para o PS o mundo não pára de mudar

wormHá tanto para criticar no coelho que ontem o PS tirou da cartola que terá de ficar para depois. Mas porventura o que mais me impressionou naquilo tudo foi a indigência ideológica com que os programas (e o tal coelho da cartola prepara-se para ser uma porção importante do programa eleitoral do PS, ainda que não admire mais um flip-flop de Costa nestes assuntos económicos) são feitos nos partidos políticos portugueses que estão habituados a governar. Chamam uma dúzia de ‘especialistas’ para darem os seus contributos, estes têm umas ideias mais ou menos malucas e, preferencialmente, completamente desgarradas da realidade (no melhor dos casos, são ideias inúteis e inócuas) e, tchantchantchan, tornam-se bandeira dos programas de governo como se fossem A solução para o país. Independentemente de serem potenciais criadoras de mais problemas ou, sequer, consistentes com as posições políticas anteriores do partido.

Isto não mostra só como os líderes políticos de PS (e PSD, onde se passam processos iguaizinhos) são uns basbaques que engolem a primeira tolice que ‘os especialistas’ lhes vendem – porque, lá está, são pessoas que além dos meandros traiçoeiros da política de nada percebem -; no fundo são ideologicamente tão consistentes como uma minhoca das couves.

Tomem por exemplo a proposta dos ‘especialistas’ do PS para a descida da TSU para empresas e trabalhadores. Por princípio, não tenho nada contra – desde que se assuma que isto implicará, no futuro, pensões muito pequenas. Claro que isto tresanda ao ‘choque fiscal’ que foi o trunfo de Durão Barroso em 2002 – e não é preciso lembrar que não só não houve choque fiscal nenhum como Manuela Ferreira Leite correu a aumentar ‘temporariamente’ o IVA para 19%, pois não? Mas o mais curioso é que esta baixa da TSU aparentemente vai ser proposta pelo partido que há muito poucos anos criou o novo código contributivo, que alargava a base de incidência dos descontos para a SS a tudo e mais alguma coisa que os trabalhadores recebessem, aumentando escandalosamente o montante de contribuições para a segurança social. Implicou mais custos para as empresas e foi uma redução significativa nos ordenados líquidos dos trabalhadores. Para os que trabalham a recibos verdes, foi mesmo um assalto com arma branca (vieram outros a seguir deste governo, sim).

E atenção: este novo código contributivo não se justificou com a necessidade de austeridade que a criatura socrática iniciou; a justificação foi inteiramente a de quererem assegurar a sustentabilidade da segurança social. Foi defendido por Elisa Ferreira, João Galamba, Vieira da Silva e António Costa – os mesmos que agora defendem redução da TSU e redução das pensões.

Que credibilidade se pode atribuir a gente assim?! É que, lamento, mas posições sobre a fórmula da segurança social, se as pensões devem apenas ser um garante contra uma situação de pobreza (eventualmente complementado com produtos privados) ou permitir continuar um nível de vida aproximado ao que se tinha enquanto se trabalhava, que tipos de rendimentos devem ser abrangidos, e por aí adiante, não podem ser posições circunstanciais e conjunturais nem opiniões que mudam com o vento. Num assunto crucial como a Segurança Social, o que o PS disse ontem é que é uma maria vai com as outras, sem espinha dorsal e sem qualquer princípio norteador. O que, em boa verdade, não é novidade.

Espremer direitos

O meu texto de hoje no Observador.

‘A indignação das boas almas sensíveis deste fim de semana veio a propósito de notícias (dadas – não fossem as boas almas sensíveis estarem distraídas – em tom de denúncia de grave atentado aos direitos humanos) do pedido a duas enfermeiras do Porto para fazerem prova de amamentação. Notícias que usavam termos mais próprios para a ordenha (havia que sugerir imagens repudiantes) do que para a amamentação: ‘espremer mamas’ e ‘esguichar leite’. Usar o neutro (e correto) ‘tirar leite’ seria demasiado delicado e poético para a intenção das notícias, presume-se.

Aproveito para informar já que as manchetes do próximo fim de semana dos jornais que com tanto enlevo protegeram a amamentação (e tenho um ataque de tosse enquanto escrevo isto) serão do calibre de ‘malévolos polícias impedem assalto a supermercado por pobres orfãos adolescentes desadaptados’.

E as boas almas que logo rasgaram as vestes nas redes sociais (o que permitiu diversão no twitter, que estas indignações tontas têm consequências boas) vão de seguida organizar uma petição para banir dos consultórios dos médicos de família a obrigação de se abrir a boca, estender a língua e dizer ‘aaaah’ para que o médico nos examine a garganta, que isto é figura muito triste que fazem os doentes e não pode ser. E vão também – em defesa da perigada honra feminina – juntar-se às reclamações dos muçulmanos residentes na Europa que exigem que as suas recatadas mulheres sejam examinadas por médicas e enfermeiras nos hospitais públicos. Onde já se viu uma senhora decente ter de mostrar as mamas a um homem que não o marido? – é a pergunta comum dos indignados progressistas portugueses e dos muçulmanos radicais.’

O resto está aqui.

para os maluquinhos lactantes

breast pump(é uma bomba de tirar leite)

Uma bomba de tirar leite (aqui em cima está uma igual à que eu tive aquando da amamentação da criança mais nova) é um instrumento inócuo, indolor e não, não é um atentado à dignidade da pessoa humana, mulheres incluídas. Não, uma bomba de tirar leite não se confunde com uma cadeira de pregos medieval. E apesar de compreender a excitação com isso da notícia de ‘espremer mamas’, lamento informar a quem tivesse mais entusiasmo com a imagética da coisa, mas a uma mulher que esteja a amamentar basta pressionar levemente (mais uma vez, não dói nem incomoda nada) o mamilo que saem logo umas gotas de leite (muito pouco sexy – eu bem pedi desculpa por estragar imagens).

tortura medieval(não é uma bomba de tirar leite)

Vingança pornográfica, de facto

O meu texto de ontem no Observador.

‘Uma boa história de vingança dá sempre suculento material literário. A personagem mais requintadamente vingativa de sempre é, sem discussão, o conde de Monte Cristo de Dumas (que, não há vergonha em confessar estas coisas, foi uma das grandes paixões da minha adolescência, afinal nenhuma adolescente saudável de doze anos resiste ao torturado prisioneiro inocente do Castelo de If). Logo a seguir candidata-se Heathcliff, em O Monte dos Vendavais. E, claro, a vingança é um filão interminável para a literatura policial – género que não dispenso. Na versão lusa, tivemos há poucos anos O Mar em Casablanca, de Francisco José Viegas, oferecendo-nos uma sangrenta vingança por causa de uns ainda mais sanguinários eventos em Angola trinta anos antes, em contextos inspirados naqueles em que Sita Valles foi torturada, violada e executada por comunistas da fação contrária.

À conta de tantos livres – e filmes – corremos o risco (ou, pelo menos, eu, que sou literariamente impressionável, corro) de ficarmos parciais com as mentes vingativas. Mas no caso das vinganças, como em tantos outros, a tecnologia destrui-nos o romantismo.

É que tem havido um grande número de pessoas encantadoras – cujo ressentimento e falta de escrúpulos é certamente apenas um pormenor – que partilha na internet fotografias ou vídeos de conteúdo sexual quando uma relação amorosa (ou qualquer coisa vagamente relacionada) termina. Do ex, claro.’

O resto está aqui.

magreza ilegal e obesidade legislativa

O meu texto de ontem no Observador, sobre a mais recente invenção francesa.

«’Uma mulher nunca é demasiado rica ou demasiado magra’ dizia Wallis Simpson, ela própria magricelas e com tendência para se apaixonar e casar com homens ricos. E que se tornou famosa numa década (anos 30 do século XX) cuja estética me agrada particularmente e que, no que toca aos objetos que nos protegem o corpo do frio e acomodam o pudor, promovia uma silhueta esguia e magra. As roupas de Mainbocher, Vionnet e Chanel não se destinavam a curvilíneas de índice de massa corporal elevado. Na exposição de fotografia que já aqui referi, as senhoras eram todas magras – mesmo para os padrões atuais – e os vestidos em tecido e linha que lá estavam expostos só admitiam cinturas viperinas.

(Lembro isto porque inevitavelmente achamos que é a primeira vez que tudo sucede em toda a história da humanidade – e até no período dos dinossauros – quando afinal não somos originais, apenas repetimos tendências e das vezes anteriores não se seguiu o fim do mundo como o conhecemos.)

Em todo o caso Wallis Simpson seria uma boa candidata para sofrer as penas da recente criação do legislador francês: uma lei que bane modelos excessivamente magras (com IMC abaixo de 18) e pune com multa de milhares de euros e pena de prisão até um ano quem promover a anorexia.

De França não vêm só roupas, queijos, perfumes, Monsieur Hulot e o Obelix. O país também nos habituou a produções mais questionáveis, desde a guilhotina aos anos dourados do exílio de Mário Soares, passando por Jean-Paul Belmondo. E agora esta legislação parece ser um interlúdio para habituar os franceses aos mimos da Frente Nacional. Afinal os extremistas políticos dos dois lados sempre apreciaram condicionar o corpo e a aparência femininos – a propaganda hitleriana difundia a sugestão imperativa de corpos saudáveis e com músculos habituados ao exercício, e de caras sem maquilhagem e maçãs do rosto naturalmente rosadas pelo ar livre.’

O resto está aqui.

sócrates, o PS e o realismo mágico

O meu texto de ontem no Observador.

‘Começo por me penitenciar – antes que a justificada fúria dos leitores se abata sobre mim – por associar Sócrates a um género literário (o realismo mágico) perfeitamente respeitável, que deu dois prémios Nobel da literatura ao mundo e prazeres literários em abundância a milhões de ávidos leitores (eu incluída). Não há perdão por tão mau uso de boa literatura.

Mas eu teimo, afinal o ex-primeiro-ministro (e o PS) pretende por estes dias fazer-nos crer na normalidade dos atos mais absurdos e improváveis. E as pessoas que deles desconfiam são gente mesquinha, invejosa dos estilos de vida mais caros e vistosos, plenos de ressentimento perante o retumbante sucesso político de Sócrates (de modo nenhum o autor da bancarrota de 2011 e o presidenciável preferido de muito bom socialista).

Vejamos. Um ex-pm que vive faustosamente com dinheiro proveniente de empréstimos estratosféricos de um dedicado amigo. Empréstimos que foram – como faz o cidadão desprevenido, tanto o que empresta como o que pede emprestado, esperando-se cautelas adicionais num político mediático e com vários casos exóticos, para que desta vez ninguém acusasse de irregularidades – contabilizados, registados, com notas de dívidas emitidas? Claro que não: a amizade é muito bonita e não se contabiliza, ninguém tomou nota de quanto foi emprestado e aparentemente nem Santos Silva nem Sócrates fazem ideia do dinheiro que foi transferido de um para outro. Ah, mas o processo foi transparente, em transferências e cheques, assim em caso de dúvida de datas e montantes era só ir somar as várias tranches, porque quem não deve não teme e que mal faz um amigo emprestar dinheiro a outro? Também não, o dinheiro (perdão, ‘as fotocópias’ e ‘aquilo de que Sócrates gosta muito’) circulava em notas, com entregas feitas por terceiros, ou através da conta do motorista de Sócrates, que passava dinheiro para o patrão ou lhe pagava (num caso extremo de exploração patronal) as despesas da família. Santos Silva, empresário que subiu a pulso e propenso ao lucro, fez negócios imobiliários curiosos com a mãe e a ex-mulher de Sócrates, comprando-lhes apartamentos acima dos valores de mercado.’

O resto está aqui.

crónica social

INSURGENT_BANNER-TOP-SITE_AT-CINEMA_1024X270px_V2Para verem bem a importância que tem este blog, Hollywood já se vergou à nossa inevitabilidade e está em exibição agora por aí o filme Insurgente (que não, não é um home movie connosco a fazermos graçolas). Para cuja estreia – na sala xpto do @Cinema do Saldanha Residence, que muito recomendamos – os representantes do blog foram convidados para que déssemos a benção. Infelizmente não recebemos royalties.

o perigo são os outros

Eu sei que ainda persiste a mania de que as doenças psicológicas são sintomas de fraqueza de gente de pouca qualidade; que a introspeção é para mulheres e sissies, nunca para homens de barba rija – que, como se sabe, não têm estados de alma; que as crianças não são hiperativas, são simplesmente mal educadas; que os suicídas não são doentes, são egoístas; que os depressivos são uns mandriões à procura de atenção alheia. No fundo não está muito distante do preconceito (e crueldade) que levava a que os militares com sintomas de trauma durante a primeira guerra mundial – com aquilo que então se chamava shell shock, por se supor ocorrer devido a alguma alteração fisiológica em quem esteve exposto de perto ao rebentamento de uma bomba – fossem muitas vezes fuzilados por cobardia. Passado quase um século depois da primeira teorização de Freud sobre trauma (em 1919), cheguei a uma criatura que escrevia sobre estes assuntos e dizia que trauma era algo que ocorria a gente impressionável de baixo QI. (Quando o meu palpite – por não ter qualquer fundamento em estudos existentes, tal como o palpite da dita criatura – vai no sentido contrário: se o QI influencia, provavelmente serão as pessoas de mais alto QI as mais suscetíveis, desde logo por perceberem melhor como o evento traumático é algo de fora do arco do que conseguimos saudavelmente integrar na nossa vida.)

Não sei se isto leva a que estes perigos psicológicos sejam descurados ainda hoje. Mas, se são, começamos a estar no campo da negligência – que nem se desculpa por causa do sacrossanto preconceito. Quando estava a fazer a licenciatura, na cadeira de Comportamento Organizacional recordo-me de ter estudado o caso dos operadores das gruas. Eram muito suscetíveis ao stress e a problemas daí recorrentes, devido a trabalharem isolados, num local alto e, sobretudo, por terem um trabalho que se mal executado podia acabar na morte de alguém. Os operadores das gruas. Certamente que haverá estudos semelhantes para outras profissões, incluindo os pilotos e co-pilotos de aviação comercial. Não entendo como os pilotos de avião não são psicologicamente avaliados com frequência e, se em risco, arredados dos comandos de um avião – e da vida de centenas de pessoas – até melhoria consolidada. E não são só os pilotos de aviões. Polícias (suicídios de polícias não são uma raridade) e juízes, por exemplo, também necessitam de avaliações psicológicas. Não podemos colocar a vida (e a liberdade) das pessoas nas mãos de quem está doente.

Barrigas e peitos de aluguer

O meu texto de ontem no Observador sobre maternidade e amamentação de substituição.

‘A vida moderna está cheia de perigos. Isto é o que deve ter pensado Carrie Bradshaw, a personagem da série televisiva O Sexo e a Cidade, quando, num encontro casual nas ruas de Nova Iorque com um casal de gays, estes lhe propuseram o fornecimento de um óvulo. Queriam ter filhos, de espermatozóides não tinham falta, a barriga de aluguer já estava contratada e Carrie, achavam, produzia óvulos de boa qualidade. A proposta terminou com a entrega a Carrie do cartão de um deles: a escritora que lhes ligasse se afinal resolvesse alinhar.

Bom, tanto pragmatismo no meio da azáfama nova-iorquina tira romantismo à ideia de produção de descendência. Tal como as notícias dos profícuos dadores de esperma que acabam transmitindo o seu sorriso a largas dezenas de filhos. Ou a clínica de esperma dinamarquesa que tem exportado ‘bebés vikings’ para todo o mundo. Ou os filhos do esperma anónimo (no caso da Grã-Bretanha, não anónimo) que em adultos vão à procura de quem lhes deu metade do DNA.

Mas, em boa verdade, uma gravidez resultante de um preservativo que se rompeu num caso de uma noite também não é romântica. E um casal com problemas de fertilidade que se dedica mês após mês ao método tradicional de conceção de crianças acaba usando mais teimosia e voluntarismo do que desejo ou romantismo. Mais: o casamento por amor é uma realidade com pouco mais de um século e sempre houve numerosos filhos fora do casamento; não vale a pena exigirmos agora purismos às conceções que quantas vezes ocorreram distantes do ideal.’

O resto está aqui.

 

Os portugueses imaginários de PS e PSD

O meu texto de ontem no Observador.

‘Nestes últimos anos temos verificado uma persistente sintonia entre PSD e PS: nenhum dos partidos entende aquela categoria que dá pelo nome de ‘os portugueses’. Os portugueses reais estão para PS e PSD mais ou menos como a lógica aristotélica para quem fez uma operação dolorosa e foi sedado com morfina. E a argúcia dos dois partidos no conhecimento de ‘os portugueses’ equipara-se ao bom senso e à capacidade de lidar por si próprio com as adversidades da vida de Bertie Wooster, de P. G. Wodehouse, que só conseguia escapar-se dos noivados contrariados, das sovas dos apaixonados das suas noivas e das armadilhas das tias pela ação de Jeeves, o mordomo.

Comecemos pelo PS. Tal como uma seita new age espera num santuário dos Andes pelas naves intergaláticas que a vai levar a dançar entre as estrelas, ou como os cubanos e os venezuelanos esperam pela abundância que traz o socialismo, os socialistas nacionais ainda estão à espera que ‘os portugueses’ se levantem violentamente contra o atual governo. Que – segundo vários socialistas, alguns deles ainda não na fase Alzheimer – fez o país regressar a níveis de pobreza piores do que os de 1974. E procurou diligentemente o empobrecimento do país (tudo porque são pessoas pérfidas que todas noites abrem garrafas de Bollinger Brut para celebrar o sofrimento generalizado da população portuguesa).’

O resto das confusões dos dois maiores partidos sobre nós, os queridos cidadãos portugueses, está aqui.

Venho expressar a minha solidariedade com josé sócrates

Este hino é claramente um atentado aos direitos humanos de josé sócrates. (E também é um retrato dos defensores da criatura.) Há limites para as degradações a que uma pessoa em prisão preventiva pode ser submetida.

coligação ou não, eis a questão.

Coalition-struggleJá se percebeu que uma coligação PSD-CDS será a única forma dos descendentes do Sheriff de Nottingham (também conhecidos como governo de Portugal) terem qualquer possibilidade de ganharem as próximas legislativas. (Eu continuo convencida de que perderão, mesmo em coligação, mas isso é outra conversa).

O único benefício da coligação é esse, portanto: traz a única possibilidade de ganhar.

Já quanto a malefícios, temos muitos. Desde logo um do domínio dos princípios e da pedagogia: parece-me saudável cada partido ir sozinho a eleições ver o que vale e, depois disso, se houver necessidade negoceiam-se coligações. Só neste país de gente democraticamente infantil causa estranheza que dois partidos que governam juntos depois se oponham em campanha eleitoral (ou até antes) e defendam os seus valores e marquem as suas diferenças – coisa normalíssima nas democracias consolidadas.

O maior malefício é que a coligação, depois das eleições, não servirá para nada. Se perder, a coligação desfaz-se, cada partido (depois de se candidatarem com programa eleitoral comum) vai à sua vida e à garganta um do outro e não vejo como isto não seja uma fraude aos eleitores. Piora tudo se, depois de uma coligação pré-eleitoral, um dos partidos for para o governo e o outro para a oposição. Se ganhar, a coligação continuará a não servir para nada. Não terá maioria absoluta, o PS evidentemente não se coligará com esta troupe nem fará acordos parlamentares, vamos ter um país num pós-resgate sem um governo maioritário, que durará um ano ou, no máximo, dois.

Aparentemente Passos Coelho não está inclinado para uma coligação e faz muito bem. Nada pior do que construir uma coligação para ganhar e acabar a perder – que é o que sucederá com grande probabilidade e se António Costa entender a tempo que não é o génio que sempre se supôse começar a usar de parcimóniana sua exibição aos eleitores. Até porque não se deve esquecer outro guilty pleasure da coligação: PSD e CDS juntos valem menos votos que separados.

(Foto surripiada à The Spectator.)

O Insurgente goes to Mais Mulher (again)

Só agora reparei que ainda não coloquei aqui o link do vídeo da participação da Daniela Silva e minha no Mais Mulher da SIC Mulher. Aqui vai. Falámos da Grécia – novela que ainda persiste. E brevemente vai haver mais.

Resultados do socialismo verde

«“Os sacos finos deixaram de ser produzidos e em relação aos outros, os clientes estão expectantes em relação aos consumidores”, apontou.

A medida representou uma “quebra acentuada das vendas, provavelmente terei de reduzir alguns contratos com colaboradores”, lamentou.

Atualmente, a Plasgal conta com 120 pessoas, mas é possível que tenha de reduzir “no prazo de dois a três meses para as 90, para já”, disse.

“Tivemos de readaptar algumas máquinas, se não colocarmos volumes nos mercados externos, caso contrário teremos de abater as máquinas”, explicou Paulo Almeida.

O gestor lembrou que a readaptação da indústria transformadora não se faz de um dia para o outro e isso tem impactos económicos grandes.

“A readaptação do equipamento é um processo lento” e os custos podem ultrapassar os 3,5 a 4 milhões de euros.

“Dissemos várias vezes ao ministro o impacto que isto teria no setor”, afirmou, apontando que a recomendação da União Europeia é de uma “redução gradual” para 90 sacos por habitante até 2020 e para 40 sacos em 2015.

“Em Portugal é de 35 por habitante e a decisão definitiva foi tomada em dezembro e entrou em vigor em fevereiro”, sublinhou.»

Espero que no impacto financeiro da medida suas alucinações Moreira da Silva e Passos Coelho tenham contabilizado os subsídios de desemprego que vão pagar aos mais que esperáveis desempregados que esta mudança provocou.

Mal sob o sol

Há uns anos ouvi um reputado especialista em sondagens dizer na televisão que normalmente nos meses de maio e junho os partidos de direita subiam e os partidos de esquerda desciam (ou atenuavam a queda e atenuavam a subida). A causa, segundo o senhor, era uma reação do centro moderado às celebrações extremadas e sectárias de alguma esquerda do 25 de abril.

Se calhar este ano sucedeu um fenómeno parcecido com o dia da mulher – que comprovei eu causa ataques de nervos nos mais sensíveis sistemas neurológicos masculinos: os senhores detentores da verdade, da sensatez e da virtude necessitaram de, depois da festa do mulherio inconsciente, vir repor a ordem natural das coisas. Que nós ainda nos habituávamos à atenção dada às nossas reclamações, e ainda corríamos o risco de achar que o reclamávamos servia para alguma coisa; de volta para a cozinha e para a limpeza do pó e, nos momentos intelectuais, para a telenovela, sff. E, por isso, fomos brindadas no início da semana com a informação de João César das Neves, num texto que certamente buscou inspiração na correspondência que provavelmente troca com algum ayatollah ou, pelo menos, com o presidente Erdogan, que a emancipação das mulheres nos masculiniza e que a liberdade sexual é a causa de todos os males do mundo. (A liberdade sexual das mulheres, bem entendido, que a dos homens sempre existiu sem causar grandes transtornos às cabecinhas como as de César das Neves).

O final da semana reservou-nos um treat ainda melhor, na forma da crónica semanal do reincidente José António Saraiva no Sol. Desta vez o diretor daquilo que eu até hoje pensava ser um jornal que almejava alguma respeitabilidade (ainda que com frequência tivéssemos que caridosamente afirmar interiormente que as crónicas do inventor do saco do Expresso eram apenas seus os substitutos possíveis das sessões de psicoterapia – fruto, quiçá, de a sua mãe nem sequer se ter conseguido apaixonar pelos filhos) revela-se um leitor atento da imprensa cor de rosa e dedica-se alegremente a contar-nos a vida sentimental de uma senhora (ou o que a imprensa cor de rosa diz ser a sua vida sentimental, o que qualquer pessoa pensante sabe não ser necessariamente correspondente à realidade).

E tal fascínio a vida sentimental da senhora causa no arquiteto que ele persistiu na sua descrição pormenorizada (ou etc. – ver o parágrafo acima) apesar da canseira que tal lhe provocou (ufa – desabafa às tantas). O que mais se nota de facto é este fascínio, acompanhado do prazer que qualquer criatura da estirpe e da fase evolucional do arquiteto tem em expor – em denunciar, no fundo – uma mulher que pensa que pode andar por aí a evidenciar outra coisa que não uma reiterada castidade. Que nos sirva de lição a todas: andamos por aí a apaixonamo-nos (e a fazer sabe-se lá mais o quê) e ainda acabamos a ser objeto de crónica do eminente arquiteto. Ou – se os homens seguirem os bons exemplos deste tão luminoso estandarte da moral e do curso saudável do amor – de alguma página de um pasquim local a denunciar as aleivosas.

Bom, que o inventor do saco do Expresso (e, estou certa, de todas as coisas seminais do jornalismo português) passe grande parte da sua crónica a citar a imprensa cor de rosa não espanta – afinal é assim mantida a qualidade normal dos seus escritos. Também nem vale a pena dizer que um texto daqueles é uma canalhice, de quem não tem educação nem maneiras. Porque a pergunta que apareceu nos meus neurónios femininos, ao ler a coisa, foi: terá a senhora alguma vez recusado, de forma desdenhosa e humilhante, os avanços de José António Saraiva?

Das presumidas que querem ganhar tanto como os homens

O meu texto de ontem no Observador, sobre a desigualdade salarial entre homens e mulheres.

‘Não queria passar a vida (ou as semanas) a reincidir em temas femininos, mas afinal foi o dia internacional da mulher e, na verdade, a parte feminina da população é fonte inesgotável de temas interessantes. (A masculina também.) É certo que ocorreu aquele que ficará no top 5 dos eventos mais surreais do século XXI – refiro-me, claro, a José Sócrates acusando de ‘miséria moral’ alguém que não está condenado por homicídio ou violação (facto que, pensando bem, pode ser seminal para desenvolvimentos surpreendentes no conhecimento das personalidades nascisistas e egomaníacas) – mas decidi-me a escrever sobre a desigualdade salarial entre homens e mulheres.

Algo inútil, claro, porque não existe. Assim várias pessoas me garantiram no twitter no dia da mulher. Ou melhor: existe mas é inteiramente explicada por fatores económicos cristalinos. A história que me foi contada reza assim: as mulheres ganham menos porque trabalham menos horas, perdem tempo de carreira em gravidezes e licenças de maternidade, depois dos filhos nascerem as mulheres são menos comprometidas com a profissão.

Está explicado, então, não é? Não, não está. O argumento das horas trabalhadas não explica a diferença salarial que permanece considerando o valor pago por hora. E tendo em conta o declínio da taxa de natalidade nos países desenvolvidos e a quantidade de mulheres que escolhe não ter filhos, não são necessárias histerias feministas para concluir que o período de interrupção na carreira das mães não será muito diferente dos períodos de interrupção da carreira dos homens com um acidente de trabalho (e os homens ocupam profissões mais propensas a acidentes de trabalho) ou um ataque cardíaco (maleita que afeta maioritariamente quem tem o cromossoma y).’

O resto – e o gender wage gap excluindo todas as desculpas tradicionais – está aqui.

Northeast Asia difficult past

Ontem à noite descobri este bloqueio (chamemos-lhe assim), que é o último de uma série de bloqueios na relação entre a China e o Japão. Os ressentimentos que veem do passado ainda não estão ultrapassados – desde a participação do Japão (ao lado de várias potências europeias) no retalhar da China no final da dinastia Qing à ocupação japonesa nos anos 30 e 40 do século XX, de que a ‘violação de Nanjing’ é o caso mais emblemático – e são exacerbados pelas constantes hostilidades gratuitas japonesas, a que a China responde com outras hostilidades gratuitas. Além das disputas territoriais, há a desculpabilização japonesa das atrocidades que os seus militares cometeram aquando das invasões (os massacres, as violações, as escravas sexuais,…). E a China tem grande apreço pelo nacionalismo e faz questão de recordar as feridas. Nenhum dos países quer abandonar a memória do passado e a possibilidade de coexistência amigável pelos vistos é só wishful thinking de alguma das partes. Enfim, são bloqueios que nem contextualizando se compreendem. Por alguma razão a Ásia é o local do mundo mais instável e que maiores preocupações de segurança traz no mundo atual (por muito que a Europa só pense na Rússia).

O título é surripiado ao Barry Schwartz e o vídeo do filme Flowers of War de Zhang Yimou.

Exemplo de mau feitio feminino

Helder, então vamos lá.

1. Eu não fiz peditório nenhum, nem a ti nem a ninguém. Não preciso, obrigada.

2. Estou estupefacta por teres lido alguma defesa de discriminação positiva no meu post, porque não estava lá nenhuma.

3. Não tenho que comentar o que se passa em tua casa, mas em minha casa o resultado seria mais ou menos catastrófico se fosse sequer sugerida a possibilidade de coisas como alimentar um bebé, engomar roupa ou cozinhar serem feitas por ’empatia’. Porque isto não são obrigações femininas em que o marido simpático participa para aliviar a querida esposa. São obrigações tanto do xx como do xy, em montante igual, e eu não tenho nada que agradecer por não ser eu a fazer tudo.

4. Não fiz qualquer defesa do dia da mulher e só não o acho completamente inútil porque os atropelos aos direitos humanos das mulheres que grassam pelo mundo são demasiado sérios para não serem lembrados pelo menos uma vez por ano. Mas, lá está, é um dia inócuo e que alguém se incomode com uma coisa inócua só porque celebra as mulheres é, para mim, bastante estranho.

5. Quanto à questão da informação das grandes empresas, nem entendo o problema. Eu avalio as empresas que escolho para me prestarem serviços e me venderem os seus produtos segundo os critérios que EU quero. (E nem entendo que isto cause tremuras num blog liberal). Se quero escolher as empresas porque estes têm consciência social (atribuindo bolsas, doando a instituições de caridade,…), escolho. Se quero escolher empresas que patrocinam eventos culturais, escolho. Se quero escolher empresas que se preocupam com a pegada ambiental, escolho. Se quero NÃO escolher empresas que patrocinam direta ou indiretamente ideologias socialistas, NÃO escolho. Se quero escolher empresas apenas pelo preço dos bens e serviços que vendem, escolho. Se quero escolher empresas cujas sedes estejam decoradas em roxo, escolho. E por aí fora. Faço as minhas decisões livremente e ninguém tem de comentar se eu devia afinal escolher por isto ou por aquilo e eu certamente não tenho de dar satisfações pelos meus critérios. Não concordas com os meus critérios? Paciência. Por mim, pergunto: desde quando é que uma empresa dar informações ao mercado é mau? E desde quando é que submeter uma empresa à avaliação do mercado é desaconselhável?! Se o mercado valoriza (ou não valoriza) a existência de mulheres nos conselhos de administração, as empresas têm mais é que agradar ao mercado – como fazem nas outras questões. Muito certamente não é parte do mercado (as mulheres e os homens que acham a igualdade importante) que tem de levar lições da outra parte e das empresas. E para veres bem como isto para mim deve funcionar, nem me repugna que uma empresa para agradar ao seu nicho de mercado tenha uma postura misógina (estou-me a lembrar da barbearia do outro dia); não pode é depois disso não querer ser avaliada e comentada e vilipendiada (tal como os seus clientes) por quem não gosta dos tais valores misóginos.

6. Ainda bem que vês todos como iguais. A ideia é mesmo essa e o problema que a tua visão seja tão pouco generalizada.

Então um post no dia da mulher

saltos luis xiv

Como prometido ontem no facebook, cá vai a resposta feminista ao post do Mário com o Nelson Évora.

Começo por fazer a declaração de interesses. Também não sou adepta da igualdade de género naquela parte em que anula as diferenças entre homens e mulheres. Acho o mundo muito mais divertido com a existência destas diferenças. Precisamente por haver diferenças é tão importante a participação das mulheres em todas as esferas (se fôssemos indistintos, tanto faria se fôssemos respresentados por homens ou por mulheres). E, de resto, uma das minhas lutas (se isto não soar excessivamente commie) feministas é precisamente recusar tanto a uniformização dos géneros como não aceitar que, mantendo-se a diferença, a maneira masculina de fazer as coisas seja o padrão e a maneira feminina um desvio que as mulheres devem corrigir para serem aceites. E, não nos enganenos, no nosso mundo ocidental livre e women-friendly esta forma de obrigar ar mulheres a aceitarem o padrão masculino (onde não estão tão à-vontade ficando, assim, em desvantagem) é o último (e mais insidioso) reduto do machismo.

Mas já não me convencem que as diferenças entre os sexos sejam motivo – e quantas vezes são usadas para isso – para limitar ocupações e tarefas de cada um dos sexos. As mulheres não são naturalmente adequadas à realização de tarefas domésticas, nem ao cuidado dos filhos e dos doentes da famíla, nem às atividades profissionais de cuidadoras. Eu, que me tenho por muito feminina, não acho qualquer piada a limpezas domésticas ou a tratamento de roupas ou, sequer, a cozinhar. Também não vejo que a minha natureza ditasse que a mudança das fraldas dos meus filhos, ou os banhos ou os períodos sem dormir à noite me fossem destinados em exclusivo (ou em maioria). Eeeeeeeetc.

E – e chegamos ao post do Mário – coisas como saltos altos também não são naturais ao sexo feminino. (Digo eu que uso quase sempre saltos altos; e gosto.) Nem exclusivas. Ao longo dos tempos muitos homens usaram saltos altos. Luís XIV era conhecido por usar saltos altos. Nelson Évora está apenas a fazer algo que muitos outros antes dele fizeram. E quanto ao simbolismo da fotografia, é um ótimo exercício de empatia. Aquela ideia de usar os sapatos do outro para o compreendermos. E sim, é um exercício que faz falta no que toca aos assuntos femininos (que, lá está, são menorizados e apenas para os fóruns femininos – porque os assuntos importantes e que merecem discussão geral, de homens e mulheres, são os que interessam aos homens). Pelo que Nelson Évora não está nada ridículo na capa da Máxima; está admirável. (Tanto que uma coisa que eu vou já ensinando aos meus dois filhos é que as cabeças e os corações femininos têm um soft spot para homens empáticos; para que assim desenvolvam a capacidade e a aproveitem.)

saltos homens

(Já agora quanto a este post do João Cortez, também acho um enorme disparate estas disposições legais. Mas acharia muito bem que fosse obrigatória a publicidade da percentagem de mulheres nos conselhos de administração e nos corpos de gestão das grandes empresas, por exemplo. Porque é uma informação relevante e nós somos meninas para, sabendo isso, boicotar os bens e serviços vendidos por empresas com exiguidade de mulheres no topo.)

P.S. Este post é conversa europeia (também poderia ser norte-americana). Que não nos faça esquecer os tantos sítios onde as mulheres nem veem respeitados os seus direitos humanos, tanto nas leis como nos hábitos culturais. E como tantos aceitam que este desrespeito pelos direitos humanos das mulheres seja importado para a Europa em nome da tolerância para com os imigrantes.

Atormentar clientes como método de marketing

O meu texto de hoje no Observador.

‘Há poucos dias passava num corredor de um centro comercial em Lisboa e recebi uma proposta indecente. Um senhor, jovem, que trabalhava num quiosque de centro comercial, perguntou-me ‘posso hidratar-lhe as mãos?’ Este peculiar pedido junta-se à variante ‘posso ver as suas mãos?’ que veio do mesmo quiosque em passagens anteriores.

Esta é uma abordagem aos clientes que sempre me pareceu original. Desde logo porque, no meu caso, a única resposta que têm é um olhar gélido aos desconhecidos que, de súbito, querem escrutinar as minhas mãos. E o resultado tem sido garantirem que eu – consumidora frequente de vernizes, removedores de verniz e hidratantes para as mãos – fuja daquele local que vende produtos que eu compro com tanto afinco noutros lados. Porque para mim é só falta de educação e uma intromissão na minha esfera privada pedirem-me assim, sem mais, que eu lhes mostre uma parte de mim. Algo tão despropositado como ‘posso ver os seus poros?’, ‘posso saber a cor do seu soutien?’ ou ‘tem cócegas no pescoço?’.’

O resto está aqui.

Não, quem foge ao fisco não pode ser pm

Estou desacordo com o Carlos Guimarães Pinto aqui quanto à aceitabilidade de termos um pm que fugiu aos impostos. E – para comentar de passagem os casos PPC e Costa, se o de PPC é evidente a aldrabice de vir dizer que não sabia se tinha de pagar Segurança Social (além das trapalhadas dos valores), o de Costa veremos o que é, mas eu vou já dizendo que não compro as papas e os bolos de quererem que alguém acredite que um apartamento em poucos meses valorize quase para o dobro do valor, sendo que o valor inicial era aquele sobre o qual teria de se pagar sisa. Já parace a história de um certo pm que vivia num prédio onde as pessoas que estavam isentas do pagamento de sisa por um enooooooooorme acaso compraram as casas substancialmente mais caras do que aqueles que tiveram de pagar sisa.

As razões da discordância são várias. Primeira. Não é inevitável fugir aos impostos, pelo que qualquer pessoa pode sempre escolher cumprir devidamente as suas obrigações fiscais e quem queira fazer carreira política devia aprender desde cedo que este é um custo of doing business.

Segunda. É socialmente aceitável em Portugal um certo grau de fuga aos impostos porque os temos imoralmente altos. E quem costuma vir com historietas da média da carga fiscal europeia que use os neurórios, porque temos rendimentos consideravelmente mais baixos e, como tal, a mesma percentagem de imposto é bastante mais custosa em quem tem menores rendimento do que em quem os tem maiores, mesmo que neste último caso em valor absoluto se pague muito mais de imposto. Mas os políticos não são – e não devem ser – julgados pelos padrões dos comuns mortais que se deixam governar em vez de governarem. O escrutínio é das melhores invenções da democracia e é usado em todas as democracias adultas (não é o caso da nossa). Precisamente para garantir que são os melhores – e não apenas os mais bem colocados no partido ou na pirâmide social – que ocupam os lugares que maiores decisões tomam sobre a vida de outros. E na minha definição de ‘melhor’ não está apenas a competência e a capacidade de gestão de dinheiros públicos, está também a seriedade, o espírito de serviço e o compromisso com o bem-comum. Qualidades que não costumam ocorrer nos mesmos que fogem aos impostos.

Terceira. PPC – que aumentou impostos como ninguém ainda o havia feito e refinou a AT e a legislação a pontos de as ter tornado instrumentos que só podem ser descritos como de totalitarismo fiscal – e Costa – que ainda há pouco aumentou de forma enlouquecida as taxas cobradas aos lisboetas e que de modo nenhum promete baixar impostos ou por travão nos abusos permitidos atualmente à AT (e que apoiou todos os aumentos de impostos de sócrates, bem como as listas de devedores e outros atropelos semelhantes) – são duas pessoas a quem não se exige (e não se pode exigir) menos do que uma exemplar e inatacável relação com o estado enquanto contribuintes.

Diferente seria se um político que não pagou aqui e ali os impostos devidos implementasse uma descida de impostos para todos os seus concidadãos e defendesse que o nível de imposto ao qual fugiu era imoral e que a partir de certo nível é um sintoma de autorrespeito e um imperativo moral fugir aos impostos. Não é extamente isto que tem sucedido com PPC e Costa.

Happy Birthday Master Insurgente

happy birthday

O Insurgente fez dez anos e está de parabéns. Ao meu mau feitio e à minha língua viperina (mas tudo o resto é encantador) os insurgentes aturam-nos há seis anos e estou-lhes muito grata por esta experiência. Por escrever com eles, por nos divertirmos na nossa hiperativa lista de mails (e às vezes discutirmos ferozmente sem que tenha havido sequelas nas relações pessoais), pela companhia para os almoços a meio caminho entre o Porto e Lisboa e para os gins à beira Tejo, por nos termos tornado amigos, por impedirem que me sinta um alienígena neste país de esquema mental socialista onde a valorização da liberdade nunca ocorre no primeiro momento (mas lá chegaremos). Lembro-me perfeitamente de quando li o mail com convite indecente do André Azevedo Alves para me juntar aos insurgentes. Estava acampada em casa dos meus pais na semana da mudança da minha casa anterior para a minha casa atual, nas primeiras semanas da gravidez da criança mais nova (e cuja personalidade, não certamente por acaso, pode muito justamente ser descrita como a de um insurgente). Gostei muito do convite, fiz muito bem em aceitá-lo e os planos insurgentes de dominarmos o mundo estão de vento em popa. (Temos infiltrados na assembleia da República e em vários departamentos governamentais, tomámos conta do turismo nacional, e estamos agora em reuniões secretas com os americanos para decidirmos quem se candidatará às primárias para as presidenciais americanas de 2016). Em suma: let’s keep up the good work.

E, nesse espírito, deixo aqui o meu texto de 4ª feira no Observador, sobre os dramas exagerados à volta de uma barbearia com uma estratégia de promoção parva.

‘É uma pena Patricia Arquette não viver em Portugal. Assim, em vez de no seu discurso de agradecimento pelo Oscar falar de minudências como o diferencial nos ordenados pagos aos homens e às mulheres, com uma especial menção para as mães (cujos sacrifícios em termos de carreiras e rendimentos por causa da maternidade são conhecidos), teria referido assuntos importantes que ocupam algumas feministas portuguesas. Exemplo: impedir que uma barbearia privada não receba só no seu interior homens e cães.’

O resto está aqui.

Finalmente fui posta no lugar

SAUDI-ARABIA-WOMENS-CONFERENCE

Venho aqui fazer um mea culpa (e estou mesmo a planear dormir esta noite numa cama de pregos, qual faquir, para me penitenciar). É que tenho a mania – descobri hoje que absurda – de que sei de uma forma que homem nenhum pode saber o que são as consequências do machismo e até da violência (efetiva, ameaçada, tentada, sugerida – não interessa, que são apenas graus) sexual. E, quando é o caso, não tenho problemas nenhuns em dizer ‘ganha juízo, não sabes do que falas, tem decência se faz favor’ a um homem que esteja a dizer alguma coisa sobre assuntos femininos ou de igualdade de género para a qual eu tenha pouca paciência. Mesmo com aqueles que têm a mania que são progressistas e modernos, e até se afirmam feministas e são grandes defensores do direito ao aborto. Oh quanto esquerdista aqui na blogosfera (já são muitos anos e de início era ainda mais humilde blogger do que sou hoje, e em Portugal há o bom hábito de desconsiderar quem se vê como um peão sem importância) me fez bullying de formas que só se faz a mulheres? Ainda hoje no meu texto do Observador falo das restrições de discurso que se aplicam às mulheres e que são das formas mais insidiosas de machismo dos dias de hoje. É uma forma dos homens manterem o high ground: os assuntos importantes são os que eles definem, a forma de os discutir é determinada pelo padrão masculino, as mulheres publicamente visíveis têm de ser perfeitas (qualquer pequeno defeito leva pancada ad eternum) enquanto aos homens a mediocridade basta, exige-se às mulheres uma especialização que nos homens é inexistente (uma mulher ou se interessa por política a tempo inteiro ou se perde uns minutos a discutir assuntos tradicionalmente femininos vê-se logo que é incapaz de organizar dois pensamentos sobre política), os homens perdem tempo infinito dizendo imbecilidades sobre futebol mas ai da mulher que diga ou escreva algo sobre carteiras. É ver-se o que se tem dito e escrito sobre A Barca do Inferno para perceber do que falo (e se não percebem, lá está ‘ganhem juízo, não sabem do que falam, tenham decência e etc.’).

Escrevo isto, mas hoje já não sou assim. Reformei-me. Com a polémica da crónica de Gabriel Mithá Ribeiro percebi que afinal não são as pessoas que vivem as situações que percebem mais delas e o que implicam. Gabriel Mithá Ribeiro, achava eu, tinha uma especial autoridade para falar do que é ser pobre precisamente por já ter sido pobre. Tal como estas mulheres corajosas (há mais uma aqui na Maria Capaz) tinham especial autoridade para falar do que é a violência sexual. E que estas últimas podiam dizer a qualquer homem ‘sabe lá do que fala quando fala de violações ou agressões sexuais’. Mas não. Afinal quem mais sabe sobre todos estes assuntos não é quem os vive, mas quem teoriza sobre eles e quem os usa para o discurso político.

Mais: quem viveu a pobreza e a agressão sexual nem sequer sabe – segundo as estrelas brilhantes da esquerda portuguesa – o que é a pobreza (e, presume-se, a agressão sexual e o machismo) se o relato que faz da sua experiência não se enquadrar no discurso inflexível da esquerda. (E não, não é nada degradante e vil e soez desvalorizar estas experiências de vida das pessoas – desde que esta desvalorização seja feita por gente de esquerda; se for por gente da direita, são, claro, umas criaturas animalescas sem o mais básico respeito pelos seres humanos que viveram tempos difíceis.)

É que parece que Gabriel Mithá Ribeiro fala com sobranceria dos outros pobres e orgulha-se em excesso do seu feito de pelos seus méritos ter saído de uma situação de pobreza. Como se sabe, a sobranceria e o desprezo pelos semelhantes é património da esquerda. Só a gente pomposa sem qualquer talento próprio que deve tudo o que tem e o que é à situação confortável da sua família é que tem direito a sentir orgunho nas suas conquistas, mesmo que inexistentes. Ainda: era o que faltava alguém usurpar o hábito da esquerda de tentar determinar que assuntos quem (concretamente, a direita) pode referir e usar publicamente. E Gabriel Mithá Ribeiro, não sendo de esquerda, tem de ser perfeito (é como as mulheres); se demonstra uma qualquer paixão humana, ora centremo-nos nessa paixão e desqualifiquemos tudo o que diz.

Mas, como disse, estou reformada, vou começar a pedir licença aos meus melhores sobre o que dizer do machismo ou de algum apalpão no metro de que me recorde. Vejo agora que há homens que sabem muito mais disso do que eu e penitencio-me por ter gozado já por várias vezes no facebook com os generosos homens sauditas que participaram na conferência sobre direitos das mulheres onde as mulheres se notabilizaram pela completa ausência. Mas só tontas (como eu era antes) supunham que das experiências femininas percebiam mais as mulheres do que os homens. Eu estava enganada e o homens sauditas – e os seus espelhos nacionais: os que sabem melhor que GMR o que é ser pobre – certos.

(Um dia destes escrevo sobre o poder que estes relatos na primeira pessoa têm – não é por acaso que a esquerda em peso correu a atacar GMR – e sobre a falta de decência básica que é nem permitir a uma pessoa que conte a sua história, como todas enviesada pela sua subjetividade.)

Sente-se a falta da solidariedade grega

???????????????????????????????Algures no meio dos seus seis livros sobre a Segunda Guerra Mundial, Churchill refere a sua dívida a Franco. Lembra como Franco havia sido ajudado pela Alemanha nazi, tanto durante a guerra civil como depois e como Espanha e Alemanha eram dois fortes aliados. E, evidentemente, Hitler esperava que a recompensa da sua ajuda ao regime franquista fosse a participação espanhola na guerra do lado do Eixo – mesmo se fosse uma participação à italiana, decidida quando França já estava vergada à Alemanha e se esperava que a Grã-Bretalha a seguisse. Mas Franco tinha outros planos que não incluíam gratidões a Hitler, mas manter Espanha arredada da guerra – e, de caminho, dar menos um problema aos Aliados. E assim Churchill lembrou como pôde sempre contar com Franco (e não conta nos seus livros mas sabe-se que também com ajuda de subornos britânicos a várias personalidades franquistas para que defendessem a permanência em paz de Espanha), que recebia toda a ajuda da Alemanha sem qualquer intenção de lhe retribuir declarando guerra à Grã-Bretanha.

As esperanças de Hitler face a Franco – e a ingratidão deste – lembram-me a reação da extrema-esquerda nacional face às reivindicações do Syriza. Como se em algum momento o governo grego tivesse o objetivo de defender os interesses portugueses (não tem) ou os interesses portugueses e gregos fossem coincidentes (não são). Mas temos, por exemplo, Louçã afirmando que o governo grego é quem defende os portugueses. Claro que o conceito de democracia de Louçã não será o meu – o meu tem a ver com eleições e votos e respeito pelas escolhas dos eleitores – mas talvez fosse bom explicar a Louçã que ele póprio não representa os portugueses (sempre votaram nele em números escassos) para saber por quem queremos ser representados.

E depois temos a carta das 32 personalidades – a carta que António Costa fumou mas não inalou – pedindo ao governo português para ser bonzinho para os gregos. Ainda que esquecendo as medidas que alguns dos signatários propuseram anteriormente (exigência unilateral de reestruturação) e que têm tido o bom efeito de subir taxas de juro da dívida grega, levar a levantamentos massiços de euros dos bancos gregos e, hélas, nenhum acordo sobre a dívida. E lá tivemos de ouvir com resignação Carlos César queixando-se que o PR humilhou os gregos. (Falsear contas da dívida pública nas últimas décadas para dar ideia de que se cumpriam os critérios de convergência para o Euro não é humilhante, é, quem sabe, motivo de orgulho para os gregos; já as palavras dos políticos portugueses são um golpe de que os gregos não recuperarão. Pois.)

O que me parece é que os políticos à esquerda – PS e Costa incluídos – se esqueceram que devem defender os interesses dos portugueses – que mesmo no meio de uma crise económica feroz emprestaram dinheiro à Grécia e é imoral defender que a Grécia não nos deve pagar esse dinheiro, sacrificando ainda mais os contribuintes portugueses – e não os interesses gregos.

O pior de tudo é que, de facto, os resgates internacionais do FMI têm custos sociais atrozes – ainda que a Grécia não esteja no torpor pré-revolução industrial que tantos sugerem – e devem ser questionados e repensados. Mas a Grécia é, porventura, o país menos merecedor de ser dado como exemplo de vítima do FMI.

Entretanto nisto, pelo menos, o governo (a quem devemos o mimo de agora pagarmos os sacos em todos os supermercados) não perdeu a cabeça e tivemos a consequência de não andarmos a apregoar aos ventos que não pagaremos o que nos emprestarem ou não pagaremos na totalidade: juros de títulos de dívida a 10 anos à taxa mais baixa de sempre (com ajuda do plano de compra de dívida do BCE, é certo). E o PR lembrou que já tivemos para com a Grécia a melhor solidariedade: emprestamos dinheiro em 2010 quando a Grécia precisou. Agora é a hora de esperarmos nós a solidariedade grega de nos pagarem o dinheiro que vai aliviar os contribuintes portugueses. Solidariedade preferencialmente diferente da ameaça da Grécia de vetar a entrada de Portugal e Espanha na CEE há 3 décadas se não recebesse mais dinheiro – grande solidariedade, Grécia, obrigados! Mas, lá está, sobre gratidão grega lembremos outra vez a história de Franco face à Alemanha há 75 anos.

(A fotografia é da Praça Callao em 1935.)

O chá segundo Maria João Marques

castleton

Ora então a pedido de várias famílias residentes no facebook, aqui vão umas palavras explicativas da razão por que este produto só vingará nos consumidores portugueses que são, cumulativamente, tontos e não apreciadores de chá.

O chá tem um método. Colocam-se folhas de chá (e aqui refiro-me a chá, às folhas da camellia sinensis ou da sua variante camellia assamica, não às infusões que as pessoas têm a mania irritante de chamar chá) em água perto dos 100º, um bocadinho menos para o chá verde. Deixa-se o chá abrir durante uns minutos (i.e., as folhas passarem o aroma, o sabor e coisas boas como teína, anti-oxidantes e mais umas tantas coisas para a água), coloca-se na chávena e bebe-se. O bule deve ser cerâmico. Bules de vidro (que até ficam bonitos quando se usam os chás cujas folhas estão presas de forma a formarem uma flor quando abrem) são de evitar e coisas como recipientes de alumínio a quem alguns tolos chamam de ‘bule’ são de fugir (sim, aquelas coisas repelentes que se usam por cá nos cafés, de alumínio ou inox e com bicos que deitam o so called chá por todo o lado menos na chávena, são um grande sintoma da iliteracia nacional). Um chá decente não vem em saquetas (que têm sempre folhas muito partidas e de má qualidade); e mesmo as saquetas de tecido com folhas maiores ou os infusores que se colocam dentro do bule não são ideais, porque não permitem a infusão homogénea por toda a água que está no bule. Um chá é tanto melhor quanto folhas que se utilizam são maiores e, no caso do chá preto, quanto mais pontas douradas tem. E depois há os chás de origem (os Darjeeling são chás pretos delicados e maravilhosos, os Assam são fortes e bons para beber ao pequeno almço com leite, os Yunnan são fortes e ligeiramente fumados,…), os primeiros botões de cada arbusto, os segundos botões de cada arbusto, os chás de apenas um jardim de chá (na fotografia está uma lata do jardim Castleton em Darjeeling), os chás aromatizados (com especiarias, por exemplo, que eu também gosto muito com e sem leite) e um interminável etc.

Os chás verdes (ou os chás oolong, que estão a meio caminho entre o chá verde e o chá preto) são ainda mais delicados. Precisam de mais tempo de contacto com a água, a água deve estar menos quente, as folhas são maiores, os sabores são muito mais delicados. Os chineses usam as mesmas folhas para várias levas de água no mesmo bule e de cada vez as folhas de chá passam sabores diferentes para a água. Também põem folhas de chá numa chávena e vão colocando água quente de um thermos na chávena e vão bebendo o chá com as mesmas folhas.

O chá é isto e não se admitem variações. Claro que às vezes há que comprometer. No escritório eu tenho um jarro elétrico e bebo chá numa caneca onde coloco a água a ferver e uma saqueta de chá. Mas entre comprometer (para não ter de carregar um thermos com chá) e beber umas coisas de umas cápsulas vai uma distância que qualquer pessoa com respeito por si própria não quer percorrer. Passar água a ferver durante uns segundos por uma cápsula com umas ervinhas pode ser alguma coisa, mas não é chá. Porque o chá precisa de tempo e de água menos quente.

E para os que ainda não estão convencidos: o tubo por onde passa a água que veio da cápsula e que é vertida na chávena para o suposto chá é o mesmo por onde passou o café que se fez na máquina e tem resíduos desse mesmo café (por mais que se passe água limpa); pelo que, e porque o sabor do café é mais intenso do que o sabor dos chás e infusões, vai-se ter um suposto chá que além de ser suposto chá vai saber a café. E, para isto, mesmo para os apreciadores de chá é melhor beber café.

(E nem vou à questão da estratégia de marketing da empresa, que fico com urticária com a conversa que trata os clientes como parvos e acha que a comunicação e a embalagem e a promoção e ‘o conceito’ são muito mais importantes do que o produto. Em todo o caso, dizem na notícia que ‘não vendem chá, vendem um conceito’. E de facto é verdade e devemos acreditar nos senhores: não vendem chá.)

Vitrine de apostas erradas de António Costa. E do PS.

O meu texto de ontem no Observador.

‘Mais aterradora é a posição do conselheiro político de confiança de Costa, Porfírio Silva. Entusiasta da abolição do arco da governação, vai mais longe e quer apropriar para o PS algumas das bandeiras do PCP. No texto ‘As unidades da esquerda’, de 4 de Outubro de 2014, explica. Por exemplo: uma ‘pergunta cada vez mais atual’ a que o PS deve responder, usando ‘instrumentos que estavam um tanto esquecidos’ (mais sobre este ‘esquecidos’ no parágrafo seguinte), é ‘que nacionalizações para este tempo’.

Não vale a pena magoarem a córnea de tanto esfregarem os olhos. Leram bem. O mais próximo conselheiro de Costa – escolhido presumo porque Costa vê mérito nas peculiares ideias do senhor – aconselha-o a averiguar o que há por aí no país para nacionalizar. Separo as sílabas: na-cio-na-li-zar. Não sei o que é mais trágico (e cómico): se Porfírio Silva achar que há que nacionalizar, se nem entender que o mecanismo ‘nacionalização’ não estava nada esquecido – simplesmente foi recusado e repudiado eleição após eleição pelos votantes (claramente uns rústicos que não sabem responder decentemente às perguntas cada vez mais atuais) que se recusaram a dar expressão eleitoral de monta aos partidos amigos de nacionalizar.’

Está completo aqui.

A crise da comunicação social explicada numa notícia.

Nesta notícia do jornal dito de referência chamado Diário de Notícias. É que isto não é só ativismo político (coisa diferente de ativismo político é que é difícil encontrar no DN; e por alguma razão eu não dou nem um cêntimo do meu dinheiro a esta publicação neste estado de coisas). É a notícia mais imbecil, ignorante, aparvalhada, estulta, básica, ignorante que eu me recordo de ter lido em Portugal nos últimos anos.

E nem trago isto aqui para entrar na discussão sobre os números das exportações, que mesmo que fossem um sucesso seriam um sucesso das empresas, não do governo. E também nunca partilhei da ideia gaspárica e passista de que devíamos ser um país totalmente virado para as exportações, e as empresas que vendem para o mercado interno – as tais vilãs que não se dedicam aos bens transácionáveis – que vão à falência, que os portugueses devem ser uma espécie de chineses que trabalham para exportar e que, no resto do tempo, poupam em vez de consumir, que as ‘taças de ferro de arroz’ que os tempos maoístas garantiam na velhice agora já não são asseguradas.

A desinformação, estupidez e má-fé começam logo no título: a Alemanha ROUBA crescimento económico a Portugal (entretanto ‘rouba’ foi alterado para ‘desviou’). A tese do artigo, que espanta ter sido congeminada por alguém sem deficiências cognitivas, é esta: os países com quem temos défices nas trocas comerciais estão a prejudicar o crescimento económico do país. (O que, por acaso e tal como no caso de ontem, é termos a esquerda novamente a tomar para si as imbecilidades deste governo, desde logo que o PIB vale apenas pelas exportações.)

Vamos lá ver.

1. A coisa mais bonita da economia é que não é um jogo de soma nula. Aquilo que uns ganham não é aquilo que os outros perdem. (De resto tem sido esta a tragédia de comunistas pelo mundo inteiro.) Pelo contrário: em economia, o bem dos outros é o meu bem e o mal dos outros é o meu mal. Se eu tenho um vizinho rico, vou-lhe conseguir vender mais e vou enriquecer também. Se o meu vizinho é pobre, a probabilidade de continuarmos ambos pobres é maior. A evolução da economia não se faz por transferência de riqueza de uns lados para outros, de uns indivíduos para outros, mas por inovações (tecnológicas, dos canais de distribuição, da maior proximidade das relações entre agentes económicos,…) que verdadeiramente criam riqueza out of the thin air. Os mesmos recursos de antes, depois da inovação permitem que se crie uma riqueza maior, que a produção seja mais abundante. Quem não sabe ou não percebe isto, devia escrever na secção de mexericos ou de crimes (o DN também aposta forte aqui) mas abster-se de todo de ecrever sobre assuntos económicos.

2. Só um rematado imbecil pode supor – como sucede no artigo – que aquilo que compramos à Alemanha (a vilã deste texto) poderia ser produzido em Portugal ou, podendo ser, que o seria pelo mesmo preço ou mais barato. Só um rematado imbecil não sabe que se não comprássemos à Alemanha o que compramos, os consumidores portugueses ou não compravam de todo (porque não produzíamos) ou compravam muito mais caro (porque é precisamente por não conseguirmos produzir mais barato que não se produz cá). E, como se não comprássemos à Alemanha também não lhes venderíamos (estas coisas funcionam sempre para os dois lados), o rendimento que os portugueses obtêm com as exportações ir-se-ia, não seria compensado pelo que se produzia a mais para o mercado interno (o autor do texto não deve saber que somos um país de 10 milhões de pessoas) e teríamos portugueses com rendimentos menores a necessitarem de comprar bens que seriam mais caros ou inexistentes. É a isto que se chama perder poder de compra.

3. A beterraba que escreveu o artigo é tão ignorante que nem percebe que o que importamos da Alemanha pode ser necessário para exportar para os sítios onde a criatura vê o comércio internacional como virtuoso. Dou o exemplo da minha empresa. Temos a frota de marca alemã, os empilhadores de paletes são alemães, a estanteria do armazém a mesma coisa e sei lá mais quantos equipamentos que suportam o trabalho das pessoas da empresa. É por termos esses equipamentos – que nos permitem organizar o trabalho melhor e diminuir custos – que conseguimos vender quer para o mercado interno quer para outros países. Pelo que o jornalista que vá dar palpites sobre que tipo de relações comerciais devo ter ou deixar de ter com a Alemanha, Espanha e os outros países no seio caridoso da sua família, que nas decisões das minha empresa não tem que se meter nem opinar. Se não gosta, simplesmente não compra – que é o que eu faço com o DN enquanto o jornal dito de referência continuar com esta indigência desinformativa.

4. A beterraba também não sabe, mas se Portugal tem um défice comercial com a Alemanha, é porque os agentes económicos livremente escolhem importar mais da Alemanha do que exportam. Tal como Portugal não é uma economia, fechada, também a UE não é outra economia fechada. E ainda bem. Pelo que, a não ser que a beterraba – e os partidos malucos syrízicos em que provavelmente vota e para os quais faz propaganda – queiram tirar Portugal da UE e da Organização Mundial de Comércio, vai suceder sempre – e é não só normal como saudável que assim seja – que com uns países temos excedentes comerciais e com outros temos défices comerciais. Nem uns nem outros nos ‘roubam’ crescimento económico. Pelo contrário: podermos comprar e vender a todos é o que potencia o nosso crescimento económico.

A versão ‘ viveram acima das possibilidades’ vinda da esquerda

Há que reconhecer: no início (mas ainda persiste) da implementação do programa de ajustamento havia o discurso do governo que assentava na ideia de que os portugueses se tinham endividado para consumir, que queriam gastar mais do que conseguiam ganhar e que tinham de ser ensinados a portarem-se como cidadãos economicamente responsáveis. As políticas fiscas extorcionárias de Vítor Gaspar não só visavam obter rapidamente dinheiro que permitisse ao estado honrar os seus compromissos financeiros como, também (ou, se calhar, sobretudo), castigar os portugueses por terem consumido em excesso, puni-los pelas veleidade de comprar os certamente apelativos ecrãs de LSD que no outro dia foram apresentados ao mundo por Paes Mamede.

Por mim, nunca alinhei nesse discurso. O excesso de consumo privado resolve-se quando os privados têm de pagar as contas e, para isso, gastam menos dinheiro em consumo e passam a gastar mais em amortizações de capital e juros dos empréstimos que contraíram. Não foi por isto que Portugal necessitou de um resgate financeiro. Foram os desvarios do estado, que desde Guterres aproveitou a possibilidade de endividamento a taxas de juros baratas trazida pelo euro (ou pela entrada nos mecanismos das taxas de câmbio) para gastar como se não houvesse amanhã. As privatizações (pela diminuição do stock de dívida) mantinham o nível de dívida em montantes aceitáveis e a diminuição das taxas de juro permitiam que se gastasse noutros lados. Depois veio o PSD e CDS, que claro que tiveram como política de consolidação orçamental (ataque fulminante de tosse) o aumento de IVA e mais taxas e taxinhas. Por fim veio a catástrofe sócrates, que, mesmo num contexto em que a economia já não crescia, o financiamento se tornava mais caro, e, depois, a crise de 2008 revelou todo o edifício sem alicerces que eram as finanças públicas portuguesas, continuou a gastar como se não houvesse amanhã.

Sempre com a crença – que Costa (naquela que é a única coisa inteligível das banalidades que diz) partilha – de que estimulando a procura interna a economia vai crescer, a dívida (pelo crescimento do PIB) diminui percentualmente e o mundo, de súbito, torna-se maravilhoso. Que isto desde 2000 não funcione, não interessa nada. Um bom socilaista acha que os outros são imbecis e vão persistir ad eternum em comportamentos que não levam a lado nenhum.

O resgate financeiro veio na sequência de políticas públicas desastrosas, não de decisões privadas. Nunca comprei esta narrativa (pobre da palavra narrativa, que depois de sócrates vai ficar sinónimo de historieta propagandística) destinada a sancionar a política fiscal imoral deste governo – e não apoiei a forma como se reduziram os défices orçamentais.

A esquerda – neste ponto muito concreto com razão – sempre se insurgiu contra esta visão do ‘viveram acima das possibilidades’. Foi por isso com surpresa que ontem, numa conversa de twitter com Rui Cerdeira Branco e Marco Capitão Ferreira, que o Rui sugeriu que a troika serviu para nacionalizar o crédito malparado privado. Entretanto (enquanto escrevia este post) já explicou que se referia à banca alemã, mas a conversa toda de ontem com o Rui e o Marco ia no sentido dos privados portugueses. Até parecia que são nacionalizados todos os prejuízos das empresas portuguesas, que de cada vez que há dificuldades em pagar aos bancos o financiamento que se obteve lá estão os contribuintes bondosos dispostos a ajudar nos tempos de dificuldade e por aí fora.

Claro que isto é uma tremenda alucinação, como qualquer pessoa sabe. As inúmeras empresas que faliram – muitas por não conseguirem pagar as dívidas à banca – são prova disso. E conheço muita gente que tinha empresas que, tendo falido ou não, teve de entregar todas as garantias que tinha contratado para os empréstimos da banca, ficando sem casas, carros, património de toda a espécie. E que tem níveis de vida agora que são um fraco reflexo do que um dia foram. (Quem diz que os funcionários públicos foram os mais afetados por esta crise devia ter um piano a cair-lhe em cima.)

E o pior é que não têm dificuldades por decisões de gestão insensatas ou de passos maiores do que a perna, mas porque foram exterminados pela contração da procura interna protagonizada por Vítor Gaspar e Passos Coelho através do enorme e imoral aumento de impostos.

Mas o curioso disto tudo é que a esquerda socialista, na sua ânsia de branquear a governação socialista quase ininterrupta entre 1995 e 2011 para fins eleitorais em 2015, parece que também já não recusa apontar o dedo aos privados portugueses pela necessidade de resgate em 2011.

O que, a verificar-se a tendência, é só mais um sintoma do desnorte socialista.

Prazeres de fim de semana

Hogwarts

Aqui vai uma breve história do antissemitismo em Hogwarts. (Algo que, tendo sido eu dos maluquinhos que pré-encomendava com meses de antecedência os livros do Harry Potter na Amazon, não podia deixar de trazer para aqui. E aproveito para dizer aos adultos que se queixam da limpeza de sofrimento emocional das atuais histórias de crianças – filmes and so on – que se nota que nunca leram a série Harry Potter.)

‘Jews were admitted as early as 1878, when Headmaster Eupraxia Mole, after receiving a justly famous letter from the Chief Dybbuk of Poland, recommended it. Assimilated wizards of Jewish ancestry began making their mark at the school long before that—probably the best known being Disraeli’s wizard brother, Nigel (Ravenclaw, 1829)—and the Jewish influence at Hogwarts extends back even further. Maimonides was warmly received in 1191, and though Spinoza’s invitation to deliver a series of lectures, in 1652, was met with protests, organizers were careful to note that it was the philosopher’s virulent anti-wizarding stance that they objected to, not his Jewish extraction.’