1ª Lei de Migas

A probabilidade de um artigo de opinião ser disparatado é diretamente proporcional à utilização de maiúscula na palavra “mercado”.

Corolário (1): O disparate será certo a partir do momento em que o autor assignar intenção e personalidade ao dito “mercado”.

Corolário (2): Mais que disparate, a referência a adoradores ou a sugestão de atribuição de características de divindade ao dito “mercado” é prova inequívoca de que o autor é um idiota chapado.

Ascensão e Declínio

Um estudo financiado pela NASA conclui que a civilização industrial está condenada ao colapso irreversível. Parece que o estudo começa por apontar o óbvio («The fall of the Roman Empire, and the equally (if not more) advanced Han, Mauryan, and Gupta Empires, as well as so many advanced Mesopotamian Empires, are all testimony to the fact that advanced, sophisticated, complex, and creative civilizations can be both fragile and impermanent.»), passando depois para o requentado («… accumulated surplus is not evenly distributed throughout society, but rather has been controlled by an elite. The mass of the population, while producing the wealth, is only allocated a small portion of it by elites, usually at or just above subsistence levels.»).

As civilizações, de facto, ascendem e declinam. A história ensina-nos isso. Parece-me é pouco provável que a civilização industrial acabe à conta de causas inerentes à repetição pouco original de argumentação marxista. Acho bastante mais provável que a civilização industrial acabe por governos, através de agências supostamente dedicadas à investigação e exploração aero-espacial, financiarem estudos da treta a pessoas cujo objectivo político é precisamente o fim da civilização industrial…

Precisamente por isso

Escreve o subscritor posterior por incúria do manifesto dos jarretas: «No entretanto encolhemos, empobrecemos, subjugamo- nos e, como de costume, quem paga esse preço nem sequer terá tempo de vida para receber as benesses possíveis

Precisamente, Pacheco Pereira. Por isso algumas almas avisadas estão há anos a chamar a atenção para como a governação desastrosa de socialistas de esquerda e de direita levaria inevitavelmente a uma conta a ser paga pelas gerações futuras. As tais que levam com a conta sem nunca receber nenhuma benesse em troca. As tais que lhe deram a si e aos restantes jarretas uma vida confortável a que provavelmente não terão elas próprias acesso, a não ser que fujam. É por isso um atentado à inteligência que pessoas responsáveis pelo estado calamitoso do país venham colocar-se numa posição moralista sobre os sacrifícios que estão a cair sobre as gerações dos seus filhos e netos; especialmente numa altura em que salta à vista que grande parte da motivação para tal vem apenas dos cortes nas suas próprias reformas.

Aqui há dias, o Pacheco Pereira chamou a atenção para que os decisores políticos de hoje estão a tomar decisões que afectam a futuro. Um futuro em que já não estarão por aí para responder pelas decisões. Se fosse verdade, seria óptimo. Infelizmente, a julgar pelo tempo de antena dado aos irresponsáveis que puseram Portugal no seu actual estado, desenvergonhadamente continuando nas mesmas argumentações e falácias estafadas, nunca assumindo a responsabilidade pelas asneiras, e desfacetadamente a sugerir que o nada que propõe resolveria alguma coisa, vemos que está errado. Continuam por aí, incluindo o próprio Pacheco Pereira, e nunca se calam.

Notável Rasto de Devastação

Este manifesto de figuras notáveis da nossa república, com referência explícita à reestruturação da dívida alemã do pós-guerra, tem uma importância clarificadora: Os notáveis, que desempenharam funções governativas e/ou influenciaram as decisões políticas da III República, admitem que as suas políticas estatistas e socialistas são o equivalente económico e social à devastação da Segunda Guerra Mundial.

Se 8 é bom, 9 é melhor!

Felicitações a todos os insurgentes pelo 9º aniversário da criação do blogue.

Em jeito de comemoração, lançamos um pequeno quiz para opinar sobre qual a razão pela qual o nosso estimado Comandante, o Miguel Noronha, subtraiu um ano ao total:

  1. Foi um corte por causa do Programa de Ajustamento da “troika”
  2. O Comandante não quis contar com o ano que esteve em sabática
  3. O ano em que o Jorge Sampaio ainda era presidente não conta
  4. Aquela cena do Paulo Fonseca ir a Leverkusen deixou-o confundido
  5. None of the above

Insurjam-se!

Da insustentabilidade das taxas de juro

Para todos os que estão preocupados com as “taxas usurárias” que o governo português pagou pela última emissão de dívida a 10 anos, deixo aqui a evolução das taxas desse tipo de obrigações no mercado secundário desde 1994:

portugal

Se a diferença, ainda assim existente, entre as taxas portuguesas e de outros países, continuar a parecer-vos “insustentável”, vejam a evolução do mesmo tipo de taxa para Alemanha (desde 1980): Continuar a ler

Gordo e anafado

O argumento aqui referido pelo João Galamba, usado por muita gente à esquerda, é o equivalente a dizer, de um tipo que enfardou até não poder mais, que o estômago cheio é um “entrave” a que ele continue a comer. O estado português endividou-se para financiar despesas correntes. Isso significa que consumiu, no passado, o que podia estar a consumir hoje e vir a consumir no futuro, não se tivesse endividado. Dívida é isso mesmo: Consumir no presente, adiantadamente, o consumo futuro.

O problema de crescimento da economia portuguesa é resultado, em grande medida, do estado gordo e anafado que esta tem de sustentar. O peso é tal que não deixa grandes meios libertos para investir – condição necessária do crescimento económico. Esse peso materializa-se primeiramente em impostos (que, diga-se de passagem, o João Galamba até estaria disposto a subir), mas também numa série de políticas inimigas do investimento, como burocracia, compadrio e corrupção; o peso também se sente na diminuição de algumas transferências para os cidadãos, pecuniárias ou em serviços, que também contribuem para a diminuição do rendimento líquido – que permite consumir e investir – e que agravam esta diminuição que já ocorre diretamente pela via fiscal.

Se o peso do estado já era grande, se o mastodonte que o povo português leva às costas já era insuportável há anos (daí o insignificante crescimento económico que Portugal mostrava há mais de um década), o crescimento dramático e rápido da dívida pública apenas veio agravar esta situação. A austeridade mais não é que o povo a suportar o gordo e anafado estado. Por isso, estas posições do João Galamba e da esquerda são tremendamente desonestas. Dão a entender que há um caminho em que o empanturrado estado pode continuar a comer sem que o povo sinta o seu peso. Não há.

Além disso, é extraordinário que alguém oriundo do partido com maior quota-parte de responsabilidade no crescimento do estado e da dívida venha dizer que esta última é insustentável e tem de ser reestruturada. Não só é de uma tremenda cara de pau, como acaba também por ser uma enorme admissão de falhanço: Se a dívida é insustentável, então é o próprio estado que é insustentável. O modelo que o seu partido teve um papel primordial a estabelecer é insustentável. E como sempre tudo acaba num apelo a que uma terceira parte arque com a conta.

Duas moedas (II)

No gráfico abaixo podemos ver a evolução do índice de desvalorização anual de duas moedas diferentes num determinado país desde 1967.

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Sem mais nenhuma explicação, qual das duas moedas escolheria para fazer as suas poupanças?

A linha verde corresponde à desvalorização anual do poder de compra do dólar (sempre acima de zero, sempre a desvalorizar). A linha amarela corresponde à desvalorização anual do poder de compra do ouro (valores negativos correspondem a valorização).

Parece haver necessidades de alguma explicação adicional, certo Carlos? :)

A mentira e o decôro

Diz Raquel Varela que Medina Carreira mente ao dizer que o estado social estará falido dentro de poucos anos porque a maior parte dos impostos é gasta nele. Diz que mente e sem decôro. Diz que os impostos e contribuições pagos pelos trabalhadores são suficientes para os gastos do estado social.

É uma questão de perspectiva. O dinheiro das receitas do estado não chega, comprovadamente, para tudo. Daí défices e dívida acumulada. Ela parece achar que os impostos devem ser gastos quase todos no estado social e que as restantes funções e obrigações do estado que se lixem. Incluem-se aqui os salários de centenas de milhares de funcionários públicos que não trabalham no estado social (educação, saúde e segurança social), nomeadamente a administração pública, conservatórias, repartições, polícia, entidades fiscalizadoras, entidades reguladoras, manutenção de estradas e da via pública, etc, etc. Inclui-se também nessas verbas desnecessárias o investimento público (que presumo ela gosta que seja mantido). Ele, por outro lado, chama a atenção para o facto das contribuições para a segurança social serem insuficientes para os seus gastos e por isso terem de ser complementadas com impostos, que, em teoria, servem para pagar o funcionamento do estado para além de outras funções sociais como a educação e a saúde.

Mas ao vermos o parágrafo acima, percebemos que a posição de Medina Carreira é razoável, de senso comum. Quanto muito, podemos ser picuinhas e argumentar que ele deveria ter dito “estado falir” em vez de “estado social falir” (assumindo a dúbia posição de que as despesas sociais são prioritárias; algo que se comprovaria facilmente ser ponto contencioso quando começassem a cair pontes e outras estruturas públicas, ou encerrassem serviços da administração pública generalizadamente, por todo o lado). Já a posição de Raquel Varela é claramente enganosa. Ela omite, parece que deliberadamente, os restantes gastos do estado, associando-os a transferências para privados, PPPs e coisas do género, quando são muito mais do que isso. É preciso cara de pau para acusar quem quer que seja de mentira e falta de decôro.

Com a continuada série de disparates escritos ou ditos por Raquel Varela a progredir sem parar, fico na dúvida se o problema dela é falta de inteligência ou falta de honestidade. Se calhar um misto das duas. Deixando de lado os episódios menos relevantes dos escuteiros e do rapaz das T-shirts, o trabalho acedémico dela parece focalizar-se em completos disparates: A “inexistência” da dívida pública, a confusão entre gestão empresarial e propriedade privada nos Hospitais EPE e ainda esta suposta autosustentabilidade do estado social. É obra. E o mais extraordinário é haver quem a leve a sério, na “academia” e fora.

A diferença entre Portugal e Irlanda

Antes da crise, a esquerda detestava que comparassem Portugal com a Irlanda. Esta comparação mostrava claramente as deficiências da governação portuguesa. Quando a crise estalou, foram vários os que se congratularam com a enorme recessão irlandesa. Parecia um alívio; afinal não estávamos assim tão mal, nem eles tão bem. (Jindungo no c* do vizinho para mim é limonada, etc, etc.) Agora que a Irlanda aparenta sair deste periodo conturbado de forma mais sólida que Portugal, a esquerda volta a dizer que as coisas não são comparáveis. Mas argumenta de forma curiosa: Diz que o ponto de partida era diferente, sem reconhecer quais as políticas que leveram a esse ponto de partida.

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Quando o PS e António Guterres chegaram ao poder, as despesas relativamente ao PIB de Portugal e Irlanda eram muito próximas. Foi nessa altura que a Irlanda reformou o estado, preparando-se para a futura “moeda única”, enquanto Portugal maquilhou contas, fez SCUTs e gastou o dinheiro adicional que veio da baixa de juros em consumos não reprodutivos. O peso da despesa pública irlandesa baixou de 41% do PIB para 31,2%, enquanto em Portugal manteve-se inalterada (o que significa que estruturalmente aumentou, pois os juros diminuiram para metade, em termos reais, durante o primeiro mandato de Guterres). De facto, o ponto de partida faz muita diferença.

Adicionalmente, o próprio processo de ajustamento é muito diferente. Como se pode ver nas barras do gráfico acima, as receitas em função do PIB aumentaram em Portugal e baixaram na Irlanda, durante o ajustamento.

É um bocado como a estória da formiga e da cigarra. Quando chega o inverno, a cigarra queixa-se do ponto de partida.

Sem o mínimo pudor

Na capa do i de hoje, aparece João Cravinho a comentar que “sem uma reestruturação da dívida, ficamos esfolados.”
Isto vindo de quem era ministro das obras públicas na altura em que inventou este mecanismo genial de desorçamentação, conhecido como PPPs, é de uma falta de sentido de pudor inacreditável. Há gente que não sabe mesmo ficar calada.