Notas sobre o duelo de cavalheiros (enfim, são o contrário disso)

Sobre Costa haverá muito a dizer. O sentimento de entittlement sobre a coisa pública que carrega, visível na suprema lata com que mantêm o cargo (e o ordenado) de presidente da CML enquanto passa quatro meses a passear-se pelo país em trabalho eleitoral das primárias do PS, ou como afirma que não devia ter dado oportunidades a Seguro, como se lhe coubesse permitir que Seguro (acaso fosse capaz) brilhasse. O seu percurso profissional, sempre feito na política e na traiçoeirice que esta proporciona, que nos garante desde já que teremos um pm que não faz a mais pequena ideia do que é, por exemplo, uma PME (daquelas, que são a maioria, que não vivem empoleiradas no dinheiro dos contribuintes, que essas Costa provavelmente conhece muito bem). A sua produção assustadora de banalidades, tanto mais grave quanto faz da política vida há décadas, revelando que é apenas um gestor de dinheiros e de tachos, que ideologia não tem nenhuma e é incapaz de alinhavar ideias que vão além de tonterias como ‘tenho visão estratégica’, ‘precisamos de uma agenda para a década’, o que faz falta ‘é aumentar a riqueza’. Mas isso fica para depois. Para agora uns pequenos apontamentos sobre as primárias e o PS segurista.

1. As primárias foram um sucesso, muitos simpatizantes votaram, saiu delas um vencedor com imensa legitimidade. Usemos mesmo um cliché: um lindo exercício de cidadania. Os simpatizantes que votaram estão de parabéns. Mas, como já referiu José Manuel Fernanades, por exemplo, votou muito menos gente proporcionalmente que noutros países. Porquê? Em minha opinião, pela mesma razão das vitórias pífias do PS (cuja culpa de facto não foi só de Seguro): o PS foi um partido despesista desde 1995 até 2011, ano em que se não fosse a troika teríamos falido. Os eleitores não são parvos (apesar de terem votado duas vezes em sócrates) e sabem perfeitamente quem nos trouxe até estes 3 anos de garrote.

2. Todos os métodos de escolha de líderes partidários serão certamente melhores do que as diretas aos militantes. Este tipo de eleições trouxe-nos sócrates e Passos Coelho. Ganhavam os líderes que melhor controlavam o aparelho – i.e., que mais prometiam e que maiores benesses tivessem possibilidade de ganharem para os aparelhistas. As diretas em si próprias eram a garantia que o estado continuaria a servir os interesses dos aparelhos partidários e, logo, continuariam mastodôntico, alarve, em processo de hiper-obesidade acelerada. Com as primárias a escolha do líder volta a fugir apenas destes critérios, porque os simpatizantes não votam com o cargo x em vista. É, para mim, uma gigantesca melhoria.

3. Claro que nenhum partido que quer governar pode ter um líder como Seguro. Quem vai votar com confiança num so called líder que afirma ter-se anulado durante vários anos? E depois de ter dito o disparate quando Costa lhe contestou a liderança, ainda veio repetir a imbecilidade nestas últimas semanas. Se o próprio garante que não se consegue afirmar, quem se daria ao trabalho de o contrariar? E a moção de censura do PCP, lembram-se da figura? E quem leva a sério o seu recém distanciamento face a sócrates se durante anos se fingiu orgulhoso da governação socialista que sempre isentou de culpas? Enfim, Seguro não precisa de inimigos quando se tem a si próprio.

4. Aparentemente há vida inteligente no PS, que entende – além das culpas do PS na crise de 2011 – o erro crasso que será dar a entender ao eleitorado que se pretendem coligações de governo com o PCP ou que a CRP é afinal um documento datado m algumas partes. Seguro e este PS que, pelos vistos, raciocinam podem bem questionar-se: não estaria o PS em píncaros nas sondagens se, e com este governo azelha que resolve tudo com mais um aumento de impostos, se tivesse em devido tempo distanciado de sócrates e mostrado que havia compreendido o que as políticas socráticas fizeram ao país? É que às vezes há recompensa por fazer o que está certo.

About these ads

Servos das já-não-tão-belas artes

O meu texto de ontem no Observador, ainda sobre a cópia privada.

‘Na sexta feira a lei da cópia privada foi aprovada na generalidade por PSD e CDS. Isso, ao contrário do que algumas pessoas malévolas – e, evidentemente a soldo dos mais obscuros interesses que corroem subterraneamente a sociedade portuguesa e sabe-se lá se não mesmo financiadores do ISIS – afirmam, será ótimo para o país. Explico porquê.

Em primeiro lugar, o óbvio: vamos ter um novo imposto, mais 15 a 20 milhões de euros a passar dos privados para o estado e deste para várias organizações burocráticas que representam os artistas (todos – menos aqueles que não representam). Mais uma maravilha deste governo viciado em impostos.

Em segundo, inauguramos o tempo do Estado inventar impostos, assim como na embaixada de D. João V a Roma se lançavam moedas, de cada vez que um negócio se torna obsoleto. Como um bom senhor disse no programa Prós e Contras de 15 de setembro, as vendas de música em cd têm decrescido. É certo que não se entende o que estas estatísticas têm a ver com a cópia privada – que pretende regular a cópia daquilo que anteriormente se adquiriu – porque qualquer criança entende que se não se adquire nada, então também não se tem a possibilidade de copiar. Mas deixemos essas lógicas elaboradas para outras áreas da governação menos importantes, como a Educação ou a Justiça.’

O resto está aqui.

O título é um tanto injusto para as Belas Artes, que se eu fosse multimilionária seria com certeza colecionadora de pintura, mas é para dar o efeito que os artistas rentistas têm no azedar do que é bom.

Falta de respeito estratégica

António Costa que esteja descansado que eu – ao contrário de todas as outras pessoas malévolas (por exemplo o Rui Castro, maldoso até à medula, deixou no facebook um vídeo onde um popular com a 4ª classe previa complicações com o caudal da chuva no Marquês de Pombal) – não vou falar de cheias em Lisboa. Mesmo se, en passant, acabar por referir a Praça de Espanha, também não será por causa das inundações, mas antes para notar como durante o verão os sprinklers que pretendiam regar a relva faziam o bom serviço de também refrescar o alcatrão e, no meu caso, lavar de raspão o meu carro quando por lá passava. O que tenho de agradecer, porque eu embirro fortemente com gastar dinheiro em lavagens de automóveis.

costa inundações

Não, o meu objetivo é chamar a atenção a António Costa que é melhor ter cuidado, ou ainda leva com um processo disciplinar por faltas ao trabalho. Enfim, ninguém esperava de Costa – menos os seus maiores entusiastas nos seus suspiros mais íntimos – que fosse uma versão, adequada às circunstâncias, de Guiliani no 11 de Setembro. Nem sequer que aparecesse, só para mostrar que he cares, como faziam Jorge VI e a rainha Elizabeth com as casas bombardeadas do East End durante o blitz, colocando Costa umas galochas e supervisionando os desentupimentos na Baixa (em boa verdade se tivesse aparecido por Lisboa antes das inundações para mostrar que he cares também teria sido oportuno). Em todo o caso, aparecer alegremente num jantar de campanha das primárias em Coimbra no dia em que Lisboa inundou, talvez seja excessivo. Questões de vergonha e de respeito.

(foto da Sofia Vala Rocha)

Vender e esquecer

Já vem atrasado, que tive uma semana atarefada, mas aqui fica o meu texto da semana passada sobre a venda apressada do BES. E aproveito para lembrar que a solução encontrada pelo governo (camuflado de BdP) para o BES é filha do mesmo ar do tempo do país que leva a que Rui Moreira ameace com expropriações proprietários que querem legalmente aumentar as rendas nas suas propriedades, anos a fio depois de uma lei iníqua os impedir de cobrar as rendas de mercado dos arrendamentos mais recentes.

‘[A] forma de fazer o melhor negócio é, evidentemente, não parecer desesperado por vender. Sabe-se: quem está pressionado para vender e tem calendário para cumprir, perde poder negocial – porque interessa mais o momento que o valor. Desta vantagem (só vender se bem), governo e BdP já se desfizeram. Por muito que pm diga que tem 2 anos para vender, é sabido que se quer vender em poucos meses. Há razões para vender cedo. Evitar a erosão dos depósitos no NB (que diminui o valor), eliminar instabilidade ou não fazer parte das tarefas do BdP gerir bancos comerciais. Mas maiores argumentos para a rapidez vêem de outro lado: em 2015 há eleições legislativas e Governo quer ter o assunto BES arrumado na esperança que os eleitores esqueçam este processo miserável. A falha crassa na supervisão pelo BdP (com troca de acusações entre KPMG e Vice-Governador e despromoção deste) apesar da confiança política do governo em quem tão clamorosamente falhou. O provável conhecimento pelo governo desde fins de 2013, que Costa assumiu ter, de que quem administrava o BES montara um ‘esquema fraudulento’ no GES. O primeiro spin do Governo à expropriação do BES, congratulando-se por acionistas – aqueles a quem BdP, CMVM e Governo repetidamente asseguraram estar tudo sólido, tendo até BdP permitido um aumento de capital recente sabendo que o BES era gerido por autores de fraudes – perderem o seu investimento. (Não há partido como o PSD para maltratar, e com gozo, a sua base eleitoral). Ou – o mais grave institucionalmente – como o Governo em todo este processo cobardemente se escondeu atrás do BdP, como se decisões da expropriação e da venda pudessem ser apenas técnicas, quando são sobretudo políticas. A venda rápida é amiga do esquecimento.’Todo o texto aqui.

INEM envie com urgência ambulância com colete de forças ao escritório ou à casa de Rui Moreira

Aqui fica (sem grandes comentários, que não tenho agora tempo para mais) o socialismo nacional em todo o seu esplendor e que mostra como as coisas são neste país: os cidadãos podem ficar com a sua propriedade – aquela por que pagaram ou que herdaram (i.e., aquela por que os antecessores pagaram) – apenas enquanto o estado, benevolente e generosamente, lhes permitir. Enjoy, que é uma espécie de One Flew Over the Cuckoo’s Nest (aguarda-se a rebelião).

A sala do Hotel Intercontinental, no Porto, estava cheia de investidores, proprietários e potenciais proprietários de edifícios no centro da cidade e foi a eles que o presidente da autarquia, Rui Moreira, se dirigiu, com um aviso muito claro: “Se porventura pensarem que vão expulsar [cafés e lojas históricas] resistentes da cidade, saibam que a Câmara do Porto utilizará todos os recursos legais ao seu alcance para o impedir. Para sermos claros, no Estado Novo usavam-se expropriações por esta razão”.

O autarca falava na abertura da conferência Reabilitar para Revitalizar, que marcou o 10.º aniversário da Porto Vivo – Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU) e o fim do programa de intervenção do Eixo Mouzinho/Flores, e tinha na audiência um outro interlocutor especial – o secretário de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza, Miguel de Castro Neto. Foi a ele que o presidente da Câmara do Porto se dirigiu primeiro, manifestando-lhe o que disse ser a sua “principal preocupação”. “Há um crescimento vertiginoso dos preços das transacções na baixa e no centro histórico da cidade. Receio que a população autóctone possa ser expulsa e não queremos nem imaginar a cidade sem esta população, sem a forma como falam, como se comportam, como conhecem e se movimentam na cidade”, disse.

Rui Moreira defendeu que a actualização de rendas era “razoável e útil”, mas não a qualquer preço. E, depois, voltou-se para os proprietários, dizendo que, apesar do “muito respeito” que tem por eles, irá estar “muito alerta” em relação à forma como eles lidam com espaços emblemáticos da cidade. “Estou muito preocupado com os cafés históricos e lojas tradicionais da cidade. Eles que aguentaram tanto tempo, subitamente, podem ser excluídos, quando, pela primeira vez, vêem que o investimento que fizeram começa a dar frutos?”, questionou. E afiançou: “Não queremos transformar o Porto na República Dominicana das cidades”.

(Também por questões de tempo não comento a imbecilidade – para ser, ainda assim, agradável – de Moreira afirmar que agora as lojas e cafés que usufruem de rendas até aqui controladas – ou seja, lojas e cafés anteriores a 1990 – comecem só agora a ‘dar frutos’. O que o país precisa mais são negócios que dão prejuízos nos primeiros vinte e quatro anos, pelo menos, de existência.) Mas uma nova era, se Moreira levar a sua avante, se iniciará: em vez de se expropriar um bem em último caso e por inegável interesse público, agora vai-se expropriar porque os proprietários tomam ações que a lei lhes permite. Mas não faz mal, que no Estado Novo – esse expoente de boa política económica e de respeito pelos direitos individuais – também se fazia assim.

António Costa vai nu

Até já as minhas crianças percebem que o que se passa em Lisboa não está dentro do arco de normalidade da vida numa cidade. Hoje à tarde a descer a Marquês de Fronteira na parte de baixo do El Corte Inglés. Criança mais nova muito escandalizada: ‘Mãe, estão a fazer obras, estão a partir a estrada toda!’ Criança mais velha muito indignada: ‘Pois, estão sempre a fazer obras!’

Traduzindo para quem não conhece a zona, que é central em Lisboa e com grande fluxo de automóveis. Não há muito tempo houve obras de longa duração e grande incómodo, decididas pela autarquia, na Av. Duque d´Ávila e na parte referida da Marquês de Fronteira. (Tendo sido criada uma ótima solução para o trânsito que desce a Marquês de Fronteira: há duas faixas e, de repente, depois de um semáforo, passa só a uma faixa, gerando as filas de trânsito que se imaginam, que António Costa teima em infernizar a vida aos que têm de andar de carro em Lisboa.) Não muitos meses depois do fim das ditas obras, a parte da Marquês de Fronteira está com metade das faixas com o asfalto todo levantado e o início da Duque d´Ávila está também com metade das faixas cortadas e com buracos que fazem lembrar A Viagem ao Centro da Terra de Verne. É eficiência, António Costa sabe o que faz, os portugueses podem confiar nele, e mais uns etc. de tonterias.

Em todo o caso Costa está a pouco mais de uma semana de ganhar o PS (presumo), há já alguns dias que os dois candidatos às primárias pararam de nos divertir com os embaraços que criam a si próprios (e esse era o melhor side effect das primárias) e espera-se que as coisas se tornem um bocadinho mais claras. Que os projetos e ideias e alternativas prometidos – e, asseguram-nos, estão quase na meta final – sejam concretizados, que aparentemente a época de férias já terminou de vez e agora as atenções ficam mais despertas e exigentes, em vez de se continuar no registo do costume, de prometer milagres (simpáticos mas etéreos) sem que ninguém perceba quando e como vão ocorrer.

É esperar. Mas não muito.

Leituras Escocesas

Highland Fling, da Nancy Mitford. Um fling evidentemente muito apimentado, como convém nos climas frios.

highland fling

E da grande Kate Atkinson, também com o romance in the making entre Jackson Brodie e Louise Monroe.

OneGoodTurnWhenWillThereBeGoodNewsRefira-se ainda que a vila escocesa de Gretna Green é amplamente referida nos livros de Jane Austen, porque era o destino onde os apaixonados britânicos (ou, no caso da Lydia do Pride and Prejudice, do militar oportunista e da adolescente tonta) se iam casar à revelia das famílias

Justiça poética

É curioso que Maria de Lurdes Rodrigues se queixe do esforço financeiro que faz com o processo que já levou à sua condenação. Logo uma senhora que participou no governo da criatura socrática, conhecida por processar a eito jornalistas e comentadores que tinham a ousadia de não admirar a radiosa liderança socrática e se incomodarem pelos persistentes casos que não costumam atormentar pessoas honestas e rodeavam o então pm. Queixas – por vezes queixas civis, nem sequer criminais – que não levavam a nenhuma condenação ou, sequer, a acusação. Mas que obrigavam os ditos processados a terem gastos com advogados, além de perderem tempo de trabalho. Com sócrates, era assim; criticas-me e levas com honorários de advogados para pagar.

Maria de Lurdes Rodrigues não teve qualquer problema de consciência por participar num governo que desta forma sem vergonha pressionava jornalistas e comentadores a calarem as críticas a sócrates, pois não? Ora então desejo que continue a ter um grande esforço financeiro com todo este processo.

Manifesto pela Abolição dos Trabalhos de Casa

O meu texto de hoje no Observador.

‘Pego no mote dado por este texto no Observador para falar numa causa que deveria juntar todas as mães e todos os pais com prole em idade escolar: a abolição da peste epidémica que são os trabalhos para casa (ou como o meu filho mais velho, garboso frequentador do 3º ano, diz, Tortura Para Crianças).

Às vezes ouço pessoas referirem-se aos TPC como algo que molda o caráter das crianças, que lhes ensina a primazia do dever (donde o irritante nome ‘deveres’) face aos prazeres da vida que já lhes estão disponíveis; no fundo, são a bala de prata que leva os estudantes ao sucesso académico e até, no caso de jovens em risco, lhes evita uma vida entregue ao crime ou, pelo menos, à mandriagem.’

O resto está aqui.

Aristocratas do socialismo

O meu texto de hoje no Observador, sobre as castas de aristocratas que o socialismo inevitavelmente gera.

‘A semana passada foi uma grande semana para o país. Ficámos a saber que podemos ganhar dezenas de milhar de euros anualmente sem fazer absolutamente nada. Não tema o leitor: não venho aqui vender nenhum esquema fraudulento daqueles que nos propõem rendimentos estratosféricos trabalhando duas horas a partir de casa. Nem se trata de aconselhar a dar o golpe do baú, que nesses casos pode mesmo ser muito trabalhoso contentar o dono ou a dona do baú. Não, refiro-me ao emprego dos administradores não executivos dos bancos nacionais, que Godinho de Matos tão bem descreveu na entrevista que deu ao jornal i. Como administrador não executivo do BES, entrava mudo, saía calado, não fazia ideia do que se passava no banco, não fazia perguntas (até se podia fazer, mas nunca ninguém fez e já se sabe que não é de bom tom quebrar tradições). E, por essa hercúlea tarefa, foram-lhe pagos em 2013 42.000€.

E quais são as condições de recrutamento para tão relaxante e rentável profissão? Um doutoramento? Um pós-doutoramento? Experiência em cargos de topo em organizações internacionais? Não complique, caro leitor. Para ser selecionado para administrador não executivo de uma grande empresa portuguesa – daquelas, bem entendido, que aumentam a faturação quando empregam quem tenha o ouvido dos decisores políticos – basta: a) ser de esquerda; e b) estar ligado à resistência ao regime de antes de 74.’

O resto está aqui.

Preconceito em pelota

A Carla Quevedo no i sobre as fotografias de nudez roubadas e os disparates abundantes (que os disparates são assim, vêm sempre abundantemente) que sobre o roubo se disse. E na conclusão (muito acertada) da Carla sobre o assunto, eu ainda acrescentaria que uma mulher de bem só tiraria fotos nua a contragosto e para fazer a vontade ao marido. Tudo o que esteja fora disso, é expor as tentadoras. Quiçá criar-se uma página daquelas que agora surgem no facebook, ‘base de dados de mulheres solteiras que tiram fotos nuas’.

‘Comecemos pelo princípio. Um hacker entrou sem autorização nas contas iCloud de várias celebridades de Hollywood, como Jennifer Lawrence, a cantora Rihanna ou a modelo Kate Upton, e espalhou pela rede imagens das protagonistas, nuas, que estavam na chamada “nuvem”, a qual julgavam segura. Além de “hackar” as contas para roubar o que não era dele, partilhou o saque publicamente. Os crimes são tantos que quase não tenho espaço para os enumerar. No entanto, adivinhem quem foram apontadas como as maiores culpadas do roubo? As vítimas, claro. E porquê? Porque estavam nuas.’

Piedades

yummi O comentador João fez aqui um longo comentário a este meu post. E como reconheceu estar cheio de vontade de receber vergastadas, eu, como boa cristã (enfim, péssima, mas é o que se arranja), gosto de aceder à vontade e às necessidades dos demais sempre que tal não me desgosta grandemente e, portanto, aqui venho aplicar lógica e sensatez à questão. Também porque são argumentos muito frequentemente utilizados – pelo que os meus comentários seguintes vêm a propósito do comentário linkado mas não são observações necessariamente destinadas ao autor do comentário. E, também como é costume, usando-se – mais do que factos, imparcialidade, racionalidade – distorções, preconceitos e ignorância. Ignorância por não conhecerem os textos bíblicos nem os estudos feitos por quem se dedicou a aprender as línguas dos originais e escalpeliza cada pormenor para conhecer de onde vem, com o que se relaciona, qual o significado; ignorância por não fazerem ideia do valor que a Igreja dá àquilo que contestam; ignorância por tomarem todo o cristianismo como os conservadores protestantes americanos, que lêm a Bíblia de forma literal (algo inteiramente recusado pela Igreja) e passam a vida às guerras por causa do criacionismo versus darwinismo. (É certo que Bento XVI, na sua deriva ultra-conservadora mal-aconselhada em que tentou fazer da Igreja um grupo de meia dúzia de fanáticos dados à obediência cega ao Papa e à observância de 15.000 regrinhas inúteis que viam como mais glamourosas do que o tradicional amor ao próximo, procurou identificar o Jesus da fé com o Jesus histórico e sugerir uma leitura factual de todos os eventos dos Evangelhos. Mas, opinião – e sublinho o ‘opinião’ – de Bento XVI enquanto Papa à parte, a posição da Igreja está bem clara num documento muito feliz sobre o tema, de resto coordenado por um Cardeal Ratzinger em grande forma.)

Por exemplo: o que significam pomposidades do calibre ‘Não se pode apresentar argumentos racionais a quem não valoriza a razão, nem argumentos lógicos a quem não valoriza a lógica e muito menos argumentos científicos para quem pensa que a ciência é fundamentalmente nefasta.’ Eu não faço ideia de quem é que não valoriza a razão, nem a lógica e considera a ciência nefasta. A Igreja e os católicos não são certamente, e quem assim vê o catolicismo, lá está, não faz a mais pequena ideia do que diz. E em que casos de investigação académica ‘gera-se um silêncio que apesar de tudo é mais confortável que confrontar a ira dos cristãos com razão e ciência’?? Talvez em Marte (sociedade que desconheço), haja casos numerosos de ‘ira dos cristãos’, mas neste planeta o que vejo é muito académico, escritor ou colunista atacar o cristianismo porque sabe que essa é uma forma de ganhar fama rapidamente. E, porventura, esconder falta de talento (veja-se Dan Brown ou Saramago); e quem é Sam Harris fora as arengas contra a fé? Eu não tenho tido notícia de cristãos a atacarem quem contesta a sua fé – lembro-me de uma religião que o faz, mas não é a católica – e até diria que a ira vem dos que contestam o catolicismo, mas isso são juízos de valor ao cuidado de cada um. E espanto-me sempre com a ferocidade e o tempo que os ateus prosélitos dedicam ao cristianismo (vivendo numa sociedade felizmente laica); estou mesmo convencida que isto será alguma condição psicológica que um dia será diagnosticada.

Ora bem, a tese do João (e não só do João) é que não há qualquer indício histórico da existência de Jesus e muitos académicos reconhecidos (a sério?) opinam pela não existência. E para mostrar o quão escandaloso a falta de indícios é, revela como há documentação histórica sobre Júlio César. Portanto, Jesus – que era um homem comum em termos de estatuto social (e o facto de o Filho de Deus ser um homem comum até é algo bastante usado nas reflexões católicas) – só existiu de facto se houver documentação igual à existente para o que foi o homem mais poderoso do mundo romano. Bom, argumentação fraca. É que não existiram no mundo só as pessoas que apareceram em documentos (exigindo-se evidentemente o original, que as cópias prestam-se a todas as manigâncias) oficiais ou de historiadores reconhecidos, preferencialmente com assento de nascimento e certidão de óbito. Todas as outras pessoas não documentadas, toma, não existiram, é isso? Continuar a ler

As mulheres de Jesus

Um texto de Anselmo Borges, no DN, para ser lido de alfa a ómega. Nunca é de mais salientar que a forma como Jesus se relacionou com as mulheres foi (tal como tudo o resto em Jesus) revolucionária: não só faziam parte das suas discípulas como eram as mais leais; foram apenas mulheres que acompanharam Jesus quando foi crucificado e foi a uma mulher que Jesus ressuscitado apareceu pela primeira vez. E, já agora, os doze discípulos homens – que a Igreja usa para fundamentar o sacerdócio apenas masculino – foram, com grande probabilidade, uma (como tantas outras dos Evangelhos, e quase todas que fazem referência ao Antigo Testamento) construção catequética, no contexto da crescente divergência entre cristianismo e judaísmo, de forma a colocar o cristianismo, em vez do judaísmo, como a religião herdeira de Israel com as suas doze tribos.

(A questão do casamento de Jesus não tem qualquer importância para a fé – só mesmo para os curiosos do que foi o Jesus histórico (como eu). Pode não se ter casado e ter quebrado o costume, tal como mais tarde fez S. Paulo, que, de resto, procurava imitar Jesus tanto quanto podia. Ou pode ter sido casado e enviuvado durante a sua vida privada, o que tal também não tem qualquer implicação teológica.)

‘Os exegetas mais conceituados reconhecem que, também no que se refere às mulheres, Jesus operou uma revolução. Por princípio, as mulheres não deviam falar com um homem em público, o seu testemunho não tinha força, eram definidas como uma “lua”, recebendo o seu brilho do “sol”, que era o homem, eram impuras por causa da menstruação. Jesus não atendeu à impureza ritual, falou com a samaritana, uma mulher que tinha tudo contra ela – herética, estrangeira, com vários homens na sua vida -, teve discípulos e discípulas, fazendo-se acompanhar por eles e por elas nas suas tarefas apostólicas. Como escreve o teólogo X. Pikaza, “Jesus rompeu com todas as tradições culturais do seu tempo e trata a mulher como igual”; “homens e mulheres aparecem no seu projecto como iguais, sem prioridade de um sexo sobre o outro”; “não quis sacralizar a sociedade patriarcal da sua época” e “fundou um movimento de homens e mulheres, contra os rabinos da sua época, que não admitiam as mulheres nas suas escolas”. E A. Piñero: “Jesus foi um rabino relativamente anómalo no panorama dos doutores da Lei do século I, porque teve um ministério activo no qual as mulheres não só estavam presentes, mas eram discípulas.” Inclusivamente constata-se que as mulheres foram as discípulas mais fiéis e destemidas: “De facto, ao chegar a provação da Cruz, os Doze abandonam-no; elas, pelo contrário, permanecem fiéis até ao fim” (Pikaza) e foi Maria Madalena quem primeiro teve a convicção avassaladora de fé de que ele está vivo em Deus.

[...]

Decisivo é que Jesus, infringindo os preceitos patriarcais, deu início a um movimento inclusivo de homens e mulheres, sem discriminação. A Igreja Católica ainda não tirou daí todas as consequências.’

O texto completo aqui.

 

Martírios populares

Há um grande serviço à humanidade feito pelo Observador – além, obviamente, de dar guarida aos textos da yours truly e de demais insurgentes – que tem pasado despercebido: traz-nos, todas as semanas, um texto do Paulo Tunhas. O desta semana é hilariante (posso confessar que lágrimas de riso ocorreram enquanto escrevi estas linhas). Eu li-o ao fim da tarde no cabeleireiro (ainda por cima um rapaz que eu nunca havia visto, que as duas senhoras que se revezam para me aparar os caracóis estavam de férias e de folga, o que significa que a minha reputação junto desta pessoa ficou arruinada ainda mais cedo do que é costume) e entre rir-me imenso, contorcer-me para parar de rir imenso, maior vontade de rir à conta do olhar perplexo do rapaz (que desde logo estranhou eu estar a ver coisas só co letras em vez de com fotos ‘de famosos’), fiz uma figura que me obrigou a ser mais generosa do que devia com a gorjeta. E fui transportada para os tempos em que morei numa zona de Lisboa circundante aos bairros onde se comemora o Santo António. Apesar de a minha experiência não ter sido tão traumática, também posso partilhar a alegria de ter no início de uma pequena travessa em frente às minha janelas de então (era um 1º andar) de um lado da casa – o outro tinha uma vista catita sobre a encosta – os ensaios da marcha do bairro (que era coisa para se iniciarem três meses antes dos dançarinos se exibirem na Av. da Liberdade e, portanto, animarem as noites de uma boa porção do nosso ano). Ou de como se nos abriam duas opções para viver o Sto. António: ou nos encerrávamos em casa entre, o mais tardar, a hora de almoço do dia 12 e o dia 14, acautelados contra qualquer necessidade de sair de casa como se de um inverno nuclear se tratasse; ou fugíamos de Lisboa entre essas datas.

Um excerto das experiências de Paulo Tunhas no S. João:

‘Mas, sexta-feira de tarde, o mundo mudou mais do que alguém, mesmo alguém advertidíssimo da incerteza da existência, poderia esperar. Vinda do centro da Rotunda, uma voz gritava, amplificada por um potentíssimo aparelho sonoro: “Are you ready?”, “Arriba! Arriba!”, “Tudo nice?”, “Es-pe-cta-cu-lar!”, “Uau!”, e coisas assim. Com um entusiasmo e uma regularidade aterrorificantes.

É claro que me assustei. A atmosfera não era em nada balsâmica. E assustei-me cada vez mais à medida que as horas passavam e a coisa não parava. À noite, com as persianas fechadas e os vidros a tremer, era impossível ouvir música, ver um filme ou ler um livro. Acrescentei mais três portas fechadas dentro de casa e, como um animal acossado, enfiei-me, inerme, no quarto, o mais longe possível do horror. A voz continuava a berrar (“Arriba! Arriba!”) e um baixo persistente atacava, percutante, a noite. Adormeci por exaustão por volta da uma e meia da manhã, quando a gritaria parou, como alguém que, de repente, se vê livre de uma dor aguda e inteiramente absorvente.

Sábado foi a mesma coisa, salvo que naturalmente pior, porque estas desventuras deixam marcas na nossa “organização nervosa”, para falar como Júlio Dinis. Impossível fazer o que quer que seja, a não ser remoer o ódio. Domingo, fui almoçar a casa da minha mãe e cravei-lhe dois lorenins, para aquela noite e para a noite de S. João propriamente dita. Passou essa noite – o mesmo – e a noite de S. João. Terça-feira, feriado, e apesar da “organização nervosa” estar ainda mais debilitada, vi a manhã como uma manhã de Natal da infância. O pesadelo tinha acabado e o mundo ia renascer belo e puro. Ia finalmente poder ler, trabalhar, ouvir música.

O doce engano durou até cerca das quatro da tarde, altura em que os “Uaus!” e os “Arribas!” retornaram com inusitado vigor (ainda os ouço em imaginação).’

O resto da experiência está aqui.

Guerra dos sexos digital

O meu texto de hoje no Observador.

‘Todas as mulheres já devem ter passado por momentos em que se repara que o cérebro do homem com quem se conversa (socialmente, em trabalho, estes momentos não se fazem esquisitos) deixa de funcionar. Fica demasiado distraído a olhar para o decote (especialmente se tiver algum indício de cleavage – e os wonderbra são instrumentos letais para a exibição da inteligência ou eloquência masculinas) ou para as pernas (sobretudo se estiverem pouco cobertas e assentes nuns saltos altos) e esquece-se de manter o fio condutor do raciocínio. Ou o objetivo passa de mostrar a lógica dos argumentos para tocar amigavelmente, no meio do gesticular, na mulher com quem fala. Há casos em que estes comportamentos são ofensivos – o toque pressupõe intimidade que é inexistente ou o senhor faz questão de exibir a opinião de que a mulher com quem interage é só o decote ou as pernas – mas na grande maioria das vezes são inofensivos, divertidos e, até, elogiosos. (De resto, às mulheres também acontece).

Claro que é mais estimulante (e enternecedor) quando a resposta masculina à admiração pelo feminino é a tentativa de nos impressionarem (pela sapiência, beleza, proeza física, status, fortuna – aquilo em que o homem se sentir mais dotado). E no topo há aquela classe de homens – a que eu chamo os grandes elogiadores – que têm uma verdadeira mestria a elogiar mulheres. (Um dos dons mais subvalorizados da história da humanidade.) Elogiam abundantemente, sempre com gosto e doses certas de admiração e atrevimento. Neste caso, o elogio é mesmo uma questão de respeito. Não o respeito puritano, mas aquele que sentimos por alguém que tem uma qualidade que muito valorizamos.

No reverso insultuoso e exasperante das relações entre os sexos temos sermos ignoradas – ou não se dão ao trabalho de reagir (por uma mulher? porquê?), ou desvalorizam o que dizemos e produzimos, ou lembram-nos que somos subalternas de uma hierarquia superior masculina (afinal, a ordem natural das coisas, não é?). E, pior, na estratosfera ofensiva há as ameaças de morte e violação, eventos agradáveis que por estes dias ocorrem frequentemente na net envolvendo sobretudo mulheres opinativas (as mulheres a terem e proferirem opiniões, onde é que isto vai parar?). Algo que se pode com propriedade caracterizar como um curto-circuito cerebral masculino. Mas em ainda mais perigoso.’

O resto está aqui.

O PS é a minha musa

Inspirada pelo comovente house sharing socialista e por uma boa questão do Paulo Gorjão no twitter sobre a natureza dos militantes socialistas que vão votar nestas primárias – e que, como se sabe, alguns já foram objeto de uma certidão de óbito -, e, ainda, por outra coisa que estou presentemente a escrever, aqui vai uma das cenas preferidas das minhas crianças do Hotel Transilvânia.

Socialistas, rogo-vos: escolham António Costa para livrarem Lisboa deste martírio.

É certo que António Costa há já uns meses que tem tido o comportamento de indisputável seriedade de continuar a receber por inteiro o ordenado de presidente da câmara municipal de Lisboa enquanto passa os dias a visitar o país em campanha interna pelo PS – o que, neste país de adoradores de chicos-espertos, será certamente uma característica que agradará ao eleitorado – e nem se dá ao trabalho de esconder que não faz ideia do que se passa na CML, como se comprovou no caso dos arbustos que Sá Fernandes entendeu, na sua boa consciência pós-colonial, liquidar. Assim sendo, até poderíamos pensar que Lisboa tinha motivos para respirar de alívio por ter a atenção de António Costa presa, thank God, noutros locais do país. Mas ainda não é suficiente, porque a compulsão costista de estragar o que não tem problemas nenhuns ainda se faz sentir por Lisboa.

Eu moro perto da zona ribeirinha entre a Doca de Sto. Amaro e Belém e aproveito-a muito. Os restaurantes, a esplanada do CafeIn, o chá (um dos poucos razoavelmente decentes de Lisboa) daquele café ao pé do Altis de que eu nunca me lembro do nome, o Museu do Oriente, os passeios com os miúdos,… (e não esquecendo o Bar do Gin na Doca de Santo, muito apreciado aqui nesta casa). A zona ribeirinha tem os espaços todos muito organizados e um dos poucos que ainda estava em organização espontânea era a zona ao pé da Estação Fluvial de Belém. Como é perto de casa, quando tinha um espaço de tempo pequeno entre eventos com horas marcadas, ou quando ia buscar a criança mais nova, que me adormecia mal entrava no carro, e ainda tinha uma meia hora antes da hora de saída da criança mais velha, aproveitava e ia para o lado da Estação Fluvial, estacionava o carro de frente para o rio e lá ficava um bocadinho a ler o meu livro ou os blogues e o facebook.

Era uma zona pouco frequentada, aí com uma dúzia de carros estacionados que não incomodavam ninguém, de pessoas que também estavam ali a passar um bocadinho com uma vista simpática, com o turista ocasional a ir do Padrão dos Descobrimentos para os lados de Alcântara. Como hoje fiquei por Lisboa, de manhã lembrei-me de ir para lá ler os jornais na net. E verifiquei que até naquela zona onde nada se passava António Costa já conseguiu fazer com que se passasse ainda menos. Apesar da pouca passagem de carros, o pavimento está agora dividido em não sei quantas faixas de rodagem, todas elas com traço contínuo e sentido de rodagem desenhado, bem como as setas informando para onde os carros têm de virar. Há até duas faixas separadas ds restantes com pinos, não vão os quatro carros que lá passam diariamente pisar aquele traço contínuo. Uma das razões da intervenção parece-me ter sido limitar as faixas de rodagem de entrada e saída de carros para os ferries que lá atracam, o que está muito bem. A outra razão da intervenção só pode ter sido a paranóia anti-automóveis de Costa e a vontade de impedir que os lisboetas usufruam daquele espaço da forma como sempre fizeram – já que aquilo se tornou um mero espaço de passagem de carros (inexistentes), sem possibilidade de estacionamento nem de uso do espaço para outro fim.

Há que reconhecer que aquele espaço pode ser objeto de guerras entre a Administração do Porto de Lisboa e a CML, mas cabe ao presidente da CML a ordenação do trânsito na cidade, bem como permitir o uso da margem do rio pelos lisboetas. E o político que vai meter na ordem Merkel e os outros austeritaristas europeus certamente não tem problemas em disciplinar a APL, pois não?

Lições a aprender com Chamberlain

imageNão vale a pena fazer ultimatos. Quando se chega à necessidade de fazer ultimatos, foi porque já se terminou a possibilidade de qualquer convivência mutuamente suportável. Se fazemos ultimatos, acabamos sempre no dia 3 de setembro às 11 da manhã a informar, com ar sorumbático, que ‘this country is at war with Germany’.

(Em cima a fotografia do papelinho de Munich. Que também permite outra lição: quem dá cabo de uma oportunidade, vai dar cabo das seguintes. Ou seja: nunca confiar nos grupos de loucos que há pelo mundo e esperar que eles continuem a ser o que são: loucos.)

Temos herdeiro para a CDU

‘Having achieved virtually none of the objectives it said it fought for, at a cost of 2,000 dead and 500,000 displaced, Hamas tries to make the case it won the war.

Exhausted, battered and traumatized from 50 days of fighting and incessant Israeli bombardment, Gazans are now pouring through the streets lined with the rubble of former buildings and breathing a collective sigh of relief. Whether flocking to reopened cafés or pulling cinder blocks out of their blown-out living rooms, as the ceasefire takes effect people are feeling they have withstood the worst and survived. It’s a sentiment Hamas is seizing on to try and claim “victory” in a war that has yet to end the seven-year siege of Gaza – which was supposed to have been its purpose when Hamas was launching rockets at Israel.

Rather than focusing on an agreement that doesn’t seems to get Palestinians anything more than they got at the end of the 2012 war, Hamas changed from its wartime claims that it was fighting a battle to end the blockade to new rhetoric about victory in survival and repelling the Israeli ground invasion.’

O resto em The Daily Beast.

Problemas com o conceito de democracia

Não querendo agora discutir os subsídios às fundações privadas, as políticas culturais ou o valor da coleção do Museu do Brinquedo (conheço-a apenas por lá ter ido com as minhas crianças), esta notícia é muito curiosa pelo que se percebe da atuação de Basílio Horta e que parece ter vindo da cartilha aprendida por todos os socialistas. É mesmo todo um retrato da forma como os socialistas medem o mundo. A coleção é privada e tem (assumamos) interesse público. O que faz Basílio Horta? Apresenta uma proposta (na verdade, impõe) assegurando apenas o seu interesse e espera que a parte privada aceda prontamente e ainda agradeça profusamente. Faz lembrar sócrates negociando (não se preocupem, tenho aqui ao lado os rebuçados para a tosse) uma possível coligação em 2009, com o seguinte guião a apresentar aos outros partidos: ‘vossas excelências aceitam sem tirar nem por o nosso programa eleitoral como programa de governo e, em troca de nada, dão-nos os vossos votos; e sorridentes, se faz favor’. Ou António Costa, que já avisou que só aceita – e com benevolência e pleno de espírito ecuménico – o PSD se este renunciar às suas políticas e até pretende escolher o próximo líder do PSD. Ou seja, os socialistas só se sabem relacionar em submissão. A atitude que respeita a outra parte, que a aceita como igual com quem há que tomar decisões em conjunto, que não estabelece relações de poder humilhantes (e estes socialistas não só não aprendem com os seus erros como não aprendem com erros alheios; o episódio irrevogável do anos passado, mais o que o gerou, come to mind) – essa atitude é-lhes desconhecida.

E a hipocrisia de Basílio Horta é tanta (e a de sócrates, que se queixava que ninguém se tinha querido coligar com ele apesar das suas avassaladoras tentativas, e a de Costa se o deixarmos lá chegar) que claramente pouco se esforçou para chegar a um entendimento mas, ainda assim, recomenda insistência à parte privada. É a ordem natural das coisas: os privados a pedincharem coisas aos deuses do Olimpo socialista. Tu aí trabalha muito para me agradar e persuadir que eu, virtuoso e ser superior, como bom socialista, se estiver bem disposto, dou umas migalhinhas e olhem que as dou apenas por dias contados, não andem cá à procura de mimalhices intermináveis. Quem tinha um deadline, oficial ou oficioso, era a CMS, mas pode-se lá exigir à casta superior dos nossos autarcas que se sujeite aos tempos de um privado que tem algo com algum interesse público? Não é obrigação dos privados esperarem todo o tempo que os iluminados do PS e anexos entenderem por bem (e mesmo quando a situação a negociar se torna por alguma razão, com a passagem do tempo, impossível ou indesejável ou menos apelativa)? Ou até se aparece uma melhor proposta na autarquia ao lado? Obviamente que a um organismo do estado lhe tem de ser concedido toda a eternidade para o processo de decisão.

Todo um conceito de estado às avessas.

Senhor jihadista, posso ter a Grã-Bretanha de volta? Obrigada.

O meu texto de hoje no Observador.

‘Sou anglófila até à medula. Contado depressa: adoro all things british. O folclore da finest hour, a forma como valorizam a excentricidade, o Yes, Minister e o Fawlty Towers, as livrarias e os autores curiosos que descubro nas livrarias (de fugida, nomeio a Charlotte Mendelson e o autor sino-americano de policiais Qiu Xiaolong), a Tate Modern, as latas de chá da Fortnum & Mason (e estou eternamente grata à East India Company por ter surripiado os arbustos do chá à China para os cultivar no norte da Índia e no Ceilão), as capas para ipad da Smythson, o Colin Firth.

Bom, tudo, tudo, não. Na verdade a Grã-Bretanha tem algo dentro de si verdadeiramente funesto. Algo cuja mais recente manifestação ocorreu algures pelo Iraque quando um londrino decapitou um inocente americano em frente a uma câmara de filmar. E que gerou ondas de choque, ai Jesus, como é possível que na Europa rica, democrática, tolerante, das Luzes germinem jihadistas? Cameron interrompeu até por uns dias as suas férias na Cornualha (região que também adoro e admito até uma leve paixoneta por St Ives, que seria o meu local de veraneio de eleição não achasse eu uma anedota fazer férias ditas de praia em locais como Moledo ou S. Martinho do Porto que, afinal, são vários graus de latitude a sul de St Ives) para, presume-se, curar a arritmia dos membros do governo por tão inesperada notícia de que há malucos extremistas in the making em Londres.’

O resto está aqui.

Apesar de ainda não ser ‘of a certain age’, aprecio a tendência

There has been a surge in the past couple of years of meaty small screen roles for highly respected – and in many cases, Oscar-winning – women of a certain age, and last night they were rewarded.’

E até a CJ Cregg ganhou um Emmy. Mission accomplished. (Sejamos caridosos e não comentemos o vestido – alargando prudentemente o conceito de ‘vestido’ – de Julia Roberts.)

De facto, é surpreendente que tenhamos tido o resultado que cozinhamos

‘There are now thought to be more British-born members of Isis than there are Muslims in the British Army, leading lots of people to ask how they could hate us so much. After all, we did everything right: we imported low-skilled migrants from among the most clannish and socially conservative societies on earth to do badly-paid industrial jobs that were disappearing, ensuring their children grew up in unemployment; then we taught those children that our culture was decadent and worthless and our history tarnished with the blood of their ancestors; then we encouraged them to retreat into their religion through financial subsidies to the most openly sectarian and reactionary members of their community. What did we do wrong?’

‘O plano económico do PS é rezar’ (mas a Shiva, que eles são modernos)

Ana Sá Lopes (que sobre António Costa já recuperou o senso há algum tempo) no i:

‘Claro que Costa defende outra atitude perante a Europa com que Passos não concorda – mas que Seguro, por acaso, também defende. Aliás, defendem os dois o mesmo. Cito a moção de Costa: “É no quadro da negociação destas novas políticas europeias que o PS se deve comprometer a trabalhar para encontrar um novo equilíbrio entre os compromissos assumidos em matéria orçamental, a necessidade de reduzir os custos da dívida pública e a urgência de políticas para mais crescimento e emprego.” Isto era bom que acontecesse, mas até agora não aconteceu. Um senhor chamado François Hollande, presidente da República Francesa, um país com muito mais poder que Portugal no quadro europeu, não conseguiu nada.’

‘Devemos deixar andar o caos alguns meses’, disse Mao

O meu texto de hoje no Observador.

‘Não é que ande arredada de jornais, mas faço por evitar notícias das rainhas do drama nacionais. Há pouco sofremos a novela da ida (mais que a própria da ida) de Fernando Tordo para o Brasil – repetindo o êxodo de Maria João Pires anos antes – e poupei-me, agora, ao desgosto do fim da carreira de Rui Veloso. Certamente por mau feitio meu, obsto a que ‘os artistas’ entendam que lhes é devido o meu dinheiro – através de apoios de e serviços às câmaras municipais ou à SEC. Ou com a ressurreição da taxa sobre os suportes que armazenam conteúdos (como as fotos das férias da criançada da família neste verão) que Gabriela Canavilhas falhou em implementar e que os socialistas seguintes (o governo atual) querem finalmente cobrar. Sobretudo quando, deixando-se o meu dinheiro entregue à minha vontade (sempre um erro fatal, segundo o estatista médio), eu teimo em não o despender com esses artistas em concreto.

Mas desta vez a minha seletividade ia ditando que eu perdesse a entrevista de Carlos do Carmo ao Diário Económico, que merece ser amplamente comentada. Passo à frente do fadista Sinatra, ilumino com brevidade a escolha de terminar com uma citação de Fidel Castro (reconhecido autor da fulgurante prosperidade cubana do pós-59), acompanho por curtos segundos o cantor no espanto pela fidelidade do público, para me centrar nas palavras esperançosas de Carmo à conta dos jovens nas ruas.’

O resto está aqui.

Tenho a agradecer ao José Meireles Graça não ter perdido esta preciosidade jornalística que é a entrevista de Carlos do Carmo pelo DE. E deixo-vos uma canção do outro fadista, cantada num ano bom. (Não assumo responsabilidade pelas figuras da audiência no vídeo.)

E também umas imagens do que Carlos do Carmo quer ver nas ruas.

CRCR2cr3

O acordo ortográfico e eu

O meu texto de hoje no Observador, sobre ortografia com deriva literária.

‘Aviso já: a ortografia não me desperta emoções fortes. Não entendo a forma como muitas pessoas reagem à nova grafia como se um larápio lhes tivesse invadido a casa, roubado as jóias herdadas da avó e grafitado os retratos dos solenes antepassados. Tanto mais que (provavelmente porque ainda não ocorreu aos responsáveis do ministério das finanças) é perfeitamente possível continuar a escrever com a grafia antiga sem que tal constitua infração punível com multa.

A minha adoção do acordo ortográfico foi inteiramente utilitária. Tinha um limite máximo de 2000 caracteres com espaços para textos que escrevia para um jornal, bem como uma dissertação de mestrado a meio (no início, para ser sincera, e também com limite de caracteres) e, como sou tendencialmente palavrosa e pouco sintética (repararam na redundância?) e sofro sempre a cortar textos, lembrei-me: por que não livrar-me das consoantes mudas para poupar caracteres? Desde então a reação dos leitores não se fez esperar. As idiossincrasias da minha escrita sempre foram aceites como, bem, idiossincrasias da minha escrita. Nunca ninguém resmungou do meu uso de uma ou outra expressão em inglês, da minha queda para os advérbios de modo, da mania de observações entre parêntesis. Mas com a nova grafia, oh, não houve alma das tais que sente apaixonadamente a ortografia que não se manifestasse: no facebook amigos lamentaram o meu parco discernimento; no blog questionaram as minhas capacidades cognitivas, sugeriram pertença ao BE e garantiram-me que não mais leriam qualquer coisa que escrevinhasse, nem sequer uma lista de supermercado.’

O resto está aqui.

O 3º round da ‘narrativa’ sobre o desastre de supervisão do BES

fake lv

Eu até queria escrever sobre outras coisas, mas o mundo não deixa.

Nos últimos dias tenho ouvido e lido um choradinho (o último foi hoje nos poucos minutos – que a sanidade mental e o senso e o gosto não permitem aguentar mais do que uns poucos minutos seguidos dos comentadores televisivos – em que ouvi Marques Mendes) sobre a tremeeeeeeeenda injustiça que se está a fazer a Carlos Costa, coitadíssimo, que é ‘só’ governador do banco de Portugal, enquanto que o criminoso-mor Salgado está a passar pelos pingos da chuva. E, meus caros, deixem-me que vos diga que esta argumentação é indecorosa.

Salgado cometeu crimes enquanto administrador do BES? De tudo o que se tem lido, sim, e espero que, confirmando-se o que se tem escrito, os pague bem caros em pena de prisão. Algo que duvido que suceda porque quem faz o que faz nas várias empresas dos Espírito Santo não deixará de ter colecionado podres que pressionem outros poderes, pelo que, depois de atiçarem a fúria popular contra Salgado (para proteção própria), o poder político (e judicial) não deixará de promover a absolvição de Salgado.

Mas vamos ao Banco de Portugal. Eu sei que há muito para aí, dado o que argumentou por estes dias, quem acha normal e até gosta de ser enganado pelo estado (desde que o autor do engano seja o PSD). Esses estão way round the bend e nem vale a pena discutir esta questão com eles. Mas, aos restantes, dizem-me sff para que raio existe o regulador e supervisor bancário BdP? Não é precisamente para acautelar as situações que sucederam? É que se partirmos do princípio que sempre que há gestão danosa nos bancos o BdP nada consegue ver, nada consegue fiscalizar, nada consegue evitar, para que andamos a gastar dinheiro com a inutilidade? E o que está um senhor tão sério e eficiente como Carlos Costa (segundo os maluquinhos) a fingir que tem alguma utilidade, só para receber todas as benesses de ser governador do BdP? Uma pessoa séria não aceita estar a fingir que pode ser eficaz quando é apenas decorativa, pois não? Ainda para mais num caso em que mais perigoso do que não haver nenhuma regulação é não haver nenhuma regulação enquanto se assegura que sim, que há regulação e que esta é confiável; é dizer aos mercados que podem ter confiança em vez de dizer aos mercados que estão inteiramente por sua conta e que tomem as decisões com base nisso.

E há ainda outro ponto. Salgado pode ter cometido crimes, mas quem tinha a obrigação de zelar pelos interesses dos cidadãos portugueses era Carlos Costa, não Salgado. Por isso faz todo o sentido – e só num país de imbecis funcionais não será assim – que os cidadãos peçam explicações a quem os devia defender de por que não o fez.

A defesa (indefensável) de Carlos Costa está a ser feita evidentemente pelo governo, que também não quer ter sobre si o ónus de ter mantido em funções e ter até apoiado um governador do BdP que sabia que Salgado montou um esquema fraudulento no GES e o deixou continuar à solta no BES. Pior: deixou-o à solta no BES sabendo que tinha o tempo contado e que se havia maroscas para fazer, era fazê-las depressa. (A propósito: alguém se lembrou de testar o QI de Carlos Costa?) E a ver vamos se ministra das finanças e primeiro-ministro não sabiam também do ‘esquema fraudulento’ do GES e não foram cúmplices da manutenção de Salgado no BES. E evidentemente que sabiam, porque se Carlos Costa não lhes tivesse dado uma informação dessa relevância, tê-lo-iam demitido de imediato ao conhecê-la. Mas mesmo que num cenário impossível Costa não os tenha informado, certamente que Salgado informou o pm quando lhe foi pedir ajuda para o banco.

Ou seja: MLA e PPC, com toda a probabilidade, sabiam e foram coniventes com o contágio que Salgado estava a fazer ao BES dos problemas financeiros do GES. É para os salvar que se tenta convencer que Costa não podia ter feito mais.

É por isso que o primeiro spin da nacionalização do BES foi a suprema coragem que este governo teve de sacrificar os acionistas – essa gente ávida de dinheiro e burra que não tinha visto aquilo que era evidente para todos. Isto vem da estupidez ancestral (porque nunca lhe traz ganhos eleitorias nenhuns) do PSD – não resiste a mostrar as suas credênciais de partido esquerdista – e do uso que contavam fazer da proverbial inveja dos portugueses por quem tem dinheiro. Saiu-lhes o tiro pela culatra, porque se os contribuintes (até ver) e os depositantes ficaram aliviados por não serem (ainda mais) sacrificados, também entenderam bem que a maioria dos acionistas não tinha qualquer responsabilidade na gestão do BES e que tinha sido enganada à grande pelo supervisor (e governo), sobretudo na pornográfica vergonha que foi a permissão do último aumento de capital do BES.

O segundo spin foi lembrar que o culpado era Salgado, não Costa. Também não colhe e já referi algumas razões.

O terceiro spin, aparentemente, é culpar o BCE. (Não sei que contorcionismo vão adotar agora aqueles que até ao momento garantiam que a opção tomada fora boa, quando pelos vistos a nova ‘narrativa’ vai ser ‘a solução foi má mas fomos obrigados’.) Mas esta terceira ‘narrativa’ é ainda mais surreal, porque veio através de um escritório de advogados.

E aqui chegados, é o momento de lembrar que um dos (muito) poucos méritos deste governo era não ser o governo sócrates, quando aconteciam coisas que nos punham permanentemente de queixo caído. Mas até esse mérito este governo conseguiu destruir. Porque, lamento, mas ter: a) um governador do BdP que mantém na administração de um grande banco nacional quem sabe ter montado um ‘esquema fraudulento'; b) um pm e uma ministra das finanças que não demitem Carlos Costa, ou o convencem a demitir-se, ao saberem de tão grave incompetência do governador do BdP; c) os mesmos pm e ministra das finanças estão a banhos descontraidamente e agem como se tudo tivesse sido uma mera questão técnica que nada os implicou (apesar da mudança de leis à pressa para Costa implementar a sua decisão) e d) finalmente aparecer uma ata do BdP (sabe-se lá se verdadeira) numa newsletter de um escritório de advogados a apontar o novo culpado – bem, ter tudo isto é demasiado socrático para o meu sensível paladar. É que para ter o nível de falta de vergonha de sócrates de imitação, mais valia termos continuado com o sócrates verdadeiro. Eu, nos políticos como nas carteiras, prefiro sempre o original.

Um par improvável (ou: regressando a coisas interessantes)

Já andei a publicitar isto noutros lados, mas seria um crime de, sei lá, genocídio literário não o partilhar também aqui. Mundo (ou, como sou obrigada a dizer quando tenho de apresentar as crianças cá em casa, ‘senhoras e senhores, meninas e meninos, bebezinhas e bebezinhos’ – e isto apesar de eu ser a única xx neste lar): apresento-vos Adam Smith ao encontro de Jane Austen. Confesso que não entendi as relações que se podem estabelecer entre A Teoria dos Sentimentos Morais e os livros da Jane. As heroínas dos seus livros (tirando Emma Wodehouse) são todas umas destituídas da vida que querem, mais que tudo, casar com um homem rico. E casam. Por amor, evidentemente, ou não fossem romances jorgianos ‘by a lady’ (que foi como inicialmente se publicaram). Também se pode dar o caso de ser mais um exemplo daquela descrição da aristocracia britânica que a Nancy Mitford faz no Noblesse Oblige, com encantadora parcialidade: os aristocratas britâncicos costumam casar com quem estão apaixonados e calha que se apaixonem por pessoas ricas. Mas, lá está, a Lizzie (do Pride and Prejudice) só começa a perceber (e a apaixonar-se) por Mr Darcy depois de ver Pemberley – i.e., de perceber quão rico Mr Darcy era. E a Fanny de Mansfield Park, quando volta a casa dos seus pouco abonados pais, depois de viver com os tios ricos, também conclui que há grandes incómodos na falta de dinheiro.

Claro que para redimir tanto amor pelo vil metal, lá temos a Lizzie que recusa as propostas de casamento de Mr Collins (o herdeiro da propriedade do seu pai) e de Mr Darcy, sabendo que este é rico mesmo que não saiba quão rico. E a Elinor de Sense and Sensibility também não se incomoda que o seu Edward Ferrars perca a sua herança para poderem ter o seu felizes para sempre. (E a própria Jane Austen recusou pelo menos uma proposta de casamento, sendo que tinha ainda menos dinheiro do que as suas heroínas.)

Mas isto não interessa nada, só quem tem a mania de ser crítico literário mas não percebe patavina do assunto pode desgostar de ler sobre Jane Austen e Adam Smith, emparceirados ou não. Em todo o caso, este texto foi motivo para arrumar as estantes. A Jane Austen estava ao lado da Nancy Mirford, do Evelyn Waugh, do Thackeray, do Dickens (e dos livros do Harry Potter) e A Riqueza das Nações e A Teoria dos Sentimentos Morais estavam perdidos no meio dos livros de Economia. Finalmente estão reunidos.

Crime e castigo. Ou, se quiserem, chamem-lhe karma.

1. Por estes dias houve um fartote anti-acionistas e anti-investidores que um observador desatento terá pensado provir do PCP. Mas não, veio da áera política do governo, supostamente de direita. E se pensam que este enjoo e desprezo pelas pessoas que são capazes de investir e de arriscar, que caiu que nem ginjas no país pequenino, invejoso, avesso ao risco e que não suporta o sucesso alheio que somos, proveniente da áera política onde era suposto estas pessoas serem valorizadas, não vai sair cara, desenganem-se.

Nos últimos dias houve uma radical atualização dos dicionários. ‘Acionista’ passou a significar ‘criaturas imorais que querem ganhar dinheiro à conta da especulação financeira, desprovidas de qualquer noção de prudência, ignorantes e imbecis que não se informam sobre as empresas onde investem e, simultaneamente, ignorantes e imbecis por se informarem e aceitarem como boa a informação de reguladores e governo que são quem tem a melhor informação; ainda: gente que merece tudo de mal e é bem feita que regulador lhes tenha mentido para aprenderem a não se julgarem melhores do que os outros e capazes de arriscar e ganhar dinheiro’.

Poupanças, em vez de significar a proção do rendimento com que as famílias ficam depois das suas despesas de consumo, passou a significar não sei bem o quê, talvez umas notas que se enfiam numa peúgas velhas e se escondem num fundo de cómoda, porque o dinheiro que se gasta na compra de ações não é ‘poupanças’ – será certamente proveniente de transferências interplanetárias de marcianos bondosos.

Posto isto tudo, pergunta 1: Portugal (e pelos vistos a UE ao assumir o modelo BES para salvar bancos) tornou a compra de ações de bancos um negócio mais arriscado (e dos outros setores também, porque se intitucionalizou a arbitrariedade estatal e a expropiração como princípio de governo). Logo, os investidores só vão aplicar as suas tais transferências interplanetárias se a rentabilidade esperada tiver também aumentado. Julgam que isto não vai – mesmo depois dos mercado acalmarem do choque BES – tornar mais difícil a capitalização dos bancos?

Pergunta 2: acham que o dinheiro que os investidores aceitam alocar à compra de ações de um banco (tornando-se assim acionistas, essa gente moralmente viciada que joga na bolsa e que Ribeiro e Castro certamente também reprovará) não influencia decisivamente a capacidade dos bancos de financiar a economia? Aquela coisa que é necessária para o crescimento económico?

Continuem a destratar e a desvalorizar como se destrata e desvaloriza em Portugal – e nos últimos dias se exponenciou, e à direita – quem tem capacidade e vontade de investir e depois queixem-se. Continuem a pensar que quem tem dinheiro para investir fica cá a insistir que os deixem investir e a pedir que os tratem bem e que gostem deles, em vez pegar as poupanças/transferências interplanetárias e as investir onde estas sejam bem acolhidas, e depois espantem-se com o resultado que andam a cozinhar.

2. A solução da semana passada foi a melhor ou, sequer, a possível para os cidadãos como um todo? Não sei. Sei que não confio em Carlos Costa, nem em Maria Luís Albuquerque nem em Passos Coelho. O primeiro está a ver se se escapa da imagem de incompetência, incúria, negligência, etc. que adotou nos últimos tempos face ao BES. Os segundos estão a tratar da sua imagem política e são tolos o suficiente para julgarem que uma expropriação lhes trará votos à esquerda, e para confiarem que a imagem de implacáveis lhes ganhará o apreço dos eleitores. E todos enganaram os mercados – e os cidadãos – sobre a situação do BES.

salmão(A imagem é da próxima encarnação do trio maravilha do parágrafo acima: salmões de aquacultura.)

O estado está demasiado ocupado para poder vigiar bancos

O meu texto de hoje no Observador, surripiando histórias ao Helder.

‘Há dois organismos estatais pelos quais eu nutro um amor desmedido: a ASAE e a Autoridade para as Condições de Trabalho. São duas ‘autoridades’ (só o nome incita à rebelião) dedicadas à mais nobre função do estado português: multar empresas – mesmo (ou sobretudo) quando as empresas não têm comportamentos lesivos para consumidores ou trabalhadores. Manda a seriedade dizer aqui que por ‘comportamentos lesivos’ não estou a considerar a definição de ‘lesivo’ do estalinista médio, para quem a mera existência de empresas e consumidores já é lesiva.

Para ilustrar a ASAE socorro-me de casos que o blogger Helder Ferreira contou sobre clientes seus que foram multados aos milhares de euros. Os pecados fulminantemente mortais? As etiquetas do preço de umas carteiras estavam dentro das próprias carteiras, um sinal de proibido fumar estava pousado num móvel em vez de afixado na parede e óculos exibidos num expositor fechado cuja etiqueta com o preço (são pequeninas) não era visível fora do expositor.’

O resto está aqui.