Vice-presidente do PSD investigado por tráfico de influências

Marco António Costa está a ser investigado na sequência da denúncia de alegados crimes de tráfico de influências durante os mandatos na Câmara de Gaia. Não se trata de uma acusação formada e o próprio já retaliou com um processo de difamação.

Mas todos os gestores públicos têm de estar cientes que existem, a priori, indícios de tráfico de influência cada vez que tomam uma decisão de gasto do dinheiro dos contribuintes, quer seja em ajuste directo ou concurso público. As escolhas que fazem podem facilmente ser enviesadas por pressões/troca de favores. Veja-se o exemplo de alguns concursos públicos de contratação de pessoal em que os requisitos estão claramente afinados a perfil de candidato muito muito (muito!) restrito.

Acções prejudiciais aos “donos” do dinheiro pelas pessoas que o gerem não é um fenómeno desconhecido. Em Economia é habitualmente designado por Teoria da Agência. A distante separação entre contribuinte e gestor público é, aliás, uma importante razão para, como o Hélder explicou, a gestão pública ser menos eficiente que a privada (a principal justificação é a falta do incentivo lucro).

Mecanismos burocráticos como os concursos públicos são uma tentativa para eliminar a arbitrariedade das decisões do gestor público. Dão uma aparente imagem de transparência mas o processo pode, com maior ou menor dificuldade, ser manipulado.

Sendo assim, Marco António Costa, como gestor público, tem de perceber que o sentimento de suspeita começou no dia que aceitou o cargo. Não estou a afirmar que é culpado. O apuramento de responsabilidades é competência das autoridades. Só que, não tendo eu a exigência de imparcialidade dos agentes judiciais, para mim ele é culpado até prova em contrário. Tal como qualquer outro dirigente estatal.

Selfies políticas

Já notaram que selfies em frente ao espelho são uma deturpação da realidade? Se é alguém que conhecemos bem, a estranheza é – mesmo que subconsciente – quase imediata. Noutras, são pequenos indícios que nos dizem que algo não está correcto: um sinal ou tatuagem do lado errado, penteado invertido, relógio no pulso contrário, palavras numa t-shirt ou letreiro ilegíveis, etc.

O erro é que, perante o espelho, não estamos a fazer um auto-retrato (selfie) mas, sim, a fotografar o reflexo de uma imagem. Trata-se da percepção de nós mesmos na superfície reflectora e não como outros (ou o espelho!) nos vêem. Esta representação invertida pode facilmente escapar ao autor, dado o hábito de nos vermos todos os dias ao espelho. Esta é a razão porque quando alguém no smartphone quer “tirar uma selfie” usando a câmara frontal, os fabricantes fizeram com que a imagem no ecrã simule um espelho. Apesar de, depois, a fotografia sair correcta (ex: as pessoas que estão à nossa direita no ecrã aparecem, na versão fotográfica final, à esquerda). É assim que a nossa mente se acostumou a ver o “eu”.

partidos_selfie_espelhoNa política regista-se semelhantes características psicológicas. Por vezes os partidos estão tão habituados a “ver-se ao espelho” que nem percebem que a imagem que temos deles não é exactamente a que pensam estar a transmitir. E, na maioria dos casos, até críticas racionais à “fotografia” que apresentam, tem como resposta primária a descrença e/ou argumentação ilógica. O diálogo torna-se, assim, impossível.

Para ultrapassar este impasse primeiro temos todos de admitir que podemos cair num “túnel de visão” política, tornando-nos cegos ao que diferentes opiniões políticas apresentam. Pois… mais fácil de dizer que fazer.

Ora, a poucos meses das eleições legislativas, para que se consiga obter resultados promissores da discussão política que vamos ter, é necessário que o confronto seja centrado nos factos e na argumentação lógica de ideias e não em estados de alma ou apelo a emoções. Gostava que assim fosse. Mas sei que o faz ganhar eleições é mais o coração que a razão.

 

PS: Eu próprio tenho um “espelho” liberal que recusa, a priori, todo tipo de proposta socialista (i.e. em maior ou menor grau, repudio TODOS os partidos políticos). Para contrariar o meu claro enviesamento desafiei-me a inicialmente aceitar a benéfica intervenção do Estado. Traduzindo, vou colocar-me nos sapatos de um comunista! Só depois usarei o raciocínio lógico para me “descalçar” ;)

Uns sms são mais importantes que outros

Para o Expresso online interessa dar, aos visitantes, grande destaque ao facto do irrevogável ter-se demitido por sms em 2013 (que, por eufemismo, foi “formalizado” por carta). Sobre o sms-ataque de António Costa à liberdade do jornalista João Vieira Pereira… nada.

Ricardo Costa ainda é director do Expresso?

Em título sim, continua a ser o principal responsável daquele semanário. Moralmente, penso que não. Isto ainda a propósito do surpreendente sms que António Costa enviou ao director-adjunto, João Vieira Pereira [JVP].

O irmão de António Costa afirmou na sua conta do Twitter que a resposta de JVP, no seu habitual artigo de opinião (suplemento Economia, página 3), “foi tudo decidido em equipa”. Portanto, decidiram que o sms-ataque foi ao autor e não ao jornalista. E isso não merecia grande destaque…

Julgo, porém, que o Ricardo Costa tenha lido o artigo de JVP antes de ser publicado (já agora, se não compraram o jornal, aconselho que procurem na snack-bar ou pastelaria local e leiam-no). Pequeno excerto (meus destaques):

” (…) assumi o ónus de revelar uma situação que considero um ataque inadmissível à minha liberdade profissional.

(…)

Enquanto jornalista, editor e diretor de jornais escrevi centenas de notícias e outras tantas crónicas. Nunca fui atacado ou me senti tão condicionado por alguém com responsabilidades políticas ou públicas. Nem à esquerda nem à direita.”

Não vejo aqui qualquer posição colectiva do Expresso (“nós”) mas sim uma resposta individual (“eu”). Na minha opinião, perante a leitura de tais palavras, Ricardo Costa teria a obrigação ética e moral de mudar imediatamente a linha editorial da publicação do passado dia 1 de Maio, de forma a não deixar isolado um seu colaborador. Uma resposta forte teria assegurado a todos os colegas jornalistas que não haveria qualquer tolerância a ataques à sua liberdade de expressão e de imprensa, mesmo com potenciais custos familiares. Não o fazendo enviou um claro sinal sobre as suas prioridades.

Quando António Costa foi eleito secretário-geral do Partido Socialista, Ricardo Costa colocou o seu cargo no Expresso à disposição, por possíveis conflitos de interesses. A administração achou que ele conseguiria separar o pessoal do profissional e recusou a oferta. Hoje confirmo que errou naquela decisão.

Ficam, assim, algumas dúvidas: Teria António Costa enviado o sms se o seu irmão não estivesse à frente do Expresso? A resposta do semanário seria diferente caso o remetente do sms fosse outro qualquer político? Qual será a futura linha editorial respeitante a notícias sobre Partido Socialista? Pensa Ricardo Costa que mantém a autoridade para exercer o cargo que ocupa?

Autocensura?

AntonioCostaBluePencils3

É curioso que jornalistas tão ávidos de notícias quentes não tenham pegado no caso do óbvio ataque à liberdade de opinião do director-adjunto do Expresso (Ricardo Costa, director daquele semanário, por razão familiar, tem mantido o silêncio). Notáveis excepções são os artigos online do Observador, jornal i e Correio da Manhã.

Claro que a decisão sobre o que publicar é opção editorial de cada entidade. Talvez pensem realmente não ser do interesse público ou sejam mais tolerantes por políticos com quem partilham ideologias. Ainda pior (especialmente hoje, Dia Internacional da Liberdade de Imprensa), pode ser que tenham receio de futuras represálias, caso Costa seja nomeado primeiro-ministro nas próximas eleições legislativas.

Felizmente, nesta era digital, a informação já não consegue ser facilmente “esquecida” numa qualquer gaveta da redacção.

Costa é o Sócrates 2.0?

[via Observador] No passado dia 25 de Abril, João Vieira Pereira [JVP], director-adjunto do Expresso, escreveu naquele semanário um artigo de opinião sobre as propostas económicas apresentadas pelo PS (intitulado “Perigosos desvios do PS à direita”), de qual, julgo, a parte mais dura é a seguinte:

A grande mais-valia do estudo é que centra o debate político em políticas económicas, de onde nunca deveria ter saído. Só que ao estilo PS. (…) Uma espécie de “vai andando que eu já lá vou ter”. A política do tubo de ensaio. Cheia de falta de coragem e reveladora da ausência de pensamento político consistente.

A isto, António Costa, líder do Partido Socialista, decidiu enviar o seguinte SMS ao jornalista:

Senhor João Vieira Pereira. Saberá que, em tempos, o jornalismo foi uma profissão de gente séria, informada, que informava, culta, que comentava. Hoje, a coberto da confusão entre liberdade de opinar e a imunidade de insultar, essa profissão respeitável é degradada por desqualificados, incapazes de terem uma opinião e discutirem as dos outros, que têm de recorrer ao insulto reles e cobarde para preencher as colunas que lhes estão reservadas. Quem se julga para se arrogar a legitimidade de julgar o carácter de quem nem conhece? Como não vale a pena processá-lo, envio-lhe este SMS para que não tenha a ilusão que lhe admito julgamentos de carácter, nem tenha dúvidas sobre o que penso a seu respeito.
António Costa

diabo_AntonioCosta

JVP tornou público o referido SMS e responde hoje no semanário Expresso: “É a liberdade, António Costa”

Este e o recente caso da proposta de novas regras para a cobertura jornalística das campanhas eleitorais, bem como a relação conflituosa que Sócrates tinha com a comunicação social que dele discordava é claro indício do quanto os políticos respeitam a liberdade de imprensa.

Nota: foto do fogo retirada do flickr (broombesoom).

Promoção 1º de Maio (2012)

Três anos atrás foi assim:

Boas leituras :)

Promoção 1º de Maio

Pingo Doce e Continente voltam às promoções no 1.º Maio. Sindicato apela à greve

Greve? Devia ser um dia de celebração! Afinal é a satisfação dos clientes que possibilita a manutenção das empresas no mercado e, consequentemente, os posto de trabalhado de milhares de portugueses. Veja-se o exemplo da TAP…

[Adenda] Leitura complementar: Doce promoção

Macacos não vêem noticiários

Um grupo americano de defesa de animais apresentou um requerimento nos tribunais para macacos em cativeiro serem tratados segundo as leis disponíveis aos humanos (i.e. habeas corpus).  Na compreensão das leis acho que estes animais ainda não chegaram ao patamar do Planeta dos Macacos. Mas à apreciação de dados estatísticos eles já vão à frente de muitos humanos :)

Não queremos que os nossos filhos tenham melhor vida?

Paulo_Trigo_PereiraConfesso que quando li as palavras de Paulo Trigo Pereira [PTP] de imediato me veio em mente o seguinte: “será que ele tem filhos?”

Não sou de me meter na vida privada de outros mas o próprio “responde” publicamente… no Público:

As duas filhas que ajudei a criar, Mariana e Catarina, e a minha mulher, Guida, fazem parte da minha identidade.

Sendo assim, e caso PTP leia este post, talvez me possa responder à seguinte pergunta: porque deve o seu consumo no presente ser mais importante que o consumo futuro das suas filhas?

Sem comentários

Chapendra @flickr.com

Chapendra @flickr.com

O projecto de lei elaborado pelos partidos PSD, CDS e PS sobre as novas regras para a cobertura jornalística das campanhas eleitorais contempla grave limitação da liberdade de expressão (meu destaque):

No artigo destinado às “publicações de caráter jornalístico”, o projeto de lei é muito detalhado, diferenciando as publicações noticiosas das publicações de opinião e dizendo que a opinião não pode ter mais espaço do que a notícia.

Portanto, se um político diz “sem comentários” a qualquer assunto, os órgãos de comunicação social estariam proibidos de convidar alguém para comentar o silêncio da criatura…

José Gomes Ferreira diz que Segurança Social é privada?!

No video inserido no post do Miguel Noronha, o jornalista José Gomes Ferreira diz (a partir do minuto 6:58) [meus destaques]:

“O Governo, esta maioria, vem dizer que também quer baixar a TSU dos patrões para a Segurança Social. Eu vou dizer uma coisa que é pessoal. Acho que devíamos impedir o PS e a maioria de brincar com a Segurança Social dos portugueses. Aquele dinheiro é nosso, não é do Estado. Nós descontámos para as nossas pensões futuras e para ajudar os actuais reformados/pensionistas. Aquele dinheiro é nosso, o Estado gere-o por definição. A lei atribui-lhe a gestão. Não deviam brincar com esta bolsa de riqueza que o país tem.”

Se assim é, então e mudar a lei para atribuir a gestão a cada um de nós?

#PoliticaEmCartaz

Já há algum tempo que estamos em pré-campanha mas a menos de seis meses das eleições legislativas achei que seria interessante fazer-se uma recolha de imagens dos cartazes políticos. De forma a ser o mais exaustiva possível podem contribuir com as vossas fotos usando a hashtag #PoliticaEmCartaz no Twitter, Instagram ou Facebook (publicações têm de ser públicas). Comecemos pelo PSD:

 

psd_acima_de_tudo_portugal_500

“Acima de tudo Portugal”. Uma forma menos grosseira que o marketing político encontrou para dizer: “que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”.

O maior partido do Governo quer fazer-nos crer que as medidas implementadas foram uma necessidade premente à “salvação” do país, não por programada doutrina ideológica de que, muitas vezes, é acusado (olhando para as políticas do Governo francês de Hollande, será difícil de discordar). Mas, na minha opinião, salvar Portugal também não foi o objectivo. Para isso ter-se-iam realizado as imprescindíveis reformas do Estado. Ficaram-se por um guião.

Claro que estando o Estado, em 2011, numa situação de pré-insolvência, a solução teria de passar por um mínimo de sacrifícios das clientelas e esperar até a conjuntura económica se inverter. Os empréstimos da troika e os “estímulos” do BCE nisso têm ajudado o Governo de Passos Coelho. Torna-se evidente que o fim de qualquer partido no Governo é “Acima de tudo PODER”.

Heresia de Costa logo no primeiro dia

SolCosta ressalva que cenário macro “não é a Bíblia” (meu destaque)

Logo após a apresentação do cenário macroeconómico pelo grupo de economistas liderado por Mário Centeno, que propõe a eliminação da sobretaxa do IRS, a baixa da TSU e a redução de outros impostos, António Costa fez uma ressalva: “Este é um relatório técnico, não é a Bíblia, nem os senhores economistas são os apóstolos da Bíblia”.

Ou seja, o cenário apresentado ainda vai ser “avaliado e testado” e terá que passar no crivo dos órgãos políticos do partido, antes de ser vertido no programa eleitoral do PS, a apresentar a 6 de Junho.

Por outras palavras, ou os técnicos fizeram mal as contas (incompetentes) ou as propostas terão de ser testadas politicamente para se encontrar, independentemente das probabilidades das previsões macroeconómicas, aquelas que mais votos podem “comprar”. Eu aposto numa mistura dos dois!

Dívida “resolve” tudo

Observador: “PS em dificuldades financeiras contrai empréstimos”

Sharon Drummond @flickr.com (creative commons)

Sharon Drummond @flickr.com (creative commons)

Isto acontece porque a receita foi inferior ao esperado:

“o partido reclama à Autoridade Tributária cerca de cinco milhões de euros de IVA, que não foram pagos a título de reembolso de despesas de campanhas eleitorais. (…) A lei de financiamento partidário diz que os partidos estão isentos de pagamento de IVA no capítulo referente ao financiamento de partidos políticos, mas não fala da isenção de IVA no capítulo referente às campanhas eleitorais. A leitura da Entidade das Contas é que os partidos não têm direito a pedir o reembolso do IVA em matéria de despesas de campanha eleitoral, sob pena de acabarem a lucrar com elas.”

A um partido político deficitário que renuncia a austeridade, o acesso a dívida para fazer face às necessidades de financiamento da próxima campanha eleitoral é – mantendo a coerência da sua política – uma opção obrigatória (reestruturação das despesas do aparelho partidário ou subida das quotas aos militantes, nem pensar!). Claro que o PS consegue crédito junto dos bancos porque existe (ainda?) a perspectiva deste ganhar as eleições, aumentando, consequentemente, o valor das subvenções do Estado.

Greve na TAP?

Marcada para durar entre 1 de Maio e 10 de Maio a greve dos pilotos da TAP pretende chantagear o único accionista (todos nós) a aumentar os custos de exploração e reduzir o valor da empresa (se há sequer ainda alguma réstia de valor). Felizmente os viajantes hoje já têm mais escolha.

Ryanair

Os prejuízos para a empresa não se limitam aos dias de greve. Mesmo que esta seja cancelada, com o acrescido risco de perder vôos associado à instabilidade laboral, cada vez mais passageiros vão evitar viajar na TAP. Convém, por isso, relembrar o artigo do André Azevedo Alves no passado mês de Dezembro:

“O Governo faria bem em ponderar mais seriamente a falência da TAP como alternativa à sua privatização, em especial se mais uma vez se verificarem dificuldades em encontrar comprador para a empresa.”

Acho que o Governo já o está a fazer:

Segundo [o primeiro-ministro Passos Coelho], a alternativa à privatização em curso “é o despedimento coletivo, venda de aviões, cancelamento de rotas, é ter uma TAP em miniatura que não servirá os interesses do país e dos trabalhadores”.

 

A ciência da estupidez

Um dos meus programas favoritos da televisão é “A Ciência da Estupidez”, no canal National Geographic. O YouTube está repleto de videos em que muitos não medem, a priori, as consequências dos seus actos:

A maioria dos “estúpidos” lesionam apenas os próprios. Com os políticos acontece o contrário: os principais lesados são terceiros (contribuintes). Pena não haver um programa dedicado à estupidez política. Às televisões não lhes faltam imagens de inúmeras parvoíces.

SATUrados? Não!

Anunciou-se a morte de mais um “elefante branco”. Claro que tais “criaturas” estão mortas à nascença, sobrevivendo apenas pela necessidade política de manutenção de aparências ou conceitos irracionais de “utilidade pública” (como se os recursos desperdiçados não tivessem utilidades alternativas!).

Vitor Antunes @flickr.com (creative commons)

Vitor Antunes @flickr.com (creative commons)

Com o tempo, os eleitores depressa esquecem a irresponsabilidade financeira desses políticos entretanto reformados (ou presos) e das medidas defendidas pelos partidos que representavam. Nas eleições seguintes voltarão a eleger semelhantes políticas, independentemente do partido no poder. Venha o próximo “elefante” :(

“Venham mais dez”

Comemora-se hoje 10 anos da inauguração da Casa da Música do Porto, obra prevista para fazer parte da Capital Europeia da Cultura de 2001.

Paolo Margari @flickr.com (creative commons)

Paolo Margari @flickr.com (creative commons)

Custou 111,2 milhões de euros. A grande maioria não liga a tal valor, dada a “utilidade para a cidade do Porto”. Talvez vendo a coisa pela perspectiva do que deixou de ser financiado. Mas, claro, dessas não há fotografias

Políticos vaqueiros

Dave Wild @Flickr (creative commons)

Dave Wild @Flickr (creative commons)

Hoje acaba o regime de quotas leiteiras na União Europeia. E, apesar de em 2003 já se saber que tal ia acontecer, nos Açores há receio que o fim dos subsídios tenha significativo impacto (negativo) no negócio dos produtores de leite. Pedem, claro, apoios para fazer face à liberalização do mercado.

Não há falta de evidências como a intervenção do Estado introduz distorções no mercado. Aliás, o André Azevedo Alves e o Miguel Noronha mostraram, esta semana, alguns exemplos através de regulação e/ou subsídios. Condições de mercado alteram constantemente e empresas vivem e morrem dependendo da forma como reagem às mudanças. Mas políticos brincarem aos empresários chateia-me profundamente.

Porque vale tanto um iPhone?

A empresa Apple, valorizada recentemente em mais de $700.000.000.000, vende o iPhone 6 por cerca de €700 (este e outros valores retirados da Amazon Espanha). É um sucesso de vendas. Mas por esse valor os consumidores poderiam comprar um Motorola G 4g (€165), um tablet Asus ME572C (€242) e uma máquina fotográfica Canon S120 (€297).

IphoneValue

A diferença entre o preço de venda e o custo de fabrico é maior no iPhone, pelo que aquela escolha dos consumidores dá à Apple significativos lucros. A teoria subjectiva do valor explica porque vale tanto um iPhone: pela acção dos consumidores.

“Campeonato” espanhol: empate técnico

Observador:

Quase empatados. O resultado mais recente das sondagens publicada este domingo pelo El País mostra que os quatro partidos que reúnem mais intenções de voto repartem entre si 80% do eleitorado.

(…)

A distância entre as quatro forças política é tão curta, que considerando a margem de erro, o resultado é praticamente um empate técnico. A manter-se a tendência, significa que o próximo governo espanhol terá de resultar de uma coligação.

Fez-me pensar: se Bloco de Esquerda subir nas sondagens e “roubar” eleitorado ao PS, que tipo de entendimento teria a coligação António Costa/Catarina Martins?

A fórmula Ferreira Leite para a Grécia

Quase 11 anos atrás a então ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite, contratou Paulo Macedo (o actual ministro da Saúde) como Director-Geral de Impostos, com o objectivo de modernizar e tornar mais eficaz a cobrança de impostos. Esta foi a solução encontrada em 2004 para fazer face ao défice orçamental excessivo, ao invés de reformar o Estado e consequente redução da despesa pública. Solução que, na década seguinte, continuou a ser implementada em Portugal.

Agora o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, pretende aumentar o volume de impostos cobrados, uma das medidas será a contratação de “espiões” fiscais. Numa economia já bastante fragilizada nada que se queira ouvir. Por outras palavras, tal como Ferreira Leite fez doutrina por cá, também lá estão a privilegiar o sector público em prejuízo do privado.

Nota: O discurso de combate à evasão fiscal anda sempre à volta da maior justiça entre os contribuintes. Mas, apesar de se conseguir cobrar mais impostos a alguns, a carga fiscal para os restantes nunca baixa.

Golpe de mestre?

No passado dia 10 de Fevereiro Alexis Tsipras, primeiro-ministro da Grécia, dirigiu através do Twitter as seguintes palavras aos gregos:

I want to assure the Greek ppl that our policies will be implemented in full & I’m optimistic that we’ll find a compromise w/EU partners

Ontem o ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, enviou ao Eurogrupo uma proposta de acordo (meus destaques):

Dear President of the Eurogroup,
Over the last five years, the people of Greece have exerted remarkable efforts in economic adjustment. The new government is committed to a broader and deeper reform process aimed at durably improving growth and employment prospects, achieving debt sustainability and financial stability, enhancing social fairness and mitigating the significant social cost of the ongoing crisis.

The Greek authorities recognise that the procedures agreed by the previous governments were interrupted by the recent presidential and general elections and that, as a result, several of the technical arrangements have been invalidated. The Greek authorities honour Greece’s financial obligations to all its creditors as well as state our intention to cooperate with our partners in order to avert technical impediments in the context of the Master Facility Agreement which we recognise as binding vis-a-vis its financial and procedural content.

In this context, the Greek authorities are now applying for the extension of the Master Financial Assistance Facility Agreement for a period of six months from its termination during which period we shall proceed jointly, and making best use of given flexibility in the current arrangement, toward its successful conclusion and review on the basis of the proposals of, on the one hand, the Greek government and, on the other, the institutions.

The purpose of the requested six-month extension of the Agreement’s duration is:
(a) To agree the mutually acceptable financial and administrative terms the implementation of which, in collaboration with the institutions, will stabilise Greece’s fiscal position, attain appropriate primary fiscal surpluses, guarantee debt stability and assist in the attainment of fiscal targets for 2015 that take into account the present economic situation.
(b) To ensure, working closely with our European and international partners, that any new measures be fully funded while refraining from unilateral action that would undermine the fiscal targets, economic recovery and financial stability.
(c) To allow the European Central Bank to re-introduce the waiver in accordance with its procedures and regulations.
(d) To extend the availability of the EFSF bonds held by the HFSF for the duration of the Agreement.
(e) To commence work between the technical teams on a possible new Contract for Recovery and Growth that the Greek authorities envisage between Greece, Europe and the International Monetary Fund which could follow the current Agreement.
(f) To agree on supervision under the EU and ECB framework and, in the same spirit, with the International Monetary Fund for the duration of the extended Agreement.
(G) To discuss means of enacting the November 2012 Eurogroup decision regarding possible further debt measures and assistance for implementation after the completion of the extended Agreement and as part of the follow-up Contract.
With the above in mind, the Greek government expresses its determination to cooperate closely with the European Union’s institutions and with the International Monetary Fund in order: (a) to attain fiscal and financial stabilityand (b) to enable the Greek government to introduce the substantive, far-reaching reforms that are needed to restore the living standards of millions of Greek citizens through sustainable economic growth, gainful employment and social cohesion.

Sincerely,
Yanis Varoufakis
Minister of Finance
Hellenic Republic

Por outras palavras, a proposta grega era de garantir a extensão do empréstimo por 6 meses e, em contrapartida… continuar negociações sobre políticas que Syriza deseja implementar. Uma espécie de «primeiro enviem o dinheiro, depois vemos o que fazer com ele». O governo alemão percebeu a intenção e rejeitou-a imediatamente.

Mas, na minha opinião, o vencedor deste confronto foi a Grécia ao fazer a Alemanha cair numa “armadilha” mediática (foi vista como o vilão). É que – ao contrário de entidades oficiais – os jornalistas e comentadores foram enganados pela retórica da missiva e, por via daqueles, o público em geral (antes de ler o texto reproduzido acima, eu incluído), presumindo que a Grécia fez algumas cedências. Não o fez, colocou apenas no papel aquilo que anda a dizer há semanas.VaroufakisXadrez

Varoufakis teve aqui uma jogada de mestre o que, para um político dito amador, é louvável (acredito que a saída do euro é consequência perfeitamente aceitável para o Syriza, desde que não seja este percepcionado como a causa).

É grego para mim

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EnkayTee | flickr.com

Graecum est, non legitur. Latim para “é grego, não se consegue ler/entender”, um termo habitualmente usado na Idade Média por monges escribas incapazes de traduzir textos naquela língua helénica. Actualmente o “é grego para mim” simboliza qualquer dificuldade acrescida em entender outros. Penso ser adequado à situação decorrente da vitória do Syriza e as intenções do Governo grego de Alexis Tsipras (em coligação com o partido ANEL) e seu ministro das Finanças, Yanis Varoufakis.

Tsipras – e gregos que o elegeram – pretende acabar com o reajuste do insustentável défice do orçamento público (a dita austeridade) e, mais, que seja concedido à Grécia margem/financiamento para aumento das despesas públicas. Com esse intuito, a primeira e principal exigência é a reestruturação da dívida pública, agora afirmando o compromisso de pagamento, mas a prazos alargados, juros mais baixos e reembolsos dependentes do crescimento económico.

Pelo contrário, a União Europeia, que já concedeu à Grécia empréstimos de dezenas de milhares de milhões de euros, não pretende continuar a financiar um Estado-membro que constantemente não cumpre o prometido.

Face a este duelo político um lado ameaça não pagar a dívida, o outro contrabalança com a saída da Zona Euro e, em caso extremo, a expulsão da União Europeia. Porém, a política é feita de compromissos e julgo que não se chegará a tal confronto final. Como cada lado vai salvar a face será, certamente, resultado de um processo negocial complicado. Até lá – e possivelmente depois – é tudo grego para mim! :)

A ilusão das palavras

jn_2015_01_26Afinal o governo de Passos Coelho tinha uma solução simples para acabar com a crise orçamental que se instalou em 2011, quando Sócrates ficou sem dinheiro para pagar contas. Simples, bastava-lhe anunciar o “fim da austeridade”!!! No dia seguinte às eleições na Grécia, este parece ser o principal mote da maioria dos socialistas, bem retratado na capa do Jornal de Notícias.

A acontecer, a reestruturação da dívida implicará, para um orçamento deficitário como o do Estado grego, acordo entre os novos credores (que terão de financiar os próximos défices) e o governo de Tsipras (que terá de convencê-los que o seu programa é capaz de equilibrar as contas). Não vejo o sector privado a entrar nesta aventura. Resta a União Europeia, o BCE e o FMI, ou seja a troika.

Acreditar que a partir de hoje tudo vai ser um mar de rosas é, penso, uma grande ilusão. A ver.

Syriza com maioria absoluta?

TSF:

O Syriza, partido anti-austeridade da Grécia, liderado por Alexis Tsipras, venceu as legislativas ao conseguir entre 35,5 por cento e os 39,5 por cento dos votos, segundo as primeiras sondagens logo após o encerramento das urnas.

De acordo com os resultados destas primeiras projeções, o Syriza pode mesmo conseguir a maioria absoluta, que se traduz em 151 lugares no parlamento, com 300 deputados no total, conseguindo entre 146 e 158 parlamentares.

Dúvidas sobre a próxima tragédia grega

  1. Vai o Syriza conseguir maioria absoluta nas eleições de 25 de Janeiro?
  2. Obtendo apenas maioria relativa vai o Syriza coligar-se com outro partido ou tentar governar sozinho?
  3. Sendo a economia grega apenas 2% da Zona Euro, conseguirá o Syriza ter suficiente poder negocial para manter-se no euro e, ao mesmo tempo, reestruturar a dívida do país?
  4. Em caso de reestruturação da dívida grega (por outras palavras, incumprimento) que investidores privados estarão dispostos a financiar novos défices?
  5. Poderá o Quantitative Easing do Banco Central Europeu ajudar o financiamento do novo governo grego? E se este programa limita a compra a 33% da dívida de cada Estado-membro, onde irá a Grécia financiar os restantes 67%?
  6. Terá Alexis Tsipras suficiente margem de manobra financeira para cumprir as promessas eleitorais de maior despesa pública ou seguirá o caminho de François Hollande?
  7. Estará António Costa, secretário-geral do PS, à espera para ver o que acontece na Grécia para, só mais tarde, apresentar definitivas propostas eleitorais para as eleições legislativas portuguesas?

Ai Francisco, relê a Bíblia

papa_francisco1

Sem nunca fazer referência à última publicação do Charlie Hebdo, o Papa Francisco disse algumas palavras sobre a liberdade de expressão  (meu destaque):

Depois de ter condenado os atentados em Paris, o Papa Francisco defendeu esta quinta-feira que há limites para a liberdade de expressão e que as religiões não podem ser alvo de insultos.

“Não se pode provocar, nem insultar a fé dos outros. Há limites. Toda a religião tem dignidade, não posso ridicularizar uma religião que respeite a vida humana”, declarou o Papa aos jornalistas, citado pela agência “Ecclesia”, durante um voo do Sri Lanka às Filipinas.

(…)

E deu um exemplo: “Se o meu bom amigo, o doutor Gasbarri [que organiza as viagens do Papa] ofender a minha mãe, vai levar um murro”, disse.

Talvez seja melhor Francisco reler o livro que serve de base à igreja que lidera. Especialmente Mateus 5:38-44 (meus destaques):

38 Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
39 Eu, porém, vos digo que não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;
40 e ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa;
41 e, se qualquer te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil.
42 Dá a quem te pedir, e não voltes as costas ao que quiser que lhe emprestes.
43 Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo.
44 Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem;

Adenda: se tivesse jeito para o desenho [têm de usar a vossa imaginação] a imagem que acompanha este post seria o Papa Francisco a esmurrar o tal Dr. Gasbarri por ofender a sua mãe e Jesus Cristo, desiludido, numa nuvem acima, a dizer: “Francisco!!! Dá a outra face.”