Juízes a ajustarem contas com as últimas eleições

Toda a gente democrata e de bom coração sabe: este governo está a ‘ajustar contas com o 25 de Abril’, com as ‘conquistas’ de Abril – como o estado social, os direitos laborais (todos eles justíssimos e aquém do necessário), o SNS, a escola pública e outros bens que, como a gente descrita no início da frase também sabe, são vacas sagradas e inquestionáveis -, com os ‘avanços’ de Abril (e que não se deveram a nada que não ao sucedido em 25 de Abril) como o crescimento económico e a melhoria generalizada das condições de vida da população portuguesa. Sabem, ainda, que este governo – de gente maldosa e que se regozija com o sofrimento alheio – quer, segundo a agenda ‘ideológica’ do ‘neo-liberalismo’, retirar recursos dos trabalhadores para os entregar ao capital, criar uma nova onde de analfabetos (para dentro de anos a classe capitalista ter, novamente, criadas e jardineiros portugueses e baratinhos), pôr as pessoas pobres e doentes a definharem em casa, quiçá inverter os bons números da mortalidade infantil e ainda outras aleivosias semelhantes. Ou seja, destruir o ‘espírito de Abril’.

Bom, não pretendo aqui defender este governo, que não sei se é neo-liberal (ninguém sabe, aliás, diz-se só porque é um chavão e fica bem) mas não é com toda a certeza liberal. É, pelo contrário, um governo estatista e, portanto e como todos os governos estatistas, socialista. Nem pretendo rebater as coisas todas que as pessoas de bem ‘sabem’.

Pretendo, sim, dar as minhas colheradas para esta discussão dos ajustes de contas. Nas últimas eleições legislativas, os dois partidos da coligação governamental prometeram reforma do estado e diminuição estrutural da despesa pública. Não interessa, para o caso, se cumpriram o prometido; foi nesse programa que mais de 50% dos eleitores efetivos votaram. Ora aparentemente os juízes não devem ter gostado do resultado das eleições e decidiram dar um golpe na democracia. Numa das poucas tentativas do governo de diminuir despesa pública – repito: promessa eleitoral -, os senhores juízes do tribunal constitucional mandaram o governo e os seus eleitores darem uma volta. No OE 2013, a diminuição de rendimento dos funcionários públicos face aos do setor privado era de cerca de 7% e temporária. Isto foi inconstitucional. Mas a redução permanente de 5% dos ordenados dos funcionários públicos decidida por um governo PS foi, obviamente, constitucional. Repetindo a graça, na semana passada outro tribunal decidiu que não eram necessários serviços mínimos durante a greve dos professores ao exame de português do 12º ano. Anteriormente, na mesmíssima situação, com um governo PS, claro está que os tribunais aceitaram a necessidade de serviços mínimos. Quanto à isenção judicial estamos conversados.

Eu não sei com quem ou com quê, se com alguém ou com alguma coisa, o governo está a ajustar contas. Mas sei que os juízes estão a ajustar contas com os resultados das últimas eleições legislativas e com os eleitores que votaram na reforma do estado e na diminuição da despesa pública. E este ajuste de contas até pode ser constitucional. Mas fede.

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Em Elvas esteve um ministério público fastasma?

Nesta notícia de há dias, dando conta de que a Procuradoria Geral da República pedia a anulação do julgamento sumário do senhor condenado por insultar o PR - e não me interessa se o PR foi insultado ou não, em caso nenhum o dito senhor deveria ter sido acusado, julgado e condenado – há várias dúvidas que me ocorrem. Quem foi que determinou a acusação, que pediu um julgamento sumário e, em julgamento, que se ocupou de defender a acusação e, supõe-se, pediu a condenação? Não foi um magistrado do mesmo Ministério Público que diz agora ser ilegal realizar um julgamento sumário neste caso? E, se foi um delegado do MP que se envolveu num julgamento ilegal (e não parece que as polícias e os juizes tratem destes processos sozinhos), o que vai suceder a esse delegado do MP? Tem um processo disciplinar? Enviam-no para trabalhos agrícolas, já que a lei não conhece e, portanto, com a lei não pode trabalhar? Ou continua tudo como se nada fosse e o delegado do MP ainda corre o risco de ser promovido para abafar a incompetência?

E mais uma dúvida, porventura a mais importante: porque diabo a comunicação social se porta como um cordeirinho com o sistema judicial, em vez de questionar o que se passou e quais as consequências?

Resposta a outro não-militante do bloco

Finalmente se lê alguma coisa no Aventar que, pelo menos, tenta o humor. E nestas coisas – do humor e do resto – eu sou partidária de esquecer que as pessoas chegaram tarde para relevar o facto de terem chegado. Assim, esclareça-se (tudo coisas muito importantes):

1) O senhor que já não é sisudo chama-se António Fernando Nabais e não ‘Fernandes’ como eu por lapso referi. Peço imensa desculpa, e só tenho a dizer em minha defesa que sou uma pessoa distraída (para certas coisas, que uma carteira ou uns sapatos bonitos nunca escapam à minha atenção). Em todo o caso, fica reposta a verdade sobre o nome de quem, afinal, até tem sentido de humor (em desenvolvimento, mas estamos esperançosos).

2) Estou muito desiludida. Eu escrevi dois posts em que, lá está, me supus ser engraçada; no primeiro, parodiava a anulação do indivíduo nas sociedades comunistas; no segundo, exercitava a ironia (tão só) a propósito de um António FernandO Nabais ainda pré-sentido de humor. Não obstante estes dois objectivos comezinhos, pensava eu que estes dois posts eram todo um ideário político e estava mesmo a ponderar enviá-los para CDS e PSD como proposta de novo programa partidário (aquele que lhes pegasse primeiro estava bem para mim, que há que fazer pela vida, há carteiras caras para comprar, etc.). Afinal, fiquei a saber que os dois posts não chegam para, pelo menos, constituirem um programa de governo. Estou prostrada com a desilusão.

3) Fico um bocadinho mortificada (pelo António FernandO Nabais) pela necessidade que teve em dizer, para me pôr no lugar, que não me leva a sério. Pensaria eu que era evidente que tal é, enfim, indiferente vindo de alguém em cujo nome eu nem acerto. Em todo o caso, só para ficar satisfeito, fingirei que sim, por cinco minutos.

4) Fico satisfeita por fazê-lo rir, que umas boas gargalhadas são o melhor que nos dá a blogosfera.

5) O mais importante. Vá lá, esforce-se, não seja preconceituoso e não pense em conselhos meus sobre um pullover pelos ombros: é possível alguém não apreciar as camisolas de Catarina Martins e, ainda assim, ser apreciadora de looks masculinos informais e pouco compostinhos.

6) Para terminar num registo sério (não sei se me perdoarei), tenha lá cuidado nas (tres)leituras, que eu em lado nenhum chamei ‘políticas socialistas à corrupção do Estado’ (nem sequer falei de corrupção do estado). Em todo o caso não resisto a dizer-lhe que as políticas socialistas, por passarem as decisões do indivíduo para os burocratas do estado, são precisamente o caldinho que propicia e faz florescer a corrupção do estado.

Não gozareis com as camisolas da Catarina Martins

Parece que um senhor chamado António Fernandes Nabais se zangou pelas possibilidades que eu aventei sobre a agora famosa Inês pró-grevistas Gonçalves. E parece também que a esquerda pode gozar com o português rústico de Cavaco Silva, com a sua falta de elegância a comer bolo-rei em frente às câmaras de televisão, com o sotaque e tudo o resto do rapaz do programa do Relvas de cujo nome já não me recordo, com o Martim do prós e prós, mas ai Jesus se alguém ousa ironizar sobre a gente do bloco, almas maiores cujos meros mortais não devem presumir poder ridicularizar. (Também parece que está muito bem insultar bloggers, mas alto lá quanto à falta de reverência pela alegada camisola da Catarina Martins. Critérios.) Além de falta de sentido de humor – típico do bloco, que prefere o estilo inquisitorial ao irónico – há que reconhecer que outras falhas ficam evidentes.

Em primeiro lugar, excelentíssimo e sisudíssimo senhor Nabais, lamento que não tenha percebido que o meu post não era nem pretendia ser uma resposta à alegada ou real Inês. Era mesmo para lembrar, à boleia do texto do Vítor Cunha (que tinha também piada), e pegando nos preparos em que a Catarina Martins se apresentava na AR e nos atentados totalitários contra a liberdade individual existentes em todos os países e partidos com ideologia próxima do bloco, onde nos leva a ideologia da extrema-esquerda. E por isso não vale a pena responder-lhe na linha do que pacientemente fez o Vítor.

Em segundo lugar, e muito importante. Ri-me imenso com o uso que dá ao adjetivo ‘fútil’. Sou uma feroz defensora do direito das mulheres à futilidade (e dos homens). Não tenho nada contra mulheres fúteis. As mulheres que eu não suporto são mesmo aquelas que se levam demasiado a sério para dispensarem uns minutinhos do dia a pensar no que vão vestir e calçar de forma a não acabarem fazendo as figuras que Catarina Martins fazia, demasiado preocupadas com coisas importantes para aplicarem um gloss nos lábios, demasiado ocupadas com a revolução que há-de vir para fazerem uma manicure. E dos homens que não percebem que uma mulher pode cuidar da aparência, ser vaidosa e ainda assim emitir opiniões políticas mais acertadas do que os sisudos do bloco, tenho a dizer que são burros. E, além de burros, machistas.

Em terceiro lugar, lamento que a Catarina Martins se apresentasse daquela forma descuidada na AR e ainda permitisse que as televisões a entrevistassem. De facto também não imagino o que lhe passou, e durante tanto tempo, pela cabeça. Fazia figura de quem acordava, vestia uma camisola (tricotada em casa por alguém sem talento para o tricot) que estivesse enrolada nos pés da cama e pronta que estava para a AR, mas, lá está, a culpa não é minha. E já que estamos na imagem da Catarina Martins, deixe-me que lhe diga que a imagem atual, ui, que sensaborona, indicia uma personalidade pouco imaginativa e também não é lá muito apelativa. Não há uma cor mais viva a realçar os seus olhos bonitos, um colar que surpreenda, um corte mais atrevido, parece uma avó (sem ofensa para as avós). Olhem que estão a ser ultrapassados pelo PCP, que tem a Rita Rato e a Raquel Varela, que são muito visíveis. Para ver como eu sou caridosa e não gosto que outras senhoras não explorem o seu potencial, aqui vão para Catarina Martins umas sugestões de reinterpretações de vestidos chineses, algo que ficaria sempre bem numa extremista de esquerda e lhe daria um ar, enfim, que não fizesse lembrar uma arca de cânfora.

Por último, agradeço-lhe a referência à Pepa Xavier e à carteira Chanel (novamente como se fossem insultos, escapa-me a razão), mas eu já passei a idade em que achava que tinha de me vestir de forma sóbria para me levarem a sério no trabalho; agora, que já provei o que tinha a provar, sou bem mais descontraída e, nessa linha, prefiro carteiras coloridas e, de preferência, com sentido de humor (sim, há carteiras com mais sentido de humor do que os bloquistas). Uma carteira Chanel 2.55 ficaria lindamente na senhora minha Mãe, mas eu prefiro carteiras nesta linha:

Anya Hindmarch(da Anya Hindmarch, e só a título de exemplo, que os impostos que me cobram para pagar as políticas socialistas dificultam estas compras).

Não julgareis as adolescentes do bloco segundo os padrões burgueses

Diz o Vitor Cunha sobre a menina que, aparentemente, anda a agitar o Facebook, exatamente com a idade certa para ser prejudicada pela greve aos exames mas que, ainda assim, defende apaixonadamente a causa dos professores grevistas: ‘Inês Gonçalves não gosta de música, TV, bikinis, motas ou verniz garrido para as unhas. Não gosta de rapazes, malta da televisão, actores de cinema ou praias.

Bom, há que dizer que – relembrando aqueles sacos tricotados que Catarina Martins levava para a AR, antes de ser sei lá o quê no BE com o João Semedo, e a que só bondosamente se poderiam chamar camisolas – talvez se deva assumir que para as adolescentes do bloco usar bikini, interessar-se por rapazes (em vez de pela causa) e, acima de tudo, usar vernizes de cores garridas são comportamentos burgueses; de adolescentes do sexo femino não emancipadas e que não entenderam ainda que agirem como objecto de desejo dos adolescentes masculinos é degradante para qualquer adolescente do sexo femino, um comportamento verdadeiramente feudal; que são próprios de gente descerebrada que coloca interesses individuais (como namorar) acima dos interesses colectivos (derrubar o regime existente e implementar o socialismo, se preciso for pela luta armada); que mostrar a sua própria fotografia no facebook é um imperdoável pecado de individualismo. E, portanto, tudo hábitos a serem erradicados. Mesmo antes da verdadeira implementação do socialismo e do surgimento do homem novo.

Não que a hipótese de trabalho do Vítor – tratar-se afinal de um trintão bigodudo – deva ser descartada. Mas temos de ter o espírito aberto e não fechar a porta a outras alternativas também elas prováveis. Como, só mais um exemplo, a Inês Gonçalves ser uma cábula que quer mais uns dias para fingir que estuda para os exames. Até porque, como acontecia na boa revolução cultural maoísta, os alunos entravam na universidade por mérito político (seu e dos seus pais) e não pelos burgueses critérios académicos – e não estudar para os exames deve ser encarado não como preguiça mas como luta pela adoção de boas práticas já testadas noutros países.

Salazar?! A sério?!

É certo que o regime pós 25 de Abril está recheado de figuras sinistras, todas elas socialistas até ao tutano, mesmo as que se apresentam como de direita. E que nós não temos uma Thatcher, um Lord Palmerston ou um Charles James Fox (este último sobretudo porque era uma personagem colorida, e isso desculpa tudo) para melancolicamente compararmos com a gente sinistra atual. Mas a direita precisa mesmo de reabilitar Salazar?! Não me interessa se Salazar era fascista ou baqui-buzuque, interessa-me que está muito mal a direita se decide torná-lo numa sua referência. Descobriu-se de súbito algum amor de Salazar pela liberdade individual que eu e outros, por distração, não conheçamos? O 25 de Abril foi um processo que apeou a esquerda beata do salazarismo e do marcelismo e a substituiu pela esquerda jacobina – que, mais tarde, veio a aproveitar muita gente dessa esquerda beata, e com toda a propriedade, dada a proximidade ideológica. Tenho, ainda, para mim que a resignação popular alimentada durante o socialismo salazarista é irmã da permissividade atual com as consequências do socialismo jacobino.

Disse convergir?

O meu artigo de hoje no Diário Económico, sobre a grande convergência de todas as esquerdas (menos as que faltaram).

«Mário Soares lembra um pai duro e espartano com os filhos que, já avô, mima os petizes além de toda a sensatez. Soares – que combateu as pretensões totalitárias do PCP no pós-25 de Abril, como PM se coligou com o PSD e com o CDS e conviveu com bolsas de fome e inflação de 20%, protagonizou intervenções do FMI em 1977 e 1983 (empobrecendo-nos por via do aumento de impostos e da desvalorização do escudo) – parece ter na velhice descoberto virtudes no comunismo.

É certo que questões de ego, vontade de mediatismo e de condicionar o PS podem explicar a reunião das esquerdas promovida por Soares. Contudo, a linguagem de um ex-PR sobre um Governo suportado por uma maioria parlamentar eleita há dois anos em eleições democráticas, dizendo que “não pode nem deve ser considerado legítimo” é arrepiante pela incompreensão do que é a democracia. De resto, a incompreensão do País e dos tempos foi geral na reunião. Caiu até em algum ridículo o alvo da violência na Marinha Grande ao referir, à laia de argumento anti-Governo, que os atuais “ministros não podem sair à rua sem que sejam vaiados”.»

O resto está aqui.

A Beleza e a Natureza, segundo Marinho (e?) Pinto

Um texto destes, é conveniente atribuir os créditos, só se encontra em jornais uma vez em cada dez anos. O que é bom, porque as imagens belas de Marinho (e?) Pinto são susceptíveis de traumatizar toda uma geração de leitores mais sensíveis. Eu, por exemplo, ando desde manhã perseguida por este pedacinho poético: «o momento mais belo na vida de qualquer ser humano é aquele em que ele é retirado todo sujo da vagina ensanguentada de uma mulher ou então arrancado da sua barriga esventrada por uma cesariana e é exibido triunfantemente à mãe que o pariu». Digam lá se ‘vagina ensanguentada’ ou ‘barriga esventrada por uma cesariana’ não são referências belas? São, sim senhor.

Deixemos, por momentos, o conceito de beleza – corretíssimo – de Marinho (e?) Pinto para nos demorarmos um pouco mais em todo o elogio que faz à natureza. Eu, é conveniente informar, desconfio bastante da natureza, pelo que sou bastante deficiente para apreciar a arguentação deste senhor de fina prosa. A natureza tem coisas como cobras, silvas, alforrecas e muitas outras formas de vida cuja proximidade eu dispenso. Talvez por esta, certamente anómala, desconfiança da natureza consegui vislumbrar uma insignificante incoerência quanto a este momento mais belo da vida de todos nós. Desde logo, há que reconhecer que uma ‘barriga esventrada por uma cesariana’, apesar de ser uma imagem bela, não é lá muito natural. Eu sei: já fiz duas cesarianas e garanto que não ocorreram no meio da vegetação da Tapada de Mafra. Foi tudo muito esterilizado, a anestesia não foi sumo de papoila, os instrumentos cortantes não eram umas obsidianas afiadas que o médico encontrou nos seus passeios pelas margens dos rios. E mesmo nos partos um bocadinho mais naturais que os meus, há que dizer – com pena de se estragar as belas imagens de Marinho (e?) Pinto – que a natureza não ajuda. Os locais onde as gravidezes e os partos ocorrem da forma mais natural são aqueles onde a mortalidade materna é mais alta. Certamente que Marinho (e?) Pinto achará muito bela a imagem de uma mulher no Chade a esvair-se em sangue depois de um parto (é ‘a luta pela vida’ e tal), mas eu, mais imune à beleza, não concordo. Prefiro partos em hospitais, médicos e enfermeiros com luvas e máscaras, com epidural (as dores são muito naturais e muito belas, mas eu tenho uma deficitária resposta à beleza), as células estaminais do cordão umbilical recolhidas e por aí adiante. Tudo, de preferência, ao som de uma sinfonia de Mozart. Eu, no meu enviesado e perigoso ponto de vista, declararia que o parto é dos momentos onde as deficiências da natureza melhor foram ultrapassadas. E é fazendo uso de esta minha falha no que ao apreço pela beleza diz respeito que peço encarecidamente à direita para se abster de usar este senhor em qualquer debate em que se envolva. Ele está num estado de seleção natural mais avançado que os outros mortais; o ideal seria mesmo colocá-lo de quarentena. (E um princípio prudencial talvez fosse considerar que qualquer opinião de Marinho (e?) Pinto provavelmente está errada.)

(Texto de Marinho (e?) Pinto encontrado aqui.)

Há coisas e pessoas que não entendo. E ainda bem.

Há coisas que me fazem confusão. A primeira e que revolve as entranhas: a forma amoral como os defensores mais radicais do direito ao aborto negam, em defesa da sua causa, o valor de uma vida que se termina, e uma vida inocente e que não mandatou ninguém para tomar esta decisão. Choca-me que certos maluquinhos defensores do direito ao aborto, de tão cegos pelo fanatismo, nem consigam perceber que do outro lado não estão outros fanáticos que querem que as mulheres paguem com abortos clandestinos dolorosos e perigosos a ousadia de terem tido sexo e prazer e acharem que podem escolher quando e com quem ter filhos (é ler o que se escreveu por alturas dos dois referendos e verificar que há muitos alienados com esta argumentação); que, do outro lado, simplesmente está quem quer proteger essa tal vida. Há gente moderada e sensata que apoia a liberdade de uma mulher abortar – seja em defesa da liberdade de uma mulher, seja para evitar os abortos clandestinos e suas consequências, seja porque entende que a esmagadora maioria das mulheres já sofre por fazer um aborto e não precisa em cima de uma queixa-crime – conseguindo simultaneamente valorizar a vida que se perde (valoriza-a, no entanto, menos do que a tal liberdade da mulher que engravidou sem querer). Estes, mesmo discordando, consigo entender. Já os radicais malucos, felizmente, são criaturas que a minha lógica não abarca.

Do lado dos conservadores nestas questões fraturantes também há matéria em abundância para me espantar, sobretudo no que aos católicos diz respeito. Se acho compreensível o repúdio que causa que se termine levianamente uma vida humana, já fico perplexa com a energia que se gasta com assuntos que nem de perto nem de longe podem ter a mesma dignidade que a defesa de uma vida. Lamento, mas não estão e não podem estar no mesmo patamar que a defesa da vida assuntos como o casamento civil de pessoas do mesmo sexo ou a possibilidade de dois gays e duas lésbicas adoptarem uma criança que, fora essa possibilidade, passará a infância e adolescência institucionalizada.

Voltando aos radicais modernos e progressistas, nesta questão da adoção (ou, por enquanto, coadoção), lamenta-se novamente, mas levarem a um programa de televisão (que eu não vi) em defesa da causa pessoas como Isabel Moreira, Fernanda Câncio ou Miguel Vale de Almeida, conhecidos pela intolerância histriónica com quem tem opiniões diferentes, só podem estar interessados em ajustes de contas, em discursos acusatórios, em alienar os moderados e galvanizar os radicais. Virados para defender os interesses das crianças institucionalizadas é que não estão com toda a certeza. Também não percebo. Ou percebo – e, mais uma vez, revolve as entranhas.

Hermenêutica às causas que tornam Raquel Varela em Raquel Varela

Desde que li o Don´t Tell Alfred de Nancy Mitford que estou convencida que há material para alguém da área da neurologia e da psiquiatria ganhar o Nobel com a descoberta científica da doença, até agora meramente literária, ‘pull to the east’ que apareceu e contaminou várias personagens do livro. Esta doença concretizava-se numa compulsão que provocava um irracional amor pelos países comunistas a leste (já os maoístas diziam que o ‘Oriente é Vermelho’). Depois de Don´t Tell Alfred, a União Soviética foi o que se sabe e Deng Xiaoping (os maoístas bem lhe chamavam ‘capitalist roader’) fez-nos o favor de escaqueirar a economia planificada maoísta. Restam agora os esfomeados que são governados pela dinastia Kim na Coreia do Norte e os também não muito bem alimentados cubanos governados pela dinastia castrista. Mas a doença ‘pull to the east’ ataca indiscriminadamente e torna alguns cérebros, que um dia se descobrirá terem alguma reação exótica à dopamina ou produzirem a mais ou a menos uma qualquer substância do que os cérebros tidos como normais, impermeáveis à realidade. E, portanto, capazes de ir para a televisão informar-nos da sua maravilhosa e intrigante visão do mundo.

Este ‘pull to the east’ é, por enquanto, uma hipótese meramente literária. Mas se algum cientista resolver investigá-la, eu tomo a liberdade de sugerir que convide Raquel Varela para fazer parte da amostra a avaliar, que é capaz de dar alguma revelação surpreendente.

Vejamos. Raquel Varela está muito preocupada com os pobres dos chineses que ganham dois euros por dia para que os ocidentais – que não a Raquel Varela, que eu tenho a certeza só veste roupa made in Italy, que lá os ordenados mínimos não são uma vergonha (ou também são?) – comprem roupa barata. Ora esta preocupação enferma de alguns problemas. O Banco Mundial estima que, desde que Deng Xiaoping abriu a porta à exploração dos chineses (vendendo mão-de-obra barata) pelos importadores e consumidores ocidentais, 600 milhões de chineses sairam da pobreza. E prevê-se que nas próximas décadas mais umas centenas de milhão escapem também à pobreza graças a essa mesma exploração pelos abutres do ocidente. E ainda há um outro facto curioso que o cérebro da ‘doce Raquel’ (direitos de autor serão entregues à Margarida Bentes Penedo) aparentemente também não regista: os pobres chineses são precisamente aqueles que residem onde a exploração do homem pelo homem não chegou; são os habitantes das zonas rurais que não têm indústrias que aproveitem a mão de obra barata chinesa para vender ao estrangeiro. Os chineses explorados pelos hediondos capitalistas ocidentais, pelo contrário, são os que escaparam à pobreza. Estranho? Não, não é, pelo menos para as cabeças não afetadas por o tal ‘pull to the east’.

Claro que esta doença literária pode não ser a explicação para as afirmações de Raquel Varela. Pode, simplesmente, considerar que os fins justificam todas as manipulações da verdade. Ou pode ter baseado os seus já famosos ‘estudos’, que lhe deram a conhecer os problemas dos trabalhadores chineses, nos artigos que de vez em quando se lêem de jornalistas imbecis que, para ilustrar a carestia da vida chinesa, dão como exemplo o preço de um Mcdonalds (restaurante considerado de luxo na China com comida que a enorme maioria dos chineses execra, preferindo sem qualquer dúvida uma taça de arroz) ou de um café expresso (já fiz refeições na China em que o expresso – nunca meu, que beber café na terra do chá é um sacrilégio – não só era o item mais caro da fatura como era de valor superior à soma de todos os outros produtos consumidos na refeição). É escolher.

As greves, as centrais sindicais e etc.

O meu artigo hoje no Diário Económico:

A Frente Comum de Sindicatos da Função Pública, afeta à CGTP, antes do fim da negociação com o Governo anunciou uma greve para Junho. Passemos ao lado da evidente falta de vontade sindical de chegar a acordo, para nos concentrarmos na reação do comum português, que vive e sobrevive sem ordenado pago pelo Estado, a esta notícia: um enorme bocejo.

Já teremos uma greve dos CTT a 7 de Junho, em “defesa de um serviço público de qualidade” e contra a privatização (só motivos altruístas, claro). Teremos ainda a greve dos professores anunciada pela Fenprof (CGTP) para o primeiro dia de exames do 12º ano, que mostra como a Fenprof não rejeita prejudicar deliberadamente alunos num momento decisivo para o seu futuro.

Os sindicatos afetos à UGT ponderam associar-se às greves decididas pela CGTP, mas o potencial aumento dos grevistas não conseguirá contrariar a perda de eficácia ocorrida com a banalização do instrumento “greve”.

Outros fatores levarão ao efeito nulo da greve anunciada pela CGTP. Um desempregado ou um trabalhador de uma empresa com futuro incerto não se comove porque os funcionários públicos recusam dar o seu quinhão para os sacrifícios para que todos os do setor privado foram já chamados a contribuir, nem sequer aceitando o horário de 40h usual para a maioria das empresas (é inconstitucional, dizem).

O facto de os sindicatos não representarem “os trabalhadores” também ajuda a que o País não dê grande relevância às greves, por muito eco que tenham na comunicação social ou que causem transtornos. Em 2012, um estudo do ICS-UL concluía que 82% dos trabalhadores portugueses nunca tinha feito greve e apenas 9% o havia feito nos últimos cinco anos.

Por fim, a realidade, inflexível, não se alterará. Recusada a manutenção dos postos de trabalho na Função Pública com diminuição temporária de remunerações, resta o imperativo de reduzir o número de funcionários públicos, através da mobilidade especial ou sob outra figura. Percebe-se que as centrais sindicais se oponham: estão a lutar por manter aqueles que ainda não lhes viraram as costas.

Agora sff é não enterrar a cabeça na areia e não deixar a adoção por casais do mesmo sexo entregue aos fanáticos da coisa

Está aprovada a possibilidade de adoção pelo conjuge de mãe/pai de uma criança já adotada individualmente por um deles para casais do mesmo sexo e a mim parece-me isto de evidente bom senso, afinal as crianças a co-adotar já vivem e já criam laços com futura mãe/pai.

Segue-se evidentemente a adoção (chamemos-lhe simultânea) por casais do mesmo sexo e, como esta questão requer cuidados, seria muito aconselhável a gente moderada de todos os partidos não deixar essa legislação entregue a Isabeis Moreiras e outros fanáticos da causa gay e lésbica, que estão evidentemente mais interessados em apontar o dedo acusatório, chamar homofóbicos a quem os ousa questionar (nem é necessária uma discordância aberta), marcar pontos políticos, e um largo etc. do que proteger os interesses das crianças institucionalizadas com possibilidade de adoção. (Ouvi há umas horas no rádio parte do discurso de Isabel Moreira e não se suporta o tom revanchista e self-righteous da senhora, que percebe tanto de crianças como eu da produção de ananáses.)

Não é indiferente para uma criança crescer com um pai e uma mãe ou crescer com dois pais e duas mães, não é sequer indiferente para uma criança crescer com duas mães ou ser crescer com dois pais. Os que juram a pés juntos que essa categoria que são ‘os estudos’ mostram que não há diferenças entre ser educado por pai e mãe ou por dois pais ou duas mães, mentem. (Já escrevi sobre este assunto dos estudos no Cachimbo e não vale a pena repetir-me).

Como de facto não há pior destino para uma criança do que crescer institucionalizada – e apesar das crianças institucionalizadas não votarem e correrem o risco de ninguém lhes ensinar por que é importante ir votar quando se tem idade – pede-se aos senhores deputados à AR que sejam crescidinhos. E legislem de forma a garantir às crianças que têm a possibilidade de ser adotadas que o sejam preferencialmente por casais de mãe e pai, depois disso por casais de lésbicas e, só por fim, por casais de gays. Não me apetece ter uma legislação que vá sobretudo servir para que os fanáticos da causa promovam gritaria pública de  cada vez que uma criança é entregue a um casal de mãe e pai em vez de a um casal de pessoas do mesmo sexo. Que é o que sucederá se a gente moderada deixar ficar o assunto com os fanáticos.

‘Direita’ bipolar

Supostamente vivemos numa democracia representativa, não é? Os eleitores votam nas listas do partido em cujo programa mais se revêem, ou no partido que tem o líder que parece dizer coisas mais consequentes, certo? Num país normal talvez seja assim, por cá, à direita, nada disto se passa.

Temos o PSD que tem programa e deputados muitas milhas à esquerda dos valores do seu eleitorado – esta divergência entre eleitores e eleitos do PSD é mesmo um case study da ciência política. E, para mim, explica a incapacidade do PSD em obter maiorias absolutas, mesmo em caso de falência socrática do país como em 2011. O eleitorado tradicional do PSD já não chega e os novos eleitores de direita compreensivelmente não querem votar naquilo que percebem ser um partido de centro-esquerda.

E, caso mais estranho, temos o CDS. CDS que, depois de ter conseguido em 2011 seduzir boa parte do eleitorado urbano mais jovem, tendência que já se havia vislumbrado em 2009 – eleitorado que foi responsável por um bom número de deputados eleitos em Lisboa e Porto – se tem entretido no governo a trabalhar contra esse eleitorado urbano e jovem em prol de eleitores-fantasma. Por exemplo, os agricultores, que estão representados por uma ministra que é uma pena não ser militante do PS, onde estaria como peixe na água. E esse tal eleitorado urbano também não pode deixar de ser sensível ao ridículo que foi rasgar as vestes com a taxa sobre as pensões para depois se reclamar vitória por esta deixar de ser (no papel, que na realidade é como se já estivesse a ser aplicada) obrigatória para passar a facultativa.

O mais risível disto tudo é que tanto contorcionismo de PSD e CDS nem sequer será recompensado eleitoralmente. Estes dois partidos ou ganham juizo e se decidem a começar a representar os seus eleitorados ou estão condenados a governar (mal) nos breves interlúdios em que os eleitores se indispõem com o PS e decidem colocá-lo de castigo durante, no máximo, o tempo de uma legislatura completa.

Vamos lá fingir que as ‘religiões do livro’ têm todas a mesma relação com as mulheres, que o mundo não é a preto e branco (e não é mesmo)

Este post do Jugular fala de três apontamentos de três religiões na sua relação com as mulheres: os protestos dos judeus ultraortodoxos pela permissão das mulheres judias poderem rezar junto do Muro das Lamentações com rituais tradicionalmente reservados aos homens; um novo livro sobre sexualidade – e a sexualidade é, de facto, sempre corolário do resto – feminina no Egito; o conflito que tem oposto o Vaticano e as freiras americanas. (E para este último caso foi escolhido um texto do Público que, enfim, é um texto do Público: começa logo por dizer que o Vaticano se assusta porque as ditas freiras não usam hábito e, ui!, que grande susto deve ser esse, tendo em conta que não usar hábito é comum a várias congregações de freiras católicas em todo o mundo e algo perfeitamente pacífico).

Não vale a pena estar aqui a elaborar sobre este caso Vaticano vs freiras americanas – até porque é muito sintomático de várias doenças da Igreja e ando para escrever sobre isso desde a eleição do meu querido Francisco, mas tem-me faltado o tempo e o assunto é sério -, no entanto sempre vou dizendo que algo está muito mal quando na avaliação da conduta de freiras ou padres ou o que seja pesa mais a opinião sobre assuntos como o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a ordenação de mulheres – que não são matéria de Fé – do que o trabalho social em benefício dos mais pobres e vulneráveis. E, neste ponto, as freiras americanas não têm falhado, o que já foi reconhecido e elogiado por este papado.

Passando à frente; não percebo se este post, como parece, pretende equiparar as três situações que apresenta. É que às mulheres judias foi de facto permitido e protegido o acesso ao Muro das Lamentações, havendo protestos de um grupo de judeus e aceitação pelos restantes. As freiras americanas escolheram, em total liberdade, fazer parte de uma organização que ainda tem muitas imperfeições porque na Igreja, tal como na política, os homens não são anjos. Já no caso das muçulmanas, a rapariga que tem um discurso ‘muito pouco “conservador”‘ é americana e cresceu na Carolina do Sul – a mulher-tipo do Médio Oriente, portanto – e a autora do livro sobre sexualidade feminina no Egito fala de constragimentos religiosos e sociais que afetam a intimidade das muçulmanas (leigas) e até dessa maravilha que é a mutilação genital feminina, à qual muitas egípcias são submetidas sem voto próprio na matéria mas por vontade das mães ou avós. Eu diria que entre as situações reportadas no judaísmo e cristianismo e as reportadas no Islão egípcio há um mar de diferenças. E que, para religião que dê cobertura a maus-tratos vários a mulheres tal como sucede no Islão, se terá de ir para o hinduísmo (é ver a discriminação nas heranças, ou as restrições às viuvas, só para dar uns exemplos leves). Mas, claro, devo ser eu a ser picuinhas, que isto das religiões do livro são todas iguais. Dá jeito para outros combates, não é?

Gaiola de loucas

Apesar das expetativas sobre o que se ouve por aí já serem rasteiras, não deixo de me surpreender com a quantidade de insanidades que se vai ouvindo por cá, e de como é tudo repetido pela comunicação social como se de palavras com resquício de sensatez se tratassem. Há Soares, que pelo menos uma vez por semana nos faz questão de lembrar como a idade é um factor muito debilitante das capacidades cognitivas de certas pessoas. Há o maluquinho que acha que a solução para os problemas do país é obrigar as pessoas a gastarem x do seu dinheiro, quer as pessoas queiram gastar quer queiram poupar. Há o invitável Fernando Ulrich, que parece sofrer precocemente do mal que afeta Soares. Há o governador do banco de Portugal, que claramente faz declarações de forma leviana e sabendo que nunca será responsabilizado por nada. E ontem, nos pequeninos minutos em que vi televisão, lá ouvi nova insanidade, desta vez por alguém que, a espaços, até diz coisas lúcidas. Que ouvi eu? Ouvi António Barreto, na SICN, dizendo que o conluio entre poder económico e poder político tinha também trazido benefícios à democracia e que, por tal, temia que não fosse ajuizado investigar a fundo negociatas como as das PPP.

Não é bonito? Houve quem gerisse o dinheiro dos contribuintes com criminosa irresponsabilidade, houve empresas e pessoas que arrecadaram dinheiro dos contribuintes graças à criminosa irresponsabilidade de quem decide sobre o dinheiro dos contribuintes. Mas não se investigue, nada disso, há que preservar um bem maior: a manutenção da democracia. Eu, evidentemente um espírito muito básico, diria que fortaleceria a democracia que culpas fossem investigadas e apuradas e denunciadas e julgadas. Até, veja-se bem, considero que dos poucos bons sinais deste governo foram a investigação sobre a licenciatura de Relvas e as suas consequências e a demissão de secretários de estado pelo envolvimento no caso das swaps – tudo situações que nos governos socráticos levariam a gritaria e ameaça aos jornais e televisões e manutenção dos faltosos nos cargos para que foram nomeados.

Quando é que dizemos definitivamente a esta gente que há pessoas na gaiola que não são loucas?

Foi você que pediu igualdade?

‘O diploma enviado aos sindicatos com as alterações às regras da mobilidade especial revoga o artigo que protegia uma fatia dos funcionários públicos dos despedimentos coletivos ou por extinção do posto de trabalho.’

Não quiseram uma redução de ordenados para todos os funcionários públicos que permitia que todos conservassem o posto de trabalho, pois não? Ora então de que ficaram à espera? Os funcionários públicos que forem colocados na mobilidade especial sem regresso à função pública à vista ou os que perderem o emprego, seja por rescisão amigável seja por extinção do posto de trabalho, bem podem agradecer a Isabel Moreira e amigos (é o que dá desconhecerem as tentações suicidárias dos representantes populares eleitos para a AR e tomarem-nos como gente saudável a quem se deve dar ouvidos), aos excelentíssimos senhores juízes do tribunal constitucional e a todos os que impossibilitaram as escolhas do governo que, numa conjuntura de elevado desemprego, era mesmo aquela que menos custos tinha e que mais protegia os funcionários públicos. Já temos democracia há tempo suficiente para termos aprendido que os custos da estupidez são sempre grandes e a mim desde pequenina me ensinaram que temos de assumir as consequências das nossas escolhas. Se calhar não era mal pensado os sindicatos começarem a convocar manifestações pedindo o regresso das suspensões dos dois subsídios aos funcionários públicos; finalmente lá agiriam para defender os interesses dos seus membros. Na verdade até seria uma medida de sobrevivência dos sindicatos: não se reduzia o seu número de fregueses, que os que trabalham no sector privado são tão representados pelos sindicatos como pelo (tão útil) observatório dos neologismos do português europeu.

A UE também não quer saber dos direitos humanos das muçulmanas na Europa

Para encerrar – por ora, que é inevitável que cá regresse – o tema das mulheres e das sociedades islâmicas, conto mais um episódio da viagem a Bruxelas aqui referida. Almoçámos um dos dias com Maria da Graça Carvalho, à data conselheira de Durão Barroso. Na conversa depois do almoço fomos-lhe fazendo perguntas e eu perguntei que medidas estavam a ser tomadas na UE, ou estavam em preparação, para assegurar o respeito pelos direitos humanos das mulheres das comunidades muçulmanas residentes na União Europeia, e que não continuavam a viver segundo os usos e costumes dos países de origem que não lhes respeitam os direitos humanos. A minha pergunta foi reputada de muito importante e muito difícil, Maria da Graça Carvalho evidentemente também se preocupava com esta questão; a resposta, infelizmente, foi inexistente. Uns tempos depois recebi do gabinete de imprensa da UE umas informações sobre uns programas de protecção a mulheres em situação de vulnerabilidade, mas nada que se pudesse aplicar às imigrantes muçulmanas da Europa, que tantas vezes não conhecem a língua, nunca trabalharam fora de casa e não têm habilitações. A UE, que se preocupa em regulamentar o diâmetro das maçãs e as lâmpadas que somos autorizados a comprar e um larguíssimo etc. não tem qualquer resposta para esta crise de direitos humanos dentro da portas.

Crise que, diga-se, não é discreta. Já houve tribunais alemães a aceitarem que um marido muçulmano pode bater na sua mulher, na Europa, devido à sua religião. Já houve propostas para se realizarem excisões do clitóris nos hospitais italianos para minorar os riscos das mulheres que se submetiam a essa prática em Itália. Já tivemos uma absurda proposta para a sharia reger as comunidades muçulmanas britânicas. Os crimes de honra nas comunidades muçulmanas crescem. Notícias de raptos (pelas famílias) de mulheres jovens enviadas de volta aos países de origem para casamentos forçados não são raras. Enfim, as atribulações das muçulmanas na Europa não são desconhecidas.

Mas, lá está, isto é apenas uma questão de mulheres. Se fosse uma questão de racismo, de protecção de uma minoria étnica, aí sim, despertariam as consciências.

‘Feminism Or Islamism: Which Side Are You On?’

A propósito do texto do Henrique Raposo aqui linkado e das reacções que foi provocando, vale a pena ler Nick Cohen neste ‘Feminism Or Islamism: Which Side Are You On?‘ da Standpoint. Este é um assunto muito cansativo para mim – de tão claro que é e dos lados que se desenham e se devem escolher – mas que infelizmente não me vai largar tão depressa. É tão óbvio que nem todos os muçulmanos são terroristas ou aprovam a matança de gente inocente (muçulmana ou infiel) que nem é necessário reafirmá-lo. Já quanto à relação dos muçulmanos, terroristas ou não, com os comportamentos aceites como bons nas mulheres ocidentais – as tais mulheres de que o Henrique fala, que usam alcinhas e mini-saias, viajam sozinhas ou com amigas, trabalham ou estudam juntamente com homens que não lhes são nada, saiem à noite e, sim, têm os affaires sexuais que lhes apetece – só alguém profundamente alienado da realidade pode pretender que os muçulmanos, a esmagadora maioria deles, convive bem com essa realidade para as suas mulheres e irmãs e filhas. É certo, haverá muçulmanos cosmopolitas e que aprovam os costumes liberais do ocidente – são uma ínfima minoria.

Estou-me a lembrar de um americano de origem iraniana que costumávamos encontrar ano após ano nas mesmas feiras, nos mesmos combóios, nos mesmos hotéis, às vezes nos mesmo escritórios e com quem conversávamos sempre que nos víamos. Ele é (era, pelo menos) um muçulmano moderado. Encontrei-o na China poucas semanas depois do 11 de Setembro, falámos do assunto e vieram-lhe lágrimas aos olhos. Ainda não se sabia quantas pessoas haviam morrido e ele garantia serem mais de 10.000. Muito cordialmente, sempre que nos encontrávamos apertava-me a mão, tal como fazia com os meus (masculinos) acompanhantes de trabalho. Por umas duas ou três vezes este americano levou a mulher consigo nestas viagens. Era uma senhora bonita, com olhos pretos e aquele nariz do médio oriente, elegante, sem burkas nem véus nem lenços na cabeça; a mim apertava-me a mão, aos homens que me acompanhavam nem pensar. Isto é a moderação muçulmana. Também me lembro de uma empresa saudita que vendia vidro e costumava expor na feira de Frankfurt. Só tinha homens lá trabalhando, obviamente. O curioso é que também só aceitavam clientes masculinos; qualquer senhora que se acercasse para pedir informações comerciais era inteiramente ignorada pelos vendedores da dita empresa. E lembro-me ainda de um muçulmano simpático de keffieh na cabeça que uma vez no Forte Vermelho de Delhi (não sei se o simpático muçulmano era indiano; parecia mais árabe), ao ver que o meu acompanhante masculino (por acaso era meu marido) me colocou a mão por trás das costas à altura da cintura (uma pornografia, portanto), teve a também agradável ideia de vir colocar-se à minha frente e cuspir para o chão com ar furioso; sendo que fez tudo isto olhando para mim, nunca para a parte masculina da cena. Ou lembro-me do ar de escândalo de um muçulmano (vestido da forma usual na Europa), acompanhado de uma senhora coberta de preto só com os olhos à mostra, em Dezembro passado em Londres, quando eu lhe falei para pedir, por ter as mãos ocupadas com sacos e crianças, que carregasse num número do elevador onde estávamos.

Enfim, lembro-me me muitas mais histórias passadas com muçulmanos ‘moderados’ e outros mais acintosos. Nenhuma destas histórias da forma como os muçulmanos se relacionam com as mulheres eu gostaria que passasse a ser a regra na Europa onde vivo. Mas, pronto, podemos fingir que estes comportamentos muçulmanos são normalíssimos. Sobretudo, podemos fingir que estes comportamentos não são sintoma de uma visão das mulheres e dos direitos das mulheres que devia ser aberrante para todos os europeus. Podemos ainda fingir que o repúdio do modo de vida europeu e americano pelos terroristas islâmicos não contém lá dentro um igualmente grande repúdio pela liberdade feminina no ocidente. Podemos fingir, por último, que o facto de isto se passar com muçulmanos é coincidência e nada tem a ver com o Islão actual. (Afinal os hindús e os judeus hassídicos também têm as suas manias, não é?) Continuemos a fingir e depois não nos queixemos daquilo que se passar a considerar actos civilizacionais.

Os islâmicos e o belo sexo

O Henrique Raposo escreve hoje um texto imperdível sobre os problemas dos terroristas com o belo sexo:

‘[H]á uma marca comum: o ódio absoluto à mulher ocidental ou ocidentalizada, a mulher sexualmente emancipada, a mulher soberana que mostra as curvas, a mulher que enterra a mulher-anjo. Sim, a mulher carnal é o grande fantasma desta rapaziada. São sujeitos dados ao amor platónico, coitadinhos. No passado, limitar-se-iam a comprar um Ferrari para compensar este complexo fálico, mas agora acham que têm de explodir pessoas, sobretudo mulheres. Não por acaso, Bin Laden andava de Ferrari amarelo antes do seu momento São Paulo

Para se ler mais sobre este incómodo que são as mulheres ocidentais para os islâmicos (terroristas e não terroristas) pode-se ir a este artigo do Henrique que foi publicado na Relações Internacionais. E devia fazer soar todas as campainhas em cada uma das muitas vezes em que na Europa se permite, com grande espírito de tolerância, a recusa das comunidades muçulmanas em aceitarem e viverem com os valores europeus, desde ignorarem a obrigação de cada imigrante de se integrar da melhor forma na sociedade que o acolhe até ao desrespeito pelos direitos humanos das mulheres e a esta ideia ocidental de igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres.

Permitir que esta influência islâmica se entranhe na sociedade europeia é, para mim, um atentado à liberdade das mulheres – sexual e não só.

O PSD quer ter o orçamento retificativo chumbado?!

Correndo o risco de escrever um post onde se elogia Paula Teixeira da Cruz – uma perspetiva perturbante – parece-me do mais elementar bom senso travar Vítor Gaspar de fazer um orçamento retificativo onde se reincida no corte dos salários dos funcionários públicos e nas pensões. Já não interessa se este é o melhor caminho ou não: tendo em conta que já foi duas vezes rejeitado pelo tribunal constitucional, se calhar é sensato não correr o risco de termos também chumbo de um orçamento retificativo. Pelo que a ser verdade esta notícia, Paulo Portas, Álvaro Santos Pereira e, sim!, Paula Teixeira da Cruz estão carregadinhos de razão. Já que não se pode ir pelo caminho fácil – e temporário – de diminuir os ordenados da função pública e pensões, então aproveita-se e corta-se em serviços que o estado não deve desempenhar. Mas são estes cortes na despesa estruturais e estruturantes que não cabem na cabeça quadriculada de Gaspar.

Há muita gente a necessitar de lições de democracia

Estou com Ricardo Costa, sempre me pareceu muito evidente que o PR nunca demitiria o governo para provocar eleições antecipadas ou para dar lugar a um governo de iniciativa presidencial. Pelo que a epidemia que tomou a oposição nos últimos tempos e a levou a pedir eleições anticipadas só pode ter sucedido por uma das seguintes razões, nenhuma delas dignificante dos autores: 1) retórica política vazia só para aparecer nas notícias (que, no caso do PS, aparentemente teve mau resultado junto dos eleitores); 2) absoluta incompreensão das motivações do PR (se for o caso, mudem de vida depressa); 3) convicção inabalável de que a esquerda é dona do regime e a direita, ou, como no caso, uma suposta direita, só ocupa o poder enquanto a esquerda benevolentemente permitir (se esta a razão, são gente abjecta e anti-democática) e 4) vontade de atacar politicamente o PR (e esta razão merece mais demorada atenção).

Ora o pedido de eleições antecipadas feito pelo PS parece-me ter ocorrido por 1 e 2 no caso de Seguro e apoiantes – com medo do regresso de sócrates e que as eleições chegassem já depois de Seguro ter sido arredado da liderança – e pela vontade de atacar politicamente o PR quando o pedido de eleições antecipadas veio dos socráticos. De resto, do que tenho lido dos tempos de antena de sócrates na televisão dos nossos impostos, tenho concluido que, além de uma patológica necessidade de engrandecimento do ego através da convicção de que o país suspira de desejo pelo seu regresso, o objectivo de sócrates com os seus tempos de antena é vingar-se (enfim, tentar) de Cavaco Silva. E foi sócrates, não esqueçamos, que deu o grito de guerra para os ataques ao PR.

Mas, lá está, em política dizer mal dos adversários faz parte do negócio e se sócrates e os socráticos querem mostrar que são movidos por desejos mesquinhos, para mim tanto melhor. Podiam, contudo, ter escolhido uma argumentação um tudo-nada mais inteligente para atacar o PR. É que chamar anti-democrático ao PR porque este decide manter em funções um governo democraticamente eleito há menos de dois anos e suportado por uma maioria parlamentar que resultou de eleições democráticas é, lamento informar, imbecil. Dizer de um PR que respeita os resultados de uma eleição democrática, lisa e livre que este torna irrelevante as eleições é de uma estupidez atroz. Talvez os socráticos não saibam, mas em democracia o que faz mudar governos são eleições de x em x anos, não as sondagens nem a interpretação subjectiva do PR do que é, no momento, a vontade do eleitorado; é por isso que se elegem juristas, economistas, etc. em vez de médiuns.

Se o governo se deve demitir ou não é outra discussão. Mas em caso nenhum, excepto ruptura da coligação, o PR deve provocar eleições antecipadas. Por respeito pela democracia, para que a esquerda aprenda a lição de que não manda mais no regime do que os eleitores e, já agora, por respeito ao meu voto, e ao de tantos outros, num dos partidos da coligação governamental (eu posso criticar o governo, mas não admito ao PR que torne irrelevante esse meu voto). Foi para isto, também eu, que votei em Cavaco Silva em 2011.

Tão bonzinhos: aceitaram-nos, com magnanimidade e benevolência, no regime

Este parágrafo de Sérgio Lavos é todo um retrato da esquerda – tão querida, tão cutchi-cutchi-cutchi que até aceita os monstros (é ler a descrição abaixo) da direita no regime:

E durante trinta e nove anos, a direita que derrubámos foi aceite no seio do regime. A direita que promove a desigualdade, o darwinismo social e que existe para manter e proteger os interesses instalados. A direita que luta contra o progresso, a justiça e a possibilidade de quem nasce pobre chegar a ter algum conforto material e felicidade. A direita que prefere ver serviços que devem ser públicos – a saúde, a educação – nas mãos do lucro privado. A direita das corporações, herdeira da direita salazarista que durante cinquenta anos protegeu um reduzido número de grandes empresas que viviam à sombra do Estado. A direita que prefere o respeito pelas instituições ao direito ao protesto, o consenso às eleições, a manutenção de uma paz podre a dar voz ao povo que não ser revê em quem nos governa’

Vamos por agora deixar de lado o facto de as pessoas como o Sérgio Lavos não conhecerem a direita mas apenas as teias de aranha que têm na cabeça e confundem com a direita e concentremo-nos na bondade de Sérgio Lavos and the likes em nos aceitarem, gente de direita, no regime. Porque não é um direito nosso, gente de direita, fazer parte desta democracia. Não, nós não temos direitos, somos uma casta de intocáveis políticos. A gente de esquerda, como é boa e magnânima, é que, e apesar de nós, gente de malandragem, não merecermos, nos faz o altíssimo obséquio de nos aceitar no regime que, em boa verdade, é deles.

A cada 25 de Abril se confirma: quem mais fala do 25 de Abril é quem menos percebe de democracia.

Ministras de governos ””’de direita””’ versus de governos de esquerda

Quem nunca tenha lido Doris Lessing talvez fique surpreendido por constatar que os governos socialistas são incapazes de conter ministras fora das áreas tradicionalmente femininas. Além de poucas, os governos socialistas costumam ter ministras na educação (já que temos por hábito educar os filhos), na saúde (sempre fomos as enfermeiras da família), na cultura (estamos habituadas a fazer o possível com orçamentos exíguos), no ambiente (isto deve ter a ver com alguma mania das limpezas), na segurança social (tratar dos pobrezinhos sempre foi reino feminino) ou, então, em cargos exóticos, criados para dar emprego a Maria de Belém, como ministra da igualdade. Novamente, não deixa de ser ilustrativo da ideia que a esquerda moderna e progressista tem do mulherio. Na tomada de posse do último governo sócrates foi lindo ver as últimas quatro cadeiras da hierarquia do governo ocupadas pelas senhoras.

Os governos PSD-CDS – e aqui o de Durão Barroso foi o que melhor se portou – têm, pelo menos, ministras em sectores de barba rija como Finanças, Justiça ou Negócios Estrangeiros.

Já quanto às prestações femininas destas senhoras, todas socialistas (com algum eventual desconto para Maria da Graça Carvalho e Teresa Patrício Gouveia), em governos de qualquer dos partidos, devemos socorrer-nos de Nancy Mitford e dizer, como Mitford dizia de Madame de Pompadour, que as suas incursões pela política não foram de molde a orgulhar as feministas. (Não diferentes das masculinas, portanto.)

(E isto tudo veio a propósito de Berta Cabral ser secretária de estado da defesa – outra socialista colocada pelo PSD numa área tradicionalmente ocupada pelos senhores – e dos vários comentários que tal excentricidade provocou).

Nesta coisa do ensino separado vs misto são muito cansativos os dois extremos

Sou sempre atingida por uma irritação latente quando oiço o discurso negacionista das diferenças entre os sexos – desde logo porque sou feminina, gosto de ser feminina e nem quero ser como o sexo oposto nem que o sexo oposto seja igual a mim e às minhas amigas. (E é porque os sexos são diferentes que é mais benéfico para uma criança e adolescente ter tanto a referência feminina como masculina e que eu serei sempre contra leis que permitam adopção por casais do mesmo sexo que não dêem prioridade a casais de sexo diferente, mas isso é outra conversa).

Mas, há que convir, o discurso simétrico também cai em extremos bastante ridículos. Ora são estudos que relacionam as decisões eleitorais do mulherio com o ciclo mestrual – não havendo nunca nenhum estudo que relacione as decisões eleitorais dos homens com o seu nível médio de testosterona ou com as variações do nível de testosterona ao longo do dia, porque, como se sabe, só o mulherio é afetado pelas hormonas. Ora se estuda se as mulheres têm comportamentos diferentes quando estão junto de homens, conformando-se a comportamentos tradicionalmente considerados mais femininos, e quando estão entre mulheres, revelando nestas circunstâncias comportamentos tradicionalmente considerados masculinos. Claro que nunca se faz estudos destes aos homens porque, é óbvio, os homens são iguais entre homens ou entre mulheres e jamais se viu um homem ou um grupo de homens tentando impressionar uma mulher ou um grupo de mulheres.

E hoje apareceu uma senhora que também estuda estas coisas e que defende, fora o disclaimer (muito sensato) de que os pais devem poder escolher, que rapazes e raparigas devem estudar separadamente. E se é certo que há questões pertinentes sobre a crescente feminização do ensino que tende a prejudicar os rapazes, nada do que esta senhora que estuda estas questões referiu fez sentido. Acho que ainda não se chegou ao ponto de negar as diferenças físicas entre os sexos, pelo que de uma rapariga que fica incomodada porque não consegue lançar uma bola tão longe como um rapaz – que provavelmente é, na mesma idade, mais forte e mais alto – pode-se concluir que é imbecil, não uma vítima do ensino misto. Eu, que nunca na vida joguei futebol num recreio das aulas, posso garantir que também não o teria feito se tivesse estudado numa escola de raparigas; só a perspetiva é aterradora e dou por tempo muito mais bem passado ter ficado à conversa com as minhas amigas enquanto víamos os rapazes a jogar futebol (ou outra coisa, é indiferente). Também não vejo bem que relação pode ter uma senhora ter-se tornado cientista e um rapaz cantar música clássica com terem ambos frequentado escolas só de um sexo. Cantar música clássica é um atributo feminino?! E ‘ser cientista’ masculino?! E porque carga de água numa escola só de raparigas ou só de rapazes e apenas aí se  consegue formar melhor a identidade? Ver a diferença não nos ajuda a perceber o que somos? Os tontinhos dos dois extremos estão bem uns para os outros.

O meu texto no DE de hoje: Erro a Manter

«Vários estudaram áreas monetárias ótimas e o atual grupo de países que adotou o euro como moeda por nenhum seria assim qualificado: há demasiadas disparidades entre os países da união monetária europeia.

 

O euro foi desde o início um projeto político e não um passo necessário na integração económica da UE. Como todos os projetos políticos não alicerçados na realidade, com o tempo criou em vários países distorções com grandes custos. Até se tornar o atual erro ‘too big to fail’. Isto não evitou que Portugal tivesse evidentes ganhos com a adesão ao euro. Tempos de estabilidade cambial com os nossos maiores compradores, diminuição dos juros da dívida pública (também uma armadilha irresistível para os governos), descida das taxas de juro para empresas e famílias (outra armadilha), etc..

 

Se devemos continuar nesta união monetária é discutível.»

O resto está aqui.

 

Não é necessário preocuparmo-nos com o bluff da Coreia do Norte

Li Keqiang já avisou a Coreia do Norte para parar com as brincadeiras e não há qualquer possibilidade de que a China permita qualquer guerra entre a Coreia do Norte e os compradores da China que resultasse em diminuição das exportações chinesas para os seus mercados. Se a Coreia do Norte atacasse o Japão, a Coreia do Sul, os Estados Unidos, whatever, o país cujas retaliações a Coreia do Norte mais deveria temer não seriam os Estados Unidos; seria mesmo a China.

(Estou, evidentemente, a assumir que a liderança norte-coreana não está entregue a loucos suicidários; mas a História também nos ensina que há lideranças dessas.)

Vade retro machistas de esquerda (sim, a propósito da morte da Maggie)

É um facto: não há nada que a malta de esquerda mais odeie do que uma mulher de direita. Não sei se por se sentirem traídos (achando que os assuntos femininos são uma coutada da esquerda) ou ameaçados (more of which later). Não conseguem fazer um ataque político que, mais cedo ou mais tarde, não vá para as características pessoais da mulher de direita. E não umas quaisquer características pessoais, que chega-se inevitavelmente a terrenos muito básicos. Tem sempre de haver comentários aos atributos físicos (ou falta deles) da senhora em questão e à vida sexual (ou falta dela) que se lhe atribua. Segundo consta, para dar um exemplo, era nestes termos que o moderno e progressista sócrates, esse semi-deus que libertou as mulheres portuguesas de gravidezes indesejadas a expensas do contribuinte, se referia a Manuela Ferreira Leite. E que dizer da divulgação da fotografia de Merkel (ou não) nua que há pouco tempo correu mundo nas redes sociais? Como diz a Carla, temem-na tanto que têm de a ver nua. (Não, esta discussão de atributos físicos não é equivalente à muito menos maliciosa que se faz aos homens políticos (as bochechas de Mário Soares, por exemplo).)

Margaret Thatcher desperta os piores comentários nestes machistas de esquerda – que, refira-se, são dos dois sexos e já me ocuparam o teclado anteriormente, por exemplo aqui. Thatcher era, dizem, totalmente desprovida de feminilidade. Praticamente um homem de saias. Não conta, portanto, para a história da política no feminino. (E é aqui indiferente se os relatos do que a conheceram bem desmentem a versão ou não). A determinação, a clareza de ideias, a ambição, a capacidade de realização, o espírito guerreiro são, portanto, para a esquerda, qualidades masculinas qua caem mal quando se encontram no mulherio. Eu, que tenho mau feitio (qualidade também só aceite no masculino), desconfio que a característica que mais amedronta estes machistas de esquerda em mulheres como Thatcher é mesmo a insubmissão. Qualquer mulher que tenha a mania exótica de que a sua opinião conta e deve ser defendida com afinco percebeu já muitas vezes num seu interlocutor masculino a surpresa e a indignação por ser posto em causa por uma mera mulher – algo que eu acho particularmente divertido de assistir e, sobretudo, provocar.

E vendo certo padrão de casamentos de pessoas de esquerda mais esta minha desconfiança ganha espessura. A mulher traída que permanece junto do seu traidor marido parece um clássico actual dos casamentos políticos à esquerda: os Clinton, os Miterrand, Royal e Hollande,… Não que eu tenha alguma coisa a dizer sobre estes casamentos; se são ou foram felizes assim, óptimo para mim; se são ou foram infelizes mas preferiram continuar infelizes, óptimo para mim também; se o casamento é ou foi uma mera formalidade com objectivos políticos ou de qualquer outro tipo, novamente óptimo para mim; não tenho de julgar os casamentos dos outros. Mas não posso deixar de ficar perplexa com o padrão existente pelo que revela do que se espera de uma mulher. Não se trata sequer dos casamentos da upper class britânica em que os esposos se traem mutuamente e alegremente, que são mais igualitários e contêm alguma sabedoria. A minha perplexidade provém disto: as senhoras destes casamentos de esquerda, e, no caso de Royal e Clinton, políticas elas próprias, são reminiscentes de uma Maria Teresa de Áustria lívida com Louise de La Valliére e Athénais de Montespan. Em nada semelhantes às mulheres independentes que supostamente agradam à esquerda. Reconheça-se: a anos-luz de uma mulher com a têmpera de Thatcher.

Alguém me explica a proliferação de Silva Peneda?!

Nas últimas semanas, out of the blue, de cada vez que se abre um site de jornal lá se corre o risco de darmos com uma entrevista a Silva Peneda ou com uma citação do senhor ou, se estivermos mesmo azarados, com uma coluna de opinião. Já o vislumbrei (por uns segundos e depois mudo de canal) nas televisões noticiosas e ainda no outro dia ouvi não sei que jornalista afirmando que Silva Peneda era um dos nomes apontados como um possível Monti português. Passando ao lado, por agora, deste ‘Monti português’, não vos consigo dar a medida da minha estupefacção por haver alguém (e, neste caso, havendo duas pessoas já é uma conspiração contra os interesses nacionais) que sequer se dê ao trabalho de fazer as ligações cerebrais funcionarem para, por um nano qualquer coisa de tempo, supôr que Silva Peneda pudesse ou devesse ser alguma vez pm.

Mas, lá está, eu é que já não me devia surpreender. Na famosa e infame viagem de bloggers direitistas a Bruxelas em 2009 tivemos um jantar com vários eurodeputados do PSD e a mim calhou-me ficar na mesa de Silva Peneda. Um senhor simpático, e muito respeitável certamente, mas que evidentemente considerava estar no PSD ou no PS uma questão de escolha de clube que nada tinha a ver com ideologia (e o pior disto tudo é que tem razão nesta opinião) e revelou-se do mais socialista do que se consegue fora da extrema-esquerda. Eu estive em perigo de me engasgar em vários momentos do jantar, o que tendo em conta que estava grávida na altura foi mesmo um grande perigo, que as manoras de Heimlich a grávidas devem ser algo tricky. E claro que ser socialista é o único requisito para se ser pm, não é? Silva Peneda é um escolha óbvia e eu é que tenho mau feitio.

Por mim pode vir o zero à esquerda. Prefiro sempre socialistas assumidos.

Entendamo-nos: tirando um corte de despesa sectorial aqui e ali mais ou menos bem sucedido que havia sido imposto pelo memorando incial acordado com a troika, este governo dito de direita não reformou o estado, não se recentrou nos seus serviços fundamentais (onde falha) abandonando outros (onde não é necessário), não privatizou o que havia para privatizar, não tomou qualquer medida que permitisse uma redução estrutural de despesa pública. Os cortes temporários que tentou – reduzindo os ordenados dos funcionários públicos – foram boicotados pelo tribunal constitucional. Não vejo bem que outro caminho possa ter o governo se não a demissão. A seguir que venha o zero confesso; não vai reformar o estado, não vai reduzir despesa, não vai privatizar; ficamos, portanto, na mesma e sempre deixamos de ter um governo que dá mau nome aos liberais.

O tribunal constitucional leva-me de volta à adolescência

Andava eu pelos meus quatorze, quinze ou dezasseis anos e por dois verões seguidos fui umas semanas para uma terreola no sul de Espanha com os meus pais, o meu irmão mais novo (sendo que ‘mais novo’ significa mais novo que o irmão mais velho, que o meu irmão mais novo é sete anos mais velho do que eu) e uma grande amiga minha que é filha de uns amigos dos meus pais (a terreola era a do costume, mas este grupo específico durou dois anos). Perto da tal terreola havia umas discotecas famosas e um dos muitos benefícios de ter irmãos muito mais velhos foi começar a sair à noite cedo (de idade) com eles, pelo que todos as noites lá íamos os três para alguma das ditas discotecas. Dentro destas, o meu irmão, felizmente e ao contrário do que supunham os meus pais, queria tudo menos ter duas adolescentes parvas de volta dele e assim nós as duas ficávamos à solta. Como é obrigação de qualquer adolescente, o nosso objectivo de vida era chamar a atenção de rapazes giros e, depois disto conseguido, a coroa de glória era que nos dessem mais idade do que de facto tínhamos (entretanto com o passar do tempo isso deixa de ter piada e esforçamo-nos pelo inverso). E um dos grandes entretenimentos nossos nestas situações – e é aqui que queria chegar – era inventarmos histórias de vida diferentes das reais e apresentarmo-nos com nacionalidade de outro país que não Portugal.

Pois bem, estas tontices pouco patriotas voltaram como tentação com a última decisão do tribunal (e o governo, eleito com mandato para reduzir despesa pública, devia mandar dar uma volta a quem o impede de reduzir gastos públicos nos poucos casos em que o tenta). O país cansa-me, como à Ana, e eu estou mesmo cansada de sustentar um estado que negligencia aquilo que devia privilegiar (a justiça, que é uma anedota de mau gosto, só para dar o exemplo mais flagrante) e esbanja os meus recursos para satisfazer as mais variadas clientelas a que se teima em dar protecção constitucional – mesmo nos casos em que nos constitucionalíssimos tempos socráticos não davam. E além de cansada começo mesmo a ficar envergonhada. Sempre me ensinaram a ser de boas contas e embaraça-me partilhar o país com gente que insiste em ser sustentada por outra parte da população – a que vive do sector privado – a quem explora indecorosamente e pretende até aumentar o grau de exploração, mesmo quando a exploração já se traduz numa taxa de desemprego de quase 20%, em falências a molho e em perdas de rendimento das famílias que em tantos casos já constringem as despesas mais essenciais.

Ora se emigrar ou mudar de nacionalidade não é praticável por um conjunto de sortido de razões, pelo menos lá fora pretendo deixar de passar vergonhas. Passo bem por sul-americana, tomam-me com frequência por sul-americana, pelo que, e já que nem sempre dá para esperar que as outras pessoas leiam The American para entender a loucura do TC, vou retomar os meus hábitos de adolescente parva e começar a dar-me como peruana, ou mexicana ou, melhor ainda, guatemalteca; uso os conhecimentos adquiridos nos tempos em que os senhores do tribunal constitucional me permitiam ter dinheiro para ir de férias para longe: faço en passant umas referências ao lago Atitlan e à casa nas margens do lago onde já estive hospedada (o que me dará ar de local), aos vulcões constantemente a ameaçar erupção, ao Miguel Angel Asturias e ao seu Hombres de Maíz, comento o estado das estradas nas Honduras quando lá se ia visitar as ruínas de Copán antes e depois do El Niño, reclamo da superioridade de Tikal face aos sítios arqueológicos mexicanos e, enfim, no que mais faltar, invento. Antes adolescente parva do que cúmplice de predadores.

Estamos no menos mau

Sempre disse que a pior herança socrática não era a financeira mas a moral ou, corrigindo, a herança amoral. Concretizando: a política de ameaça, arruaça, confronto e, sempre que era o caso, vingança – lembremo-nos, só um exemplo, das ameaças vindas de sócrates e transmitidas por Lopes da Mota aos procuradores que investigavam o caso Freeport – de sócrates e seus amigos, de caminho fazendo uso dos dinheiros e recursos públicos sem qualquer pudor. É certo que sócrates teve companhia, que esta política amoral foi patrocinada por gente como Cândida Almeida e Pinto Monteiro – que tudo fizeram para proteger sócrates das suspeitas de trafulhice que desde cedo o roderaram e boicotaram efectivamente todas as possibilidades desta pessoa ser alguma vez investigada – e por boa parte da comunicação social – aquela que gosta de ser maltratada por um animal político (há gente que gosta de maus tratos, é um facto) e aquela que faz jornalismo faz-de-conta só porque nunca teve sucesso no PS.

Por isto, e apesar da lamentável conferência de imprensa de Relvas e de Relvas ter ficado tempo de mais no governo, o rui a. tem razão quanto ao comportamento exemplar do governo na investigação que fez à licenciatura de Relvas e é bom que as diferenças com o passado se relevem. Convém lembrar que o desgoverno socrático foi no sentido contrário: não só não investigou a alegada licenciatura de sócrates na Independente como até encontrou pretexto para encerrar a universidade; o ministério público, pelo seu lado, investigou a licenciatura de sócrates usando provavelmente fotocópias. Conclusão: por muito mal que se porte este governo, está a milhas do basfond que foi o desgoverno socrático.