Syriza: um governo de medricas (qual governo que faz frente à Europa toda, qual carapuça)

filas grecia atm(o sucesso do Syriza, segundo os critérios da esquerda lunática nacional)

Estou como a Helena Matos (que bom texto), um tanto irritada por perder tempo com estes pantomineiros gregos (e as sucursais nacionais), e estou apertada com prazos para escrever outras coisas, mas tem de ser. Ora vamos lá.

1. O referendo às propostas das ‘instituições’ é algo que faz muito sentido, e não me venham com argumentos ‘a questão é muito técnica, os pobres e vulgares cidadãos gregos não percebem nada’. Tanto percebem que acorreram às caixas multibanco para levantar euros, membros do parlamento grego incluídos. Faz-me todo o sentido perguntar a uma população se quer cortes de despesa e aumentos de impostos para continuar a ter financiamento externo. O que já é evidente chantagem e má-fé do governo grego é marcar o referendo para DEPOIS de a Grécia já ter falhado um pagamento ao FMI, estar em default e falida. E, como é óbvio e diz a adulta Lagarde, quando já nem se mantêm as propostas das ‘instituições’. Se Tsipas e Varoufakis tivessem negociado seriamente nestes cinco meses, em vez de engonharem e escreverem no twitter e apostarem em deixar a decisão para o limite a ver se a UE tremia dos joelhos e ajoelhava perante as imposições gregas – e sim, aqui quem tem feito imposições é a Grécia, que pretende ter o dinheiro dos outros segundo o diktat grego – e, de seguida, levassem a necessária austeridade a referendo, teriam sido políticos sérios (mas, quiçá, a seriedade é um conceito burguês e reacionário). Com este timing, apenas se trata de chantagem, manipulação e desonestidade. (E o BCE, ainda assim, vai continuar a ajudar a Grécia. Se isto não é solidariedade europeia, não sei o que é.)

2. Não dei por tanques prussianos junto às fronteiras terrestres gregas, nem que tivesse sido imposto um bloqueio marítimo na extensa costa grega. Ninguém está a obrigar a Grécia a nada. A Grécia tem toda a soberania para decidir recusar as propostas dos que estão dispostos a financiá-la. Não quer a austeridade imposta pela troika, não tem; como se vê, nenhum país se prepara para invadir a Grécia caso recuse financiamento das ‘instituições’. Não há, portanto, nenhum ataque à soberania grega. Claro que se recusar a austeridade da troika, terá a austeridade do default. E se sair da posição de ‘lacaio de Merkel’ (que pelos vistos tem quem não sofre de pulsões suicidárias) tornar-se-á lacaio de Putin – mas quanto a isso já se percebeu que Tsipras não tem grandes problemas.

3. E a falta de solidariedade europeia, que tanto apoquenta os corações da boa gente da esquerda lunática nacional? Eu, por mim, estou de consciência tranquila. Estive uma semana o ano passado de férias na Grécia, este ano planeio ir lá mais uns dias e não vejo maior solidariedade com um país do que decidir livremente gastar nele o meu dinheiro. A crise humanitária grega até teve a simpatia de se ocultar enquanto eu por lá andei, a ponto de não a ter vislumbrado. E eu sou daquelas pessoas sensíveis a imagens de pobreza, ir à Índia para mim é um tormento (da única vez que lá fui de férias perdi o sono durante alguns meses, e isto não é força de expressão; e das vezes que lá ia em trabalho fazia por estar fechada no hotel o máximo tempo possível), recuso-me a ir à África subsahariana, e não consigo apreciar o pitoresco de hordas de pedintes. Quanto ao resto, era o que faltava qualquer porção do meu dinheiro contribuir para manter gastos militares gregos (onde ‘as instituições’ pedem o dobro das poupanças que pretende o governo grego, ao contrário da notícia que por aí circulou) ou para sustentar a tv pública syrízica de propaganda ou para pagar pensões gregas mais elevadas do que aquela a que eu, um dia, com sorte, terei direito. Não gosto de parasitas nem de predadores.

4. Voltando ao referendo, não entendo por que razão o Syriza – que diz ter um mandato que não lhe permite aceitar as propostas das ‘instituições’ e que afirma ir fazer campanha pelo não – não recusa simplesmente a proposta e vai à sua vida. Tsipras e sus muchachos, além de irresponsáveis e incompetentes, são uns medricas que nem conseguem aceitar o ónus e a responsabilidade da decisão de entrar em default, falir e sair do euro. Até parecem pretender continuar a governar como se nada fosse se perderem o referendo.

O estranho caso do milagre económico comunista que ainda não apareceu para picar o ponto

soviet unionFaz agora 5 meses – quase ao dia certo – que percebemos a extensão da personalidade adorável dos atuais líderes gregos, com a sua mistura de ar desdenhoso e arrogante, ofensas e insultos proferidos em abundância e mentira continuada sobre vontade de encontrar compromissos (que sabemos inexistente, que não há nada que comunistas gostem mais do que caos e confusão para lá no meio do turbilhão arrecadarem poder que de outra forma não conseguiriam).

Mas nestas negociações com a Grécia – que são muito mais do que uma forma de encontrar acordos financeiros – há dois pontos importantes a ressalvar.

1. A negociação com a Grécia não deixa de ser uma batalha civilizacional – como são todas as guerras que se fazem ao comunismo, essa ideologia profundamente imoral. É muito importante que as instituições formerly known as troika não permitam que um governo comunista reclame sucessos económicos obtidos à custa do dinheiro dos capitalistas (também conhecido como poupanças dos restantes cidadãos europeus, que por acaso têm direito de as gastar como bem entendem, ao contrário dos gregos e outros comunistas avulsos com a mania que têm direitos sobre o dinheiro e a propriedade alheios).

2. E a propósito de sucessos económicos, chego ao 2º ponto. Não entendo. Estou confusa. Então mas onde estão a abundância e crescimento económico que os comunistas e esquerdistas radicais nos garantem vir com as políticas defendidas pelo Syriza? Ao fim deste tempo todo, o milagre económico comunista na Grécia devia já ter tornado irrelevante a necessidade de financiamento externo. Cinco meses já deveriam fazer a diferença na criação de riqueza devido a tão avassaladoramente fantásticas propostas económicas do Syriza. Onde está a taxa de crescimento da economia a triplicar a da zona euro? Onde estão os lucros estonteantes e a receita fiscal a crescer? Onde está o emprego a multiplicar-se e os ordenados a engordarem? Por que diabo necessitam que outros lhes emprestem dinheiro? É muito estranho que as políticas económicas comunistas afinal destruam centenas de empregos por dia (fora o que aí virá depois de a troika mandar o Syriza para as caves conspirativas de onde nunca devia ter saído). A realidade não pode continuar a contrariar desta maneira as boas teorias.

Hergé e Jane Austen, dois autores a banir

Tintin Castafiore EmeraldAs alminhas(inhas) Tiago Ivo Cruz e Ana Bravo – que argumentam o racismo e a misoginia de Hergé – foram grandes perdas para o analfabetismo. E agora – pegando nesta infalível tese sobre a ausência de mulheres nos livros de Hergé, que não é mais do que um apagão ao mulherio – decidi-me a deixar de ler a Jane Austen. Como se sabe, ou TODAS as realidades do mundo estão contidas dentro de uma obra literária ou essa obra é negacionista disto e daquilo. Quer escrever um romance passado em 2015? Pois não pense descrever só êxtases sexuais, traições, lágrimas e por aí. Ou bem que inclui a descrição detalhada do período de ajustamento acordado com a toika, os números do desemprego (preferencialmente com gráficos mostrando os dados da Pordata) e uma ou outra notícia contestatária da austeridade ou nenhuma editora o publica, porque está a apagar a crise que se vive agora. E faz favor de incluir uma ou duas violações e uma mulher morta pelo ex-marido, que ainda é acusado de negacionismo da violência sexual e doméstica sobre as mulheres.

Mas regressando a Jane Austen, afinal aquilo tudo se passa ao mesmo tempo que as guerras napoleónicas e nem vislumbre delas nos livros (há uns militares a distraírem as irmãs Bennet em Pride and Prejudice e as meninas casadoiras – outro conceito que agora devia ser proibido de aparecer na literatura de todos os tempos, que como se sabe hoje uma mulher não tem de ter a ambição de casar – em Persuasion, mas nem uma batalha, nem a descrição da estratégia de Waterloo, népias). E com tanto romance, não há vestígio de sexo nos livros – eventualmente apenas a sugestão de que Charlotte preferia manter o marido, Mr Collins, clérigo e o maior lambe-botas da literatura, à distância. É certo que os desejos andam à solta (e as adaptações para televisão facilmente os evidenciam), mas de the real thing, nada. Proscreva-se Jane Austen das bibliotecas e das livrarias. JÁ.

Semana do absurdo

O meu texto de ontem no Observador.

‘Da próxima vez que voltar a afirmar que quarenta e um anos depois do 25 de abril ainda temos uma democracia disfuncional, posso exibir esta semana como prova. E ilustro com dois casos.

O primeiro absurdo da semana passou-se na segunda feira à noite, na Barca do Inferno, e não foi pelo abandono em direto de Manuela Moura Guedes. Vi o programa poucas vezes e geralmente só as intervenções de Sofia Vala Rocha, de quem sou amiga (fica a declaração de interesses). E não via porque o nível de opiniões políticas das senhoras à esquerda está como o de Soares na sua fase os-mercados-provocam-terramotos, a acompanhar o que parece ter geração espontânea em muitas pessoas da esquerda (de ambos os sexos): sofrerem de uma certa confusão entre regras do debate político e os métodos da invasão da China por Kublai Khan.

Só até à saída de Manuela Moura Guedes, na última Barca, tivemos Isabel Moreira (uma criação política socrática) dizendo que Sofia V. Rocha não era séria a debater, ao contrário de si própria, garantidamente ‘séria quando falo’ – ao mesmo tempo que proferia a falsidade de que o PS não pretende (como Sofia afirmava) cortar nas pensões futuras. O que, recorde-se, foi assumido aquando da apresentação do cenário macro do PS: a partir de 2027 as pensões terão já o corte máximo resultante da baixa da TSU que o PS promete. É simples: agora paga-se menos e depois recebe-se menos. E quando Moura Guedes estava de saída, a magnânima Moreira não resistiu a desferir um último ataque a quem já estava em retirada.

Já Raquel Varela, a mais afamada académica e autora mundial em tudo e mais um par de botas, declarou-se humildemente uma ‘especialista em Segurança Social na Universidade Nova de Lisboa’. Apesar de ser historiadora (e eventualmente até poder conhecer a História da Segurança Social), de erradicar a demografia como risco para a sustentabilidade da SS e não entender que as pensões recebidas não têm nada a ver com ‘poupança’ dos valores descontados, e de a SS ser um assunto predominantemente económico, Varela é especialista. A mesma Varela que aparenta dificuldade com conceitos económicos básicos e que retira deles conclusões delirantes que apresenta – outra vez com modéstia e usando um jargão pseudo-económico – como geniais.’

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malditos

scientific farming u washMaldita globalização. Malditas empresas ocidentais que aproveitam o trabalho barato na China para baixar os preços nos seus países. Malditos consumidores que aproveitam os salários baixos chineses sem pesos na consciência. Maldito consumismo.

Malditos todos: entre 1990 e 2014, a China diminui para metade a parte da população que passa fome; desde 1990, 155 milhões de almas chinesas escaparam à fome. Números dessa organização ultra-capitalista que é a FAO.

 

Diagnosticaram-me ideologia

O meu texto de ontem no Observador.

‘Ideologia’ foi uma doença muito avistada depois de PSD e CDS ganharem as eleições de 2011. Todas as pessoas decentes do país se queixaram, nos primeiros seis meses do governo, que a malvada coligação queria implementar um ‘programa ideológico’. Acabar com as golden shares foi ‘ideológico’, as alterações da legislação laboral tresandaram a’ ideologia’, o corte dos subsídios aos funcionários públicos esteve carregadinho do pecado ‘ideológico’, os cortes na despesa nos vários setores (de resto menores do que os negociados pelo PS no memorando de entendimento) foram o cúmulo da ‘ideologia’.

Com a proximidade das eleições, os diagnósticos de ‘ideologia’ têm explodido outra vez nos lados dos técnicos de saúde política afetos ao PS. Eu nos últimos tempos já fui objeto de vários diagnósticos de ‘ideologia aguda’ no twitter, na sua forma declarada e incurável. Às vezes pondero se não seria melhor (para bem da saúde pública) acoplar uma campainha à minha carteira para avisar quem se cruza comigo desta debilitante condição liberal em que me encontro.

Claro que quem se queixa de ‘ideologia’ tem muita razão. Os partidos – todos – apresentam uma ideologia aos eleitores através das suas propostas políticas nos programas eleitorais; e os eleitores decidem para que combinação ideológica estão mais virados em cada momento eleitoral. Na verdade, os partidos menos ideológicos que por cá temos são PSD (cuja grande ambição da maioria dos seus militantes é ser de esquerda) e CDS (que ainda não se arrumou o socialismo beato).

Nem só os jovens costistas das redes sociais e do comentário político se preocupam com este surto infeccioso. António Costa também parece estar baralhado com o vírus ideológico. Por exemplo, em março, Costa ‘criticou o Governo por ter abdicado de uma abordagem pragmática na resolução dos problemas do país “por puro preconceito ideológico”’ (Expresso, 17/3/2015). Em abril, Cassete Costa afirmou: ‘Este Governo nunca olhou para os problemas de uma forma pragmática, olha sempre para os problemas com preconceito ideológico’ (RR, 12/4/2015).

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Adolescentes à deriva

O meu texto de hoje no Observador.

‘Dentro dos temas de que fujo está a conversa ‘a juventude de hoje está perdida’ e todas as variações de ‘antes o mundo era maravilhoso e agora está um descalabro’.

Ora bem: antes o mundo não era maravilhoso e agora não está um descalabro. Ou, se está um descalabro, pelo menos está menos do que costumava estar. Como o meu objetivo não é provar este ponto (e estou com pressa de chegar aos adolescentes), deixo-vos os argumentos de outros, um de 2012, um de 2013 e outro de 2014. Até britânica e conservadora The Spectator e a americana e esquerdista Slate concordam que o mundo não está condenado. Por isso, caro leitor pessimista, lamento informá-lo, mas não, a humanidade não caminha para o apocalipse. Habitue-se.

É bom recordar os progressos nestes dias em que se tornou mantra nacional declarar que a sociedade está doente, ou, pelo menos, os jovens estão doentes, estamos a criar monstros, levemos as mãos à cabeça que famílias e escolas estão a falhar e o futuro que aguarda os menores é uma distopia que nem Orwell previu.

É certo que a realidade espicaçou. Primeiro o bullying de um adolescente por várias raparigas. Houve os que gozaram com o bullying e acham que deve ser à antiga, um rapaz enrijece se levar pancada e quem dá relevância a estes incidentes só incentiva a mariquice nacional. E os que prometeram violências ainda mais atrozes às agressoras – enquanto viam e partilhavam furiosamente o vídeo, expondo as identidades de agredido e agressoras, tornando-se assim participantes e agravando a agressão que tanto repudiavam.’

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A câmara de Lisboa associou-se de vez ao crime organizado?

homer x rayNão tenho nada contra uma realidade que se encontra em inúmeros desses países bárbaros que compõem a União Europeia, a saber uma tarifa fixa nos táxis desde o aeroporto até à cidade mais importante que o aeroporto serve (desde que, evidentemente, se possa optar pela tarifa normal dependente dos quilómetros do percurso). Geralmente garante que não somos (muito) enganados por taxistas que se põem a dar voltas desnecessárias antes de chegar ao destino para conseguir percursos mais caros. Faz tanto mais sentido optar-se por uma tarifa fixa quanto os aeroportos são geralmente longe da cidade, com percurso de estrada e de autoestrada, que incluem portagens. E também não tenho nada a obstar a que se cobre pela entrada dos carros no aeroporto – táxis e outras variantes – ou pela permanência de mais de 10 minutos.

Mas claro que a associação da ANTRAL, da ANA e da inevitável Câmara Municipal de Lisboa (agora presidida pelo delfim de António Costa) só podia magicar ‘soluções’ que não são mais formas de saque legalizadas, com esta proposta de pagamento de 20€ desde o aeroporto da Portela até, no máximo, 14 km de distância – que, depois, pagam-se os 20€ e os quilómetros que acrescem.

Eu moro ao pé do rio, no lado oposto, em Lisboa, ao do aeroporto, e não me lembro de pagar mais de 15€ para ir para o (ou vir do) aeroporto, incluindo a marcação ou o pedido telefónico do táxi e as malas. Se vou do aeroporto da Portela para casa dos meus pais (em Alvalade, e onde às vezes deixo o meu carro), o mais provável é o taxista encontrar forma de me insultar, ou vai a arfar durante todo o percurso, porque é um percurso pequeno e barato (não pago sequer 10€).

À parte a parvoíce da taxa de 1€ para a ANA, e a bacoquice do motorista fardado, agradeço que a Câmara Municipal de Lisboa – que, ao contrário da ANTRAL que defende os interesses dos seus associados, supostamente, alegadamente, teoricamente defende os interesses dos lisboetas – me explique, como se eu tivesse 5 anos, de que forma é que pagar quase o dobro (para minha casa; ou mais do dobro no caso dos meus pais) por viagem de táxi do aeroporto está a defender os meus interesses? Onde é que isto é diferente de sancionar um saque aos clientes de táxis? Será que o vírus que causa estupidez tem concentrações anormalmente elevadas nos edifícios da CML?

Entradas no dicionário

O meu texto de ontem no Observador.

‘Há duas tiras de quadradinhos em que a Mafalda, de Quino, introduz uma explicação para as desavenças no mundo: o facto de metade do mundo estar a almoçar quando a outra metade está a dormir. E termina ditando ao Filipe uma carta ao secretário-geral da ONU sugerindo que o que divide o mundo afinal não é a política mas o sono.

Às vezes tenho uma desconfiança prima desta quanto à esquerda e à direita: que o que as divide não é tanto os valores ou os caminhos políticos; é o dicionário. É que não se aventa outra explicação para usos tão exóticos de certas palavras.

Um exemplo: sucesso. António Costa há poucos dias afirmou, num evento sobre educação, que ‘este governo não foi capaz de conviver com nenhuma das marcas de sucesso da governação socialista’. Uau. O país inteiro vive encadeado com tanto sucesso socialista, efeito de resto agudo por estes dias quando se preenche a declaração para o IRS.’

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dia particularmente problemático para as cabecinhas da esquerda

Sample-Sale charlotte olympiaAlgumas vezes ocorre-me ser assaltada pela desconfiança de que ser de esquerda implica alguma deficiência cognitiva (ou, em alternativa, hipocrisia grossa). É que se acho normal – e, gostando eu de diversidade e de ter pessoas inteligentes de quem discordar, muito aprazível – que haja quem defenda o estado como central na economia, na sociedade, na cultura e, até, na vida corrente das pessoas (há uns sinceros com a ideia paternalista de que há muitos adultos à solta que não sabem resolver a sua vida e que o estado tem de lhes ensinar, e há outros que gostam da ideia de desta forma ter poder sobre os outros), já a defesa de certas causas como ‘de esquerda’ só nos pode fazer concluir pelo que pus na primeira frase.

A indignação com a abertura dos supermercados no 1 de maio, além de raiar a loucura, raia a idiotia. Não teria nada contra o 1º de maio ser o feriado por excelência daqueles que apenas se sustentam através do seu trabalho (ao invés dos que detêm também capital e que são simultaneamente trabalhadores e investidores) e que, como no dia de ano novo e o dia de Natal, tudo, exceto os serviços que não podem parar, encerrasse. Mas o 1 de maio não é nada disso e, dos tempos em que já tenho idade para ter memória, nunca foi. Os cafés e restaurantes sempre estiveram abertos. Os centros comerciais sempre funcionaram. Sempre houve feiras aqui e ali para aproveitar o feriado. Os cinemas e espetáculos sempre continuaram sem interrupção. Os museus sempre receberam visitantes. Por todo o lado, menos nos supermercados, se encarou o 1 de maio como um feriado igual aos outros.

Que se veja como um ignomioso, brutal, iníquo (e mais quinze adjetivos pejorativos) ataque aos trabalhadores uma (ou duas) cadeias de supermercados abrirem no 1 de maio só mostra como agora as causa da esquerda (pelo menos da esquerda histérica) são pequenas e não têm nada a ver com justiça nem com proteção dos trabalhadores. Fazem lembrar os conservadores religiosos para quem foi uma punhalada bem colocada entre as costelas que os hipermercados abrissem ao domingo à tarde. Quem trabalha neste dia nos supermercados é compensado por isso em mais do que determina a lei, trabalha porque quis e os outros trabalhadores de outras empresas, sobretudo os que ganham menos, têm possibilidade de comprar bens essenciais mais baratos. E para as almas sensíveis a quem repugna ver pessoas de menores rendimentos a acorrerem a um supermercado só para aproveitar uma promoção, e lá dentro sobreviver aos encontrões e às longas filas, do not worry. As senhoras do extremo oposto da pirâmide social fazem as mesmas figuras com os sample sales e os stock off de marcas de luxo. As más figuras por causa de promoções são, afinal, um unificador social.

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Os magos

O meu texto de ontem no Observador.

‘Não deixa de ser reconfortante para os que não apreciam a imprevisibilidade na natureza humana que nem perante as maiores calamidades os maluquinhos parem de produzir os seus disparates.

Estava o mundo inteiro ainda em choque com o terramoto do Nepal e a mortandade e destruição de casas e monumentos que trouxe quando já a cantora turca e ativista dos direitos dos animais Leman Sam informava o mundo sobre as causas do sismo. Claro que há pessoas sensaboronas e crédulas que acreditam na verdade oficial de ter sido um embate de placas tectónicas, com a placa indiana a deslizar mais do que o costume para baixo da placa euro-asiática. Mas Leman Sam sabe melhor. E, para nosso gáudio, contou-nos.

No final de 2014 ocorreu no Nepal o festival em celebração da deusa hindu Gadhimai, sendo sacrificados largos milhares de búfalos, cabras e pombos. Ora como é evidente – e a cantora turca notou – o terramoto não se tratou de mais do que a deusa hindu reclamar igual sacrifício dos humanos que sacrificaram os animais. Uma espécie de reposição do equilíbrio cósmico, se quiserem. À parte ficar por esclarecer se a deusa que fez tremer a terra foi Gadhimai outra vez, ou se foi Kali (que tem reputação de destruidora), todos vemos que o tweet da senhora turca tem uma lógica inabalável.

Um tanto desnecessário o tweet, no entanto, porque a causa dos terramotos já havia ficado estabelecida em 2010, quando um clérigo iraniano nos elucidou: é o sexo extraconjugal (provocado, por sua vez, pelas vestimentas insinuantes das mulheres pouco castas) que causa os terramotos. E como parece que o clérigo iraniano é dado à literalidade, os terramotos que referia não eram os sensoriais nem as consequências sísmicas nas relações humanas; não: eram mesmo aqueles que fazem as casas tremer e os edifícios desabarem.

(Mário Soares – suspiremos – apresentou também uma explicação alternativa, dando ideia de que as placas tectónicas são reativas à usura dos mercados.)’

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para o PS o mundo não pára de mudar

wormHá tanto para criticar no coelho que ontem o PS tirou da cartola que terá de ficar para depois. Mas porventura o que mais me impressionou naquilo tudo foi a indigência ideológica com que os programas (e o tal coelho da cartola prepara-se para ser uma porção importante do programa eleitoral do PS, ainda que não admire mais um flip-flop de Costa nestes assuntos económicos) são feitos nos partidos políticos portugueses que estão habituados a governar. Chamam uma dúzia de ‘especialistas’ para darem os seus contributos, estes têm umas ideias mais ou menos malucas e, preferencialmente, completamente desgarradas da realidade (no melhor dos casos, são ideias inúteis e inócuas) e, tchantchantchan, tornam-se bandeira dos programas de governo como se fossem A solução para o país. Independentemente de serem potenciais criadoras de mais problemas ou, sequer, consistentes com as posições políticas anteriores do partido.

Isto não mostra só como os líderes políticos de PS (e PSD, onde se passam processos iguaizinhos) são uns basbaques que engolem a primeira tolice que ‘os especialistas’ lhes vendem – porque, lá está, são pessoas que além dos meandros traiçoeiros da política de nada percebem -; no fundo são ideologicamente tão consistentes como uma minhoca das couves.

Tomem por exemplo a proposta dos ‘especialistas’ do PS para a descida da TSU para empresas e trabalhadores. Por princípio, não tenho nada contra – desde que se assuma que isto implicará, no futuro, pensões muito pequenas. Claro que isto tresanda ao ‘choque fiscal’ que foi o trunfo de Durão Barroso em 2002 – e não é preciso lembrar que não só não houve choque fiscal nenhum como Manuela Ferreira Leite correu a aumentar ‘temporariamente’ o IVA para 19%, pois não? Mas o mais curioso é que esta baixa da TSU aparentemente vai ser proposta pelo partido que há muito poucos anos criou o novo código contributivo, que alargava a base de incidência dos descontos para a SS a tudo e mais alguma coisa que os trabalhadores recebessem, aumentando escandalosamente o montante de contribuições para a segurança social. Implicou mais custos para as empresas e foi uma redução significativa nos ordenados líquidos dos trabalhadores. Para os que trabalham a recibos verdes, foi mesmo um assalto com arma branca (vieram outros a seguir deste governo, sim).

E atenção: este novo código contributivo não se justificou com a necessidade de austeridade que a criatura socrática iniciou; a justificação foi inteiramente a de quererem assegurar a sustentabilidade da segurança social. Foi defendido por Elisa Ferreira, João Galamba, Vieira da Silva e António Costa – os mesmos que agora defendem redução da TSU e redução das pensões.

Que credibilidade se pode atribuir a gente assim?! É que, lamento, mas posições sobre a fórmula da segurança social, se as pensões devem apenas ser um garante contra uma situação de pobreza (eventualmente complementado com produtos privados) ou permitir continuar um nível de vida aproximado ao que se tinha enquanto se trabalhava, que tipos de rendimentos devem ser abrangidos, e por aí adiante, não podem ser posições circunstanciais e conjunturais nem opiniões que mudam com o vento. Num assunto crucial como a Segurança Social, o que o PS disse ontem é que é uma maria vai com as outras, sem espinha dorsal e sem qualquer princípio norteador. O que, em boa verdade, não é novidade.

Espremer direitos

O meu texto de hoje no Observador.

‘A indignação das boas almas sensíveis deste fim de semana veio a propósito de notícias (dadas – não fossem as boas almas sensíveis estarem distraídas – em tom de denúncia de grave atentado aos direitos humanos) do pedido a duas enfermeiras do Porto para fazerem prova de amamentação. Notícias que usavam termos mais próprios para a ordenha (havia que sugerir imagens repudiantes) do que para a amamentação: ‘espremer mamas’ e ‘esguichar leite’. Usar o neutro (e correto) ‘tirar leite’ seria demasiado delicado e poético para a intenção das notícias, presume-se.

Aproveito para informar já que as manchetes do próximo fim de semana dos jornais que com tanto enlevo protegeram a amamentação (e tenho um ataque de tosse enquanto escrevo isto) serão do calibre de ‘malévolos polícias impedem assalto a supermercado por pobres orfãos adolescentes desadaptados’.

E as boas almas que logo rasgaram as vestes nas redes sociais (o que permitiu diversão no twitter, que estas indignações tontas têm consequências boas) vão de seguida organizar uma petição para banir dos consultórios dos médicos de família a obrigação de se abrir a boca, estender a língua e dizer ‘aaaah’ para que o médico nos examine a garganta, que isto é figura muito triste que fazem os doentes e não pode ser. E vão também – em defesa da perigada honra feminina – juntar-se às reclamações dos muçulmanos residentes na Europa que exigem que as suas recatadas mulheres sejam examinadas por médicas e enfermeiras nos hospitais públicos. Onde já se viu uma senhora decente ter de mostrar as mamas a um homem que não o marido? – é a pergunta comum dos indignados progressistas portugueses e dos muçulmanos radicais.’

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para os maluquinhos lactantes

breast pump(é uma bomba de tirar leite)

Uma bomba de tirar leite (aqui em cima está uma igual à que eu tive aquando da amamentação da criança mais nova) é um instrumento inócuo, indolor e não, não é um atentado à dignidade da pessoa humana, mulheres incluídas. Não, uma bomba de tirar leite não se confunde com uma cadeira de pregos medieval. E apesar de compreender a excitação com isso da notícia de ‘espremer mamas’, lamento informar a quem tivesse mais entusiasmo com a imagética da coisa, mas a uma mulher que esteja a amamentar basta pressionar levemente (mais uma vez, não dói nem incomoda nada) o mamilo que saem logo umas gotas de leite (muito pouco sexy – eu bem pedi desculpa por estragar imagens).

tortura medieval(não é uma bomba de tirar leite)

Vingança pornográfica, de facto

O meu texto de ontem no Observador.

‘Uma boa história de vingança dá sempre suculento material literário. A personagem mais requintadamente vingativa de sempre é, sem discussão, o conde de Monte Cristo de Dumas (que, não há vergonha em confessar estas coisas, foi uma das grandes paixões da minha adolescência, afinal nenhuma adolescente saudável de doze anos resiste ao torturado prisioneiro inocente do Castelo de If). Logo a seguir candidata-se Heathcliff, em O Monte dos Vendavais. E, claro, a vingança é um filão interminável para a literatura policial – género que não dispenso. Na versão lusa, tivemos há poucos anos O Mar em Casablanca, de Francisco José Viegas, oferecendo-nos uma sangrenta vingança por causa de uns ainda mais sanguinários eventos em Angola trinta anos antes, em contextos inspirados naqueles em que Sita Valles foi torturada, violada e executada por comunistas da fação contrária.

À conta de tantos livres – e filmes – corremos o risco (ou, pelo menos, eu, que sou literariamente impressionável, corro) de ficarmos parciais com as mentes vingativas. Mas no caso das vinganças, como em tantos outros, a tecnologia destrui-nos o romantismo.

É que tem havido um grande número de pessoas encantadoras – cujo ressentimento e falta de escrúpulos é certamente apenas um pormenor – que partilha na internet fotografias ou vídeos de conteúdo sexual quando uma relação amorosa (ou qualquer coisa vagamente relacionada) termina. Do ex, claro.’

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magreza ilegal e obesidade legislativa

O meu texto de ontem no Observador, sobre a mais recente invenção francesa.

«’Uma mulher nunca é demasiado rica ou demasiado magra’ dizia Wallis Simpson, ela própria magricelas e com tendência para se apaixonar e casar com homens ricos. E que se tornou famosa numa década (anos 30 do século XX) cuja estética me agrada particularmente e que, no que toca aos objetos que nos protegem o corpo do frio e acomodam o pudor, promovia uma silhueta esguia e magra. As roupas de Mainbocher, Vionnet e Chanel não se destinavam a curvilíneas de índice de massa corporal elevado. Na exposição de fotografia que já aqui referi, as senhoras eram todas magras – mesmo para os padrões atuais – e os vestidos em tecido e linha que lá estavam expostos só admitiam cinturas viperinas.

(Lembro isto porque inevitavelmente achamos que é a primeira vez que tudo sucede em toda a história da humanidade – e até no período dos dinossauros – quando afinal não somos originais, apenas repetimos tendências e das vezes anteriores não se seguiu o fim do mundo como o conhecemos.)

Em todo o caso Wallis Simpson seria uma boa candidata para sofrer as penas da recente criação do legislador francês: uma lei que bane modelos excessivamente magras (com IMC abaixo de 18) e pune com multa de milhares de euros e pena de prisão até um ano quem promover a anorexia.

De França não vêm só roupas, queijos, perfumes, Monsieur Hulot e o Obelix. O país também nos habituou a produções mais questionáveis, desde a guilhotina aos anos dourados do exílio de Mário Soares, passando por Jean-Paul Belmondo. E agora esta legislação parece ser um interlúdio para habituar os franceses aos mimos da Frente Nacional. Afinal os extremistas políticos dos dois lados sempre apreciaram condicionar o corpo e a aparência femininos – a propaganda hitleriana difundia a sugestão imperativa de corpos saudáveis e com músculos habituados ao exercício, e de caras sem maquilhagem e maçãs do rosto naturalmente rosadas pelo ar livre.’

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sócrates, o PS e o realismo mágico

O meu texto de ontem no Observador.

‘Começo por me penitenciar – antes que a justificada fúria dos leitores se abata sobre mim – por associar Sócrates a um género literário (o realismo mágico) perfeitamente respeitável, que deu dois prémios Nobel da literatura ao mundo e prazeres literários em abundância a milhões de ávidos leitores (eu incluída). Não há perdão por tão mau uso de boa literatura.

Mas eu teimo, afinal o ex-primeiro-ministro (e o PS) pretende por estes dias fazer-nos crer na normalidade dos atos mais absurdos e improváveis. E as pessoas que deles desconfiam são gente mesquinha, invejosa dos estilos de vida mais caros e vistosos, plenos de ressentimento perante o retumbante sucesso político de Sócrates (de modo nenhum o autor da bancarrota de 2011 e o presidenciável preferido de muito bom socialista).

Vejamos. Um ex-pm que vive faustosamente com dinheiro proveniente de empréstimos estratosféricos de um dedicado amigo. Empréstimos que foram – como faz o cidadão desprevenido, tanto o que empresta como o que pede emprestado, esperando-se cautelas adicionais num político mediático e com vários casos exóticos, para que desta vez ninguém acusasse de irregularidades – contabilizados, registados, com notas de dívidas emitidas? Claro que não: a amizade é muito bonita e não se contabiliza, ninguém tomou nota de quanto foi emprestado e aparentemente nem Santos Silva nem Sócrates fazem ideia do dinheiro que foi transferido de um para outro. Ah, mas o processo foi transparente, em transferências e cheques, assim em caso de dúvida de datas e montantes era só ir somar as várias tranches, porque quem não deve não teme e que mal faz um amigo emprestar dinheiro a outro? Também não, o dinheiro (perdão, ‘as fotocópias’ e ‘aquilo de que Sócrates gosta muito’) circulava em notas, com entregas feitas por terceiros, ou através da conta do motorista de Sócrates, que passava dinheiro para o patrão ou lhe pagava (num caso extremo de exploração patronal) as despesas da família. Santos Silva, empresário que subiu a pulso e propenso ao lucro, fez negócios imobiliários curiosos com a mãe e a ex-mulher de Sócrates, comprando-lhes apartamentos acima dos valores de mercado.’

O resto está aqui.

crónica social

INSURGENT_BANNER-TOP-SITE_AT-CINEMA_1024X270px_V2Para verem bem a importância que tem este blog, Hollywood já se vergou à nossa inevitabilidade e está em exibição agora por aí o filme Insurgente (que não, não é um home movie connosco a fazermos graçolas). Para cuja estreia – na sala xpto do @Cinema do Saldanha Residence, que muito recomendamos – os representantes do blog foram convidados para que déssemos a benção. Infelizmente não recebemos royalties.

o perigo são os outros

Eu sei que ainda persiste a mania de que as doenças psicológicas são sintomas de fraqueza de gente de pouca qualidade; que a introspeção é para mulheres e sissies, nunca para homens de barba rija – que, como se sabe, não têm estados de alma; que as crianças não são hiperativas, são simplesmente mal educadas; que os suicídas não são doentes, são egoístas; que os depressivos são uns mandriões à procura de atenção alheia. No fundo não está muito distante do preconceito (e crueldade) que levava a que os militares com sintomas de trauma durante a primeira guerra mundial – com aquilo que então se chamava shell shock, por se supor ocorrer devido a alguma alteração fisiológica em quem esteve exposto de perto ao rebentamento de uma bomba – fossem muitas vezes fuzilados por cobardia. Passado quase um século depois da primeira teorização de Freud sobre trauma (em 1919), cheguei a uma criatura que escrevia sobre estes assuntos e dizia que trauma era algo que ocorria a gente impressionável de baixo QI. (Quando o meu palpite – por não ter qualquer fundamento em estudos existentes, tal como o palpite da dita criatura – vai no sentido contrário: se o QI influencia, provavelmente serão as pessoas de mais alto QI as mais suscetíveis, desde logo por perceberem melhor como o evento traumático é algo de fora do arco do que conseguimos saudavelmente integrar na nossa vida.)

Não sei se isto leva a que estes perigos psicológicos sejam descurados ainda hoje. Mas, se são, começamos a estar no campo da negligência – que nem se desculpa por causa do sacrossanto preconceito. Quando estava a fazer a licenciatura, na cadeira de Comportamento Organizacional recordo-me de ter estudado o caso dos operadores das gruas. Eram muito suscetíveis ao stress e a problemas daí recorrentes, devido a trabalharem isolados, num local alto e, sobretudo, por terem um trabalho que se mal executado podia acabar na morte de alguém. Os operadores das gruas. Certamente que haverá estudos semelhantes para outras profissões, incluindo os pilotos e co-pilotos de aviação comercial. Não entendo como os pilotos de avião não são psicologicamente avaliados com frequência e, se em risco, arredados dos comandos de um avião – e da vida de centenas de pessoas – até melhoria consolidada. E não são só os pilotos de aviões. Polícias (suicídios de polícias não são uma raridade) e juízes, por exemplo, também necessitam de avaliações psicológicas. Não podemos colocar a vida (e a liberdade) das pessoas nas mãos de quem está doente.

Barrigas e peitos de aluguer

O meu texto de ontem no Observador sobre maternidade e amamentação de substituição.

‘A vida moderna está cheia de perigos. Isto é o que deve ter pensado Carrie Bradshaw, a personagem da série televisiva O Sexo e a Cidade, quando, num encontro casual nas ruas de Nova Iorque com um casal de gays, estes lhe propuseram o fornecimento de um óvulo. Queriam ter filhos, de espermatozóides não tinham falta, a barriga de aluguer já estava contratada e Carrie, achavam, produzia óvulos de boa qualidade. A proposta terminou com a entrega a Carrie do cartão de um deles: a escritora que lhes ligasse se afinal resolvesse alinhar.

Bom, tanto pragmatismo no meio da azáfama nova-iorquina tira romantismo à ideia de produção de descendência. Tal como as notícias dos profícuos dadores de esperma que acabam transmitindo o seu sorriso a largas dezenas de filhos. Ou a clínica de esperma dinamarquesa que tem exportado ‘bebés vikings’ para todo o mundo. Ou os filhos do esperma anónimo (no caso da Grã-Bretanha, não anónimo) que em adultos vão à procura de quem lhes deu metade do DNA.

Mas, em boa verdade, uma gravidez resultante de um preservativo que se rompeu num caso de uma noite também não é romântica. E um casal com problemas de fertilidade que se dedica mês após mês ao método tradicional de conceção de crianças acaba usando mais teimosia e voluntarismo do que desejo ou romantismo. Mais: o casamento por amor é uma realidade com pouco mais de um século e sempre houve numerosos filhos fora do casamento; não vale a pena exigirmos agora purismos às conceções que quantas vezes ocorreram distantes do ideal.’

O resto está aqui.

 

Os portugueses imaginários de PS e PSD

O meu texto de ontem no Observador.

‘Nestes últimos anos temos verificado uma persistente sintonia entre PSD e PS: nenhum dos partidos entende aquela categoria que dá pelo nome de ‘os portugueses’. Os portugueses reais estão para PS e PSD mais ou menos como a lógica aristotélica para quem fez uma operação dolorosa e foi sedado com morfina. E a argúcia dos dois partidos no conhecimento de ‘os portugueses’ equipara-se ao bom senso e à capacidade de lidar por si próprio com as adversidades da vida de Bertie Wooster, de P. G. Wodehouse, que só conseguia escapar-se dos noivados contrariados, das sovas dos apaixonados das suas noivas e das armadilhas das tias pela ação de Jeeves, o mordomo.

Comecemos pelo PS. Tal como uma seita new age espera num santuário dos Andes pelas naves intergaláticas que a vai levar a dançar entre as estrelas, ou como os cubanos e os venezuelanos esperam pela abundância que traz o socialismo, os socialistas nacionais ainda estão à espera que ‘os portugueses’ se levantem violentamente contra o atual governo. Que – segundo vários socialistas, alguns deles ainda não na fase Alzheimer – fez o país regressar a níveis de pobreza piores do que os de 1974. E procurou diligentemente o empobrecimento do país (tudo porque são pessoas pérfidas que todas noites abrem garrafas de Bollinger Brut para celebrar o sofrimento generalizado da população portuguesa).’

O resto das confusões dos dois maiores partidos sobre nós, os queridos cidadãos portugueses, está aqui.

Venho expressar a minha solidariedade com josé sócrates

Este hino é claramente um atentado aos direitos humanos de josé sócrates. (E também é um retrato dos defensores da criatura.) Há limites para as degradações a que uma pessoa em prisão preventiva pode ser submetida.

coligação ou não, eis a questão.

Coalition-struggleJá se percebeu que uma coligação PSD-CDS será a única forma dos descendentes do Sheriff de Nottingham (também conhecidos como governo de Portugal) terem qualquer possibilidade de ganharem as próximas legislativas. (Eu continuo convencida de que perderão, mesmo em coligação, mas isso é outra conversa).

O único benefício da coligação é esse, portanto: traz a única possibilidade de ganhar.

Já quanto a malefícios, temos muitos. Desde logo um do domínio dos princípios e da pedagogia: parece-me saudável cada partido ir sozinho a eleições ver o que vale e, depois disso, se houver necessidade negoceiam-se coligações. Só neste país de gente democraticamente infantil causa estranheza que dois partidos que governam juntos depois se oponham em campanha eleitoral (ou até antes) e defendam os seus valores e marquem as suas diferenças – coisa normalíssima nas democracias consolidadas.

O maior malefício é que a coligação, depois das eleições, não servirá para nada. Se perder, a coligação desfaz-se, cada partido (depois de se candidatarem com programa eleitoral comum) vai à sua vida e à garganta um do outro e não vejo como isto não seja uma fraude aos eleitores. Piora tudo se, depois de uma coligação pré-eleitoral, um dos partidos for para o governo e o outro para a oposição. Se ganhar, a coligação continuará a não servir para nada. Não terá maioria absoluta, o PS evidentemente não se coligará com esta troupe nem fará acordos parlamentares, vamos ter um país num pós-resgate sem um governo maioritário, que durará um ano ou, no máximo, dois.

Aparentemente Passos Coelho não está inclinado para uma coligação e faz muito bem. Nada pior do que construir uma coligação para ganhar e acabar a perder – que é o que sucederá com grande probabilidade e se António Costa entender a tempo que não é o génio que sempre se supôse começar a usar de parcimóniana sua exibição aos eleitores. Até porque não se deve esquecer outro guilty pleasure da coligação: PSD e CDS juntos valem menos votos que separados.

(Foto surripiada à The Spectator.)

O Insurgente goes to Mais Mulher (again)

Só agora reparei que ainda não coloquei aqui o link do vídeo da participação da Daniela Silva e minha no Mais Mulher da SIC Mulher. Aqui vai. Falámos da Grécia – novela que ainda persiste. E brevemente vai haver mais.

Resultados do socialismo verde

«“Os sacos finos deixaram de ser produzidos e em relação aos outros, os clientes estão expectantes em relação aos consumidores”, apontou.

A medida representou uma “quebra acentuada das vendas, provavelmente terei de reduzir alguns contratos com colaboradores”, lamentou.

Atualmente, a Plasgal conta com 120 pessoas, mas é possível que tenha de reduzir “no prazo de dois a três meses para as 90, para já”, disse.

“Tivemos de readaptar algumas máquinas, se não colocarmos volumes nos mercados externos, caso contrário teremos de abater as máquinas”, explicou Paulo Almeida.

O gestor lembrou que a readaptação da indústria transformadora não se faz de um dia para o outro e isso tem impactos económicos grandes.

“A readaptação do equipamento é um processo lento” e os custos podem ultrapassar os 3,5 a 4 milhões de euros.

“Dissemos várias vezes ao ministro o impacto que isto teria no setor”, afirmou, apontando que a recomendação da União Europeia é de uma “redução gradual” para 90 sacos por habitante até 2020 e para 40 sacos em 2015.

“Em Portugal é de 35 por habitante e a decisão definitiva foi tomada em dezembro e entrou em vigor em fevereiro”, sublinhou.»

Espero que no impacto financeiro da medida suas alucinações Moreira da Silva e Passos Coelho tenham contabilizado os subsídios de desemprego que vão pagar aos mais que esperáveis desempregados que esta mudança provocou.

Mal sob o sol

Há uns anos ouvi um reputado especialista em sondagens dizer na televisão que normalmente nos meses de maio e junho os partidos de direita subiam e os partidos de esquerda desciam (ou atenuavam a queda e atenuavam a subida). A causa, segundo o senhor, era uma reação do centro moderado às celebrações extremadas e sectárias de alguma esquerda do 25 de abril.

Se calhar este ano sucedeu um fenómeno parcecido com o dia da mulher – que comprovei eu causa ataques de nervos nos mais sensíveis sistemas neurológicos masculinos: os senhores detentores da verdade, da sensatez e da virtude necessitaram de, depois da festa do mulherio inconsciente, vir repor a ordem natural das coisas. Que nós ainda nos habituávamos à atenção dada às nossas reclamações, e ainda corríamos o risco de achar que o reclamávamos servia para alguma coisa; de volta para a cozinha e para a limpeza do pó e, nos momentos intelectuais, para a telenovela, sff. E, por isso, fomos brindadas no início da semana com a informação de João César das Neves, num texto que certamente buscou inspiração na correspondência que provavelmente troca com algum ayatollah ou, pelo menos, com o presidente Erdogan, que a emancipação das mulheres nos masculiniza e que a liberdade sexual é a causa de todos os males do mundo. (A liberdade sexual das mulheres, bem entendido, que a dos homens sempre existiu sem causar grandes transtornos às cabecinhas como as de César das Neves).

O final da semana reservou-nos um treat ainda melhor, na forma da crónica semanal do reincidente José António Saraiva no Sol. Desta vez o diretor daquilo que eu até hoje pensava ser um jornal que almejava alguma respeitabilidade (ainda que com frequência tivéssemos que caridosamente afirmar interiormente que as crónicas do inventor do saco do Expresso eram apenas seus os substitutos possíveis das sessões de psicoterapia – fruto, quiçá, de a sua mãe nem sequer se ter conseguido apaixonar pelos filhos) revela-se um leitor atento da imprensa cor de rosa e dedica-se alegremente a contar-nos a vida sentimental de uma senhora (ou o que a imprensa cor de rosa diz ser a sua vida sentimental, o que qualquer pessoa pensante sabe não ser necessariamente correspondente à realidade).

E tal fascínio a vida sentimental da senhora causa no arquiteto que ele persistiu na sua descrição pormenorizada (ou etc. – ver o parágrafo acima) apesar da canseira que tal lhe provocou (ufa – desabafa às tantas). O que mais se nota de facto é este fascínio, acompanhado do prazer que qualquer criatura da estirpe e da fase evolucional do arquiteto tem em expor – em denunciar, no fundo – uma mulher que pensa que pode andar por aí a evidenciar outra coisa que não uma reiterada castidade. Que nos sirva de lição a todas: andamos por aí a apaixonamo-nos (e a fazer sabe-se lá mais o quê) e ainda acabamos a ser objeto de crónica do eminente arquiteto. Ou – se os homens seguirem os bons exemplos deste tão luminoso estandarte da moral e do curso saudável do amor – de alguma página de um pasquim local a denunciar as aleivosas.

Bom, que o inventor do saco do Expresso (e, estou certa, de todas as coisas seminais do jornalismo português) passe grande parte da sua crónica a citar a imprensa cor de rosa não espanta – afinal é assim mantida a qualidade normal dos seus escritos. Também nem vale a pena dizer que um texto daqueles é uma canalhice, de quem não tem educação nem maneiras. Porque a pergunta que apareceu nos meus neurónios femininos, ao ler a coisa, foi: terá a senhora alguma vez recusado, de forma desdenhosa e humilhante, os avanços de José António Saraiva?

Das presumidas que querem ganhar tanto como os homens

O meu texto de ontem no Observador, sobre a desigualdade salarial entre homens e mulheres.

‘Não queria passar a vida (ou as semanas) a reincidir em temas femininos, mas afinal foi o dia internacional da mulher e, na verdade, a parte feminina da população é fonte inesgotável de temas interessantes. (A masculina também.) É certo que ocorreu aquele que ficará no top 5 dos eventos mais surreais do século XXI – refiro-me, claro, a José Sócrates acusando de ‘miséria moral’ alguém que não está condenado por homicídio ou violação (facto que, pensando bem, pode ser seminal para desenvolvimentos surpreendentes no conhecimento das personalidades nascisistas e egomaníacas) – mas decidi-me a escrever sobre a desigualdade salarial entre homens e mulheres.

Algo inútil, claro, porque não existe. Assim várias pessoas me garantiram no twitter no dia da mulher. Ou melhor: existe mas é inteiramente explicada por fatores económicos cristalinos. A história que me foi contada reza assim: as mulheres ganham menos porque trabalham menos horas, perdem tempo de carreira em gravidezes e licenças de maternidade, depois dos filhos nascerem as mulheres são menos comprometidas com a profissão.

Está explicado, então, não é? Não, não está. O argumento das horas trabalhadas não explica a diferença salarial que permanece considerando o valor pago por hora. E tendo em conta o declínio da taxa de natalidade nos países desenvolvidos e a quantidade de mulheres que escolhe não ter filhos, não são necessárias histerias feministas para concluir que o período de interrupção na carreira das mães não será muito diferente dos períodos de interrupção da carreira dos homens com um acidente de trabalho (e os homens ocupam profissões mais propensas a acidentes de trabalho) ou um ataque cardíaco (maleita que afeta maioritariamente quem tem o cromossoma y).’

O resto – e o gender wage gap excluindo todas as desculpas tradicionais – está aqui.

Northeast Asia difficult past

Ontem à noite descobri este bloqueio (chamemos-lhe assim), que é o último de uma série de bloqueios na relação entre a China e o Japão. Os ressentimentos que veem do passado ainda não estão ultrapassados – desde a participação do Japão (ao lado de várias potências europeias) no retalhar da China no final da dinastia Qing à ocupação japonesa nos anos 30 e 40 do século XX, de que a ‘violação de Nanjing’ é o caso mais emblemático – e são exacerbados pelas constantes hostilidades gratuitas japonesas, a que a China responde com outras hostilidades gratuitas. Além das disputas territoriais, há a desculpabilização japonesa das atrocidades que os seus militares cometeram aquando das invasões (os massacres, as violações, as escravas sexuais,…). E a China tem grande apreço pelo nacionalismo e faz questão de recordar as feridas. Nenhum dos países quer abandonar a memória do passado e a possibilidade de coexistência amigável pelos vistos é só wishful thinking de alguma das partes. Enfim, são bloqueios que nem contextualizando se compreendem. Por alguma razão a Ásia é o local do mundo mais instável e que maiores preocupações de segurança traz no mundo atual (por muito que a Europa só pense na Rússia).

O título é surripiado ao Barry Schwartz e o vídeo do filme Flowers of War de Zhang Yimou.