“Mais Educação”, hoje no DE

Hoje, no DE:

Não faz sentido discutir a viabilidade da educação pública sem perceber que a realidade nos obriga a reduzir a despesa para lá daquilo que já foi conseguido. Portugal apresenta por sistema défices: estamos a empobrecer porque não conseguimos suportar o sistema público de que dispomos. É possível sem mudar o paradigma constitucional em vigor tornar o Estado mais eficiente? Embora defenda um modelo de sociedade distinto considero ser perfeitamente possível sem diluição do corpo essencial das funções do Estado calibrá-lo para que este responda de uma forma mais eficiente àquilo que são as expectativas dos cidadãos no quadro dos recursos disponíveis.Gastar menos e melhor é quase um chavão mas sem esta quadratura do círculo dificilmente sairemos da actual rota do empobrecimento.

O perfil da despesa do Estado prova que este está demasiado centrado em si e muito pouco focado no cidadão. O “serviço público” (o leque de serviços prestados aos cidadãos pelo Estado) é caro, quer porque consome uma percentagem muito significativa do PIB, quer porque por cada euro cobrado em impostos se devolve muito pouco à sociedade e aos cidadãos. Assim, além de diminuir a despesa (dimensão quantitativa) há que libertá-la do próprio Estado (dimensão qualitativa). Colocar o Estado ao serviço do cidadão significa quando se fala em educação discutir-se menos “professores” e mais “alunos”. É necessário libertar a despesa do Estado do peso das corporações: a sua justificação são os cidadãos, a quem serve, e não o Estado em si.

Portugal tem de calibrar o seu Estado para que este sobreviva gastando muito melhor entre 10 a 15% menos (dependendo do clima). As empresas e as famílias há muito que fizeram ajustamentos bastante superiores. Só um eleitorado distraído permite que o Estado se furte a um emagrecimento que, perdoem-me, é numericamente banal. O grande desafio é qualitativo, na forma como se gasta, mas nós nem na dimensão quantitativa acertamos. Mas diga-se, temos o que merecemos, pois só um país baralhado faz enormes sacrifícios para depois aceitar que a solução dos problemas passa por ignorar aquilo que é óbvio:

Quem gasta tudo o que tem

Gasta o que não pode

Quem gasta o que não tem

Um dia é certo que se … lixa!

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Preconceito ideológico

O que é que há de errado no que o RAP diz, aqui, sobre o Martim e o seu negócio? É que todo este raciocínio assenta numa coisa que “trama” tudo: a análise é abstracta, cega pelo preconceito ideológico. O facto do rapaz se chamar Martim, e morar na “Linha”, faz com que o RAP conclua precipitadamente que o miúdo não se fez à vida, e que o seu sucesso se deve em boa parte ao facto de se ter “encostado” aos pais. Complexo de classe em estado puro. “Se fosse Zé Manel, o Martim estava literalmente quilhado”, é esta a base do sofisticado argumento do RAP. Azar dos azares, o miúdo chama-se Martim, mora na Linha de Cascais, mas as suas “origens” familiares estão longe de ser as que conduzem aos clichés em que o RAP assenta: se a família do Martim, a mesma, tivesse ido para a Margem Sul, e tivesse optado por escolher um nome para o miúdo um pouco mais “étnico”, tipo Akwá, ou Mantorras, por exemplo, nesse caso, aos olhos do RAP, o nosso Martim seria rapidamente elevado à categoria de grande “empreendedor”.

O raciocínio do RAP falha ainda em imensas outras coisas, imagine-se, o Martim também não recorreu ao apoio dos pais para lançar a “Over It”, fez tudo com os recursos que foi ganhando ao longo do último ano. A família apenas o ajudou, como gente responsável, a enfrentar a burocracia fiscal e legal que se lhe colocou à medida que o negócio foi evoluindo.

RAP em vez de ajudar à clarificação, trouxe ruído. Preconceito… Quem diria

Raquel Varela, uma explorada pelo sistema opressivo do capital sobre o trabalho

A Raquel Varela, que descobri que escreve num blogue que há uns tempos que não visitava, queixa-se, aqui, que, e cito, “(…) [a]nda um vídeo a circular na Internet de um jovem que defende (…) a reprodução biológica – trabalhar exclusivamente para acordar no dia seguinte, comer, e ir trabalhar (…)”.

Num momento ternurento, o marido da Raquel Varela, gajo que deu para perceber gosta de se deitar cedo, tem, a dada fase, no mesmo 5Dias, um desabafo freudiano o qual não pude de reparar:

” (…) No debate do Prós e Contras, a iniciativa e o trabalho árduo estavam representados pela Raquel Varela, que trabalha muito mais horas do que devia, já publicou seis ou sete livros e nem eu sei já quantos artigos em revistas científicas (com avaliação pelos seus pares) e acabou de ser reeleita a semana passada, por unanimidade, presidente de uma associação internacional de 34 instituições académicas de muito prestígio (…)”.

Raquel, como gajo, o teu marido está a mandar-te um mega-recado. Tu falas em reprodução biológica, em bebés, e ele desata a queixar-se que andas a trabalhar demais. Vai para casa mais cedo, e olha, parece-me boa ideia essa do bebé que te inspire algum instinto maternal, algo que, claramente, perdeste (isso e o bom-senso).

Bad feeling

A semana passada, uma amiga minha perguntou-me, “o que achas do Martim ir ao Prós & Contras?”. Estava eu meio distraído e respondi-lhe, “ao painel principal? Tu vê lá, ainda trucidam o miúdo”. Do lado de lá ouvi uma gargalhada ruidosa acompanhada de um comentário que ainda assim não me sossegou: “Não te preocupes, ele vai ficar na assistência, não deve falar mais do que dois minutos”. “Ele em qualquer caso que se prepare”, rematei.

O Martim tem 16 anos, teve uma ideia, executou-a, e ela naturalmente foi ganhando alguma dimensão. Deveria estar a viver o entusiasmo próprio da sua idade, e a dar corpo à sua imaginação. Mas não, em vez disso, o que eu receava, aconteceu: a esquerda chic não tolera o sucesso, ainda que curto, e de uma forma serpenteante, Raquel Varela, em tom maternal, alertou-o para o facto dele estar a deixar-se seduzir pelos vícios do capitalismo, maxime, a exploração de mão-de-obra asiática; falhado o argumento inicial, avançou então para o Plano B, para o fantasma dos proletários condenados ao salário mínimo. Pequeno aparte: tenho dúvidas que a Raquel Varela tivesse os mesmos cuidados em relação aos riscos implícitos em que o Martim poderia incorrer se se estivesse a falar de consumo de drogas ou da sua iniciação sexual.

Nos últimos dias, li reacções ainda piores: que não haveria pagamento de impostos (falso), que a marca seria plagiada ou que se estaria perante uma mera redistribuição (falso, o produto é português e a marca já há várias semanas está a ser registada).

Independentemente da maior ou menor valia do negócio, o Martim é apenas um adolescente. Que em vez de asneiras próprias da idade preferiu vender roupa. Só num país profundamente doente se massacra um miúdo com as demências que têm sido publicadas nos últimos dias.

Ao marido da dita Raquel, recomendo-lhe já agora que a ame – dizem que o amor é cego – mas por favor, comparar uma criança a uma adulta doutorada, mostrando ao mundo a sua dor de corno, é do mais decadente que tenho visto.

Causas invertidas

Hoje, e sem que tenha havido um debate minimamente consistente na sociedade portuguesa, foi aprovado um projecto de lei que permite a co-adopção por casais homossexuais.

Mais uma vez, promovem-se diplomas que se centram no egoísmo e na afirmação de “causas”, em vez de se definir aquilo que realmente deveria interessar ao Estado: o superior interesse das crianças.

Uma adopção que pondera como critério inclusivo ou exclusivo (no sentido da exclusão) a identidade sexual dos responsáveis fere a neutralidade que deveria informar estas leis.

O que eu gostaria é que se discutissem leis que definem critérios claros centrados no interesse das crianças, que se promovesse um sistema que avalie se os candidatos à adopção, em concreto, são ou não idóneos para educar uma criança, nas circunstâncias objectivas e subjectivas em que vivem, e face a outros candidatos, e não a consagração de “direitos” baseados em aspectos tão voláteis como a identidade sexual. Esta obsessão do Estado de se meter na cama dos cidadãos, e de alguns cidadãos promoverem o vouyerismo estatal desfoca a discussão daquilo que é essencial.

Quando a democracia atrapalha…

Ao ouvir o Tó-Zé Inseguro nos últimos meses, assim como os media de referência, fica-se com a ideia que Portugal vive sob o risco de eleições iminentes. Ninguém diria que o Governo tem uma sólida base de apoio no Parlamento – que lhe confere uma maioria absoluta – e que o PR reiteradamente tem vindo reforçar que não será responsável por uma crise política.

Supostamente, os mandatos são por 4 anos. Parece que o objectivo é que os governos possam concentrar-se na execução de um programa político que, num cenário de crise como o que vivemos, se arrisca a ser impopular. Nunca a estabilidade foi tão importante. Mas não, para o PS, e para os media, há que promover um clima “sempre-em-festa”, como se estivéssemos em campanha eleitoral.

Diria que há algo de profundamente errado nisto, mas sou eu, que provavelmente não percebo nada de política. Enquanto isso, o Tó-Zé pede uma maioria absoluta

Judicialização da democracia

Por formação liberal, considero que há um espaço para a Lei que não deve ser conformado pela vontade popular, um núcleo de direitos que são intangíveis e que merecem especial protecção. Considero também que há um espaço para a afirmação individual, que não deve ser condicionado nem pela Lei nem por mecanismos democráticos, uma reserva de direitos cuja integridade não deve ser posta em causa. 

Há, ainda, um espaço que pertence à política, ou seja, que deve ser conformado pelas escolhas dos cidadãos, que diz respeito às condições de vida em comunidade. Este espaço é, na minha opinião, em Portugal, excessivo – ou seja, coloca na esfera da comunidade decisões que deveriam ser individuais – mas, ainda assim, tem a validade do sufrágio que lhe dá, em qualquer caso, uma certa legitimidade.

Dito isto, fico preocupado com a forma como nos últimos dois anos a Lei tem vindo a ser utilizada como arma de arremesso para limitar escolhas que são políticas. Seja utilizando a Constituição, impondo uma determinada visão política à comunidade, em detrimento doutras, que mereceram a escolha dos cidadãos, seja na forma como tem sido lida a Lei da Limitação dos mandatos autárquicos, assistimos a uma ingerência ilegítima do universo da Lei num campo que, para mim, pertence ao domínio do político, isto é, da escolha exercida segundo as regras da democracia. O maniqueismo como alguns sectores da sociedade têm utilizado a Lei fragilizam a democracia e a política e, em especial, a ideia de liberdade que defendo.  

Com amigos destes, os pobres não precisam de inimigos

Recentemente, o Parlamento chumbou uma moção de censura. Algures na Europa, Portugal está prestes a conseguir uma moratória nos juros da dívida, num sinal claro de confiança dos credores. E o que é que Mário Soares anda a fazer? Qual aristocrata, arregimenta partidos e poderes institucionais para derrubar um governo que tem uma maioria parlamentar consistente, e defende o não pagamento da dívida, que só traria – ou trará, já nem sei – mais dificuldades para os elementos mais fracos da nossa sociedade. Isto depois de se regozijar com uma decisão do TC que mais uma vez vem penalizar os mais frágeis, em prol de uma classe protegida e que continua a viver isenta de riscos. Vá-se lá perceber a cabeça destes democratas de esquerda. Socialistas? É caso para dizer, com amigos destes, os mais pobres não precisam de inimigos…

O triunfo dos porcos

Ainda Poiares Maduro não tomou posse, e já os jornais andam à procura de qualquer coisa que amplifique o ruído. Pelos vistos, numa análise política, entre vários cenários, Poiares Maduro admitiu a hipótese do chumbo do TC dar origem a um governo de iniciativa presidencial. Como vai ser Ministro Adjunto, toca a criar confusão. Pelo caminho, pedem sangue. Nas últimas semanas, já todos os ministros e alguns secretários de estado foram remodelados, segundo fontes muito credíveis. Se fossem analistas que fazem o seu trabalho com independência, já teriam percebido que Passos Coelho é avesso a remodelações, e que aposta em dar confiança aos seus ministros, para que possam fazer bem o seu trabalho. Mas não. Sangue! Acham os senhores dos media que é assim que vão lá? A paixão pela não notícia, pela análise coscuvilheira, está a matar a democracia, e – não se admitem – os próprios jornais. Os nossos media, em vez de convidarem à cidadania, patrocinam a javarcide. Depois não se espantem que as pessoas normais – as que, à partida, seriam os naturais compradores de jornais – se estejam literalmente a cagar para o que vocês querem vender. 

Como viver em tempo de crise?

É o título de um curto ensaio de Edgar Morin, que, para quem não sabe, está longe de poder ser clasificado um perigoso neo-liberal. Sem prejuízo que estou longe de subscrever algumas das suas conclusões, Morin, e muito bem, alerta para as dificuldades de compreensão que arriscamos em relação ao mundo que aí vem, se não formos capazes de aceitar, desde logo, três conceitos: ambiguidade, ambivalência e complexidade.

Sem entrar em grandes dissertações, que dificilmente caberiam nos limites de um post, julgo que Morin nos lança, desde logo, um grande desafio, em particular para um Europa fechada sobre si própria, em defesa do seu status quo: as crises agravam as incertezas, favorecem as interrogações, e podem estimular a busca de novas soluções. Pese embora, em sentido inverso, provoquem em muitos “reacções patológicas“, que conduzem, “por exemplo, [à] designação de um bode expiatório“. Morin apela a que sejamos capazes de, por um lado, (1) sermos sensíveis às contradições, para que as possamos ultrapassar, ao mesmo tempo que (2) abrimos o nosso espírito à aceitação da incerteza, seja ela (2.1.) cognitiva ou (2.2.) histórica, no sentido em que é, no caso da primeira, impossível apreender todas as dimensões da realidade, e da segunda, porque a história, não sendo um processo fechado, não pode ser antecipável naquilo que há-de vir.

Morin acerta quando afirma que “(…) nos falta consciência da humanidade planetária (…) consciência que ainda não se desenvolveu (…)”. E acerta ainda mais quando alerta que, apesar disso, “(…) estamos condenados a avançar na ignorância (…)”, sem contudo nos resignarmos: “(…) Pelo contrário, devemos esforçar-nos por pensar bem, por elaborar estratégias com inteira consciência do que está em jogo (…)”. É nesta ambiguidade que somos forçados a evoluir, não sem não esquecer duas limitações básicas, que “(…) uma vez lançada, toda a acção entra num jogo de interacções e retroacções no seio do meio onde se efectiva, que podem desviá-la dos seus fins e chegar até um resultado oposto do esperado (…); e “(…) as consequências últimas da acção são imprevisíveis (…)”.

São estas últimas limitações que me levam a permanecer estruturalmente liberal, apesar do encanto de alguns escritos, e a estar longe de Morin naquilo que ele considera, ainda assim, a afirmação da estratégia, e de uma política de acção consciente, que eu defendo mais limitada, e até barrada na esfera da catalaxia hayekiana. Agrada-me ler a defesa de uma certa utopia do realismo, e duma abertura ao incerto e ao inesperado. Bem como o apelo a “(…) uma tomada de consciência da amplidão, da profundidade da complexidade que ateste um novo começo (…)”. Esta ecologia da acção continua a ser ainda assim demasiado centrada no homem como princípio e fim de todas as coisas, recusando que pelo menos parte da complexidade possa conformar-se por si mesma, obedecendo a dinâmicas próprias, a uma racionalidade não consciente, a leis que ultrapassam a capacidade política e a vontade dos homens. Se a ambiguidade, a ambivalência, e a complexidade, no sentido que lhes dá Morin, são noções importantes para percebermos o mundo, e ajudar-nos a afastar daquilo que são as ditaduras do pensamento único e o fanatismo ideológico, perceber as limitações da acção deveria conduzir Morin a uma maior coerência como encontramos em Hayek, reconhecendo sem hesitações o papel da Lei e das racionalidades não conscientes imanentes aos processos sociais e económicos.

Mas admito que seja difícil para quem sempre bebeu no humanismo, esforçando-se por o reinventar, avançar na negação de uma dimensão política para toda a acção, aceitando que, em muitos domínios, a melhor ecologia passe simplesmente por não agir: no sentido de descentralizar a acção para junto de cada um, gerindo a sua miopia e incerteza sob a inspiração do interesse próprio, como alternativa à centralização da decisão em quem, por vezes, apesar de dotado de uma certa vocação estratégica, vive igualmente limitado na miopia face à complexidade, e órfão do sentido de responsabilidade imanente ao facto de agir sem sofrer as consequências. Chegados aqui, poderíamos avançar para Rand, mas são horas de fechar as leituras e ir jantar.

Carta aberta ao Infante Tó Zé

Caro To-Zé Inseguro,

Escrevo-te esta missiva porque me dizem que aprecias a palavra escrita e valorizas algumas tradições que a ditadura dos mercados e o neo-liberalismo tecnológico eliminaram do debate político, com a sua “deslocalização” – a terrível “deslocalização” –  para plataformas on-line, facebooks, blogs, smartphones, e uma panóplia de ambientes virtuais onde todo e qualquer um tem direito à opinião (imagina, até o Paulo Querido consegue ter voz). Longe estamos do tempo em que o debate se fazia de forma ordeira, em salas luminosas, com o brilho novecentista, preenchidas pelas boas ideias que os mapas de excel – um destes dias tenho de te mostrar um – teimam agora em contrariar. Economicismos…

Hoje, ao ouvir-te na caixa mágica da televisão púbica, renasceu em mim a Esperança. Vejo em ti o Infante de que o País precisa para voltar a Sonhar. Sim, porque já dizia o poeta, Portugal só se concretiza na Utopia dos homens, que Sonham, para que a Obra nasça.

Sim, caro Infante, “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. E as tuas palavras, aparentemente inconsistentes, carregam essa ânsia de infinito, nesse sonho que “é ver as formas invisíveis, da distância imprecisa, e com sensíveis movimentos de esperança e da vontade, buscar na linha fria do horizonte a árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte – os beijos merecidos da Verdade”.

Sim, caro Infante, muitos te irão apontar que “o esforço é grande e o homem é pequeno”, e que o mostrengo, esse, por aí continua a pairar. “Esse mostrengo que do Centro da Europa, se ergue e paira e está aí sempre a cobrar, o que nós, Portugueses, insistimos em gastar”. Mas confiamos em ti, trémulo Inseguro, para que ergas as mãos várias vezes, e lhes digas, ao Mostrengo e aos seus lacaios, mesmo a tremer três vezes, “passa para mim o leme, porque eu sou mau, mas aqui, hoje, sou mais do que eu, sou eu e um povo que quer o dinheiro que é teu, e mais do que tu, troika, que a minha pobre alma teme, e rodas nas trevas do fim do mundo, manda a vontade que me faz querer o leme, de afundar o que ainda sobra deste Portugal Profundo”.

Sim, caro Infante, da pérfida Europa dir-te-ão, “Senhor, falta cumprir, Portugal”. Mas não te preocupes com isso, sempre foi assim, e já cantava também o poeta, “a alma é divina e a obra imperfeita, que, da obra ousada, é minha a parte feita: o por-fazer é só com Deus”. Sendo tu laico, e socialista, podes sempre mais tarde culpar os mercados, o sistema financeiro, a Goldman Sachs, e a senhora Merkel pelo fracasso.

O que importa é que o teu esforço vale a pena. E, diga-se, conhecendo as tuas limitações, a tua ambição não é pequena. Mas se queres ir além do Rato, é bom que deixes a palavra, e passes mais ao ato. De contrário, o Império não será teu. Mas do gajo que acabou de voltar de Paris.

Com amizade,

Zé Povinho

Um país, duas realidades

Hoje ficou claro que vivemos num país dividido, entre o Portugal exposto à concorrência, ao mercado, ao mundo exterior, e que tem de se adaptar para sobreviver e ser competitivo – basicamente, o sector privado não rendista, os mais novos e boa parte das famílias que suportam impostos – e o Portugal protegido, do status quo do regime, dos funcionários públicos, da máquina do Estado, dos pensionistas mais abastados, das corporações e das empresas parasitárias do sector privado, que não estão dispostos a suportar os custos da crise.

Há que assumi-lo com frontalidade: há violação do princípio da igualdade quando parte do país tem de suportar os desvarios de um Estado que teima em não se reformar, e que usa a Constituição para proteger os seus benefícios. A mesma Constituição que viveu adormecida quando caminhávamos para a catástrofe, e permitiu benefícios assimétricos, durante anos, como a ADSE, ou sistemas de reforma distintos entre Segurança Social e Caixa Geral de Aposentações, ou promoções acima da produtividade dos seus salários entre 2000 e 2010 de mais de 5%. Há um maniqueismo nas decisões do Tribunal Constitucional e nas iniciativas dos partidos políticos da oposição – e de algumas correntes irresponsáveis dos partidos do Governo – que põem em causa os fundamentos do Regime.

Hoje o Tribunal Constitucional mostrou como parte do país vive num profundo e objectivo egoísmo, em que a geração dos pais – certamente sem o sentir ou desejar – persiste em hipotecar o futuro dos filhos, em que uma série de gente inútil que vive na sombra do Estado continua a parasitar à custa do Portugal – ainda – produtivo, e que todos os dias “sofre” e promove todos os cortes e sacrifícios para permanecer competitivo.

Portugal não precisa de falsos consensos, mas de ideias claras, e de atacar os verdadeiros problemas. Precisamos de um novo contrato social? Sim. Mas a ruptura constitucional é inevitável, e ocorrerá, ou por iniciativa dos partidos, ou por falência do regime.

Toda uma nova narrativa sobre o conceito de circulação urbana

Se António Costa lê esta noticia, não se espantem se Lisboa passar a ser uma cidade geminada com Xangai:

A China constrói rotunda para peões

A China chegou à conclusão que era necessário construir uma rotunda para peões em Lujiazui, no distrito de Xangai. Trata-se de uma ponte circular, que fica cerca de sete metros acima da rotunda onde passa o trânsito, e tem entradas com escadas rolantes e outras escadas e rampas de saída.

A rotunda dá acesso à Torre Pérola Oriental onde se situa o centro financeiro da cidade, edifícios de escritórios e áreas de lazer como centros comerciais, restaurantes e cafés.

À noite, toda a estrutura está iluminada, garantindo o acesso aos peões.

Lições do regressado José Pinto de Suza

José Sócrates, na sua valise en carton trazia a lição bem estudada, tendo baseado a sua mensagem numa narrativa que desconstruiu a imagética criada em redor da sua governação baseada no preconceito ideológico. Todos ficamos a perceber de novo como as auto-estradas, as Energias Verdes, o Investimento Líbio e Venezuelano, e a aposta no cimento e betão das Escolas promoveram o progresso. O endividamento subjacente a estes investimentos, esse, é culpa da ganância dos mercados financeiros, esses patifes que teimam em cobrar juros altos a quem pede dinheiro emprestado para atirar pela janela.

Ficamos ainda a perceber que ao contrário do que acontecia nos anos 80, os socialistas que regressam de Paris, onde passaram uma temporada para se deslumbrarem com a Filosofia, já não citam Derrida, mas já só debitam uma dialéctica autojustificativa baseada no postulado “narrativa”, expressão que, dizem as estatísticas, foi repetida 57 vezes.

 

A “narrativa” está de regresso

Acabei de descobrir nos jornais on-line que José Sócrates se fartou de estudar filosofia e, menos de dois anos corridos sobre as eleições, aí está na Tugolândia, antes do fim do quarto semestre, para nos brindar novamente com as suas deambulações. Não vi a entrevista, mas fazendo fé no relato do Sol, a auto-explicativa expressão “narrativa” volta à imagética do serviço público, actuando como síntese dialéctica de tudo o que o nosso Querido Líder aprendeu em Paris. Lá vai o tempo em que a esquerda retornada de Paris nos fustigava com Derrida… Até no deslumbramento filosófico a Europa está em crise…

Adenda: Terminado o debate, as estatísticas oficiais não desmentem – a expressão “narrativa” venceu com maioria absoluta, tendo sido usada … 57! vezes!

La Palisse

Há uma série de pessoas em Portugal que se consideram iluminadas, porque, dizem, privilegiam a “política” face ao que classificam, depreciativamente, de “financês”. Muitos deles, são pessoas que foram para Direito ou outras áreas das humanidades, não por vocação pelas letras, mas porque, durante anos, reprovavam sistematicamente a matemática, e nunca foram capazes de calcular uma raiz quadrada.

Neste tempos difíceis que vivemos, quando discutem a solução para os problemas do país, à famosa “austeridade” contrapõem, com enorme propriedade, que é no crescimento económico e na criação de emprego que devem situar-se as prioridades da política doméstica e europeia. Não explicam, porém, como é que lá se chega. Aliás, e pelo contrário, defendem a pés juntos medidas que em tudo prejudicam quer o emprego quer o crescimento económico. Quando não se sabe somar nem multiplicar, mas apenas subtrair e dividir, é fácil fazer a quadratura do círculo. Difícil, mesmo, é lidar com a crise e a catástrofe a que estes “amantes da política” nos conduziram. Seria de rir, se a situação em que estamos não fosse de chorar.

Hoje, no Económico

A (des)propósito do resultado das eleições em Itália, hoje, no Diário Económico:

A democracia mais não é do que uma forma de eleger os nossos representantes.  Para assegurar um normal funcionamento das instituições é necessário ir além da mera soberania popular, é essencial que haja Lei, separação de poderes, e uma sociedade civil suficientemente forte que permita aos cidadãos respirar sem o constante jugo do Estado e dos impostos a limitarem as suas ambições e autonomia. Na Europa, conhecemos diversos sistemas políticos, diversas formas de confirmar a democracia e de a operacionalizar.

Um voto em Portugal, em França, ou no Reino Unido, tem pesos distintos. Portugal segue o método de Hondt que facilita a formação de maiorias. No Reino Unido as votações são binárias, de tudo ou nada, com deputados eleitos em círculos uninominais. Em França o Presidente efectivamente manda, não podendo dar-se ao luxo de estar calado. Há quem tenha Rainhas.

Em Itália, o Parlamento tem duas câmaras cujos representantes são eleitos segundo um método proporcional que conduz a uma maior fragmentação do Poder. Os italianos sempre valorizaram a formação de coligações e gostam de um sistema que força os partidos a entenderem-se. A politica italiana tem o seu lado pop, inaugurou, ‘avant la lêtre’, o estilo voyeur do ‘reality show’.

A politica italiana é fértil em figuras bizarras: recordo Negri, que usou a imunidade parlamentar para sair da prisão e fugir para França; Cicciolina, que deu nova significação à expressão “deputada”; ou recentemente, Berlusconi, o politico da geração Viagra. Visto do exterior, parece que para os lados de Itália a politica anda confusa. De uma forma ou outra, os italianos sempre se entenderam.

É que, apesar das deficiências e problemas, em Itália impera a Lei e a separação de poderes – até os presidentes de empresas poderosas vão presos, como aconteceu faz dias com o CEO da Finmeccanica, Giuseppe Orsi – e a sociedade civil é suficientemente forte para seguir calmamente o seu caminho, apesar dos devaneios do poder politico.

Rodrigo Adão da Fonseca, Gestor

Liberdade de educação

Vídeo

O Camilo Lourenço, neste vídeo, vem criticar as opções dos que decidem seguir “História”, ou outros cursos de baixa empregabilidade, alertando que estas pessoas não têm “utilidade para a economia”; deixa implícita a ideia que deveria haver um encaminhamento da formação para as áreas onde há maior necessidade do mercado. Erradíssimo. O problema da educação é mesmo este planeamento, este utilitarismo básico. O mercado deve organizar-se descentralizadamente. É esta a essência da mão invisível. As pessoas e os “jovens” devem escolher aquilo que sentem ser a sua vocação, lutar por ela, e não serem encaminhados para uma formação que os vai marcar para toda a vida. Liberdade, paixão, empreendedorismo, vontade de conquistar um espaço, sentido de responsabilidade individual, é isso que nos falta. Isso, e menos Estado a definir “vagas”. E um maior sentido de responsabilidade de cada um no momento em que escolhe aquilo que pretende para o seu futuro, sem que um planeador defina hoje o que deve ser a decisão de alguém que tem pela frente uma longa vida de realização pessoal. Hoje muitos “jovens” reclamam um emprego, porque foram “encaminhados” para uma dada formação, por uma sociedade que garante e promete, e depois não consegue cumprir. Estamos longe de perceber que nada é garantido, e que cabe a cada um de nós descobrir a nossa vocação, criar e lutar pelo nosso próprio espaço, numa sociedade mais livre. O Camilo Lourenço, jornalista corajoso e com as ideias no sítio, desta vez, baralhou-se.

Ora bem…

O opinador de serviço que o i nos oferece nesta peça é, imagine-se, o Presidente do Instituto Sá Carneiro. Aliás, foi por ser seguidor do Instituto Sá Carneiro no Facebook que tive acesso a tão valiosa pérola, digo, prosa. Viva a grande irmandade oca do centrão, onde todos se devem unir no vazio total rumo ao abismo. Convém nunca esquecer que este senhor, de nome Carlos Carreiras, um vazio total em matéria de ideias, é o Presidente do Instituto Sá Carneiro…

Eu gostei

Agradecendo o tema, o presidente do BPI  afirmou que “contrariamente à senhora deputada, eu tenho alguma experiência em criação de postos de trabalho e muitas pessoas valorizam a carreira que têm a meu comando”.

Eu trabalhei onze anos no BPI. E valorizo, e muito, o que aprendi, com a instituição, e com o próprio Fernando Ulrich, que é um líder de excepção.

Por uma sociedade mais aberta, mais eficiente, mais saudável

O regresso de Portugal aos mercados de dívida é um sinal positivo, mas não permite euforias. Faz parte do longo caminho de recuperação da nossa economia.

Noto que Portugal, mais do que acesso à dívida, precisa sobretudo de ser capaz de, no médio prazo, gerar riqueza suficiente para fugir da trajectória do endividamento. Para isso, temos de ir muito mais longe no combate ao desperdício, no culto da eficiência, na procura de soluções que possibilitem a diminuição dos impostos, e na capacidade de, individualmente e enquanto sociedade, sermos capazes de fugir do assistencialismo e assumirmos mais riscos.

O problema de Portugal não é financeiro. O endividamento não é a causa da crise, mas consequência, é o resultado inevitável de uma cultura de assistencialismo, aversão ao risco, falta de empreendedorismo e dependência de ideias de raiz socialista e corporativa que hipotecam o presente e o futuro do país. 

Por isso, sem prejuízo de ser um sinal positivo dadas as nossas circunstâncias actuais, festejar com euforia o regresso do país aos mercados de dívida, equivale a ficar contente por ver um viciado em heroína a voltar ao vício depois de um tratamento de metadona. Espero vir um dia a festejar o regresso do país a uma vida saudável, livre da dependência da acumulação de dívida para lá da nossa capacidade produtiva, sem défices. 

Políticos que nos dão música, ou o hit do momento:” fora com o FMI, a malta quer é rapotacho”

O país está quase a falir, mas no fim, haja consenso, fora com o FMI! O hit da política nacional é mesmo o “rapotacho”. Quando acabar, acabou, mas de preferência sem pensar muito no assunto, que debater e refutar dá muito trabalho:

PS quer eleições

Candidato a autarquia na periferia de Lisboa pede demissão de Carlos Moedas

Bagão defende a sua reforma justificando-se com a Constituição

Cavaco Silva tem dúvidas sobre a constitucionalidade dos cortes na sua pensão

Da magna (e inteligente) (in)actividade do Instituto Sá Carneiro

Li com atenção o famoso documento produzido pelo FMI e, ao contrário do Carlos Carreiras, não vejo qual o problema do seu teor. Pelo contrário, há aqui muita matéria para reflexão. Concordando-se ou não, o documento está bem feito, e como refere o Carlos Moedas, merece debate.

O que se esperaria de alguém que lidera o Instituto Francisco Sá Carneiro? Diria, que nos apresentasse as suas ideias sobre a refundação, e até, sobre muitos dos aspectos avaliados pelos técnicos que prepararam o documento do FMI. Pelo contrário, o que se lê no FB do Carlos Carreiras é um pedido pavloviano de demissão de uma das pessoas mais assertivas e trabalhadoras deste Governo.

Esforçado que sou, procurei saber o que pensa Carlos Carreiras sobre os temas em análise. Sendo Presidente do Instituto Sá Carneiro, e em visita ao site, constato, porém, que por ali nada se tem passado de relevante (e até de irrelevante), nem conferências, nem estudos, nem produção de pensamento digno desse nome, que ajudem o PSD e os curiosos como eu à reflexão. E depois espanta-se Carlos Carreiras que haja no PSD quem elogie o que nos oferece o FMI: talvez o Carlos Moedas pudesse igualmente elogiar o produto do pensamento recente do Instituto Sá Carneiro, se ele realmente existisse. 

Sendo eu paciente, fico a aguardar pelos contributos inteligentes de Carlos Carreiras e do Instituto Sá Carneiro sobre os temas em discussão, para rebater ou elogiar. Esperamos que a campanha autárquica não atrapalhe, nem tenha sido o motivo – nããããooo, claro que nããooo – do rasgar das vestes contra o Carlos Moedas.

Pela liberdade de escolha

Mais uma razão que justifica a defesa urgente da libertação que seria, para os mais novos, um regime de opting out (“saída voluntária”) da Segurança Social, face ao esbulho que esta representa, agora com consequências penais agravadas. Pagas hoje, não recebes, e se te descuidas, ainda acabas na prisão?

Eu aceito financiar a liquidação progressiva do sistema, com impostos, desde que me libertem do ónus que é a manutenção cega do actual regime, até à sua falência, agora isto?

JCR, o apóstolo da inimputabilidade, ou a consagração das máximas de Protágoras

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João Cardoso Rosas arranca o ano com uma pérola que mostra que o happy new year não benze todos, e que para alguns mais não é de que um acaso, uma marca de calendário. O registo é o mesmo de sempre. Fico impressionado como é que se pode dissertar sobre a “culpa”, ignorando olimpicamente conceitos simples como a responsabilidade, a liberdade, e a distribuição das consequências pelos actos praticados. Não tenho uma visão unívoca sobre a “culpa” no quadro da crise em que nos encontramos – distribuir responsabilidades é um exercício complexo, e bastante injusto nas generalizações, sobretudo quando aplicamos categorias colectivas ou corporativas na nossa grelha de avaliação, tipo, “as famílias”, “os funcionários públicos”, “as empresas” – mas em qualquer caso é chocante ver como se consegue dissertar sobre certos conceitos, fazendo tábua rasa daquilo que são os pilares fundamentais de um Estado de Direito e da democracia liberal, tal como a conhecemos no mundo ocidental. Como recomendaria Maquiavel, tudo serve, desde que se cumpra o magno objectivo de penalizar Passos Coelho e as pessoas que, segundo JCR, absorveram “acriticamente” a “estratégia de comunicação do Governo”.

Se houvesse um prémio para este tipo de sofismos, para este culto da verosimilhança ao serviço do mero argumento, JCR seria um forte candidato a um Protágoras de Ouro.