Ideias radicais-moderadas para um Syriza português

Sendo a França e instituições francesas os maiores credores de Portugal, acho que chegou a hora de cobrarmos a esses gauleses as indemnizações nunca liquidadas pelos danos causados durante as invasões napoleónicas, bem como pelo extenso património que Junot, Soult e Massena levaram do nosso país quando batiam em retirada. Assim por alto, se juntarmos um coeficiente de actualização monetária, ainda que conservador, somos capazes de chegar a qualquer coisinha próxima dos 80% do PIB. Se for preciso arredondar, para dar conta certa, podemos sempre entregar os Mirós.

Corrida aos bancos na Grécia?

Não sei porquê, mas não me espantava que dado o ímpeto reformista que se assiste na Grécia, amigo da descapitalização acelerada do sistema, pouco faltará para que o mesmo povo que elegeu o Syriza, chegada a ressaca, inicie uma corrida aos bancos, à caça dos seus euritos. Começo agora a perceber melhor a escolha do ANEL, e a atribuição de pastas dentro do novo governo, já que na hora de distribuir cacetada há que manter a tradição e deixar esse trabalho sujo para a Direita – de preferência, para a má Direita, Nacionalista e com um quid de Fascista.

Syriza e UE, ou como tentar misturar água com azeite

Do que tenho percebido, o Syriza é um partido que na sua origem agregou uma série de forças políticas, reunindo populistas de extrema-esquerda, ecologistas, maoístas, trotskistas, eurocomunistas e eurocépticos. Assim de repente, diria que todas estas pessoas acreditam, profundamente, nos “amanhãs que cantam”, em sociedades onde o Estado detém os meios de produção, e na autofagia do capitalismo.

Aquilo que se está a tentar fazer na Grécia, parece, é misturar água com azeite. O Syriza é incompatível com as regras mínimas de uma economia de mercado e com os pressupostos do Euro e da UE. Chegados ao Poder, pergunto-me que motivação tem o Syriza para não perseguir o seu programa ideológico, de ruptura com as democracias liberais e com a economia de mercado, e de aceleração e busca da sua Utopia: a destruição do modelo capitalista e a afirmação de uma sociedade Socialista.

O clima “sempre-em-festa” e o rasgar dos compromissos firmados com a UE instalou-se dez minutos depois do Syriza tomar o Poder: reposição do salário mínimo em 751 euros, suspensão do programa de privatizações, reintegração dos funcionários públicos. Aguardam-se novos capítulos desta saga, mas a sensação que dá é que o novo governo da Grécia irá continuar a ignorar um por um todos os acordos assinados, sem sequer esperar pelo dia em que é suposto sentar-se com os credores à mesa das negociações. E é com esta postura de desrespeito unilateral dos compromissos assumidos com os credores que o Syriza se irá apresentar para iniciar o que chamam de “renegociação da dívida”.

Tenho pena dos gregos que se deixaram iludir por um bando de pirómanos, que vão por o País a arder. O fim desta história dificilmente vai deixar de ser trágico. A dúvida está em saber qual a extensão da desgraça que se avizinha, e que consequências vai ter nas redondezas…

 

Calotes gregos: reminder para portugueses de pouca memória

Convém recordar que a Europa tem feito pela Grécia o que não fez por mais nenhum Estado europeu, incluindo Portugal. Em 2011, por exemplo, a Grécia beneficiou de um extenso perdão de dívida, com a aplicação de um “haircut” em 50% da dívida, ou seja, quem detinha dívida grega, levou um calote de 50%. Em Portugal, por exemplo, BCP e BPI tiveram perdas de 590 milhões de euros pela sua exposição a dívida grega, dinheiro que certamente fez alguma falta ao nosso sistema financeiro.

Em troca deste perdão de dívida, a Grécia aceitou uma série de compromissos, que pelos vistos, chegados a 2015, parece que afinal não são para cumprir. Parece que por cá há quem ache isso muito bem. Só para lembrar que desta vez, se a Grécia não pagar, Portugal – ou seja, nós todos – ficamos a arder em mais de mil milhões de euros.

Para que se perceba a ordem de grandeza destes números, 1.700 milhões de euros corresponde a 4 vezes o saldo positivo que este ano a nossa Segurança Social gerou, dava para comprar 2 vezes os submarinos que tanta polémica têm gerado nos últimos 10 anos em Portugal, corresponde a 1,7 vezes a receita da sobretaxa do IRS, a 9 vezes a verba que destinamos em 2014 ao Ministério da Cultura, a 2 vezes a contribuição do Orçamento de Estado para a ADSE. Dava para sanear 4 buracos da TAP, e construir a totalidade da ligação ferroviária da Beira Interior, e a sua ligação a Espanha. E corresponde, se a memória não me falha, a 3 vezes o esforço que todos os anos fazemos em Portugal para financiar o Rendimento Social de Inserção, ou “Rendimento Mínimo”.

“Quantitative Easing” – o seu real impacto

Tem havido um deslumbramento, na minha opinião, excessivo, em relação ao sentido e alcance das medidas anunciadas pelo BCE que, não sendo novas (já em Setembro haviam sido apresentadas), impressionam pelos valores equacionados (60 mil milhões de euros por mês) e pela possibilidade dentre os activos tóxicos considerados poder incluir-se dívida pública.

Há uma incompreensão alargada na nossa opinião publicada, seja a protagonizada por agentes políticos, seja por jornalistas, em relação ao que tecnicamente representa este “quantitative easing e como se processa a capitalização do sistema financeiro.

Em primeiro lugar, como já havia referido em Setembro, no Diário Económico, a ausência de crédito na nossa economia não se deve tanto ao custo do capital ou à sua facilidade de acesso por parte da banca mas ao risco implícito dos balanços das empresas, que as desqualificam para a obtenção de crédito face às regras apertadas de solvência impostas nomeadamente por Basileia III e pelas diversas Directivas comunitárias de governação bancária sucessivamente aplicadas pelos que defendem “mais regulação”.

Há em Portugal bancos que estão com menor tracção na concessão de crédito, não porque tenham falta de capital para emprestar, mas por míngua de empresas com bons projectos que qualifiquem na brutal malha de risco que as regras prudenciais lhes impõem. As medidas de Draghi beneficiam alguns, nomeadamente vão possibilitar a melhoria dos rácios dos bancos, na medida em que permitem que muitos possam securitizar alguns activos que hoje penalizam os rácios de capital (v.g., activos imobiliários, obrigações corporate mais depreciadas). Agora, não se vê como tal securitização vai servir para cumprir a euforia geral que se sente em Portugal, nomeadamente como possa alterar significativamente a atribuição de crédito à economia, que não pela via lenta da qualificação das empresas em termos de risco, algo que o “quantitative easing” não resolve. A assunção de activos dos bancos pelo BCE, conjugada com uma política de juros baixos abre em qualquer caso uma oportunidade de “revolving” das dívidas das empresas mais alavancadas, possibilidade essa que não me parece que vá ser aplicada em toda a sua extensão, pois os bancos vão tentar incorporar o mais possível a margem financeira das operações.

As medidas do BCE destinam-se mais aos países com economias solventes e tecidos empresariais mais equilibrados, e pretendem combater a deflação (logo se verá com que efeitos), e não tanto a países como Portugal, embora uma parte da nossa economia já possa qualificar para o acesso ao crédito em condições vantajosas; em nenhum caso pretendem esconder as debilidades das empresas ou aligeirar as reformas estruturais que cada Estado tem de cumprir.

Uma nota adicional: entre a apresentação do programa de quantitative easing, em Setembro, e o mais recente anúncio, agora em Janeiro, o BCE alargou o programa de compras a dívida pública em mercado secundário, com a seguinte extensão:

“The ECB will buy bonds issued by euro area central governments, agencies and European institutions in the secondary market against central bank money, which the institutions that sold the securities can use to buy other assets and extend credit to the real economy. In both cases, this contributes to an easing of financial conditions.”

Esta medida pode permitir que algumas instituições mais expostas a dívida pública libertem os seus balanços, para comprar mais dívida pública; ou, quiçá, assegurar que o BCE está preparado para intervir rapidamente, em caso de default de algum Estado-membro, absorvendo activos que entretanto se tornem tóxicos (vem-me à cabeça a dívida grega que ainda possa estar a “pairar” por aí, nos balanços de bancos e fundos).

Boas ou más, mais ou menos eficientes, o que há que referir é que estas medidas estão muito longe de serem “expansionistas”, no sentido que alguma esquerda lhe tem dado, e não representam nenhuma viragem significativa nas políticas seguidas pela Europa, sendo antes uma forma do BCE procurar combater a deflação e estar (ainda mais) preparado para algum problema que a Grécia possa criar ao Euro.

A sublimação da responsabilidade na vontade (II)

Dando a vitória ao Syriza, ratificando o seu programa, os gregos sinalizam que querem que a Europa mude, sem que nada de substantivo mude na Grécia.

A vitória do Syriza prova ainda como o socialismo moderado caiu em crise profunda, não oferece soluções, estando refém do discurso radical. O PASOK desapareceu do mapa, em França o Partido Socialista perde terreno para os nacionalistas de Marine Le Pen, o mesmo acontece na Hungria; em Espanha, o Phodemos Podemos cresce no espaço político do PSOE. Quem confia que o renascimento das cinzas do socialismo europeu está nas mãos da capacidade que venha a demonstrar um grupo de 9 partidos de extrema-esquerda (que inclui pelos vistos maoistas, verdes, trotskistas e quejandos) liderados por um Tsypras sem experiência de gestão administrativa inverter a agonia de uma economia paralisada, profundamente corrupta e avessa a mudanças, aplicando um programa que objectivamente não é financiável, é no mínimo optimista.

Acresce que o Syriza vai ter de mostrar capacidades hercúleas para gerir, ao mesmo tempo, as distintas sensibilidades de 9 partidos que suportam a coligação interna, a sua relação com os credores – que dificilmente vão aligeirar as exigências de reforma – e com uma máquina administrativa, burocrática e, sobretudo, militar-policial, colonizada pelos partidos do sistema durante mais de 40 anos.

O que se desenha na Grécia, a despeito da mui nobre vontade do povo grego, é uma Tragédia que dificilmente terá um final feliz.

A sublimação da responsabilidade na vontade

A propósito da vitória do Syriza, muitos são expeditos em afirmar que esta é uma resposta do povo grego à Alemanha e às instituições europeias, que não deixou que a sua “vontade” fosse condicionada pelas “ameaças” lançadas pelos defensores da “austeridade”. E que está em curso uma “mudança” na política europeia, a partir da revolta grega.

Convém recordar os mais esquecidos que a democracia é apenas uma forma dos eleitorados escolherem os seus representantes e validarem políticas. A legitimidade democrática, porém, não tem por si um carácter regenerador, nem o condão de resolver os problemas miraculosamente. Entre “vontade” e “realidade” há um espaço amplo, onde alguma esquerda projecta o sonho.

A Grécia ao longo dos anos tomou opções que colocaram o país no caos. O facto de terem escolhido um partido que defende o fim da austeridade, a aplicação de medidas de grande impacto social (bastante caras) e a renegociação da dívida, não é crível que permita resolver muita coisa, pois o país não tem os meios para aplicar aquilo a que aspira. Acresce que a Grécia, sendo o país que se encontra em pior situação no panorama europeu, tem sido aquele que menos reformas estruturais conseguiu implementar, vivendo dependente do funcionalismo público, num ambiente corrupto e avesso a mudanças.

O Syriza é a síntese mais clara do socialismo, que vende a vontade paga com o dinheiro dos outros.

Agradar aos accionistas

Na UNICER Pires de Lima patrocinou uma série de rescisões polémicas para dar sustentabilidade ao negócio da empresa. Agora, na TAP, garante que ninguém é despedido. Uma coisa é certa, Pires de Lima nas suas novas funções mostra que não se esqueceu que um bom gestor é aquele que agrada aos accionistas eleitores.

 

Como é difícil a vida de diplomata angolano…

Rui Machete tem vindo a consolidar uma nova escola na diplomacia, inspirada nos Gatos Fedorentos. Os angolanos, por seu lado, estão habituados ao hard power na gestão das relações diplomáticas (como por lá se diz, licenciaram-se com os portugueses, fizeram mestrado com os cubanos e doutoramento com os russos); mesmo assim, há que admitir que não é fácil antecipar (não consta dos manuais) o que terá pensado Eduardo dos Santos cinco minutos depois de ter declarado que chegou ao fim o ciclo de mal-entendidos com Portugal ao ouvir as palavras de Rui Machete:

Machete diz que Portugal quer ajudar Angola e transmitir “experiência de austeridade”

Aceitam-se apostas:
Opção A: “Que é que eu faço com este gajo?”
Opção B: “O gajo é Rui Machete, ou Rui Manchete?”
Opção C: “iPhoda-se…”

“Interdependências”…

no Económico de ontem, a propósito das supostas pressões alemãs sobre o eleitorado grego:

A Europa tem vivido momentos de tensão, perante a iminência da vitória da extrema-esquerda na Grécia. O Syriza reclama o fim da “austeridade” e o perdão da dívida, como forma de promover a recuperação da economia e do emprego. Os gregos, mergulhados numa profunda crise, preparam-se para experimentar a receita que lhes é prescrita por Alexis Tsipras, agora apresentada sob uma forma pretensamente mais moderada. Em Espanha, a corrupção endémica que domina os partidos tradicionais deu espaço para a afirmação de uma nova clique demagógica, o “Podemos”, plataforma de extrema-esquerda que vende pela voz de um jovem líder carismático os velhos ‘clichés’ de sempre. Em França, Marine Le Pen representa um pesadelo para a esquerda, que tem vindo a perder votos para uma Frente Nacional. No Reino Unido, os nacionalistas são já a terceira força política, com um discurso consistente. Nos países do Centro e do Norte da Europa, seja nos partidos à esquerda seja à direita, sente-se um profundo cansaço em relação ao ritmo lento com que os países do sul cumprem as reformas negociadas com os credores.

À esquerda, muito se tem criticado a postura da Alemanha, dando nota que não tolerará desvios ao programa de ajustamento negociado com a ‘troika’. Hoje, porém, aquilo que se passa na Grécia, na Alemanha, ou em Portugal, tem impacto em toda a zona euro, não sendo possível exigir aos diversos Estados que abstraiam de processos políticos que interferem directamente na vida de todos nós. A soberania eleitoral do povo grego é total, mas não é crível que um país que tem uma dívida colossal nas mãos de instituições internacionais possa afirmar um programa de ruptura e não pagamento sem que provoque reações violentas dos credores.

A previsível vitória do Syriza irá abrir uma caixa de Pandora que há muito andava adiada, a da renegociação das dívidas soberanas, infelizmente promovida por uma extrema-esquerda deficitária que não quer pagar, para continuar tudo na mesma.

#JeSuisAhmed

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Talvez seja, de facto, a maior herói dos massacres de Paris, o polícia francês de origem muçulmana que morreu às mãos dos terroristas, para defender o direito à liberdade de expressão daqueles que satirizavam com a sua cultura e o seu povo. Tenho dificuldade em encontrar um exemplo maior do que este, do cidadão comum que morre no exercício das suas funções de cidadania, às mãos de uma tão grande barbárie. Mostra ainda toda uma outra realidade, a dos emigrantes integrados, uma grande maioria, que querem viver os seus valores mas no quadro da tolerância ocidental, como também alvos – e vítimas – do ódio do fanatismo islâmico.

#JeSuisAhmed

O fanatismo de Ana Gomes

O que é particularmente grave nas palavras de Ana Gomes é a tentativa de aproveitamento político de um ato vil, perpetrado por terroristas fanáticos, sem rostro nem origem definida; diga-se, em abono da justiça, que este tipo de gente nem sequer é representativa da totalidade do Islão.

Adiante. A vaga de ataques terroristas em terreno ocidental tiveram o seu início nos EUA, nos anos 90*, com máxima expressão nos ataques bombistas de Oklahoma City e na destruição das Torres Gémeas. Em 2004 transitaram para a Europa, muito antes da “austeridade”, ou do aparecimento de sentimentos nacionalistas com a expressão que hoje os conhecemos. Basta recordar os atentados de Madrid de 2004 ou Londres de 2005 para se perceber que não há qualquer relação entre o terrorismo islâmico e as pretensas razões que a senhora MEP apresenta, com total leviandade.

O nível de idiotice do que aqui se escreve atinge o seu zénite se pensarmos que quem governa hoje a França é o messias socialista Hollande, que a Frente Nacional de Marine Le Pen cresce à custa dos partidos da esquerda e encontra nos emigrantes de segunda geração – muitos deles, de origem islâmica – uma parte significativa dos seus apoiantes. Longe de mim, porém, culpar Hollande ou a França por aquilo que ocorreu.

Porquê? Porque o terrorismo islâmico não é fruto das dinâmicas ou divergências existentes entre a esquerda e a direita, nem tem qualquer relação direta com o sucesso ou o insucesso das políticas sociais de integração. França e Reino Unido são os países que mais investem, a par da Alemanha, nas políticas de integração, e nem por isso têm estado menos expostos aos atos fanáticos dos terroristas islâmicos. Os esforços franceses no sentido da integração, nos últimos 20 anos, de governos de vários quadrantes políticos, são aliás louváveis e merecedores do nosso respeito. Recorde-se finalmente que boa parte dos terroristas islâmicos não são pessoas de baixa instrução ou “desintegradas”, mas gente educada e com estudos, muitos deles doutorados e com posições de relevo nos países de acolhimento. Basta recordar o perfil dos indivíduos que se imolaram contra as Torres Gémeas, ou que praticaram os ataques em Madrid ou Londres, para perceber que o simplismo com que Ana Gomes aborda este tema há muito deveria ter tido consequências políticas – não nos prestigia ter gente tão ignorante a representar-nos no PE, ou onde quer que seja, que não num Grupo Folclórico.

O que está em causa são questões civilizacionais mais profundas, de choque entre uma visão pluralista, cosmopolita e tolerante daquilo que é a laicidade e o papel da religião na sociedade, e outra perspectiva, teocrática e pre-moderna, que recusa a tolerância e a separação entre Leis Religiosas e Estado. Não deixa de ser chocante que Ana Gomes misture questões de política corrente com algo de tão estrutural, que resulta do facto evidente de uma parte do Islão viver hoje num estádio de desenvolvimento cultural semelhante ao que se encontrava a nossa Cristandade na época da Inquisição. Receio, aliás, que se vivesse na Idade Média, Ana Gomes seria um specimen exótico de Torquemada, de saia travada e mão na anca. Graças a Deus (ou ao acaso do Destino), Ana Gomes só veio ao mundo em pleno século XX, pelo que as únicas vítimas dos seus devaneios são os nossos olhos e ouvidos e, já agora, o nosso sentido de paciência e tolerância, regularmente postos à prova.

(*) Convém não misturar a vaga de ataques terroristas ligados a conflitos regionais do Médio Oriente, como os da OLP, ou do marxismo arabista, com este tipo de terrorismo, que tem apenas como inspiração a recusa do Ocidente enquanto tal.

Sobre o direito à greve

  1. O direito à greve é um anacronismo nas sociedades atuais, um resquício, uma visão ultrapassada que ignora o que é o mundo contemporâneo civilizado. A greve traduz uma visão dialética, conflituante, das relações entre o “trabalho” e o “capital”, ignorando que hoje impera o interclassismo, a economia vive integrada, e o ambiente legal e institucional é suficientemente protector do trabalho, sem que se justifique por isso o recurso sistemático e banal a um processo profundamente destruidor de valor e que é tanto mais eficaz quanto mais prejuízos causa à empresa em si e aos clientes e utentes que dela dependem.
  2. A greve tornou-se infelizmente mais uma ferramenta política dos sindicatos-reféns dos partidos políticos da esquerda, e menos um mecanismo de defesa real dos interesses legítimos dos trabalhadores.
  3. Não deixa de ser relevante que a greve praticamente tenha desaparecido da realidade das empresas privadas, ao mesmo tempo que se tornou um expediente banal no sector público (incluindo empresas públicas). Hoje, em Portugal e em todo o mundo civilizado, impera um ambiente económico em que a empresa se faz, não de relações de conflito, mas de cooperação – uma cooperação por vezes difícil, é certo, mas sempre, de cooperação – entre accionistas, gestores, trabalhadores, clientes e fornecedores, numa teia complexa e multilateral. Muitas empresas em Portugal, que se encontram em dificuldades, são bons exemplos de como a cooperação, por vezes tensa, é certo, é a única saída, por vezes exígua, para a solvência. A destruição de valor não é hoje alternativa para ninguém, que não para alguns agentes sindicais e trabalhadores do setor público, uma ideia obsoleta que persiste nas cabeças da esquerda mais radical – que em Portugal continua a ser mainstream.
  4. Nas empresas públicas, no sistema educativo, nos hospitais, a greve continua a merecer um “carinho” especial por parte de “sindicatos-partidos” e dos que dormem no seu regaço. A greve, diga-se sem rodeiros, não é mais do que uma forma de causar atrito em favor de agendas políticas da esquerda, traduzindo-se num mecanismo agressivo de extorsão da sociedade que tem de pagar os custos da sua banalização – pois não há almoços grátis, todos pagamos, do nosso bolso, os custos das greves dos trabalhadores do metro, da TAP, dos professores, dos profissionais de saúde. Até ao dia em que não haja mais dinheiro para pagar, ou empresas viáveis para financiar. A TAP pode bem vir a tornar-se num primeiro exemplo deste fim-de-linha, dada a falência iminente, e o risco real de não haver quem a queira comprar.

Read my lips…

Os últimos dados sobre a TAP exibem uma empresa literalmente falida.

Posso estar completamente enganado, mas dificilmente vai conseguir-se encontrar quem esteja interessado em adquirir a companhia. Se em 2012, com as contas mais equilibradas, já foi o que foi – na hora da verdade, só apareceu um candidato “a jogo” – desta vez, com o agravamento da situação financeira e laboral da empresa, é irrealista pensar que alguém compra a TAP, nem que seja por um euro. Parabéns aos empatas que nos últimos 14 anos no momento de decidir adiaram sine die a venda da empresa, e aos que acham que privatizar é sinónimo de “fanatismo ideológico”. Mais uma fatura a caminho para o contribuinte.

Espero, pelo menos, que não sendo privatizada, a UE force a falência da TAP, em obediência às regras da concorrência europeia.

In dubio pro reo

  1. José Sócrates foi detido, e encontra-se em prisão preventiva. Tal resultou de uma investigação promovida pelo DCIAP, organismo judiciário competente, com a ajuda das polícias de investigação. Da averiguação resultaram uma série de elementos que levaram a que um Juiz de Instrução Criminal considerasse que havia indícios suficientes para convocar o ex-primeiro-ministro e pessoas suas próximas para um Interrogatório. O Juiz entendeu ainda haver razões para manter Sócrates sob prisão preventiva, com base em elementos que, nos seus contornos completos, nos são desconhecidos.
  2. José Sócrates é, para o processo penal e para a ordem jurídica, inocente, até que seja condenado pelo respectivo Tribunal. Esta presunção da inocência – do latim, in dubio pro reo (latinismo que tem andado na boca de muita gente) – não é, em qualquer caso, inilidível, ficando aliás ferida ao longo do processo, desde logo, quando sobre o indiciado recaem suspeitas. A presunção da inocência, sendo um elemento central do funcionamento processual penal, não pode – nem deve – impedir que haja juízos de apreciação, face ao conteúdo e relevância das suspeitas. A suspeita é o ponto de partida para uma clarificação, essencial, que afaste ou confirme os factos e/ou elementos que lhe servem de base. Assim, as suspeitas, ou são afastadas – levando a um arquivamento do processo – ou são reforçadas, devendo o MP optar pela Acusação e consequente Julgamento. Continuar a ler

No dia de São Nunca (à tarde)

Mário Nogueira. “No dia em que voltar a dar aulas haverá um período de adaptação”

(via iOnline)

Matem o mensageiro, mas não se esqueçam da mensagem

Sou dos que acha que na política deve haver espaço amplo para o humor, mas que nestas coisas, como na música, nem todos podem cantar karaoke sem correr o risco de fazer uma triste figura. Pires de Lima – que assume que gosta de ser “criativo e por vezes excêntrico na passagem de mensagens importantes” – claramente não tem – apesar da visível força de vontade e elevados níveis de auto-estima (é sempre importante) – a sagacidade de Churchill, mas convém relembrar que a forma não nos deve distrair do conteúdo. Critique-se o mensageiro, mas não se esqueçam da mensagem que, pelos vistos, acertava na mouche:

Costa cria taxas do turismo e proteção civil e vende ativos da câmara

António Costa decidiu criar taxas sobre o setor turístico e para a proteção civil, vender ativos da câmara e reduzir a despesa no Orçamento da Câmara Municipal para 2015. No documento, que foi entregue aos vereadores e à Assembleia Municipal com dez dias de atraso, António Costa justifica a nova composição da receita da câmara com a redução da receita provenientes do Orçamento do Estado e ainda com pagamentos extraordinários que vai ter de fazer por causa da Bragaparques.

(in Observador)

O que une a esquerda e a direita?

Caro André,

Por isso é que nos 14 subscritores há gente que vai da esquerda à direita! E eu a pensar que o que unia gente de quadrantes ideológicos tão distintos (ou talvez não) fosse o benfiquismo ou, até, mesmo, uma noção distorcida de interesse nacional… Afinal, é uma defesa do “emprego”. Faz mais sentido.

Obrigado!

RAF

Querem a PT? Comprem-na

Senhores ilustres da Nação,

A nível particular, sou cliente NOS, empresa portuguesa, que me fornece neste momento televisão por cabo, internet, e telemóveis. Na empresa, usamos Vodafone, empresa britânica bastante eficiente, e com longa e forte presença no nosso País. Tudo tem corrido bem com estes dois fornecedores de Telecomunicações, e nem em casa, nem na empresa, a ausência da PT tem causado qualquer transtorno. 

Admito que a PT seja uma óptima empresa, importante para trabalhadores, fornecedores e clientes da mesma. Para o País, é duvidoso. Se querem evitar que a empresa brasileira que usa o nome “PT” seja comprada por uns senhores franceses simpáticos – que, diga-se, por cá já são donos da Cabovisão e da ONI – juntem-se, e invistam. Entre o V. grupo de ilustres que apela à intervenção sei-lá-de-quem, há até gente com um passado forte na Finança e na Política. Se o negócio é tão bom e tão estratégico, não faltará quem vos empreste dinheiro para liderar o projecto.

Agora, deixem é o meu bolso em paz. Nunca investi na PT. Nunca acreditei na empresa, nem na sua filosofia. Se agora estão com problemas, resolvam-nos. Deixem é o povinho em paz, que o povinho não precisa da PT para nada. 

Agradecido,

Cidadão anónimo, da camada povinho, que não quer a PT para nada, e cujo bolso dispensa possuir empresas para os outros andarem a brincar às telecomunicações

Há quem leve o Halloween mesmo a sério

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Apesar de ser uma tradição mais anglo-saxónica que portuguesa, há entre cidadãos nacionais quem leve o Halloween muito a sério. Só poderá ser mesmo o caso de Ferro Rodrigues, que merece, claramente, um caramelo pela travessura de hoje no Parlamento, onde não perdeu a oportunidade de invocar a noite das bruxas, defendendo as virtudes políticas do Governo Sócrates na luta contra a Troika. 

E o Brasil disse “Não” à rotatividade

Hoje, no Económico:

“A democracia é a pior forma de governo, se excluirmos todas as outras”. É difícil não pensar nesta máxima de Churchill sempre que olhamos para aquilo que nos oferecem as eleições no Brasil. Sob governação do PT, há doze anos, o país prepara-se para um segundo mandato de Dilma Roussef, com a economia estagnada e um nível de insatisfação significativo junto de largos sectores da população.

O “milagre” da governação do PT, que tanto orgulha muitos brasileiros, tem assentado na via populista e fácil de distribuição de renda e subsídios em larga escala, na expansão do crédito, e na promoção de grandes eventos. O Brasil continua, porém, sem investir em infraestruturas-base, mantendo a sua economia superprotegida, algo que favorece a corrupção, transversal a todos os partidos, mas que tem atingido, segundo diversos relatórios internacionais insuspeitos, níveis inimagináveis na última década.
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Banha da cobra (II)

Em adenda ao que o Miguel Noronha, e muito bem, alerta aqui, importa notar que a PT SGPS está cotada numa plataforma bolsista chamada Euronext, que resultou da fusão das Bolsas de Lisboa, Paris e Amesterdão. Esta sociedade é privada, e a maioria do capital não é sequer nacional. As bolsas seguem normas comunitárias. Assim, a aquisição da totalidade do capital de uma empresa cotada tem de ser feito por via de uma “Oferta Pública de Aquisição” (“OPA”), não sendo legalmente possível proceder-se a uma nacionalização. No dia em que o Estado português nacionalizasse uma empresa cotada, por estar “barata”, haveria uma fuga imediata de capitais estrangeiros de todas as restantes empresas cotadas, procedendo-se à destruição imediata do nosso mercado de capitais. Para além de que tal iniciativa nunca seria legalmente aceite no quadro da União Europeia.

Uma eventual nacionalização da PT Portugal, nas mãos de uma empresa estrangeira, a Oi, para além das razões apontadas acima, no caso da PT SGPS, abriria uma frente litigiosa com o Brasil, sem proporções.

Quando forem votar, pensem se querem dar poder a quem escreve este tipo de disparates.

Demissões

No Económico de ontem:

O governo atual tem tido uma ação positiva na estabilização financeira das Contas Públicas. Com resultados apreciáveis nas Finanças, Diplomacia Económica, Saúde e Defesa, preparando o país para a recuperação económica e criação de emprego. Mais não se fez na diminuição de encargos por questões constitucionais. Mas há duas áreas sensíveis onde se está a falhar: Educação e Justiça.

A gestão da Educação em Portugal continua, entre outras bizarrias, a colocar professores com base em algoritmos matemáticos complexos e plataformas informáticas centrais, seguindo critérios cegos, “burocráticos”, sem qualquer autonomia das Escolas na escolha dos seus docentes. Este governo nada fez de significativo para alterar os princípios básicos de um sistema anacrónico. Autonomia das Escolas? Liberdade de Escolha? Miragens. Só podia correr mal. E correrá, qualquer que seja o Ministro escolhido. Como dizia o Carlos Pinto no blogue o Insurgente, “alguns continuam sem entender como é que não se encontra um ministro capaz de gerir centralmente de forma eficiente uma infraestrutura com 2 milhões de clientes sem possibilidade de escolha e que alberga 200 mil funcionários sem quaisquer incentivos à eficiência”.

Na Justiça, as coisas falharam, porque independentemente dos méritos da reforma promovida, na sua implementação, o Ministério demonstrou objectivamente incapacidade para executar aquilo a que se propunha, deixando os cidadãos à beira de um ataque de nervos.

As cabeças dos Ministros não devem ser oferecidas às massas ansiosas de sangue, ou para deleite jornalístico. Mas como dizia Gresham, a má moeda tende a expulsar do mercado a boa moeda. Eu, se por infortúnio fosse Ministro da Educação ou da Justiça, sem prejuízo do grande empenho que certamente colocaram na realização das suas tarefas, a bem do saldo da governação, demitia-me. A sua manutenção não serve os portugueses, mas a sua insatisfação, e o renascimento da demagogia que regressou à Esquerda.

Rodrigo Adão da Fonseca
Gestor

Salvem o Rato Mickey, já!

A austeridade matou o rato Mickey mas parece que o Uncle Sam veio da América e salvou o Pateta.

Ora bem, a Eurodisney é um fracasso (financeiro, leia-se), desde o seu arranque. Os últimos anos apenas agravaram aquilo que já era um negócio ruinoso desde o seu lançamento. Pelos vistos, os riscos financeiros da Eurodisney provocam a ira da esquerda. À falta de melhores causas, há que defender o proletariado do desenho animado.

Longe vão os tempos em que o Vasco Granja educava o povo com desenhos animados da União Soviética e da Checoslováquia. Regista-se a rendição ao imaginário americano.

Democracia Vs Poder, face à ameaça do Estado Islâmico

Nota prévia: À semelhança do que escrevi em 2006 – e como este texto permanece actual… – assumo que como princípio censuro em toda a linha a atitude protagonizada por muitos islamitas, porque sou liminarmente contra a violência e a intolerância. A escalada aliás do Estado Islâmico é muito consequência do alheamento europeu, e dos partidários do melting pot do multiculturalismo. Agora, pergunto: quem é que na Europa está disponível para enfrentar pessoalmente as consequências de um confronto directo com o Islão? Ao contrário dos EUA, que sabem bem que a liberdade tem um preço, e estão dispostos – como já demonstraram – a defendê-la (apesar de todos os erros que são sobejamente conhecidos), está a Europa preparada para acarretar com os custos associados à afirmação da superioridade dos nossos valores? Continuar a ler

“Viciados em dívida?”, no Económico

Confrontado com uma persistente estagnação da economia europeia, riscos de deflação e taxas de desemprego preocupantes, Draghi tomou uma série de iniciativas que visam, aparentemente, criar as condições para que os bancos injetem mais dinheiro na economia, em especial, por via das PME: baixou até níveis históricos a taxa directora, assumiu um programa de compra de títulos securitizados, e criou uma linha de crédito a quatro anos com juros baixos destinada a PME.

As medidas do Sr. Draghi dificilmente poderão ter o efeito desejado. O dinheiro barato irá dar lugar ao “revolving” de dívidas acumuladas como forma de baixar o risco dos bancos – e os spreads dos clientes – mas não a novos créditos. A ausência de crédito na economia não se deve ao custo do capital, mas ao risco implícito dos balanços das empresas, que as desqualificam para a obtenção de crédito, face às regras apertadas de solvência impostas por Basileia. Em Julho, Fernando Ulrich, numa conferência organizada pelos alumni da IESE Business School, dizia precisamente que não há mais crédito concedido, não por falta de capital, mas de projectos válidos que justifiquem financiamento. Vive-se um paradoxo, em que o capital acumulado não flui para a economia, mas também não é devidamente remunerado, face à política de juros baixos.

Países como Portugal poderão aproveitar estas medidas para substituir parte da sua dívida pública, baixando os encargos futuros com juros, e para melhorar os balanços dos seus bancos. As empresas com acesso ao crédito podem beneficiar consolidando investimentos e desonerando o seu passivo. Não é crível porém que estas medidas conduzam a um aumento significativo da liquidez na economia, ou a uma alteração das medidas de apreciação do risco de crédito.

Pergunto-me se não estamos a persistir no caminho errado, assumindo que a recuperação se faz pelo aumento da massa monetária e do consumo, secundarizando aquilo que sempre se revelou mais sustentável: a tomada de riscos, a remuneração e valorização do capital, do investimento e da poupança, e a criação de valor acrescentado nas empresas. Fica aqui a interrogação.

(publicado no Económico, e disponível aqui).

À atenção dos militantes do PS (incluindo os da vida eterna)

Um casal decide viajar até às Caraíbas, para o mesmo hotel onde passaram a lua de mel 20 anos antes. Por causa do trabalho, a mulher não pode viajar com o marido, adiando a sua ida por uns dias. Quando o marido chega ao quarto do hotel, vê que há um computador com acesso à internet. Decide então enviar um e-mail à mulher, mas erra uma letra e acaba por enviá-lo para outro endereço. O e-mail é recebido por uma viúva acabada de chegar do enterro do marido. Ao conferir os seus e-mails, ela desmaia e cai redonda. O filho ao entrar em casa encontra a mãe caída perto do computador. No ecrã vê escrito: 

- Querida. Cheguei bem. Provavelmente vais ficar surpreendida por receberes notícias minhas por e-mail. Mas agora aqui já há computadores e dá para enviar mensagens às pessoas queridas e fofinhas como tu. Acabo de chegar e já me certifiquei que está tudo preparado para te receber na sexta feira. Tenho muita vontade de te ver, não aguento de saudades, espero que a tua viagem seja tão tranquila e rápida quanto a minha. NÃO TRAGAS MUITA ROUPA, AQUI FAZ UM CALOR INFERNAL!!!!