Um presente de Natal de The Daily Beast para os fãs de Hitchcock (eu, por exemplo)

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‘Ingrid Bergman was among the hosts of the dinner, and she did a fine job of it, direct and sincere in her admiration for Hitchcock. At the end of the ceremony applauding him, Bergman walked to his table to embrace Hitchcock. With help, he got to his feet, and when she hugged him he lifted his arms slightly as if to return the hug. He was not a man given to casual affectionate display; the moment was charged with emotion.

“She’s been in love with me for 30 years, you know. Mad for me all her life,” he’d announced to me one afternoon earlier on. And he repeated it from time to time, drunk and sober. “Hitch,” I said as gently as I could, “why are you telling me this? You know, I was a journalist for some years … you do know that, don’t you?” […]

Today, with the memories of Ingrid Bergman so vivid in his mind, it seems clear that he’s been thinking about her a great deal. When they were working together, 35 years ago, she was in her prime and one of the most beautiful women in the world. She was a celebrated bohemian, considered a scandalous woman. It’s not unrealistic to think they might have had a love affair if he had wanted it or known how to ask. And perhaps they did–but I doubt it. Now in his old age, Hitchcock develops crushes on young women, gives them money, and asks them to do God knows what. It may be that some hagiographer yet to come will find the stained sheets of fact and memory amid his papers. To make great films, that’s one thing; to make yourself happy, that’s quite another.’

O texto é longo mas vale todo imenso a pena. Até se aprende como, afinal, um perfil com uma grande protuberância na zona do estômago pode ser uma mais-valia. (A fotografia é um presente meu.)

Atualização: Os fãs de Hitchcock que leem o Insurgente são exigentes com os presentes que se lhes dão por aqui. Houve já quem reclamasse por estar Grace Kelly na fotografia em vez de Ingrid Bergman. Ora bem, a fotografia, como é por de mais evidente a quem me conhece, foi escolhida por estar lá James Stewart – que, helas, não contracenou com Bergman em filmes hitchcockianos. Mas como sou uma boa alma, aqui vai uma fotografia de Ingrid Bergman (e Cary Grant, que mania de achar que o que interessa ao mulherio não conta) para ilustrar o texto.

notorious

Querida progressividade

O meu texto de dia 10 de dezembro, no Diário Económico, sobre a reforma do IRS e os desastres do PS com o coeficiente conjugal.

‘O Governo provavelmente fez bem em recuar na cláusula de salvaguarda, amedrontado, entre outras razões, com as dificuldades informáticas que adviriam se a mantivesse. O Governo não tem tido uma relação fácil com as fórmulas de cálculo. E se está disposto a arriscar atrasar o já lento tempo da justiça, deixar inúmeros alunos durante quase um trimestre inteiro sem aulas e desorganizar a vida de milhares de professores e das suas famílias, evidentemente que no que toca à recolha de impostos (a verdadeira função do estado para este Governo), venham todas as cautelas.

Claro que a cláusula de salvaguarda só era necessária porque aumenta o IRS de algumas famílias. Mas ao fim de tantos aumentos de impostos – deste governo e anteriores – já estamos anestesiados em demasia para continuarmos a protestar. Esta reforma do IRS não se recomenda. Não há significativa simplificação e continua a ver a classe média como se composta por nababos. Mas por causa de uma das poucas medidas boas que o Governo propôs – o coeficiente familiar – o PS lá entendeu rasgar as vestes. E mostrar o extremismo que por estes dias o assola. O coeficiente conjugal existente permite dividir por dois o rendimento de um casal.

Se um dos casados não trabalhar – mesmo sendo saudável e podendo – o Estado atende ao facto de o único gerador de rendimentos do casal ganhar para duas pessoas em vez de apenas para si. Mas o mesmo Estado que dá benefícios fiscais a um adulto casado que até pode não trabalhar por opção, deve arrancar os cabelos – como o PS por estes dias – se para cálculo de IRS atender ao facto dos um ou dois geradores de rendimento familiar o gerarem também para os filhos. Isto diz-nos muito sobre a política fiscal que o PS seguirá. Não terminarão a sobretaxa do IRS para todos os escalões, visto que, pela nova argumentação do PS, abandonar uma sobretaxa igual para todos implica regressividade fiscal. Acaso queiram reduzir IRS, não tirarão, por exemplo, 1% à taxa de cada escalão – para o PS isso é regressivo. Donde: se reduzirem o IRS, irão aumentar a progressividade do imposto – e tratar a classe média ainda mais como nababos, agora ao quadrado.
Estamos avisados.’

ladies affairs

Pus eu como cover photo no facebook uma fotografia da série Yes, Prime Minister (é sempre conveniente revisitarmos Jim Hacker, Sir Humphrey Appleby e Bernard Wolley) e logo a seguir vejo que a Carla Quevedo tinha colocado Emmeline Pankhurst como cover. E, por associações evidentes, lembrei-me daquela reunião dos secretários permanentes dos ministros que se mostram muito favoráveis ao princípio da inclusão de mais mulheres em cargos políticos desde que não no seu ministério concreto. No fundo, favoráveis a procedimentos que levassem a que, como diz Sir Humphrey, se escolha sempre ‘the best man for the job, regardless of sex’. Muitos destes clichés já estão datados, mas olhando para os minsitérios que o PS atribui às suas ministras, desconfia-se que mantém muitos dos preconceitos de Appleby e Cia.

Procuras

Recomendadíssimo – para todos os que andam à procura daquela centelha que teima em estar em falta (e para os que não andam) – este vídeo do jesuíta Nuno Tovar de Lemos, entrevistado pela Laurinda Alves. Que centelha? O amor de Deus, evidentemente. Quem nunca teve a experiência do amor de Deus, absoluto e avassalador está em grande perda e não sabe. Que o amor de Deus não é sovina nem distante nem oferecido a contragosto. Não se confunde com aqueles (des)afetos que maltratam (através das circunstâncias da vida, das outras pessoas e até do estado e suas repartições, que eu no ponto atual considero um digno servidor de Satã) e nos deixam à espera interminavelmente, abadonados mesmo quando dizemos repetidamente que precisamos de companhia e que o abandono é uma tortura, sem saber se seremos alguma vez resgatados (quiçá para Deus nos moldar p caráter, testar a nossa fé ou dar-nos a lição de como somos insignificantes); e que quando estamos moídos, magoados e ressentidos nos atira uma migalhinha muito difusa e pouco concreta, esperando que, como afinal se trata de Deus, caiamos de joelhos agradecendo tão clemente graça e tamanha bondade. Pelo contrário. Faz-nos saber-nos acompanhados, queridos, valorizados, amados em todos os momentos. Um chuveiro de amor e mimos – mesmo quando as circunstâncias da vida, os outros (e o estado) não páram de nos infernizar a vida.

Amamentar em público, ou os púdicos pré-renascentistas

O meu texto de hoje no Observador.

‘Estão familiarizados com a polémica da última semana no Reino Unido? Eu conto.

Uma senhora amamentava a sua filha de três meses enquanto almoçava no restaurante do hotel de luxo Claridge´s. Um empregado veio pedir-lhe para se cobrir, e à bebé, com um pano, explicando ser essa a política do hotel para a amamentação. A mãe queixou-se no twitter, as redes sociais ficaram malucas (ou mais malucas do que o costume), o líder do UKIP declarou que as mães não deviam entregar-se à ‘amamentação ostensiva’, o primeiro-ministro Cameron veio discordar (bem como a secretária de Estado com pelouro da igualdade) e lembrar que a amamentação é um processo natural e que as mulheres o devem poder fazer em público. Os teclados já produziram inúmeras notícias e colunas de opinião e no último capítulo (até agora) dezenas de mães amamentaram em frente ao Claridge´s em protesto.’

O resto está aqui.

O direito à fantasia: dos bonecos animados à política

Parte do meu texto de hoje no Observador.

‘Acho muito bem que haja bonecas que concorram com a Barbie (e as princesas Disney e as outras todas), mas confesso que tirando uma atualização da história do patinho feio que se torna cisne deslumbrante – agora em versão tratamento dermatológico miraculoso – duvido que a nova boneca tenha sucesso só pela posse de borbulhas na testa ou pela exibição de celulite.

E tenho pouca paciência, reconheço, para as conclusões catastrofistas que se tiram para a auto-estima das raparigas das características físicas de bonecas com que brincam ou de desenhos animados que veem na impressionável infância. No ano passado, a propósito do filme Reino do Gelo, caracteres abundantes foram escritos porque os pulsos de uma das personagens eram mais pequenos do que os seus olhos, como se um ataque ao corpo feminino se tratasse. E houve petição com dezenas de milhares de mães assinantes em fúria quando a Disney transformou a princesa Mérida do filme Indomável, uma maria-rapaz em fuga dos estereótipos da adolescente medieval e do marido que lhe queriam impingir, estreitando-lhe a cintura, aumentando o tamanho dos olhos e do decote do vestido, subindo-lhe as maçãs do rosto e – o crime mais grave de todos – amansando-lhe os caracóis.

Ora eu, feliz possuidora de pujantes caracóis naturais, até simpatizei com a indignação pela retirada à Mérida dos seus adorados arco e flecha usados no filme, mas tive dificuldade em entender tanta fúria à conta do cabelo. Gosto do ar despenteado e desorganizado dos meus caracóis, no entanto não dispenso um bom produto para os modelar, para que fiquem formados mas não rígidos nem colados. Muito certamente não fiquei ofendida por terem domado um bocadinho os caracóis da Mérida. Afinal, por que razão veria um desenho da Disney como autoridade a deliberar sobre o meu penteado?’

Todo aqui.

revisitando a famosa e infame lei da cópia privada

Como infelizmente o PS não tem o monopólio das ideias ilógicas, convém relembrar a lei da cópia privada. Na semana passada estive no debate na Faculdade de Ciências da UL sobre a proposta de Barreto Xavier e – porque ainda não é tarde - deixo aqui a sugestão da Maria João Nogueira para alertar os deputados para o disparate monumental e injusto que é esta taxa. Não só nos obrigará a pagar uma taxa por dispositivos onde vamos guardar conteúdos que nós produzimos como criará uma classe que irá prosperar verdadeiramente à conta do trabalho alheio: como referiu o Michael Seufert na sua intervenção, os autores portugueses não necessitarão mais de produzir algo que o público queira consumir, basta-lhes aguardar que as empresas criem dispositivos com cada vez maior capacidade de memória para receberem cada vez mais dinheiro.

a coisa mais nojenta que já se fez na política portuguesa

Com os almoços infantis cá de casa, só com os zunzuns do facebook e do twitter me apercebi que a meio do discurso de Costa este interrompeu para que Maria do Céu Guerra viesse elencar nomes de mulheres mortas em crimes de violência doméstica. O Vítor Cunha já escreveu sobre isto, bem como o Bruno Alves. Mas já que isto se trata de violência de género – que existe, sim, e não devemos achar, qual Miguel Macedo em pelo menos duas ocasiões, que estes crimes são uma inevitabilidade e até, para minorar as estatísticas de criminalidade violenta, justificar que uma porção se trata de violência doméstica – deixem-me dar a minha opinião feminina.

O que acabou de acontecer no congresso do PS foi a coisa mais nojenta que me lembro da política nacional. Fazer política com a desgraça e morte alheia é o mais baixo a que um ser humano pode descer. Esta gentinha que agora tomou o PS – simultaneamente, e paradoxalmente, amoral e moralista – qualquer dia é capaz, para chamar a atenção para os crimes sexuais (que também existem e merecem atenção), de elencar os nomes das mulheres e crianças violadas.

Como diz o José Meireles Graça, não há meio da esquerda aprender que os fins não justificam os meios.

silêncios ensurdecedores

Ontem passei o dia e a noite sem qualquer informação do ajuntamento de socialistas – ainda que tenha passado à noite à porta da FIL e, com as prioridades trocadas que tenho, não tenha querido ir espreitar o que por lá se passava – mas pelo que vejo hoje nas notícias, além de uma radicalização à esquerda, pouco mais de interessante se passou do que uma gestão do silêncio sobre o elefante/fantasma/he-who-must-not-be-named.

Foi um silêncio cheio de alusões, de sugestões, de dizer sem dizer, de insinuar de modo a não ficar comprometido com nada do que insinuou. E estes jogos, reconheça-se, às vezes até têm piada. Permite que se avalie quem está em sintonia, quem percebe o que dizemos de forma não explícita, quem nos lê bem.

Têm um inconveniente: não podem durar para sempre. As pessoas cansam-se de enigmas e às tantas tem que se dizer claramente ao que se vem. E as respostas também podem ser dadas usando-se o silêncio, que fica assim ensurdecedor e a resposta mais cristalina e reveladora que se pode ter. António Costa não respondeu se ia visitar sócrates a Évora, de forma a criar ambiguidade, mas escolheu socráticos para o seu secretariado. Como dizia Paul Simon no início do vídeo, não haverá fireworks para quem esperava um PS purgado dessa substância tóxica que é o socratismo. Mesmo em silêncio, a resposta está dada. (Em boa verdade, a resposta já vinha sendo dada há alguns meses, pelos gestos que efetivamente contavam e que foram todos no sentido da presente resposta.)

Confirma-se a cabala da Justiça contra sócrates e contra o PS

Os acontecimentos de hoje não permitem outra interpretação do que a reclamada pelos defensores da criatura socrática. Como fica evidente, há umas semanas foram presas pessoas ligadas ao governo PSD-CDS à conta do caso dos vistos gold. E hoje foi condenado Duarte Lima – que, como bem nota o Vítor Cunha, também se diz inocente, o que, como é óbvio, arruma logo a questão sobre a culpabilidade do senhor, impossibilitando-a. Estas prisões e estas condenações de gente ligada ao PSD e ao CDS não foram mais do que formas de os procuradores e juízes lançarem poeira e fazerem crer que investigam e condenam sem olhar a origens políticas e distraírem o país do facto de pretenderem unicamente estragar a vida a esse cidadão cumpridor e ‘primeiro-ministro exemplar’ que é sócrates e prejudicar eleitoralmente o PS. Fica feita a denúncia.

(A propósito destas coisas dos protestos de inocência, tenho-me recordado de A Redenção de Shawshank, onde a personagem do Morgan Freeman às tantas diz aos outros reclusos que a personagem do Tim Robbins era inocente. Os outros respondem-lhe que ali são todos inocentes, tendo depois Freeman que clarificar que Robbins era um inocente dos verdadeiros. Era mais ou menos esta visão que eu tinha dos protestos de inocência de muitas pessoas. Mas felizmente – e tenho de humildemente agradecer esta lição – os defensores de sócrates deram a investigação por terminada mal a criatura enviou aquela carta de bravata descabida reclamando inocência e eu aprendi que todos os que se dizem inocentes estão de facto inocentes. Fica também aqui a lição, que certamente será importante para um ou dois leitores do blog que andavam, como eu, desviados desta sabedoria.)

Peço desculpa, mas foi a queda de um ‘oportunista’ COM ‘ideologia’

Anda por todo o lado esta capa do Liberation, but I beg to differ. sócrates podia ser um oportunista, mas tinha ideologia e estava inteiramente dentro do socialismo. De resto estou cada vez mais convencida que certos tipos de personalidade não só se adequam mais como florescem se dentro de regimes socialistas ou socializantes. A sede de controlo de tudo de sócrates – todos os cantos recônditos do estado, a comunicação social, a investigação judicial, as grandes empresas, os bancos, e um muito tentacular etc. – é muito semelhante à que encontramos nos mais variados ditadores comunistas. E não é necessário dizer que o papel central e condicionador e (sempre que o semi-déspota do momento entender) controlador do estado numa economia e numa sociedade não pode estar mais dentro da cartilha ideológica socialista, pois não? Também o comportamento narcísico, ressentido e vingativo de sócrates faz lembrar (em estado ainda não sublimado pelo poder absoluto) o dos complacentes Mao e Stalin.

Sobre Sócrates vale a pena ler o Paulo Tunhas no Observador e Vasco Pulido Valente no Público. Porque para mim o mais irritante disto na criatura – além, claro, das consequências monetárias que as suas políticas tiveram na minha vida – é termos de andar a perder tempo com alguém como sócrates. E diz tudo da pequenez do país – e dos jornalistas – que tantos continuem a admirar o estilo ostensivo e postiço do ex-pm.

Ensinem isto nas escolas, sff

O João Miguel Tavares escreve no Público um pequeno texto que toda a gente devia ler, muitos para ver se finalmente ganham juízo e aprendem que não existe democracia sem um feroz escrutínio à atividade dos políticos – e, já agora, dos juízes e magistrados. E a ver se páram com o disparate dos perigos do fim do regime, da democracia, da Via Látea, porque certamente não é quando as instituições do regime, até agora entorpecidas, estão finalmente a funcionar que se deve por em causa o regime.

‘Mas parece que neste respeitoso Portugal insistir em fazer perguntas óbvias passa por má educação. Perguntava-se uma vez e Sócrates não respondia. Perguntava-se duas vezes e Sócrates não respondia. E quando se perguntava a terceira vez já se estava a criticar o jornal por insistir na pergunta em vez de se criticar Sócrates por recusar a resposta.

Nem agora, após José Sócrates ter sido detido para interrogatório, essa sede de generalização parece saciada. Ele é preso e avançam de imediato as profecias apocalípticas: é o fim do regime que se aproxima; é a política, como um todo, que é atingida. Não, senhores, não. O regime tem imensas falhas e a política infindáveis problemas, mas Passos Coelho tem toda a razão quando afirma que nem toda a gente é igual. E José Sócrates, graças a Deus, não é igual a ninguém. Ele é o special one da indistinção entre verdade e mentira, pela simples razão de que nunca viu diferença entre uma e outra. A sua detenção não é o fim do regime. Pelo contrário: foi durante o seu consulado que o regime esteve quase morto. O que está agora a acontecer é o oposto disso: é o regime a funcionar outra vez.

E a funcionar apesar de todas aqueles que, confundindo mais uma vez as prioridades, estão muito preocupados com a detenção de Sócrates ao sair de um avião ou por a SIC ter filmado um carro a ir-se embora do aeroporto. Ai, meu Deus, que os jornalistas foram informados! Eu, de facto, preferia que os jornalistas não tivessem sido informados. Mas preferia muito mais que José Sócrates não tivesse sido – e a verdade é que ele foi escandalosamente informado e protegido pela justiça durante anos a fio. Num país onde quase não há busca sensível que seja feita sem que os visados estejam prevenidos, eu diria que há fugas de informação bem mais perniciosas do que aquelas que beneficiam a comunicação social. Andaram dez anos a fazer-nos passar por parvos. Se calhar já chega.’

Está completo aqui.

prevenção anti-totalitária

animal farm

Esta foi a minha introdução ao Animal Farm, a Orwell, aos totalitarismos, à corrupção do poder, à treta do igualitarismo (que acaba sempre no ‘todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros’). Vi o filme vezes sem conta em criança numa cassete de vídeo, sem perceber evidentemente todas as metáforas e analogias que continha.

(A minha segunda introdução a Orwell foi com o 1984, livro que o meu irmão mais velho leu em 1984 e que eu folheei e li páginas avulsas, entusiasmada por haver um livro com o título daquele ano. Percebendo ainda menos a mensagem de Orwell do que com o filme O Triunfo dos Porcos.)

Ainda há pouco tempo, em resposta às intermináveis perguntas das minhas crianças sobre os filmes, os brinquedos, as aulas e, enfim, TUDO da minha infância, lhes falei do filme (que é bom endoutrinar o anti-comunismo desde pequeninos) e lhes contei o que queria dizer. A criança mais nova claro que me ignorou e a mais velha fez-me saber, mais uma vez, que não gosta de conversas sobre política. Mas agora que foi relançado o filme, terão mais dificuldade em escapar ao dvd do que ao youtube.

(E eu, aparentemente, sou um bocadinho produto da CIA.)

sócrates, o político que muitos portugueses merecem

Muito bom texto do Vítor Cunha sobre o assunto do momento. Mas não é só o PS que precisa de se livrar de sócrates. E relembro que mesmo sem esta prisão já era politicamente suicidária a ressurreição política de sócrates apadrinhada por Costa – e é mais uma prova da inépcia política de Costa, o tal que não pára de se vangloriar de ter ‘visão estratégica’. Viu-se.

Mas, como disse, não é só o PS que tem de olhar para o que andou a fazer. São os jornalistas que durante anos andaram a fingir que – não havendo acusações nem, menos ainda, condenações – era politicamente aceitável um pm com aquela licenciatura, com as casinhas beirãs com projetos assinados de cruz, com as escutas do caso Face Oculta eliminadas de forma estranha e um quilométrico etc. Foi a direção da RTP que teve o despudor de oferecer, com dinheiros dos contribuintes, tempo de antena a uma criatura que conduziu o país a um resgate financeiro internacional e a seguir foi viver para Paris com o seu estilo ostensivo de pato-bravo.

Ah, e a ida para Paris. O que se diria de um empresário que paga os salários atrasados aos seus funcionários e embolsa o dinheiro da parte da TSU descontada aos trabalhadores, desculpando-se com falta de pagamento dos clientes, dificuldades de tesouraria, escassez de encomendas, whatever, mas continua a exibir perante esses trabalhadores (a quem não paga) a sua vida dispendiosa, mesmo que financiada com recursos próprios? Eu diria que tal empresário gozava com a desgraça alheia – desgraça de que, de resto, tem culpas. Mas que se diz de sócrates? Nada, evidentemente, que dizer alguma coisa do exílio de luxo da criatura é apenas ‘inveja’, ‘ressentimento contra quem tem pais ricos’, blablabla.

A Helena Matos também tem razão. Porque a persona sócrates não foi só criada pelo próprio. Foi criada com a conivência de muitos. E mesmo sem qualquer acusação ou sentença judicial é moralmente indefensável.

Não tem implicações políticas? Gargalhada.

Os comentadores enamorados por josé sócrates, que António Costa herdou, bem se esforçam para não contaminar o PS com o caso sócrates.

Vamos lá ver: mesmo que nada se prove – que os tais 20 millhões foram acumulados por sócrates e vindos de onde ou que, existindo os 20 milhões, eram do seu amigo e nada tinham a ver com sócrates – resta sempre o facto político. A prisão? Não. Que sócrates criou (enquanto Costa fazia parte do governo) regimes especiais de transferência de capitais para Portugal (fiscalmente muito apelativos e extinguindo implicações criminais) que os seus grandes amigos correram a aproveitar. Isto na possibilidade mais benigna.

Também será interessante de saber como o António-Costa-da-esquerda-da-esquerda-do-PS justificará um imposto de 5% sobre milhões de euros (decidido pelos governos de que fez parte) quando não se compromete com redução fiscal para famílias de classe média. Tanto mais que a entrada de dinheiro do país, só por si, não interessa a ninguém e não é ‘investimento produtivo’ – pelo menos é o que têm dito a propósito dos vistos gold.

António Costa existe mesmo?

O meu texto de hoje no Observador.

‘Venho aqui confessar: não vislumbro o que pretende António Costa com a estratégia política que tem seguido e os temas em que tem martelado.

As eleições antecipadas em 2015. Mesmo depois do Presidente da República ter dito que as eleições serão na data prevista, o PS lá teve de reincidir no tema a propósito da demissão de Miguel Macedo. E antes de o PR ter dado a opinião sobre o assunto, toda a gente que costuma usar os neurónios sabia que Cavaco nunca iria antecipar as eleições. Porque considera – e muito bem – que a data das eleições não tem de andar a reboque das conveniências eleitorais do PS e porque deu em 2013 oportunidade ao PS de haver eleições antecipadas. O PS recusou e claro que Cavaco terá todo o gosto em oferecer ao PS aquilo que o próprio partido escolheu.

Era evidente que Costa perderia esta batalha da antecipação das eleições. (E se para a direção do PS não era evidente, aconselho que se demitam em bloco e se retirem para uma vida de contemplação num mosteiro nepalês.) Para que a escolheu, então? Para ter assunto, já que claramente não faz ideia – ou faz e não quer contar – de como resolverá os urgentes problemas do país, os de financiamento do estado? Mas ao político que se apresenta como conseguindo por Merkel no lugar de germânica causadora de duas guerras mundiais que deve desculpas e compensações ao mundo, será que esta imagem de bulldozer que arrasa todos no interesse de Portugal é beneficiada com o facto de nem o Presidente conseguir convencer?’

O resto aqui.

O Insurgente goes to Mais Mulher

Aqui fica o vídeo do programa Mais Mulher, na SIC Mulher, de 17 de novembro onde o André Abrantes Amaral, o Bruno Alves e eu estivemos à conversa com Ana Rita Clara. Sobre o blog e sobre o que se pode esperar do governo até às eleições legislativas. (Somo o último segmento da 1ª parte.)

o perigo amarelo-dourado, parte 3

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A propósito deste meu post, o Rui Carmo deixou no facebook o testemunho de um deputado do PS que disse no Fórum TSF de 6ª feira que os vistos gold devem estar associados a ‘investimento produtivo’. Como estou em modo caridoso, dou uma insformações básicas a criaturas socialistas que entendem tanto de Economia e investimento como eu de veterinária. Aquilo que os estrangeiros pagam a portugueses para obterem vistos gold terá um de três destinos. (O José Meireles Graça, mais ou menos ao mesmo tempo em que eu escrevia a primeira versão deste post, explica a mema coisa a propósito de outro assunto.)

1. Ou será usado em consumo – e, segundo eu me lembro de ter ouvido nos últimos anos, os socialistas ADORAM o consumo e aumentos da procura interna, pelo que deviam adorar vistos dourados que permitem os portugueses consumam mais. (Mais IVA e mais IRC pelo menos, yeah!) Falam mesmo do consumo como se fosse uma obrigação patriótica consumir. Devemos estar gratos a quem nos dá oportunidade de cumprir em pleno as nossas obrigações patrióticas.

2. Ou investido. Este capital pode ser usado para criar novos negócios – que geram emprego, riqueza, IMPOSTOS (hmmmmmmm). Last I heard haver quem invista e crie novas empresas é bom para o PIB e para o país. Pode ser usado para compra de novos imóveis, constribuindo para dinamizar o setor da construção (e mais emprego, riqueza, IMPOSOS). E por aí fora.

3. Ou pode ser colocado no banco. E aí – tendo em conta que serão 500.000€ menos impostos – certamente não ficarão numa conta à ordem. Serão aplicados em produtos financeiros (cujos rendimentos gerarão IMPOSTOS) e serão usados pelos bancos para financiar negócios vários na economia portuguesa – o que quer dizer mais investimento, mais emprego e mais IMPOSTOS! Uau.

Nós sabemos que o PS desde que faliu o país anda desorientado – é ver o último episódio patético de Costa a dizer que Cavaco teria poderes diminuídos com eleições em Outubro quando, afinal, também os teria com eleições em Junho. Como li no twitter, dinheiro de estrangeiros assim só por si a entrar no país parece que não interessa nada – exceto s for para comprar títulos de dívida, ocasião em que se torna dinheiro salvífico. Bom, ninguém espera que o PS coloque os interesses das pessoas acima do interesse do partido (que confunde com o estado). Mas, se pensar bem chega à conclusão que os vistos gold são uma medida muito simpática. Porque lhes dá aquilo que para o PS está acima de tudo: impostos para gastar em obras inúteis, do género de um novo centro de congressos em Lisboa.

o perigo amarelo-dourado – os vistos gold e o mercado e a ideologia imbecil

Ora venho aqui dar-vos o privilégio de usufruirem da minha experiência nisto do mercado imobiliário e dos chineses, já que parte das minhas tarefas presentes se ligam ao mercado imobiliário de imóveis não habitacionais e tenho, neste âmbito, clientes chineses. Sendo que – para ficar tudo bem claro – nunca vendi nada a nenhum chinês para obtenção de visto gold.

O André Abrantes Amaral escreveu aqui que os vistos gold distorcem o mercado e dificultam a recuperação do mercado imobiliário, porque os chineses além de comprarem um imóvel compram também a autorização de permanência no espaço Schengen. Mais ou menos o mesmo, com um ou outro acrescento, tenho lido no facebook e no twitter. A minha opinião é a oposta.

Segundo o Observador, foram vendidos 1681 imóveis para obtenção do visto gold. Evidentemente isto é um valor residual e de modo nenhum capaz de distorcer o mercado. Quem tem um imóvel para vender e não o vende porque quer vender mais caro a um chinês, bem, o mais provável é que não o venda de todo ou se canse de esperar e ganhe juízo. De resto, segundo o que me dizem das imobiliárias com que trabalho, o que se passa no mercado habitacional é a maior vontade dos proprietários de fazerem descontos sobre o preço inicialmente pedido para venderem mais depressa. Por outro lado, a qualidade que eu aplicaria aos chineses ricos não é a burrice, pelo que não vejo por que não hão-de os chineses que querem o visto golf comprar casas de valor de mercado acima de 500.000€ – é que há muitas à venda – em vez de comprarem casas de 200 ou 300 mil euros por 500.000€. Por alguma razão as imobiliárias de luxo apostam cada vez mais nos potenciais compradores chineses.

E não vejo como introduzir mais agentes num mercado seja distorcer o mercado. Estrangeiros ricos a comprarem casas pode aumentar o preço das casas? Bom, as exportações por empresas portuguesas têm exatamente o mesmo efeito sobre os preços por cá: uma empresa com capacidade exportadora só vende cá se lhe pagarem o que consegue cobrar nos mercados com maior poder de compra para onde exporta. (As importações têm o efeito inverso.) Vamos proibir as exportações?

E não esqueçamos que este pagamento pelas casas – a preço de mercado ou mais caro – é feito a portgueses e seria dinheiro que, de outra forma, não entraria no país. (Está quase pronto outro post sobre isto, porque o Rui Carmo deu-me no fb umas informações sobre umas tiradas de um deputado solialista reveladoras, como sempre, de uma assombrosa literacia económica.)

A conversa da distorção do mercado que os chineses trazem é a repetição daquela de há uns 10 anos, quando os chineses começaram a arrendar lojas – porque nós somos tacanhos e não conseguimos lidar com a mudança sem puxar todos os cabelinhos da nossa cabeça. Que pagavam rendas muito mais caras do que os lojistas portugueses (esquecendo a ridicularia das rendas pagas por muitos logistas com contratos anteriores a 1990 e que as rendas mais altas, a existirem, também eram recebidas por portugueses). Que as rendas eram pagas pela embaixada da China. Que isto e que aquilo. Dez anos depois o mercado de arrendamento continua a funcionar, os solavancos que teve deveram-se à crise pós 2008 e não aos arrendamentos a chineses, não há escassez de lojas para empresas portuguesas devido aos arrendamentos a empresas de estrangeiros. Enfim, o mundo não acabou.

Outro argumento contra os vistos gold é a suposta infâmia de darmos a possibilidade de residência a quem possa simplesmente pagar esse privilégio. Como se as autorizações de residência não tivessem sempre uma contrapartida: ou trabalho no país (muitas vezes é necessária a existência prévia de um contrato de trabalho), ou contribuições regulares para a segurança social, ou… Pode até dar-se autorização de residência a um estrangeiro que tenha educação superior e não a outro que não a tenha – basta o país querer atrair quadros qualificados que lhe fazem falta. O que aqui se trata é de estabelecer que ‘ter dinheiro’ (igual a ter capital) é moralmente inferior a ter ‘capacidade de trabalho’. É um julgamento moral e ideológico, feito por aqueles seres etéreos que se supõem tão puros que desdenham quem obtenha algo (e uma autorização de residência noutro país não afeta o centro da esfera da dignidade de cada indivíduo desse país) simplesmente porque pode pagá-lo, que pretendem viver num mundo acima das imposições do vil metal. Como se ter dinheiro fosse algo torpe que merecesse punição social (em vez de algo que pode ser usado para promoção do bem comum, concretamente através da criação de riqueza). Tenho tanta paciência para esta gente etérea como para aqueles de que falava Oscar Wilde quando dizia que um cínico sabe o preço de tudo e o valor de nada. E não tenho paciência para os etéreos porque não gosto de hipócritas.

nós gostávamos de um poucochinho de escrutínio, se não for demasiado incómodo

Mais cedo ou mais tarde vai ter de se levar a sério a ameaça que é a pertença não assumida a esta teia de interesses e lealdades que é a maçonaria por parte de eleitos ou de nomeados políticos para organismos estatais. E, já agora, também de juízes e magistrados. Também não deixa de ser curioso como a maioria da comunicação social convive bem com esta opacidade e a investigue tão pouco.

Diretor do SIS sai este mês, Passos procura substituto – não maçon

Maçons nas secretas: registo de interesses público abre guerra no PSD

o perigo amarelo-dourado

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Nós, como se sabe, somos pobres mas esquisitos. Além de levarmos a mal que os turistas venham cá gastar o seu dinheiro, dando cabo da calma lisboeta (e, em alguns locais de Lisboa, invertendo caminhos de decadência económica e imobilizada – e nós sabemos o quanto gostamos da decadência para nos comiserarmos dela) agora também querem investir por cá. Não há meio de nos deixarem sossegados. Algumas pessoas são obrigadas a vender as suas casas a chineses mais caras do que venderiam a portugueses, outras pessoas são obrigadas a trabalhar para empresas de estrangeiros que cá residem devido ao visto gold – e por aí fora de atrocidades horríveis a que vimos sendo obrigados.

Antes que comece a paranóia provinciana portuguesa do costume contra os vistos gold, é bom lembrar que medidas semelhantes existem em vários países por esse mundo fora. São formas eficazes de atrair investidores estrangeiros. E – além disso – são muito usados por portugueses que investem noutros países, concretamente aqueles da lusofonia cujos laços e entendimentos económicos e negócios lá costumam encher a boca dos nossos políticos e também de alguns comentadores. Portanto ao atacar os vistos gold é bom que se tenha noção de que se ataca um meio que muitos portugueses usam para ganhar dinheiro noutros países.

Quanto à corrupção (e às consequências políticas que aparentemente Passos Coelho mais uma vez não deixou que um seu ministro tirasse), investigue-se, julgue-se, puna-se. E sempre deu para a nossa investigação judicial mostrar que, afinal, existe.

The kindness of

não necessariamente de estranhos. Uma das cenas do cinema que melhor retrata a generoridade foi por mim avistada em Platform, de Jia Zhangke. Numa das cidades por onde a trupe de artistas que o filme segue passa, um deles encontra um primo cuja irmã, estudante, vive em casa dos seus pais. O primo não estudou, ocupa-se de tarefas meniais mal pagas e desprestigiadas e tem como única opção para o seu risonho futuro trabalhar numa mina. Local onde – e este é um momento delicioso de tão acre (e num país comunista) – antes de assinar o contrato lhe explicam que nele consta que os acidentes não são responsabilidade da empresa (pública) que lhe dá trabalho, mas sim do acaso, que aceita que a responsabilidade pela sua segurança é dele e não da empresa (pública) e por aí fora. Resumindo: que era uma criatura descartável cuja única valia era retirar o minério que fizesse a empresa ter as suas receitas. A irmã, pelo contrário, havia estudado, iria licenciar-se e escaparia à pobreza degradante do irmão. Outro momento delicioso do filme – agora mais temperado de acre e de doce – ocorre quando, antes da trupe sair cidade e de assinar o contrato com a mina, dá ao primo cinco yuan (fortuna que na verdade não pode dispensar) para entregar à irmã. O primo, regressado a casa, acrescenta 5 yuan seus e dá à prima 10 yuan dizendo-lhe que vêm do irmão.

O primo – e quase todos os outros membros da trupe – não estão na situação impossível do futuro mineiro mas têm perspetivas muito difusas para si próprios. A expressão da individualidade (com o uso de umas calças à boca de sino, por exemplo) é mal vista na pouco individualista China que, por acréscimo, está (no filme) a sair da paranóia igualitária da Revolução Cultural; ainda não se entendeu bem como funciona isso do capitalismo; notam-se os primeiros vislumbres de que os capitalistas iriam rivalizar em importância e poder com os funcionários do partido comunista. Esta crítica do filme que encontrei dá bem o tom do filme e das vidas do grupo de jovens artistas. Que estão num limbo entre o socialismo e o capitalismo, a pobreza e o desenvolvimento económico, o igualitarismo radical e o individualismo. E se perguntam ‘what happens now?‘.

Beleza, segredo da felicidade. Ou não.

O meu texto de hoje no Observador.

‘Há quem retire imenso prazer de uma vida austera e com poucas necessidades a desorganizar a rotina. Quem arquive os extratos bancários das suas contas bem recheadas com o mesmo enlevo que outros guardam as jóias herdadas da avó. Quem goste de adquirir objetos para ostentar prosperidade e quem prefira bens preciosos e únicos que apenas uns poucos (os eleitos) reconhecerão. Não estou nada segura que haja apenas uma maneira de usar o dinheiro em prol da felicidade de cada um.

E as experiências que são mais prazenteiras do que os bens materiais? Habituamo-nos, dizem, aos objetos que possuímos e deixamos de lhes dar valor. Como os James cantam ‘if I hadn´t seen such riches, I could live with being poor’. Ora eu duvido.’

Tudo aqui.

Repor A VERDADE

Têm-se propagado muitas falsidades a propósito do já famoso (e os maldosos dizem também infame) comunicado do PCP sobre a ‘chamada’ queda do muro de Berlim e eu venho aqui assistir o PCP na reposição dA VERDADE. Começo por reconhecer que numa leitura simplista, apressada e enviesada desta peça verdadeiramente extraordinária que é o comunicado do PCP, se conclui que os old beans comunistas são piadistas ainda mais talentosos que o P. G. Wodehouse. Mas o comunicado evidencia algumas incongruências que manda a seriedade iluminar. Deixo duas.

Primeira. Diz-se que o muro caíu, mas na verdade o muro não caíu coisíssima nenhuma. Isto é nada mais do que uma forma aleivosa de lançar dúvidas sobre a perícia técnica do bloco soviético na construção de edifícios e outro imobilizado de relevante interesse público. Como se vê pela foto, se há crítica que nem os mais preconceituosos poderiam fazer à arquitetura estalinista era a de não ser sólida e perene (ao invés, criticavam a estética, esse conceito burguês). (Ao contrário, de resto, daquela barraquinha americana do Checkpoint Charlie, com ar de ir arrastada de cada vez que uma rajada de vento mais forte se fizesse sentir ou que nevasse à boa maneira alemã.) Estabeleça-se, portanto, que o muro não caíu. O muro, de facto, foi deitado abaixo. Poderão argumentar que aquilo que se aprecia se mantém e só se manda abaixo o que não queremos. Mas essa visão resulta apenas de estarem inebriados pelas teorias psicológicas capitalistas que são – tal como foi a destruição do muro e das conquistas todas que o povo da RDA alcançara (e atente-se que este povo em 1989 vivia consideravelmente melhor do que em 1289) – uma conspiração imperialista para destruir o comunismo e a felicidade universal que este, como era sabido, trazia.

Stalin_Architecture

Segunda. Há muito folclore associado às pessoas que queriam fugir da RDA e alguns até que foram mortos tentando passar o muro. Até se diz que o muro foi construído para evitar que as pessoas fugissem da felicidade comunista para as agruras da vida capitalista na Berlim ocidental. Nada mais falso. Aqueles que se aventuraram na perigosa passagem para o lado ocidental fizeram-no pelo mais puro amor ao comunismo. Tão indignados estavam com as mentiras que a propaganda capitalista difundia sobre as indigentes condições de vida na RDA comparativamente à RFA que nada (tirando as balas dos guardas do muro) os demoveu de viajarem até ao lado ocidental para repor a verdade sobre as verdadeiras conquistas e a felicidade universal do povo alemão na RDA. Ambicionavam somente contar ao mundo capitalista as maravilhas do comunismo aplicado. E deram a vida por esse nobre objetivo. Cada pessoa de cada cruz deste monumento berlinense é um admirável mártir comunista.

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Piropo: problema de gente sem problemas

O meu texto desta semana no Observador:

‘Além da morte e dos impostos há mais uma coisa certa na nossa vida: podemos contar com a esquerda para nos entreter de tempos a tempos com a sua alienação dos problemas dos portugueses, inventando supostos dramas que os ingratos cidadãos teimam em não sofrer.

Como a inquietação sobre o sexo dos anjos já é banal, o PS nas últimas semanas tem procurado responder às mais viscerais preocupações do indivíduo lusitano. Deixo uma: corrigir a enorme injustiça de Sócrates, depois de ter assinado o memorando com a troika para o qual trabalhou afincadamente seis anos, não ter sido condecorado pelo Presidente da República. Eu estou com o PS. Tenho notado em todos os meus amigos e conhecidos um incansável desgosto por esta injustiça. Eu, arredada dos problemas dos meus concidadãos, pensava até agora que era fúria pela carga fiscal que o despesismo alucinado de Sócrates e a falência que inevitavelmente se lhe seguiu nos impuseram. Ou angústia pela incerteza do futuro dos empregos ou desilusão por não mais se conseguir dar aos filhos o que antes era possível. Mas não: afinal é tudo solidariedade com a não condecoração de Sócrates.

E o Bloco de Esquerda, essa bênção dos céus para nos alegrar na chegada do outono, lá voltou à carga com a criminalização do piropo de rua, que considera ser uma forma de assédio sexual.’

O resto está aqui.

Samsara governativa

samsara

Samsara é, no budismo, o ciclo de nascimento e mortes sucessivas que é apenas interrompido pelo moksha, a libertação ocorrida quando se alcança a plenitude espiritual – ou, no budismo mahayana, pela transferência de mérito de um bodhisattva simpático. Mas até lá resta aos pobres mortais (de todas as espécies) penarem na vida atual os castigos ou gozarem as recompensas merecidas pelas aleivosias ou virtudes das vidas anteriores. E na presente vida já se sabe que se trabalha – mesmo que em forma de, sei lá, alforreca – para os tais castigos e recompensas que abundaram na vida seguinte.

Nos próximos meses até às eleições legislativas de outubro de 2015 – e ninguém com juízo supõe que o PR vá antecipar a data das eleições só porque o PS faz birra e quer muito porque lhe é conveniente eleitoralmente – o governo não vai fazer mais do que tentar escapar à sorte (ou à justiça) do samsara. Que remeteria PSD e CDS para a opisição com grupos parlamentares diminutos.Tendo como único mérito ter evitado catástrofe maior do que aquela com que nos confrontamos nos primeiros meses de 2011, iludido o segundo resgate que tantos deram como certo tantas vezes, os partidos do governo vão agora tentar convencer os eleitores de que afinal na próxima legislatura é que será o tempo de implementarem o programa eleitoral que apresentaram em 2011 e não cumpriram. Isto ao mesmo tempo que adotam um eleitoralismo – reviravoltas com a diminuição da sobretaxa do IRS, medidas pró-natalidade,… – ao mesmo tempo que Passos Coelho tenta preservar ao máximo a sua imagem de anti-eleitoralista. Sabe-se lá por que razão, está convencido que os portugueses apreciam doses de tough love dos seus governantes.

Não tendo avançado com a prometida reforma do estado nos primeiros meses da legislatura – reorganização dos serviços, extinção de institutos e observatórios exóticos, encolher entidades reguladoras obesas e despesistas que prestam serviços medíocres aos mercados e aos consumidores, concentração dos recursos públicos nas funções que o governo considerasse primordiais retirando-se das restantes, etc. – não o farão certamente no último ano de legislatura. Esta reforma não é tarefa para um governo acossado – e muito justamente – por todos.

A maior dificuldade? Convencerem os eleitores de que farão uma reforma penosa e contra todos os interesses instalados numa legislatura mais amena do que a presente quando escolheram não a fazer na situação de garrote que foi o resgate da troika.

Não se pode fazer um programa europeu de troca de socialistas?

O Rui Carmo ontem já postou sobre o assunto, eu ontem também já disse umas coisas no facebook, mas apetece-me vir aqui também frisar o azar que temos com os socialistas que nos calharam. Houve umas criaturas tontas que saíram de Portugal para se juntar aos malucos que andam lá pelo Crescente Fértil, e desconfio que não o terão feito pela curiosidade com as paisagens do berço da civilização e por aí. Enquanto na Síria e no Iraque, terão feito o que os outros jihadistas fazem (ou já teriam provado em si próprios os mimos dos jihadistas mais convictos): matam gente, torturam, violam e escravizam mulheres não muçulmanas, aterrorizam as populações, degolam jornalistas e inocentes que foram para aquelas bandas para ajudar as pessoas.

Perante jihadistas que querem regressar, na Grã-Bretanha discute-se se se deve usar legislação da Idade Média para os julgar como traidores. Por toda a Europa se discute o que fazer com estes malucos que regressam e como lidar com o perigo que representam face à possibilidade de implementarem aqui as boas ideias terroristas que aprenderam no Levante.

Por toda a Europa? Não, há um pequeno recanto que resiste ainda e sempre ao bom senso e à sanidade. Situa-se no Largo do Rato, em Lisboa, na sede do Partido Socialista, onde aparentemente a preocupação não é com a população portuguesa que pode apanhar com as maluquices desta gente regressada, não é punir pessoas que se associaram a um bando criminoso inimigo da República Portuguesa. Não, no PS preocupam-se com a segurança das pessoas que prezam tanto a sua segurança que não se importam de matar e morrer em nome de Allah. As prioridades do PS, como de costume, estão em plena sintonia com os interesses dos portugueses.

Turistas em Lisboa: somos pobres mas esquisitos

‘O turista insistente devia perceber que está muito bem visitar países que participaram na conferência de Bandung (a de 1955) e que precisam de se sujeitar a estas tormentas. Ou cidades como Paris e Roma, cuja reconhecida penúria as faz aceitar milhões de turistas anuais. Porque ter tantos turistas é um atentado à dignidade lusitana. Gente nova e diferente na cidade? Pfff. E o turismo como setor estratégico? Queremos ser um país de camareiros e empregados de mesa? Era o que faltava, que nós estamos todos destinados a trabalhar em empresas de tecnologia de ponta (que as qualificações da maioria da população não se adequem, é um pormenor; não sejamos picuinhas).’

Aqui.

Deve a Igreja preferir a facilidade do julgamento ou a enorme dificuldade do Amor e da Misericórdia?

A Daniela respondeu ao meu artigo no Observador e apesar de já ter prometido abster-me de temas beatos por muito tempo, é um post com partes tão erróneas no que refere sobre Igreja e fé que deixo aqui algumas notas.

1. As bitolas da fé católica são o Amor e a Misericórdia de Deus. As virtudes teologais são a Fé, a Esperança e a Caridade (i.e., Amor). Qualquer pessoa que leia o Novo Testamento entende o feroz combate que Jesus e, depois, os Apóstolos fazem ao justicialismo e a visões justiceiras de Deus. Além das parábolas que referi (e mais há), temos o ‘não julgueis para não serdes julgados’, temos a teologia da cruz de Paulo, temos o ‘se Deus está por nós, quem está contra nós?’ paulino, temos o Espírito Santo paráclito (i.e., temos o ES – Deus – como nosso advogado de defesa), e um quilométrico etc. Querer elevar a justiça a um papel que não tem – e propositadamente não tem – pode ser muita coisa, mas não é catolicismo. O tema da justiça, que aparece ao nível da praxis e não de virtude de fé, está sempre relacionado com a justiça de reconhecer a cada pessoa um reduto de dignidade e tratá-la dessa forma, não de recompensa dos justos e punição dos incumpridores. A justiça vista da forma terrena é tão ausente do catolicismo que a Igreja – como se viu no caso dos padres pedófilos ou do assassino ‘inconseguido’ de João Paulo II (para dar um exemplo criminoso e outro misericordioso) – tem mesmo dificuldade em ver-lhe utilidade e usá-la.

2. A Igreja não tem de ficar de porta aberta à espera de que quem concorde queira entrar. É certo que há muito setores que querem ser um grupo pequenino de puros, com regras de entrada estreitas, mas também não é isso o catolicismo. Inerente ao catolicismo está – e, mais uma vez, vem no chato que é o Novo testamento – a missionação e a evangelização. Foi isso que transformou a Igreja no que é hoje. E usaram-se argumentos tão avassaladores e intelectualmente refinados como o da imagem que deixo abaixo, do Qorikancha, um mosteiro dominicano construído literalmente em cima de um local de culto inca, em Cuzco. Ou seja, através de esquemas como por os locais de culto cristãos onde estavam os anteriores pagãos conseguiu-se converter os nativos de um continente. Imaginam-se portanto os critérios exigentes para com os fieis que vinham associados a esta fineza teológica. A ideia: preferia-se ter as pessoas dentro da Igreja, mesmo que devido ao hábito de ir prestar culto à divindade no local do costume, do que exigir-lhes concordâncias absolutas com isto e com aquilo antes de as deixar entrar. Conclusão: estar dentro de uma Igreja com um porta aberta onde ninguém entra – não vamos olhar para o lado da crise de vocações ou dos números de católicos nas missas e nas outras atividades da Igreja a diminuirem, ou vamos? e também vamos fingir que a inveja e a bufaria dentro da Igreja católica não eram incentivadas em setores tradicionalistas perante o sucesso dos progressistas? – pode ser muita coisa mas, mais uma vez, não é catolicismo.

Qorikancha3. Quanto à parábola do aluno da Daniela, é rápido. De facto o difícil nesta maluquice do cristianismo inventado por Jesus é que foge completamente aos critérios humanos. Todos passariam, mesmo, desde logo porque não falamos de recompensas profanas. É uma religião que até tem um ‘bom ladrão’. A parábola da Daniela é precisamente o oposto da parábola dos trabalhadores da vinha. Eu, que tenho como fé o cristianismo, prefiro a versão de Jesus à da Daniela.

4. É sempre muito prático ignorar a História da Igreja e assumir que esta é a primeira vez que a Igreja tem convulsões que levam a que trema e se transforme. Voltando à Bíblia, está lá bem explicada a guerra entre a fação conservadora (Pedro e Tiago) que queria manter o respeito à lei mosaica e a de Paulo, que via como desnecessários os preceitos judaicos. O que se adotou foi esse grande abandalhamento da Igreja (como agora se diria) proposto por Paulo. Mesmo a comunhão tem vindo a ser cada vez mais democratizada, depois de séculos em que foi algo reservado para os dias de festa e para as pessoas mais importantes. A comunhão como algo corrente e que até pode ser diário, a comunhão de crianças,… é tudo recente na Igreja. E não deixou de ser considerado mais um abandalhamento da Igreja pelos conservadores de cada altura.

5. Concordo com a Daniela: a Igreja não pode comprometer as suas verdades fundamentais para agradar ao mundo. Sucede que para mim as verdades fundamentais são a vida, a morte e ressurreição de Jesus (por sinal a tradição oral mais antiga de todas do cristianismo) e o amor e a misericórdia de Deus. Segundo o post da Daniela, a verdade fundamental presume-se serem o catecismo e a lista dos que podem comungar.

6. A Igreja é e deve ser diversa. Continuar a ler

Convencionalismos socialistas de fim de semana

Ontem dei com esta entrevista de Maria Antónia Palla ao i (que ter uma mãe interessante também tem cachet eleitoral). Lá se fala da família de MAP, que, apesar de não católica e republicana, era tão puritana, tradicionalista e controladora dos seus membros femininos como as mais estritas famílias católicas. Não é a primeira vez que me deparo com esta característica – a esquerda progressista e defensora de todo o tipo de igualdade menos aquela que lhes transtorne a vida famíliar e os ponha a ir ao supermercado e a mudar fraldas e dar banho à filharada. (Atualmente a rapaziada esquerdista já é mais partipativa, mas tanto quanto a rapaziada de direita e são mais influenciados pelos ambientes urbanos, educados e cosmopolitas do que pela ideologia.) E esta é uma experiência quase universal das mulheres de esquerda of a certain age. Zita Seabra conta isso mesmo na sua experiência de clandestinidade em Foi Assim, Doris Lessing relata-a de forma mais ou menos autobiográfica através de Martha Quest e as entrevistadas por Cecília Barreira em Confidências de Mulheres, Anos 50-60 lá o confirmam. (Em referência ao Nobel de Lessing, tenho de confessar que os Nobel de Alice Munro e Mo Yan dos últimos anos me reconciliaram um tudo nada com estes prémios.) E basta olhar para as ministras dos governos PS – sempre restritas às áreas tradicionalmente femininas: Saúde, Educação, Segurança Social, Ambiente para a mulher prestadora de cuidados da família, a educadora dos filhos, a dona de casa gestora e poupadora de recursos; Cultura para a tradicional anfitriã que junta nos seus salões a elite social e a elite cultural; e exoterismos como ministra da Igualdade para Maria de Belém continuar a ser ministra – para perceber que esta visão machista é intrínseca ao PS. Na tomada de posse do último governo de Sócrates foi ridículo ver como os quatro últimos lugares da hierarquia do governo eram ocupados por mulheres. (O PSD – que também tem abundantes falhas neste ponto, como a minha amiga Sofia Vala Rocha bem costuma apontar – e o CDS – idem -, apesar de tudo já tiveram por duas vezes ministras das finanças e uma ministra da Justiça.)

E já que estamos a falar de convencionalismos, e porque os ambientes que criamos para viver dizem muito sobre nós próprios, a sala de Maria Antónia Palla não podia ser mais convencional. Bonita, e com as paredes num leve tom de verde, que eu aprovo wholeheartedly (sou uma pessoa incapaz de viver em casas de paredes brancas e os meus quartos são sempre pintados de verde claro), e com as portas e rodapés brancos (outro requisito) e adoro soalhos antigos (e casas velhas, também). Mas oh quão tradicional.