Sobre Carlos Guimarães Pinto

Economista, consultor de gestão e comentador de coisas.

PS, um partido cada vez mais extremista

O líder do “Partido Socialista Holandês” pediu hoje a demissão do líder do Eurogrupo. Porfírio Silva, membro do Conselho Nacional e porta-voz do PS, elogiou a atitude na sua página do Facebook, dizendo que “nem todos os socialistas são iguais”.
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Um pequeno detalhe: o chamado “Partido Socialista Holandês” faz parte do mesmo grupo político europeu do Syriza e do Bloco de Esquerda. São extremistas de esquerda, de tendências anti-europeias. Já o líder do Eurogrupo faz parte da família europeia do PS, uma esquerda moderada e europeísta. Mas entre a esquerda moderada da sua família política e o extremismo Syrizico holandês, o porta-voz do PS escolheu o lado dos extremistas. Não foi o único elemento do PS a fazê-lo hoje. Nem esta foi a primeira vez que o fizeram.

Tratado à covardia

varoufakis_fingerVaroufakis demitiu-se. Tinha prometido que se demitiria se o Sim ganhasse. Provavelmente esperou que fosse esse o resultado que lhe proporcionaria uma fuga fácil ao caos em que deixou a Grécia. Contra as expectativas de há uns dias atrás, o Não ganhou, mas Varoufakis demitiu-se na mesma. Demitiu-se apesar de ter prometido que iria buscar um acordo o mais rapidamente possível se o Não ganhasse. Em vez disso, decidiu sair, deixando o seu país em situação de default, com bancos perto da insolvência e a um passo de sair da Zona Euro. Um terrível currículo para um ministro das finanças. Apesar disso, a retórica inflamada, a imagem de rebelde e o facto de nunca ter implementado nada difícil (ou seja, o facto de ser um covarde político) ainda fará com que muitos (principalmente à esquerda) o vejam como um herói.
Está lançado mais um culto de personalidade à esquerda. Passará o resto da vida a ser bem pago para ir a conferências e a escrever best-sellers. O seu objectivo pessoal foi atingido. Quem vier atrás que feche a porta.

Todos Socialistas

“O referendo é sobre a questão de se saber se a Grécia permanece na zona do euro ou não”, Dijsselbloem, líder do Eurogrupo

“A Grécia deve introduzir uma nova moeda se o “Não” ganhar”, Martin Schulz, Presidente do parlamento Europeu

“A Grécia destruiu as últimas pontes de um compromisso”, Sigmar Gabriel, Ministro da Economia Alemão

O que há em comum entre estas 3 declarações de hoje (as mais duras de qualquer representante europeu)? São todos parte do Partido Socialista Europeu.

O que aconteceria se saíssemos do Euro?

No livro que escrevi com o Miguel Botelho Moniz e o Ricardo Gonçalves Francisco, vinha esta questão. Convém relembrar a resposta e perceber como metade do caminho já foi percorrido na Grécia.
O Economista Insurgente

A saída do Euro, que no início da crise era vista como impensável, começa a ser amplamente discutida. Infelizmente, a maioria das pessoas não entende bem as consequências dessa saída. Em termos gerais, convém esclarecer que a situação de Portugal após a saída da união monetária não seria a mesma do que se nunca tivesse entrado. A metáfora mais indicada aqui é a de um jogador de futebol que entra para um grande clube cedo na carreira, passa alguns anos sem jogar e depois regressa a um clube médio para ter grandes oportunidades. A situação desse jogador não é a mesma que teria se tivesse jogado sempre em clubes médios: Entretanto ele passou anos sem jogar, perdeu ritmo e ganhou reputação de ser um fracasso em clubes grandes. O mesmo se passaria com Portugal: A saída de Portugal da Zona Euro nas atuais circunstâncias daria um golpe fatal na sua credibilidade internacional e iria para sempre marcar a forma como investidores e credores veriam o país. A questão é saber se, apesar destes problemas, a saída do euro resolveria algum dos problemas presentes.

Comecemos pelo que aconteceria no caso de uma saída do Euro. Em primeiro lugar, convém notar que uma saída nunca seria referendada ou sequer discutida em avanço. Os líderes políticos teriam que negar essa possibilidade até ao fim. No momento em que fosse sequer discutida, pessoas e empresas começariam imediatamente a levantar os seus depósitos e colocá-los fora do país, levando a uma espiral de problemas financeiros e bancários que forçariam a saída do Euro e agravariam as suas consequências. A decisão de saída teria de vir de surpresa, muito provavelmente numa sexta-feira à noite. O Banco Central ordenaria a conversão imediata de todos os depósitos bancários sediados em Portugal de euros para a nova moeda que fosse criada. O pagamento de salários e todos os contratos comerciais vigentes também seriam convertidos para a nova moeda. A dívida pública emitida ao abrigo da legislação portuguesa também seria convertida para a nova moeda. Enquanto o processo decorreria, os levantamentos bancários seriam suspensos. Se o fim-de-semana não fosse suficiente para acabar o processo de troca de moeda, os bancos manter-se-iam fechados mais uns dias. Para evitar a fuga de euros para fora do país, também as transferências bancárias seriam proibidas. Quando os bancos reabrissem, já os depósitos estariam redenominados na nova moeda e todos os levantamentos em numerário seriam realizados nessa moeda. A taxa de câmbio da nova moeda em relação ao euro cairia 20-30% no primeiro dia em relação à taxa utilizada na conversão de depósitos. Ou seja, efetivamente os salários, apesar de não caírem na nova moeda, iriam cair 20-30% quando contados em euros.

No que toca à dívida pública, a situação seria mais complicada: O governo poderia manter as suas obrigações em euros, ou seja, perante a desvalorização da moeda, a dívida pública ficaria ainda mais difícil de pagar ou, alternativamente, converter a dívida para a nova moeda, o que os credores veriam como um incumprimento (default). Este default faria com que o Estado português deixasse de ter acesso aos mercados internacionais. No entanto, o facto de agora poder pagar na nova moeda e, portanto, ser mais fácil reequilibrar as contas públicas, provavelmente faria com que o governo optasse pela segunda opção. Nos primeiros meses seria também provável que viessem a faltar alguns produtos importados nas lojas. Como as empresas importadores teriam as suas contas também convertidas para a nova moeda, mas precisam de euros para comprar bens ao estrangeiro, teriam algum problema em repor os stocks. Mesmo que os produtos chegassem sem problemas, eles seriam bastante mais caros. O preço de tudo o que é importado (incluindo combustíveis, telemóveis, computadores, alimentos, etc.) subiria em flecha na nova moeda. A austeridade como a conhecemos hoje acabaria: Provavelmente o governo anunciaria um aumento de salários e pensões cujo efeito seria rapidamente eliminado pelo aumento dos preços da maioria dos bens. Teríamos antes uma austeridade disfarçada, onde o rendimento nominal parecia crescer, mas o empobrecimento resultante da diminuição do poder de compra se sentiria sem disfarce.

Seria perfeitamente possível que o país se recompusesse ao fim de alguns anos; talvez adquirindo a maturidade política e económica necessária para reentrar na Zona Euro, desta vez sem os mesmos problemas. Mas, que não se iludam aqueles que acham que seria uma solução fácil: O nível de empobrecimento e atraso económico causado seria bastante superior e mais rápido do que qualquer programa de austeridade.

Incoerente, eu?

15/05/2014: “A minha cor favorita é o vermelho”
12/08/2014: “A minha cor favorita é o azul”
23/12/2014: “A minha cor favorita é o vermelho”
05/01/2015: “A minha cor favorita é o vermelho”
24/05/2015: “A minha cor favorita é o azul”
29/05/2015: “A minha cor favorita é o vermelho e o azul”
10/06/2015: “A minha cor favorita é o azul”

Incoerente, eu? Nada podia ser mais errado. Nas minhas intervenções tenho tido uma linha clara e coerente sobre a minha preferência de cores:
12/08/2014: “A minha cor favorita é o azul”
24/05/2015: “A minha cor favorita é o azul”
29/05/2015: “A minha cor favorita é (…) o azul”
10/06/2015: “A minha cor favorita é o azul”

Texto parvo? Talvez. Mas não tanto como este.

10 anos de folia grega. E agora, quem paga?

A situação da Grécia resume-se muito bem neste gráfico com a evolução do seu PIB no longo prazo:

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A Grécia crescia de forma relativamente lenta até entrar no Euro. Após entrar no Euro, acumulou dívida pública e externa e a qualidade de vida dos cidadãos deu um grande salto. Em termos práticos, isto significa que, durante 10 anos, houve pessoas que tiveram salários mais elevados, pessoas que ganharam dinheiro sem trabalhar, pessoas que enriqueceram injustificadamente, que tiveram mais tempo para passar com a família e os amigos, que compraram carros e casas maiores e foram de férias mais vezes. Alguns pobres passaram a classe média e membros da classe média passaram a ter vidas mais abastadas. Conseguiram isto graças à acumulação de dívida dos governos PASOK e Nova Democracia, com a conivência dos líderes europeus do Partido Socialista e Nova Democracia, e com o financiamento de alguns investidores (bancos, fundos de pensões, etc). Como sempre acontece nestes casos, a situação tornou-se impossível de manter. Não só aquele salto na qualidade de vida não foi possível de manter, como alguém terá que pagar por aqueles 10 anos de folia. Quem deverá pagar?

1. Os gregos
Esta é, sem dúvida, a resposta que primeiro vem à cabeça. Tendo sido os gregos os principais beneficiados da dívida, é apenas justo que sejam eles a pagar. Apesar se ser o mais justo, há algo a ter em conta: tendo sido gregos a beneficiar, não é certo que sejam os mesmos indivíduos que beneficiaram do aumento de dívida pública a pagar por ela agora. Alguns dos que beneficiaram, entretanto protegeram-se do risco de pagar por esse benefício passado: emigraram ou colocaram os seus investimentos fora do país. Outros, por exemplo os mais jovens, irão pagar sem terem tirado grande benefício, porque não eram nascidos ou não tinham idade para aproveitar esse benefício.

2. Os investidores (quem emprestou o dinheiro à Grécia)
Um investimento tem sempre risco. Quem emprestou à Grécia não o fez de forma gratuita. Esperava obter retorno desse investimento. Investiu na expectativa de que a economia grega cresceria com ajuda dessa dívida o suficiente para pagar a dívida e ainda garantir juros. Se tivesse sido um bom investimento, certamente teriam beneficiado com isso. Foi um mau investimento. É justo que paguem o preço de terem feito um mau investimento. É também bom que paguem como forma de lição para o futuro, para que não voltem a emprestar dinheiro nestas condições. Alguns já pagaram, sob a forma de perdão de dívida, mas neste momento já são poucos os investidores privados com algo a perder.

3. Os contribuintes europeus
É difícil justificar que sejam outros cidadãos europeus, com níveis de rendimento em muitos casos inferior, a pagar pelos 10 anos de folia grega. Salvo raríssimas excepções, nenhum contribuinte europeu beneficiou da dívida grega. A maioria nunca investiu voluntariamente um euro na Grécia, nem beneficiaria directamente se a economia grega tivesse dado um salto em frente. É por isso complicado justificar que sejam os contribuintes europeus a pagar, embora pareça ser esse o consenso mediático. Existiria apenas um benefício de serem os contribuintes europeus a pagar: criar um eleitorado mais eurocéptico e líderes europeus que no futuro sejam menos coniventes com folias de dívida, gregas ou outras.

No final, serão certamente os 3 a pagar pelos 10 anos de Folia. A justiça ou injustiça estará na repartição dos sacrifícios. Infelizmente, parece-me que, de forma a poupar o primeiro e o segundo grupos, o terceiro arcará com a maior fatia.

Mais uma histeria syrizica desmentida

Começa a ser complicado acompanhar todos os mitos e histerias que vão sendo espalhados nesta história da Grécia. Ontem foi o de que Portugal tinha feito a vida negra à Grécia nas negociações. Este rumor surgiu quando o ministro das finanças francês afirmou que as maiores objecções a um acordo com a Grécia vinham de um grupo de pequenos países. Hoje, veio o desmentido (que nem seria necessário se tivessem prestado atenção às palavras dele):

Portugal não integra, assim, o grupo dos pequenos países a que se referiu ontem o ministro das Finanças francês, quando afirmou à RTL que “os mais duros não são os alemães, mas os pequenos países que fizeram significativos esforços”. Michel Sapin citou mesmo os casos da Eslovénia e da Eslováquia, mas o PÚBLICO sabe que nestes mais radicais incluem-se outros países bálticos, em especial a Letónia. Por dois grandes motivos: a proximidade do governo grego a Putin deixa aqueles países “com os cabelos em pé”, mas também porque não compreendem por que razão países que têm um Produto Interno Bruto maior que o seu – e provavelmente um melhor nível de vida – têm de ser ajudados.

Recordando histerias passadas

Lembram-se de há uns dias a imprensa ter noticiado que a Grécia queria baixar o orçamento da defesa em 400 milhões de euros e o FMI recusou? Lembram-se de ter usado este exemplo para demonstrar a cegueira ideológica do FMI?

Poucos dias depois, a Troika apresentou um novo plano à Grécia em que pedia os tais 400 milhões de euros de cortes na Defesa. A Grécia rejeitou e propos 200 milhões. Entretanto, os bancos fecharam, o país está à beira do colapso e, segundo a imprensa, Tsipras começou a ceder, pedindo apenas algumas alterações ao plano proposto pela Troika. Um desses pedidos? Que o corte na defesa seja mais baixo em 2016 do que o pedido pela Troika.

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Nota adicional: Fonte do governo grego veio a público recusar qualquer corte no orçamento da defesa, ao contrário do que Tsipras diz na carta à Troika.

Grécia: revisão da matéria dada – O resgate e o ajustamento

Escrevi ontem aqui sobre os anos anteriores à crise da dívida soberana na Europa. Nos 7 anos anteriores à crise, a economia grega tinha crescido bastante acima dos seus pares europeus graças a uma injecção brutal de dívida. Chegados a 2007, uma boa parte da economia grega estava dependente da capacidade do governo continuar a acumular dívida indefinidamente. Mesmo sem a crise de 2008, este acumular de dívida algum dia teria que parar. Algum dia a economia teria que ajustar, e a parte da economia que sobrevivia apenas à custa da dívida pública teria que desaparecer. Esse momento foi despoletado com a crise de 2008.

O lento resgate

Muitos comentadores, mesmo alguns mais moderados, afirmam que o nível de austeridade imposto à Grécia foi demasiado severo e rápido. Se a austeridade fosse mais suave a aplicada lentamente, afirmam os comentadores, teria tido um efeito menos devastador e o país teria recuperado mais rápido. Mas será mesmo assim? Para testarmos esta hipótese, poderemos olhar para o que aconteceu em 4 outros países que atravessaram uma crise semelhante, mas fora do Euro: os 3 países bálticos e a Islândia. Em baixo, podemos ver a evolução do consumo das famílias (um bom indicador do padrão de vida) nos 5 países.

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Como podemos ver no gráfico, todos os países ajustaram brutalmente logo em 2009. Enquanto o consumo na Grécia caía um pouco mais de 1% em 2009, na Islândia caiu 10% e nos países Bálticos mais de 15%. Mesmo nos anos seguintes, nunca a Grécia teve um ano de ajustamento tão forte. O máximo que o consumo caíria num ano seria 11% em 2011. Terá isto causado danos irreversíveis nas economias dos países bálticos e na Islândia? O gráfico demonstra o contrário: depois de terem sofrido um nível de austeridade mais forte e rápido, estes países recuperaram rapidamente. Um ajustamento rápido e violento permitiu que a economia eliminasse a distorção acumulada sem levar a economia saudável atrás. Já a Grécia demoraria 5 anos a voltar a crescer. O problema do ajustamento lento versus “front-loading” é sentido particularmente na questão do desemprego. No gráfico em baixo, pode-se ver a evolução da taxa de desemprego nos anos de crise.

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A Grécia, poupada a uma austeridade tão brutal como a da Islândia e países bálticos não teve um aumento tão rápido do desemprego no início da crise. O resultado disso foi um crescimento constante do desemprego durante 5 anos. Quem perdeu o emprego nos primeiros dois anos tem grandes probabilidades de estar ainda desempregado 3 anos depois. Quando os trabalhadores ficam desempregados por mais de 3-4 anos, não perdem apenas o emprego, perdem a profissão. Não é grave que uma economia tenha temporariamente taxas de desemprego de 25%-30%, se puder rapidamente baixá-las para 10%. É bem mais grave para os indivíduos afectados pelo desemprego que uma economia tenha de forma permanente taxas de desemprego nos 15-20%. Uma economia com taxas de desemprego altas e estáveis condena os seus desempregados à incapacidade profissional.

O problema da Troika não foi ter imposto demasiada austeridade, mas sim não ter imposto uma austeridade mais violenta logo no início do ajustamento, que resolvesse o problema da economia mais rapidamente, de uma vez por todas, e que permitisse que o crescimento viesse mais cedo.

O ajustamento

O ajustamento demorou, mas em 2014 tinha sido atingido em boa parte. Depois de 5 longos anos de recessão, a Grécia começou a crescer de forma ténue. Com boa parte do ajustamento já feito, o crescimento da economia saudável já permitia compensar o pouco ajustamento que ainda havia a fazer. Foi isso que aconteceu em 2014 quando a Grécia apresentou um ténue crescimento económico. Apesar de ténue, este crescimento era sustentável. Ao contrário da fase de crescimento entre 2001-07, este crescimento era feito sem aumentar défices públicos e acumular dívida externa.

Mas afinal, onde é que o ajustamento levou a Grécia? O gráfico abaixo, com a evolução do PIB grego em democracia, ajuda-nos a ter alguma perspectiva sobre a evolução da economia grega:

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A austeridade trouxe a economia grega de volta ao ponto onde estaria se tivesse seguido a sua tendência de crescimento de longo prazo. O ponto onde estaria uma economia com grandes deficiências estruturais (como admitem economistas de esquerda e de direita) se nunca tivesse tido acesso fácil à dívida.

Foi com a economia a crescer, sem défices primário e externo, e com boa parte do ajustamento já feito que o Syriza assumiu o poder. Veremos o que faz com ele.

Grécia: revisão da matéria dada – Onde tudo começou

A Grécia entrou no Euro em 2001. Desde essa altura, teve um crescimento imparável. Enquanto os outros países, incluindo Portugal, atravessavam o que veio a ser chamado de a década perdida, a Grécia viu o PIB crescer 32% em 7 anos. No mesmo período o PIB português cresceu menos de 9% e o alemão pouco mais de 11%.

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Este crescimento do PIB foi acompanhado também pelo crescimento dos salários. Entre 2000 e 2007, a massa salarial na economia cresceu uns fantásticos 75%, quase o triplo de Portugal e 10 vezes mais do que na Alemanha.

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Assim, os gregos puderam consumir muito mais. Nestes 7 anos, o consumo cresceu 33%, enquanto o alemão estagnou e o português cresceu quase um terço.

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Como foi isto possível? Não houve nenhuma revolução tecnológica na Grécia, nenhum fluxo de investimento internacional e não foram descobertos recursos naturais no Mediterrâneo. Isto foi conseguido graças a um extraordinário aumento do endividamento público, em boa parte escondido. Foi uma espécie de Portugal Socrático com esteróides (no gráfico abaixo podem ver apenas a despesa pública oficial, excluindo a que foi escondida).
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Chegamos a 2008, os gregos tinham aumentado os seus padrões de vida como nunca antes tinha acontecido. Mas esse padrão de vida só foi atingido graças a uma enorme distorção da sua economia. Tinham um padrão de vida que só era sustentável graças a permanentes fluxos de dívida. Uma boa parte da sua economia dependia de um nível de despesa pública que o estado só conseguia atingir endividando-se brutalmente. Quando o estado deixasse de se poder endividar, toda aquela parte da economia se desmoronaria.
Foi o que aconteceu em 2008-2009…

(Fonte dos gráficos: Eurostat)

Segunda parte: Grécia: revisão da matéria dada – O resgate e o ajustamento

PS: da voz forte à voz fininha em poucos meses

“Dois temas do discurso de encerramento do XX Congresso Nacional do PS que serviram a António Costa para (…) salientar a diferença entre a necessidade de uma «voz forte» na Europa em defesa dos interesses nacionais e a linha seguida pelo atual executivo em Bruxelas de alegada subordinação externa.”, 30 de Novembro de 2014

“Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha” , 26 de Janeiro de 2015

“O líder da Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL) criticou também o governo grego e o partido no poder, o Syriza, que “erraram ao terem uma opção estratégica de confrontação com as instituições europeias”, 29 de Junho de 2015

O grande conluio

Há escassas semanas, a generalidade dos comentadores elogiava a coragem do Syriza em bater o pé à Europa. Dizia-se que com esta atitude, o Syriza iria conquistar cedências que nenhum outro país tinha conseguido. Essas cedências seriam então a prova definitiva de que existia uma alternativa à austeridade, ou seja, que existia uma alternativa a países sem dinheiro terem que gastar menos.
A teoria foi quebrada há dias atrás pelo próprio Tsipras, quando disse que as Instituições lhe ofereciam menos flexibilidade do que tinham feito a outros países como a Irlanda e Portugal.
Destruida a narrativa, criou-se outra ainda mais incrível: a de que tudo isto foi uma estratégia para derrubar o governo do Syriza. A estratégia negocial do Syriza não estava a levar a lado nenhum porque as instituições queriam derrubar o governo. As várias propostas de acordo tinham sido só a fingir. Claro que esta nova narrativa contraria fortemente a anterior. Mais a parte mais incrível nesta teoria é que implica que se conseguiu fazer um conluio entre 18 governos europeus de cores diferentes (socialistas, conservadores, liberais-democratas e independentes), o FMI (uma instituição onde os EUA de Obama predomina e que é presidida por uma francesa) e o Banco Central Europeu para derrubar um governo. De acordo com esta teoria, todos estes agentes chegaram a um acordo secreto para derrubar o Syriza do poder.
É este o nível de negação a que chegaram alguns comentadores: conseguem mais facilmente acreditar numa conspiração à escala global para derrubar um governo, do que na falta de vontade de um governo de matriz marxista, sem dinheiro, manter-se amarrado à disciplina financeira e orçamental que pertencer a uma zona monetária exige.

Ontem, uma hora antes de Tsipras lançar o povo grego numa corrida desenfreada às caixas multibanco

Está de parabéns o Dinheiro Vivo pelo excelente timing na publicação desta entrevista. Screen Shot 2015-06-27 at 2.20.09 PM
(Ricardo Paes Mamede é professor no ISCTE e foi Director de Serviços de Análise Económica e Previsão do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia e da Inovação em 2007 e 2008)

Tsipras elogia estratégia negocial dos governos português e irlandês

Um dos argumento mais lidos entre os apoiantes locais do Syriza é o de que o Syriza, com a sua posição de força, tem atingido mais vantagens negociais do que Portugal alguma vez conseguiu. PHoje Tsipras queixou-se precisamente o oposto: que a estratégia negocial mais discreta de Portugal e Irlanda lhes permitiu obter maior flexibilidade negocial do que a Grécia:
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(Em português: “A repetida rejeição de medidas equivalentes por parte de certas instituições nunca ocorreu antes – nem com a Irlanda, nem com Portugal)

O fim da austeridade na Grécia em números

Ao contrário do governo português, o Syriza bateu o pé à Europa e negociou. Para muitos, valeu a pena 5 meses de fuga de depósitos, mais desemprego e queda do produto. No gráfico abaixo podem ver a comparação entre o nível de austeridade proposto para 2015 por este governo austeritário e a proposta de acordo do Syriza para 2015/16 agora tão celebrada pela esquerda.

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Comédia grega à portuguesa

Corria o ano de 2012. No parlamento preparava-se o Orçamento de Estado de 2013 (o pior que este governo fez). Nas ruas, nunca tinha havido tanto protesto. No parlamento, o Ministro das Finanças Vítor Gaspar era acusado de selvajaria social por João Galamba. Um conjunto de “personalidades” enviava uma carta ao governo, acusando-o de “fanatismo cego”. O termo “espiral recessiva” estava na moda. Havia manifestações a sério, com pedras a cair na polícia e cacetetes nos manifestantes. O motivo da contestação: um orçamento de estado que previa austeridade no valor de 5.338 milhões de euros, quase tudo pelo lado da receita.

Fast Forward para 2015. O Syriza é eleito. A esquerda portuguesa e a imprensa (passe a redundância) anunciam o fim da austeridade. No Partido Socialista constroem um altar a Varoufakis e companhia. Mas com o passar dos dias, os problemas vão-se avolumando. Os depósitos bancários começam a fugir. As promessas eleitorais ficam por cumprir. O PIB, que crescia quando o Syriza subiu ao poder, volta a cair. O desemprego aumenta a contra-ciclo com a Europa. A Grécia fica bastante próxima de sair da Zona Euro. Cinco meses de negociações depois, e com o país de joelhos, o Syriza apresenta uma proposta minimamente séria à Troika. As expectativas estão tão baixas, que o simples facto dessa proposta ser tomada como séria é vista como uma vitória do Syriza. A esquerda portuguesa pula de alegria. O mesmo deputado que tinha acusado o governo português de selvajaria social, diz que o acordo é uma derrota dos governos português e espanhol. O motivo da alegria: uma proposta do Syriza que prevê austeridade de 5.207 milhões de euros para 2016 e 2.692 para o que resta de 2015 (ou seja, cerca de 5.384 milhões de euros anualizado), quase tudo pelo lado da receita.

Como um apoiante do Syriza seduz a Sara Sampaio

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Gajo do Syriza: Vai uma noite de sexo sem compromisso?
Sara Sampaio: Não.
Gajo do Syriza: Vá lá!
Sara Sampaio: Não.
Gajo do Syriza: Por favor!!
Sara Sampaio: Não.
Gajo do Syriza: Se me dizes que não outra vez, vou-me mesmo embora.
Sara Sampaio: Não.
Gajo do Syriza: E se for só sexo oral?
Sara Sampaio: Não.
(Sara Sampaio chama o segurança)
Gajo do Syriza: Vá lá!
(Gajo do Syriza apanha uns tabefes do segurança)
Sara Sampaio: Não, vai-te lá embora.
Gajo do Syriza: Por favor!!
(leva mais uns pontapés)
Sara Sampaio: Já disse que não!
Gajo do Syriza: OK, fazemos assim: eu vou para casa mastubar-me, pode ser?
Sara Sampaio: Faz como quiseres.
(Gajo do Syriza vai para casa ensanguentado e cheio de nódoas negras)

Conclusão do gajo do Syriza: “Chegamos a um acordo! Valeu a pena negociar.”

Austeridade à la Syriza

Fica abaixo uma imagem resumo das propostas que o Syriza apresentou hoje. São 2.692M€ de austeridade no que sobra de 2015 e 5.207M€ de austeridade para 2016.
Em 2015, serão 665M€ de cortes em pensões e 0M€ de cortes na defesa. Em 2016, os cortes nas pensões serão de 1860M€ e 200M€ de cortes no orçamento da Defesa.

A alternativa à austeridade afinal é mais austeridade, agora agravada pela instabilidade criada na Grécia nos últimos 5 meses. Aguarda-se a todo o momento manifestações anti-austeridade contra esta proposta da malta que vinha acabar com a austeridade.

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A última sondagem

Para além do empate técnico entre PS e PaF (com ligeira vantagem para o PAF), a sondagem publicada pelo JN hoje mostra outras informações interessantes.

A primeira é de que apenas 14% dos eleitores acredita que o PS será melhor no governo do que a actual coligação, apesar de 37% responderem que vão votar PS. Portanto, a maioria dos eleitores do PS não acredita que eles farão melhor que o actual governo.

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A segunda constatação interessante é o número de pessoas que acredita que a austeridade teve um efeito positivo no país. Apesar do quase consenso mediático e político em torno do assunto, já há quase tantas pessoas a acreditar no efeito positivo da austeridade como pessoas a acreditar que teve um efeito negativo. O grande salto deu-se no último ano. Talvez também por isso, Portas, que sempre se quis fazer de polícia bom anti-austeridade do governo, continue a ser o líder político menos apreciado da sondagem. Quem quer agradar a gregos e troianos, arrisca-se a parecer desonesto e acabar por não agradar a ninguém.

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Demagogia sobre a Grécia – Parte 1273

Nos últimos dias veio a público uma notícia revelando que a Comissão Europeia propôs ao FMI incluir no acordo com a Grécia um corte de 400 milhões no orçamento defesa que reverteriam a favor das pensões mais baixas. Segundo a notícia, o FMI rejeitou o pedido da Comissão Europeia. Para muitos dos apoiantes locais do Syriza, mas também aqueles que estando alinhados ideologicamente com o Syriza mantêm um pé de fora não vá a coisa correr mal, isto é uma prova da cegueira ideológica do FMI.
Aquilo que fica por contar é que foi a Comissão Europeia e não a Grécia a fazer o pedido. Nenhum membro do governo grego veio a público defender a medida. Antes pelo contrário, da Grécia chegam sinais bastante diferentes. Os credores não podem impedir a Grécia de fazer cortes de despesa. A Grécia poderia cortar no orçamento da defesa amanhã se o desejasse realmente. Mas Tsipras escolheu para parceiro de coligação um partido nacionalista a quem deu a pasta da defesa. Dificilmente Kamenos, o ministro da defesa nacionalista, aceitaria um corte tão grande no seu orçamento.
Para além disto, o FMI já pediu no passado a países intervencionados para cortarem no seu orçamento da defesa. O mais certo é ter optado por não incluir a medida por saber antecipadamente que seria rejeitada.

Quando falham os factos, resta manipulá-los

O Nuno Serra apresenta neste post a evolução no número de docentes desde 2011, comparando-a com o número de alunos. Segundo ele, como o número de docentes caiu mais do que o número de alunos nestes 3 anos, a redução do número de docentes foi “ideológica” e não demográfica.

O que o Nuno Serra se esqueceu de explicar é que em 2011 existia uma situação de enorme desperdício. Nos 20 anos anteriores, os sucessivos governos falharam em adaptar o tamanho do corpo docente ao número descendente de crianças. O gráfico em baixo é revelador.

docentes2011Desde 1995, o número de alunos desceu em todos os níveis de ensino devido ao efeito demográfico. Mas no 2º e 3º ciclos, não só o número de docentes não acompanhou esta tendência, como aumentou. Apenas no 1º ciclo diminuiu o número de docentes. Ainda assim, o número de docentes diminuiu bastante menos (9%) do que o número de alunos (20%).

Portugal era em 2011 um dos países da Europa com mais professores em relação ao número de alunos. Em 2011 Portugal tinha 9,0 professores por cada 100 alunos. A média na União Europeia (em si uma região que se tem adaptado mal a alterações demográficas) era de 7,6, 16% mais baixa. Em França (um país que não é conhecido pelo seu neoliberalismo) o número de professores por cada 100 alunos era de 5,6, 37% mais baixo que em Portugal. Dito de outra forma, num universo de 175 mil professores em 2011, 30 mil estavam a mais quando comparado com o resto da União Europeia, ou 64 mil se comparado com a França. Usando a nomenclatura do Nuno Serra, poderemos classificar isto como o desperdício ideológico socialista. Este desperdício não chegou a ser totalmente recuperado: desde 2011, o número de docentes foi reduzido em apenas 25 mil. Portugal continua ligeiramente acima da União Europeia em termos de número de professores.

Do custo das boas intenções

Lisboa vai ter rede de 1.200 bicicletas partilhadas

Isto tudo parece muito lindo mas como todas as ideias geniais vai acabar muito mal. O que acontece em Barcelona, cidade bem menos acidentada e com malha rodoviária bem mais redundante do que Lisboa, é que o custo do sistema é um absurdo. Sumariamente, sim há todo o tipo de viagens de bicicleta, mas em termos de gestão do sistema essas anulam-se; o padrão constante é a malta descer as encostas. Todos os dias, e a toda a hora, há que trazer dezenas, centenas de bicicletas das zonas baixas para as zonas mais altas. E mesmo assim é uma aflição arranjar bicicleta numa zona alta, e uma aflição arranjar onde a deixar numa zona baixa. Esta logística implica uma frota de carros que andam a recolher bicicletas em excesso nas zonas baixas (zonas turísticas, ruas estreitas e sentidos únicos, carros taxis e eléctricos, tudo a estorvar), e vão deixar às zonas altas (tipicamente com estações mais afastadas umas das outras), e depois voltam vazios para baixo. Como isto é um buraco financeiro, é altamente subsidiado a partir de outras fontes de rendimento, nomeadamente tarifas de estacionamento. Alguém acha que em Lisboa a coisa vai ser mais fácil? Ou mais barato? Em Lisboa vai ser a história do costume. Uns meses de operação e a EMEL vai berrar que a coisa não dá, e entram em vigor novas concessões, novas tarifas, mais caça à multa, e tolerância zero, condições aliás com certeza já negociadas porque esta malta não dá ponto sem nó. E quem apanha é quem não usa as “bicing” — a monstruosa maioria da população residente e pendular de Lisboa — incluindo idosos, crianças, famílias, negócios, fregueses, suburbanos, visitantes, etc.

(Fonte: comentário de um gajo qualquer numa rede social)

Sobre a sustentabilidade da segurança social

howaneconomygrowsandwhyitcrashesPara se entender melhor o problema da Segurança Social, recupero aqui uma história que publiquei originalmente em 2013 neste blog:

Era uma vez duas ilhas em que os habitantes sobreviviam de pesca artesanal: a Neoliberalândia e a Socialistalândia. Os habitantes das duas ilhas passavam o dia a pescar à mão e a usufruir dos frutos desse trabalho. Aquilo que pescavam diariamente chegava para satisfazer as suas necessidades. Os anos foram passando e os habitantes continuavam na sua rotina habitual até que um dia se aperceberam que estavam a envelhecer e que daí a uns anos seriam incapazes de pescar tanto como pescam hoje. Perante a ameaça de morrerem à fome na velhice, as duas ilhas reuniram os seus habitantes para encontrar uma solução.

Na ilha da Neoliberalândia

Na Neoliberalândia os habitantes decidiram que iriam passar a dedicar algum do seu tempo diário a construir redes de pesca. Iriam ter menos peixe para comer no imediato, mas ao fim de algum tempo as redes permitiriam pescar mais peixe com o mesmo trabalho. À medida que fossem envelhecendo, os pescadores perdiam a capacidade de pescar à mão, mas como tinham construído redes, conseguiam pescar o mesmo ou até mais. Quando chegassem a uma idade avançada em que não tivessem mais forças para pescar alugariam as suas redes aos mais jovens, com mais força, mas que ainda não tinham tido tempo para construir redes. Esses mais jovens beneficiariam do facto de poderem pescar mais recorrendo às redes dos mais velhos, e partilhavam esse benefício dando parte do excedente aos mais velhos. Quando colocados perante a possibilidade dos mais jovens simplesmente roubarem as redes e não darem nenhum peixe aos mais velhos, decidiram criar um enorme pau que ficaria nas mão de um do habitante eleito, mas cuja função seria simplesmente garantir que o roubo não ocorresse.

Na ilha da Socialistalândia

Na Socialistalândia, um dos habitantes sugeriu uma solução: solidariedade inter-geracional. A sua proposta era que, à medida que os habitantes fossem chegando à idade em que já não conseguiam pescar, os habitantes mais novos abdicassem de parte do seu peixe para alimentar os mais velhos. Mais tarde, quando esses também envelhecessem fariam o mesmo com as novas gerações e por aí fora. Como existiria sempre uma nova geração, haveria sempre peixe para distribuir. Parecia uma boa ideia: ao contrário dos estúpidos da Neoliberalândia quase não tinham que abdicar de peixe no imediato, podendo continuar a passar todo o dia a pescar à mão. Nessa altura surgiu a pergunta: “Mas então, como garantimos que os mais novos contribuem para alimentar os mais velhos?”. A solução encontrada foi a de construir um enorme pau que ficaria nas mão de um habitante eleito pelos restantes. Se um dos mais novos não quisesse contribuir, levava uma paulada. Parece justo, pensaram. A solução funcionou durante bastante tempo: a população da ilha era jovem e os poucos que foram envelhecendo tiravam muito pouco dos mais jovens. Os mais jovens, não tendo que contribuir muito, e na expectativa de virem a beneficiar do sistema quando fossem mais velhos, não se importavam de contribuir. Porém, com o passar do tempo, passou a haver cada vez mais velhos, o que exigiu uma contribuição cada vez maior dos habitantes mais novos. A certa altura, a contribuição passou a ser tão alta que os mais jovens deixaram de ter peixe suficiente para se alimentar. Alguns tentaram deixar de contribuir, mas levaram com o pau. Depois de algumas pauladas, outros decidiram fugir da ilha, deixando o esforço ser distribuido por ainda menos trabalhadores, aumentando a fome e a paulada, fazendo com que mais fugissem da ilha.

Os habitantes jovens da Socialistalândia fugiam para a Neoliberalândia. Lá, utilizando as redes de pesca, conseguiam pescar muito mais do que na sua Terra Natal. Pescavam tanto que até lhes sobrava tempo para irem construindo umas redes para a sua velhice. Tal como na Socialistalândia, a Neoliberalândia passou por fases de declínio demográfico em que a população mais velha ultrapassava em número a mais nova. Mas ao contrário da primeira ilha, esta situação não provocou fome: mais velhos significava também um maior stock de redes, o que tornava os trabalhadores novos mais produtivos. Quando existia um baby boom, e a população mais nova crescia, cada um dos trabalhadores jovens tinha acesso a menos redes, mas como também havia mais trabalhadores, os mais velhos continuavam a ter acesso a alimentação. Em suma, nesta ilha tinham construido um sistema resistente a variações demográficas. Nesta ilha produzia-se também bastante mais peixe do que na ilha vizinha, graças ao stock de redes existente. E o pau era também usado menos vezes.

É a democracia, estúpido! Como a Segurança Social só é sustentável em ditadura

socialsecurityAlguns membros do Partido Socialista (por exemplo, o João Galamba aqui) têm afirmado que a Segurança Social deixou de ser sustentável devido à política económica deste governo. Vamos assumir então que isto é verdade. Vamos então fingir que tudo estava bem com a Segurança Social em 2011 quando o governo de Sócrates chegou perto de não ter dinheiro para pagar pensões. Vamos fingir também que a Segurança Social não tem obrigações a rondar os 200MM€, mas apenas 10MM€ em activos (menos de um ano de pensões) para cobrir essas obrigações futuras. Vamos fingir que nada disto é verdade e que, de facto, a segurança social era perfeitamente sustentável até este governo aparecer.

Se o PS acredita verdadeiramente nisto, só tem uma solução: defender a privatização do sistema de pensões. Se o PS acredita que basta uma má governação económica para colocar em causa décadas de descontos, deveria defender um sistema que protege os futuros pensionistas deste risco. Mas não, o PS continua a exigir aos portugueses que todos os meses depositem o correspondente a metade do seu salário líquido num sistema que assumem ser muito vulnerável. Em vez de devolver parte destes descontos para que os trabalhadores portugueses possam poupar para a sua reforma individualmente, comprando imobiliário, acções, depósitos, etc (até o falido GES tem mais activos para pagar as suas obrigações do que a segurança social), o PS quer continuar a obrigar os portugueses a contribuir para um sistema que consideram frágil.

Claro que há uma outra mensagem implícita no discurso do PS: a segurança social só é sustentável com o PS no governo. Ou seja, o problema não é o sistema em pirâmide da segurança social, o problema é a democracia.

1 ano depois da Troika: a ilusão e a lição

Em teoria o governo PSD/CDS governa o país há quase 4 anos. Na prática, em três desses anos, o país foi governado pela Troika, de um lado, e o Tribunal Constitucional do outro. Hoje é consensual culpar-se as medidas da Troika pelos problemas económicos do país

Quem acha que foi a Troika que empobreceu o país e aumentou o desemprego, que sem a Troika o país teria passado pela crise muito melhor vive numa ilusão. Vive na ilusão de que a economia teria resistido bem sozinha à falência das suas finanças públicas. Vive na ilusão que uma economia fortemente endividada e que continuava a endividar-se rapidamente e com um crescimento anémico, não iria sofrer um grande abanão. Vive na ilusão que uma economia com um sistema bancário tão frágil como estava em 2011 não teria sofrido o mesmo ou mais do que sofreu nos anos seguintes. Vive na ilusão de pensar que os abanões, os ajustamentos económicos são indolores, que é possível ajustar uma economia sem que se crie desemprego, emigração e queda da riqueza produzida no imediato.

Durante 3 anos o país foi governado pela Troika. Em 2011 era um país que crescia pouco, estava muito endividado e que se continuava a endividar rapidamente. Três anos depois, o país continuou endividado, mas a dívida (privada e pública) começou a baixar e o país a crescer um pouco mais. Um ano depois da saída da Troikas, os partidos do costume já voltaram (de forma mais ou menos transparente) a prometer o tipo de medidas que nos levou à situação de 2011. É um embaraço para nós eleitores e para a classe política em geral que a Troika tenha gerido melhor o país numa situação difícil do que qualquer partido o teria feito. Um ano depois da saída da Troika, é esta a triste lição.

O Público

Não vejo nenhum problema no facto de um jornal ter uma inclinação política. Desde que não se noticiem factos errados, é até bom ter orgãos de imprensa com diferentes inclinações políticas. Seria preferível que essa inclinação política fosse clara e transparente, mas também tenho a noção de que os leitores portugueses não estão muito preparados para esse nível de transparência porque ainda existe a expectativa no mercado de que um jornal tem que ser absolutamente imparcial. Dentro da transparência possível no mercado português, o jornal Público tem sido dos menos opacos (nomeadamente, através dos editoriais).

Contrariando aqueles que afirmavam ontem que a notícia da vitória dos conservadores ingleses não tinha destaque porque não era importante para Portugal, o Público dá hoje um grande destaque de capa ao resultado das eleições inglesas. É certo que o tom do tratamento é bastante diferente do que deu à vitória do PS francês ou do Syriza. Dá-lhe o tom pesaroso (até no já habitual excelente tratamento gráfico) que se espera de um jornal com a sua inclinação política, mas atribui o destaque que se espera de um jornal político (ao contrário do JN que continua a colocar as eleições inglesas ao nível do tratamento dado por uma estação de TV às orelhas de um adolescente). Este destaque ser feito apenas hoje vem de encontro a uma razão plausível para a falta de referência de capa ontem: o resultado das eleições ser desconhecido à hora de fecho da redacção. Pese embora isso não ter impedido o DN de colocar na capa o resultado das eleições logo na manhã seguinte, concedo ser possível que as redacções fechem a horas diferentes ou estejam dispostas a tomar riscos diferentes no que publicam na capa.

O Público tem uma inclinação política distante da minha. Com essa inclinação contribui, na minha opinião, para levar o país para um caminho de empobrecimento, dívida e miséria económica. O Público não é, por isso, o meu jornal, mas não deixa por isso de ser um grande jornal.