Estamos a menos de dois meses das eleições e ver as notícias da noite é um espectáculo degradante da atribuição de culpas a voar de e para todo o lado. A culpa é do PS que duplicou a dívida, a culpa é do PSD que chumbou o PEC, a culpa é de Sócrates que não negoceia, a culpa é da oposição que não é responsável, a culpa é da Alemanha que não empresta, a culpa é dos bancos que emprestaram, etc, etc, etc.
A culpa é de todos, os gráficos não mentem, desde o inicio da 3ª República o país deslumrbou-se com o dinheiro dos outros e foi um ver se te avias de regalias para toda a gente. O ponto de não retorno, aquela altura em que viesse quem viesse não haveria volta a dar, foi (para mim) algures durante o reinado de Guterres mas por essa altura o país andava demasiado embriagado com o crédito fácil para se preocupar com ressacas. Foi uma altura pródiga em casas novas, em empréstimos que duravam uma vida inteira. Uma altura em que Cascais deixou de ser fino e não se fazia a coisa por menos que umas praias em Barbados ou, se fossemos pobrezinhos, uma semaninha na Riviera Maya. Uma altura de expos, de pontes, de modernização… enfim, uma altura de gastar dinheiro que este chovia dos bancos.
Eventualmente os bancos tiveram que se conter um pouco e Portugal virou um pântano. Habituado à vida simples de governar com dinheiro fácil e com uma população embriagada Guterres foi fazer contas para outras paragens. Veio um primeiro-ministro que olhou para o abismo e contou o que viu a um país que estava a ressacar (Medina Carreira, talvez imune, começava por esta altura a deixar os seus avisos) e sem cabeça para analisar números. O resultado foi termos um primeiro-ministro a ser gozado na comunicação social e no país por dizer uma simples verdade: o país estava de tanga. Durante o seu olhar para o abismo provavelmente também se apercebeu que o ponto de não retorno já tinha sido ultrapassado e até eu, que tenho Durão Barroso abaixo de carapau na minha consideração não o levo a mal por ter fugido. Olhar o monstro nos olhos mete medo a qualquer um que compreenda o que vê.
Sampaio aproveitou a confusão originada pela fuga de Barroso para trazer os seus amigos de volta a São Bento. Não se sabe se não viram o monstro ou se simplesmente não compreenderam a natureza do animal, o que se sabe é que trataram a ressaca de crédito como eu tratava as minhas ressacas de juventude: com cerveja pela manhã. Aquele sabor a papel desaparecia rapidamente, até à manhã seguinte.
Foram obras públicas, foram subsidios, foram ventoinhas gigantes, foram enfim… rosas. Rosas estas que enquanto faziam esta trapalhada atiravam à direita com submarinos e estádios de futebol, como quem diz, se tu gastaste porque não posso gastar eu? Se vamos distribuir culpas teremos que todos tirar umas férias que isto não é coisa que se resolva com umas horas de conversa, inclusive a culpa daqueles senhores do lado esquerdo que clamam que nunca lá estiveram (no poleiro entenda-se) e portanto não só a culpa não pode ser deles como merecem ocupar o poleiro desta vez. Porque está deste lado também uma grande parte da culpa, sobre a capa da irresponsabilidade originada por não terem de governar estes senhores são os vendedores de sonhos. Com eles acaba a fome e a miséria. Toda a gente tem uma moradia e um ordenado valente para gastar, trabalhar é opcional. Só não dizem de onde vem o dinheiro todo para sustentar estes sonhos e quem governa depois que explique porque é que a realidade é diferente.
Aqui chegados, aos noticiários que mencionei no início, o país continua à procura dos culpados que estão em todo o lado e em lado nenhum como se de repente dizer “este tipo é culpado porque fez Y e não devia ter feito” desfizesse o erro. Uma hora por dia a ouvir acusações é demais, deixem-me ouvir pelo menos dois minutos de soluções. Ironia das ironias, até entre as acusações de que “o outro vai cortar mais do que eu” eu ainda não ouvi muito bem mas onde é que se vai cortar. O Estado tem o grosso das suas despesas em saúde, educação e prestações sociais. Nenhum partido me diz como vai afectar estas três parcelas, parecem estar todos embasbacados a olhar para os senhores do FMI à espera que lhes digam como vão ser cortadas sem que, obviamente, não se deixe de jogar o jogo do “mas ele concordou com o FMI primeiro do que eu” que decerto ocupará bastante tempo de antena.
As pseudo-soluções que por aí andam, e agora falo à direita porque sonhos e irresponsabilidade não são soluções, continuam a seguir a receita falhada de MFL. Privatizar, vender património e aumentar impostos. Sou obviamente a favor das primeiras duas mas sem uma estratégia a seguir de que nos serve vender tudo ao desbarato? E quando esse dinheiro acabar o que fazer a seguir? O país não suporta mais “pensos rápidos”. Numa empresa quando alguém faz uma asneira a prioridade é descobrir como se minimizam os estragos dessa asneira, ver quem teve a culpa e definir formas para que não volte a acontecer vem no fim, no Estado como sempre faz-se tudo ao contrário.
O mundo realmente mudou, não em 8 dias mas mudou nos últimos 40 anos e precisamos de partidos e líderes políticos capazes de abraçar essa mudança. Acabem com as “lavouras”, os “bancos de fomento”, os “nobres” e sobretudo com os “coitadinhos”. Acabem com os tiros nos pés. É preciso ignorar o PS, o discurso da culpa e começar a apresentar soluções reais aos portugueses para que estes também saibam com o que contar. Os vendedores de sonhos que fiquem a falar sozinhos, o país está a sair da ressaca e está pronto para ouvir uma mensagem séria.
Se querem o meu voto têm que trabalhar por ele, não basta serem menos maus que José Sócrates.