E imaginem o que se diria do Governo se fosse realmente de Direita…

O que me cumpre dizer sobre esta a entrevista de Freitas do Amaral:

«Vivemos num período de forte retrocesso histórico, liderado pelo Governo mais à direita que Portugal teve nos últimos 40 anos, o qual vai procurando, dissimulada mas persistentemente, tentar realizar uma mudança constitucional de forma inconstitucional que apresenta traços característicos de regresso ao um passado que julgávamos irrepetível», acusou.

(…)

«A primeira linha tem pertencido e há-de continuar certamente a pertencer ao Tribunal Constitucional (TC). A segunda compete aos políticos no ativo de todos os quadrantes políticos e, de modo especial, aos verdadeiros sociais democratas e democratas cristãos que permanecem, ainda que silenciados ou marginalizados, no PSD e no CDS», declarou Freitas do Amaral (…)

Ora bem, “ser de Direita” dá direito a uma “acusação”, e uma suposta governação à Direita representa um “forte retrocesso histórico”. Para Freitas, a Constituição é uma espécie de livro sagrado, um símbolo da vanguarda, que tem de permanecer imutável. Já as oposições internas no PSD e no CDS, essas, estão a ser “silenciadas ou marginalizadas”, mesmo que, na realidade, passem a vida a destilar ódio, ao sabor da pena, em tudo o que é meio de comunicação social. Estranha forma de opressão, esta, em que o oprimido é o opressor, o opressor é o oprimido, e o silêncio é exercido aos berros, no campo do dogma e sem direito ao contraditório.

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Estaremos quase a deixar de ser lixo?

Hoje, no Económico.

A agência de rating Fitch deu recentemente indicações sólidas de que estará eminente uma reclassificação da nossa dívida, que poderá deixar de merecer a classificação de “lixo”. Ao rever para “positiva” a perspectiva de evolução do rating da República Portuguesa, justificando tal decisão com aquilo que se considera serem os “os progressos positivos na redução do défice orçamental”, a Fitch confirma que a estratégia do governo, em matéria de monitorização do défice, começa a dar frutos. Em particular, o facto do Governo português ter conseguido cumprir a meta do défice, ficando 1% abaixo da meta de 5,5% do PIB (se excluirmos a recapitalização do BANIF) veio credibilizar, e muito, aquilo que está a ser a capacidade de Portugal conduzir um processo de estabilização orçamental que dê tranquilidade aos credores.

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Sobre a verdadeira natureza da supervisão bancária

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Num texto enviado ao jornal Público e divulgado hoje, Miguel Beleza, Teodora Cardozo, José da Silva Lopes, Artur Santos Silva e Rui Vilar defendem a atuação de Vítor Constâncio no caso BPN, afirmando que quem coloca em causa aquilo que foi feito pelo vice-governador não compreende a natureza dos bancos centrais e, em particular, das suas funções de supervisão bancária.

«A supervisão bancária não é um sistema de investigação de crimes financeiros. É irrealista a imagem criada de um supervisor que pudesse acompanhar em tempo real os milhões de operações que ocorrem a cada instante no sistema financeiro», referem.

Jornalismo em círculo

Vídeo

Na segunda parte deste vídeo, alguém pergunta ao jornalista do tempo, como é que ele faz as previsões. Ele responde, “consulto um site de previsão do tempo”. Que, provavelmente, faz as suas previsões consultando um outro site de previsão do tempo. Quem diz o tempo, diz em Portugal, muito do mau jornalismo económico que diariamente nos é oferecido. Consultam um site, que por sua vez, consultou um site, todos eles, de gente que vê a economia como uma ciência oculta ao serviço do socialismo.

Name dropping

Depois de juntar o status quo nacional, e para enganar papalvos, os subscritores do Manifesto usando o estilo Baptista da Silva “se-é-se-lá-de-fora-é-bom-e-não-vale-a-pena-pôr-em-causa”, foram buscar 74 professores com nome estrangeiro para dar a sensação que aquilo faz algum sentido. Não faz. Não conhecendo os 74, os que conheço, estão longe de ser grandes economistas. Mark Blyth, v.g, é um esquerdista muito pouco economista: é professor de Ciências Políticas, e não de Economia, numa universidade left hander nos EUA, a Brown University, sendo o centro da sua obra a “luta” contra a Austeridade; não é um autor de renome, em lado nenhum. Na mesma linha, nem vale a pena perder tempo a classificar James Galbraith como economista, que não é: Galbraith anda há anos a tentar ser o refundador do socialismo no Reino Unido, com o sucesso que se assiste.

Ressalto uma suprema ironia, ver os nossos “manifestantes” a rejubilar com subscrições de economistas como Carlota Perez. Carlota Perez é um nome muito forte, aliás, uma das minhas referências, num contexto muito específico, naquilo que se pode definir como economia da mudança num contexto de crise, no caso, a partir do conceito de destruição criativa, e na relação entre tecnologia e economia; do que lhe conheço, Perez será a favor do default pelas mesmas razões que eu próprio seria, o da destruição significativa das estruturas económicas mais frágeis (com as consequências que se imaginam no curto prazo), e da emergência a médio prazo de uma economia competitiva, ideia que, em Portugal, se fosse a votos, não acolheria apoio de nenhum dos partidos políticos com representação parlamentar. Rejubilem. E tragam a Carlota Perez cá, para numa conferência apresentar as suas razões.

Quizz Insurgente

A propósito do conteúdo deste Manifesto aqui, escolha uma (ou mais do que uma) das seguintes opções:

1. O António Paço está a gozar;

2. O António Paço acredita mesmo no que escreve, e sofre de um culto da personalidade incompatível com o colectivismo imanente das doutrinas de esquerda;

3. O António Paço é casado com uma das 25 pessoas que destaca (e não, não estou a pensar nem no Maomé, nem no Buda, nem no JC, nem no Platão).

Palpites na caixa de comentários. Há um prémio para o primeiro que acertar.

Hoje no DE: “A panaceia da reestruturação de dívida”

Hoje, no DE:

Há um provérbio que diz, “mais vale casar com uma mulher inteligente, bonita e rica, do que com uma burra, feia e pobre”. Lembrei-me disto quando me perguntaram se eu seria a favor ou contra uma reestruturação da dívida: óbvio que gostaria de beneficiar de 1) um abaixamento da taxa média de juro, de 2) um alongamento dos prazos da dívida para maturidades superiores a 40 anos, e de 3) reestruturar, pelo menos, a dívida acima de 60% do PIB.

O problema está em que os 70 do Manifesto acham possível impor esta reestruturação à força ao maior credor, e continuam a acreditar que é imprescindível reestruturar a dívida para crescer, mantendo o respeito pelas normas constitucionais. A sério, está lá, não estou a gozar.

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Sobre a famosa “reestruturação de dívida”

A propósito do que aqui escreve o João Cortez, e sem discordar, gostaria de fazer um ligeiro ponto de ordem num dos aspectos abordados.

Ora bem, se em vez de canalizarmos recursos para o reembolso de dívida os alocarmos ao nosso consumo interno e ao nosso investimento, tal tem provavelmente um impacto positivo imediato superior à mera amortização de dívida. Se compensa mais ou menos face à amortização depende do bom uso que se faça dessa liquidez face aos juros adicionais suportados com a dilação do prazo (é esta a medida do custo de oportunidade).

A falácia associada ao raciocínio da reestruturação dos 70 do Manifesto está, na minha opinião:

  1. Desde logo, no facto da decisão de “reestruturar” não depender da vontade, por absurdo, de 100% dos portugueses; ora, nenhum credor vai aceitar participar num cenário destes enquanto Portugal não for capaz de demonstrar capacidade para gerar saldos orçamentais positivos de uma forma consistente;
  2. Em segundo lugar, porque pelo menos 1/3 do stock de dívida está em mãos nacionais, pelo que a reestruturação integral da nossa dívida abre um outro buraco, de solvência dos bancos e da Segurança Social; só faz sentido falar numa reestruturação ao longo do tempo, numa lógica de “cherry picking”, isto é, negociando credor a credor (à medida que seja necessário e oportuno) em vez de negociar em “pacote” (algo aliás que só se faz em “desespero de causa”, já que prejudica e muito a posição do devedor);
  3. Em terceiro lugar, porque reestruturar para garantir um status quo de desperdício de recursos nas mãos do Estado, adiando as suas reformas, caucionando a lenta agonia do nosso sistema constitucional, me parece em si uma desgraça.

Daí que para mim a ideia abstracta de reestruturação de dívida não seja essencialmente negativa, sendo má pelo contexto em que é defendida e naquilo que na cabeça de alguns a motiva. O Manifesto dos 70 é essencialmente um (mau) documento político, que nem sequer atende ao que poderia ser o interesse de Portugal no quadro de uma efectiva reestruturação. No fim, visa manter um dado status quo constitucional, que é precisamente o contexto que nos trouxe até à situação desgraçada em que nos encontramos.

O Insurgente (versão canal Memória)

José Pacheco Pereira acusa com frequência de haver em Portugal “pouca memória histórica”. Entre os meus múltiplos defeitos, esse é um dos poucos que não me assiste. Na linha do meu mau feitio militante, decidi fazer um pequeno exercício de recuperação daquilo que Pacheco Pereira foi escrevendo, algures no tempo, com veemência. O resultado, que terei o prazer e o gosto de ir por aqui publicando, é particularmente interessante, e mostra bem como em Portugal é possível defender tudo e o seu contrário, passando entre os pingos da chuva, mantendo o ganha-pão como bulshit-maker. Todos na vida podem mudar de opinião. Deixo por isso os juízos sobre coerência – e, até, sobre a flexibilidade da coluna vertebral – do autor, para os nossos leitores.

Comecemos por um divertido texto, escrito em 2006, nas vésperas das Presidenciais, sobre Mário Soares:

Escrevi já há muito tempo, porque na nossa vida política meses são séculos, que a questão de dinâmica política mais relevante que parecia estar por resolver nesta campanha eleitoral, era a de saber se iria ou não haver bipolarização nestas eleições. A dias de eleições, já se verificou que essa bipolarização não existiu: foi Cavaco contra todos e nem Soares, nem Alegre conseguiram de forma inequívoca aparecer aos olhos da opinião pública como “o” opositor de Cavaco. Esta foi a principal derrota da campanha de Soares, que foi conduzida apenas com esse objectivo central: mostrar que era Soares o anti-Cavaco, o único que lhe impediria o “passeio”, e parece não ter resultado. Alegre terá descolado de Soares, sem contudo gerar um efeito de bipolarização com Cavaco, e, se tal se confirmar nas urnas, ficando em segundo lugar, dará um conteúdo quase trágico ao fim de carreira política de Soares. Soares ver-se-á recusado quer pelo eleitorado que prefere dar o “passeio na Avenida ” a Cavaco, como ainda por cima será recusado pelos socialistas. O “soarismo” no PS, que já estava bastante enfraquecido antes das presidenciais – penso, aliás que este foi um factor que levou Soares a concorrer -, tornar-se-á então residual.

Muito da Venezuela é também Portugal

Quantos milhões de portugueses e luso-descententes vivem na Venezuela? Quantos deles têm estado nas ruas a lutar pela sua liberdade? Como pode um país, que se entusiasma tanto sempre que CR7 vence um prémio, que cai em comoção colectiva quando as nossas cidades são reconhecidas como pólos de turismo no estrangeiro, que se indigna com uma suposta “fuga de Mirós” para um leilão e de Fernando Tordo para o Brasil, estar a ignorar olimpicamente o drama dos Venezuelanos, e dos muitos portugueses que lá residem. Há que não esquecer, e eu não esqueço: a Venezuela é também Portugal.

Crónicas da idade da Pedra

O HM descobriu que o mundo é feito de mudança.

Consta que houve um gajo na Idade da Pedra que meteu o dedo no fogo e aprendeu que aquilo afinal queima. Curiosamente, depois apercebeu-se que o fogo ajudava a cozinhar os alimentos e, sobretudo, a fundir o bronze; a seguir percebeu que podia fundir também o ferro. Desde aí a Humanidade tem vindo a ser construída em constante mutação, destruição, evolução e revolução. Pelo caminho morrem conceitos, produtos e utilidades, que são substituídos por novos conceitos, produtos e utilidades. Feitas as contas do deve e do haver, a Humanidade tem sido capaz de perseguir aquilo que é próprio da sua natureza: a busca constante da satisfação das necessidades humanas crescentes. 

Ao contrário do que diz e escreve o HM, os robots não são uma ameaça ao emprego, nem têm “transformado cada vez mais trabalhadores em espécie de escravos do trabalho, com os seus salários a descer abruptamente e os horários de trabalho a aumentar”. Pelo contrário, criam oportunidades de trabalho, novos empregos, mais sofisticados, e mais bem remunerados. Aliás, mesmo em Portugal, não há evidência de diminuição de salários, nem a introdução de robots conduziu a uma menor remuneração do factor trabalho.

O que há, sim, é um sacrifício de empresas e pessoas que não se adaptam às novas realidades, ou não se querem adaptar. E nisso, de facto, há uma franja em Portugal que não se adapta, outra que não se quer adaptar, e ainda uma outra que não deixa que as pessoas se adaptem, mesmo que o queiram.

No fim, por esse mundo, novas profissões nascem todos os dias. Há gente que não se fica apenas pela queimadura, quando descobre que o fogo afinal pode ser nocivo. Há quem depois da crise e das revoluções tecnológicas recentes tenha avançado para a idade do bronze e, até, quem já esteja na idade do ferro. Não apenas por esse mundo fora. Mas também em Portugal. Por isso a economia cresce, o PIB mundial cresce, e todos os dias em termos líquidos mais gente sai da pobreza. Em Portugal, há hoje menos desemprego, porque a economia está a produzir, e a exportar. Há menos emprego no sector da construção e dos bens não transaccionáveis, e mais emprego por causa daquilo que transaccionamos com o exterior. Robots? Venham eles. Nós, por cá, até os exportamos. E esperamos no futuro exportar muito mais.   

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/o-que-fazer-aos-desempregados-num-mundo-de-robots=f855834#ixzz2tIybyakp

Reformados ao Poder

Portugal é um país de paradoxos. Um dos que tenho mais dificuldade em resolver é porque raio se dá tanta voz a reformados, em matéria de reforma do Estado, sobretudo aos que já estão em clara perca de capacidades cognitivas e de bom-senso. Portugal vive uma situação de crise, em que muitos exigimos resultados hercúleos aos governantes – que, diga-se, estamos longe de atingir (a dimensão da asneira vai obrigar a duas décadas de persistência, isto se tudo correr razoavelmente). E a quem é que os media recorrem obsessivamente para obter opinião sobre as políticas e as reformas em curso? A reformados que não querem que mude coisa nenhuma. Todos os dias temos que levar com manchetes com declarações “bombásticas” em defesa do status quo de personagens como Soares, Ferreira Leite, Bagão Félix ou o Bispo Vermelho das Forças Armadas. Hoje entrou em cena o General Garcia Leandro.

Senhores jornalistas, “reformado” está longe de significar, pela natureza das coisas, “especialista em reformas“, mas na maioria das vezes “senador que venceu no status quo que hoje se pretende reformar” ou “pessoa que já não exerce funções, ultrapassado pela dinâmica da realidade e da mudança“. Não me interpretem mal, há muitas pessoas (raramente ouvidas pelos media) que, pela sua experiência, podem contribuir para dar corpo a diagnósticos e ajudar nas reformas e nas mudanças; nenhuma dessas pessoas, porém, promove defesas apaixonadas para que não se mude-coisa-nenhuma ou exercícios egocêntricos e de mero ataque pessoal, sendo normalmente vozes de bom-senso e ponderação. Que é o que, infelizmente, não se vislumbra nas afirmações do General Garcia Leandro, que não critica, apenas insulta, com argumentos gratuitos e rasteiros, que em nada honram o seu percurso.

“O futuro da ADSE”, hoje, no Económico

Hoje, no Económico:

O Estado impõe um SNS a todos os cidadãos mas depois alimenta um subsistema consumidor de recursos reservado a uma parte dos funcionários públicos.

Friedman viveu numa época de prosperidade económica e demográfica num ambiente cultural dominado pelo socialismo. Profundo conhecedor do magnetismo das políticas de base socialista, Friedman defendeu que o combate ao ‘mainstream’ não deveria ser feito contrariando os que apelavam à sedução de um futuro sem esforço. De nada valeria tentar combater a “tirania do status quo”, uma espécie de inércia socialista fortemente enraizada na sociedade civil e no universo estatal que limita a mudança de paradigmas. Restaria aos espíritos mais livres manter “as opções em aberto até que as circunstâncias tornassem a mudança necessária”.

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Fundação Elipse, ou o eclipse das nossas Finanças Públicas

Agora que se revelou uma enorme paixão dos portugueses pela Arte Contemporânea, essa nova fenomenologia do ter, como muito bem a descreve o Mário Amorim Lopes, é hora de homenagear esse grande mecenas que dá pelo nome de João Rendeiro, que à semelhança do BPN deixou aos portugueses um banco falido, mas possuidor de uma belíssima (?) colecção de Arte. Registem este nome. “Fundação Elipse”. As obras não estão na cave da CGD, mas parece, algures em Alcoitão. O site da Fundação já não funciona. Mas quem quiser perspectivar a dimensão do buraco, convido a lerem a descrição do insuspeito Alexandre Pomar, aqui, publicada em 2006. Se for para ficar em Portugal, quero o Baldessari para mim, ok?

O futebol é uma ciência fascinante

Uma das coisas fascinantes do futebol é a gestão das expectativas dos adeptos. Um clube de bairro pode ficar feliz por chegar aos oitavos de final da Taça de Portugal; há adeptos que vivem eufóricos durante a pre-época, alimentando as receitas dos jornais desportivos. Há ainda os que exigem ganhar sempre. Dito isto, constato que o pior FCP dos últimos 25 anos é segundo, à frente do melhor Sporting que temos visto desde que há televisão por cabo. Já o Benfica lidera, à curta distância de um empate com o Estoril e de uma chapelada do Kelvin Mateus de Oliveira. Aguarda-se com serenidade as cenas dos próximos episódios. O final, como em qualquer boa novela, é quase sempre feliz.

Da penhora da sanita das Antas como inspiração para a construção do Estádio WC

Verdade, Rui Carmo, parece que em tempos a Administração Fiscal, seguindo aquilo que é a fixação sulista por WC’s, penhorou a retrete do velhinho Estádio das Antas; a mensagem subliminar que passou – e daí a indignação do povo – é que o Poder Central aspirava a capturar, compulsiva e literalmente, o “trono” do Pinto da Costa.

O Sporting nisso foi mais longe. Anos mais tarde, e para os lados de Alvalade, a inspiração estética para a construção do novo estádio acabou por ser esta temática do grande “WC”. Como que se construindo um Palácio WC tal permitisse ao Sporting encontrar o caminho das vitórias e conquistar o “trono” do futebol. A democratização da Arte dá espaço para a afirmação de paradigmas que elevam os hábitos e os padrões do cidadão comum à categoria de valor estético; é conhecida a luta do Arquitecto Taveira neste plano, não sem polémica, mas com obra feita, que vai da arquitectura ao cinema amador. Esta ideia de elevação da vulgaridade tem feito o seu caminho. Daí que não me espante o recente interesse do Abramovich das Sanitas em adquirir o clube leão.

LIVRE, o partido da “unidade” à esquerda

Ora bem, muitas pessoas interpretaram a chegada do LIVRE como uma tentativa de “unificar” a esquerda, em virtude daquilo que o seu principal promotor, Rui Tavares, apresentou como sendo a mensagem de unidade do novo partido.

Julgo que o Rui Tavares tem sido mal compreendido. Desde os seus tempos do Bloco que ficou claro que “unidade”, para Rui Tavares, significa literalmente isso, “unidade”, e não “unificação”, “união”, “convergência”, e todas essas coisas que temos lido e visto por aí.

A recente cisão no LIVRE prova isso mesmo. O Livre é o Partido da Unidade, na definição etimológica, “objecto único”, e foi criado “unicamente” para salvaguardar o futuro político do seu líder.

Oligarca das Sanitas quer comprar Estádio de Alvalade

O estádio da Luz parece que se tornou numa lixeira. Já para os lados do Campo Grande, constou-me que um russo multimilionário, ao que parece, o Oligarca das Sanitas que está por trás dos fornecimentos em massa para os Jogos Olímpicos de Inverno, está interessado em comprar um clube em Portugal. Dizem que por razões estéticas, o Estádio de Alvalade o apaixonou irremediavelmente. Os tempos estão complicados no eixo da 2.ª Circular.

Um país de Condes de Abranhos – do calote a património nacional

Para se perceber o ridículo em redor dos quadros de Miró, seria interessante relembrar como é que os quadros chegaram a Portugal.

Ora bem, nos tempos áureos do BPN, o banco contratou para seu “assessor” em Espanha uma jovem promessa que, genro de Aznar, assegurava todo o pedigree necessário para negócios “artísticos”. Aparentemente, um coleccionador espanhol, em dificuldades financeiras, estava a procurar vender uma colecção de Mirós, supostamente avaliada em 150 milhões de euros, colecção essa que não encontrava comprador. Eis que o jovem Alejandro Agag e Oliveira e Costa descobrem uma forma fabulosa de resolver o problema: financiamento ao dono da colecção, sendo a mesma apresentada como garantia. Ao fim, parece, da terceira prestação, o cliente entra em incumprimento, e o BPN apodera-se da colecção. Um caso de polícia, diria, que fez com que o BPN adquirisse uma colecção sem qualquer relevância para o banco ou para Portugal – 85 Mirós a monte não fazem uma colecção coerente do ponto de vista museológico – e que nem sequer estava a ter mercado junto de clientes particulares.

No parolismo nacional, há quem ache por cá que aquela colecção tem imenso interesse patrimonial. Portugal, e em especial a nossa classe política, está cheia de Condes de Abranhos.

O país que não fode nem sai de cima

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Portugal é um país curioso. Durante anos, reguladores, deputados, governantes de vários quadrantes políticos, assistiram impávidos e serenos à falência do BPN e aos inúmeros casos de policia que por lá se foram acumulando. Chegada a hora de nos desfazermos daquela trampa – e ninguém duvida que se há pessoa em Portugal que gosta de arte contemporânea e paga por isso, sou eu – logo acordam as virgens ofendidas em defesa do património público. Se este fosse caso único, daria para rir. Como há uma longa escola de gaj@s em Portugal, curiosamente, pessoal com apetência pela política, que não fode nem sai de cima, é caso para chorar.

E o bom-senso começa a imperar

Sindicatos de Viana viram a página no processo dos estaleiros

A União de Sindicatos de Viana do Castelo admitiu ter perdido a guerra no processo dos Estaleiros Navais. Os sindicatos que representam os trabalhadores defendem que chegou o momento de encarar a realidade e olhar para a nova empresa. A União de Sindicatos reuniu-se com o ministro da Defesa e disse que Aguiar-Branco tem boas perspectivas em relação aos dois navios asfalteiros encomendados pela Venezuela.

Ver reportagem, aqui.

Faz sentido a existência da ADSE?

Este texto do Ricardo Costa no Expresso online tem subjacente um erro de análise que, diga-se, é recorrente: lança uma crítica ao que crê ser o liberalismo, como se estivéssemos perante uma doutrina utilitarista. Já nem falo na forma como dá por certa a ideia defendida por Paulo Macedo que “a ADSE é financeiramente auto-sustentável”, sem se questionar quais são os pressupostos dessa suposta auto-sustentabilidade, ou na conclusão de que quem não está com Paulo Macedo só podem ser “espíritos liberais menos informados ou transeuntes do Compromisso Portugal“, que recusam “a realidade” movidos pela “ideologia” .

A tal realidade apresentada por Paulo Macedo que Ricardo Costa considera ser a base de “uma lição”, do ponto de vista numérico, está cheia de falácias: há informações sistemáticas que demonstram a esquizofrenia que é a existência de uma ADSE, tal como ela hoje existe, um sistema financiado por descontos dos funcionários, das entidades patronais públicas, pelo Orçamento do Estado, e pelas contribuições directas das instituições públicas empregadoras. Para Paulo Macedo, a ADSE é financeiramente auto-sustentável, na medida em que todas estas entidades sejam capazes de contribuir para a sua sustentabilidade. Ricardo Costa, pessoa informada, satisfaz-se com esta auto-sustentabilidade que segue as correntes “realistas” do Senhor de La Palisse. Eu, “liberal menos informado”, não. Não me sinto obrigado a aceitar a realidade desenhada com os pressupostos gizados por Paulo Macedo, e não me considero “menos informado” por isso.

Mas as minhas reservas em relação à ADSE não são apenas numéricas Ou, antes de serem numéricas, são mesmo políticas. Eu, enquanto “liberal menos informado”, estou preocupado com a eficiência económica, e não nego que há no liberalismo muitos conceitos úteis para, no plano das respostas, encontrar as melhores soluções para promover a eficiência económica. Mas a eficiência está num plano imediato, não sendo esse para mim e para os liberais mais estruturados, um elemento nuclear das correntes que advogamos. É politicamente incorrecto, nos dias que correm, falar em valores mas é no plano moral - e não num suposto “eficientismo” económico – que radica o núcleo fundamental do liberalismo, a sua finalidade última (in casu, na defesa da liberdade e da propriedade dos cidadãos contribuintes), sobre o qual se constroem a jusante muitas teorias, nomeadamente, de base económica, que ajudam a encontrar soluções no plano das respostas. Um liberalismo bem estruturado não é fundamentalmente utilitarista, pese embora possa ajudar a encontrar soluções políticas que permitem às sociedades serem economicamente mais eficientes.

Dito isto, junto a minha crítica à existência da ADSE, publicada a semana passada no Económico, e que não se situa apenas – nem sobretudo – no plano da eficiência, mas a um nível moral. O que questiono é se no quadro das opções do nosso Regime – no fundo, no contexto do nosso “Contrato Social” – é moralmente justa a existência de um subsistema com as características da ADSE. Sem prejuízo daquilo que são, a jusante, as críticas que se podem fazer ao mau funcionamento e ao modo de financiar este subsistema recheado de rent seekers, as quais são derivações do problema moral que lhe dá origem à ADSE.