Mais coisas abrilistas

cravos roxos

Pegando nas deixas do Bruno (grande texto, Bruno) e do Carlos, ainda venho aqui dizer mais umas coisas sobre o 25 de abril, as celebrações (aqui da minha janela, posso informar, oiço festa animada) e mais umas coisas. Percebo a posição do Carlos, mas parece-me bastante inútil discutir o que poderia ter sido, desde logo porque ninguém pode prever se a ditadura teria uma agonia lenta de umas décadas, se haveria transição inteligente e programada, se outro golpe (ou o que existiu) terminaria em combates violentos, com mortos, feridos, e tudo o mais a que fins violentos de regimes violentos têm direito. Por isso, para mim, faz sentido celebrar o 25 de abril como a data que findou uma ditadura que eu, felizmente, não vivi. Mas já não vejo razões para celebrar – e o Carlos tem razão, não se pode apagar as tentativas de assassinato à nossa sempre débil economia dos desvarios gonçalvistas e afins – a democracia que foi criada. Porque esta é, na minha opinião, disfuncional e doentia (e não apenas pelos párias políticos que são as pessoas de direita ou pela existência de donos da democracia).

E aqui viro-me para o texto do Bruno. Como referiu, têm saído nos jornais estudos de opinião que dão a conhecer a desilusão dos portugueses com a democracia. O Bruno diz que já não fica mal por dizer mal de quem lhe apetece, mas eu tendo a concordar com as percentagens de desiludidos. Claro que houve enormes melhorias no nível de vida desde 74, e só por má fé ou distração isso não é reconhecido. Mas tal como não foi devido aos bonitos olhos da política salazarista que Portugal cresceu durante anos do Estado Novo, também não é à democracia que se deve o crescimento pós 25 de abril; este ocorreria com qualquer regime. E é a prosperidade económica, não a CRP ou o conselho de revolução, que permitem o acesso da generalidade da população a cuidados de saúde ou a redução do analfabetismo e o alargamento da escolaridade. Também se agradece a este crescimento económico (diretamente e via o que está na frase anterior) uma maior mobilidade social. E foram o crescimento económico (mais uma vez) e a abertura de fronteiras e a entrada e saída de portugueses e estrangeiros que curou (mas não totalmente) o país do provicianismo. Aqui discordo novamente do Carlos: acho que Portugal, apesar de tudo e dos 3 resgates do FMI em 40 anos – mas lembremo-nos que antes da criatura socrática a dívida pública andava na casa dos 60% do PIB -, fez um bom progresso em termos de desenvolvimento económico. Já politicamente, acho que falhámos em grande.

Sim, cumprimos os mínimos: há eleições; os governos, depois de as perderem, não costumam fazer reféns no Palácio de São Bento e recusarem-se a abandoná-lo; há liberdade de expressão e pluralidade de opiniões (e para esta muito contribuiu a blogosfera). Mas para além de mínimos, é uma democracia deficiente. (Aqui aproveito para dizer que entendo ainda menos a direita que gosta de celebrar o 25 de Novembro, porque este apenas nos legou a tal da democracia disfuncional, enquanto o 25 de abril pelo menos acabou com um regime intragável.) Temos uma democracia montada para espoliar as gerações que nasceram nos anos 70 (mercado laboral blindado por tanta rigidez, segurança social para a qual contribuimos compulsivamente e em crescendo e da qual não usufruiremos,…) em benefício das gerações daqueles que eram jovens adultos no 25 de abril e gerações anteriores. Temos uma justiça (e os tribunais são um órgão de soberania) que é a todos os títulos uma vergonha nacional, com juízes que – protegidos pela constituição da nossa estimável democracia – teimam em atropelar a separação de poderes, decidindo desde traçados de estrada à política orçamental, passando pela venda de quadros de um pintor estrangeiro. Esta questão das ambições expansionistas de juízes e magistrados é preocupante, porque temos tido de facto pessoas a tomarem decisões políticas sem para isso terem sido eleitas e sem se submeterem ao escrutínio da AR, da comunicação social e dos eleitores. Cenário pouco democrático, não? Temos uma democracia que, além de nos oferecer partidos políticos e personalidades sombrias reclamando que as suas opiniões valem mais do que a contagem dos votos, nos brindou há poucos anos com um presidente da república que terminou uma legislatura de um governo apoiado por uma maioria absoluta no parlamento, pela razão pueril de não gostar do pm que havia empossado meses antes. (E logo a seguir veio a fava sócrates, voltemos a lembrar).

Não sei se nos anos seguintes a 74 se poderia ter feito muito melhor, que as transições para as democracias também não vêem com manual de instruções. Mas sei que muitas distorções da nossa democracia já poderiam ter sido corrigidas nestes 40 anos e não o foram devido à perniciosa influência política das personalidades que se fizeram politicamente com o 25 de abril (incluindo os militares). Sei também que a esquerda, mesmo a não totalmente lunática (o PS), tem sido um fator de perpetuação das disfunções da democracia.

Por isso, quem tem razão é o Vítor Cunha. O que de bom existe na democracia portuguesa deve-se aos cidadãos, a nós, não àqueles que quando fizeram o 25 de abril não perceberam que não teriam mais importância do que as eleições. Portanto: bom 25 de abril, o nosso, que eu também não faço questão nenhuma de celebrar com certas pessoas.

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Perguntas abrilistas

Há ironias: na semana em que se celebram os 40 anos do 25 de abril – e que só por coincidência, e porque os revoltosos e os dissidentes do Estado Novo e restante parafernália humana com que somos brindados a cada 25 de abril não se aperceberam que o povo que julgaram conhecer os mandaria dar uma grande volta, é coincidente com o início do processo de democratização do país – lá fomos brindados com o ranço de Freitas do Amaral. E esta coisa da democracia anormal que os paizinhos da revolução criaram onde só é moralmente aceitável ser esquerda ou, nos momentos de maior ousadia, de centro, ou onde se usa como insulto político dizer que um governo ‘é o mais à direita’ (assumindo-se, portanto, que é um insulto dizer-se de alguém que é de direita), irrita-me.

Há quem se escandalize com a falta de vergonha de Freitas do Amaral ao presumir equiparar a situação atual (mesmo depois de 3 anos de crise e 15 anos de políticas expansionistas ao gosto do PS que tiveram como resultado a estagnação económica) à de antes de 74. Eu penso que foi ao contrário: queria, isso sim, equiparar a situação do regime ditatorial que serviu (sem que se lhe conheçam rasgos de indignação pela pobreza generalizada do país nesses anos, ou supressão de direitos políticos, censura, entre outros) à situação atual; queria desculpar-se do seu passado, portanto, e, de caminho, desculpar o regime ditatorial.

E como nestas alturas do 25 de abril temos sempre de levar com as tentativas da esquerda de reclamar a propriedade da democracia e de lembrar à ‘direita’ o seu pecado original, que tem obrigação de expiar – mesmo quem não teve nada a ver com o Estado Novo, ou nem viveu esses tempos, e sabendo que, por muito que faça, o pecado original nunca será, aos olhos dos donos da democracia, devidamente expiado – há que questionar o que se impõe.

Sou só eu que acho estranho que as figuretas dos tempos da ditadura que continuaram com vida política tenham terminado todas associadas ao PS? (Adriano Moreira não se associou oficialmente, mas tudo o que diz e escreve é socialismo reluzente.) Das duas uma: ou isto diz alguma coisa estranha do PS ou desmente a pertença à ‘direita’ da ideologia do Estado Novo.

Índia (a Índia do planeta Darkover, certo?)

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Tenho gostado de ler A Batalha, que nos dá informações do que por aí se passa em tom de blogue bem conseguido (dois exemplos). Mas hoje dei com um texto hilariante sobre a Índia (ou sobre Goa, ou o que o autor acha que é e deveria ser Goa, ou sobre as várias supostas traições dos portugueses a Goa, é escolher).

O texto tem tanto de caricato que, por economia de post, não posso ir a todas. Começo por fazer uma declaração de interesses sobre a Índia. Estive lá umas tantas vezes em trabalho, uma dessas vezes fiquei lá (incluindo em Goa) mais umas duas semanas de férias. (Não sou, portanto, uma grande conhecedora da Índia; mas, neste caso, sou quanto baste). Rio às garagalhadas sempre que oiço alguém referir-se à Índia como ‘a maior democracia mundial’, agonia-me a forma como as mulheres são (mal)tratadas por lá, a pobreza da Índia é algo brutal e abjeto e antipatizo com o hinduísmo (que sustenta coisas como as castas e os abusos às mulheres). Considero que os meus amigos que vêem da Índia com conversas sobre a felicidade geral da população para além dos bens materiais, as cores dos saris e tretas semelhantes, uns alucinados. (Qualquer boa pessoa que vai à Índia só pode sair de lá com uma depressão). Detestava ter de fazer a profilaxia da malária e, de cada vez que lá ia (e ficava apenas um dia e meio) tinha como momento redentor da viagem aquele em que entrava no avião da Lufthansa, companhia com a qual, devido a tirar-me da Índia, desenvolvi uma relação muito afetuosa. Podia continuar, mas parece-me que já está claro que nada do que vou escrever é uma defesa da Índia. (Que sim, tem o Taj Mahal e outros edifícios lindos de morrer, e adoro os tecidos indianos, os móveis indianos, as jóias de prata com pedras coloridas, e a generalidade dos artesanatos indianos. Além de que gosto muito de alguns indianos.)

Regressando ao texto, não vou debater se a presença portuguesa na Índia foi colonialismo ou não, nem o facto de não se perceber o que reclama Luís Pistola ou o que tem a ver com as frases que cozinhou a exposição no Museu Nacional de Arte Antiga. Menos ainda o caso BNU ou se há ou não em Goa um sentimento generalizado de procura da independência face à União Indiana ou as causas da riqueza relativa goesa.

Diz o autor do texto coisas fabulosas. Por exemplo, pergunta: ‘De que tem medo o gigante indiano quando ainda hoje, volvidos mais de 50 anos da ocupação, teme e treme a cultura goesa, procurando indianizá-la a todo o custo, dificultando a difusão do português e do modo singular de viver lusitanamente na Índia?’ Eu, quando estive em Goa devo ter tido azar, porque não encontrei – e até tentei – uma única alma que proferisse a vontade de ‘viver lusitanamente’ (e que raio quer dizer isto?) ou de aprender português (e para que quereriam os goeses aprender português, a língua de um país com que nada têm a ver, quando há tantas outras línguas mais úteis para aprenderem?). O azar foi tanto que nem sequer houve quem se entusiasmasse (já nem se pedia que mostrasse saudades ou evidenciasse o amor que os goeses ‘sempre nos tiveram’) pelo facto de eu me identificar como portuguesa. E se em Goa os miúdos jogam futebol (em vez de críquete, como no resto da Índia), há muitas mulheres que se vestem com os vestidos que se usavam em Portugal há 50 anos, em vez de com saris, e a pobreza não é tão opressiva, se há coisa que se percebe é que aquela terra é infinitamente mais indiana do que portuguesa e só quem lá vai com palas carregadas de preconceitos não o vê. Quanto aos monumentos que a presença portuguesa por lá deixou, o que achei mais curioso foi o desapego que os goeses lhes tinham – ao contrário do que se passa no resto da Índia, onde os monumentos costumam estar apinhados de indianos (os bilhetes para nacionais que são para aí um décimo do valor do cobrado aos estrangeiros).

No texto também se compara a atitude da União Indiana para com Goa com a da China com os macaenses. Aqui estranho que não tenha havido também comparação com a relação de Portugal com a cidade de Santarém, já que entre Goa e Macau, e a forma da presença portuguesa em ambas, são tantas as diferenças que só por ignorância se pode estabelecer comparação. (Digo também que sou muito parcial para com a China e que a ‘ditatorial’ China tem liberdades de que eu gosto – poder andar de minissaia e alcinhas na rua, poder namorar na rua,… – que a ‘democrática’ Índia nem está perto de ter.)

A minha parte preferida é esta: a da ‘Índia hindu unificada politicamente pelos ingleses’ (interrupção para nova gargalhada). Bom, por partes. 1) A Índia não é hindú. 15% da população é muçulmana (mais de 150 milhões de almas), uns 30 milhões são cristãos (mais do que os portugueses, sejam cristão, agnósticos, ateus, protestantes, new age, whatever), há para lá jainas, sikhs e uma panóplia de religiões tribais. A fricção religiosa é um assunto sério do país e, para quem se quiser lembrar, levou até à partição entre Índia e Paquistão e, mais tarde, à criação do Bangladesh. 2) A Índia não foi unificada politicamente pelos ingleses. Durante a época colonial britânica continuaram a existir, nuns casos apenas mais formalmente, noutros menos, os reinos dos famosos rajas e maharajas. Apenas em 1947, com a criação da União Indiana, estes reinos foram integrados no país (os monarcas negociaram a entrega da soberania dos seus territórios contra o pagamento de uma subvenção anual pelo estado indiano, que depois Indira Gandhi extinguiu). 3) A Índia é tudo menos unificada. Na verdade, na Índia o insólito é o que é normal e há uma infindade de crenças, castas, costumes locais, linguagens, atividades económicas que tornam a Índia porventura no país mais diverso e menos unificado do planeta – neste caso, a Terra. Daí que a especificidade goesa seja tudo menos extraordinária na Índia.

Para ir terminando, vou a estas frases (que ou pretendem ser enigmáticas ou estão num português pouco valorizado): ‘O mais incrível de tudo isto é que andamos continuamente a reproduzir aculturamentos estrangeirados cuja história não chega para contar um terço da nossa: Goa foi construída ao longo de quase 460 anos de cultura comum. Tomara os Estados Unidos da América poderem gabar-se de metade disso.’ Passe-se ao lado da bazófia com a longevidade da nossa história face a esses selvagens que são os norte-americanos – que é algo que, estou certa, tira o sono aos selvagens – para me questionar quem são os estrangeiros sem história que se veja que condicionam o nosso conhecimento sobre a Índia e a presença portuguesa. Os americanos não condicionam nada, e os indianos têm uma história que remonta à civilização do Vale do Indo, milénios antes da era cristã. Além de que – refira-se – a Índia era, à data em que os portugueses lá chegaram (e foi até à revolução industrial), bastante mais rica do que os países europeus.

Termino dizendo que a História portuguesa, incluindo as suas aventuras marítimas, é assombrosa. (Incluindo também os projetos que falhámos, que, como diriam os selvagens americanos que não têm história e não percebem patavina, desonra é não tentar, não é falhar.) Não merece as tonterias ‘nós somos os melhores do mundo e todos os povos que governámos nos amam’. Os indianos divinizaram as personagens do Mahabharata e do Ramayana; há quem queira divinizar os portugueses dos tempos dos descobrimentos. Mas fazem mal: como deuses seriam medíocres, como homens poderão ter sido admiráveis.

???????????????????????????????(As imagens foram escolhidas para dar ideia de como a arte indo-portuguesa é muito mais sumptuosa do que a arte indiana – num exemplo de arte particularmente hindu de um império que mais hindu não podia ser. De facto não se entende como os artífices indianos escolhem dedicar-se à arte indiana em vez de à arte produzida em Goa.)

Sufocar (e tirar o escalpe e mais umas coisas) ao lisboeta

O meu texto de hoje no Diário Económico, à volta da última ideia da luminária António Costa, nosso estimado presidente de câmara, que quer tornar a vida em Lisboa – para os residentes e para os que cá têm de trabalhar – muito mais penosa. (O que, em boa verdade, tem sido o seu programa municipal). E alguém me explica a que propósito o CDS sanciona esta ideia de municipalizar a gestão dos transportes públicos em vez de a privatizar?

«António Costa é presidente (há seis anos) da câmara municipal mais endividada do país, notabilizando-se Lisboa por buracos não tapados, alterações de trânsito que visam infernizar a vida a quem tem de andar de carro, obras intermináveis (Ribeira das Naus) temporariamente dadas como terminadas por altura das eleições – e, ultimamente, montes de lixo não recolhido, devido à incapacidade de Costa em resolver as greves frequentes na empresa que tem a cargo a recolha e queima do lixo lisboeta.

Foi, ainda, ministro de um sector cujo funcionamento é unanimemente considerado um factor de atraso do país: a Justiça. É, também, alguém que profissionalmente sempre gravitou na esfera política e que, se um dia deixar esta actividade, irá para uma grande empresa que necessite de quem tenha os conhecimentos certos nos partidos de governo. Há quem considere este CV desejável num pm ou até num presidente. Eu discordo. E tremo de pavor sempre que me apercebo que Costa foi iluminado por nova ideia. Desta vez é a ideia da CML concorrer às concessões a privados da gestão da Carris e do Metro de Lisboa, e é uma ideia calamitosa.

A entrega da gestão destes transportes públicos a privados tem como vantagem a gestão mais eficiente (como em todas as empresas que foram privatizadas), controle de custos mais racional, gestores nomeados por mérito em vez de por proximidade política e impraticabilidade das greves quase contínuas que se têm visto nos transportes públicos lisboetas. A entrega das duas concessões à CML garante que nenhuma das vantagens se verifique.

Mas o pior da ideia de Costa não é, sequer, isso.»

O ‘pior’ – e é um pior catastrófico – está explicado aqui.

A minha reeducação está a dar frutos

O João Villalobos reagiu à bela prosa do presidente do sindicato dos estivadores. Obviamente o João, certamente eivado de contaminações empresariais, não foi capaz de apreciar o convincente argumentário do sindicalista. Dou alguns exemplos. Logo de início se entende bem que o sindicalista tem uma legitimidade democrática muito superior à do pm, afinal foi eleito diretamente pelos votos de 400 pessoas. Também é de cristalina evidência que, de facto, o pm ‘está agarrado ao poder’. Eu, antes da epifania provocada pela correspondência sindical aberta, estava convencida que o que atribuía legitimidade democrática a um governo era ser sustentado por uma maioria na AR democraticamente eleita. E que, nas democracias normais, um governo governa durante o tempo que intermeia entre eleições e que a vontade expressa em votos pelos eleitores conta mais do que, sei lá, birras de sindicalistas eleitos por 400 estivadores. Mas não. Claro que o pm está agarrado ao poder. Também me parece muito bonita a declaração de que o autor epistolar se preocupa com ‘as pessoas’, enquanto o malvado pm se preocupa com ‘as empresas’. Eu, no meu ser anterior não-esclarecido, pensava que ‘as pessoas’ viviam bastante mal nas sociedades onde não existem ‘as empresas’ e que, nas sociedades onde benevolentemente as empresas são deixadas existir, ‘as empresas’ são constituidas por ‘as pessoas’ (e, até ver, mesmo aqueles que contribuem para as empresas com o capital são também ‘pessoas’); em suma, costumava considerar que o bem de ‘as empresas’ e ‘as pessoas’ se interligava; que, por exemplo, a falência de uma empresa não costuma deixar deleitado de felicidade quem lá trabalhava. Mas agora, at long last, vejo que as duas realidades são mutuamente exclusivas.

Confesso que (talvez seja o mesmo mal que aflige o João) ainda me resta alguma desconfiança perante o sindicalista epistolar. Não é à toa que o discurso da falta de legitimidade do governo vem de setores afetos ao PCP. Ora pois; dos setores que têm um entendimento peculiar do que é uma democracia, o bem-comum ou a liberdade de expressão – que nos países onde a ideologia do sindicalista epistolar vigorou não se costumava tolerar estas saudáveis cartas abertas aos governantes. Ainda há um pedacinho não-esclarecido de mim que tem vontade de, segundo as palavras do filósofo sócrates, dizer ao sindicalista epistolar para ir dar lições de moral à tia.

Sou claramente uma criançofóbica 2

O João Miguel Tavares quer polemizar comigo e eu quero polemizar com o João Miguel. (Em ritmo lento do meu lado, que eu tenho a criançada de férias e pouco tempo disponível.) Tanto o João Miguel como eu queremos poder levar a criançada a restaurantes (que não de fast food) e a hoteis – e pela amostra que tive as crianças do João Miguel têm um nível de produção de ruído semelhante ao das minhas crianças (que quando surgiu este duelo entre o João Miguel e a Pipoca Mais Doce houve quem no facebook tentasse vender a ideia ‘os meus filhos portam-se sempre impecavelmente e não incomodam absolutamente ninguém’ e foram devidamente objeto do meu escárnio, tudo em prol da defesa da minha causa primeira – desde esse dia -, a saber o direito das crianças se portarem como crianças.) (Isto porque agora há quem se intitule ‘ativista pelos direitos humanos’ porque defendeu determinada minoria e eu ando a ver se também encontro maneira de ser ativista de alguma coisa igualmente pedante. Com a quantidade de vezes que eu já fui insolente para com os seguidores de Muhammad, à conta dos maus tratos às mulheres nos países e nas comunidades muçulmanas, juntando agora esta coisa das crianças e arranjando alguma etnia chinesa em apuros para ajudar, parece-me que posso já mandar imprimir cartões de visita com ‘Maria João Marques, ativista pelos direitos humanos’. Bom, regressando ao tema.)

Divergimos num ponto: o João Miguel acha que só consegue ir a restaurantes, enfim, normais, e passar férias e fins de semana em hoteis porque a lei obriga os restaurantes e os hoteis a aceitarem crianças; e eu acho que os restaurantes e os hoteis aceitam crianças porque os pais querem levar os filhos a almoçar e a jantar fora, e querem passar férias e fins de semana com os filhos e hoteis e restaurantes ficariam com poucos clientes se apenas restringissem os seus potenciais clientes a grupos de adultos; mas como felizmente procuram o vil lucro, aproveitam todas as oportunidades para vender os seus serviços. As famílias com crianças são um grande mercado e os proprietários e gestores de hoteis e restaurantes têm noção disso. Se os restaurantes não quisessem receber crianças, não teriam cadeirinhas para elas, estabeleceriam um consumo mínimo para quem ocupasse lugar à mesa, não criariam menus infantis,… E os hoteis, então, se quisessem enxotar crianças teriam boas soluções: camas de bebé e camas extra caríssimas, alimentação de crianças ao mesmo preço da dos adultos (e nada de oferecer pizzas e lasanhas e outras coisas de que as crianças costumam gostar; tudo nouvelle cuisine e com ingredientes estranhos, de propósito para desagradar aos palatos infantis), nada de kids clubs nem de animadores de crianças para quando os pais quiserem estar um bocadinho sossegados, nada de escorregas e baloiços e piscina para crianças, enfim, nada que se destinasse ao entretenimento e bem-estar das pestinhas abaixo da adolescência. Curiosamente, a grande maioria dos hoteis é concebida, desde os projetos de arquitetura, para acolher crianças. E, para vender quartos, com frequência fazem promoções em que não cobram diária às crianças menores de x anos, não cobram por camas de bebé ou por camas extra, não cobram pela alimentação de crianças pequenas, e um largo etc. de promoções com a finalidade de atrair famílias com crianças. Porque se não acolhessem crianças, e porque as famílias costumam levar os filhos para as férias, em vez de para hoteis iriam para apartamentos ou casas ou o que fosse onde uma família pudesse passar as férias junta. De resto, esta epidemia empresarial que teima em atrair famílias com crianças não atinge apenas hoteis e restaurantes, anda a minar toda a economia. Há grandes centros comerciais, só para dar um exemplo, que orientam todo o seu markting para captar as famílias com crianças, oferecendo atividades gratuitas destinadas às pequenas pestes.

E esta coisa do mercado funciona tão bem que o único hotel em Portugal, que eu tenha conhecimento, que não aceita crianças até 3 anos – um hotel no vale do Douro, que é (não admito discussão) a zona mais bonita de Portugal e onde eu vou (à zona, não ao hotel porque, lá está, não aceita crianças pequenas) sempre que consigo – está (ou esteve, ainda há pouco tempo) com grandes dificuldades financeiras, apesar de o Turismo ser um setor que tem florescido. Claro que as dificuldades poderão dever-se a muitos outros fatores, mas não deixa de ser uma coincidência curiosa. Já restaurantes nunca encontrei nenhum que recusasse crianças, ainda que conheça vários cujo ambiente é propício a tudo menos a refeições com crianças pequenas.

Em suma, enquanto as famílias quiserem levar crianças para hoteis e restaurantes, haverá hoteis e restaurantes que aceitam crianças. Pelo melhor motivo de todos (não, não é cumprir a lei): as empresas, para sobreviverem e prosperarem, fazem por agradar aos clientes. E se o mercado resolve – e bem, porque incorporando as decisões livres de consumidores, empresários e gestores – o problema, então o legislador só tem de ficar quieto e não incomodar.

sócrates está mesmo a querer vender a ideia de que foi ele que quis a troika?!

bohlwinkel2Não vi o último programa de sócrates – já bem me custou ver o de há 15 dias, que se há coisa com que eu sou seletiva é com o tempo que gasto com tarefas e pessoas; pelo que li, o senhor comentador filósofo disse que o resgate da troika foi pedido não por necessidade, mas ‘por prudência’.

Mas que estranho. A pessoa que tanto acusava a oposição, antes de Abril de 2011, de querer o FMI por cá, esbracejando que isso seria uma clamorosa perda de face para Portugal, significaria anos sem acesso aos mercados dos bonds e que, segundo os seus defensores, lutou até ao fim para evitar um resgate financeiro internacional, afinal não recorreu a uma solução extrema como pedir esse mesmo resgate internacional apenas quando não teve outras alternativas menos dolorosas? afinal recorreu à solução que considerava calamitosa apenas ‘por prudência’? o pm que afirmou que reduziu o ordenado aos funcionários públicos por não ter mais soluções foi o mesmo pm que pediu ajuda à troika sem estar com a corda a pressionar o pescoço? então a troika, segundo sócrates, não foi o último recurso, foi, sim, uma opção sua, havendo outras, é isso? na verdade não tínhamos necessidade absoluta de um resgate internacional, mas sócrates achou por bem moldar a têmpera aos portugueses obrigando-nos a suportar todos os sacrifícios a que teríamos direito se precisássemos efetivamente do resgate – estou a perceber bem a argumentação?

Até aqui o argumentário – que tinha pelo menos algum mérito – era o da inevitabilidade da intervenção da troika depois da reprovação na AR do PEC4 (ocorrida por ser a última oportunidade de Passos Coelho vir a ser primeiro-ministro). É certo nem essa argumentação, no fundo, isenta de culpas o governo PS. Afinal foi o governo socrático que levou à necessidade do PEC4 e que falhou todos os PEC anteriores, bem como havia falhado desde 2006 qualquer redução do défice que não fosse feita através de aumentos de impostos. Mas pelo menos era uma maneira inteligente de partilhar as culpas. Agora, pelos vistos, não, sócrates não faliu o país, não estivemos à beira de não pagar salários e pensões, não houve traição de Teixeira dos Santos, lá agora, sócrates é que foi prudente devido ao risco de os mercados não quererem comprar os nossos títulos de dívida pública. E o risco, claro está, deveu-se todo, todinho, à crise financeira de 2008, e à crise das dívidas soberanas e do euro, não teve nada, nadinha, a ver com as contas públicas do tempo socrático.

Os estrategas para a campanha presidencial socrática lá saberão, mas eu diria que a argumentação ‘nós chamámos o FMI [e o mesmo é dizer 'vocês estão a ser saqueados pelo fisco, desempregados, com apoios sociais mais reduzidos,...'] sem estrita necessidade’ não é substancialmente melhor do que a evidência ‘nós levámos o país à falência e não tivemos outra solução se não chamar o FMI’.

bohlwinkel3(As imagens são do banqueiro Bohlwinkel, da Estrela Misteriosa, uma boa face para esses mercados malévolos, compostos por pessoas ruins entregues de alma e coração à causa do empobrecimento generalizado das populações, que provocaram tão curiosa ‘prudência’ em sócrates. E para mostrar como sócrates pode bem com os mercados, e lhes dá lições, a última imagem ilustra como os mercados ficam amedrontados sempre que alguém do gabarito de sócrates lida com eles.)

Sou claramente uma criançofóbica.

Eu começo por apresentar o meu protesto pela sucessão vertiginosa de assuntos que envolvem a criançada que têm aparecido nos blogues e jornais, nem dando tempo para uma mãe com compulsão opinativa vir aqui dizer de sua justiça.

Começando pelo mais recente. Daniel Oliveira escreve outro texto exemplar (isto começa a ser preocupante) sobre a mania irresponsável de muitos pais recusarem vacinar os filhos e do ressurgimento de doenças a que isso tem levado (ainda há pouco tempo houve um surto de sarampo em Nova Iorque). De facto este é um assunto que está na fronteira entre aquilo que deve ser a proteção do estado às crianças e o espaço de decisão dos pais no que aos filhos diz respeito e aceito que as opiniões sejam diferentes. Eu estou pela obrigatoriedade da vacinação. Não tanto pelos benefícios coletivos que isso traz, mas pela proteção às crianças. E não vejo que isto belisque o liberalismo; os pais não devem poder tomar decisões que sejam altamente lesivas para os seus filhos, como é claramente o caso da recusa da vacinação. Por muito elitistas que sejam, não deve ser permitido aos pais pôr deliberadamente em risco a saúde dos filhos.

Agora a polémica que opôs o João Miguel Tavares à Pipoca Mais Doce, com contributo da Inês Teotónio Pereira. E estou do lado da Pipoca. Mas claro que os hoteis devem poder não aceitar crianças, segundo a sua política comercial. Tal como devem poder aceitar só casais (há muitos hoteis por esse mundo fora que estão especializados em férias românticas e não aceitam pessoas sozinhas, nem trios, nem, lá está, crianças, só mesmo casais). E o mesmo digo para restaurantes. Imaginem um restaurante que se especializa em despedidas de solteira e só aceita grupos de mulheres para lá tomarem as suas refeições. Também não pode? Tem de aceitar homens e crianças? Tal como há hoteis que se especializam em férias (ou fins de semana) para pessoas com mais de 15 anos e, por isso, não aceitam crianças, também os há – e em muito maior número – que se destinam ao imenso mercado das famílias. Não estamos propriamente num cenário em que os pobres pais não conseguem encontrar um hotel que acolha os seus rebentos. Temos mesmo de começar com conversa de discriminação à conta disto? E porque paramos nos hoteis? Ou nos restaurantes? Porque não aplicar esta mania não-discriminatória a tudo? Por exemplo um spa. Tendo as vantagens das massagens para bebés sido bastante difundidas nos últimos anos, fica claro que um spa não se pode destinar apenas a tratamentos de bem-estar para adultos; é obrigatório que faça massagens a crianças. Um spa geralmente tem um ambiente relaxado e silencioso que combina mal com o barulho dos bebés? Pois temos pena, discriminar os bebés é que não pode ser. E as residências para idosos que têm aparecido pelo país? Presumo que qualquer lar de terceira idade deva ser obrigado a aceitar um rapaz de 40 anos de boa saúde que lá queira passar uma temporada, não? E uma loja de roupa? Porque diabo uma loja de roupa de crianças pode existir nas versões atuais? Ficamos quedos perante esta discriminação de adultos? E os cabeleireiros para adultos onde nāo há quem saiba cortar o cabelo a crianças irrequietas? É fechar. E aquelas fotógrafas que se especializam em grávidas e discriminam as restantes mulheres? Inaceitável.  Mais uma – esta tem muito potencial fraturante -, e as lojas de roupa feminina que só têm números para mulheres magras?

O passo lógico a seguir a isto tudo? Registar na constituição como direito fundamental a dormida em hoteis, idas aos spas e aos restaurantes e por aí fora.  E fazer um pronunciamento de inconstitucionalidade para as orientaçōes comerciais das empresas que se destinam a nichos de mercado. Em Portugal, uma empresa ou serve toda a gente ou vá para países amigos da discriminaçāo comercial (e do bom senso).

O mundo – e a política – são maiores do que o quarto

O texto do Daniel Oliveira (a que cheguei através do facebook do Bruno Mascarenhas Garcia) é o que de mais inteligente se escreveu sobre estes outings que apareceram a seguir à votação da coadoção em casais do mesmo sexo. Porque a estupidez destes outings não reside apenas nas questões da privacidade. Reside também naquilo que Daniel Oliveira constata: lá por se ser homossexual não se tem de ter determinada opinião política e as pessoas não se definem (na política e em tudo o resto) exclusivamente pela sexualidade. E mais: era o que faltava alguém ter a obrigação de andar a declarar publicamente a sua orientação sexual, sob pena de acusação de hipocrisia ou de cobardia se não o fizer, como se ser homossexual tornasse um indivíduo devedor a outros que com ele partilham a orientação sexual. Não aceitar isto é, de facto, uma perseguição aos homossexuais.

O legislador sociopata, parte 324ª

Há uns tempos, a propósito do cinema Londres, o André notava o absurdo de um grupo de pessoas se juntar para discutir o futuro de determinado espaço, sendo que nem o proprietário nem o arrendatário do dito espaço participavam na discussão. De facto só num país de gente tonta se pode conceber que pessoas cuja ligação a um espaço é apenas o de viverem perto dele se sintam no direito de impedir que os seus proprietários lhe dêem o destino que bem entendem – desde que, claro, o façam dentro da legalidade.

Mas, apesar de absurdo, vivemos num país que potencia a existência destes tontos. Dou um exemplo que já se me atravessou no caminho. Imagine-se alguém que tem um imóvel com licença de utilização para determinado fim, mas só tem interessados em arrendá-lo com outro objetivo – sendo esse objetivo, evidentemente, legal, com aprovação na respetiva câmara municipal e que, até, prestaria um serviço necessário mas inexistente no local onde se localiza o imóvel disponível (e onde não há localizações alternativas para esse serviço). Mas, para fazer alteração de uma licença de utilização, é preciso que todos os proprietários do prédio onde se situa o imóvel aprovem a alteração de uso. O que, claro, é impossível, porque há pessoas que gostam de prejudicar a vida de outros sempre que para isso lhes dão poder. E, assim, temos pessoas, patrocinadas pelo legislador, a determinarem o que se faz na propriedade alheia sem que com essa propriedade tenham qualquer relação.

O problema aqui não são as pessoas – a natureza humana é o que é – mas sim o estado dar a essas pessoas este poder. Um quadro legal com decência seria aquele em que a licença de utilização – que existe para que as câmaras possam cobrar taxas pela sua emissão, apenas e só – seria sempre alterada se a alteração levasse a uma atividade legal e que não colocasse em perigo a segurança da zona. (Não se iria colocar uma fábrica que trabalhasse com produtos explosivos ou tóxicos no meio de uma área residencial, por exemplo.)

Este é o género de pormenores – que, como se sabe, é onde está o diabo – que matam negócios. É certo que o estado não se incomoda por inviabilizar negócios privados legais. Mas se pensasse no seu interesse – atualmente coincidente com arrecadar o máximo de receita fiscal – veria que também perde. Não só não cobra a licença de utilização, como não cobra IVA e IRC gerados pelo negócio cuja inviabilização permitiu, ou contribuições para a segurança social do emprego gerado, ou IRS dos rendimentos e ordenados gerados pelo negócio, ou imposto de selo, ou…

O que nos vale é que temos um governo liberal que, como toda a gente já reparou, tem estado muito ativo – fora a ação dos insurgentes que trabalham para o governo, que de facto têm sido a meritória exceção que confirma a regra – na eliminação destes disparates legislativos que não protegem nada (só alguns egos) mas exterminam negócios, postos de trabalho e – até! – receita fiscal.

Eu também quero lançar uma petição. Ou duas.

fendi baguetteAndo há uns tempos com um grave problema a afligir-me e, como penso que outras pessoas poderão padecer do mesmo mal, acho que é tempo de lançar uma petição. Eu bem esperei que o mercado funcionasse, mas os designers persistem no mesmo e os consumidores – uns papalvos que não sabem decidir por si, compram tudo o que lhes põem à frente – são uns tolos que não sabem zelar pelo bem comum. Urge, portanto, fazer uma petição contra a moda – que, refira-se, dura há já uns anos ininterruptamente, com consequências não inteiramente mensuráveis – do uso da pele de cobra em carteiras e sapatos. (Nem vou referir, para não ficar nauseada, coisas indecorosas como casacos ou saias deste material.) As pessoas snakefóbicas como eu já sofrem há anos demasiados com o convívio com a pele destes animais asquerosos em lojas supostamente respeitáveis sempre que necessitam de lá comprar alguma coisa. E nem consigo calcular o sofrimento das pessoas sensatas como eu quanto a este assunto que se vejam na contingência de trabalhar com este horrendo material – é incompreensível o silêncio dos sindicatos nesta matéria. Além do mais, os querubins celestiais que são os meus filhos têm por hábito gozar com a sua mãe devido a esta minha vulnerabilidade. Fazem questão de me apontar todas as mistelas em forma de sapatos e carteiras feitos de pele de cobra e, quando não estão devidamente ameaçados, costumam fazer a seguinte gracinha: esperam que eu esteja distraída, vêm ter comigo de braço estendido dizendo ‘Mãe, que carteira tão gira’, eu inicio o movimento para pegar no que me estão a dar, de repente vejo que é de pele de cobra e grito. (Se alguma vez viram alguém acompanhada de duas crianças a gritar numa loja de carteiras, posso ter sido eu.) E a pele de cobra, além de nojenta, apresenta-se por vezes disfarçada. Já me aconteceu, lá pela viragem do milénio, numa loja Fendi far, fare away, ter pegado numa bagette, de repente ter percebido que a asa e o fecho eram de pele de cobra e ter atirado aquele objeto pestilento para o chão. O que foi muito inconveniente, porque era muito cara. Lá por não me ter metido em despesas nessa altura não quer dizer que não venha de futuro a suceder. É um daqueles casos em que o perigo espreita. Penso, assim, que fica clara a necessidade de uma petição.

Em todo o caso, como me parece castigo excessivo para os querubins celestiais deixar-lhes a dívida pública que os governos socialistas – os do PSD-CDS, mas sobretudo do PS e, dentro destes, dos viciados em dívida socráticos – se alguém quiser fazer uma petição para colocar um limite constitucional à dívida pública (uma vez que lá está tanto disparate, algo de útil não faria diferença), I´m in. Ou uma petição que obrigue cada lei a estimar quanto vai aumentar a dívida pública – dito de outra forma, quanto vai tramar as gerações seguintes. Para algo nestes termos, contem comigo.

Laughing out very loud: crise diplomática porque se chamou fáceis às polacas

Ainda não parei de rir desde que dei há minutos com esta reação ao texto do Henrique Raposo (via Paulo Pinto Mascarenhas e, nos inícios dos inícios, o João Villalobos). Vamos lá por partes. Também não gostei do texto do Henrique. Não por causa da facilidade comparativa mas por se dizer que as portuguesas se arranjam pouco. O Henrique correu o risco de levar com um e-mail a chamar-lhe nomes ou de uma conversa com a sua mulher a encomendar-lhe uma descompustura, se não mesmo a aconselhá-la a uma greve de sexo, até que o Henrique escrevesse que as mulheres portuguesas são perfeitas, conseguem sem esforço o equlíbrio entre o elegante e o sexy e por aí adiante. Vamos por partes, e resumidamente, que tenho pouco tempo.

Alínea a. Obrigada, embaixada da Polónia. Fizeram o meu dia.

Alínea b. As mulheres são objetos sexuais. (Os homens também.) O problema não está em serem objetos sexuais. Está em serem apenas vistas e tratadas como objetos sexuais. (Tal como há problema em serem vistas e tratadas como seres assexuados existentes para darem filhos ao seu marido, à sua religião ou ao seu país.)

Alínea c. Estaremos muito mal quando os homens deixarem de ver as mulheres como objectos sexuais. (E o mesmo com os géneros ao contrário.) (Link via Ana Margarida Craveiro.)

Alínea d. É mesmo hilariante que alguém acuse o Henrique – que, refira-se, não fez qualquer juízo negativo sobre as polacas – de sexismo ao mesmo tempo que se empenha em defender a virtude sexual das mulheres do seu país. Bye bye revolução sexual.

Alínea e. Se a diplomacia portuguesa alguma vez se deparar com acusações de facilidade às mulheres portuguesas, façam-me o favor de não gastarem o dinheiro dos contribuintes com reações a isso.

Acrescento ali para a alínea d: estão mesmo a ver que, se alguma cronista de um jornal de referência escrevesse que os polacos são uns garanhões sempre prontos a satisfazer o mulherio, a embaixada da Polónia também reagiria do mesmo modo, não estão?

Há gente a quem foi lido, em pequena, o 1984 em vez da Branca de Neve

No verão do ano passado li The Fat Years, de Chan Koonchung. Este livro, publicado em 2011, é uma distopia que conta o futuro no ano de 2013 na China. Resumo o livro em poucas linhas, centrando-me no que quero iluminar e deixando de lado outros aspetos interessantes (para o meu atual trabalho sobre as memórias) como o mês esquecido cuja procura é o que conduz a ação. No início de 2011 houve uma nova crise financeira mundial, de maior dimensão do que a de 2008, e que enfraqueceu os países ocidentais, tendo a China passado incólume, entrando numa era de prosperidade e tornando-se a maior potência económica mundial. Que método diz esta distopia que foi usado para ultrapassar a crise financeira? Tornou obrigatório níveis mínimos de consumo pelos chineses, o que possibilitou o crescimento da procura interna chinesa em substituição da procura externa combalida pela crise. Resultado: abundância e prosperidade para a China, bem como felicidade universal, potenciada pelo fornecimento de drogas à população de forma encapotada.

Posto isto, alegremos-nos: somos um povo com igual imaginação à dos autores de distopias. Temos uma desvantagem (menor, claro, nada que faça mossa): é que esta imaginação, que algumas pessoas em países exóticos usam para as distopias, nós usamo-la para propostas sobre fiscalidade reputadas de sérias por gente que supostamente sabe do que fala. A minha preferida é a proposta de despesa privada obrigatória, aventada no ano passado, que é sem tirar nem pôr o que aparece na distopia sobre a China. Era o que faltava os indivíduos quererem poupar. E onde já se viu esta mania das pessoas decidirem por si o que fazer ao dinheiro que lhes fica depois de retirados o IRS e a constribuição para a segurança social. Se consomem, pagam IVA; se não consomem, pagam IVA na mesma. Eu diria que era de abolirmos a república e aclamarmos como nosso rei, se não mesmo divindade universal, a pessoa que fez uma proposta brilhante, cintilante, resplandescente como esta.

Apesar de nem todos conseguirem alcançar a pertinência da despesa privada obrigatória, alguns logram ficar perto. No Prós e Contras houve quem sugerisse o imposto sucessório (e o aumento de impostos é uma inevitabilidade da manutenção do status quo proposto pelos ‘nacional-relevantes‘). Teodora Cardoso sugere um novo imposto sobre levantamentos de dinheiro e transações bancárias. Não é evidente que também é brilhante? Levanta-se o dinheiro e é cobrado o imposto; depois compra-se o que se necessita e volta-se a pagar IVA (e se Gaspar tivesse levado a sua avante, o feliz consumidor ainda pagaria multa acaso se esquecesse da fatura na loja). Recebemos uma fatura da luz, da água ou do que seja, que já tem IVA e fazemos a transferência; pela transferência pagamos também imposto. Não é um admirável mundo novo?

Eu sou de opinião que uma imaginação ativa tem sempre melhor uso na criação de ficção do que na criação de impostos. Até nem me importaria que fosse gasto algum dinheiro dos contribuintes em incentivos de passagem de profissões na área da fiscalidade para a de romancistas – fazendo as contas aos impostos que esta gente é capaz de inventar e que, assim, deixaremos de ter de pagar porque têm a imaginação entretida elsewhere, mesmo com aumento de despesa os contribuintes ficam a ganhar. Para motivar estas pessoas de imaginação fiscal ativa, dou o exemplo de Asa Larson, que antes de escrever policiais era advogada na área da fiscalidade. Não desistam, portanto, que estão destinados à grandeza na literatura.

 

P&C

O Prós e Contras de antes de ontem foi um programa animado e que se passou bem. Paulo Trigo Pereira foi muito amável comigo – pensou que eu teria passado com dificuldade às cadeiras de finanças públicas e às macros; ou que me teria esquecido do que aprendi enquanto me preocupo com coisas como combinar o verde das botas com o verde do casaco que usei antes de ontem, que já se sabe que há informações que são mutuamente exclusivas – e informou-me que a diferença entre impostos cobrados e despesa pública era suprida pela dívida (hein? nunca se tinham lembrado disto, pois não? e vá lá não se ter referido a emissão de moeda de tempos passados), pelo que os orçamentos são, assim, sempre equilibrados (e de facto, em termos da equação, são).

Como não se discutiram os signatários do manifesto, que o lado pró estava mais interessado em discutir a política do governo e até um futuro programa de governo, vale a pena ler o João Miguel Tavares sobre o que diziam dos problemas para o crescimento económico que traz uma dívida elevada os que agora afirmam que traz problemas para o crescimento económico uma dívida elevada e por isso assinaram o manifesto. E lembremos, além da ação governativa de muitos signatários (incluindo-se aqui Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix) que contribuiram para o excesso de dívida, quantos deles em 2009 gozavam com MFL dizendo que o perigo da dívida pública era manifestamente exagerado e necessário mais investimento público finaciado por dívida.

sócrates ‘não vinha preparado’ para parar de mentir

O comentário-barra-entrevista da criatura socrática ontem, com José Rodrigues dos Santos, está a dar que falar. A expressão ‘não vim preparado para isto’ já entrou na cultura pop humorística, o que é bom, porque, de facto o melhor que se pode fazer com certos tiranetes é rirmo-nos deles.

Eu vi mais de metade (não consegui ver tudo, que eu tenho dois filhos pequenos que necessitam da mãe com sanidade mental) do vídeo que ontem estava no youtube do programa. Foi a primeira vez que vi o espaço de tempo de antena e reescrita da História recente da criatura socrática e verifiquei que está igual: sem vergonha na cara, mentindo, sem perceber que não é uma criatura predestinada a quem as regras dos comuns mortais não se aplicam. Disse coisas muito interessantes, a criatura socrática. Por exemplo, que governou sempre com rigor orçamental, ele que comprou as eleições de 2009 com um défice orçamental de 10% e que aumentou a despesa pública em termos absolutos todos os anos. Disse que sempre teve crescimento, apesar de em 2009 Portugal ter contraído quase 3%. E nos anos em que houve crescimento parece que pensa que tal se deveu à semi-divindade socrática em vez de às famílias e empresas. E, cereja no topo do bolo, justificou a austeridade em 2011 com o défice virtual recebido em 2006.

Perante todo este manancial de mentira, alienação e descaramento, os apoiantes da criatura dedicam-se a insultar José Rodrigues dos Santos – com o amor ao jornalismo livre que sempre se notou nas hostes socráticas – e a elogiar sócrates. O mesmo é dizer, elogiando a propensão para a mentira de sócrates. Há gente tão burra e tão sectária que merecia pagar a totalidade do empréstimo da troika que impuseram ao país.

O mundo é a minha aldeia

Claro que o mais incompreensível é o facto de a notícia mais escandalosa da visita da Michelle Obama à China não ser esta escolha de roupa da Michelle - para a qual não há explicação, justificação ou desculpa possível. Se as relações China-EUA se deteriorarem nos próximos meses, já todos sabemos o que culpar. Eu, por mim, pretendo escrever para a Vogue informando que se uma senhora que se veste assim voltar a aparecer na capa da revista, cancelo a assinatura.

Bom, chegando ao que interessa, li a notícia do DN sobre esta viagem de Michelle e sorri ao ler o último parágrafo: ‘As palavras de Michelle têm importância especial quando ditas na China, onde a censura mantém bloqueadas redes sociais como o Facebook e o Twitter, bem como páginas na Internet de vários meios de comunicação.‘ Isto é o que se chama euro-centrismo jornalístico. Ou, se nos sentirmos menos caridosos, ‘escrever umas coisas que ficariam bem numa redação do 9º ano mas são risíveis num jornal’. É o que dá escrever-se sobre uma realidade que se desconhece e aplicar-lhe os padrões ocidentais sem se perceber que lá há padrões diferentes. É mais ou menos o mesmo dos casos em que os jornalistas, para ilustrarem como os bens são caros na China, apesar do baixo rendimento médio, dão o exemplo do preço de um hamburguer no McDonald´s ou de um café no Starbucks – sendo que estes restaurantes e cafés são considerados na China, bem como as restantes marcas de fast food ocidentais, locais de luxo caríssimos frequentados pelos chineses ricos; o chinês médio tem à sua disposição restaurantes de comida local e casas de chá baratíssimos e mais próximos dos gostos gastronómicos chineses.

O parágrafo referido não tem nenhuma incorreção. Simplesmente não tem nada a ver com a realidade chinesa. Quem lê a notícia fica a pensar que os pobres dos chineses não têm redes sociais para comunicar e protestar. Ora os chineses, sobretudo os urbanos, têm uma participação fortíssima nas redes sociais, não são é o twitter e o facebook. A mais popular é o Sina Weibo, uma mistura entre blogue e twitter. E estas redes sociais têm tido uma grande influência na formação da opinião pública, na denúncia de casos de corrupção ou de incompetências governativas dos vários níveis do estado e, até, de notícias que a censura chinesa de outra forma ocultaria. O caso paradigmático é o do acidente de combóio de Wenzhou, de que se pode ler alguma coisa da importância das redes sociais na informação e crítica depois do acidente aqui e aqui. E como a política chinesa é sempre feita de jogos de sombras, a indignação nas redes sociais depois do acidente foi usada para os jogos de poder dentro do PCC e para afastar o responsável político do acidente.

Como a realidade, sobretudo a chinesa, tem várias camadas e inúmeros tons de cinzento, podemos ler o que diz Yu Hua, o meu escritor chinês preferido, sobre o assunto numa entrevista recente ao China File. ‘My friend Emily Parker [...] did research on the Internet in the U.S., in Russia, and in China. She says in the U.S. the Internet was boring, in Russia it was dull, but in China it was fascinating. Why? Because China’s strict censorship was forcing people to be creative. They skirted around sharp corners to launch their critiques of the government, they became masters of disguise and subterfuge. By the time the government figured out what they were really saying and came after them, they’d switched tactics. I wrote an article about this for The International Herald Tribune. I said in this kind of cat and mouse game, the “mice taunt their adversaries, they make sure to have a bolt-hole right next to them.” Ironically, at least in my mind, China’s censorship hasn’t suppressed people’s critiques, it has sharpened them.’ (A propósito dos seus livros, também diz mais umas coisas sobre liberdade de expressão na China e sobre aspetos da chineseness que geralmente escapam aos ocidentais.)

Um jornalista que saiba do que fala e pretende dar ideia do controle das redes sociais pelas autoridades chinesas não fala da inexistência do twitter e do facebook na China. Fala do recente crackdown das autoridades aos bloggers influentes (o camarada Xi é menos liberal do que se esperava), quer proibindo que se espalhem ‘rumores’ nas redes sociais (i.e., denúncias de maus comportamentos dos burocratas do PCC) ou penalizando os autores de entradas replicadas mais de 500 vezes, e que já levaram a prisões de bloggers e, inevitavelmente, à diminuição da participação nas redes sociais. Mas isso, lá está, é para quem sabe do que fala.

Escândalo para sócrates: alguém faz serviço público na RTP

Mas que aborrecido. Uma pessoa é convidada para um espaço de tempo de antena e reescrita da História recente, na televisão pública, aceita e acaba por ser confrontada com um jornalista que tem as ideias avariadas e pensa que fazer jornalismo não é deixar um ex-político – e aspirante a novo poiso político – dizer os disparates que lhe apetece, mas sim confrontar o dito com o que disse anteriormente e contradiz o que diz agora. Esta gente que tem a mania de fazer o seu trabalho é uma nuisance. A sorte do jornalista travestido é que o ex e wannabe-futuro político por agora não manda nada, que se mandasse o atrevido jornalista já ia ver que bem que sabe um exílio profissional.

 

«Sócrates irrita-se: “Não vinha preparado para isto”

 

[...]Rodrigues dos Santos foi ao “arquivo”, como se referiu o jornalista às notícias que trouxe com declarações de Sócrates para o confrontar com afirmações suas antigas, em que, por exemplo, defendia a necessidade de “consenso” ou de fazer “tudo o que for necessário” para atingir metas orçamentais.

Sócrates foi ficando cada vez mais irritado e explicando sempre as suas afirmações com o contexto da época – de um “governo sem maioria” ou apontado “a diferença” da política do seu executivo com a do Governo atual de Passos Coelho. “Sempre estimulei o crescimento económico”, contrapôs à ideia “perigosa” da austeridade “que conduz ao descontrolo da dívida”. “Por que é que um Governo que se concentra apenas na austeridade tem estes resultados?”, atacou, descrevendo que a dívida e o défice continuaram a aumentar. “Os seus arquivos também deviam dizer isto”, apontou o ex-primeiro-ministro.

No ajuste de contas entre passado e presente, Sócrates afirmou que “esta austeridade cega mata-nos”, recordando as “apostas” da sua governanção nas energias renováveis ou no parque escolar, por exemplo.»

Talvez seja bom, daqui a 15 dias, que JRS vá acompanhado não só dos seus arquivos, mas também de publicações do INE. Sempre seria interessante que a criatura socrática fosse confrontada com os resultados da sua preocupação com o crescimento económico, que parece que o melhor que conseguiu foi um acrescimento abaixo dos 2% em 2007. E que desde 2000 que Portugal está, nos bons anos, estagnado; nos maus está em crise. Se bem que sócrates pode sempre dizer – evidenciando pela primeira vez na vida uma réstea de gosto – que no meio de tanto Kant também leu o Pride and Prejudice e socorrer-se da citação da Lizzie: ‘But in such cases as these, a good memory is unpardonable.’

Tudo rapazes encantadores, amigos do seu amigo, ajudam as senhoras de idade a atravessar a rua e por aí adiante

«To celebrate the Persian New Year on Friday, Iran’s Supreme Leader Ali Khamenei decided it was an opportune time to again deny the existence of the Holocaust. Speaking in Mashhad, he declared that “the Holocaust is an event whose reality is uncertain and, if it happened, it’s uncertain how it happened.”»

«In what many Twitter users in Turkey called a “digital coup”, Telecom regulators enforced four court orders to restrict access to Twitter on Thursday night, just hours after the prime minister, Recep Tayyip Erdogan, vowed to “eradicate” the microblogging platform in an election speech.

The disruption followed previous government threats to clamp down on the social media and caused widespread outrage inside and outside Turkey.»

Coisas tão devastadoras quanto o ébola

Acho sempre piada quando alguns liberais ou os que para aí gostam de se inclinar – mesmo aqueles que não se converteram à religião gaspárica, assente, como se sabe, em aumento de impostos para ‘sanear’ as contas públicas (que esses estão way round the bend) – confundem liberalismo com defesa intransigente das empresas. Quando são uma espécie de socialistas – que pensam que para minorar os efeitos nefastos da ação desses trastes que são os indivíduos há que pôr em ação os trastes dos indivíduos que trabalham para o estado, como se o estado tivesse poderes mágicos de purificação daqueles que agem em seu nome – ao contrário. Há liberais para quem uma empresa (e os seus empresários, gestores ou administradores), sobretudo se for lucrativa, is without fault. Em vez do estado, para os socialistas, é o lucro, para alguns liberais, que purifica a ação individual. E quem questionar estas empresas, ai jesus que são inimigos do lucro e da iniciativa privada. Isto ganha especial potencial de divertimento quando é feita a defesa de empresas que atuam em setores que, seja pelas barreiras à entrada seja pela legislação, atuam em contexto longe da concorrência. O preço da gasolina é igual ao cêntimo em todas as marcas? Ora isso são acasos da mais perfeita concorrência e, quando muito, culpa daquela ideia socrática de pôr cartazes nas auto-estradas com indicação dos preços; cartelização e combinação de preços? vade retro, criatura satânica que difama desta forma empresas respeitáveis. Os bancos inventam taxas, uns atrás dos outros, para cobrar aos clientes que respiram dentro das suas agências? é a concorrência em ação e quem não gosta que guarde o dinheiro debaixo do colchão.

Isto para dizer que nas empresas também há bons patifórios, e estas empresas que funcionam perigosamente perto do estado são um chamariz para os patifórios que se dão bem a tirar proveito da influência tanto quando estão a soldo das empresas como quando estão a soldo do estado. Logo, não merecem ser defendidas com grande paixão.

Não venho aqui defender maior regulação, que não tenho grande fé nos que fiscalizam. Dê-se o exemplo das agências de regulação em Portugal, que são risíveis; existem para defender a posição destas empresas de setores protegidos dos malvados consumidores; e para acrescentar variedade à carreira profissional daqueles que se passeiam pelos meandros governativos, reguladores da área que tutelaram e empresas da área que tutelaram e fiscalizaram. Venho mesmo só constatar que o estado de coisas atual sucks. Um estado gordo e anafado e um sistema judiciário de faz de conta são uma combinação mortal. Isto tudo não só por causa das prescrições do caso BCP – e vale a pena ler, além do André, o José Meireles Graça sobre estas iguarias político-jurídicas aqui e aqui – como por, só um exemplo que deve ter sido a maior escandaleira de tráfico de favores feito à vista de toda a gente, termos a CGD a fazer empréstimos com risco mal medido a Berardos e a Finos que, depois e enquanto accionistas do BCP, votaram a solução do governo para a administração daquele banco.

Duas notas finais. A primeira é para lembrar que, para compensar a largueza nos setores que frequentemente lesam consumidores e contribuintes, os legisladores aplicam a sua fúria controleira nos setores onde os empresários não são amigos dos governantes e as empresas não têm dimensão para verem as suas queixas aparecerem nos jornais. Nos produtos mais, digamos, simples, as empresas apanham multas pesadíssimas se não chamam estúpidos aos consumidores através de avisos que são obrigados a fazer, por exemplo informando que não se deve acender uma vela em local acessível a crianças ou animais de estimação (nunca se tinham lembrado disto, pois não? pois é, é para isso que cá está o papá protetor estado).

A segunda é para avisar os leitores mais quadriculados que não tenho nada contra o lucro, sobretudo se for meu, nem contra os bancos nem o lucro dos bancos, sobretudo quando pagam dividendos.

Vá lá, vá lá, prolonguem a greve por muito tempo, pleeeeease!

Que o país está a necessitar de boas notícias como esta:

«O presidente da Associação Sindical dos Funcionários da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASF-ASAE), Albuquerque do Amaral, disse à agência Lusa que o sindicato decretou greve para os inspetores poderem participar na manifestação, que tem já confirmada a presença de mais de 100 profissionais de todo o país.

Segundo o sindicato, que representa 204 associados dos 238 inspetores da ASAE, a greve vai afetar toda a atividade operacional da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, como operações de fiscalização, diligências processuais e inspeções baseadas em denúncias, além de ações de formação que estão a decorrer.»

No DN.

Literatices

A propósito desta notícia que o Rui Carmo deu a conhecer pelo sofisticado método de comunicação intra-insurgentes (tecnologia de ponta inventada por nós; estamos presentemente em negociações com uma delegação de terroristas separatistas ossetas e a NASA, a ver quem paga mais, para a vendermos; e, o que será ainda mais revolucionário do que o rearden metal – vou buscar este exemplo porque de vez em quando há que mostrar o devido apreço pelos randianos do blogue -, a invenção da comunicação telepática insurgente is just around the corner; vai ser assim algo parecido com o laran das Darkover novels, livros que eu descobri através de um empréstimo de uma lésbica feminista – o que também fica sempre bem dizer num blogue para verem como eu, afinal, até sou uma pessoa decente, tolerante, progressista, não-obscurantista e mais uns adjetivos que se aplicam àquelas pessoas mesmo, mesmo boas que insultam todos os que não concordam exatamente com elas), venho fazer uma sugestão de leitura aos escandalizados políticos ocidentais – que, para não serem acusados de não fazerem nada perante a anexação pela Rússia dessa milenar possessão ucraniana que é a Crimeia, planeiam congelar umas contas para não fazerem nada parecendo que fazem alguma coisa.

lecarrePara a versão nacional dos escandalizados, há tradução.

(Espero que tenham apreciado o meu esforço na escrita de uma frase cujo tamanho qualificaria de saramáguico se isso não fosse insulto que uma qualquer frase bem intencionada não merece.)

Momento poético insurgente

Já que fiquei embalada com isto.

«Gracious Lord, oh bomb the Germans,
Spare their women for Thy Sake,
And if that is not too easy
We will pardon Thy Mistake.
But, gracious Lord, whate’er shall be,
Don’t let anyone bomb me.

Keep our Empire undismembered
Guide our Forces by Thy Hand,
Gallant blacks from far Jamaica,
Honduras and Togoland;
Protect them Lord in all their fights,
And, even more, protect the whites.

Think of what our Nation stands for,
Books from Boots’ and country lanes,
Free speech, free passes, class distinction,
Democracy and proper drains.
Lord, put beneath Thy special care
One-eighty-nine Cadogan Square.

Although dear Lord I am a sinner,
I have done no major crime;
Now I’ll come to Evening Service
Whensoever I have the time.
So, Lord, reserve for me a crown,
And do not let my shares go down.»

Parte de In Westminster Abbey, de John Betjeman.

The battle of Crimea is over, I expect that the battle of Ukraine is about to begin

Posto só porque me apeteceu usar este título, espicaçada por este texto da Slate. E aproveito para dizer que me escandaliza muito pouco que a Ucrânia se divida. Afinal o país é uma colagem de pedaços de territórios com percursos, histórias, culturas e religiões diferentes entre si e a UE e os Estado Unidos não têm mais do que aceitar isso mesmo, por muito que tal signifique engolir uns sapos oferecidos por Putin – que sim, é um proto-ditador intragável. Não estou, so far, muito convencida com os paralelos que se têm feito da anexação da Crimeia com o Anschluss e os sudetas (já vou mais pela prudência aconselhada pela experiência da guerra de 1914-18, que manda que não se provoque com a solução mais destruição do que seria causada pelo problema que se tentou resolver). Mas não deixo de achar piada ao facto de o namoro ingénuo de Obama com Putin, que o mandou às urtigas assim que foi necessário, se assemelhar à forma como Churchill se enterneceu com o ‘urso russo’ e foi depois traído a formação da ‘cortina de ferro’. (Tendo Churchill sido acompanhado no enlevo pelos britânicos, que tiveram uma curiosa moda russa durante a segunda guerra mundial, tornando-se a casa do embaixador Maisky em Londres um popular local de reunião da upper-class – como sabe quem já viu o Ninotchka, todo o bom soviético tem um fraquinho por aristocratas – e levando a que George Orwell, na edição do Animal Farm, se queixasse que em Londres se podia insultar à vontade o primeiro-ministro mas se viam torcerem-se narizes se se criticasse Stalin.)

Esta gente gives me the creeps

Depois de resolvido o magno problema das retretes e dos urinóis, a malta da UE decidiu dedicar-se a outro problema que causava fome e mortandade pelo mundo e cuja resolução era inadiável: a diversidade de carregadores para os telemóveis. Eu espero que, em prol do bem dos mais pobres e desfavorecidos, os carregadores universais não se fiquem por telemóveis e routers, mas abranjam também outros bens essenciais, como equipamentos elétricos de depilação e de massagens. E depois de solucionado em definitivo este transtorno dos carregadores, a UE pode dedicar-se a outros problemas prementes e, sobretudo, a necessitar de uniformização. Assim de repente, estou a lembrar-me dos ganchos para pendurar cortinados (que vêm num número imoral de formas e materiais) ou as quantidades das latas de chá em folha (dá uma trabalheira comparar preços, que umas latas têm 100g de chá, outras 125g e outras têm só 75g); também não seria mal pensado regular de forma a que a circunferência das laranjas comercializadas na UE se adeque às máquinas espremedoras de citrinos.

(A gente que me causa arrepios não são só os legisladores sociopatas da UE, são também os idiotas úteis que agradecem a legislação dos sociopatas.)

Há muita coisa que ‘mete nojo’

Ando desde quinta feira para escrever um texto sobre os maluquinhos católicos que andam amuados com o Papa Francisco, mas ainda não tive tempo. Depois da não-aprovação na AR da lei da coadoção e tendo em conta o verdadeiro nojo que têm sido as reações dos extremistas da coisa – que não conseguem mostrar a sua discordância dos que votaram contra sem insultos, sem revelarem de que forma estes arautos da ‘tolerância’ na verdade não toleram gente que não pensa a mesma chapa cinco ‘tolerante’ e ‘progressista’ que eles, e que chegou até a ponto de uma criatura destas ‘tolerantes’ e ‘progressistas’ escrever sobre a orientação sexual (ou o que a dita criatura pensa que é a orientação sexual) de dois responsáveis políticos da atual maioria – tive durante alguns momentos a tentação de escrever sobre estes maluquinhos simétricos (e, logo, iguais) aos maluquinhos católicos. Passou-me depressa a tentação, mas venho aqui dizer umas coisas sobre estes processos de votação da coadoção e adoção e casamento de pessoas do mesmo sexo.

(E, como já escrevi várias vezes, sou favorável à coadoção e adoção por casais do mesmo sexo, dando-se preferência a casais de sexo diferente – isto porque a treta que por aí se lê em jornais e blogues de que ‘há estudos’ que mostram que as crianças e adolescentes crescem de forma igual em famílias de casais hetero ou homossexuais é mesmo uma treta. Os estudos que existem foram feitos na esmagadora maioria com crianças e adolescentes que têm pai e mãe, separados mas com presenças nas vidas dos filhos, e que vivem com as suas mães e as companheiras/mulheres das suas mães. São estudos que analisam a parentalidade de gays e lésbicas em casos em que as crianças têm tanto pai como mãe e concluem que, evidentemente, ser gay ou lésbica não desqualifica ninguém como pai ou mãe. Sucede que, para uma criança institucionalizada, a comparação que se tem de fazer não é entre casais hetero e casais homo, é entre a instituição – onde crescem sem adultos de referência e sem afeto de mãe ou de pai – e uma família hetero ou homoparental; e também não vejo como alguém pode defender que uma criança está melhor institucionalizada do que vivendo com um casal homossexual.)

Mas enfim, o meu primeiro comentário é para a terrrrrrrrrível acusação de que os deputados do PSD e do CDS teriam votado de acordo com a vontade do seu eleitorado e não segundo a sua consciência. Ora eu, que sou eleitorado destes partidos e até nem fui representada por eles neste caso, tenho a dizer que votar segundo a vontade do eleitorado – que escolhe o seu voto de acordo com o programa eleitoral de cada partido – é a obrigação dos deputados eleitos. A coadoção não estava no programa eleitoral de PSD e CDS, pelo que não há qualquer traição dos eleitos aos eleitores. Pode-se argumentar que nem tudo está no programa eleitoral e que, nestes casos, os deputados devem fazer uso do seu próprio discernimento (supondo que o têm, que a maioria dos que lá estão não pensam nada se não em agradar ao líder do momento e portar-se bem para continuar nas listas em lugar elegível), e que para a coadoção não o fizeram. Mas, ainda assim, pode-se duvidar da coerência dos que mudaram o sentido de voto, pode-se reclamar que os cálculos políticos pesaram mais que os interesses das crianças em questão, mas não se pode atacar alguém por ter respeitado aquilo que julga ser a opinião do eleitorado que tem obrigação de servir. Foi uma pena que o PSD e o CDS não tivessem tido tanto respeito pelo seu eleitorado quando se tratou de aumentar impostos e engavetar a reforma do estado.

A segunda é uma questão. Mas que diabo? Se afinal esta permissão da coadoção é tão fulcral e o seu adiamento transtorna tanto inúmeras crianças, porque não foi isto tudo aprovado entre 2005 e 2009, quando o PS tinha maioria absoluta na AR? Aí ainda não era fulcral? Os adiamentos não transtornavam crianças? E mesmo depois de 2009, quando finalmente foi aprovado o casamento entre pessoas do mesmo sexo – e teria feito todo o sentido tratar de todas estas questões em pacote – tendo o PS os votos favoráveis à adoção do BE, dos Verdes e de uns quantos do PSD, porque diabo não se aprovou a coadoção, a adoção e se deixou esta situação toda tratadinha? Os transtornos às crianças apenas surgiram em 2013? É que, meus caros intolerantes, usar tantos insultos para quem agora não votou a coadoção quando se tem tanta complacência para quem tinha toda a facilidade para o fazer mas não o fez, tresanda àquilo de que acusam os vossos opositores: a cálculo político, apenas e só.

E acabo esclarecendo porque não me apeteceu vir aqui zurzir nos ‘tolerantes’ e ‘progressistas’. No fundo eu compreendo-os. Na adolescência eu era igualzinha, sempre pronta a ver o mal naqueles mais conservadores do que eu. Depois cresci.

Ando viciada no The Daily Beast

Leio The Daily Beast desde que a Tina Brown criou a coisa e até suportei estoicamente durante algum tempo o enamoramento embevecido do site por Obama. Mas às tantas o meu bom senso e o meu bom gosto lá perderam a paciência com tanto apaixonado suspiro digital pelo presidente. (O texto mais imbecil que li sobre Obama foi escrito por Tina Brown para The Daily Beast, onde a editora garantia que Obama seria um excelente presidente porque – e preparem-se para uma razão groundbreaking – usava blackberry.) E a leitura tornou-se apenas ocasional e nem a junção com a Newsweek espicaçou a curiosidade. Nos últimos meses, no entanto, ressuscitaram os sinais de vida inteligente no site e tornou-se leitura diária obrigatória. Gosto de tudo, desde os textos sobre os hot topics de cada momento (os mais interessantes textos sobre as aventuras e desventuras recentes da Ucrânia e da Rússia foram lá lidos) até aos pedaços de curiosidades históricas – como o almirante americano que ajudou a Rússia a conquistar a Crimeia no século XVIII -, de curiosidades atuais – como o apreço dos americanos por bibliotecas, gosto inteiramente partilhado por mim, que adoro passar tempo rodeada de livros – até aos textos sobre livros – e aqui fica um excerto de uma entrevista a Anchee Min, autora muito minha conhecida, a propósito do seu último livro de memórias, The Cooked Seed. Onde se mostra que, no caso da China como noutros, para perceber o presente geralmente faz falta conhecer o passado.

«You worked so very hard to get there. You sent the manuscript out to 12 literary agents. That’s tenacious. Is it strange when you look at China today and it’s become this flourishing, capitalistic society? It’s so much different from your childhood.

 

The words that come to mind are “I’m not surprised.” Not surprised. Because the people who are managing China are people like me. You see, during my time, half of the country’s people were sent to the Cultural Revolution’s labor camps or the countryside. So we knew what did not work. Our whole generation was a disillusioned generation, therefore politically mature and very practical. So look at the streets of Shanghai during three different decades: the first decade, there was a lot of [praise of] Chairman Mao and carrying on the Cultural Revolution to the end. And the second decade was Deng Xiaoping’s “White cat, black cat, whichever catches mice is the great cat” capitalism. And then the third was, “Let’s build 18 million toilets in Shanghai, and borrowing to take a loan is not bad.” So I think this really reflects the Chinese middle-class mindset, which I think is the strength of my writing—I think I can easily penetrate that way of thinking.

What’s going on China, I have no problem comprehending, understanding. I see in my daughter, and she is so ill-prepared throughout the American education system, she was not prepared with any knowledge of China. As a country, as Americans, I feel we can no longer afford to ignore China. And I think that I’ve made it kind of my mission, to help Americans understand where China is going by showing where China is coming from.»

Um assunto que a Standpoint e eu nunca nos cansaremos de denunciar

Despite this, there has not been one successful prosecution under the Female Genital Mutilation Act.Furthermore, my recent report for the New Culture Forum, which investigated this inaction, found evidence that women and girls were being brought to the UK to be mutilated. Such “FGM tourism” occurred precisely because it can be perpetrated with impunity. »

Já que nos preparamos para umas eleições europeias, lembro aqui um almoço que um grupo de bloggers teve em Bruxelas com Maria da Graça Carvalho, então conselheira de Durão Barroso (numa viagem a convite de Carlos Coelho e na qual eu, grávida, quase levei à loucura o muito eficiente e paciente Duarte Marques com as minhas restrições alimentares). Das perguntas que lhe fizemos, a minha foi precisamente o que fazia, ou pensava fazer, a Comissão Europeia para garantir o respeito pelos direitos humanos das mulheres das comunidades muçulmanas imigrantes na UE. (Os maluquinhos que consideram que as mulheres muçulmanas que vivem na Europa e não falam, ou falam mal, a língua do país de acolhimento, não têm qualificações que lhes permitam encontrar um emprego para se sustentarem a si próprias e aos filhos e não têm qualquer conhecimento da vida fora da sua comunidade aceitam livremente continuar a viver como nos seus países de origem, precisam urgentemente de irem procurar a entrada de ‘liberdade’ num dicionário e, ainda, de uma consulta de psiquiatria.)
Maria da Graça Carvalho evidentemente considerava também o assunto muito grave, mas percebeu-se que não havia qualquer resposta a isto de uma UE que adora regular os tamanhos das maçãs e das potências das lâmpadas. A UE, tal como Portugal, tem umas prioridades estranhas. Era bom, no entanto, que não fossem deixando estes assuntos às Frentes Nacionais desta Europa. Para não terem de se lamentar depois das eleições.

Há académicos sensatos. João Cardoso Rosas não é um deles.

De vez em quando sucede lermos um texto de tal maneira absurdo que temos de ler umas três ou quatro vezes a verificar se percebemos mesmo bem a loucura em forma de palavras. O texto de hoje de João Cardoso Rosas deve ficar para paradigma de tais textos. Ou então João Cardoso Rosas escreveu sobre o sultanato de Aceh, ou outra terra igualmente exótica, e esqueceu-se de o referir. Vejamos só alguns pontos, que passar o texto a pente fino demoraria horas que me faltam para outras coisas.

Ora bem, JCR tem umas opiniões estranhas sobre a reforma do estado. Diz que diminuir a dimensão do estado torna-o ‘refém de interesses especiais’. Curioso. A mim parece-me que quanto maior for o estado, quanto maior bolo tiver para distribuir mais ‘interesses especiais’ poderá alimentar. Por outro lado, JCR considera que a verdadeira, a boa reforma do estado é dotá-lo de uma dimensão ‘ que lhe permitam desempenhar as funções e tarefas de um Estado moderno’. É deste ponto que eu infiro que Cardoso Rosas falará de outro local que não Portugal, uma vez que o estado português já consome anualmente metade dos recursos gerados todos os anos pelo país, pelo que ninguém com uma réstea de adesão à realidade poderá defender que o necessário é aumentar a dimensão do estado.

E lá no meio do texto está esta preciosidade: ‘Seria também bem-vindo um discurso que acabasse com a fraude do “ajustamento do sector privado que não foi feito pelo sector público”. Na verdade, o ajustamento no sector público foi brutal, embora numa lógica de corte cego. Mas aquilo que aconteceu no sector privado foi a transferência de custos das empresas para o Estado através do desemprego. Ou seja, muitas empresas, em vez de ajustarem o seu funcionamento, limitaram-se a despedir trabalhadores cuja subsistência é hoje garantida pelo Estado em subsídios de desemprego, subsídios sociais de desemprego, assistência social, etc.’

Leram bem: o estado ajustou de forma brutal e os privados apenas transferiram custos (seus) para o estado.

Bom, quanto às empresas – as que sobreviveram à crise – há que dizer que raramente se leu alguma coisa tão profundamente ignorante como aquela que Cardoso Rosas escreve. Nem o PCP (que tem a ilusão de que defende os interesses dos pequenos empresários) vai tão longe na imbecilidade. As empresas – as que sobreviveram – procuraram novos produtos, novos mercados, novos clientes, novos canais de negócio; se JCR igonora este mundo, que tenha algum pudor e não fale do que não sabe. E, sim, reduziram pessoal. Não sei bem o que queria a luminária Cardoso Rosas que as empresas fizessem, se a procura dos seus produtos diminuiu drasticamente; que deixasse as pessoas a jogar às cartas durante o horário de trabalho, já que não tinham que fazer? que fossem à falência graças à manutenção dos custos com pessoal? que investissem massivamente, num contexto de grande incerteza e rentabilidade duvidosa? e de crédito bancário caro e escasso? e depois ocupassem o pessoal a limpar o pó das máquinas novas paradas? Enfim.

Mas além da ignorância de tudo o que se tem passado no mundo das empresas, JCR revela uma curiosa opinião. Diz o senhor que as empresas transferiram custos (custos seus, portanto) para o estado. E aqui, como empresária (e sim, já criei mais empregos do que JCR), é conveniente dizer a JCR que eu tenho obrigação de me sustentar a mim própria e aos meus filhos, mas não, não nasci com, nem adquiri, nenhuma obrigação de criar postos de trabalho que assegurem o sustento a outros. Não tenho qualquer obrigação de utilizar o meu dinheiro ou o meu crédito bancário para criar empregos. Eu tenho muitas objeções aos escritos de Ayn Rand, mas de facto ela caracterizou melhor que ninguém esta obsessão que certas pessoas, Cardoso Rosas é um bom exemplo, têm de, por um lado, menorizar e desprezar o trabalho que se faz nas empresas e, por outro lado, fazer-lhes exigências absolutamente ilegítimas (manter postos de trabalho com trabalho inexistente é uma delas).

É também por serem tão abundantes opiniões absurdas, como esta de João Cardoso Rosas, que se viveu com tanta normalidade e aceitação o processo de falência do país.

Guerra Fria Económica

O meu texto de hoje no DE.

«Em macroeconomia, o exemplo mais usado de um choque económico negativo com efeitos duradouros é o de um aumento permanente do preço do petróleo (porque entra no processo produtivo ou de comercialização dos outros bens). Atualmente este exemplo pode ser transposto para qualquer produto energético, como o gás natural ou, em certas zonas do globo, o carvão.
Sendo a Rússia o segundo maior produtor e exportador mundial de crude e de gás natural e um grande fornecedor energético da UE, com alguns países a depender a 100% do gás natural russo, é fácil de perceber como o azedar de relações diplomáticas e comerciais entre a UE e a Rússia, com a invasão da Crimeia, pode comprometer a periclitante recuperação económica europeia. Ou até provocar nova crise.
A Rússia, só, não controla os preços destes produtos, mas pode controlar a quantidade fornecida. Na última década a Rússia interrompeu por 3 vezes o fornecimento de gás natural à Europa central e de leste e já deu indicações de que poderá fazê-lo de novo. E se a médio prazo se pode pensar em substituir o fornecedor (os EUA estão muito interessados em exportar gás natural para a Europa), no curto prazo a UE sofre de uma doença chamada dependência energética da Rússia. Por outro lado, a ameaça de sanções económicas à Rússia já provocou o aumento do preço do barril de petróleo; as próprias das sanções terão efeitos mais acentuados. De resto, a UE é o maior cliente russo e a Rússia é o 3º maior parceiro económico da UE; com economias interligadas, sanções num lado atingem também o outro. A Economia é uma ciência empática: o mal dos outros não é o nosso bem.»

O resto está aqui.