por mês há 20 meses. Nos 4 meses a seguir ao anúncio do aumento do salário mínimo nacional, o país perdeu 10 mil empregos por mês antes de retomar a trajectória ascendente. Se há um erro a apontar a este governo em termos de política de emprego, é este.

Mitos, falácias e verdades sobre o desemprego

O desemprego tem sido um dos assuntos centrais da campanha eleitoral. Com tanta informação e contra-informação, convém olhar para os números disponíveis, sem filtros. Comecemos então por olhar para a evolução do número oficial de desempregados desde 2011:

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A tendência é clara: houve um aumento do número de desempregados a partir de 2011, mais visível a partir do anúncio do pedido de ajuda à Troika. O desemprego atingiu o seu valor mais alto em Fevereiro de 2013, cerca de 20 meses depois da entrada da Troika. Desde aí caiu de forma quase contínua. Entre Fevereiro de 2013 e Maio de 2015 passou a haver menos 306 mil desempregados. A tendência foi particularmente forte até ao aumento do salário mínimo nacional em Setembro de 2014.

Para efeitos de campanha eleitoral, tem-se comparado os valores de Junho de 2011 com os actuais, para tentar definir as culpas/créditos do actual governo. Apesar do simbolismo, esta comparação é um pouco vazia de sentido. Em primeiro lugar, porque as políticas económicas de um governo demoram alguns meses a ter efeito no desemprego (há excepções como o aumento do salário mínimo nacional, cujo anúncio em si pode ter efeitos imediatos, mesmo antes da implementação). Em segundo lugar porque ninguém com dois dedos de testa esperaria que o desemprego não aumentasse bastante depois de Portugal entrar na situação em que entrou em Maio de 2011. Independentemente da cor partidária do governo, e das políticas escolhidas, o desemprego teria aumentado bastante depois da chamada da Troika. Mesmo assim, por curiosidade, podemos fazer o exercício de olhar para a evolução do desemprego nas 5 últimas legislaturas (Guterres, Durão/Santana, duas de Sócrates e esta).

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Como se pode ver pelo gráfico, esta foi a primeira vez desde 1999 em que o número de desempregados baixou entre o princípio e o fim de uma legislatura. Mais uma vez, estes dados têm um valor apenas simbólico: nem um governo controla totalmente o nível de desemprego, nem as suas políticas têm impacto imediato.

Quando se fala na queda do desemprego, logo aparecem alguns comentadores a falar no desemprego escondido. O primeiro argumento utilizado é o dos desempregados desencorajados, que por não continuarem a procurar emprego, são considerados inactivos e desaparecem das estatísticas do desemprego. Ou seja, pessoas que se cansaram de procurar emprego e por isso não entram nas estatísticas do desemprego. Adicionando estas pessoas ao gráfico, ficamos com o seguinte:

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Depois de acrescentar estas pessoas, o perfil da evolução do desemprego continua semelhante: um grande aumento entre meados de 2011 e início de 2013, seguido de uma forte queda. Utilizando este critério para definir desempregado, a queda no desemprego desde 2013 é ainda maior: menos 309 mil desempregados.

A seguir à questão dos desencorajados, fala-se no subemprego: pessoas que estão empregadas a tempo parcial mas que gostariam de ter emprego a tempo inteiro. Dificilmente se poderá considerar pessoas que trabalham a tempo parcial desempregados, mas para efeitos de análise, podemos acrescentá-los ao gráfico anterior.

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Mais uma vez, a tendência não só não se altera como se assiste a uma queda no “desemprego” ainda maior: menos 310 mil “desempregados” desde Fevereiro de 2013.

Finalmente, há um argumento que faz mais sentido de todos: muitos desempregados não contam como tal porque estão ocupados em programas de emprego e formação profissional. Ou seja, o estado paga a estes desempregados para estarem ocupados. O número de desempregados ocupados foi uma das marcas desta legislatura. Quando adicionamos, estes “ocupados” aos números do desemprego, temos o seguinte:

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Continua sem haver uma mudança na tendência. No entanto, a queda no número de desempregados desde Fevereiro de 2013 passa de 310 para 237. Mesmo assim é uma queda substancial: nunca houve uma queda tão acentuada no número de desempregados em Portugal desde 1974 (também nunca o ponto de partida foi tão alto).

A única verdadeira preocupação é que, ao contrário do que foi prometido, o número de assalariados do estado aumentou durante a legislatura. A redução que ocorreu no número de funcionários públicos foi mais do que compensada pelo aumento de desempregados ocupados pelo estado (é verdade que com um nível salarial mais baixo, mas mesmo assim dependentes do estado).

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Como o PS não hesita em criticar estes “empregos” e o PSD/PP realçam a importância do sector privado no emprego este será, certamente, um assunto para resolver na próxima legislatura, ganhe quem ganhar.

O interrail dos refugiados

Quem visitar Budapeste estes dias verá um cenário inesperado. As estações de caminho de ferro transformaram-se em centros de campismo. Centenas de refugiados, maioritariamente homens entre os 15 e os 30 anos, mas também algumas mulheres na mesma faixa etária e crianças, ocupam todos os cantos das duas principais estações de Budapeste: Keleti (Este, em húngaro) e Nyugati (Oeste). São maioritariamente oriundos da Síria, Iraque e Kosovo. A ocupação é absolutamente pacífica. Todos querem chegar à Europa ocidental para trabalhar. Nenhum se arrisca a ficar preso na Hungria. À hora certa, fazem filas ordeiras para receber água e a refeição dos voluntários.

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Refugiados na estação de Keleti (Associated Press)

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Refugiados esperam por comida e água (Associated Press)

A maioria passou os últimos dias num acampamento temporário em Szeged, junto à fronteira com a Sérvia. Apesar de ser o principal ponto de entrada para imigrantes clandestinos, Szeged não tem nenhum centro de refugiados, apenas um centro de recepção. Os imigrantes são recebidos ali e encaminhados para a estação de comboio, onde podem seguir caminho para Györ, via Budapeste. Györ fica no lado oposto do país, convenientemente localizado perto da fronteira com a Áustria. Os imigrantes recebem o seu bilhete gratuito para Györ, mas muitos não chegam ao centro de refugiados ou passam l]a pouco tempo. Continuam o percurso, às vezes no mesmo comboio, até à fronteira com a Áustria. O papel da Hungria no jogo do empurra fica assim completo.

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Na imagem marcado a vermelho o ponto de chegada, szeged, e a azul a localização do centro de refugiados, Györ, para onde a Hungria envia os refugiados

Mas esta é apenas a última etapa antes de chegar à Europa Ocidental. Para os imigrantes oriundos da Síria e Iraque, a viagem começou muito antes com a travessia da fronteira para a Turquia. Da fronteira sul, dirigem-se a ocidente. A rota habitual consistia em atravessar a fronteira terrestre da Turquia para a Bulgaria. Com o influxo de imigrantes, a Bulgaria construiu um muro na sua fronteira. Desenhou-se então uma rota alternativa, via Grécia. Da Turquia à ilha grega de Lesbos são apenas alguns quilómetros de barco. Tal como na Hungria, também as autoridades gregas fecham os olhos aos imigrantes que saem dos campos de refugiados em Lesbos em direcção a Atenas e daí partem para a Macedónia. A fronteira entre a Grécia e a Macedónia é porosa. As autoridades da Macedónia também não barram o caminho aos imigrantes que se dirigem à fronteira norte com a Sérvia.

Um grupo de imigrantes caminha ao lado de uma linha de caminho de ferro na Macedónia (Fonte: AFP)

Na Sérvia, os imigrantes fazem um pedido de asilo. Com este pedido de asilo recebem uma autorização de permanência temporária e um horário dos comboios. Nenhum espera pela resposta ao seu pedido de asilo. Preferem a viagem de comboio que os leva a Subotica, na fronteira com a Hungria. Os revisores não insistem que eles paguem o bilhete, nem os expulsam do comboio. Pelo caminho, juntam-se aos refugiados oriundos do Kosovo.

Entre Subotica e a fronteira com a Hungria são apenas alguns quilómetros a pé. Alguns têm sorte e conseguem boleia até à fronteira de habitantes locais. É uma zona rural, com bastantes tractores e pouca polícia. Os locais ajudam tanto por caridade como pela vontade de ver os imigrantes sair dali rapidamente. As autoridades sérvias não intervêm.

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Grupo de imigrantes kosovares faz o percurso entre Subotica e a fronteira com a Hungria

Na fronteira, basta encontrar um ponto sem polícias húngaros. Na Hungria dizem que alguns guardas do lado sérvio dão indicações aos imigrantes sobre onde atravessar e a que horas. A fronteira é porosa. Desde a guerra civil na Jugoslávia que todos sabem os pontos onde é mais fácil passar.

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Na imagem, imigrantes atravessam a fronteira entre a Sérvia e a Hungria, num dos vários pontos onde é possível fazê-lo facilmente

Os húngaros planeiam construir um muro para travar o fluxo de imigrantes ilegais, tal como já existe na Bulgária, em Espanha (nos enclaves de Ceuta e Melilla) e na fronteira dos países bálticos com a Bielorrússia. Um país temr o direito de defender as suas fronteiras como entender. Qualquer paralelo entre este muro e o muro de Berlim não faz sentido: um será feito para defender as fronteiras do país, o outro foi feito para aprisionar os seus habitantes. Dois objectivos moral e politicamente diferentes. Mas, apesar da construção desse muro poder resolver o problema da Hungria, os imigrantes certamente encontrarão outras rotas, potencialmente mais perigosas.

Há cerca de dois anos em visita a Tripoli, falei com alguns locais. Um deles contou-me a forma como à noite, junto ao porto onde os imigrantes africanos se juntam, os traficantes convencem-nos de que a luz de uma plataforma petrolífera que avistam no mar é Lampedusa (ilha italiana). O barco não precisa de ser muito grande, dizem, a Europa é já ali.

Migrants are seen in a boat during a rescue operation by Italian navy ship San Marco off the coast to the south of the Italian island of Sicily in this February 5, 2014 picture provided by the Italian Marina Militare. The Italian navy began the emergency sea rescue on Wednesday of an estimated 1,000 migrants from boats close to the island of Lampedusa, the site of a tragic shipwreck that killed hundreds five months ago, in the operation called Mare Nostrum.   REUTERS/Marina Militare/Handout via Reuters (ITALY - Tags: SOCIETY IMMIGRATION MARITIME) ATTENTION EDITORS - THIS IMAGE WAS PROVIDED BY A THIRD PARTY. FOR EDITORIAL USE ONLY. NOT FOR SALE FOR MARKETING OR ADVERTISING CAMPAIGNS. THIS PICTURE IS DISTRIBUTED EXACTLY AS RECEIVED BY REUTERS, AS A SERVICE TO CLIENTS

Barco com refugiados em direcção a Lampedusa (Fonte: Reuters)

O resultado da alternativa socialista à austeridade

VaroufakisTsiprasNo princípio de 2015 a Grécia estava numa situação difícil, com elevado desemprego e um PIB que (apesar de ser mais alto per capita do que o português e grande parte dos países da UE) tinha caído bastante nos últimos anos. Mas a Grécia estava de novo no caminho da sustentabilidade, sem défice primário nem défice externo, ou seja, a economia crescia sem colocar em causa o crescimento futuro como tinha acontecido nos anos pré-crise. Com a manutenção das medidas de austeridade, as previsões apontavam para um crescimento da economia em 2015 entre 2,5% e 2,8%%. Depois chegou o Syriza, comprometido a acabar com a austeridade da troika. Seis meses depois, as previsões de crescimento foram revistas: -3,3%. No final do ano, a economia grega (portanto, a capacidade da Grécia para pagar pensões, salários e dívida) será 6% inferior ao que seria se tivesse continuado as reformas de anos anteriores. Está aí o resultado da alternativa à austeridade da troika: uma austeridade socialista, ainda maior e mais empobrecedora.

O legado do PS segundo… o PS

António Costa e alguns apoiantes do Partido Socialista têm falado muito no legado deste governo na economia. Segundo eles, a queda do investimento público irá ter consequências graves na capacidade de crescimento futuro da economia. Para testar essa hipótese, olhemos para as previsões de crescimento económico realizados no princípio de 2011 (depois de anos de forte investimento público dos governos de Sócrates) e as previsões realizadas no princípio de 2015 (após anos de contração no investimento público pelo governo de Passos Coelho). Os valores em 0 correspondem ao crescimento previsto do ano em que é feita a previsão (2011 ou 2015) e os anos 1, 2, 3 aos anos seguintes.

Legado

Como se pode ver no gráfico, as projecções de crescimento económico futuro são hoje bastante superiores ao que eram há 4 anos quando o PS deixou o governo. Mas o mais interessante é que estas projecções têm exactamente o mesmo autor. O governo? O PSD? A Troika? Não, estas são as projecções feitas pelo próprio Partido Socialista em 2011 (no PEC IV) e em 2015 (no seu plano macroeconómico). É o próprio PS a admitir que o seu legado foi muitas vezes pior que o deste governo.

Grande Passatempo Insurgente – Legislativas 2015: 1ª fase

Com novas eleições, chega um novo Grandioso Passatempo Insurgente. Este ano o concurso será em duas fases: uma decorrerá até ao fim de Julho para tentar perceber qual dos leitores tem maior capacidade de previsão a longo prazo e outra na semana anterior às eleições.

Como não podia deixar de ser, o vencedor de cada fase levará um grandioso prémio: uma cópia do livro “O Economista Insurgente”.

Tudo o que tem que fazer é deixar na caixa de comentários deste post a sua previsão dos resultados eleitorais com os 5 maiores partidos. O vencedor será aquele que ficar mais perto do resultado final (menor soma da diferença entre a previsão e os resultados finais de cada partido). Em caso de desempate, ganhará quem adivinhar o 5º partido mais votado. O segundo critério de desempate será a pessoa que colocou o comentário mais cedo. Fica aqui a minha previsão:

PS: 37%
PaF: 37%
CDU: 10%
BE: 6%
5º partido: 3% (PDR)

A censura está de volta

Regressamos aos tempos do Estado Novo: Augusto Santos Silva está a ser vítima de censura. Podem saber mais detalhes sobre esta vergonhosa censura na Visão, no Observador, no Público, no Expresso, no Jornal de Notícias, e no Diário Económico.

Entretanto, Augusto Santos Silva foi substituído na TVI24 por Fernando Medina, braço direito de António Costa. Compreendo as queixas de Augusto Santos Silva: é bem mais fácil dizer que está ser vítima de censura (por rídiculo que seja) do que aceitar algo que parece evidente: alguém no PS prefere que seja Fernando Medina a representar o partido na TVI24.

7/11, o dia mais negro da história pós-guerra do Ocidente

Nos séculos XII e XIV, o Kosovo era o centro da vida política e cultural do Império Sérvio. Ainda hoje existem monumentos a lembrar essa período de domínio eslavo. Já no séc. XIV, o avanço das tropas Otomanas fez com que muitos Sérvios da Bósnia, torturados pela fome, optassem por aderir ao Islão e juntar-se ao exército Otomano, onde lhes era garantido um salário e alimentação. Com o apoio desses recrutas, o exército Turco derrotou a coligação Sérvia, Albanesa e Bósnia liderada pelo Tsar Lazar Hrebeljanović em 1389 na batalha do Kosovo. O Tsar morreu em combate, e como resultado da derrota, a sua filha foi oferecida em casamento ao Sultão Otomano, e partes da Sérvia passaram a prestar vassalagem aos Turcos. Este acontecimento ainda hoje é relembrado como a mais dolorosa e humilhante derrota da Sérvia. O simbolismo do seu nome, o mesmo que a personagem bíblica que foi ressuscitada por Jesus Cristo, fez com que muitos Sérvios esperassem durante séculos regresso do Tsar Lazar Hrebeljanović dos mortos para reconquistar o Kosovo. Em vão: o Kosovo haveria de ser reconquistado aos turcos apenas no século XX.
Desde essa altura, e apesar das curvas da história, jamais os Sérvios perdoaram àqueles que, entre eles, tinham traido o seu próprio povo: os Bósnios muçulmanos. Foi contra eles que se vingaram no massacre de Srebrenica. Neste dia em que os soldados holandesas entregaram voluntariamente milhares de muçulmanos bósnios nas mãos de quem tinha prometido vingança, o Ocidente escreveu uma das suas mais negras histórias de covardia e submissão.

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Dutch Graffiti in Srebrenica - Dutchbat Cowards Bosnian Girl
(imagens de grafitis de soldados holandeses no campo de refugiados de Srebrenica, exibidos no museu do massacre de Srebrenica em Sarajevo)

O massacre ocorreu por volta do 120º aniversário do levantamento de Herzegovina, que haveria de resultar na conquista de territórios dos cristão sérvios ao Império Otomano.

O povo existe como entidade, e tem memória. No caso dos Balcãs, as permanentes guerras não deixaram a memória descansas. Desta vez, a Sérvia entregou Mladic à justiça, assumindo a culpa. Que este tenha sido o gesto que acabe com o ciclo sangrento nos Balcãs.

Recordar é viver: Plano de Salónica

Medidas prometidas no chamado plano de Salónica (retirado do site do Syriza, 18 de Dezembro de 2014):

Aumento imediato do investimento público em, pelo menos, 4 mil milhões de euros
Inverter todas as injustiças do (segundo) memorando
Restaurar gradualmente salários e pensões de forma a aumentar consumo e procura
Dar incentivos ao emprego a pequenas e médias empresas, subsidiando os custos de energia em troca de emprego e cláusulas ambientais
Investir em conhecimento, investigação e novas tecnologias para formar jovens cientistas, que têm emigrado em massa nos últimos anos
Reconstruir o estado social, restaurar o estado de direito e criar um estado meritocrático

PS, um partido cada vez mais extremista

O líder do “Partido Socialista Holandês” pediu hoje a demissão do líder do Eurogrupo. Porfírio Silva, membro do Conselho Nacional e porta-voz do PS, elogiou a atitude na sua página do Facebook, dizendo que “nem todos os socialistas são iguais”.
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Um pequeno detalhe: o chamado “Partido Socialista Holandês” faz parte do mesmo grupo político europeu do Syriza e do Bloco de Esquerda. São extremistas de esquerda, de tendências anti-europeias. Já o líder do Eurogrupo faz parte da família europeia do PS, uma esquerda moderada e europeísta. Mas entre a esquerda moderada da sua família política e o extremismo Syrizico holandês, o porta-voz do PS escolheu o lado dos extremistas. Não foi o único elemento do PS a fazê-lo hoje. Nem esta foi a primeira vez que o fizeram.

Tratado à covardia

varoufakis_fingerVaroufakis demitiu-se. Tinha prometido que se demitiria se o Sim ganhasse. Provavelmente esperou que fosse esse o resultado que lhe proporcionaria uma fuga fácil ao caos em que deixou a Grécia. Contra as expectativas de há uns dias atrás, o Não ganhou, mas Varoufakis demitiu-se na mesma. Demitiu-se apesar de ter prometido que iria buscar um acordo o mais rapidamente possível se o Não ganhasse. Em vez disso, decidiu sair, deixando o seu país em situação de default, com bancos perto da insolvência e a um passo de sair da Zona Euro. Um terrível currículo para um ministro das finanças. Apesar disso, a retórica inflamada, a imagem de rebelde e o facto de nunca ter implementado nada difícil (ou seja, o facto de ser um covarde político) ainda fará com que muitos (principalmente à esquerda) o vejam como um herói.
Está lançado mais um culto de personalidade à esquerda. Passará o resto da vida a ser bem pago para ir a conferências e a escrever best-sellers. O seu objectivo pessoal foi atingido. Quem vier atrás que feche a porta.

Todos Socialistas

“O referendo é sobre a questão de se saber se a Grécia permanece na zona do euro ou não”, Dijsselbloem, líder do Eurogrupo

“A Grécia deve introduzir uma nova moeda se o “Não” ganhar”, Martin Schulz, Presidente do parlamento Europeu

“A Grécia destruiu as últimas pontes de um compromisso”, Sigmar Gabriel, Ministro da Economia Alemão

O que há em comum entre estas 3 declarações de hoje (as mais duras de qualquer representante europeu)? São todos parte do Partido Socialista Europeu.

O que aconteceria se saíssemos do Euro?

No livro que escrevi com o Miguel Botelho Moniz e o Ricardo Gonçalves Francisco, vinha esta questão. Convém relembrar a resposta e perceber como metade do caminho já foi percorrido na Grécia.
O Economista Insurgente

A saída do Euro, que no início da crise era vista como impensável, começa a ser amplamente discutida. Infelizmente, a maioria das pessoas não entende bem as consequências dessa saída. Em termos gerais, convém esclarecer que a situação de Portugal após a saída da união monetária não seria a mesma do que se nunca tivesse entrado. A metáfora mais indicada aqui é a de um jogador de futebol que entra para um grande clube cedo na carreira, passa alguns anos sem jogar e depois regressa a um clube médio para ter grandes oportunidades. A situação desse jogador não é a mesma que teria se tivesse jogado sempre em clubes médios: Entretanto ele passou anos sem jogar, perdeu ritmo e ganhou reputação de ser um fracasso em clubes grandes. O mesmo se passaria com Portugal: A saída de Portugal da Zona Euro nas atuais circunstâncias daria um golpe fatal na sua credibilidade internacional e iria para sempre marcar a forma como investidores e credores veriam o país. A questão é saber se, apesar destes problemas, a saída do euro resolveria algum dos problemas presentes.

Comecemos pelo que aconteceria no caso de uma saída do Euro. Em primeiro lugar, convém notar que uma saída nunca seria referendada ou sequer discutida em avanço. Os líderes políticos teriam que negar essa possibilidade até ao fim. No momento em que fosse sequer discutida, pessoas e empresas começariam imediatamente a levantar os seus depósitos e colocá-los fora do país, levando a uma espiral de problemas financeiros e bancários que forçariam a saída do Euro e agravariam as suas consequências. A decisão de saída teria de vir de surpresa, muito provavelmente numa sexta-feira à noite. O Banco Central ordenaria a conversão imediata de todos os depósitos bancários sediados em Portugal de euros para a nova moeda que fosse criada. O pagamento de salários e todos os contratos comerciais vigentes também seriam convertidos para a nova moeda. A dívida pública emitida ao abrigo da legislação portuguesa também seria convertida para a nova moeda. Enquanto o processo decorreria, os levantamentos bancários seriam suspensos. Se o fim-de-semana não fosse suficiente para acabar o processo de troca de moeda, os bancos manter-se-iam fechados mais uns dias. Para evitar a fuga de euros para fora do país, também as transferências bancárias seriam proibidas. Quando os bancos reabrissem, já os depósitos estariam redenominados na nova moeda e todos os levantamentos em numerário seriam realizados nessa moeda. A taxa de câmbio da nova moeda em relação ao euro cairia 20-30% no primeiro dia em relação à taxa utilizada na conversão de depósitos. Ou seja, efetivamente os salários, apesar de não caírem na nova moeda, iriam cair 20-30% quando contados em euros.

No que toca à dívida pública, a situação seria mais complicada: O governo poderia manter as suas obrigações em euros, ou seja, perante a desvalorização da moeda, a dívida pública ficaria ainda mais difícil de pagar ou, alternativamente, converter a dívida para a nova moeda, o que os credores veriam como um incumprimento (default). Este default faria com que o Estado português deixasse de ter acesso aos mercados internacionais. No entanto, o facto de agora poder pagar na nova moeda e, portanto, ser mais fácil reequilibrar as contas públicas, provavelmente faria com que o governo optasse pela segunda opção. Nos primeiros meses seria também provável que viessem a faltar alguns produtos importados nas lojas. Como as empresas importadores teriam as suas contas também convertidas para a nova moeda, mas precisam de euros para comprar bens ao estrangeiro, teriam algum problema em repor os stocks. Mesmo que os produtos chegassem sem problemas, eles seriam bastante mais caros. O preço de tudo o que é importado (incluindo combustíveis, telemóveis, computadores, alimentos, etc.) subiria em flecha na nova moeda. A austeridade como a conhecemos hoje acabaria: Provavelmente o governo anunciaria um aumento de salários e pensões cujo efeito seria rapidamente eliminado pelo aumento dos preços da maioria dos bens. Teríamos antes uma austeridade disfarçada, onde o rendimento nominal parecia crescer, mas o empobrecimento resultante da diminuição do poder de compra se sentiria sem disfarce.

Seria perfeitamente possível que o país se recompusesse ao fim de alguns anos; talvez adquirindo a maturidade política e económica necessária para reentrar na Zona Euro, desta vez sem os mesmos problemas. Mas, que não se iludam aqueles que acham que seria uma solução fácil: O nível de empobrecimento e atraso económico causado seria bastante superior e mais rápido do que qualquer programa de austeridade.

Incoerente, eu?

15/05/2014: “A minha cor favorita é o vermelho”
12/08/2014: “A minha cor favorita é o azul”
23/12/2014: “A minha cor favorita é o vermelho”
05/01/2015: “A minha cor favorita é o vermelho”
24/05/2015: “A minha cor favorita é o azul”
29/05/2015: “A minha cor favorita é o vermelho e o azul”
10/06/2015: “A minha cor favorita é o azul”

Incoerente, eu? Nada podia ser mais errado. Nas minhas intervenções tenho tido uma linha clara e coerente sobre a minha preferência de cores:
12/08/2014: “A minha cor favorita é o azul”
24/05/2015: “A minha cor favorita é o azul”
29/05/2015: “A minha cor favorita é (…) o azul”
10/06/2015: “A minha cor favorita é o azul”

Texto parvo? Talvez. Mas não tanto como este.

10 anos de folia grega. E agora, quem paga?

A situação da Grécia resume-se muito bem neste gráfico com a evolução do seu PIB no longo prazo:

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A Grécia crescia de forma relativamente lenta até entrar no Euro. Após entrar no Euro, acumulou dívida pública e externa e a qualidade de vida dos cidadãos deu um grande salto. Em termos práticos, isto significa que, durante 10 anos, houve pessoas que tiveram salários mais elevados, pessoas que ganharam dinheiro sem trabalhar, pessoas que enriqueceram injustificadamente, que tiveram mais tempo para passar com a família e os amigos, que compraram carros e casas maiores e foram de férias mais vezes. Alguns pobres passaram a classe média e membros da classe média passaram a ter vidas mais abastadas. Conseguiram isto graças à acumulação de dívida dos governos PASOK e Nova Democracia, com a conivência dos líderes europeus do Partido Socialista e Nova Democracia, e com o financiamento de alguns investidores (bancos, fundos de pensões, etc). Como sempre acontece nestes casos, a situação tornou-se impossível de manter. Não só aquele salto na qualidade de vida não foi possível de manter, como alguém terá que pagar por aqueles 10 anos de folia. Quem deverá pagar?

1. Os gregos
Esta é, sem dúvida, a resposta que primeiro vem à cabeça. Tendo sido os gregos os principais beneficiados da dívida, é apenas justo que sejam eles a pagar. Apesar se ser o mais justo, há algo a ter em conta: tendo sido gregos a beneficiar, não é certo que sejam os mesmos indivíduos que beneficiaram do aumento de dívida pública a pagar por ela agora. Alguns dos que beneficiaram, entretanto protegeram-se do risco de pagar por esse benefício passado: emigraram ou colocaram os seus investimentos fora do país. Outros, por exemplo os mais jovens, irão pagar sem terem tirado grande benefício, porque não eram nascidos ou não tinham idade para aproveitar esse benefício.

2. Os investidores (quem emprestou o dinheiro à Grécia)
Um investimento tem sempre risco. Quem emprestou à Grécia não o fez de forma gratuita. Esperava obter retorno desse investimento. Investiu na expectativa de que a economia grega cresceria com ajuda dessa dívida o suficiente para pagar a dívida e ainda garantir juros. Se tivesse sido um bom investimento, certamente teriam beneficiado com isso. Foi um mau investimento. É justo que paguem o preço de terem feito um mau investimento. É também bom que paguem como forma de lição para o futuro, para que não voltem a emprestar dinheiro nestas condições. Alguns já pagaram, sob a forma de perdão de dívida, mas neste momento já são poucos os investidores privados com algo a perder.

3. Os contribuintes europeus
É difícil justificar que sejam outros cidadãos europeus, com níveis de rendimento em muitos casos inferior, a pagar pelos 10 anos de folia grega. Salvo raríssimas excepções, nenhum contribuinte europeu beneficiou da dívida grega. A maioria nunca investiu voluntariamente um euro na Grécia, nem beneficiaria directamente se a economia grega tivesse dado um salto em frente. É por isso complicado justificar que sejam os contribuintes europeus a pagar, embora pareça ser esse o consenso mediático. Existiria apenas um benefício de serem os contribuintes europeus a pagar: criar um eleitorado mais eurocéptico e líderes europeus que no futuro sejam menos coniventes com folias de dívida, gregas ou outras.

No final, serão certamente os 3 a pagar pelos 10 anos de Folia. A justiça ou injustiça estará na repartição dos sacrifícios. Infelizmente, parece-me que, de forma a poupar o primeiro e o segundo grupos, o terceiro arcará com a maior fatia.

Mais uma histeria syrizica desmentida

Começa a ser complicado acompanhar todos os mitos e histerias que vão sendo espalhados nesta história da Grécia. Ontem foi o de que Portugal tinha feito a vida negra à Grécia nas negociações. Este rumor surgiu quando o ministro das finanças francês afirmou que as maiores objecções a um acordo com a Grécia vinham de um grupo de pequenos países. Hoje, veio o desmentido (que nem seria necessário se tivessem prestado atenção às palavras dele):

Portugal não integra, assim, o grupo dos pequenos países a que se referiu ontem o ministro das Finanças francês, quando afirmou à RTL que “os mais duros não são os alemães, mas os pequenos países que fizeram significativos esforços”. Michel Sapin citou mesmo os casos da Eslovénia e da Eslováquia, mas o PÚBLICO sabe que nestes mais radicais incluem-se outros países bálticos, em especial a Letónia. Por dois grandes motivos: a proximidade do governo grego a Putin deixa aqueles países “com os cabelos em pé”, mas também porque não compreendem por que razão países que têm um Produto Interno Bruto maior que o seu – e provavelmente um melhor nível de vida – têm de ser ajudados.

Recordando histerias passadas

Lembram-se de há uns dias a imprensa ter noticiado que a Grécia queria baixar o orçamento da defesa em 400 milhões de euros e o FMI recusou? Lembram-se de ter usado este exemplo para demonstrar a cegueira ideológica do FMI?

Poucos dias depois, a Troika apresentou um novo plano à Grécia em que pedia os tais 400 milhões de euros de cortes na Defesa. A Grécia rejeitou e propos 200 milhões. Entretanto, os bancos fecharam, o país está à beira do colapso e, segundo a imprensa, Tsipras começou a ceder, pedindo apenas algumas alterações ao plano proposto pela Troika. Um desses pedidos? Que o corte na defesa seja mais baixo em 2016 do que o pedido pela Troika.

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Nota adicional: Fonte do governo grego veio a público recusar qualquer corte no orçamento da defesa, ao contrário do que Tsipras diz na carta à Troika.

Grécia: revisão da matéria dada – O resgate e o ajustamento

Escrevi ontem aqui sobre os anos anteriores à crise da dívida soberana na Europa. Nos 7 anos anteriores à crise, a economia grega tinha crescido bastante acima dos seus pares europeus graças a uma injecção brutal de dívida. Chegados a 2007, uma boa parte da economia grega estava dependente da capacidade do governo continuar a acumular dívida indefinidamente. Mesmo sem a crise de 2008, este acumular de dívida algum dia teria que parar. Algum dia a economia teria que ajustar, e a parte da economia que sobrevivia apenas à custa da dívida pública teria que desaparecer. Esse momento foi despoletado com a crise de 2008.

O lento resgate

Muitos comentadores, mesmo alguns mais moderados, afirmam que o nível de austeridade imposto à Grécia foi demasiado severo e rápido. Se a austeridade fosse mais suave a aplicada lentamente, afirmam os comentadores, teria tido um efeito menos devastador e o país teria recuperado mais rápido. Mas será mesmo assim? Para testarmos esta hipótese, poderemos olhar para o que aconteceu em 4 outros países que atravessaram uma crise semelhante, mas fora do Euro: os 3 países bálticos e a Islândia. Em baixo, podemos ver a evolução do consumo das famílias (um bom indicador do padrão de vida) nos 5 países.

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Como podemos ver no gráfico, todos os países ajustaram brutalmente logo em 2009. Enquanto o consumo na Grécia caía um pouco mais de 1% em 2009, na Islândia caiu 10% e nos países Bálticos mais de 15%. Mesmo nos anos seguintes, nunca a Grécia teve um ano de ajustamento tão forte. O máximo que o consumo caíria num ano seria 11% em 2011. Terá isto causado danos irreversíveis nas economias dos países bálticos e na Islândia? O gráfico demonstra o contrário: depois de terem sofrido um nível de austeridade mais forte e rápido, estes países recuperaram rapidamente. Um ajustamento rápido e violento permitiu que a economia eliminasse a distorção acumulada sem levar a economia saudável atrás. Já a Grécia demoraria 5 anos a voltar a crescer. O problema do ajustamento lento versus “front-loading” é sentido particularmente na questão do desemprego. No gráfico em baixo, pode-se ver a evolução da taxa de desemprego nos anos de crise.

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A Grécia, poupada a uma austeridade tão brutal como a da Islândia e países bálticos não teve um aumento tão rápido do desemprego no início da crise. O resultado disso foi um crescimento constante do desemprego durante 5 anos. Quem perdeu o emprego nos primeiros dois anos tem grandes probabilidades de estar ainda desempregado 3 anos depois. Quando os trabalhadores ficam desempregados por mais de 3-4 anos, não perdem apenas o emprego, perdem a profissão. Não é grave que uma economia tenha temporariamente taxas de desemprego de 25%-30%, se puder rapidamente baixá-las para 10%. É bem mais grave para os indivíduos afectados pelo desemprego que uma economia tenha de forma permanente taxas de desemprego nos 15-20%. Uma economia com taxas de desemprego altas e estáveis condena os seus desempregados à incapacidade profissional.

O problema da Troika não foi ter imposto demasiada austeridade, mas sim não ter imposto uma austeridade mais violenta logo no início do ajustamento, que resolvesse o problema da economia mais rapidamente, de uma vez por todas, e que permitisse que o crescimento viesse mais cedo.

O ajustamento

O ajustamento demorou, mas em 2014 tinha sido atingido em boa parte. Depois de 5 longos anos de recessão, a Grécia começou a crescer de forma ténue. Com boa parte do ajustamento já feito, o crescimento da economia saudável já permitia compensar o pouco ajustamento que ainda havia a fazer. Foi isso que aconteceu em 2014 quando a Grécia apresentou um ténue crescimento económico. Apesar de ténue, este crescimento era sustentável. Ao contrário da fase de crescimento entre 2001-07, este crescimento era feito sem aumentar défices públicos e acumular dívida externa.

Mas afinal, onde é que o ajustamento levou a Grécia? O gráfico abaixo, com a evolução do PIB grego em democracia, ajuda-nos a ter alguma perspectiva sobre a evolução da economia grega:

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A austeridade trouxe a economia grega de volta ao ponto onde estaria se tivesse seguido a sua tendência de crescimento de longo prazo. O ponto onde estaria uma economia com grandes deficiências estruturais (como admitem economistas de esquerda e de direita) se nunca tivesse tido acesso fácil à dívida.

Foi com a economia a crescer, sem défices primário e externo, e com boa parte do ajustamento já feito que o Syriza assumiu o poder. Veremos o que faz com ele.

Grécia: revisão da matéria dada – Onde tudo começou

A Grécia entrou no Euro em 2001. Desde essa altura, teve um crescimento imparável. Enquanto os outros países, incluindo Portugal, atravessavam o que veio a ser chamado de a década perdida, a Grécia viu o PIB crescer 32% em 7 anos. No mesmo período o PIB português cresceu menos de 9% e o alemão pouco mais de 11%.

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Este crescimento do PIB foi acompanhado também pelo crescimento dos salários. Entre 2000 e 2007, a massa salarial na economia cresceu uns fantásticos 75%, quase o triplo de Portugal e 10 vezes mais do que na Alemanha.

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Assim, os gregos puderam consumir muito mais. Nestes 7 anos, o consumo cresceu 33%, enquanto o alemão estagnou e o português cresceu quase um terço.

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Como foi isto possível? Não houve nenhuma revolução tecnológica na Grécia, nenhum fluxo de investimento internacional e não foram descobertos recursos naturais no Mediterrâneo. Isto foi conseguido graças a um extraordinário aumento do endividamento público, em boa parte escondido. Foi uma espécie de Portugal Socrático com esteróides (no gráfico abaixo podem ver apenas a despesa pública oficial, excluindo a que foi escondida).
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Chegamos a 2008, os gregos tinham aumentado os seus padrões de vida como nunca antes tinha acontecido. Mas esse padrão de vida só foi atingido graças a uma enorme distorção da sua economia. Tinham um padrão de vida que só era sustentável graças a permanentes fluxos de dívida. Uma boa parte da sua economia dependia de um nível de despesa pública que o estado só conseguia atingir endividando-se brutalmente. Quando o estado deixasse de se poder endividar, toda aquela parte da economia se desmoronaria.
Foi o que aconteceu em 2008-2009…

(Fonte dos gráficos: Eurostat)

Segunda parte: Grécia: revisão da matéria dada – O resgate e o ajustamento

PS: da voz forte à voz fininha em poucos meses

“Dois temas do discurso de encerramento do XX Congresso Nacional do PS que serviram a António Costa para (…) salientar a diferença entre a necessidade de uma «voz forte» na Europa em defesa dos interesses nacionais e a linha seguida pelo atual executivo em Bruxelas de alegada subordinação externa.”, 30 de Novembro de 2014

“Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha” , 26 de Janeiro de 2015

“O líder da Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL) criticou também o governo grego e o partido no poder, o Syriza, que “erraram ao terem uma opção estratégica de confrontação com as instituições europeias”, 29 de Junho de 2015

O grande conluio

Há escassas semanas, a generalidade dos comentadores elogiava a coragem do Syriza em bater o pé à Europa. Dizia-se que com esta atitude, o Syriza iria conquistar cedências que nenhum outro país tinha conseguido. Essas cedências seriam então a prova definitiva de que existia uma alternativa à austeridade, ou seja, que existia uma alternativa a países sem dinheiro terem que gastar menos.
A teoria foi quebrada há dias atrás pelo próprio Tsipras, quando disse que as Instituições lhe ofereciam menos flexibilidade do que tinham feito a outros países como a Irlanda e Portugal.
Destruida a narrativa, criou-se outra ainda mais incrível: a de que tudo isto foi uma estratégia para derrubar o governo do Syriza. A estratégia negocial do Syriza não estava a levar a lado nenhum porque as instituições queriam derrubar o governo. As várias propostas de acordo tinham sido só a fingir. Claro que esta nova narrativa contraria fortemente a anterior. Mais a parte mais incrível nesta teoria é que implica que se conseguiu fazer um conluio entre 18 governos europeus de cores diferentes (socialistas, conservadores, liberais-democratas e independentes), o FMI (uma instituição onde os EUA de Obama predomina e que é presidida por uma francesa) e o Banco Central Europeu para derrubar um governo. De acordo com esta teoria, todos estes agentes chegaram a um acordo secreto para derrubar o Syriza do poder.
É este o nível de negação a que chegaram alguns comentadores: conseguem mais facilmente acreditar numa conspiração à escala global para derrubar um governo, do que na falta de vontade de um governo de matriz marxista, sem dinheiro, manter-se amarrado à disciplina financeira e orçamental que pertencer a uma zona monetária exige.

Ontem, uma hora antes de Tsipras lançar o povo grego numa corrida desenfreada às caixas multibanco

Está de parabéns o Dinheiro Vivo pelo excelente timing na publicação desta entrevista. Screen Shot 2015-06-27 at 2.20.09 PM
(Ricardo Paes Mamede é professor no ISCTE e foi Director de Serviços de Análise Económica e Previsão do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia e da Inovação em 2007 e 2008)