Aristocratas do socialismo

O meu texto de hoje no Observador, sobre as castas de aristocratas que o socialismo inevitavelmente gera.

‘A semana passada foi uma grande semana para o país. Ficámos a saber que podemos ganhar dezenas de milhar de euros anualmente sem fazer absolutamente nada. Não tema o leitor: não venho aqui vender nenhum esquema fraudulento daqueles que nos propõem rendimentos estratosféricos trabalhando duas horas a partir de casa. Nem se trata de aconselhar a dar o golpe do baú, que nesses casos pode mesmo ser muito trabalhoso contentar o dono ou a dona do baú. Não, refiro-me ao emprego dos administradores não executivos dos bancos nacionais, que Godinho de Matos tão bem descreveu na entrevista que deu ao jornal i. Como administrador não executivo do BES, entrava mudo, saía calado, não fazia ideia do que se passava no banco, não fazia perguntas (até se podia fazer, mas nunca ninguém fez e já se sabe que não é de bom tom quebrar tradições). E, por essa hercúlea tarefa, foram-lhe pagos em 2013 42.000€.

E quais são as condições de recrutamento para tão relaxante e rentável profissão? Um doutoramento? Um pós-doutoramento? Experiência em cargos de topo em organizações internacionais? Não complique, caro leitor. Para ser selecionado para administrador não executivo de uma grande empresa portuguesa – daquelas, bem entendido, que aumentam a faturação quando empregam quem tenha o ouvido dos decisores políticos – basta: a) ser de esquerda; e b) estar ligado à resistência ao regime de antes de 74.’

O resto está aqui.

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Preconceito em pelota

A Carla Quevedo no i sobre as fotografias de nudez roubadas e os disparates abundantes (que os disparates são assim, vêm sempre abundantemente) que sobre o roubo se disse. E na conclusão (muito acertada) da Carla sobre o assunto, eu ainda acrescentaria que uma mulher de bem só tiraria fotos nua a contragosto e para fazer a vontade ao marido. Tudo o que esteja fora disso, é expor as tentadoras. Quiçá criar-se uma página daquelas que agora surgem no facebook, ‘base de dados de mulheres solteiras que tiram fotos nuas’.

‘Comecemos pelo princípio. Um hacker entrou sem autorização nas contas iCloud de várias celebridades de Hollywood, como Jennifer Lawrence, a cantora Rihanna ou a modelo Kate Upton, e espalhou pela rede imagens das protagonistas, nuas, que estavam na chamada “nuvem”, a qual julgavam segura. Além de “hackar” as contas para roubar o que não era dele, partilhou o saque publicamente. Os crimes são tantos que quase não tenho espaço para os enumerar. No entanto, adivinhem quem foram apontadas como as maiores culpadas do roubo? As vítimas, claro. E porquê? Porque estavam nuas.’

Piedades

yummi O comentador João fez aqui um longo comentário a este meu post. E como reconheceu estar cheio de vontade de receber vergastadas, eu, como boa cristã (enfim, péssima, mas é o que se arranja), gosto de aceder à vontade e às necessidades dos demais sempre que tal não me desgosta grandemente e, portanto, aqui venho aplicar lógica e sensatez à questão. Também porque são argumentos muito frequentemente utilizados – pelo que os meus comentários seguintes vêm a propósito do comentário linkado mas não são observações necessariamente destinadas ao autor do comentário. E, também como é costume, usando-se – mais do que factos, imparcialidade, racionalidade – distorções, preconceitos e ignorância. Ignorância por não conhecerem os textos bíblicos nem os estudos feitos por quem se dedicou a aprender as línguas dos originais e escalpeliza cada pormenor para conhecer de onde vem, com o que se relaciona, qual o significado; ignorância por não fazerem ideia do valor que a Igreja dá àquilo que contestam; ignorância por tomarem todo o cristianismo como os conservadores protestantes americanos, que lêm a Bíblia de forma literal (algo inteiramente recusado pela Igreja) e passam a vida às guerras por causa do criacionismo versus darwinismo. (É certo que Bento XVI, na sua deriva ultra-conservadora mal-aconselhada em que tentou fazer da Igreja um grupo de meia dúzia de fanáticos dados à obediência cega ao Papa e à observância de 15.000 regrinhas inúteis que viam como mais glamourosas do que o tradicional amor ao próximo, procurou identificar o Jesus da fé com o Jesus histórico e sugerir uma leitura factual de todos os eventos dos Evangelhos. Mas, opinião – e sublinho o ‘opinião’ – de Bento XVI enquanto Papa à parte, a posição da Igreja está bem clara num documento muito feliz sobre o tema, de resto coordenado por um Cardeal Ratzinger em grande forma.)

Por exemplo: o que significam pomposidades do calibre ‘Não se pode apresentar argumentos racionais a quem não valoriza a razão, nem argumentos lógicos a quem não valoriza a lógica e muito menos argumentos científicos para quem pensa que a ciência é fundamentalmente nefasta.’ Eu não faço ideia de quem é que não valoriza a razão, nem a lógica e considera a ciência nefasta. A Igreja e os católicos não são certamente, e quem assim vê o catolicismo, lá está, não faz a mais pequena ideia do que diz. E em que casos de investigação académica ‘gera-se um silêncio que apesar de tudo é mais confortável que confrontar a ira dos cristãos com razão e ciência’?? Talvez em Marte (sociedade que desconheço), haja casos numerosos de ‘ira dos cristãos’, mas neste planeta o que vejo é muito académico, escritor ou colunista atacar o cristianismo porque sabe que essa é uma forma de ganhar fama rapidamente. E, porventura, esconder falta de talento (veja-se Dan Brown ou Saramago); e quem é Sam Harris fora as arengas contra a fé? Eu não tenho tido notícia de cristãos a atacarem quem contesta a sua fé – lembro-me de uma religião que o faz, mas não é a católica – e até diria que a ira vem dos que contestam o catolicismo, mas isso são juízos de valor ao cuidado de cada um. E espanto-me sempre com a ferocidade e o tempo que os ateus prosélitos dedicam ao cristianismo (vivendo numa sociedade felizmente laica); estou mesmo convencida que isto será alguma condição psicológica que um dia será diagnosticada.

Ora bem, a tese do João (e não só do João) é que não há qualquer indício histórico da existência de Jesus e muitos académicos reconhecidos (a sério?) opinam pela não existência. E para mostrar o quão escandaloso a falta de indícios é, revela como há documentação histórica sobre Júlio César. Portanto, Jesus – que era um homem comum em termos de estatuto social (e o facto de o Filho de Deus ser um homem comum até é algo bastante usado nas reflexões católicas) – só existiu de facto se houver documentação igual à existente para o que foi o homem mais poderoso do mundo romano. Bom, argumentação fraca. É que não existiram no mundo só as pessoas que apareceram em documentos (exigindo-se evidentemente o original, que as cópias prestam-se a todas as manigâncias) oficiais ou de historiadores reconhecidos, preferencialmente com assento de nascimento e certidão de óbito. Todas as outras pessoas não documentadas, toma, não existiram, é isso? Continuar a ler

As mulheres de Jesus

Um texto de Anselmo Borges, no DN, para ser lido de alfa a ómega. Nunca é de mais salientar que a forma como Jesus se relacionou com as mulheres foi (tal como tudo o resto em Jesus) revolucionária: não só faziam parte das suas discípulas como eram as mais leais; foram apenas mulheres que acompanharam Jesus quando foi crucificado e foi a uma mulher que Jesus ressuscitado apareceu pela primeira vez. E, já agora, os doze discípulos homens – que a Igreja usa para fundamentar o sacerdócio apenas masculino – foram, com grande probabilidade, uma (como tantas outras dos Evangelhos, e quase todas que fazem referência ao Antigo Testamento) construção catequética, no contexto da crescente divergência entre cristianismo e judaísmo, de forma a colocar o cristianismo, em vez do judaísmo, como a religião herdeira de Israel com as suas doze tribos.

(A questão do casamento de Jesus não tem qualquer importância para a fé – só mesmo para os curiosos do que foi o Jesus histórico (como eu). Pode não se ter casado e ter quebrado o costume, tal como mais tarde fez S. Paulo, que, de resto, procurava imitar Jesus tanto quanto podia. Ou pode ter sido casado e enviuvado durante a sua vida privada, o que tal também não tem qualquer implicação teológica.)

‘Os exegetas mais conceituados reconhecem que, também no que se refere às mulheres, Jesus operou uma revolução. Por princípio, as mulheres não deviam falar com um homem em público, o seu testemunho não tinha força, eram definidas como uma “lua”, recebendo o seu brilho do “sol”, que era o homem, eram impuras por causa da menstruação. Jesus não atendeu à impureza ritual, falou com a samaritana, uma mulher que tinha tudo contra ela – herética, estrangeira, com vários homens na sua vida -, teve discípulos e discípulas, fazendo-se acompanhar por eles e por elas nas suas tarefas apostólicas. Como escreve o teólogo X. Pikaza, “Jesus rompeu com todas as tradições culturais do seu tempo e trata a mulher como igual”; “homens e mulheres aparecem no seu projecto como iguais, sem prioridade de um sexo sobre o outro”; “não quis sacralizar a sociedade patriarcal da sua época” e “fundou um movimento de homens e mulheres, contra os rabinos da sua época, que não admitiam as mulheres nas suas escolas”. E A. Piñero: “Jesus foi um rabino relativamente anómalo no panorama dos doutores da Lei do século I, porque teve um ministério activo no qual as mulheres não só estavam presentes, mas eram discípulas.” Inclusivamente constata-se que as mulheres foram as discípulas mais fiéis e destemidas: “De facto, ao chegar a provação da Cruz, os Doze abandonam-no; elas, pelo contrário, permanecem fiéis até ao fim” (Pikaza) e foi Maria Madalena quem primeiro teve a convicção avassaladora de fé de que ele está vivo em Deus.

[...]

Decisivo é que Jesus, infringindo os preceitos patriarcais, deu início a um movimento inclusivo de homens e mulheres, sem discriminação. A Igreja Católica ainda não tirou daí todas as consequências.’

O texto completo aqui.

 

Martírios populares

Há um grande serviço à humanidade feito pelo Observador – além, obviamente, de dar guarida aos textos da yours truly e de demais insurgentes – que tem pasado despercebido: traz-nos, todas as semanas, um texto do Paulo Tunhas. O desta semana é hilariante (posso confessar que lágrimas de riso ocorreram enquanto escrevi estas linhas). Eu li-o ao fim da tarde no cabeleireiro (ainda por cima um rapaz que eu nunca havia visto, que as duas senhoras que se revezam para me aparar os caracóis estavam de férias e de folga, o que significa que a minha reputação junto desta pessoa ficou arruinada ainda mais cedo do que é costume) e entre rir-me imenso, contorcer-me para parar de rir imenso, maior vontade de rir à conta do olhar perplexo do rapaz (que desde logo estranhou eu estar a ver coisas só co letras em vez de com fotos ‘de famosos’), fiz uma figura que me obrigou a ser mais generosa do que devia com a gorjeta. E fui transportada para os tempos em que morei numa zona de Lisboa circundante aos bairros onde se comemora o Santo António. Apesar de a minha experiência não ter sido tão traumática, também posso partilhar a alegria de ter no início de uma pequena travessa em frente às minha janelas de então (era um 1º andar) de um lado da casa – o outro tinha uma vista catita sobre a encosta – os ensaios da marcha do bairro (que era coisa para se iniciarem três meses antes dos dançarinos se exibirem na Av. da Liberdade e, portanto, animarem as noites de uma boa porção do nosso ano). Ou de como se nos abriam duas opções para viver o Sto. António: ou nos encerrávamos em casa entre, o mais tardar, a hora de almoço do dia 12 e o dia 14, acautelados contra qualquer necessidade de sair de casa como se de um inverno nuclear se tratasse; ou fugíamos de Lisboa entre essas datas.

Um excerto das experiências de Paulo Tunhas no S. João:

‘Mas, sexta-feira de tarde, o mundo mudou mais do que alguém, mesmo alguém advertidíssimo da incerteza da existência, poderia esperar. Vinda do centro da Rotunda, uma voz gritava, amplificada por um potentíssimo aparelho sonoro: “Are you ready?”, “Arriba! Arriba!”, “Tudo nice?”, “Es-pe-cta-cu-lar!”, “Uau!”, e coisas assim. Com um entusiasmo e uma regularidade aterrorificantes.

É claro que me assustei. A atmosfera não era em nada balsâmica. E assustei-me cada vez mais à medida que as horas passavam e a coisa não parava. À noite, com as persianas fechadas e os vidros a tremer, era impossível ouvir música, ver um filme ou ler um livro. Acrescentei mais três portas fechadas dentro de casa e, como um animal acossado, enfiei-me, inerme, no quarto, o mais longe possível do horror. A voz continuava a berrar (“Arriba! Arriba!”) e um baixo persistente atacava, percutante, a noite. Adormeci por exaustão por volta da uma e meia da manhã, quando a gritaria parou, como alguém que, de repente, se vê livre de uma dor aguda e inteiramente absorvente.

Sábado foi a mesma coisa, salvo que naturalmente pior, porque estas desventuras deixam marcas na nossa “organização nervosa”, para falar como Júlio Dinis. Impossível fazer o que quer que seja, a não ser remoer o ódio. Domingo, fui almoçar a casa da minha mãe e cravei-lhe dois lorenins, para aquela noite e para a noite de S. João propriamente dita. Passou essa noite – o mesmo – e a noite de S. João. Terça-feira, feriado, e apesar da “organização nervosa” estar ainda mais debilitada, vi a manhã como uma manhã de Natal da infância. O pesadelo tinha acabado e o mundo ia renascer belo e puro. Ia finalmente poder ler, trabalhar, ouvir música.

O doce engano durou até cerca das quatro da tarde, altura em que os “Uaus!” e os “Arribas!” retornaram com inusitado vigor (ainda os ouço em imaginação).’

O resto da experiência está aqui.

Guerra dos sexos digital

O meu texto de hoje no Observador.

‘Todas as mulheres já devem ter passado por momentos em que se repara que o cérebro do homem com quem se conversa (socialmente, em trabalho, estes momentos não se fazem esquisitos) deixa de funcionar. Fica demasiado distraído a olhar para o decote (especialmente se tiver algum indício de cleavage – e os wonderbra são instrumentos letais para a exibição da inteligência ou eloquência masculinas) ou para as pernas (sobretudo se estiverem pouco cobertas e assentes nuns saltos altos) e esquece-se de manter o fio condutor do raciocínio. Ou o objetivo passa de mostrar a lógica dos argumentos para tocar amigavelmente, no meio do gesticular, na mulher com quem fala. Há casos em que estes comportamentos são ofensivos – o toque pressupõe intimidade que é inexistente ou o senhor faz questão de exibir a opinião de que a mulher com quem interage é só o decote ou as pernas – mas na grande maioria das vezes são inofensivos, divertidos e, até, elogiosos. (De resto, às mulheres também acontece).

Claro que é mais estimulante (e enternecedor) quando a resposta masculina à admiração pelo feminino é a tentativa de nos impressionarem (pela sapiência, beleza, proeza física, status, fortuna – aquilo em que o homem se sentir mais dotado). E no topo há aquela classe de homens – a que eu chamo os grandes elogiadores – que têm uma verdadeira mestria a elogiar mulheres. (Um dos dons mais subvalorizados da história da humanidade.) Elogiam abundantemente, sempre com gosto e doses certas de admiração e atrevimento. Neste caso, o elogio é mesmo uma questão de respeito. Não o respeito puritano, mas aquele que sentimos por alguém que tem uma qualidade que muito valorizamos.

No reverso insultuoso e exasperante das relações entre os sexos temos sermos ignoradas – ou não se dão ao trabalho de reagir (por uma mulher? porquê?), ou desvalorizam o que dizemos e produzimos, ou lembram-nos que somos subalternas de uma hierarquia superior masculina (afinal, a ordem natural das coisas, não é?). E, pior, na estratosfera ofensiva há as ameaças de morte e violação, eventos agradáveis que por estes dias ocorrem frequentemente na net envolvendo sobretudo mulheres opinativas (as mulheres a terem e proferirem opiniões, onde é que isto vai parar?). Algo que se pode com propriedade caracterizar como um curto-circuito cerebral masculino. Mas em ainda mais perigoso.’

O resto está aqui.

O PS é a minha musa

Inspirada pelo comovente house sharing socialista e por uma boa questão do Paulo Gorjão no twitter sobre a natureza dos militantes socialistas que vão votar nestas primárias – e que, como se sabe, alguns já foram objeto de uma certidão de óbito -, e, ainda, por outra coisa que estou presentemente a escrever, aqui vai uma das cenas preferidas das minhas crianças do Hotel Transilvânia.

Socialistas, rogo-vos: escolham António Costa para livrarem Lisboa deste martírio.

É certo que António Costa há já uns meses que tem tido o comportamento de indisputável seriedade de continuar a receber por inteiro o ordenado de presidente da câmara municipal de Lisboa enquanto passa os dias a visitar o país em campanha interna pelo PS – o que, neste país de adoradores de chicos-espertos, será certamente uma característica que agradará ao eleitorado – e nem se dá ao trabalho de esconder que não faz ideia do que se passa na CML, como se comprovou no caso dos arbustos que Sá Fernandes entendeu, na sua boa consciência pós-colonial, liquidar. Assim sendo, até poderíamos pensar que Lisboa tinha motivos para respirar de alívio por ter a atenção de António Costa presa, thank God, noutros locais do país. Mas ainda não é suficiente, porque a compulsão costista de estragar o que não tem problemas nenhuns ainda se faz sentir por Lisboa.

Eu moro perto da zona ribeirinha entre a Doca de Sto. Amaro e Belém e aproveito-a muito. Os restaurantes, a esplanada do CafeIn, o chá (um dos poucos razoavelmente decentes de Lisboa) daquele café ao pé do Altis de que eu nunca me lembro do nome, o Museu do Oriente, os passeios com os miúdos,… (e não esquecendo o Bar do Gin na Doca de Santo, muito apreciado aqui nesta casa). A zona ribeirinha tem os espaços todos muito organizados e um dos poucos que ainda estava em organização espontânea era a zona ao pé da Estação Fluvial de Belém. Como é perto de casa, quando tinha um espaço de tempo pequeno entre eventos com horas marcadas, ou quando ia buscar a criança mais nova, que me adormecia mal entrava no carro, e ainda tinha uma meia hora antes da hora de saída da criança mais velha, aproveitava e ia para o lado da Estação Fluvial, estacionava o carro de frente para o rio e lá ficava um bocadinho a ler o meu livro ou os blogues e o facebook.

Era uma zona pouco frequentada, aí com uma dúzia de carros estacionados que não incomodavam ninguém, de pessoas que também estavam ali a passar um bocadinho com uma vista simpática, com o turista ocasional a ir do Padrão dos Descobrimentos para os lados de Alcântara. Como hoje fiquei por Lisboa, de manhã lembrei-me de ir para lá ler os jornais na net. E verifiquei que até naquela zona onde nada se passava António Costa já conseguiu fazer com que se passasse ainda menos. Apesar da pouca passagem de carros, o pavimento está agora dividido em não sei quantas faixas de rodagem, todas elas com traço contínuo e sentido de rodagem desenhado, bem como as setas informando para onde os carros têm de virar. Há até duas faixas separadas ds restantes com pinos, não vão os quatro carros que lá passam diariamente pisar aquele traço contínuo. Uma das razões da intervenção parece-me ter sido limitar as faixas de rodagem de entrada e saída de carros para os ferries que lá atracam, o que está muito bem. A outra razão da intervenção só pode ter sido a paranóia anti-automóveis de Costa e a vontade de impedir que os lisboetas usufruam daquele espaço da forma como sempre fizeram – já que aquilo se tornou um mero espaço de passagem de carros (inexistentes), sem possibilidade de estacionamento nem de uso do espaço para outro fim.

Há que reconhecer que aquele espaço pode ser objeto de guerras entre a Administração do Porto de Lisboa e a CML, mas cabe ao presidente da CML a ordenação do trânsito na cidade, bem como permitir o uso da margem do rio pelos lisboetas. E o político que vai meter na ordem Merkel e os outros austeritaristas europeus certamente não tem problemas em disciplinar a APL, pois não?

Lições a aprender com Chamberlain

imageNão vale a pena fazer ultimatos. Quando se chega à necessidade de fazer ultimatos, foi porque já se terminou a possibilidade de qualquer convivência mutuamente suportável. Se fazemos ultimatos, acabamos sempre no dia 3 de setembro às 11 da manhã a informar, com ar sorumbático, que ‘this country is at war with Germany’.

(Em cima a fotografia do papelinho de Munich. Que também permite outra lição: quem dá cabo de uma oportunidade, vai dar cabo das seguintes. Ou seja: nunca confiar nos grupos de loucos que há pelo mundo e esperar que eles continuem a ser o que são: loucos.)

Temos herdeiro para a CDU

‘Having achieved virtually none of the objectives it said it fought for, at a cost of 2,000 dead and 500,000 displaced, Hamas tries to make the case it won the war.

Exhausted, battered and traumatized from 50 days of fighting and incessant Israeli bombardment, Gazans are now pouring through the streets lined with the rubble of former buildings and breathing a collective sigh of relief. Whether flocking to reopened cafés or pulling cinder blocks out of their blown-out living rooms, as the ceasefire takes effect people are feeling they have withstood the worst and survived. It’s a sentiment Hamas is seizing on to try and claim “victory” in a war that has yet to end the seven-year siege of Gaza – which was supposed to have been its purpose when Hamas was launching rockets at Israel.

Rather than focusing on an agreement that doesn’t seems to get Palestinians anything more than they got at the end of the 2012 war, Hamas changed from its wartime claims that it was fighting a battle to end the blockade to new rhetoric about victory in survival and repelling the Israeli ground invasion.’

O resto em The Daily Beast.

Problemas com o conceito de democracia

Não querendo agora discutir os subsídios às fundações privadas, as políticas culturais ou o valor da coleção do Museu do Brinquedo (conheço-a apenas por lá ter ido com as minhas crianças), esta notícia é muito curiosa pelo que se percebe da atuação de Basílio Horta e que parece ter vindo da cartilha aprendida por todos os socialistas. É mesmo todo um retrato da forma como os socialistas medem o mundo. A coleção é privada e tem (assumamos) interesse público. O que faz Basílio Horta? Apresenta uma proposta (na verdade, impõe) assegurando apenas o seu interesse e espera que a parte privada aceda prontamente e ainda agradeça profusamente. Faz lembrar sócrates negociando (não se preocupem, tenho aqui ao lado os rebuçados para a tosse) uma possível coligação em 2009, com o seguinte guião a apresentar aos outros partidos: ‘vossas excelências aceitam sem tirar nem por o nosso programa eleitoral como programa de governo e, em troca de nada, dão-nos os vossos votos; e sorridentes, se faz favor’. Ou António Costa, que já avisou que só aceita – e com benevolência e pleno de espírito ecuménico – o PSD se este renunciar às suas políticas e até pretende escolher o próximo líder do PSD. Ou seja, os socialistas só se sabem relacionar em submissão. A atitude que respeita a outra parte, que a aceita como igual com quem há que tomar decisões em conjunto, que não estabelece relações de poder humilhantes (e estes socialistas não só não aprendem com os seus erros como não aprendem com erros alheios; o episódio irrevogável do anos passado, mais o que o gerou, come to mind) – essa atitude é-lhes desconhecida.

E a hipocrisia de Basílio Horta é tanta (e a de sócrates, que se queixava que ninguém se tinha querido coligar com ele apesar das suas avassaladoras tentativas, e a de Costa se o deixarmos lá chegar) que claramente pouco se esforçou para chegar a um entendimento mas, ainda assim, recomenda insistência à parte privada. É a ordem natural das coisas: os privados a pedincharem coisas aos deuses do Olimpo socialista. Tu aí trabalha muito para me agradar e persuadir que eu, virtuoso e ser superior, como bom socialista, se estiver bem disposto, dou umas migalhinhas e olhem que as dou apenas por dias contados, não andem cá à procura de mimalhices intermináveis. Quem tinha um deadline, oficial ou oficioso, era a CMS, mas pode-se lá exigir à casta superior dos nossos autarcas que se sujeite aos tempos de um privado que tem algo com algum interesse público? Não é obrigação dos privados esperarem todo o tempo que os iluminados do PS e anexos entenderem por bem (e mesmo quando a situação a negociar se torna por alguma razão, com a passagem do tempo, impossível ou indesejável ou menos apelativa)? Ou até se aparece uma melhor proposta na autarquia ao lado? Obviamente que a um organismo do estado lhe tem de ser concedido toda a eternidade para o processo de decisão.

Todo um conceito de estado às avessas.

Senhor jihadista, posso ter a Grã-Bretanha de volta? Obrigada.

O meu texto de hoje no Observador.

‘Sou anglófila até à medula. Contado depressa: adoro all things british. O folclore da finest hour, a forma como valorizam a excentricidade, o Yes, Minister e o Fawlty Towers, as livrarias e os autores curiosos que descubro nas livrarias (de fugida, nomeio a Charlotte Mendelson e o autor sino-americano de policiais Qiu Xiaolong), a Tate Modern, as latas de chá da Fortnum & Mason (e estou eternamente grata à East India Company por ter surripiado os arbustos do chá à China para os cultivar no norte da Índia e no Ceilão), as capas para ipad da Smythson, o Colin Firth.

Bom, tudo, tudo, não. Na verdade a Grã-Bretanha tem algo dentro de si verdadeiramente funesto. Algo cuja mais recente manifestação ocorreu algures pelo Iraque quando um londrino decapitou um inocente americano em frente a uma câmara de filmar. E que gerou ondas de choque, ai Jesus, como é possível que na Europa rica, democrática, tolerante, das Luzes germinem jihadistas? Cameron interrompeu até por uns dias as suas férias na Cornualha (região que também adoro e admito até uma leve paixoneta por St Ives, que seria o meu local de veraneio de eleição não achasse eu uma anedota fazer férias ditas de praia em locais como Moledo ou S. Martinho do Porto que, afinal, são vários graus de latitude a sul de St Ives) para, presume-se, curar a arritmia dos membros do governo por tão inesperada notícia de que há malucos extremistas in the making em Londres.’

O resto está aqui.

Apesar de ainda não ser ‘of a certain age’, aprecio a tendência

There has been a surge in the past couple of years of meaty small screen roles for highly respected – and in many cases, Oscar-winning – women of a certain age, and last night they were rewarded.’

E até a CJ Cregg ganhou um Emmy. Mission accomplished. (Sejamos caridosos e não comentemos o vestido – alargando prudentemente o conceito de ‘vestido’ – de Julia Roberts.)

De facto, é surpreendente que tenhamos tido o resultado que cozinhamos

‘There are now thought to be more British-born members of Isis than there are Muslims in the British Army, leading lots of people to ask how they could hate us so much. After all, we did everything right: we imported low-skilled migrants from among the most clannish and socially conservative societies on earth to do badly-paid industrial jobs that were disappearing, ensuring their children grew up in unemployment; then we taught those children that our culture was decadent and worthless and our history tarnished with the blood of their ancestors; then we encouraged them to retreat into their religion through financial subsidies to the most openly sectarian and reactionary members of their community. What did we do wrong?’

‘O plano económico do PS é rezar’ (mas a Shiva, que eles são modernos)

Ana Sá Lopes (que sobre António Costa já recuperou o senso há algum tempo) no i:

‘Claro que Costa defende outra atitude perante a Europa com que Passos não concorda – mas que Seguro, por acaso, também defende. Aliás, defendem os dois o mesmo. Cito a moção de Costa: “É no quadro da negociação destas novas políticas europeias que o PS se deve comprometer a trabalhar para encontrar um novo equilíbrio entre os compromissos assumidos em matéria orçamental, a necessidade de reduzir os custos da dívida pública e a urgência de políticas para mais crescimento e emprego.” Isto era bom que acontecesse, mas até agora não aconteceu. Um senhor chamado François Hollande, presidente da República Francesa, um país com muito mais poder que Portugal no quadro europeu, não conseguiu nada.’

‘Devemos deixar andar o caos alguns meses’, disse Mao

O meu texto de hoje no Observador.

‘Não é que ande arredada de jornais, mas faço por evitar notícias das rainhas do drama nacionais. Há pouco sofremos a novela da ida (mais que a própria da ida) de Fernando Tordo para o Brasil – repetindo o êxodo de Maria João Pires anos antes – e poupei-me, agora, ao desgosto do fim da carreira de Rui Veloso. Certamente por mau feitio meu, obsto a que ‘os artistas’ entendam que lhes é devido o meu dinheiro – através de apoios de e serviços às câmaras municipais ou à SEC. Ou com a ressurreição da taxa sobre os suportes que armazenam conteúdos (como as fotos das férias da criançada da família neste verão) que Gabriela Canavilhas falhou em implementar e que os socialistas seguintes (o governo atual) querem finalmente cobrar. Sobretudo quando, deixando-se o meu dinheiro entregue à minha vontade (sempre um erro fatal, segundo o estatista médio), eu teimo em não o despender com esses artistas em concreto.

Mas desta vez a minha seletividade ia ditando que eu perdesse a entrevista de Carlos do Carmo ao Diário Económico, que merece ser amplamente comentada. Passo à frente do fadista Sinatra, ilumino com brevidade a escolha de terminar com uma citação de Fidel Castro (reconhecido autor da fulgurante prosperidade cubana do pós-59), acompanho por curtos segundos o cantor no espanto pela fidelidade do público, para me centrar nas palavras esperançosas de Carmo à conta dos jovens nas ruas.’

O resto está aqui.

Tenho a agradecer ao José Meireles Graça não ter perdido esta preciosidade jornalística que é a entrevista de Carlos do Carmo pelo DE. E deixo-vos uma canção do outro fadista, cantada num ano bom. (Não assumo responsabilidade pelas figuras da audiência no vídeo.)

E também umas imagens do que Carlos do Carmo quer ver nas ruas.

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O acordo ortográfico e eu

O meu texto de hoje no Observador, sobre ortografia com deriva literária.

‘Aviso já: a ortografia não me desperta emoções fortes. Não entendo a forma como muitas pessoas reagem à nova grafia como se um larápio lhes tivesse invadido a casa, roubado as jóias herdadas da avó e grafitado os retratos dos solenes antepassados. Tanto mais que (provavelmente porque ainda não ocorreu aos responsáveis do ministério das finanças) é perfeitamente possível continuar a escrever com a grafia antiga sem que tal constitua infração punível com multa.

A minha adoção do acordo ortográfico foi inteiramente utilitária. Tinha um limite máximo de 2000 caracteres com espaços para textos que escrevia para um jornal, bem como uma dissertação de mestrado a meio (no início, para ser sincera, e também com limite de caracteres) e, como sou tendencialmente palavrosa e pouco sintética (repararam na redundância?) e sofro sempre a cortar textos, lembrei-me: por que não livrar-me das consoantes mudas para poupar caracteres? Desde então a reação dos leitores não se fez esperar. As idiossincrasias da minha escrita sempre foram aceites como, bem, idiossincrasias da minha escrita. Nunca ninguém resmungou do meu uso de uma ou outra expressão em inglês, da minha queda para os advérbios de modo, da mania de observações entre parêntesis. Mas com a nova grafia, oh, não houve alma das tais que sente apaixonadamente a ortografia que não se manifestasse: no facebook amigos lamentaram o meu parco discernimento; no blog questionaram as minhas capacidades cognitivas, sugeriram pertença ao BE e garantiram-me que não mais leriam qualquer coisa que escrevinhasse, nem sequer uma lista de supermercado.’

O resto está aqui.

O 3º round da ‘narrativa’ sobre o desastre de supervisão do BES

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Eu até queria escrever sobre outras coisas, mas o mundo não deixa.

Nos últimos dias tenho ouvido e lido um choradinho (o último foi hoje nos poucos minutos – que a sanidade mental e o senso e o gosto não permitem aguentar mais do que uns poucos minutos seguidos dos comentadores televisivos – em que ouvi Marques Mendes) sobre a tremeeeeeeeenda injustiça que se está a fazer a Carlos Costa, coitadíssimo, que é ‘só’ governador do banco de Portugal, enquanto que o criminoso-mor Salgado está a passar pelos pingos da chuva. E, meus caros, deixem-me que vos diga que esta argumentação é indecorosa.

Salgado cometeu crimes enquanto administrador do BES? De tudo o que se tem lido, sim, e espero que, confirmando-se o que se tem escrito, os pague bem caros em pena de prisão. Algo que duvido que suceda porque quem faz o que faz nas várias empresas dos Espírito Santo não deixará de ter colecionado podres que pressionem outros poderes, pelo que, depois de atiçarem a fúria popular contra Salgado (para proteção própria), o poder político (e judicial) não deixará de promover a absolvição de Salgado.

Mas vamos ao Banco de Portugal. Eu sei que há muito para aí, dado o que argumentou por estes dias, quem acha normal e até gosta de ser enganado pelo estado (desde que o autor do engano seja o PSD). Esses estão way round the bend e nem vale a pena discutir esta questão com eles. Mas, aos restantes, dizem-me sff para que raio existe o regulador e supervisor bancário BdP? Não é precisamente para acautelar as situações que sucederam? É que se partirmos do princípio que sempre que há gestão danosa nos bancos o BdP nada consegue ver, nada consegue fiscalizar, nada consegue evitar, para que andamos a gastar dinheiro com a inutilidade? E o que está um senhor tão sério e eficiente como Carlos Costa (segundo os maluquinhos) a fingir que tem alguma utilidade, só para receber todas as benesses de ser governador do BdP? Uma pessoa séria não aceita estar a fingir que pode ser eficaz quando é apenas decorativa, pois não? Ainda para mais num caso em que mais perigoso do que não haver nenhuma regulação é não haver nenhuma regulação enquanto se assegura que sim, que há regulação e que esta é confiável; é dizer aos mercados que podem ter confiança em vez de dizer aos mercados que estão inteiramente por sua conta e que tomem as decisões com base nisso.

E há ainda outro ponto. Salgado pode ter cometido crimes, mas quem tinha a obrigação de zelar pelos interesses dos cidadãos portugueses era Carlos Costa, não Salgado. Por isso faz todo o sentido – e só num país de imbecis funcionais não será assim – que os cidadãos peçam explicações a quem os devia defender de por que não o fez.

A defesa (indefensável) de Carlos Costa está a ser feita evidentemente pelo governo, que também não quer ter sobre si o ónus de ter mantido em funções e ter até apoiado um governador do BdP que sabia que Salgado montou um esquema fraudulento no GES e o deixou continuar à solta no BES. Pior: deixou-o à solta no BES sabendo que tinha o tempo contado e que se havia maroscas para fazer, era fazê-las depressa. (A propósito: alguém se lembrou de testar o QI de Carlos Costa?) E a ver vamos se ministra das finanças e primeiro-ministro não sabiam também do ‘esquema fraudulento’ do GES e não foram cúmplices da manutenção de Salgado no BES. E evidentemente que sabiam, porque se Carlos Costa não lhes tivesse dado uma informação dessa relevância, tê-lo-iam demitido de imediato ao conhecê-la. Mas mesmo que num cenário impossível Costa não os tenha informado, certamente que Salgado informou o pm quando lhe foi pedir ajuda para o banco.

Ou seja: MLA e PPC, com toda a probabilidade, sabiam e foram coniventes com o contágio que Salgado estava a fazer ao BES dos problemas financeiros do GES. É para os salvar que se tenta convencer que Costa não podia ter feito mais.

É por isso que o primeiro spin da nacionalização do BES foi a suprema coragem que este governo teve de sacrificar os acionistas – essa gente ávida de dinheiro e burra que não tinha visto aquilo que era evidente para todos. Isto vem da estupidez ancestral (porque nunca lhe traz ganhos eleitorias nenhuns) do PSD – não resiste a mostrar as suas credênciais de partido esquerdista – e do uso que contavam fazer da proverbial inveja dos portugueses por quem tem dinheiro. Saiu-lhes o tiro pela culatra, porque se os contribuintes (até ver) e os depositantes ficaram aliviados por não serem (ainda mais) sacrificados, também entenderam bem que a maioria dos acionistas não tinha qualquer responsabilidade na gestão do BES e que tinha sido enganada à grande pelo supervisor (e governo), sobretudo na pornográfica vergonha que foi a permissão do último aumento de capital do BES.

O segundo spin foi lembrar que o culpado era Salgado, não Costa. Também não colhe e já referi algumas razões.

O terceiro spin, aparentemente, é culpar o BCE. (Não sei que contorcionismo vão adotar agora aqueles que até ao momento garantiam que a opção tomada fora boa, quando pelos vistos a nova ‘narrativa’ vai ser ‘a solução foi má mas fomos obrigados’.) Mas esta terceira ‘narrativa’ é ainda mais surreal, porque veio através de um escritório de advogados.

E aqui chegados, é o momento de lembrar que um dos (muito) poucos méritos deste governo era não ser o governo sócrates, quando aconteciam coisas que nos punham permanentemente de queixo caído. Mas até esse mérito este governo conseguiu destruir. Porque, lamento, mas ter: a) um governador do BdP que mantém na administração de um grande banco nacional quem sabe ter montado um ‘esquema fraudulento'; b) um pm e uma ministra das finanças que não demitem Carlos Costa, ou o convencem a demitir-se, ao saberem de tão grave incompetência do governador do BdP; c) os mesmos pm e ministra das finanças estão a banhos descontraidamente e agem como se tudo tivesse sido uma mera questão técnica que nada os implicou (apesar da mudança de leis à pressa para Costa implementar a sua decisão) e d) finalmente aparecer uma ata do BdP (sabe-se lá se verdadeira) numa newsletter de um escritório de advogados a apontar o novo culpado – bem, ter tudo isto é demasiado socrático para o meu sensível paladar. É que para ter o nível de falta de vergonha de sócrates de imitação, mais valia termos continuado com o sócrates verdadeiro. Eu, nos políticos como nas carteiras, prefiro sempre o original.

Um par improvável (ou: regressando a coisas interessantes)

Já andei a publicitar isto noutros lados, mas seria um crime de, sei lá, genocídio literário não o partilhar também aqui. Mundo (ou, como sou obrigada a dizer quando tenho de apresentar as crianças cá em casa, ‘senhoras e senhores, meninas e meninos, bebezinhas e bebezinhos’ – e isto apesar de eu ser a única xx neste lar): apresento-vos Adam Smith ao encontro de Jane Austen. Confesso que não entendi as relações que se podem estabelecer entre A Teoria dos Sentimentos Morais e os livros da Jane. As heroínas dos seus livros (tirando Emma Wodehouse) são todas umas destituídas da vida que querem, mais que tudo, casar com um homem rico. E casam. Por amor, evidentemente, ou não fossem romances jorgianos ‘by a lady’ (que foi como inicialmente se publicaram). Também se pode dar o caso de ser mais um exemplo daquela descrição da aristocracia britânica que a Nancy Mitford faz no Noblesse Oblige, com encantadora parcialidade: os aristocratas britâncicos costumam casar com quem estão apaixonados e calha que se apaixonem por pessoas ricas. Mas, lá está, a Lizzie (do Pride and Prejudice) só começa a perceber (e a apaixonar-se) por Mr Darcy depois de ver Pemberley – i.e., de perceber quão rico Mr Darcy era. E a Fanny de Mansfield Park, quando volta a casa dos seus pouco abonados pais, depois de viver com os tios ricos, também conclui que há grandes incómodos na falta de dinheiro.

Claro que para redimir tanto amor pelo vil metal, lá temos a Lizzie que recusa as propostas de casamento de Mr Collins (o herdeiro da propriedade do seu pai) e de Mr Darcy, sabendo que este é rico mesmo que não saiba quão rico. E a Elinor de Sense and Sensibility também não se incomoda que o seu Edward Ferrars perca a sua herança para poderem ter o seu felizes para sempre. (E a própria Jane Austen recusou pelo menos uma proposta de casamento, sendo que tinha ainda menos dinheiro do que as suas heroínas.)

Mas isto não interessa nada, só quem tem a mania de ser crítico literário mas não percebe patavina do assunto pode desgostar de ler sobre Jane Austen e Adam Smith, emparceirados ou não. Em todo o caso, este texto foi motivo para arrumar as estantes. A Jane Austen estava ao lado da Nancy Mirford, do Evelyn Waugh, do Thackeray, do Dickens (e dos livros do Harry Potter) e A Riqueza das Nações e A Teoria dos Sentimentos Morais estavam perdidos no meio dos livros de Economia. Finalmente estão reunidos.

Crime e castigo. Ou, se quiserem, chamem-lhe karma.

1. Por estes dias houve um fartote anti-acionistas e anti-investidores que um observador desatento terá pensado provir do PCP. Mas não, veio da áera política do governo, supostamente de direita. E se pensam que este enjoo e desprezo pelas pessoas que são capazes de investir e de arriscar, que caiu que nem ginjas no país pequenino, invejoso, avesso ao risco e que não suporta o sucesso alheio que somos, proveniente da áera política onde era suposto estas pessoas serem valorizadas, não vai sair cara, desenganem-se.

Nos últimos dias houve uma radical atualização dos dicionários. ‘Acionista’ passou a significar ‘criaturas imorais que querem ganhar dinheiro à conta da especulação financeira, desprovidas de qualquer noção de prudência, ignorantes e imbecis que não se informam sobre as empresas onde investem e, simultaneamente, ignorantes e imbecis por se informarem e aceitarem como boa a informação de reguladores e governo que são quem tem a melhor informação; ainda: gente que merece tudo de mal e é bem feita que regulador lhes tenha mentido para aprenderem a não se julgarem melhores do que os outros e capazes de arriscar e ganhar dinheiro’.

Poupanças, em vez de significar a proção do rendimento com que as famílias ficam depois das suas despesas de consumo, passou a significar não sei bem o quê, talvez umas notas que se enfiam numa peúgas velhas e se escondem num fundo de cómoda, porque o dinheiro que se gasta na compra de ações não é ‘poupanças’ – será certamente proveniente de transferências interplanetárias de marcianos bondosos.

Posto isto tudo, pergunta 1: Portugal (e pelos vistos a UE ao assumir o modelo BES para salvar bancos) tornou a compra de ações de bancos um negócio mais arriscado (e dos outros setores também, porque se intitucionalizou a arbitrariedade estatal e a expropiração como princípio de governo). Logo, os investidores só vão aplicar as suas tais transferências interplanetárias se a rentabilidade esperada tiver também aumentado. Julgam que isto não vai – mesmo depois dos mercado acalmarem do choque BES – tornar mais difícil a capitalização dos bancos?

Pergunta 2: acham que o dinheiro que os investidores aceitam alocar à compra de ações de um banco (tornando-se assim acionistas, essa gente moralmente viciada que joga na bolsa e que Ribeiro e Castro certamente também reprovará) não influencia decisivamente a capacidade dos bancos de financiar a economia? Aquela coisa que é necessária para o crescimento económico?

Continuem a destratar e a desvalorizar como se destrata e desvaloriza em Portugal – e nos últimos dias se exponenciou, e à direita – quem tem capacidade e vontade de investir e depois queixem-se. Continuem a pensar que quem tem dinheiro para investir fica cá a insistir que os deixem investir e a pedir que os tratem bem e que gostem deles, em vez pegar as poupanças/transferências interplanetárias e as investir onde estas sejam bem acolhidas, e depois espantem-se com o resultado que andam a cozinhar.

2. A solução da semana passada foi a melhor ou, sequer, a possível para os cidadãos como um todo? Não sei. Sei que não confio em Carlos Costa, nem em Maria Luís Albuquerque nem em Passos Coelho. O primeiro está a ver se se escapa da imagem de incompetência, incúria, negligência, etc. que adotou nos últimos tempos face ao BES. Os segundos estão a tratar da sua imagem política e são tolos o suficiente para julgarem que uma expropriação lhes trará votos à esquerda, e para confiarem que a imagem de implacáveis lhes ganhará o apreço dos eleitores. E todos enganaram os mercados – e os cidadãos – sobre a situação do BES.

salmão(A imagem é da próxima encarnação do trio maravilha do parágrafo acima: salmões de aquacultura.)

O estado está demasiado ocupado para poder vigiar bancos

O meu texto de hoje no Observador, surripiando histórias ao Helder.

‘Há dois organismos estatais pelos quais eu nutro um amor desmedido: a ASAE e a Autoridade para as Condições de Trabalho. São duas ‘autoridades’ (só o nome incita à rebelião) dedicadas à mais nobre função do estado português: multar empresas – mesmo (ou sobretudo) quando as empresas não têm comportamentos lesivos para consumidores ou trabalhadores. Manda a seriedade dizer aqui que por ‘comportamentos lesivos’ não estou a considerar a definição de ‘lesivo’ do estalinista médio, para quem a mera existência de empresas e consumidores já é lesiva.

Para ilustrar a ASAE socorro-me de casos que o blogger Helder Ferreira contou sobre clientes seus que foram multados aos milhares de euros. Os pecados fulminantemente mortais? As etiquetas do preço de umas carteiras estavam dentro das próprias carteiras, um sinal de proibido fumar estava pousado num móvel em vez de afixado na parede e óculos exibidos num expositor fechado cuja etiqueta com o preço (são pequeninas) não era visível fora do expositor.’

O resto está aqui.

A direita e os liberais dos depósitos a prazo

Nuno Garoupa no facebook:

‘Conclusão: entre os 30 mil pequenos accionistas que assumiram um risco tendo em conta a informação que lhes foi prestada de forma continuada e insistente pelos reguladores (e auditores) durante meses e os reguladores (BdP e CMVM) que mais uma vez falharam o dever de supervisão e transparência de informação no mercado, a direita dita neoliberal e com profunda admiração pelo mundo anglo-saxónico, a direita dita do capitalismo popular (pelo menos aquela que se publica) decidiu glorificar os reguladores (“foram enganados”) e culpabilizar os pequenos accionistas. Porreiro pá!’

Até nestas coisas somos pequenos e provincianos. Há por aí gente muito contente porque, finalmente, deixámos falir um banco e os acionistas perderam tudo. Já somos um país capitalista à séria, olé! O pormenor do banco não ter falido – mas, sim, o estado ter saqueado os tais ativos bons (pelos quais os acionistas eram tão responsáveis como os ativos maus) -, do regulador e até a ministra das finanças terem andado nas últimas semanas a mentir aos credores, depositantes e acionistas sobre a situação do BES, e de ter sido o regulador a permitir que os autores do que sabia ser um ‘esquema fraudulento’ continuassem a gerir o BES mesmo depois de estarem avisados de que seriam afastados, levando a que esses autores pudessem praticar os atos que irremediavelmente ditaram a nacionalização – tudo isto não conta nada. Estamos tão contentes por já sermos um país a sério que deixa acionistas perderem o valor das suas ações (como se isto fosse algo inédito, mesmo por cá) que até temos quem anda a elogiar e a desculpar o BdP e a CMVM.

E estas maravilhosa reações não vêm da extrema esquerda, vêm da suposta direita. Já sabemos que para a ‘direita’ portuguesa, oh tão amiga do mercado, os acionistas devem investir aceitando o risco de terem o estado a mentir-lhes e, depois, a expropriá-los. Se não gostam, azarucho, é por o dinheiro debaixo do colchão. Ou bem que aceitam todo e qualquer risco, mesmo o de serem saqueados, ou bem que não brincam aos investidores. E vão esperar, certamente, que comportamentos destes sejam benéficos para os investidores. Por cá já sabemos que a regulação/supervisão é uma nódoa e que o estado, para coroar a nódoa, expropria. Vão vir charters de investidores para os bancos portugueses, oh se não vão.

Eu até posso perceber que se defenda o que foi feito como um mal necessário, como uma contenção de danos. Mas quem louva a medida que aceite o que defende: uma total arbitrariedade do estado e um total desrespeito pelos direitos de propriedade. Não finjam, por favor, que são diferentes de Louçã quando defendia a sua reestruturação da dívida que implicava também uma enorme expropriação da propriedade. O conceito é o mesmo: toda a riqueza produzida e todos os ativos são do estado, que decide depois a quem benevolentemente deixa que continue a detê-los (por mais um bocadinho).

E, vá lá, tenham algum pudor: parem de aconselhar aumentos de poupança das famílias, porque quando o estado trata assim os investimentos, que resultam das aplicações de poupanças, pode estar a fazer muita coisa mas não está a incentivar a poupança. Ou então devem fazer como certamente esta direita amiga do mercado faz: investe, nos seus momentos mais aventurosos, em depósitos a prazo. Que é àquilo que querem reduzir os produtos financeiros, porque que quando há quebra de confiança e má-fé no nível em que houve (do regulador e do estado), produtos mais sofisticados não florescem. Enfim, não é do mesmo material desta direita amiga do mercado que são feitos os empresários schumpeterianos. Ou, como diz o Helder no twitter: ‘Fazem questão de parecer burros ou é mesmo feitio?’ (E, já agora, mais este: ‘Esta solução p o BES é institucionalizar o roubo. Há sempre qm roube (ver Salgado) mas ser o estado a roubar descaradamente é outro assunto’).

sarongMas, por mim, tenho algo a agradecer ao governo. Eu poderia ser tentada a engolir um sapo de um tamanho de um elefante e ir votar num dos partidos do governo ou numa eventual coligação, mesmo que isso me deixasse um sabor amargo a cicuta ou arsénico durante dias. Depois disto, será tão provável votar nesta gente como votar na reencarnação de Vasco Gonçalves. Decidam lá quando vão ser as eleições sff, para eu ir programando as minhas férias para o ano. No cenário ideal, estarei, sei lá, na Ásia do Sueste a reabastecer-me de sarongs enquanto por cá se vota.

Do conceito de ‘perder tudo’

Acho muito engraçado que se oiça e leia por aí que os acionistas vão ‘perder tudo’ com esta intervenção estatal (olaré! bem feita! devem ser estes a pagar os disparates do regulador/supervisor! e agora até perdas dos acionistas decididas pelo estado são sinais do ‘mercado’ a funcionar! enfim).

Era só para lembrar que a cotação das ações do BES, a 9 de abril de 2014 (escolhido mais ou menos ao acaso), era de 1,359€. Na 6ª feira, quando as ações foram suspensas, a cotação das ações do BES andava à volta dos 0,125€.

O que se passa agora não é que os acionistas vão ‘perder tudo’, porque já perderam quase tudo o que tinham a perder (tenham vendido ou não). O que se passa é que até aqui os acionistas tiveram perdas legítimas determinadas pelo mercado e agora vão ter perdas ilegítimas decididas pelo estado.

Mais notas ficam para depois, que ainda não digeri a esperteza saloia toda deste governo e não consigo comentar as explicações auto-justificativas de Carlos Costa.

Os bodes expiatórios do governo ‘de direita': os capitalistas

Esta conversa de próximos do governo (concretamente Marques Mendes, que aparentemente é simultaneamente porta-voz e pitonisa do governo), e do que se prevê vir a ser a do governo hoje à noite, promete vir a ser um dos pontos mais rasteiros deste governo ‘neo-liberal’.

O que tem piada é que mesmo quando tenta dar ares de liberalismo – um governo que não usa dinheiro dos contribuintes para salvar um banco – não consegue livrar-se dos tiques da esquerda portuguesa (que, como se sabe, incui a direita). O ar de orgulho com que se diz que se vão sacrificar os accionistas – essa gente malvada capitalista, que ganha dinheiro (exceto quando o perde) pela aplicação do seu capital (obtido sabe-se lá por que aleivosia e desonestidade) sem dispender um grama de suor como fazem todos os trabalhadores honestos, e de quem, em boa verdade, estaríamos bem melhor se nos conseguíssemos livrar – é do mais soez que tenho visto. E, a concretizar-se, vai garantir que não vote em nenhum dos partidos do governo, que para o peditório da retórica anti-capitalista nunca dei e não vou dar.

O que não tem piada nenhuma é que a maioria dos acionistas do BES são gente que, por muito informada que fosse, por muito que participasse em assembleias gerais, por muito que consultasse os documentos públicos do BES, não tinha peso para nomear representantes para o conselho de administração, não tinha acesso a informação privilegiada e confiava no que diziam os reguladores do setor para tomar as suas decisões de investimento. Sejamos claros: o Banco de Protugal tem muito mais responsabilidade no que sucedeu do que qualquer acionista que, com poucas ou muitas ações, estava longe de poder influenciar o BES ou avaliar o que nele se passava. Para a maioria dos acionistas do BES – que não são nem têm nada a ver com a família Espírito Santo – ao usual risco de qualquer investimento bolsista afinal acrescentava-se o risco, desconhecido, de uma supervisão incompetente e negligente que continuadamente assegurou que estava tudo bem. Recordo que o BES teve um aumento de capital há muito pouco tempo, o Banco de Portugal obrigou a um panfleto onde se reconheciam irregularidades aparentemente pouco graves mas BdP e CMVM sancionaram o aumento de capital de um banco cuja situação tinham obrigação de conhecer. Porque das duas, uma: ou as auditorias aos bancos são um proforma para enganar os tolos (o que, com tanto caso estranho envolvendo bancos, não espantaria) e, nesse caso, o BdP e CMVM já deviam ter tomado medidas para credibilizar as auditorias; ou as auditorias revelaram as negociatas pouco recomendáveis e BdP e CMVM ignoraram-nas. Também não se entende como, percebendo-se a extensão da má gestão, não foi suspensa de imediato a anterior administração do BES e suspensos todos os movimentos entre o BES e todas as empresas e pessoas ligadas à família Espírito Santo.

Em suma, acho muito bem que o estado não socorra investidores privados. Mas também gostava de viver num país onde os cidadãos pudessem processar reguladores que transmitem para os mercados informações erradas, bem como o estado que lhes delega funções de regulação, e serem indemnizados pelas percas provocadas por esses erros, incompetências, negligências o que for.

O cabo das tormentas – que o PS ainda não passou

À ‘narrativa’ socrática segue-se agora – e com qualidade igual – a ‘narrativa’ costista da crise que vivemos no país. Como muito bem conta – e desmonta – no i o Pedro Braz Teixeira, os 3 horripilantes choques de que se queixa António Costa e que considera terem trazido uma crise inevitável a Portugal – porque os governos socialistas não tiveram culpa nenhuma do sucedido – podiam ter sido acautelados. Mais: o partido que governava por essas alturas, e que poderia ter tomado medidas para que Portugal não estivesse tão vulnerável quanto Costa diz que está, era o PS. Durante uns tempos em que Costa fez parte do governo.

É certo que, tendo os portugueses votado duas vezes em Guterres e duas vezes em sócrates para nos governarem, os socialistas (que conhecem bem as peças) têm razão para tomar os eleitores portugueses como parvos. Ainda assim, tanto escândalo, tanto choque, tantas tormentas, tantas susceptibilidades de Costa perante as consequências do Euro, do alargamento da UE e das exportações chinesas é levar a desfaçatez a um novo patamar.

Alguém ouviu alguma vez reservas do PS, do europeísta e até em alguns casos federalista PS, ao alargamento da UE? Quando, antes de 2008, o PS se queixou do desenho do euro? Eu só me lembro de o PS ter ido sempre a correr atrás dos juros baixos que o Euro nos proporcionou e ter aproveitado para se endividar como se não houvesse amanhã. Se não sabiam que o euro também tinha risco, bem, a ignorância (não só da lei) a ninguém deve aproveitar; eu tive aulas com Cavaco Silva quando estava na licenciatura e recordo-me de que referiu detalhadamente todas as desvantagens da moeda única; se Cavaco Silva estava consciente dos riscos, socialistas com responsabilidade governativa só não tinham conhecimento deles se tiverem sido criminosamente irresponsáveis e negligentes. E a abertura da China e o que se seguiu só espantou quem não tinha dois neurónios funcionais. O senhor meu pai estava na China em 79, um ano depois do início das reformas de Deng Xiaoping, para ver o que era aquilo; é verdade que de forma nenhuma sócrates e Costas se podem comparar com o meu pai, mas as consequências da abertura à China eram visíveis até a produtos menores.

Enfim, esta postura de donzela escandalizada de Costa perante situações que toda a gente previa que trariam benefícios e, também, desafios – no fundo: tanta converseta para desviar as atenções do que nos trouxe até à situação de 2011 – só mostram que o que podemos esperar do PS (pelo menos do PS se Costa ganhar) é extamente o mesmo PS que tivemos até aqui. Um dia poderá haver um PS crítico sobre si próprio; mas, para já, ainda não. Tratemos, portanto, de cuidar da nossa vida tendo isto em conta: no PS será tudo igual ao que foi até aqui. Quem puder, emigre; quem está emigrado não regresse; quem tem dinheiro investido ou para investir, trate de descontar um governo liderado pelo PS nas suas decisões de investimento – e por aí adiante.

Surpresa! A personalidade do político conta.

O meu texto de hoje no Observador.

‘O PS é um partido cómico. Nos últimos meses qualquer socialista que se preze parece ter tomado para si as dores de entreter o país. O último motivo de risota é terem dado em sugerir-nos que avaliemos as capacidades pessoais de Costa por oposição às suas ideias. E por que é isto tão divertido? Eu explico.

Lembram-se daqueles tempos longínquos em que os portugueses eram compulsivamente felizes, o governo ainda não fora tomado (através de magia negra) por malfeitores que têm como ambição empobrecer o país, quando havia dinheiro a rodos para distribuir o brinquedo Magalhães e colocar nas escolas candeeiros e torneiras de designers de topo (a expensas da Parque Escolar – e do contribuinte)? Tempo de governação competente que terminou num resgate da troika, mas só porque pessoas que nos costumavam emprestar dinheiro – os patifórios – deixaram (graças ao vudu) de o fazer?

Também se recordam, nesse tempo glorioso, de um ou outro caso mediático que envolvia o primeiro-ministro Sócrates em situações onde não fica bem um pm estar envolvido? E do rasgar de vestes dos apoiantes de Sócrates pela campanha pessoal que se fazia contra o distinto pm? E do enfado moralista porque se discutia o primeiro-ministro em vez de apenas as suas políticas?’

O resto está aqui.

(Des)Amor com (des)amor se paga

Israel – como tudo na vida – não está acima de críticas. Nem na atual guerra com o Hamas em Gaza nem nos intervalos das erupções violentas. E tem lá dentro os intoleráveis judeus ultra-ortodoxos que são tão agradáveis para o género feminino (dou três exemplos) como as gentis almas que compõem o Hamas. Mas confesso que me espanta como há tanta gente que tem bitolas tão distintas para os dois lados. Israel não pode atacar (como faz agora e em resultado de ataques sofridos) mas também não se pode defender preventivamente (ai Jesus que construiram o muro); Israel não pode atacar mas ninguém se lembra que do tempo em que iam mandar os judeus ao mar (propósito que ainda tem o Hamas), das guerras que o lado palestiniano provocou e dos boicotes a qualquer tentativa de uma paz negociada – e tudo em prol de jogos de poder entre Hamas e OLP (e dentro de cada um), da manutenção de esquemas de corrupção que enriqueceram os líderes da OLP e para distrair os palestinianos da negligência e incompetência e corrupção dos governos de OLP e Hamas.

Já com o Hamas a complacência é total. A indignação com as mortes civis (e sobretudo de crianças) dirige-se toda para o exército israelita, mas o facto do Hamas preferir o apelo propagandístico das mortes de crianças e civis pelos israelitas, localizando-se onde faz mais mossa à população civil em caso de ataque, em vez de proteger os civis de Gaza já é de todo irrelevante e não lhe atribui nenhuma culpa na morte dos referidos civis. A pobreza em Gaza não interessa, os desrespeito pelos direitos humanos das mulheres likewise. E para o que acontece ao mesmo tempo na Síria e nos locais controlados pelo ISIS olha-se para o lado, que não é conveniente haver outros concorrentes à indignação que se quer oferecer toda a Israel.

Eu, se tiver de escolher lados, fico com Israel. Tem erros, tem exageros, tem mão militar pesada. Mas não festeja as vítimas do outro lado, não sacrifica vidas civis do seu lado à propaganda, não só não tem um total desrespeito pelas vidas do lado inimigo como não pretende provocar o maior número de vítimas – é isto o Hamas. Que, além disso, defende coisas que me são aberrantes. Aprecio tanto o Hamas como lá valorizam o que eu sou e represento: uma mulher ocidental independente.

Uma boa leitura para estes dias – e porque os dramas humanos naquela zona não começaram agora – é o Oh Jerusalem, da dupla Larry Collins e Dominique Lapierre. (Livro sobre o qual escrevi no primeiro jornal que deu guarida a textos meus – o Notícias do CUPAV – depois do assassinato de Ytzhaz Rabin, que era referido no livro nos seus tempos do Palmach, a 4 de novembro de 1995. Lembro-me perfeitamente de ter sabido desta notícia numa área de serviço da A1, já bem de noite no regresso de Coimbra, onde tinha ido à festa de 20 anos do CUMN.)

oh jerusalem

Educar como na família Kennedy

A minha deriva maternal hoje no Observador.

‘Há uns anos li na Vogue um texto sobre Rory Kennedy, a filha mais nova de Ethel e Robert Kennedy, a propósito da realização do documentário Ethel, com o ponto de vista da sua mãe dos eventos que viveu e presenciou. Ou mais ou menos; vi o filme há dias e o ponto de vista é só da senhora de RFK. Às tantas, sobre a sua educação no meio de 11 irmãos, dizia Rory (tradução minha) ‘Eu tento educar cada um dos meus filhos [tem 3] como se fosse o décimo primeiro. Penso que ignorá-los e dar-lhes espaço para fazerem as suas coisas é uma boa abordagem’.

Esta opinião volta-me de tempos a tempos. Sucede sempre que leio aquelas intermináveis listas de conselhos para pais – escritas, estou convencida, por malfeitores com desígnios que ainda não desvendei – que nos informam o guião infalível para criarmos filhos bons alunos a matemática, filosofia, astrofísica e grego antigo, com capacidades de liderança, sociáveis, não influenciáveis pelos seus pares, enfim, perfeitos e destinados a ocuparem os mais altos cargos de cada nação.

O resto está aqui.

Hasta la Virtude, siempre!

casino lisboaVenho aqui dar o meu apoio público a Ribeiro e Castro, senhor que quer impedir que o vício e a imoralidade estejam apenas a um clique de distância. É certo que não entendi bem a lógica de se considerar o jogo um mal a ser combatido, mas já se admitir que este mal exista desde que ninguém ganhe dinheiro com ele ou que os lucros de tão hedionda atividade sustentem programas sociais. Afinal anda o estado a promover o vício de uns pobres coitados dados a desbaratar o seu dinheiro, explorando-os de facto, para ter dinheiro para acorrer a outros fracos que ou não têm dinheiro ou o desbaratam de outras formas (eventualmente até da mesma)? Usar o vício de uns para ajudar outros é um comportamento moral do estado, é isso? Ah, bom, estamos sempre a aprender.

Pequenas perplexidades à parte, estou com Ribeiro e Castro: é necessário promover a virtude e travar qualquer medida ‘liberal’ (batam na madeira 3 vezes, sff). No caso concreto, concordo que se deve impedir a todo o custo as pessoas de disporem do seu dinheiro como entenderem – se o entendimento for arriscarem no jogo esse dinheiro. Mas há muita atividade e muitos comportamentos indutores de vício e imoralidade por aí e Ribeiro e Castro não lhes presta a devida atenção. Assim, vão aqui algumas propostas que Ribeiro e Castro pode aproveitar e que promoverão um aumento da moralidade pública.

1. Encerrar bares e discotecas, locais pecaminosos onde homens e mulheres contactam e se conhecem, sabe-se lá com que intenções.

2. Encerramento de redes sociais, onde se conectam pessoas que sem esses veículos ficariam sossegadas em suas casas.

3. Prevenção atempada do vício do jogo: proibição do ensino dos pais aos seus filhos da bisca do três e do keims.

4. Ao abrigo da lei do esquecimento, dar ordem aos motores de busca para apagarem todas as referências ao ‘grupo da sueca’ dos tempos de Cavaco enquanto pm.

5. Sobre indústria pornográfica nem preciso de me pronunciar: é banir tudo.

6. Encerrar locais onde se albergam espetáculos de striptease, sejam os strippers membros das forças de segurança ou não.

Ou, em alternativa, nacionalizar todas estas atividades e usar as suas receitas nos tratamentos do stress pós traumático provocado nos professores por se submeterem àquela experiência reminiscente de viver quatro meses numa zona de guerra e a que normalmente chamamos ‘testes’. (Também se pode aproveitar, de caminho, para comprar e enviar a Mário Nogueira os dvds do Poirot, para o senhor aprender o que é um bigode decente. A estética noticiosa televisiva teria muito a ganhar se Mário Nogueira aproveitasse essa pequena formação.)