Parece que os “jovens” - essa categoria esotérica - não sabem nada de “política”, nem querem saber do 25 de Abril. Não “vivem Abril”. Não saem à rua a cantar músicas do “Zeca”, todos vestidinhos com t-shirts da Comissão Nacional da Luta Contra a SIDA, ou de campanhas do tipo “Todos Diferentes, Todos Iguais”, de Cartão Jovem e cravo na mão. Crime “lesa majestade”, dos políticos, porque se os políticos se preocupassem, os “jovens”, que são uns gajos acéfalos, iam “amar” o 25 de Abril, e a política, foi isso que me pareceu ouvir da boca do Visconde de Boliqueime quando decidiu puxar as orelhas aos “políticos”, culpando-os por este distanciamento. Os “jovens”, esses, não têm opinião própria, se estivessem “informados” e os políticos estivessem “próximos da população”, iam amar o Parlamento, e o Presidente, e essas coisas.
O puxão de orelhas até que faz algum sentido - faz sempre sentido puxar orelhas aos políticos (na linha da máxima, “puxa as orelhas a um político, mesmo que não saibas a razão: ele sabe, e merece“) - mas será que o problema dos jovens é de “informação”? Será que uma larga maioria dos “jovens” não sentirão desprezo por uma revolução que fabricou uma Constituição miserável, que ainda sonha com a utopia socialista, mesmo depois de terem caído todos os muros? Que estão distantes de um regime que lhes oferece uma legislação laboral rígida, que os deixa fora do mercado de trabalho, e os empurra para a emigração? Será que não detestam a “Geração de Abril”, que suga recursos para pagar as suas reformas, conscientes que, quando chegar a sua vez, a Segurança Social vai estar falida? Que torra milhões e milhões em megalomanias, tipo obras públicas de necessidade duvidosa, para manter a economia viva, embora “ligada à máquina”, mas com uma viabilidade apenas de curto prazo?
Parece que os “jovens” não querem saber da política; mas, tanto quanto se vê, a classe política tão-pouco quer nada com eles; a geração de “Abril”, que politicamente não se sacrifica, para permitir que o país seja um pouco melhor para as gerações futuras, que só pensa no seu umbigo, merece bem o desprezo dos “jovens”; este Portugal, de facto não abre grandes perspectivas, nem tem lá muito interesse: quem já levou com o Cavaquismo, o Guterrismo, o Barrosismo e o Santanismo, e vive agora em pleno Pinto de Sousismo, em versão socrática, se não quer saber da política, e prefere fazer outras coisas, é porque tem lucidez … ou, num exercício de masoquismo, ainda devíamos cantar, em pleno feriado, logo de manhã, “Grândolas, Vilas Morenas”, de rabo para o ar, virados para Meca?
Talvez ninguém se tenha lembrado, mas o 25 de Abril não diz nada aos “jovens”, porque a sua mensagem - blasfémia! - imagine-se, faliu. O regime que lhe seguiu, também. Caiu a ditadura? Certamente. Obrigadinho, “camaradas” e “pás” (e, já agora, obrigadinho, russos, “amaricanos”, sul-africanos, cubanos e suecos, pela ajudinha). Diria, porém, que a “geração de Abril”, por esse grande contributo histórico, já se fez cobrar o suficiente. A dívida já deve estar saldada, não já? Não terá já chegado a hora de acabar com os agradecimentos, e deixarem para os outros um bocadinho do país? Acordem! senhores políticos, vivam no presente, pensem o futuro, abram os olhinhos, e larguem esses modelos, tipo, “Viver Abril”, que em quase todo o mundo civilizado estão bem enterrados, no fundo da gaveta.