Apesar de ainda não ser ‘of a certain age’, aprecio a tendência

There has been a surge in the past couple of years of meaty small screen roles for highly respected – and in many cases, Oscar-winning – women of a certain age, and last night they were rewarded.’

E até a CJ Cregg ganhou um Emmy. Mission accomplished. (Sejamos caridosos e não comentemos o vestido – alargando prudentemente o conceito de ‘vestido’ – de Julia Roberts.)

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De facto, é surpreendente que tenhamos tido o resultado que cozinhamos

‘There are now thought to be more British-born members of Isis than there are Muslims in the British Army, leading lots of people to ask how they could hate us so much. After all, we did everything right: we imported low-skilled migrants from among the most clannish and socially conservative societies on earth to do badly-paid industrial jobs that were disappearing, ensuring their children grew up in unemployment; then we taught those children that our culture was decadent and worthless and our history tarnished with the blood of their ancestors; then we encouraged them to retreat into their religion through financial subsidies to the most openly sectarian and reactionary members of their community. What did we do wrong?’

‘O plano económico do PS é rezar’ (mas a Shiva, que eles são modernos)

Ana Sá Lopes (que sobre António Costa já recuperou o senso há algum tempo) no i:

‘Claro que Costa defende outra atitude perante a Europa com que Passos não concorda – mas que Seguro, por acaso, também defende. Aliás, defendem os dois o mesmo. Cito a moção de Costa: “É no quadro da negociação destas novas políticas europeias que o PS se deve comprometer a trabalhar para encontrar um novo equilíbrio entre os compromissos assumidos em matéria orçamental, a necessidade de reduzir os custos da dívida pública e a urgência de políticas para mais crescimento e emprego.” Isto era bom que acontecesse, mas até agora não aconteceu. Um senhor chamado François Hollande, presidente da República Francesa, um país com muito mais poder que Portugal no quadro europeu, não conseguiu nada.’

‘Devemos deixar andar o caos alguns meses’, disse Mao

O meu texto de hoje no Observador.

‘Não é que ande arredada de jornais, mas faço por evitar notícias das rainhas do drama nacionais. Há pouco sofremos a novela da ida (mais que a própria da ida) de Fernando Tordo para o Brasil – repetindo o êxodo de Maria João Pires anos antes – e poupei-me, agora, ao desgosto do fim da carreira de Rui Veloso. Certamente por mau feitio meu, obsto a que ‘os artistas’ entendam que lhes é devido o meu dinheiro – através de apoios de e serviços às câmaras municipais ou à SEC. Ou com a ressurreição da taxa sobre os suportes que armazenam conteúdos (como as fotos das férias da criançada da família neste verão) que Gabriela Canavilhas falhou em implementar e que os socialistas seguintes (o governo atual) querem finalmente cobrar. Sobretudo quando, deixando-se o meu dinheiro entregue à minha vontade (sempre um erro fatal, segundo o estatista médio), eu teimo em não o despender com esses artistas em concreto.

Mas desta vez a minha seletividade ia ditando que eu perdesse a entrevista de Carlos do Carmo ao Diário Económico, que merece ser amplamente comentada. Passo à frente do fadista Sinatra, ilumino com brevidade a escolha de terminar com uma citação de Fidel Castro (reconhecido autor da fulgurante prosperidade cubana do pós-59), acompanho por curtos segundos o cantor no espanto pela fidelidade do público, para me centrar nas palavras esperançosas de Carmo à conta dos jovens nas ruas.’

O resto está aqui.

Tenho a agradecer ao José Meireles Graça não ter perdido esta preciosidade jornalística que é a entrevista de Carlos do Carmo pelo DE. E deixo-vos uma canção do outro fadista, cantada num ano bom. (Não assumo responsabilidade pelas figuras da audiência no vídeo.)

E também umas imagens do que Carlos do Carmo quer ver nas ruas.

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O acordo ortográfico e eu

O meu texto de hoje no Observador, sobre ortografia com deriva literária.

‘Aviso já: a ortografia não me desperta emoções fortes. Não entendo a forma como muitas pessoas reagem à nova grafia como se um larápio lhes tivesse invadido a casa, roubado as jóias herdadas da avó e grafitado os retratos dos solenes antepassados. Tanto mais que (provavelmente porque ainda não ocorreu aos responsáveis do ministério das finanças) é perfeitamente possível continuar a escrever com a grafia antiga sem que tal constitua infração punível com multa.

A minha adoção do acordo ortográfico foi inteiramente utilitária. Tinha um limite máximo de 2000 caracteres com espaços para textos que escrevia para um jornal, bem como uma dissertação de mestrado a meio (no início, para ser sincera, e também com limite de caracteres) e, como sou tendencialmente palavrosa e pouco sintética (repararam na redundância?) e sofro sempre a cortar textos, lembrei-me: por que não livrar-me das consoantes mudas para poupar caracteres? Desde então a reação dos leitores não se fez esperar. As idiossincrasias da minha escrita sempre foram aceites como, bem, idiossincrasias da minha escrita. Nunca ninguém resmungou do meu uso de uma ou outra expressão em inglês, da minha queda para os advérbios de modo, da mania de observações entre parêntesis. Mas com a nova grafia, oh, não houve alma das tais que sente apaixonadamente a ortografia que não se manifestasse: no facebook amigos lamentaram o meu parco discernimento; no blog questionaram as minhas capacidades cognitivas, sugeriram pertença ao BE e garantiram-me que não mais leriam qualquer coisa que escrevinhasse, nem sequer uma lista de supermercado.’

O resto está aqui.

O 3º round da ‘narrativa’ sobre o desastre de supervisão do BES

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Eu até queria escrever sobre outras coisas, mas o mundo não deixa.

Nos últimos dias tenho ouvido e lido um choradinho (o último foi hoje nos poucos minutos – que a sanidade mental e o senso e o gosto não permitem aguentar mais do que uns poucos minutos seguidos dos comentadores televisivos – em que ouvi Marques Mendes) sobre a tremeeeeeeeenda injustiça que se está a fazer a Carlos Costa, coitadíssimo, que é ‘só’ governador do banco de Portugal, enquanto que o criminoso-mor Salgado está a passar pelos pingos da chuva. E, meus caros, deixem-me que vos diga que esta argumentação é indecorosa.

Salgado cometeu crimes enquanto administrador do BES? De tudo o que se tem lido, sim, e espero que, confirmando-se o que se tem escrito, os pague bem caros em pena de prisão. Algo que duvido que suceda porque quem faz o que faz nas várias empresas dos Espírito Santo não deixará de ter colecionado podres que pressionem outros poderes, pelo que, depois de atiçarem a fúria popular contra Salgado (para proteção própria), o poder político (e judicial) não deixará de promover a absolvição de Salgado.

Mas vamos ao Banco de Portugal. Eu sei que há muito para aí, dado o que argumentou por estes dias, quem acha normal e até gosta de ser enganado pelo estado (desde que o autor do engano seja o PSD). Esses estão way round the bend e nem vale a pena discutir esta questão com eles. Mas, aos restantes, dizem-me sff para que raio existe o regulador e supervisor bancário BdP? Não é precisamente para acautelar as situações que sucederam? É que se partirmos do princípio que sempre que há gestão danosa nos bancos o BdP nada consegue ver, nada consegue fiscalizar, nada consegue evitar, para que andamos a gastar dinheiro com a inutilidade? E o que está um senhor tão sério e eficiente como Carlos Costa (segundo os maluquinhos) a fingir que tem alguma utilidade, só para receber todas as benesses de ser governador do BdP? Uma pessoa séria não aceita estar a fingir que pode ser eficaz quando é apenas decorativa, pois não? Ainda para mais num caso em que mais perigoso do que não haver nenhuma regulação é não haver nenhuma regulação enquanto se assegura que sim, que há regulação e que esta é confiável; é dizer aos mercados que podem ter confiança em vez de dizer aos mercados que estão inteiramente por sua conta e que tomem as decisões com base nisso.

E há ainda outro ponto. Salgado pode ter cometido crimes, mas quem tinha a obrigação de zelar pelos interesses dos cidadãos portugueses era Carlos Costa, não Salgado. Por isso faz todo o sentido – e só num país de imbecis funcionais não será assim – que os cidadãos peçam explicações a quem os devia defender de por que não o fez.

A defesa (indefensável) de Carlos Costa está a ser feita evidentemente pelo governo, que também não quer ter sobre si o ónus de ter mantido em funções e ter até apoiado um governador do BdP que sabia que Salgado montou um esquema fraudulento no GES e o deixou continuar à solta no BES. Pior: deixou-o à solta no BES sabendo que tinha o tempo contado e que se havia maroscas para fazer, era fazê-las depressa. (A propósito: alguém se lembrou de testar o QI de Carlos Costa?) E a ver vamos se ministra das finanças e primeiro-ministro não sabiam também do ‘esquema fraudulento’ do GES e não foram cúmplices da manutenção de Salgado no BES. E evidentemente que sabiam, porque se Carlos Costa não lhes tivesse dado uma informação dessa relevância, tê-lo-iam demitido de imediato ao conhecê-la. Mas mesmo que num cenário impossível Costa não os tenha informado, certamente que Salgado informou o pm quando lhe foi pedir ajuda para o banco.

Ou seja: MLA e PPC, com toda a probabilidade, sabiam e foram coniventes com o contágio que Salgado estava a fazer ao BES dos problemas financeiros do GES. É para os salvar que se tenta convencer que Costa não podia ter feito mais.

É por isso que o primeiro spin da nacionalização do BES foi a suprema coragem que este governo teve de sacrificar os acionistas – essa gente ávida de dinheiro e burra que não tinha visto aquilo que era evidente para todos. Isto vem da estupidez ancestral (porque nunca lhe traz ganhos eleitorias nenhuns) do PSD – não resiste a mostrar as suas credênciais de partido esquerdista – e do uso que contavam fazer da proverbial inveja dos portugueses por quem tem dinheiro. Saiu-lhes o tiro pela culatra, porque se os contribuintes (até ver) e os depositantes ficaram aliviados por não serem (ainda mais) sacrificados, também entenderam bem que a maioria dos acionistas não tinha qualquer responsabilidade na gestão do BES e que tinha sido enganada à grande pelo supervisor (e governo), sobretudo na pornográfica vergonha que foi a permissão do último aumento de capital do BES.

O segundo spin foi lembrar que o culpado era Salgado, não Costa. Também não colhe e já referi algumas razões.

O terceiro spin, aparentemente, é culpar o BCE. (Não sei que contorcionismo vão adotar agora aqueles que até ao momento garantiam que a opção tomada fora boa, quando pelos vistos a nova ‘narrativa’ vai ser ‘a solução foi má mas fomos obrigados’.) Mas esta terceira ‘narrativa’ é ainda mais surreal, porque veio através de um escritório de advogados.

E aqui chegados, é o momento de lembrar que um dos (muito) poucos méritos deste governo era não ser o governo sócrates, quando aconteciam coisas que nos punham permanentemente de queixo caído. Mas até esse mérito este governo conseguiu destruir. Porque, lamento, mas ter: a) um governador do BdP que mantém na administração de um grande banco nacional quem sabe ter montado um ‘esquema fraudulento'; b) um pm e uma ministra das finanças que não demitem Carlos Costa, ou o convencem a demitir-se, ao saberem de tão grave incompetência do governador do BdP; c) os mesmos pm e ministra das finanças estão a banhos descontraidamente e agem como se tudo tivesse sido uma mera questão técnica que nada os implicou (apesar da mudança de leis à pressa para Costa implementar a sua decisão) e d) finalmente aparecer uma ata do BdP (sabe-se lá se verdadeira) numa newsletter de um escritório de advogados a apontar o novo culpado – bem, ter tudo isto é demasiado socrático para o meu sensível paladar. É que para ter o nível de falta de vergonha de sócrates de imitação, mais valia termos continuado com o sócrates verdadeiro. Eu, nos políticos como nas carteiras, prefiro sempre o original.

Um par improvável (ou: regressando a coisas interessantes)

Já andei a publicitar isto noutros lados, mas seria um crime de, sei lá, genocídio literário não o partilhar também aqui. Mundo (ou, como sou obrigada a dizer quando tenho de apresentar as crianças cá em casa, ‘senhoras e senhores, meninas e meninos, bebezinhas e bebezinhos’ – e isto apesar de eu ser a única xx neste lar): apresento-vos Adam Smith ao encontro de Jane Austen. Confesso que não entendi as relações que se podem estabelecer entre A Teoria dos Sentimentos Morais e os livros da Jane. As heroínas dos seus livros (tirando Emma Wodehouse) são todas umas destituídas da vida que querem, mais que tudo, casar com um homem rico. E casam. Por amor, evidentemente, ou não fossem romances jorgianos ‘by a lady’ (que foi como inicialmente se publicaram). Também se pode dar o caso de ser mais um exemplo daquela descrição da aristocracia britânica que a Nancy Mitford faz no Noblesse Oblige, com encantadora parcialidade: os aristocratas britâncicos costumam casar com quem estão apaixonados e calha que se apaixonem por pessoas ricas. Mas, lá está, a Lizzie (do Pride and Prejudice) só começa a perceber (e a apaixonar-se) por Mr Darcy depois de ver Pemberley – i.e., de perceber quão rico Mr Darcy era. E a Fanny de Mansfield Park, quando volta a casa dos seus pouco abonados pais, depois de viver com os tios ricos, também conclui que há grandes incómodos na falta de dinheiro.

Claro que para redimir tanto amor pelo vil metal, lá temos a Lizzie que recusa as propostas de casamento de Mr Collins (o herdeiro da propriedade do seu pai) e de Mr Darcy, sabendo que este é rico mesmo que não saiba quão rico. E a Elinor de Sense and Sensibility também não se incomoda que o seu Edward Ferrars perca a sua herança para poderem ter o seu felizes para sempre. (E a própria Jane Austen recusou pelo menos uma proposta de casamento, sendo que tinha ainda menos dinheiro do que as suas heroínas.)

Mas isto não interessa nada, só quem tem a mania de ser crítico literário mas não percebe patavina do assunto pode desgostar de ler sobre Jane Austen e Adam Smith, emparceirados ou não. Em todo o caso, este texto foi motivo para arrumar as estantes. A Jane Austen estava ao lado da Nancy Mirford, do Evelyn Waugh, do Thackeray, do Dickens (e dos livros do Harry Potter) e A Riqueza das Nações e A Teoria dos Sentimentos Morais estavam perdidos no meio dos livros de Economia. Finalmente estão reunidos.

Crime e castigo. Ou, se quiserem, chamem-lhe karma.

1. Por estes dias houve um fartote anti-acionistas e anti-investidores que um observador desatento terá pensado provir do PCP. Mas não, veio da áera política do governo, supostamente de direita. E se pensam que este enjoo e desprezo pelas pessoas que são capazes de investir e de arriscar, que caiu que nem ginjas no país pequenino, invejoso, avesso ao risco e que não suporta o sucesso alheio que somos, proveniente da áera política onde era suposto estas pessoas serem valorizadas, não vai sair cara, desenganem-se.

Nos últimos dias houve uma radical atualização dos dicionários. ‘Acionista’ passou a significar ‘criaturas imorais que querem ganhar dinheiro à conta da especulação financeira, desprovidas de qualquer noção de prudência, ignorantes e imbecis que não se informam sobre as empresas onde investem e, simultaneamente, ignorantes e imbecis por se informarem e aceitarem como boa a informação de reguladores e governo que são quem tem a melhor informação; ainda: gente que merece tudo de mal e é bem feita que regulador lhes tenha mentido para aprenderem a não se julgarem melhores do que os outros e capazes de arriscar e ganhar dinheiro’.

Poupanças, em vez de significar a proção do rendimento com que as famílias ficam depois das suas despesas de consumo, passou a significar não sei bem o quê, talvez umas notas que se enfiam numa peúgas velhas e se escondem num fundo de cómoda, porque o dinheiro que se gasta na compra de ações não é ‘poupanças’ – será certamente proveniente de transferências interplanetárias de marcianos bondosos.

Posto isto tudo, pergunta 1: Portugal (e pelos vistos a UE ao assumir o modelo BES para salvar bancos) tornou a compra de ações de bancos um negócio mais arriscado (e dos outros setores também, porque se intitucionalizou a arbitrariedade estatal e a expropiração como princípio de governo). Logo, os investidores só vão aplicar as suas tais transferências interplanetárias se a rentabilidade esperada tiver também aumentado. Julgam que isto não vai – mesmo depois dos mercado acalmarem do choque BES – tornar mais difícil a capitalização dos bancos?

Pergunta 2: acham que o dinheiro que os investidores aceitam alocar à compra de ações de um banco (tornando-se assim acionistas, essa gente moralmente viciada que joga na bolsa e que Ribeiro e Castro certamente também reprovará) não influencia decisivamente a capacidade dos bancos de financiar a economia? Aquela coisa que é necessária para o crescimento económico?

Continuem a destratar e a desvalorizar como se destrata e desvaloriza em Portugal – e nos últimos dias se exponenciou, e à direita – quem tem capacidade e vontade de investir e depois queixem-se. Continuem a pensar que quem tem dinheiro para investir fica cá a insistir que os deixem investir e a pedir que os tratem bem e que gostem deles, em vez pegar as poupanças/transferências interplanetárias e as investir onde estas sejam bem acolhidas, e depois espantem-se com o resultado que andam a cozinhar.

2. A solução da semana passada foi a melhor ou, sequer, a possível para os cidadãos como um todo? Não sei. Sei que não confio em Carlos Costa, nem em Maria Luís Albuquerque nem em Passos Coelho. O primeiro está a ver se se escapa da imagem de incompetência, incúria, negligência, etc. que adotou nos últimos tempos face ao BES. Os segundos estão a tratar da sua imagem política e são tolos o suficiente para julgarem que uma expropriação lhes trará votos à esquerda, e para confiarem que a imagem de implacáveis lhes ganhará o apreço dos eleitores. E todos enganaram os mercados – e os cidadãos – sobre a situação do BES.

salmão(A imagem é da próxima encarnação do trio maravilha do parágrafo acima: salmões de aquacultura.)

O estado está demasiado ocupado para poder vigiar bancos

O meu texto de hoje no Observador, surripiando histórias ao Helder.

‘Há dois organismos estatais pelos quais eu nutro um amor desmedido: a ASAE e a Autoridade para as Condições de Trabalho. São duas ‘autoridades’ (só o nome incita à rebelião) dedicadas à mais nobre função do estado português: multar empresas – mesmo (ou sobretudo) quando as empresas não têm comportamentos lesivos para consumidores ou trabalhadores. Manda a seriedade dizer aqui que por ‘comportamentos lesivos’ não estou a considerar a definição de ‘lesivo’ do estalinista médio, para quem a mera existência de empresas e consumidores já é lesiva.

Para ilustrar a ASAE socorro-me de casos que o blogger Helder Ferreira contou sobre clientes seus que foram multados aos milhares de euros. Os pecados fulminantemente mortais? As etiquetas do preço de umas carteiras estavam dentro das próprias carteiras, um sinal de proibido fumar estava pousado num móvel em vez de afixado na parede e óculos exibidos num expositor fechado cuja etiqueta com o preço (são pequeninas) não era visível fora do expositor.’

O resto está aqui.

A direita e os liberais dos depósitos a prazo

Nuno Garoupa no facebook:

‘Conclusão: entre os 30 mil pequenos accionistas que assumiram um risco tendo em conta a informação que lhes foi prestada de forma continuada e insistente pelos reguladores (e auditores) durante meses e os reguladores (BdP e CMVM) que mais uma vez falharam o dever de supervisão e transparência de informação no mercado, a direita dita neoliberal e com profunda admiração pelo mundo anglo-saxónico, a direita dita do capitalismo popular (pelo menos aquela que se publica) decidiu glorificar os reguladores (“foram enganados”) e culpabilizar os pequenos accionistas. Porreiro pá!’

Até nestas coisas somos pequenos e provincianos. Há por aí gente muito contente porque, finalmente, deixámos falir um banco e os acionistas perderam tudo. Já somos um país capitalista à séria, olé! O pormenor do banco não ter falido – mas, sim, o estado ter saqueado os tais ativos bons (pelos quais os acionistas eram tão responsáveis como os ativos maus) -, do regulador e até a ministra das finanças terem andado nas últimas semanas a mentir aos credores, depositantes e acionistas sobre a situação do BES, e de ter sido o regulador a permitir que os autores do que sabia ser um ‘esquema fraudulento’ continuassem a gerir o BES mesmo depois de estarem avisados de que seriam afastados, levando a que esses autores pudessem praticar os atos que irremediavelmente ditaram a nacionalização – tudo isto não conta nada. Estamos tão contentes por já sermos um país a sério que deixa acionistas perderem o valor das suas ações (como se isto fosse algo inédito, mesmo por cá) que até temos quem anda a elogiar e a desculpar o BdP e a CMVM.

E estas maravilhosa reações não vêm da extrema esquerda, vêm da suposta direita. Já sabemos que para a ‘direita’ portuguesa, oh tão amiga do mercado, os acionistas devem investir aceitando o risco de terem o estado a mentir-lhes e, depois, a expropriá-los. Se não gostam, azarucho, é por o dinheiro debaixo do colchão. Ou bem que aceitam todo e qualquer risco, mesmo o de serem saqueados, ou bem que não brincam aos investidores. E vão esperar, certamente, que comportamentos destes sejam benéficos para os investidores. Por cá já sabemos que a regulação/supervisão é uma nódoa e que o estado, para coroar a nódoa, expropria. Vão vir charters de investidores para os bancos portugueses, oh se não vão.

Eu até posso perceber que se defenda o que foi feito como um mal necessário, como uma contenção de danos. Mas quem louva a medida que aceite o que defende: uma total arbitrariedade do estado e um total desrespeito pelos direitos de propriedade. Não finjam, por favor, que são diferentes de Louçã quando defendia a sua reestruturação da dívida que implicava também uma enorme expropriação da propriedade. O conceito é o mesmo: toda a riqueza produzida e todos os ativos são do estado, que decide depois a quem benevolentemente deixa que continue a detê-los (por mais um bocadinho).

E, vá lá, tenham algum pudor: parem de aconselhar aumentos de poupança das famílias, porque quando o estado trata assim os investimentos, que resultam das aplicações de poupanças, pode estar a fazer muita coisa mas não está a incentivar a poupança. Ou então devem fazer como certamente esta direita amiga do mercado faz: investe, nos seus momentos mais aventurosos, em depósitos a prazo. Que é àquilo que querem reduzir os produtos financeiros, porque que quando há quebra de confiança e má-fé no nível em que houve (do regulador e do estado), produtos mais sofisticados não florescem. Enfim, não é do mesmo material desta direita amiga do mercado que são feitos os empresários schumpeterianos. Ou, como diz o Helder no twitter: ‘Fazem questão de parecer burros ou é mesmo feitio?’ (E, já agora, mais este: ‘Esta solução p o BES é institucionalizar o roubo. Há sempre qm roube (ver Salgado) mas ser o estado a roubar descaradamente é outro assunto’).

sarongMas, por mim, tenho algo a agradecer ao governo. Eu poderia ser tentada a engolir um sapo de um tamanho de um elefante e ir votar num dos partidos do governo ou numa eventual coligação, mesmo que isso me deixasse um sabor amargo a cicuta ou arsénico durante dias. Depois disto, será tão provável votar nesta gente como votar na reencarnação de Vasco Gonçalves. Decidam lá quando vão ser as eleições sff, para eu ir programando as minhas férias para o ano. No cenário ideal, estarei, sei lá, na Ásia do Sueste a reabastecer-me de sarongs enquanto por cá se vota.

Do conceito de ‘perder tudo’

Acho muito engraçado que se oiça e leia por aí que os acionistas vão ‘perder tudo’ com esta intervenção estatal (olaré! bem feita! devem ser estes a pagar os disparates do regulador/supervisor! e agora até perdas dos acionistas decididas pelo estado são sinais do ‘mercado’ a funcionar! enfim).

Era só para lembrar que a cotação das ações do BES, a 9 de abril de 2014 (escolhido mais ou menos ao acaso), era de 1,359€. Na 6ª feira, quando as ações foram suspensas, a cotação das ações do BES andava à volta dos 0,125€.

O que se passa agora não é que os acionistas vão ‘perder tudo’, porque já perderam quase tudo o que tinham a perder (tenham vendido ou não). O que se passa é que até aqui os acionistas tiveram perdas legítimas determinadas pelo mercado e agora vão ter perdas ilegítimas decididas pelo estado.

Mais notas ficam para depois, que ainda não digeri a esperteza saloia toda deste governo e não consigo comentar as explicações auto-justificativas de Carlos Costa.

Os bodes expiatórios do governo ‘de direita': os capitalistas

Esta conversa de próximos do governo (concretamente Marques Mendes, que aparentemente é simultaneamente porta-voz e pitonisa do governo), e do que se prevê vir a ser a do governo hoje à noite, promete vir a ser um dos pontos mais rasteiros deste governo ‘neo-liberal’.

O que tem piada é que mesmo quando tenta dar ares de liberalismo – um governo que não usa dinheiro dos contribuintes para salvar um banco – não consegue livrar-se dos tiques da esquerda portuguesa (que, como se sabe, incui a direita). O ar de orgulho com que se diz que se vão sacrificar os accionistas – essa gente malvada capitalista, que ganha dinheiro (exceto quando o perde) pela aplicação do seu capital (obtido sabe-se lá por que aleivosia e desonestidade) sem dispender um grama de suor como fazem todos os trabalhadores honestos, e de quem, em boa verdade, estaríamos bem melhor se nos conseguíssemos livrar – é do mais soez que tenho visto. E, a concretizar-se, vai garantir que não vote em nenhum dos partidos do governo, que para o peditório da retórica anti-capitalista nunca dei e não vou dar.

O que não tem piada nenhuma é que a maioria dos acionistas do BES são gente que, por muito informada que fosse, por muito que participasse em assembleias gerais, por muito que consultasse os documentos públicos do BES, não tinha peso para nomear representantes para o conselho de administração, não tinha acesso a informação privilegiada e confiava no que diziam os reguladores do setor para tomar as suas decisões de investimento. Sejamos claros: o Banco de Protugal tem muito mais responsabilidade no que sucedeu do que qualquer acionista que, com poucas ou muitas ações, estava longe de poder influenciar o BES ou avaliar o que nele se passava. Para a maioria dos acionistas do BES – que não são nem têm nada a ver com a família Espírito Santo – ao usual risco de qualquer investimento bolsista afinal acrescentava-se o risco, desconhecido, de uma supervisão incompetente e negligente que continuadamente assegurou que estava tudo bem. Recordo que o BES teve um aumento de capital há muito pouco tempo, o Banco de Portugal obrigou a um panfleto onde se reconheciam irregularidades aparentemente pouco graves mas BdP e CMVM sancionaram o aumento de capital de um banco cuja situação tinham obrigação de conhecer. Porque das duas, uma: ou as auditorias aos bancos são um proforma para enganar os tolos (o que, com tanto caso estranho envolvendo bancos, não espantaria) e, nesse caso, o BdP e CMVM já deviam ter tomado medidas para credibilizar as auditorias; ou as auditorias revelaram as negociatas pouco recomendáveis e BdP e CMVM ignoraram-nas. Também não se entende como, percebendo-se a extensão da má gestão, não foi suspensa de imediato a anterior administração do BES e suspensos todos os movimentos entre o BES e todas as empresas e pessoas ligadas à família Espírito Santo.

Em suma, acho muito bem que o estado não socorra investidores privados. Mas também gostava de viver num país onde os cidadãos pudessem processar reguladores que transmitem para os mercados informações erradas, bem como o estado que lhes delega funções de regulação, e serem indemnizados pelas percas provocadas por esses erros, incompetências, negligências o que for.

O cabo das tormentas – que o PS ainda não passou

À ‘narrativa’ socrática segue-se agora – e com qualidade igual – a ‘narrativa’ costista da crise que vivemos no país. Como muito bem conta – e desmonta – no i o Pedro Braz Teixeira, os 3 horripilantes choques de que se queixa António Costa e que considera terem trazido uma crise inevitável a Portugal – porque os governos socialistas não tiveram culpa nenhuma do sucedido – podiam ter sido acautelados. Mais: o partido que governava por essas alturas, e que poderia ter tomado medidas para que Portugal não estivesse tão vulnerável quanto Costa diz que está, era o PS. Durante uns tempos em que Costa fez parte do governo.

É certo que, tendo os portugueses votado duas vezes em Guterres e duas vezes em sócrates para nos governarem, os socialistas (que conhecem bem as peças) têm razão para tomar os eleitores portugueses como parvos. Ainda assim, tanto escândalo, tanto choque, tantas tormentas, tantas susceptibilidades de Costa perante as consequências do Euro, do alargamento da UE e das exportações chinesas é levar a desfaçatez a um novo patamar.

Alguém ouviu alguma vez reservas do PS, do europeísta e até em alguns casos federalista PS, ao alargamento da UE? Quando, antes de 2008, o PS se queixou do desenho do euro? Eu só me lembro de o PS ter ido sempre a correr atrás dos juros baixos que o Euro nos proporcionou e ter aproveitado para se endividar como se não houvesse amanhã. Se não sabiam que o euro também tinha risco, bem, a ignorância (não só da lei) a ninguém deve aproveitar; eu tive aulas com Cavaco Silva quando estava na licenciatura e recordo-me de que referiu detalhadamente todas as desvantagens da moeda única; se Cavaco Silva estava consciente dos riscos, socialistas com responsabilidade governativa só não tinham conhecimento deles se tiverem sido criminosamente irresponsáveis e negligentes. E a abertura da China e o que se seguiu só espantou quem não tinha dois neurónios funcionais. O senhor meu pai estava na China em 79, um ano depois do início das reformas de Deng Xiaoping, para ver o que era aquilo; é verdade que de forma nenhuma sócrates e Costas se podem comparar com o meu pai, mas as consequências da abertura à China eram visíveis até a produtos menores.

Enfim, esta postura de donzela escandalizada de Costa perante situações que toda a gente previa que trariam benefícios e, também, desafios – no fundo: tanta converseta para desviar as atenções do que nos trouxe até à situação de 2011 – só mostram que o que podemos esperar do PS (pelo menos do PS se Costa ganhar) é extamente o mesmo PS que tivemos até aqui. Um dia poderá haver um PS crítico sobre si próprio; mas, para já, ainda não. Tratemos, portanto, de cuidar da nossa vida tendo isto em conta: no PS será tudo igual ao que foi até aqui. Quem puder, emigre; quem está emigrado não regresse; quem tem dinheiro investido ou para investir, trate de descontar um governo liderado pelo PS nas suas decisões de investimento – e por aí adiante.

Surpresa! A personalidade do político conta.

O meu texto de hoje no Observador.

‘O PS é um partido cómico. Nos últimos meses qualquer socialista que se preze parece ter tomado para si as dores de entreter o país. O último motivo de risota é terem dado em sugerir-nos que avaliemos as capacidades pessoais de Costa por oposição às suas ideias. E por que é isto tão divertido? Eu explico.

Lembram-se daqueles tempos longínquos em que os portugueses eram compulsivamente felizes, o governo ainda não fora tomado (através de magia negra) por malfeitores que têm como ambição empobrecer o país, quando havia dinheiro a rodos para distribuir o brinquedo Magalhães e colocar nas escolas candeeiros e torneiras de designers de topo (a expensas da Parque Escolar – e do contribuinte)? Tempo de governação competente que terminou num resgate da troika, mas só porque pessoas que nos costumavam emprestar dinheiro – os patifórios – deixaram (graças ao vudu) de o fazer?

Também se recordam, nesse tempo glorioso, de um ou outro caso mediático que envolvia o primeiro-ministro Sócrates em situações onde não fica bem um pm estar envolvido? E do rasgar de vestes dos apoiantes de Sócrates pela campanha pessoal que se fazia contra o distinto pm? E do enfado moralista porque se discutia o primeiro-ministro em vez de apenas as suas políticas?’

O resto está aqui.

(Des)Amor com (des)amor se paga

Israel – como tudo na vida – não está acima de críticas. Nem na atual guerra com o Hamas em Gaza nem nos intervalos das erupções violentas. E tem lá dentro os intoleráveis judeus ultra-ortodoxos que são tão agradáveis para o género feminino (dou três exemplos) como as gentis almas que compõem o Hamas. Mas confesso que me espanta como há tanta gente que tem bitolas tão distintas para os dois lados. Israel não pode atacar (como faz agora e em resultado de ataques sofridos) mas também não se pode defender preventivamente (ai Jesus que construiram o muro); Israel não pode atacar mas ninguém se lembra que do tempo em que iam mandar os judeus ao mar (propósito que ainda tem o Hamas), das guerras que o lado palestiniano provocou e dos boicotes a qualquer tentativa de uma paz negociada – e tudo em prol de jogos de poder entre Hamas e OLP (e dentro de cada um), da manutenção de esquemas de corrupção que enriqueceram os líderes da OLP e para distrair os palestinianos da negligência e incompetência e corrupção dos governos de OLP e Hamas.

Já com o Hamas a complacência é total. A indignação com as mortes civis (e sobretudo de crianças) dirige-se toda para o exército israelita, mas o facto do Hamas preferir o apelo propagandístico das mortes de crianças e civis pelos israelitas, localizando-se onde faz mais mossa à população civil em caso de ataque, em vez de proteger os civis de Gaza já é de todo irrelevante e não lhe atribui nenhuma culpa na morte dos referidos civis. A pobreza em Gaza não interessa, os desrespeito pelos direitos humanos das mulheres likewise. E para o que acontece ao mesmo tempo na Síria e nos locais controlados pelo ISIS olha-se para o lado, que não é conveniente haver outros concorrentes à indignação que se quer oferecer toda a Israel.

Eu, se tiver de escolher lados, fico com Israel. Tem erros, tem exageros, tem mão militar pesada. Mas não festeja as vítimas do outro lado, não sacrifica vidas civis do seu lado à propaganda, não só não tem um total desrespeito pelas vidas do lado inimigo como não pretende provocar o maior número de vítimas – é isto o Hamas. Que, além disso, defende coisas que me são aberrantes. Aprecio tanto o Hamas como lá valorizam o que eu sou e represento: uma mulher ocidental independente.

Uma boa leitura para estes dias – e porque os dramas humanos naquela zona não começaram agora – é o Oh Jerusalem, da dupla Larry Collins e Dominique Lapierre. (Livro sobre o qual escrevi no primeiro jornal que deu guarida a textos meus – o Notícias do CUPAV – depois do assassinato de Ytzhaz Rabin, que era referido no livro nos seus tempos do Palmach, a 4 de novembro de 1995. Lembro-me perfeitamente de ter sabido desta notícia numa área de serviço da A1, já bem de noite no regresso de Coimbra, onde tinha ido à festa de 20 anos do CUMN.)

oh jerusalem

Educar como na família Kennedy

A minha deriva maternal hoje no Observador.

‘Há uns anos li na Vogue um texto sobre Rory Kennedy, a filha mais nova de Ethel e Robert Kennedy, a propósito da realização do documentário Ethel, com o ponto de vista da sua mãe dos eventos que viveu e presenciou. Ou mais ou menos; vi o filme há dias e o ponto de vista é só da senhora de RFK. Às tantas, sobre a sua educação no meio de 11 irmãos, dizia Rory (tradução minha) ‘Eu tento educar cada um dos meus filhos [tem 3] como se fosse o décimo primeiro. Penso que ignorá-los e dar-lhes espaço para fazerem as suas coisas é uma boa abordagem’.

Esta opinião volta-me de tempos a tempos. Sucede sempre que leio aquelas intermináveis listas de conselhos para pais – escritas, estou convencida, por malfeitores com desígnios que ainda não desvendei – que nos informam o guião infalível para criarmos filhos bons alunos a matemática, filosofia, astrofísica e grego antigo, com capacidades de liderança, sociáveis, não influenciáveis pelos seus pares, enfim, perfeitos e destinados a ocuparem os mais altos cargos de cada nação.

O resto está aqui.

Hasta la Virtude, siempre!

casino lisboaVenho aqui dar o meu apoio público a Ribeiro e Castro, senhor que quer impedir que o vício e a imoralidade estejam apenas a um clique de distância. É certo que não entendi bem a lógica de se considerar o jogo um mal a ser combatido, mas já se admitir que este mal exista desde que ninguém ganhe dinheiro com ele ou que os lucros de tão hedionda atividade sustentem programas sociais. Afinal anda o estado a promover o vício de uns pobres coitados dados a desbaratar o seu dinheiro, explorando-os de facto, para ter dinheiro para acorrer a outros fracos que ou não têm dinheiro ou o desbaratam de outras formas (eventualmente até da mesma)? Usar o vício de uns para ajudar outros é um comportamento moral do estado, é isso? Ah, bom, estamos sempre a aprender.

Pequenas perplexidades à parte, estou com Ribeiro e Castro: é necessário promover a virtude e travar qualquer medida ‘liberal’ (batam na madeira 3 vezes, sff). No caso concreto, concordo que se deve impedir a todo o custo as pessoas de disporem do seu dinheiro como entenderem – se o entendimento for arriscarem no jogo esse dinheiro. Mas há muita atividade e muitos comportamentos indutores de vício e imoralidade por aí e Ribeiro e Castro não lhes presta a devida atenção. Assim, vão aqui algumas propostas que Ribeiro e Castro pode aproveitar e que promoverão um aumento da moralidade pública.

1. Encerrar bares e discotecas, locais pecaminosos onde homens e mulheres contactam e se conhecem, sabe-se lá com que intenções.

2. Encerramento de redes sociais, onde se conectam pessoas que sem esses veículos ficariam sossegadas em suas casas.

3. Prevenção atempada do vício do jogo: proibição do ensino dos pais aos seus filhos da bisca do três e do keims.

4. Ao abrigo da lei do esquecimento, dar ordem aos motores de busca para apagarem todas as referências ao ‘grupo da sueca’ dos tempos de Cavaco enquanto pm.

5. Sobre indústria pornográfica nem preciso de me pronunciar: é banir tudo.

6. Encerrar locais onde se albergam espetáculos de striptease, sejam os strippers membros das forças de segurança ou não.

Ou, em alternativa, nacionalizar todas estas atividades e usar as suas receitas nos tratamentos do stress pós traumático provocado nos professores por se submeterem àquela experiência reminiscente de viver quatro meses numa zona de guerra e a que normalmente chamamos ‘testes’. (Também se pode aproveitar, de caminho, para comprar e enviar a Mário Nogueira os dvds do Poirot, para o senhor aprender o que é um bigode decente. A estética noticiosa televisiva teria muito a ganhar se Mário Nogueira aproveitasse essa pequena formação.)

Da um caso em que se merece uma cobertura de alcatrão e penas

Também venho aqui opinar sobre a gente maravilhosa e, sobretudo, liberal, a propósito das medidas verdes que o ministério do ambiente quer implementar. Em boa verdade nem vale a pena gozar com isto do ‘liberal’, porque Moreira da Silva era aquele senhor que nos congressos do PSD reagia indignado face às maldosas acusações ao PSD de que este seria um ‘partido liberal’ e, além disso, Moreira da Silva tem escrito na testa ‘sou um socialista retinto’ e só ainda não tinha reparado quem esteve muito distraído.

Não vale a pena gozar mais com esta gente, porque o José Meireles Graça já a cobriu do que merece: de ridículo (em dois takes). E os Andrés também já disseram coisas pertinentes.

Venho, por isso, apenas aludir aqui à dimensão da loucura desta gente que nos governa. E pego nos sacos de plástico e na taxa proposta de 0,10€ para cada saco.

Na minha empresa durante muito tempo comprámos sacos iguais àqueles usados nos supermercados à razão de centenas de milhar por ano. O custo dos sacos andava à volta de 1$00 – meio cêntimo de euro. Isto era o preço de venda das empresas que produzem estes produtos. O custo com cada saco era, evidentemente, inferior. Os supermercados – pequenos ou grandes – comprarão uma quantidade bastante maior em cada ano e este é o tipo de produto que o aumento da quantidade embaratece o custo individual. Assim, mesmo aceitando que preço destes sacos de supermercado aumentou consideravelmente (não faço ideia se foi assim), por cada saco as empresas de distribuição não pagarão mais de 1 cêntimo por saco. Again: o custo dos sacos para as empresas produtoras – e este custo evidentemente incorpora a quantidade de matérias primas usada na produção – será ainda inferior.

As empresas que cobram aos clientes cada saco costumam vendê-los por 5 cêntimos – o que é uma roubalheira mas só compra quem quer – e as outras que não cobram diretamente pelos sacos evidentemente incorporam esse custo no preço daquilo que vendem.

Como o estado – que de facto tem em Moreira da Silva um digno representante – nunca tem vergonha de ir além daquilo que é uma roubalheira nas empresas privadas, propõe uma taxa de 10 cêntimos para cada saco de plástico. Sim: temos um governo que propõe uma taxa sobre um produto que é mais de dez vezes o custo desse produto. Custo esse que, repito, inclui a porção de recursos usados na sua produção.

Além de só gente doida varrida propor uma taxa que é várias vezes o preço do produto taxado, há que ter em consideração que os sacos de supermercado são geralmente reutilizados como sacos para o caixote do lixo. (Eu, durante anos, usei-os também para vedar cheiros das fraldas das minhas crianças.) Pelo que se os consumidores deixassem de trazer sacos do supermercado, iriam comprar o mesmo número de sacos para colocar nos caixotes do lixo ou para fraldas ou para outra coisa qualquer, gastando-se assim o mesmo número de sacos e de matérias primas usadas para produzir sacos. A diferença é que os consumidores teriam de gastar mais dinheiro em sacos.

Por isso o estatista Moreira da Silva que não pretenda com esta medida qualquer benesse ambiental. Quer, como sempre, desviar custos dos consumidores para o estado. Resta-nos a esperança de que o CDS honre o voto de muitos, inviabilize estas maluquices ambientais e faça Moreira da Silva perceber que o melhor outlet para as suas ambições de justiceiro ambiental é criar num canto de sua casa um altar para rezar a Al Gore.

 

Porque no sábado à noite fui ver o Yves Saint Laurent

yslQue nem foi dos meus criadores preferidos (nada ultrapassa a estética anos 30 da Chanel ou as criações fabulosas do Tom Ford – que tem aquele dom raríssimo do toque de Midas: tudo o que cria é bom e belo, desde carteiras e perfumes ao cinema; acho que nem que se esforçasse criaria algo sem qualidade). Os anos insolentes de YSL foram antes do meu tempo e, de quando me lembro, o costureiro já estava demasiado institucionalizado. Mas YSL tinha, como eu, a mania de misturar cores fortes. Por isso, sempre que faço o mesmo (como hoje, que estou de jeans rosa schiaparelli, túnica roxa e casaco verde água), posso dizer que YSL foi o meu mentor.

(Além de que também gosto muito de Piet Mondrian.)

Misoginia e falta de juízo

O meu texto de hoje no Observador, sobre maravilhosos ditos e sentenças de juízes em casos de violações e de abusos sexuais a menores.

‘Hoje trago casos em que a realidade imita a ficção.

Parte da ficção vem dos livros de Nancy Mitford e de uma das suas personagens: Lord Alconleigh, fidalgo de província que servia como magistrado. O método usado para determinar a culpa dos supostos meliantes que lhe apresentavam era simples e tornava desnecessárias maçadas como provas, testemunhos, interrogatórios e contra-interrogatórios; bastava ponderar se o acusado tinha ou não cara de criminoso. A simetria facial e a forma mais ou menos ameaçadora das sobrancelhas sentenciavam a pena ou a absolvição.

Claro que, agora na realidade, nenhum juiz cai no exagero de determinar sentenças baseando-se nas feições dos acusados. Têm um método ainda mais infalível: decidem com base no sexo dos queixosos. Porque toda a gente sabe (ou, pelo menos, os juízes sabem): as mulheres são mentirosas. Capazes de inventar qualquer historieta alucinada para destruir a vida de um coitado do sexo masculino. De os levar à loucura, à aplicação de uns sopapos (que eles nem queriam) e, de seguida, ainda vão para os tribunais caluniar um homem.’

Em defesa da direção patriótica do BE

Venho aqui dar o meu apoio público à direção do BE, que apesar de tudo tenta prestar o melhor serviço ao país que consegue, mesmo pagando o preço de purgas, deserções e afins. (Haver purgas e deserções, na verdade, é apenas um caso de respeitar a tradição dos partidos extremistas de esquerda, pelo que os tradicionalistas ficam certamente embevecidos com esta coerência bloquista.) É mesmo um caso claro de no good deed goes unpunished. Fações e pessoas conhecidas – Daniel Oliveira, Rui Tavares, Ana Drago – têm saído do BE, em discordância com a política das direções de não participação em governos e de não se aliarem ao PS. (Reprimam os apupos por ideias tão aberrantes, sff.) Como qualquer pessoa com juízo entende, de facto quando se têm as ideias políticas com o potencial destrutivo da economia, dos mais basilares direitos dos cidadãos (o direito à propriedade privada, desde logo e como se viu na bomba atómica disfarçada de proposta de reestruturação da dívida que Louçã patrocinou), da confiança que os cidadãos podem ter uns nos outros e nas instituições, enfim, de tudo – nestes casos, a única posição decente que os portadores destas ideias podem ter é mesmo ficarem o mais longe possível de um governo. Devemos, portanto, agradecer à direção do BE e pedir-lhe que se mantenha inflexível nesse ponto. Entre o BE e as cabecinhas de Oliveira, Tavares e Drago – que não se distanciam do caos e destruição que o BE propõe, a única diferença é que querem mesmo implementá-lo em vez de apenas brincarem com a ideia – não hesitemos em elogiar a auto-exclusão do BE. O partido está a dizer-nos que o melhor que pode suceder ao país é não governar e eu não vejo motivo nenhum para não acreditar nisso. Além de que aprecio sempre que as pessoas sejam sinceras sobre as suas próprias limitações.

Tintinólogos do mundo, uni-vos

Vão a correr ler este texto maravilhoso do Paulo Tunhas no Observador, quase todo sobre Tintin – e Hergé (como se se pudesse escrever sobre um sem escrever também sobre o outro). Eu tenho mais ou menos a mesma relação com os livros do Tintin: when the things get tough, quando não há paciência para absolutamente mais nada, (re)lê-se os livros do Tintin, a melhor psicoterapia à disposição da humanidade.

blue lotusAcrescentava só um pequeno ponto, que é talvez o mais agridoce dos livros do Tintin: as suas incursões pela política. Destaco duas. A primeira do Lótus Azul, onde Hergé mostra a China repartida, não só pelas concessões das potências europeias nas grandes cidades (vê-se a de Shanghai) mas também pela invasão japonesa dos anos 30. Hergé foi mesmo acusado de ter escrito um livro político em vez de um livro para crianças. E nisto, como em tudo o resto (o humor, a amizade, os preconceitos,…), os livros de Tintin são de hoje. A China e o Japão continuam em zangas intermináveis à conta de minúsculas disputas territoriais de ilhotas. E não há vez que a China não use a carta ‘invasão japonesa’ e, sobretudo, a ‘violação de Nanjing’. (O Flowers of War, de Zhang Yemou dá-nos o vislumbre do que foi o evento.) Pelo seu lado, o Japão menoriza as atrocidades dos soldados japoneses pela Ásia oriental nos anos 30 e 40, o que enfurece a China e a Coreia. Como de costume, o presente só se entende através do passado – e as visões do passado só se entendem através do presente. E nestes casos de eventos históricos violentos, tal como nos traumas individuais e como diz Dori Laub (que eu estou a notar uma ausência de referências a autores relevantes há bastante tempo aqui no blog, o que me faz temer pelas nossas reputações), os traumas são eventos sem fim.

A segunda é ainda mais desiludida e assassina e calhou ser como termina a série do Tintin. Está no último quadradinho dos Pícaros, com o avião de Tintin e companhia a voar de regresso. Hergé repete a visão da capital de San Theodoros com o avião de Tintin e companhia sobrevoando a cidade antes de aterrar. Nos dois quadradinhos se vêem as lixeiras e as famílias que nelas vivem. Apenas mudaram – depois da transição política em que Tintin participou – os uniformes dos guardas armados que patrulham as lixeiras e os cartazes com o nome do ditador.

picaros

A nossa democracia está na adolescência. Um orgulho.

O meu texto de hoje no Observador: um estudo longitudinal e científico sobre a relação dos media com os candidatos a primeiro-ministro socialistas.

‘Inícios de 2002, numa sala de espera de um consultório ao pé do Marquês de Pombal. Havia uma revista Visão e pus-me a lê-la enquanto esperava pelo (atrasado) médico. Estávamos em campanha eleitoral para as legislativas, depois de Guterres ter fugido do pântano que criou. Na Visão havia duas reportagens. Uma sobre a campanha de Durão Barroso, com o tom trocista que se esperava (o cherne, recordam-se?). A outra, sobre a campanha de Ferro Rodrigues (alguém tão capaz de criar empatia com o eleitorado como o glaciar médio), tinha um tom diferente. Os cristãos mais conservadores não falam de Nossa Senhora como o jornalista falava de Ferro Rodrigues, ser radioso que ostentava todas as qualidades possíveis num ser humano. Quando fui chamada para a consulta, ia com a certeza que o jornalista (nome conhecido, de resto) tinha acabado de escrever o texto com lágrimas de comoção no canto do olho por ter versado sobre objeto tão sublime e ter participado na nobre missão de o dar a conhecer ao mundo.’

O resto está aqui.

My 2 cents

Deixem-me também dar umas colheradas nesta conversa do financiamento do ensino superior. Concordo que tendencialmente o custo dos cursos superiores deve ser suportado pelos alunos e famílias, desde que haja atribuição de bolsas a quem quer e tem notas para frequentar o ensino superior mas não tem família que o pague. E a eliminar-se o financiamento público, terá de se alargar o dinheiro disponível para bolsas. (Algo que penso que é pacífico.)

(E para o que se segue: juro que não fui raptada e substituida por António Arnaut.)

Mas, para além deste ponto inicial, eu recebo sempre com muitas reservas estes aumentos das propinas pagas no ensino superior público, ou das taxas pagas no SNS ou no sistema judicial. Porque apesar de estes aumentos por si só fazerem sentido para o financiamento saudável (e para além de todas as discussões necessárias sobre a possibilidade de escolha nos prestadores de cuidados de saúde), com a extorcionária carga fiscal atual não penso que haja qualquer justificação moral para aumentar o que seja. Com o nível de impostos que pagamos, podemos todos exigir serviços públicos de primeira água sem mais contribuições privadas. Parece-me que defender a racionalidade e a moralidade no financiamento dos serviços públicos do princípio utilizador-pagador, estando tudo já inquinado e distorcido à partida com o saque fiscal a que estamos sujeitos, é apenas ajudar que mais recursos privados sejam transferidos para a esfera pública.

Por mim, enquanto não baixarem impostos não têm apoio para qualquer aumento de qualquer taxa, por muito que isso em abstrato seja justo. Vão buscar os recursos que necessitam para SNS, ensino superior público, tribunais, whatever, ao tal estado que era para reformar e afinal continuou igual, talvez com uns gramas a menos de celulite. E que, neste momento, já está outra vez a correr desvairado em direção ao carrinho dos gelados.

gelados

Ad Majorem Dei Gloriam (ou O Engate) – versão 2.0

Ocorreu ontem, uns graus de latitude a norte de onde estou, a ordenação como padre jesuíta do Paulo Duarte. O Paulo, que eu conheci no CUPAV e que costumava encontrar em aviões – o Paulo era comissário de bordo – ou no aeroporto de Lisboa, ele compostíssimo, elegante e cheio de energia e eu desgrenhada (que, como se sabe, só se emerge gorgeous de 18 horas de viagens de avião nas comédias românticas de Hollywood), com olheiras e o cérebro toldado de uma noite de regresso de Hong Kong passada em aviões. O Paulo, que eu descobri que tinha decidido tornar-se jesuíta na ordenação de outro amigo, o Gonçalo Castro Fonseca – mais um padre heterodoxo, que me proporcionou a melhor experiência da Fontana di Trevi ever (mas sem banhos) e com quem partilhei expedições irresponsáveis como um assalto (sem apropriação ou dano de propriedade alheia, acalmem-se) noturno ao encantador Castelo de Xavier, em pleno País Basco com a ETA em guerra (sim, eu sei que as minhas crianças me farão pagar estas coisas com juros usurários).

Admiro, cada vez mais, a capacidade de entrega e de renúncia de pessoas como o Paulo e o Gonçalo. Também sei o quão apaixonante e envolvente é Deus, sempre pronto a arrebatar-nos (como o Paulo dizia há poucos dias, ‘Deus é irresistível’). E como são gratificantes e prazentosos os momentos de namoro com Deus (também chamados de oração, ainda que nisto, como em tantas outras coisas, eu seja esquisita; contemplação inaciana – que requer tempo e disponibilidade – está muito bem, em coisas como terços não me apanham). Mas as relações longas têm todos momentos espinhosos, um lifelong affair com Deus não é exceção. Não me refiro às zangas com Deus, que são geralmente muito úteis. Não: não me imagino a suportar aqueles momentos, que, dizem-me, todos passam, de secura espiritual e em que Deus aparentemente se esconde, eu que lido tão mal e me melindro com silêncios e ausências e sofro horrores quando as explicações do que não entendo (que é tudo o que me faz sofrer) tardam. Nem, claro, tenho a capacidade de renunciar aos afetos humanos ou aos bens materiais (logo eu que sou tão materialista e me afeiçoo tanto a alguns objetos – não da espécie eletrodoméstico, evidentemente; é mais coisas como as minhas estantes art deco, a mais recente lá em casa adquirida num leilão a um preço indecoramente baixo e que agora alberga os livros das minhas orientalices; o anel e os brincos lindos de morrer com que fui presenteada quando as minhas crianças nasceram; a minha saddle bag street chic de ganga; por aí). Por estas e outras coisas me serem tão difíceis maravilho-me por pessoas como o Gonçalo e o Paulo as aceitarem de coração aberto.

Hoje é dia de agradecer, portanto, o Paulo, o Gonçalo, as suas vocações e aquilo que representam para a Igreja (que também é mais ou menos aquilo que representa o Papa Francisco): padres que não sendo do mundo, estão no mundo e não estão em guerra com o mundo; padres que querem acolher e converter, em vez de quererem fechar a Igreja num grupo de estóicos e puros que aguentam serem cristãos; padres que se ocupam das suas missões e não estão obcecados com a moral sexual; padres que são cristãos e não papistas.

A música é um presente para o Paulo; como contacta muito com refugiados políticos, alguns vindos dos imbróglios do Médio Oriente, parece-me que o tema ‘escravas persas’ é adequado.

Talvez seja um problema oftalmológico, João

Isto

burkae isto

niqab 2é diferente disto

freiraNo último caso eu vejo uma cara. E expressão facial.

E a não ser que aches que abuso sexual de menores decorre de alguma causa associada ao uso de determinada roupa, não vejo o paralelo que estabeleces. (Se bem que até podes achar, e não é argumentação que me repugne, que o abuso sexual por religiosos é potenciado de alguma forma pelo voto de castidade.) Porque o uso de burka não aparece do nada: vem da mesma preocupação de eliminar a possibilidade de desejos sexuais pecaminosos entre homens e mulheres que leva à mutilação sexual feminina; vem, ainda, do estatuto menor que se atribui às mulheres na maioria do Islão e que leva à mutilação genital feminina.

Elas gostam e querem

Uma curiosa forma de niqab que eu só vi no Dubai e que parece um açaime. As mulheres gostam.

niqabTambém fiquei a saber que uma mulher com filhos que veja que não consegue sustentá-los e a si própria só com o seu rendimento e que, portanto, não sai de uma situação em que é alvo de violência do marido, afinal continua com o marido porque gosta de apanhar.

(já estou sem ideias para títulos)

É isto, João, só isto e nada mais do que isto. Apesar da lei em França estar a ser aplicada há anos, não sei como não temos tido notícias apocalípticas sobre as coitadas das mulheres que foram obrigadas a mostrar ao mundo as maçãs do rosto. E se as burkas fossem roxas, eu seria uma grande apoiante. (Já agora, esta do uso da burka como rejeição do ocidente é um pouco estranha, não? O que faz uma mulher no Ocidente a afirmar que rejeita o Ocidente? E porque tem ‘o Ocidente’ de acolher e acatar os valores e as afirmações de quem rejeita o Ocidente? É a questão da imigração e da recusa de integração destas comunidades, que não se consubstancia só nesta questão da burka, que eu entendo que também não se deve permitir. Sou uma nazi.)

Já agora para tornar a conversa ainda mais surreal, dei por mim a pensar nas turistas muçulmanas que se cobrem por esse mundo fora. Se em Londres se vê mulheres de burka com a pele e olhos claros das inglesas que andam de niqab (de burka não dá para ver nada do que são) que têm olhos bonitos (ainda que não maquilhados) e são elegantes, já as turistas muçulmanas que andam cobertas não costumam ter olhos bonitos e são tendencialmente volumosas. Onde é que quero chegar (se a algum lado)? Que me parece que, quando no Ocidente, os maridos muçulmanos não se importam de exibir que têm uma (ou mais) mulher bonita – como, de resto, qualquer homem – deixando-a descobrir-se. (E não vejam nisto qualquer arrufo feminista contra a exibição de mulheres, que eu acho ótimo exibirmo-nos todos uns aos outros e antes ser objeto sexual do que andar de burka).

Acrescento: ó Vítor, sinceramente, mas que disparate! Percebo que achas que quem usa burka o faz porque quer usar burka – Vv. aí no Blasfémias sabem estas coisas, apesar de eu já não poder saber que as mulheres não querem usar burka, e se a lei diz que as pessoas são livres então as pessoas são livres, não têm qualquer condicionamento para além da lei (Deus meu). Mas seguindo o teu argumento (e referi porque faz sentido proibir que as pessoas andem nuas na rua, se a lei tem outro argumento, o meu é o que eu apresentei) se um indignado se queixar de alguém que anda de burka já está tudo bem, é isso? E já que foste buscar o exemplo absurdo do cigano, também achavas bem que alguma comunidade – por pressão social, económica, whatever – obrigasse os membros de uma etnia ou nacionalidade a identificarem-se com uma braçadeira, um sininho, o que fosse? E ficavas descansado se essa etnia ou nacionalidade acatasse a exigência da comunidade por falta de capacidade económica para a recusar, por exemplo? Como está na lei que uma pessoa não pode obrigar outra a usar braçadeira, sininho, etc, estava tudo bem para ti? (É tão bom ver o mundo quadriculado.)