Hillary. Porque sim.

O meu texto de hoje no Observador.

‘Há oito anos, quando Obama ganhou pela primeira vez as presidenciais americanas, Tara Wall – mulher, negra e republicana (donde, votante em McCain) – disse na cobertura da noite eleitoral na CNN ‘today you can’t be black in America and not be proud of what Barack Obama has achieved’ (estou a citar de memória – que costuma ser fiável).

Eu não fiz parte da corte de enamorados do discurso, tão evidentemente vazio que até doía, ‘esperança e mudança’ de Obama. Gozei com fartura nos blogues com a semelhança dos discursos de Obama e as tiradas do presidente Bartlett na série televisiva West Wing e não me surpreendi por ver que o supostamente pacifista presidente tornar o mundo mais perigoso (sim, o querido ISIS) retirando a correr do Iraque. (Se lá deviam ter ido ou não depois do 11 de setembro é outra questão.) A melhor parte (para mim) da presidência de Obama foi a espécie de redenção de um país com uma história de escravatura, de segregação racial, da luta pelos direitos civis e de racismo tão entranhado ao eleger para seu representante cimeiro um negro.

As eleições de novembro também vão ter a sua novidade. Pela primeira vez poderão eleger para a presidência uma mulher (Hillary Clinton), um judeu (Bernie Sanders) ou um latino (Marco Rubio ou Ted Cruz).

Destes todos prefiro a Hillary e não escondo que o sexo da candidata é o fator decisivo. E não, por favor não me macem com a conversa ‘não se deve votar num candidato por ser mulher’. Ser mulher é um fator da identidade do candidato como qualquer outro – na verdade mais marcante do que muitos outros – pelo que o argumento de não se valorizar o sexo tem tanto sentido como não valorizar se tem um doutoramento ou se nem sequer frequentou a universidade, se foi Secretária de Estado ou se foi presidente da associação de pais, se era advogada na vida antes de Washington ou se escrevia livros de poesia experimental.’

O resto do texto está aqui.

da série ‘eu tenho sempre razão’

Ando a dizer há não sei quantos anos a dizer que era isto que ia acontecer com a China, a contrapor aos catastrofistas do hard landing. De resto era só preciso conhecer minimamente o país e, também, a dinâmica económica daquela zona do mundo. E eu nem tenho muitos anos disto, mas tenho o bom hábito de aprender com os mais velhos e falta-me, felizmente, o egocentrismo ignorante que impede tantos gurus da economia e da gestão de perceberem que conhecer um bom par de factos do aqui e o agora não basta para perceber a realidade do aqui e do agora.

Há uns trinta anos, o que se produz (ou o equivalente em termos de qualidade intrínseca, inovação, originalidade,…) atualmente na China era produzido em Hong Kong ou em Taiwan (e, antes disso, havia sido produzido no Japão e na Coreia do Sul). Com o desenvolvimentos destes tigres, os custos de produção foram aumentando (desde logo porque os salários foram aumentando) e foi-se abandonando as produções anteriores para se produzirem coisas novas. Hong Kong cada vez mais se dedicou aos serviços (durante anos as tradings floresceram com a venda de produtos então já fabricados na mainland) e Taiwan produz bens de qualidade que rivalizam com os dos países europeus ou que necessitem de mão de obra muito mais qualificada. Ao mesmo tempo, o que se produzia em Taiwan e HK começou a ser produzido na mainland China ainda mais barato.

O desenvolvimento chinês foi sobretudo litoral, e era mais ou menos evidente que este litoral seguiria as pegadas de Hong Kong e Taiwan, que enriqueceria, que mudaria o tipo de produção e que as cidades do interior, até aí abandonadas pela globalização, iriam por sua vez substituir as mais ricas cidades litorais como o backbone da fábrica do mundo.

Como a China é muito grande este processo de enriquecimento de umas zonas e surgimento de outras economicamente mais dinâmicas ainda vai durar uns tempos até estar esgotado. Quando se esgotar não devemos desesperar e pensar que não há mais fábrica do mundo que traga aos portugueses bens baratos. Com a venezuelização em curso que temos com o governo da geringonça, é bem provável que nessa altura estejamos nós em posição de fornecer a mão de obra das mais baratas do mundo e façamos concorrência à China nos preços de produção mais baixos.

(Já agora: os chineses sempre tiveram um período de férias de duas semanas no Ano Novo Chinês – têm outro por volta do 1 de maio -, o comércio internacional é feito com meses de avanço antes do momento em que as coisinhas queridas chinesas chegam às prateleiras das lojas do mundo rico, e nunca houve nenhuma convulsão mundial com este facto da vida.)

quanto nos custa (em aumentos de impostos e de preços) o sonho de Costa?

Parte do meu texto desta semana no Observador.

‘Claro que o argumento (se alargarmos o conceito bastante para lhe dar este epíteto) é ‘aumentamos só os impostos aos «ricos» e aos bancos’. À parte essa entidade mítica que são «os ricos» por cá equivaler à classe média alta, o leitor que comprar este argumento deve ganhar juízo. Como aumentar os impostos sobre o rendimento dos «ricos» não será suficiente – não se está mesmo a ver Centeno ter força dentro do governo para impor contenção orçamental? – os impostos sobre o consumo (chegaremos ao IVA) serão chamados à liça. Já está prometido aumento no imposto de selo sobre o crédito ao consumo, no imposto sobre combustíveis e sobre tabaco.

Agora pense bem: quem vai pagar este acréscimo de imposto de selo? Quem necessita de se endividar para adquirir um certo bem de consumo ou quem consome com o seu dinheiro corrente? E quem acha que gasta em IVA (ou ISP) maior percentagem do seu rendimento? Quem ganha pouco e gasta todo o seu rendimento em consumo (porque não consegue poupar) ou quem usa 40% do seu rendimento em consumo e o resto aplica em produtos financeiros? Pois é: os impostos ao consumo penalizam mais os menores rendimentos. E o aumento do preço de TODOS os produtos (transportes públicos lá no meio) à solta no mercado, induzido pelo aumento do ISP, também afetará só «os ricos»?

Mas não haja agravos: as clientelas partidárias do PS, PCP e BE vão ter os seus rendimentos aumentados, sustentados por estes maiores saques fiscais a quem vive desligado destes partidos e do estado. Nunca vi mais escancarada transferência de rendimentos de um grupo para outro. Orquestrada por um governo. Foi a isto que Friedrich Hayek chamou de ‘caminho para a servidão’. Graças ao PS, seremos escravos das clientelas da geringonça. Saravá, é o ‘tempo novo’.’

O texto todo está aqui.

Uma black list para os filmes com fumadores já!

Venho aqui dar os meus parabéns à OMS pela proposta de marcar como filmes para adultos e com uma infame bolinha encarnada os filmes com cenas exibindo esse comportamento indecoroso que é fumar (um clérigo muçulmano seria mesmo capaz de dizer que fumar provoca, pelo menos, avalanches). Mas não basta ficarmos por aqui. E os filmes todos, muitos deles ditos clássicos, onde há abundância de atos de fumo, ostentação de cigarros e cigarreiras, que podem contaminar as almas dos jovens deste mundo? Eu estou neste momento a deitar fora uma boa carga de dvds, que não quero que os meus filhos sejam expostos a estas indecências. A pornografia que certamente verão na internet tem um décimo do potencial destrutivo da cena do Anatomy of a Murder (um dos filmes que estava nos meus preferidos, mas que hoje foi proscrito) em que se vê o juiz – o juiz! logo uma figura de autoridade destas – a fumar. Outro filme que é para banir já é o Notorious, de Hicthcock, que eu também, no meu passado de mau discernimento, reverenciava. Deixo aqui o início do filme. Além de ter o Cary Grant a fumar, vê-se Ingrid Bergman a guiar alcoolizada. Parece-me razão mais que suficiente para extirpar o realizador da sua estrela em Hollywood Boulevard e garantir por todos os meios que esta poluição espiritual não tem contacto com as mentes impressionáveis abaixo dos 25 anos.

E o que dizer desta inacreditável transmissão de micróbios?

Aquela parte do Anatomy of a Murder em que o juiz e os advogados (todos sem fumar, thank god) falam com desconforto das ‘panties’ da mulher do acusado pode manter-se. Sempre nos lembra que os puritanos existem e são iguais em todas as décadas.

je suis estátua romana com nu

O meu texto de hoje no Observador.

‘Já tinha um texto escrito, só a precisar de revisão e apuro do tom cáustico e irónico, a verberar os moralistas anti-abstenção que atacam em cada ato eleitoral, e a explicar como a abstenção é, algumas vezes, mesmo aquilo que os políticos e os partidos merecem e de forma nenhuma um desinteresse pela política e pela participação. Mas não estava destinado a ser, porque de repente apanhei no twitter a notícia de que o governo italiano tinha coberto as estátuas de nus do Museu Capitolini para que estas não ofendessem o suscetível presidente do Irão, pelas Europas em visita oficial.

E depois de se ter dissipado o encarnado que tomou conta do meu campo de visão com esta notícia, lá me decidi que afinal devia escrever sobre os governantes que temos que teimam em esterilizar – ou, se calhar, deformar seria melhor palavra – a realidade em que vivemos na prossecução dos seus objetivos progressistas.

Neste caso do presidente do Irão versus as estátuas de nus romanas, há que ser taxativa.

1) Cabe-nos defender e orgulharmo-nos da cultura europeia, e proclamar que é, até ver, a mais justa, decente e (sim, não tenho medo da palavra) civilizada que o mundo produziu. O facto de ter falhas e imperfeições e potencial de ser melhorada não nos pode levar a um relativismo amoral de fazer equiparar – ou, em alguns casos, denegrir – a nossa cultura ocidental aos barbarismos mais ou menos declarados de outras zonas do globo. E se dizia no outro dia que para defender a Europa temos de defender o Natal, também é verdade que temos de defender as esplendorosas estátuas de nus renascentistas que o génio europeu produziu. É degradante cobrirmos as expressões artísticas da nossa cultura e da nossa História para agradar a um visitante.

2) Se o presidente do Irão não consegue conviver mantendo a sanidade (supondo que a tem) com estátuas de nus, que fique no Irão. Ou, querendo fazer negócios com os europeus e mante relações diplomáticas, engole os puritanismos e aprende a desviar os olhos das partes baixas das estátuas italianas. Ou – já que os progressistas barra lunáticos apreciam tanto ensinar os outros – destaca-se um guia para ensinar ao presidente Rouhani que o mal das estátuas está todo, afinal, no conservador iraniano. Há dois anos estive em Florença com as minhas crianças, que também aproveitaram para se escandalizar (e rir) muito com as estátuas renascentistas de pessoas despidas pelas ruas da cidade. E lá levaram a necessária lição de que os meus filhos querem-se cosmopolitas e não puritanos. Forneço com gosto o conteúdo dos ensinamentos para crianças sub 10 que ofereci às minhas, que aparentemente aproveitaria ao presidente iraniano.’

O resto está aqui.

notícias da geringonça: faqueiros, notas e sucesso escolar

O meu texto de hoje no Observador.

‘A geringonça funciona em velocidade de cruzeiro. À moda das geringonças, bem entendido. Podíamos exemplificar com as atividades do ministro Santos Silva, pessoa reconhecidamente encantadora, que achou que era a época adequada para gastar cerca de cem mil euros num faqueiro de prata e mais de cinquenta mil euros num serviço de porcelana oficial. Afinal os contribuintes existem mesmo para isto: suportar gastos sumptuários do estado, incluindo em alturas de austeridade (para os contribuintes) – como os socialistas costumam dizer nestas ocasiões, não sejamos miserabilistas nem invejosos, o que são cento e cinquenta mil euros?, há a dignidade do estado a manter, e além de tudo o resto o toque da prata portuguesa é bem mais apelativo do que o do aço inoxidável.

Também poderia referir as sua investigação de sonho: a experiência sociológica de assistir a um concerto do Tony Carreira. Possivelmente esta alternativa estava empatada com o estudo dos hábitos de antropofagia de alguma tribo recôndita da Amazónia, mas o amor do ministro à pátria é tanto que escolheu os ignaros que vão aos concertos de Tony Carreira e até ponderou – imagine-se – misturar-se por umas horas com eles.

Mas valores mais altos – critérios de geringonça – se levantaram. O ministro da educação Tiago Brandão Rodrigues causou-me o que à vista exterior se poderia caracterizar como ataques de nervos ao perceber a que irresponsável político está entregue nos próximos anos a escolaridade dos meus filhos (agora nos anos impressionáveis do primeiro ciclo).’

O resto está aqui.

O candidato Sampaio da Nóvoa, a.k.a. Mr Collins

Digam-me lá se não são da mesma espécie, Sampaio da Nóvoa e Mr Collins. (Isto sem ofensa para o Mr Collins, que é uma das minhas personagens preferidas da literatura, adorável no seu ridículo, apesar de tudo inofensivo, a melhor sátira de um clérigo ever.) E nem me estou a referir aos sapatos de padre que uma pessoa de confiança me afiançou que o magnífico reitor usou naquele já célebre ajuntamento na Aula Magna onde Soares, perante o olhar embevecido – previamente estudado e com os segundos contados entre cada pestanejar (é verem o vídeo) – do agora candidato, mandou a população bater nos políticos da direita em São Bento e em Belém.

E por falar em sapatos de padre, sobre Sampaio da Nóvoa recomendo sempre os clássicos do Gremlin. Aqui um pequeno teaser:

‘Este ano o dr. Barrete foi medalhado, encontrando-se agora na companhia de todos os artistas do PREC, e nessa qualidade não pôde repetir o momento espiritual. Foi substituido, quanto a mim com vantagem, pelo dr. Sampaio da Nóvoa. Estou certa que rebentaram os índices de audiências, atingindo os níveis mais baixos desde a transmissão, na RTP 2, em Junho de 2004, da totalidade do Festival de Dança de Roda Silenciosa Nijemo Kolo, da Croácia. Refiro-me às últimas duas horas do festival, transmitido em simultâneo com as meias finais do Campeonato Europeu de Futebol, de saudosa memória, no canal do lado.’

O exaspero do consenso

O meu texto de hoje no Observador.

‘Às vezes penso que o que vale aos países do sul da Europa é termos línguas esquisitas, que ingleses e alemães não entendem, o que lhes permite levar uma vida tranquila sem serem sobressaltados pelas nossas convulsões. Se acaso entendessem as línguas latinas mais periféricas (e, por isso, mais perto do garatujar dos ancestrais romanos), ou aquela algaraviada grega, imagino-os a entregarem-se a uma vida de ócio em frente à tv, sempre sintonizada nas notícias dos países mediterrânicos, e ao consumo de pipocas.

Como o Syriza afinal é um partido que implementa políticas ultra-uber-mega-neoliberais que obrigam o pobre Tsakalotos a dilemas dilacerantes a cada dia de trabalho, e até quer cortar 30% nas novas pensões, não temos notícias de tal agremiação. Enquanto não voltarem à retórica revolucionária gostosa à comunicação social, é de bom-tom fingir que o Syriza não existe.

Mas não há crise, que a Península Ibérica tem mais que compensado as omissões gregas. Por cá os candidatos presidenciais fazem-nos crer que além da categoria já existente de ‘presidenciável’ devíamos também instituir a categoria de ‘candidatável’ – que, parecendo que não, eliminava com proveito todos os candidatos menos Marcelo Rebelo de Sousa, Maria de Belém e Henrique Neto. O mais risível é mesmo o candidato Sampaio da Nóvoa, porque auto convencido da sua importância. Recuso-me a comentá-lo, de tão anedótico, como ‘candidatável’. Só vi tanta presunção e banalidade juntas na personagem Mr Collins, de Jane Austen, um clérigo com propensão para a graxa e falta de noção. (Façam uma pesquisa no youtube por ‘pride and prejudice bbc mr collins’ e vejam se não tenho razão.)’

O resto está aqui.

Margaret Thatcher, ícone do feminismo

And now for something completely different. Uma recensão minha – of sorts – dos dois primeiros livros da biografia autorizada de Margaret Thatcher por Charles Moore. Publicada ontem no Observador.

‘Enquanto lia os dois primeiros volumes da biografia de Margaret Thatcher por Charles Moore – Margaret Thatcher, The Authorized Biography, Volume One: Not for Turning e o recentemente publicado Volume Two: Everything She Wants – pensei amiúde como devia estar grata à biografada. Por várias razões – já lá vamos –, mas, acima de tudo por me ter feito crescer achando normal que uma mulher fosse uma política marcante, a líder de um dos grandes países europeus, e em igualdade, e às vezes até superioridade (e não só pela costumeira sobranceria britânica com os bárbaros ex-colonizados ou com os temperamentais europeus continentais), face aos pares masculinos. Thatcher tornou-se primeira-ministra britânica em maio de 1979, antes de eu ter idade para me lembrar destas felizes ocorrências. Pelo que durante a minha infância e adolescência Margaret Thatcher foi um dos ornamentos da minha vida como primeira-ministra britânica.

thatcher2Como Moore escreve no segundo tomo da biografia – que vai desde o tempo imediatamente anterior à vitória arrasadora de Thatcher em 1983 até à vitória em 1987 – durante o seu segundo mandato, no auge do thatcherismo, Margaret era vista como uma “brava campeã do Ocidente”: “todos a reconheciam; todos tinham opinião sobre ela.[…] Ela tinha-se tornado uma figura mitológica, o arquétipo da ‘mulher forte’ em todos os continentes”. Depois de uma viagem a Moscovo, Moore descreve-a como alguém que tem encontros excitantes com o presidente Gorbatchev, com “roupas glamourosas”, uma “superestrela global”, uma figura de “esperança, e também de força, uma mulher atraente, bem como a Dama de Ferro”.

 Donde: as crianças e adolescentes da minha geração, sem deixarem de notar que a maioria da política era (é) masculina e cinzenta (na melhor das alternativas com risca de giz ou azul escura), lá foram crescendo em idade e sabedoria sabendo que era inteiramente natural uma mulher gostar de política, ganhar eleições, governar o seu país de forma forte e determinada, tornar-se uma referência na política internacional (fazendo finca pé ao comunismo soviético e contribuir para a sua implosão), comandar uma guerra (nas Falklands). E, ao mesmo tempo, ter uma família e usar saias e roupa de cores vibrantes (com especial propensão para toda a panóplia de tons de azul).

Margaret Thatcher é boa candidata a ícone do feminismo e a símbolo da afirmação feminina. Nem se lhe pode apontar pecados em duas causas geralmente caras ao feminismo: apoiou a legalização do aborto e o fim das leis contra os atos homossexuais, que considerava uma “humilhante intrusão na privacidade” dos gays. Mas afinal não é. Parece, ainda hoje, que privatizar empresas públicas é mais determinante para (não) se ser feminista do que ter sido a única primeira-ministra britânica e, até hoje, a vencer três eleições seguidas para o Parlamento.’

O resto está aqui. Boa leitura. Do meu texto e dos livros. (No fim da recensão perceberão a escolha da fotografia.)

mais histeria

Isto só visto. Fizeram-me saber que Clara Sottomayor nunca defendeu a criminalização do piropo, ao contrário do que eu referi no meu texto de hoje do Observador. Deixo portanto aqui um link para a entrevista que eu referi. Nela, além das frases que citei,

i) a senhora explica que os piropos de rua não são elogios (elogio é o que uma amiga nos faz);

ii) passa o tempo na entrevista a falar daquilo que se designa por piropo (eu defino: apreciações mais ou menos brejeiras de homens a mulheres desconhecidas na rua), explicando os seus malefícios; é mesmo esse o alvo da entrevista, sem uma única vez falar de propostas sexuais – que são muito mais que comentários, visto que sugerem e propõem um comportamento seguinte (explico para o caso de no CEJ não serem picuinhas na compreensão da língua portuguesa);

iii) a proposta que faz da redação legislativa para a criminalização era para ‘comentário de natureza sexual no espaço público’; ora um piropo, mesmo que elogioso e ainda que não ameaçador, facilmente cai nesta categoria de ‘comentário de natureza sexual’; e – outra vez – enquanto uma ‘proposta’ pressupõe que algo se segue, um comentário pode ser somente a expressão de uma opinião sem convite ou pressão para que nada se siga.

E depois de tudo isto – que é o sumo da entrevista – devemos achar que Clara Sottomayor não defendeu a criminalização de comentários-piropos.

Não tem mal mudar de opinião. Clara Sottomayor, talvez porque refere que não pensou definitivamente no assunto à altura da entrevista, também mudou de opinião quanto à inclusão da criminalização do piropo no crime de importunação sexual (art. 170º do CP). Quando defendia a criminalização de comentários (algo imensamente abrangente) tal podia estar no art. 170º. Mas quando se criminaliza apenas as propostas (as que importunam, nem sequer são todas as propostas), afinal já deveria haver uma nova tipologia de crime – entre outras coisas porque, diz, ‘nem todos os assédios sexuais estão englobados. Duvido que abranja todas as situações de assédio de rua.’ O que faltará englobar, então? Calhando, a opinião nem mudou.

Não, o piropo não foi criminalizado, graças a Adónis

O meu texto de hoje no Observador.

‘Deixem-me terminar o ano com uma nota feminina, para a imaginária criminalização do piropo que (não) aconteceu no verão de 2015 na Assembleia da República. As várias notícias dando conta que os elogios de rua não solicitados – vulgo, piropos – são crime foram manifestamente exageradas. Numa alteração legislativa minimalista, comedida e ponderada – tudo bom, portanto – criminalizaram-se apenas as propostas de teor sexual que as raparigas e mulheres por vezes recebem na rua de desconhecidos. (E quem não sabe a diferença entre proposta de teor sexual e elogio, de gosto duvidoso ou não, deve abster-se de se embaraçar publicamente evidenciando tal ignorância.)

Apesar do minimalismo legislativo (palmas), esta questão do piropo foi fonte de doses intermináveis de histeria feminina e histeria masculina (oh se também há e se é estrepitosa). E mostrou como o fundamentalismo feminista inquina as discussões e atrasa soluções ponderadas. E como o fundamentalismo anti-feminista ainda fica tão ressabiado quando as mulheres ousam reclamar por um qualquer direito que julgam lhes estar a ser negado. Os dois grupos são simétricos e merecedores de casaquinhos de alcatrão e penas.’

O resto do texto a desancar os dois grupos está aqui.

Deixem os sexos diferentes

Ainda em mood natalício, o meu texto de 4ª feira no Observador.

‘Vivemos tempos individualistas – e eu, fã do individualismo e inimiga do coletivismo, aprovo. Somos encorajados a desenvolver as nossas características mais específicas, a diferenciar-nos, quem tiver talentos pouco difundidos pela raça humana deve exibi-los e terá o sucesso garantido. O mercado – de tudo – está seccionado em nichos cada vez mais exorbitantes na exiguidade. Os hippies, os hipsters, o luxo, o super luxo, o vintage, o minimalismo, os urbanos, os campestres, os cosmopolitas, os adoradores de animais, os alérgicos a animais, as famílias, os casais que querem fugir de crianças, os solitários, os viciados em estampados com bolinhas, as pessoas que gostam de roxo. Todos têm uma panóplia de produtos à disposição que os querem convencer de que foram produzidos só para mimar estes seres únicos e irrepetíveis.

As questões identitárias ocupam incontáveis páginas de livros, revistas, departamentos universitários. Os sobreviventes de um evento traumático fazem questão de evidenciar como por ele foram marcados. As minorias – religiosas, étnicas, de orientação sexual,… – reforçam os traços distintivos que possuem para não se verem diluídos no mainstream e para reivindicarem direitos e oportunidades que porventura lhes são negados.

Mas há uma exceção. Num mundo onde todos estamos compulsivamente obrigados a ser únicos, informam-nos que, afinal, os sexos são iguais e as diferenças entre eles são só construções culturais. (Isto ao mesmo tempo que se reclama – e muito bem – por uma maior participação feminina na política, na chefia das empresas e até na comentadoria mediática. O que, sendo homens e mulheres iguais, não faz qualquer sentido, porque neste caso tanto faz estar – na AR, no governo, no programa televisivo – um homem ou uma mulher.) Em suma: devo ser diferente de todas as minhas colegas de sexo, mas igual aos homens.

Vem isto, parecendo que não, a propósito dos presentes de Natal.’

O resto está aqui.

Demasiado ‘histórico’

O meu texto de ontem no Observador.

‘Aviso: estou a sofrer uma overdose do adjetivo ‘histórico’. Nos jornais e redes sociais, agora, vá de darem o epíteto de ‘histórico’ a todo o evento noticiado. Começa mesmo a ser difícil encontrar algo que não esteja destinado a marcar a humanidade pelos séculos dos séculos.

No fim-de-semana tivemos o acordo da cimeira do clima de Paris, que foi imensamente ‘histórico’. O dito acordo ainda não produziu nada, pode vir a ser boicotado por todos os lados, provavelmente gerará, se aplicado, conflitos entre os países sobre medições de emissões de carbono, compensações monetárias e o que mais se lembrarem; e é mais provável que as emissões de carbono diminuam devido a evoluções tecnológicas do que a acordos dos históricos chefes de estado com egos insuflados que consideram que as suas assinaturas têm poderes mágicos de fechar o buraco do ozono. De qualquer modo, o acordo ainda só produziu pegada ecológica e já nos dizem que é ‘histórico’. Não admira. A Agenda de Lisboa em seu tempo também foi ‘histórica’. Foi aquela cimeira que decretou (e até teve assinaturas dos primeiros-ministros todos da União Europeia, incluindo o inevitável Guterres) que em 2010 a UE seria o bloco mundial mais rico do mundo, com uma economia toda assente na evolução tecnológica. Lembro isto só para o caso do leitor não ter reparado no estonteante crescimento económico que a UE tem tido e nos carros voadores que de vez em quando o ultrapassam na autoestrada.

O acordo-barra-desacordo das esquerdas também foi ‘histórico’, sem surpresas. Já termos pela primeira vez desde que há eleições legislativas um primeiro-ministro que não foi o mais votado, que os eleitores repetidamente disseram não querer para primeiro-ministro, e a consequente degradação da qualidade da democracia que isso traz, não foi nada ‘histórico’, foi o negócio do costume. E também não foi ‘histórico’ – apesar de ser – termos um governo que durará tanto quanto o PCP demorar a decidir que já assegurou por mais uns anos suficientes a manutenção dos privilégios das suas clientelas sindicais.’

O resto está aqui.

As caras de Costa

O meu texto de ontem no Observador.

‘Há dias, numa feira de arte em Miami Beach, uma senhora esfaqueou outra no pescoço com um x-ato. O sangramento foi abundante. Pouco tempo depois veio a polícia, que colocou umas fitas CSI no local e levou a criminosa para a esquadra e a vítima para o hospital. Durante tudo isto, a maioria dos outros visitantes do evento, em vez de ajudarem a vítima, observaram deleitados a cena e tiraram fotografias.

Não, não se tratou de uma exibição de frieza perante o sofrimento alheio, ai onde vai parar a humanidade e o que mais. Afinal era uma exposição de arte e os visitantes pensaram estar a ver uma encenação teatral, com duas atrizes e sangue falso. E quando veio a polícia limitar o local, viram-no como a preparação de uma instalação artística em frente ao stand N29. Um outro visitante da feira, vendo a vítima a ser transportada em cadeira de rodas assumiu que uma escultura lhe tinha caído em cima. Mesmo no frenético mundo americano, mesmo na cool e trendy Miami Beach (local de culto para os amantes de arquitetura art deco – como eu) o esfaqueamento de alguém é algo improvável que, podendo, ninguém leva a sério.

Conto esta história para ilustrar a minha reação à entrevista de António Costa – e mulher e ‘pintainhos’ – à Caras. Quando a capa da revista apareceu no facebook, ri imenso, pus uns tantos likes e nem por um segundo me ocorreu que não fosse uma montagem a fazer pouco, pela enésima vez (é um político que convida a isso, convenhamos, desde logo pela importância pomposa que se dá a si próprio), de António Costa. Depois vi pessoas a reagir a uma primeira entrevista de um primeiro-ministro a uma revista cor-de-rosa e questionei-me. Mas só quando li a notícia do Observador percebi que sim, que António Costa – e mulher e ‘pintainhos’ – mal se viu como primeiro-ministro foi a correr dar uma entrevista intimista a uma revista de coração. Aí, a minha reação no facebook foi o comentário (vou abreviar para não ofender almas sensíveis) OMFG.’

O resto está aqui.

Defender a Europa implica defender o Natal

O meu texto de ontem no Observador.

‘Não falha: de cada vez que há um atentado terrorista há vozearia alertando para a necessidade de não deixar que o combate ao terrorismo cerceie as nossas liberdades nem ponham em causa o nosso modo de vida. As preocupações vão para os excessos de vigilância, a limitação (legal ou efetiva – pelo medo) da liberdade de expressão, a segurança cada vez mais apertada em aeroportos (e qualquer dia sabe-se lá onde).

E fazemos bem em perceber que os ataques terroristas são acima de tudo um atentado ao nosso modo de vida ocidental. É corriqueiro viajarmos de avião, usarmos os transportes públicos (os alvos dos atentados de Madrid e Londres), irmos a um espetáculo e jantarmos fora ou tomarmos um café com amigos numa sexta-feira à noite. Matar infiéis é tanto um objetivo dos terroristas como torpedear as receitas com o turismo (e parar esses atos satânicos que são os divertimentos de férias, quase todos muito pouco piedosos, dos turistas) nos locais que atacam – Sharm El Sheik e Paris, com os turistas a fugir, que o digam.

Mas curiosamente convivemos muito bem com outros ataques ao nosso modo de vida. Na verdade até há abundantes europeus que os iniciam, muito prestimosos na sua proteção dos muçulmanos residentes na Europa. O André Azevedo Alves já aqui alertou para o perigo de passarmos a vida a repudiarmos a sociedade livre, próspera, diversificada e respeitadora dos direitos e liberdades dos indivíduos que é a Europa. Temos culpa de tudo: da pobreza que se vive nos regimes corruptos aos atropelos aos direitos humanos pelos déspotas. E no terrorismo é como nas violações: a culpa é das vítimas, que estavam a pedi-las. A culpa é inevitavelmente da invasão do Iraque, antes da divisão da Palestina, antes ainda dos protetorados europeus no Médio Oriente, do colonialismo, das cruzadas, do exército de Vespasiano que vergou a Judeia, e um quilométrico etc. até ao Big Bang. Tal como os colonizadores queriam educar os selvagens que governavam porque não lhes reconheciam grau civilizacional, também agora os eternos auto-fustigadores dos males ocidentais tratam os outros povos (ou grupos) como crianças que apenas são capazes de responder a interferências e nunca de decidir o seu destino.

E, cá na Europa, os pobres muçulmanos têm de ser protegidos de uma realidade absolutamente terrível (a ponto de o horror de um genocídio médio empalidecer perante ela): as expressões públicas da religião cristã.’

O resto está aqui.

 

As esganiçadas, as damas, as sufragistas e os traidores às sufragistas

O meu texto da semana passada no Observador.

As damas

As coisas mais importantes primeiro. Vi na semana passada, em estreia planetária, o filme Jogo de Damas, a primeira longa-metragem da realizadora Patrícia Sequeira. Não vale a pena fingir aqui desprendimento com o filme ou com a autora. A Patrícia é uma amiga que me está debaixo da pele. Temos uma daquelas amizades que não só resiste às distâncias que os caminhos diferentes das vidas adultas impõem como, de alguma maneira, vive numa distância próxima. De cada vez que nos vemos retomamos tudo como se em vez de meses (e chegou a ser anos) tivesse passado meia hora desde a última vez; e contamos as novidades mais bombásticas e inconfessáveis com toda a naturalidade numa conversa a correr num parque de estacionamento.

Escrevo isto porque o filme da Patrícia é sobre amizades femininas, para verem como é assunto de que percebe bem. De resto o filme é uma exibição da amizade da realizadora e das atrizes – umas soberbas Ana Padrão, Ana Nave, Fátima Belo, Maria João Luís e Rita Blanco. É um filme feito por mulheres sobre mulheres.

As amizades femininas (tirando a excentricidade que foi O Sexo e a Cidade) são geralmente maltratadas no cinema e na TV. Como os homens predominam, mostram a sua visão preferida das relações entre as mulheres: cabelos puxados em feroz competição pelos espécimes masculinos. Jogo de Damas faz muito bem as despesas de colmatar esta falha. Tem silêncio e tem ritmo. Tem lágrimas e tem riso. Tem as ondas de choque de uma história de amor enternecedora. Tem uns maravilhosos quadros de Cecília Costa.

Não diria de mim o que Mr Darcy diz de Elizabeth em Orgulho e Preconceito – ‘your good opinion is rarely bestowed’ – mas costumo elogiar só com sinceridade. Pelo que esta referência não é um favor que faço a uma amiga; é àqueles que se convencerem a ver o filme.

As esganiçadas, as sufragistas e etc. estão no resto do texto, aqui.

Steve Jobs, o filme: Aaron Sorkin rocks

steve jobs

O filme Steve Jobs não era, à primeira vista, um filme que me despertasse uma indomável vontade de o ver. O mundo das tecnologias não me fascina e vejo agora que devia ser a única pessoa residente a oeste do estreito de Istanbul que não sabia que Steve Jobs tinha sido, algures no tempo, despedido da Apple. A personagem (real) nunca me provocou nada que não indiferença (é apresentarem-me uma biopic sobre um pintor, ou um costureiro famoso, ou um escritor e eu vou a correr) e não estou entre os fanáticos dos produtos da Apple. Só acedi a ter um ipad (agora somos os melhores amigos, concedo) mini (que os normais são pouco femininos) quando descobri umas capas lindas de morrer para os ditos ipad mini. E só me rendi ao iphone há pouco tempo, depois de me fartar de estragar balckberries e perder contactos. Quanto aos portáteis, só depois de uma lobotomia gastaria tanto dinheiro num imac (para no momento a seguir uma das minhas crianças o pisar ou deixar cair ou outra calamidade semelhante).

Mas – e isto foi outra coisa que aprendi no filme – o Steve Jobs tem razão. Sempre devotei uma saudável hostilidade aos informáticos pela mania que têm de que eu devo perceber alguma coisa de um computador para mexer naquilo. Tenho coisas mais interessantes para fazer do que configurar tecnologias. A ideia do Steve Jobs de tratar os utilizadores como débeis mentais, a quem tudo deve ser apresentado de forma muito simples e já tudo completo, é aquela que mais se adequa ao meu perfil de utilizador informático.

Mas, chegando ao filme, não foi por me ter ensinado uma ou duas coisas que gostei. Gostei pelo retrato iconoclasta de um Steve Jobs carregado de genialidade e defeitos, com os cinzentos todos e as nuances necessárias a uma boa representação de qualquer personalidade. E gostei, sobretudo pelo diálogos, que são Aaron Sorkin (esse mago argumentista a quem até se desculpa ser tão à esquerda) de antologia. Quem ainda sofre de sintomas de privação pelos diálogos do West Wing, com a rapidez, o humor, a intensidade e o movimento que os tornam imperdíveis, deve ir a correr ver o filme.

Sobre o general Alcazar, perdão, António Costa

O meu texto de ontem no Observador.

‘Escrevo-vos boquiaberta com a hipocrisia e a amoralidade que tenho visto no PS. A retórica daqueles lados está ao nível de realismo de conceitos como ‘professor Mário Nogueira’, ‘serenidade de Isabel Moreira’ ou ‘feminismo de Manuel Maria Carrilho’.

Vejamos. Temos António Costa, depois de perder eleições e não aceitar a vontade democraticamente expressa dos eleitores, a dizer, na primeira sessão da Assembleia da República, que a coligação tinha ‘mau perder’. O mesmo António Costa, durante o longo tempo de produção de um ‘acordo’ (e agora vou ingerir metade de um frasco de xarope para me eliminar a tosse quase fulminante) das esquerdas – o tal que é tão sólido que nem contempla votações favoráveis aos orçamentos apresentados pelo PS e menos ainda é acordo de coligação – afirmou que não ia deixar o país num pântano, tudo enquanto colocava diligentemente o país num pântano.

Carlos César, num clímax de alucinação, disse (juro!) que ‘o PS não procurou ser governo a qualquer custo’ – o mesmo PS que prometia chumbar o governo de dez dias gerado pelos resultados eleitorais, apresentando em troca um acordo resvés que promete nenhuma estabilidade ou durabilidade. António Costa, ontem no debate em que deitou abaixo o governo acabado de estrear, criticou crispado a falta de disposição de PSD e CDS para não viabilizarem a governação socialista-trotskista-estalinista, dizendo que os partidos da futura oposição estão ‘focados no revanchismo e animados pela obstrução’.

E a minha preferida. O reincidente António Costa, que mentiu às escâncaras ao país afirmando, após as audiências dos partidos com o Presidente, que tinha um acordo com PCP e BE para uma solução estável e duradoura de governo, quando não tinha nada (e agora tem só mais ou menos), proclamou ontem que ‘palavra dada tem de ser palavra honrada’. Preciosidades hipócritas destas não se inventam. Rejubilemos: somos a inveja de qualquer democracia musculada asiática.’

O resto está aqui.

Com a internet perde-se o bom hábito de dizer mal pelas costas

O meu texto de ontem no Observador.

‘Agora que tanto se esbraceja com as tradições parlamentares e democráticas, informo que me tenho por cada vez menos tradicionalista. Não vejo qualquer sentido manter uma tradição só porque é tradição. Não me convence o argumento ‘devemos fazer assim porque sempre [e o ‘sempre’ na maioria das vezes é coisa de poucas décadas] se fez assim, resistiu à passagem do tempo, tralalá’. As tradições devem-se usar e manter só tanto quanto sejam justas e façam sentido no mundo atual.

Mas também não vale a pena embirrar com as tradições só porque são tradições. As maneiras e a educação, por exemplo, são tradições pelas quais valeria a pena declarar, em sendo necessário, várias fatwas (isto se fôssemos dados às tradições iranianas). E nas ‘maneiras e educação’ pontifica o não incomodarmos as outras pessoas – sobretudo aquelas que não conhecemos ou com quem ainda não partilhámos meia dúzia de gins tónicos e de confidências pós-gins – com as nossas opiniões acintosas.

Esclareço: não digo para não darmos a nossa opinião – nos últimos anos na blogosfera pouco mais tenho feito que verter sarcasmo para cima de umas quatro dúzias e meia de personagens que atormentam as populações para os lados dos partidos ou dos jornais – nem sequer para não fazermos humor, ironia ou o tal sarcasmo. Mas acaso nos apeteça insultar alguém, então que tenhamos a delicadeza de o fazer nas costas dessa pessoa e de não a importunar com a nossa exuberância opinativa.

Antes, na era pré Mark Zuckerberg, os insultos públicos ou eram feitos presencialmente ou através dos jornais e televisões. Mas, na era d.M.Z., com as redes sociais toda a gente contacta com toda a gente. Assim o insulto, em vez de ficar com os familiares ou no grupo de amigos, é dito a alguém que não se conhece e que teve a ousadia de proclamar uma opinião polémica ou, simplesmente, de que o excitadinho das redes sociais discorda.

Repito a ideia: acho ótimo que as pessoas vociferem violentamente nas redes sociais. É uma catarse tão boa como qualquer outra. Precisam, no entanto, de aprender essa coisa saudável que é respeitar as fronteiras das outras pessoas, e permanecerem, enquanto insultam, nas quatro paredes das suas casas digitais em vez de invadirem as dos insultados.’

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Banir o exame do 4º ano

O meu texto de ontem no Observador.

‘Até as maiores calamidades têm uma ou outra consequência positiva. Os direitos femininos, por exemplo, tiveram grande impulso com as duas guerras mundiais. Na primeira, algumas raparigas solteiras saíram da redoma parental, tornaram-se enfermeiras e condutoras de ambulâncias e nunca mais nada foi o mesmo – como sempre acontece quando alguém prova a liberdade e a independência. A seguir vieram os loucos anos vinte, os Bright Young Things na Grã-Bretanha, o foxtrot e os clubes de jazz, meninas e meninos ricos viciados em morfina – e nada faz melhor por uma relação próxima entre os sexos que partilhar danças noturnas e vícios inconfessáveis. Veio também, claro, o direito de voto em alguns países.

Na segunda guerra, tanto no lado do Eixo como dos Aliados, as europeias asseguraram todas as tarefas que disponibilizassem os europeus para as frentes de batalha, desde os trabalhos nas fábricas, na agricultura, bombeiras da proteção civil, até nas baterias antiaéreas ou nos trabalhos auxiliares das forças armadas. Esta perceção que as mulheres ganharam das potencialidades das suas capacidades não foi menos disruptiva do que a divisão do mundo no bloco capitalista e no bloco comunista.

Digo estas palavras para dar esperança aos caros leitores perante a possível mini calamidade que o PS quer oferecer ao país. Sim, é certo, as contas públicas voltarão a andar de PEC em PEC, todos repetidamente inúteis para controlar a despesa pública em crescimento explosivo. Claro, o PS para ser governo dirá que sim a todas as pretensões lunáticas de PCP e BE, e o corte dos ordenados dos funcionários públicos será reposto, o que levará à necessidade de aumentar impostos. Traduzindo: o PS prepara-se para uma massiva transferência de rendimento dos que trabalham no setor privado para os funcionários públicos. Haverá choro e ranger de dentes, Costa já prometeu.

Contudo há uma esperança de redenção para o acordo do PS com os comunistas sortidos. Se (ainda) discordam ferozmente nas diretrizes orçamentais, já concordaram em abolir o exame do 4º ano. Não se compara à emancipação feminina, mas Costa também não se compara a Lloyd George (apesar de o seu ego insuflado supor que derruba muros de Berlim e extermina apartheids).’

O resto do texto está aqui.

Como é costume, sócrates mentiu

Parece que já há no twitter quem queira usar esse grande estadista que é josé sócrates para dar lições de democracia à coligação (e quiçá à direita ressabiada que lá por ganhar eleições não entende que quem governa é quem se sai melhor no submundo moral da política – António Costa, himself).

Bom, mas como é costume, sócrates, ao falar da sua demissão quando houve pela primeira vez uma maioria negativa contra o seu governo, mentiu. A primeira maioria negativa contra o governo de maioria relativa de sócrates ocorreu logo em 2009, com o chumbo de toda a oposição ao código contributivo para a Segurança Social que o governo pretendia que vigorasse no início de 2010. Esta maioria negativa contra o governo sócrates teve evidentemente grandes repecussões orçamentais, mas sócrates não se demitiu coisíssima nenhuma.

Um país de imbecis?

Continuando com o assunto Cavaco.

Então António Costa, depois da sua audiência com o PR, mentiu aos cidadãos portugueses (aqueles que quer governar) ao dizer que tinha um acordo sólido com PCP e BE para um governo de 4 anos. O PR veio dizer depois que nada lhe havia sido apresentado – sem desmentido de nenhum dos três partidos – e, como se tem verificado, estava a falar verdade. Por alguma razão veio, depois da comunicação do PR, dizer-se que agora é que era, que Cavaco é que tinha conseguido unir as esquerdas e dar o impulso que faltava ao acordo PS-PCP-BE (que entretanto, passados mais uns dias, continua sem aparecer).

Perante isto, o que faz a parte néscia do país? Em vez de se escandalizar por aquele que quer ser primeiro ministro – Costa – andar já a mentir àqueles que quer governar, fica a arrancar os cabelos por Cavaco ter dito o que devia sobre PCP e BE. (E não, o voto não lava iniquidades; já muita coisa politicamente indecorosa foi sancionada pelo voto popular.) Deve ser caso de, tão moralmente degradante estar a ser a conduta de Costa, que já só esperamos mentiras e trapaceirices da criatura.

E quanto a Cavaco, a esquerda neste assunto (como nos outros) não aprende. Lembro-me (só um exemplo) de uma tarde na pousada de Santa Marinha, em Guimarães, no verão de 2005. Estava grávida da minha criança mais velha e muito indisposta com o calor. Soares tinha acabado de anunciar a sua candidatura a Belém (ressabiado com Cavaco). E Luís Osório (perante os seus colegas comentadores, todos acenando com aprovação), dizia na tv que Cavaco não iria conseguir roubar um voto ao centro-esquerda a Soares. Viu-se.

Cavaco conseguiu por o PS inteiramente nas mãos de PCP e BE – tanto para o acordo (que agora é ainda mais necessário ao PS para não perder a face) como para uma futura governação (onde a única coisa que o governo PS vai ter é a legitimidade formal, que politica e eleitoral não terá nenhuma; boa sorte para os tempos oh tão fáceis que se avizinham). E fez isto dizendo as verdades que deviam ser ditas das agremiações totalitárias e revolucionárias. De mestre. Só imbecis que gostam que os governantes mintam não percebem.

escândalo: Cavaco disse a verdade

Mas que aborrecida tanta gente está – inclusive à direita, que coitada está tão condicionada a aceitar o discurso e as premissas do discurso da esquerda que pouco mais consegue que repetir o rasgar de vestes da esquerda – por Cavaco ter dito verdades. De facto onde já se viu termos um PR a dizer sobre partidos – que representam ideologias iníquas e de que nenhum governo decente de um país decente dependeria – que estes partidos representam ideologias iníquas e que nenhum governo decente de um país decente deles dependeria? Onde já se viu um PR dizer a verdade sobre dois partidos políticos? Quem é que Cavaco pensa que é, lá por ter sido eleito por duas vezes para a presidência da república à primeira volta, com votos que não se diluíam por partidos e deputados mas que o legitimavam todos a ele, para estar a fazer aquilo que foi eleito para fazer?

Pela minha parte – e pelos meus dois votos em Cavaco Silva – well done, Mr President. Por não dar cobertura às golpadas do PS de Costa – as pobres almas estavam convencidas que lhes iam poupar o trabalho de deitarem abaixo o governo que resultou das eleições, que Cavaco ia fazer o trabalho sujo por eles – e para essa outra coisa muito importante, desprezada pelo PS pelo menos desde os tempos socráticos: dizer a verdade.

Quanto a Costa e à união das esquerdas, parece que já conseguiram esforçadamente chegar a acordo para a anulação do exame do 4º ano. Groundbreaking. Pelo que faço já aqui a encomenda ao governo da frente de esquerda que comece logo por acabar com o disparate do exame do 4º ano, a tempo da criança mais velha não se maçar com ele, e antes que PCP e BE tirem o tapete ao pm mais fraco de que tenho memória.

Reviver o comunismo em Pequim e em Moscovo

O meu texto de ontem no Observador.

‘Elenco as características mais salientes de António Costa: a) é um megalómano e b) as suas limitações não lhe permitem capacidade de aprendizagem. Pelo que julga-se capaz (ele, cuja competência o fez perder com estrondo eleições fáceis) de domar – da forma que só conta (oh que conveniente) depois de ser indigitado primeiro-ministro – no governo ou no parlamento o PCP e o BE. Como se fosse igual ter um vereador comunista a emitir uma licença para uma festa de uma associação de estudantes e ter PCP e BE a impor legislação (ou lá se vai o acordo) para incinerar a iniciativa privada de um setor, a gerar desemprego ou até, quem sabe, como na Venezuela (esse regime que tanto amam), a ilegalizar o lucro das empresas.

É que, sinceramente, olhando para PCP e para BE, os nossos problemas mais pequenos são os compromissos com a NATO ou a permanência no Euro. O BE apoiou os grupos terroristas ETA e IRA. Estas agremiações estão agora mais recatadas – quem sabe se não por País Basco e Irlanda do Norte, esses territórios tiranicamente colonizados, terem os supermercados cheios (ao contrário da Venezuela) – mas organizaram o seu quinhão de atentados e de mortes de inocentes. Os amigos do BE.

O PCP é um caso ainda mais interessante. Porque há muito mais para dizer – que o comunismo não é unidimensional – do que referir os milhões que morreram à fome nas campanhas de socialização da agricultura de Lenine, Estaline e Mao. Ou requisitar à vitrina dos crimes contra a humanidade os gulags do ameno clima siberiano e a Revolução Cultural Chinesa (sintomaticamente chamada de Holocausto Chinês). Não devemos ser picuinhas a enumerar as aberrações do comunismo. Há dois autores que recomendo muito: Orlando Figes para a União Soviética com A People’s Tragedy e The Whisperers e Frank Dikotter para a China com The Tragedy of Liberation (reparou na prevalência do termo ‘tragédia’ aplicado ao comunismo, não reparou? pois) e Mao’s Great Famine (e para 2016 está prometida a obra de Dikotter sobre a Revolução Cultural).

Em The Whisperers [há uma tradução portuguesa, Sussuros, da Aletheia], que dá conta da brutalidade estalinista sobre qualquer dissidente, podemos perceber que o perigo do comunismo não é só a nacionalização da banca. É a guerra que faz a qualquer instituição que perigue a hegemonia do partido comunista – por exemplo as famílias, que tinham de ser vergadas, estilhaçadas, quebradas até colocar os indivíduos, atónitos com o terror de serem perseguidos, mais fieis ao partido comunista que aos familiares. Na China, esperava-se divórcio rápido de quem estava casado com alguém que por artes do I Ching de repente se via como inimigo do povo. Os filhos denunciavam os pais capitalistas e os colegas direitistas. Nos dois países a vigilância era constante e omnipresente, a denúncia cobarde era premiada, qualquer pecadilho se usava para destruir uma pessoa e os seus.’

O resto está aqui.

Bruno Vieira Amaral ganha prémio José Saramago

primeiras coisasO melhor autor português das primeiras décadas do século XXI – parece pomposo mas é mesmo verdade, e como prova basta apresentar o livro As Primeiras Coisas, onde se passeia, carregadinho de ironia (mas também de bondade) e de forma que nos traz reminiscências de Alice Munro, o drama da vida quotidiana e dessa categoria que é a ‘pessoa comum’ -, o Bruno Vieira Amaral, ganhou o prémio José Saramago 2015.

(Finalmente alguma coisa para dar respeitabilidade à Fundação José Saramago, que está também ligada ao prémio.)

O meu texto desta semana do Observador.

‘É certo que em tempos normais nos esquecemos da estirpe de político mais mortífero e que torna os tempos incomuns: aquele que não aceita as derrotas eleitorais, subverte os resultados eleitorais (o socialista João Proença dixit) e expõe o país à traiçoeira extrema-esquerda (que nunca ficou conhecida no mundo pelos pergaminhos democráticos), a políticos que defendem a nacionalização da banca e a socialização dos meios de promoção, e às novas inclemências dos mercados. E tudo com o nobre objetivo de esbracejar pela sobrevivência do político trapalhão que conseguiu perder umas eleições fáceis de ganhar.

Mas nos tempos normais a estirpe de político que dá mais cuidados é outra e, para grande calamidade nacional, muito elogiada tanto pelo cidadão anónimo como pelos jornalistas e politólogos: o político que deixa obra. Para catástrofe de igual dimensão, é uma estirpe de político que abunda nos ministérios e nas câmaras municipais. Claro que toda a gente escarnece das rotundas, mas é para logo a seguir aplaudir a construção da pista de neve e do parque ‘natural’ para os ursos polares, do teatro de marionetes, do zoo de periquitos, do recinto de sumo, do museu de fatiotas que os costureiros famosos desenharam para a Barbie e do centro de congressos (onde se usaram só materiais adaptados a vegans). Os ideólogos destas infraestruturas são geralmente apelidados de visionários, competentes, fazedores, empreendedores.

É certo que nos últimos anos – depois daquela falência patriótica de esquerda de 2011 – houve quem moderasse elogios a tal vírus político. Que entendesse que algumas obras são desnecessárias e, sobretudo, consumidoras de recursos financeiros que o país não tem. Que em alguns casos são realizadas não para suprir necessidades das populações mas para propiciar esquemas de corrupção e de pagamento a clientelas partidárias. Que um país necessita de infraestruturas para se desenvolver, pois precisa, mas que o país de 2015 (ou de 2005) já não é o que Cavaco Silva encontrou em 1985 sequioso de obras públicas.

Perante o atual cenário funesto, presumo ter encontrado a solução: ensinarmos Taoismo a governantes e autarcas. E se forem renitentes na aprendizagem, é recorrer a algum estratagema de manipulação cerebral, ao estilo do filme Candidato da Manchúria (na versão com Frank Sinatra e Angela Lansbury). Em último caso, se não produzirem conversão em tempo útil, podemos ameaçar com a leitura obrigatória de todos os livros de Saramago e de Valter Hugo Mãe.’

O resto está aqui.

fiquem sabendo: sou ‘facha’ e coisas ainda mais aliciantes

Os machistas trogloditas não deixam, evidentemente, de ser machistas trogloditas só por serem de esquerda. Por isso é muito comum, quando discutem política com mulheres – até para mostrarem ao mulherio que o lugar é na cozinha, não a falar de assuntos de homens – usarem ‘argumentos’ sobre a aparência física – e toda a gente sabe que as mulheres de direita são horrrrrrrrrrrendas – ou, claro, referências à sexualidade. Claro que são gente muito feminista, e modernaça, aborto livre e tal, que o facto de discutirem com mulheres como trogloditas machistas não obscureça o facto de serem feministas e progressistas e etc. e tal.

Estes forma de atacar as mulheres politicamente – fazendo uso de expressões sexuais e de as reduzirem à aparência física (repugnante, claro, que na direita somos todas repugnantes) – sempre foi muito querida à extrema esquerda (que agora engloba boa parte do PS). Ponho aqui um pequeno excerto da minha dissertação, sobre a moral sexual durante a Revolução Cultural:

‘Honig (2003) refere que o PCC, durante a RC, silenciou a sexualidade. Não só os protagonistas dos espetáculos-modelo eram assexuados, como o tema desapareceu de todas as publicações da época, fossem literatura ou manuais escolares. Até Jiang Qing, ao ser apresentada finalmente aos chineses como a mulher de Mao, foi-o como a ‘mais próxima camarada de armas do Presidente Mao’ (Honig, 2003: 147). Este silenciamento foi acompanhado de violentas punições públicas para quem ousasse quebrar a moral sexual vigente: ‘à medida que a Revolução Cultural se desenvolvia e inimigos de classe eram identificados, a imoralidade sexual tornou-se um dos “erros” mais comuns invocados para os atacar’ (idem: 148). Sexo pré-marital, casos extra-conjugais ou outras transgressões eram fonte de forte censura social e punidos pelos oficiais partidários. Sem surpresa, estes ataques de imoralidade sexual eram frequentemente usados contra as mulheres e a ‘etiqueta prostituta tornou-se uma das mais usadas contra mulheres’ (ibidem: 149).’

Como a extrema-esquerda é sempre a mesma, não muda nem quer coisas diferentes, e como por estes dias está de garras à solta, eu, por mim, já tive direito ao meu ‘puta de direita’. (Além de feia e facha, evidentemente.) Que o autor – o tal de João Quadros, que me dizem ser humorista – seja machista, troglodita, malcriado, boçal, possivelmente bipolar, não me espanta (e a criatura possivelmente orgulha-se disso). Que, sendo supostamente humorista, só consiga produzir clichés requentados, é que já me causa mais cuidados. Espero que esta falta de talento não receba dinheiros dos contribuintes.

Pormenores golpistas

Não é verdade que António Costa tenha avisado para o presente cenário – querer governar coligado com BE e PCP – antes das eleições. António Costa afirmou, antes das eleições, pretender governar se PS ELEGESSE MAIS DEPUTADOS do que o PSD. Repito: falou sempre no caso do PS ter mais deputados eleitos que o PSD. Ora a derrota foi tão estonteante que o PS não elegeu mais deputados que o PSD. Ainda na noite eleitoral Costa reafirmou que o partido que elegeu mais deputados devia formar governo.

Costa é portanto – está já demonstrado – um aldrábias fenomenal. De resto, um bom livro para entender Costa (e alguns outros líderes políticos questionáveis, mesmo os que não causaram mortandade) é este já velhinho Mao Tse-tung, the Man in the Leader, de Lucian Pye. Perceber a megalomania, as idiossincrasias de personalidade e os defeitos de caráter dos indivíduos ajuda a entender a sua atuação política.

mao lucian pye

associações de malfeitores ao governo

metralhasAnda tudo muito preocupado com o facto de PCP e BE torcerem o nariz à NATO e ao Euro. São mesmo as preocupações que agora se aventam para se recomendarem cautelas na aliança entre PS, PCP e BE.

Bom, para além da questão da absoluta ausência de legitimidade democrática e eleitoral de três partidos derrotados – um deles, o PS, com uma derrota humilhante – governarem (que a legitimidade formal não é tudo), até parece que afinal minudências como o PCP ser favorável à abolição da propriedade privada e à socialização dos bens de produção não o tornam, só por isto, um partido proscrito da governação de qualquer país decente. Ou o simpático BE, que tem lá no meio (além de domésticas desprevenidas) gente apologista da luta armada para tomar o poder e instaurar um regime revolucionário.

Enquanto os idiotas úteis se preocupam com NATO e Euro, é bom começar a lembrar que géneros de agremiações são PCP e BE. E em que tipo de associação de malfeitores Costa está a transformar o PS. Como diz o ditado, ‘diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és’.

Eleições? Que eleições?

O meu texto de ontem no Observador.

‘Só me acalma momentaneamente a ideia da soberba de Costa, que dificilmente aceitará fazer parte de um governo liderado por esse produto menor da democracia portuguesa (segundo visão socialista) que é o PSD. E há escassos três dias, na noite eleitoral, Costa afirmava que o PSD, tendo o maior número de deputados eleitos, devia formar governo com o CDS (as condições de governabilidade eram outra conversa). Costa é conhecido por mudar de opinião (atividade a que se dedica com excessiva frequência para político de confiança), mas talvez seja coluna vertebral demasiado curvilínea (até para Costa) mudar de ideias em assuntos tão sérios só em três dias, não?

Aparentemente a coluna vertebral de Costa é muito maleável: de domingo para terça-feira passou de ‘o PSD tem mais deputados e deve formar governo’ para ‘vamos negociar seriamente com a esquerda para um governo de esquerda’. Há que entender: a soberba de Costa decidiu que o seu dono será primeiro-ministro, mesmo depois de uma derrota estrondosa, estrepitosa e humilhante. Ora só pode ser primeiro-ministro com uma coligação à esquerda. Quem disse que a palavra de António Costa vale três bolívares venezuelanos?’

O texto todo está aqui.