Destruição de valor

O meu artigo de sexta-feira passada no DE.

«O caminho seguido pela PT foi reduzindo o leque de opções estratégicas que esta tinha, numa demonstração clara dos perigos da intromissão política na gestão de empresas, até que a sua falta de liquidez (e dos seus acionistas) ditou a inevitabilidade da sua entrega a novos donos. Um negócio trágico, que na melhor das hipóteses foi um erro de cálculo monumental; e na pior, um conto do vigário de proporções épicas.»

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Um bom “furo”

Se um jornal conseguisse provar que os membros do governo tinham votado a decisão relativa à resolução do BES em benefício próprio, isso seria um “furo” jornalístico. Diria mesmo uma notícia bombástica. Parece, no entanto, que os factos não vão de encontro a essa ideia. Nada que tenha impedido o Público de tentar passar essa ideia através de insinuações rasteiras indignas de um jornal supostamente sério: Uma notícia cheia de disparates e um editorial deliberadamente obscuro que tenta retirar uma lição de moral de factos supostos.

Em primeiro lugar, dizer «Membros do Governo tinham mais de um milhão de euros no GES quando decidiram o seu futuro» é uma frase manhosa. Lendo a notícia, percebe-se que o «mais de um milhão» é o total de investimentos no GES de 16 membros do governo. Uma média de pouco mais de 62 mil euros cada um. Nada de espantoso, portanto. Aparentemente o grosso deste milhão pertencerá a apenas três membros do governo. Poderiam este três ter beneficiado da resolução do governo? Como veremos adiante, não.

Em segundo lugar, a listagem de bens detidos pelos membros do governo no GES sugere que se estes foram afectados pela a decisão do governo, isso foi mais no sentido negativo e não positivo. Investimentos em obrigações do Espírito Santo Financial Group ou do Espírito Santo Banque Privée perderam com a falência dessas entidades. No limite, a passagem do BES a Novo Banco poderá ter diminuido ainda mais as possibilidades de recuperação dos investimentos, uma vez que o banco era o principal activo do grupo. Aparentemente, metade de toda a exposição dos membros do governo ao GES eram investimentos deste género. Isto para não dizer nada das acções do próprio banco, que passaram a valer (muito) perto de zero.

Em terceiro lugar, ter investimentos num banco e ter depósitos num banco não é a mesma coisa. Depósitos são passíveis de ser perdidos em caso de falência do banco. Outros investimentos podem ser recuperados ou não dependendo da sua natureza. Acções, fundos de investimento e outros títulos de entidades terceiras estão no banco apenas para ser guardadas. Todos estes títulos são dos seus donos não do banco. Se este entrar em insolvência, os títulos continuam lá. Já os depósitos são usados para conceder crédito a outros clientes, pelo que no caso de prejuízos – e se as reservas do banco forem insuficientes – podem ser perdidos.

Quando a notícia do Público liga a questão dos depósitos acima de 100 mil euros com os membros do governo que tinham mais de 100 mil euros no banco, está deliberadamente a confundir as coisas: Não eram mais de 100 mil em depósitos. Eram mais de 100 mil na carteira completa, incluindo títulos diversos que não têm nada a ver com a questão dos depósitos. «Deliberadamente» porque a associação feita é negada pelos próprios factos relatados na notícia.

Por fim, o que ocorreu no Chipre foi bastante diferente do caso BES/GES. Os dois maiores bancos do Chipre tinham activos totais que eram 400% do PIB do país. E tiveram prejuízos que em termos relativos foram o dobro dos prejuízos do BES. No Chipre não houve outro remédio que não o “bail-in”. O Banco de Portugal e o governo não impuseram um “bail-in” no BES porque quiseram evitar esse estigma. Não por ser do interesse particular deste ou daquele membro do governo. Até podemos questionar se esse caminho não teria sido melhor, tanto para os bancos do Fundo de Resolução como para os contribuintes, via CGD, mas não neste contexto desonesto de tentar mostrar algo que parece ser o contrário da realidade.

Mobilizar Portugal [Telecom]

Muito gostam os socialistas de mobilizar. Agora é Murteira Nabo, antigo presidente da PT, a sugerir que o estado deve mobilizar “um conjunto de empresário portugueses” para comprar a PT.

Que grande ideia! Que tal irem ter com os empresários que a CGD “mobilizou” durante o governo Sócrates para comprarem acções da PT, resistirem à OPA da Sonae e tomarem a posição da Telefónica?

Fé e Razão

Há uma falha na crítica de Rui Ramos a Stephen Hawking aqui abaixo citada pelo André Azevedo Alves. (E nem sequer me refiro ao último parágrafo do artigo, perfeitamente pornográfico, onde está plasmada uma falácia gritante de «guilt by association».) Essa falha está no uso implícito de um entendimento incorrecto de razão e na confusão de religião e filosofia.

Alguém acreditar que a razão é a ferramenta cognitiva disponível ao homem e que com ela poderá entender a realidade é uma posição filosófica (metafísica e epistemológica), não uma posição religiosa. Como cada religião é também um sistema filosófico (podendo ser mais on menos completo, conforme cada caso), terá também posições metafísicas e epistemológicas. As coisas estão ligadas mas são diferentes.

A crítica de atribuir um carácter religioso à ciência é uma posição entre o nihilista e o céptico; como se o conhecimento revelado e o conhecimento descoberto fossem igualmente ilusórios.

Os heróis do governo (reloaded)

Communist_GirlA Ministra Vermelha

Protectora dos animais domésticos e amiga da lavoura, esta heroína é mais famosa pelas taxas e coimas aplicadas a todos os nefastos comerciantes que vendem produtos demasiado baratos e pela eterna vigilância sobre todos aqueles que querem envenenar a nossa comida.

 

brainy

O Estrumpfe da Cultura

Campeão, ao estilo «Braveheart», dos artistas, cobra uma taxa sobre aquilo que já foi pago; bem como a dispositivos usados para outras coisas. Nemesis da “indústria”, não descansará enquanto esses malandros não pagarem por obras que ninguém quer copiar.

 

taxmanO Super Fiscal

O grande defensor do contribuinte, criando sempre novas formas deste contribuir e assim cumprir o seu objectivo de existência. Sabe todas as refeições que fazemos e controla cada vez que uma senhora vai ao cabeleireiro. Não há mercadoria que circule que não seja electronicamente rastreada e dívida fiscal que não vá a tribunal, depois de paga.

 

dreadfulA Judge Dreadful

Genial promotora da justiça, conseguiu o feito notável de resolver de uma penada só 3 milhões e meio de processos fazendo-os desaparecer. Grande lutadora contra o enriquecimento ilícito, não descansará enquanto não obrigar toda a gente a provar a sua inocência.

 

batmanO Ministro das Trevas

Circulando na sua Bat-Lambreta, protege os nossos jovens do trabalho, impedindo que sejam explorados pelos mini-jobs que exploram a juventude em tantos países europeus. Podemos também sempre contar com ele para inventar medidas que aumentam as despesas da segurança social.

 

greenatlasO Atlas Verde

Carrega nos ombros o mundo, apenas com recurso à sua força de titã e a taxas sobre sacos de plástico. Bate-se pelo crescimento sustentável, o que é notável quando nem sequer o insustentável temos. Lembrar-nos-emos dele sempre que virmos um carro do estado parado na berma com as baterias descarregadas.

 

incredibleO Homem Irrevogável

Chefe da família de heróis do governo. Abnegado na função – diz-se mesmo alérgico aos super poderes – vai-se regularmente sacrificando no interesse superior da nação. Num contexto de falta de oposição responsável ao governo, podemos sempre contar com ele para dar voz a um ponto de vista contrário.

 

SuperDocO DocShock

Defensor da saúde pública, quer proibir os cigarros electrónicos, já que os de chocolate já são proibidos. Não baixará as armas da proibição compulsiva até acabar com as máquinas de venda de tabaco e com o flagelo dos chupa-chupas e outras guloseimas nas mãos das nossas incautas crianças.

Crescimento e deflação?

O meu artigo de hoje, no Diário Económico:

«A ortodoxia neoclássica, que inclui tanto monetaristas como keynesianos, encara a deflação, definida como inflação negativa, enquanto uma causa de recessões, armadilhas de liquidez e outras tragédias macroeconómicas. Assim sendo, é sempre interessante constatar que apesar de estar, teoricamente, em deflação há cerca de um ano, a economia portuguesa tem crescido. Na verdade, se exceptuarmos a Grande Depressão, existe pouca ou nenhuma comprovação empírica de algum paralelo entre deflação e recessão.»

Esquizofrenia

Pink_Floyd_The_Wall_Scream

É incrível ter uma oposição que critica aumentos de impostos e cortes de despesa, mas depois mostra-se “preocupada” com o crescimento do défice; que promete não aumentar impostos, não reduzir despesa e até repor despesa anteriormente cortada, e que garante que no seu governo haverá “consolidação” orçamental. Qualquer pessoa com um rudimentar conhecimento de aritmética deveria topar a léguas a contradição e venda-de-banha-da-cobra.

 

1ª Lei de Migas

A probabilidade de um artigo de opinião ser disparatado é diretamente proporcional à utilização de maiúscula na palavra “mercado”.

Corolário (1): O disparate será certo a partir do momento em que o autor assignar intenção e personalidade ao dito “mercado”.

Corolário (2): Mais que disparate, a referência a adoradores ou a sugestão de atribuição de características de divindade ao dito “mercado” é prova inequívoca de que o autor é um idiota chapado.

O que vale é que este portento intelectual não é um «jotinha» (2)

Simpson-DohHá dias, tinha descoberto que precisávamos aumentar a riqueza. Agora descobriu que não há licenciados a mais. Há é empregos a menos. Este Costa é genial.

O Insurgente na TV

O Economista Insurgente

Hoje fui com o Ricardo Gonçalves Francisco e o Carlos Guimarães Pinto falar sobre “O Economista Insurgente” no programa “Você na TV”, na TVI.

O video pode ser visto aqui.

Leitura complementar: Insurgências go (very) mainstream

Ascensão e Declínio

Um estudo financiado pela NASA conclui que a civilização industrial está condenada ao colapso irreversível. Parece que o estudo começa por apontar o óbvio («The fall of the Roman Empire, and the equally (if not more) advanced Han, Mauryan, and Gupta Empires, as well as so many advanced Mesopotamian Empires, are all testimony to the fact that advanced, sophisticated, complex, and creative civilizations can be both fragile and impermanent.»), passando depois para o requentado («… accumulated surplus is not evenly distributed throughout society, but rather has been controlled by an elite. The mass of the population, while producing the wealth, is only allocated a small portion of it by elites, usually at or just above subsistence levels.»).

As civilizações, de facto, ascendem e declinam. A história ensina-nos isso. Parece-me é pouco provável que a civilização industrial acabe à conta de causas inerentes à repetição pouco original de argumentação marxista. Acho bastante mais provável que a civilização industrial acabe por governos, através de agências supostamente dedicadas à investigação e exploração aero-espacial, financiarem estudos da treta a pessoas cujo objectivo político é precisamente o fim da civilização industrial…

Precisamente por isso

Escreve o subscritor posterior por incúria do manifesto dos jarretas: «No entretanto encolhemos, empobrecemos, subjugamo- nos e, como de costume, quem paga esse preço nem sequer terá tempo de vida para receber as benesses possíveis

Precisamente, Pacheco Pereira. Por isso algumas almas avisadas estão há anos a chamar a atenção para como a governação desastrosa de socialistas de esquerda e de direita levaria inevitavelmente a uma conta a ser paga pelas gerações futuras. As tais que levam com a conta sem nunca receber nenhuma benesse em troca. As tais que lhe deram a si e aos restantes jarretas uma vida confortável a que provavelmente não terão elas próprias acesso, a não ser que fujam. É por isso um atentado à inteligência que pessoas responsáveis pelo estado calamitoso do país venham colocar-se numa posição moralista sobre os sacrifícios que estão a cair sobre as gerações dos seus filhos e netos; especialmente numa altura em que salta à vista que grande parte da motivação para tal vem apenas dos cortes nas suas próprias reformas.

Aqui há dias, o Pacheco Pereira chamou a atenção para que os decisores políticos de hoje estão a tomar decisões que afectam a futuro. Um futuro em que já não estarão por aí para responder pelas decisões. Se fosse verdade, seria óptimo. Infelizmente, a julgar pelo tempo de antena dado aos irresponsáveis que puseram Portugal no seu actual estado, desenvergonhadamente continuando nas mesmas argumentações e falácias estafadas, nunca assumindo a responsabilidade pelas asneiras, e desfacetadamente a sugerir que o nada que propõe resolveria alguma coisa, vemos que está errado. Continuam por aí, incluindo o próprio Pacheco Pereira, e nunca se calam.

Notável Rasto de Devastação

Este manifesto de figuras notáveis da nossa república, com referência explícita à reestruturação da dívida alemã do pós-guerra, tem uma importância clarificadora: Os notáveis, que desempenharam funções governativas e/ou influenciaram as decisões políticas da III República, admitem que as suas políticas estatistas e socialistas são o equivalente económico e social à devastação da Segunda Guerra Mundial.

Se 8 é bom, 9 é melhor!

Felicitações a todos os insurgentes pelo 9º aniversário da criação do blogue.

Em jeito de comemoração, lançamos um pequeno quiz para opinar sobre qual a razão pela qual o nosso estimado Comandante, o Miguel Noronha, subtraiu um ano ao total:

  1. Foi um corte por causa do Programa de Ajustamento da “troika”
  2. O Comandante não quis contar com o ano que esteve em sabática
  3. O ano em que o Jorge Sampaio ainda era presidente não conta
  4. Aquela cena do Paulo Fonseca ir a Leverkusen deixou-o confundido
  5. None of the above

Insurjam-se!

Da insustentabilidade das taxas de juro

Para todos os que estão preocupados com as “taxas usurárias” que o governo português pagou pela última emissão de dívida a 10 anos, deixo aqui a evolução das taxas desse tipo de obrigações no mercado secundário desde 1994:

portugal

Se a diferença, ainda assim existente, entre as taxas portuguesas e de outros países, continuar a parecer-vos “insustentável”, vejam a evolução do mesmo tipo de taxa para Alemanha (desde 1980): Continuar a ler

Gordo e anafado

O argumento aqui referido pelo João Galamba, usado por muita gente à esquerda, é o equivalente a dizer, de um tipo que enfardou até não poder mais, que o estômago cheio é um “entrave” a que ele continue a comer. O estado português endividou-se para financiar despesas correntes. Isso significa que consumiu, no passado, o que podia estar a consumir hoje e vir a consumir no futuro, não se tivesse endividado. Dívida é isso mesmo: Consumir no presente, adiantadamente, o consumo futuro.

O problema de crescimento da economia portuguesa é resultado, em grande medida, do estado gordo e anafado que esta tem de sustentar. O peso é tal que não deixa grandes meios libertos para investir – condição necessária do crescimento económico. Esse peso materializa-se primeiramente em impostos (que, diga-se de passagem, o João Galamba até estaria disposto a subir), mas também numa série de políticas inimigas do investimento, como burocracia, compadrio e corrupção; o peso também se sente na diminuição de algumas transferências para os cidadãos, pecuniárias ou em serviços, que também contribuem para a diminuição do rendimento líquido – que permite consumir e investir – e que agravam esta diminuição que já ocorre diretamente pela via fiscal.

Se o peso do estado já era grande, se o mastodonte que o povo português leva às costas já era insuportável há anos (daí o insignificante crescimento económico que Portugal mostrava há mais de um década), o crescimento dramático e rápido da dívida pública apenas veio agravar esta situação. A austeridade mais não é que o povo a suportar o gordo e anafado estado. Por isso, estas posições do João Galamba e da esquerda são tremendamente desonestas. Dão a entender que há um caminho em que o empanturrado estado pode continuar a comer sem que o povo sinta o seu peso. Não há.

Além disso, é extraordinário que alguém oriundo do partido com maior quota-parte de responsabilidade no crescimento do estado e da dívida venha dizer que esta última é insustentável e tem de ser reestruturada. Não só é de uma tremenda cara de pau, como acaba também por ser uma enorme admissão de falhanço: Se a dívida é insustentável, então é o próprio estado que é insustentável. O modelo que o seu partido teve um papel primordial a estabelecer é insustentável. E como sempre tudo acaba num apelo a que uma terceira parte arque com a conta.

O Tó-Zero deve estar à beira de um ataque de nervos

negociosEscreve o Jornal de Negócios: «O presidente francês quer reformar o Estado e cortar na despesa para criar folga para baixar a carga fiscal sobre as empresas porque estas são “as únicas capazes de gerar empregos sustentáveis” e o combate ao desemprego é a sua “primeira prioridade”.»