(Des)Amor com (des)amor se paga

Israel – como tudo na vida – não está acima de críticas. Nem na atual guerra com o Hamas em Gaza nem nos intervalos das erupções violentas. E tem lá dentro os intoleráveis judeus ultra-ortodoxos que são tão agradáveis para o género feminino (dou três exemplos) como as gentis almas que compõem o Hamas. Mas confesso que me espanta como há tanta gente que tem bitolas tão distintas para os dois lados. Israel não pode atacar (como faz agora e em resultado de ataques sofridos) mas também não se pode defender preventivamente (ai Jesus que construiram o muro); Israel não pode atacar mas ninguém se lembra que do tempo em que iam mandar os judeus ao mar (propósito que ainda tem o Hamas), das guerras que o lado palestiniano provocou e dos boicotes a qualquer tentativa de uma paz negociada – e tudo em prol de jogos de poder entre Hamas e OLP (e dentro de cada um), da manutenção de esquemas de corrupção que enriqueceram os líderes da OLP e para distrair os palestinianos da negligência e incompetência e corrupção dos governos de OLP e Hamas.

Já com o Hamas a complacência é total. A indignação com as mortes civis (e sobretudo de crianças) dirige-se toda para o exército israelita, mas o facto do Hamas preferir o apelo propagandístico das mortes de crianças e civis pelos israelitas, localizando-se onde faz mais mossa à população civil em caso de ataque, em vez de proteger os civis de Gaza já é de todo irrelevante e não lhe atribui nenhuma culpa na morte dos referidos civis. A pobreza em Gaza não interessa, os desrespeito pelos direitos humanos das mulheres likewise. E para o que acontece ao mesmo tempo na Síria e nos locais controlados pelo ISIS olha-se para o lado, que não é conveniente haver outros concorrentes à indignação que se quer oferecer toda a Israel.

Eu, se tiver de escolher lados, fico com Israel. Tem erros, tem exageros, tem mão militar pesada. Mas não festeja as vítimas do outro lado, não sacrifica vidas civis do seu lado à propaganda, não só não tem um total desrespeito pelas vidas do lado inimigo como não pretende provocar o maior número de vítimas – é isto o Hamas. Que, além disso, defende coisas que me são aberrantes. Aprecio tanto o Hamas como lá valorizam o que eu sou e represento: uma mulher ocidental independente.

Uma boa leitura para estes dias – e porque os dramas humanos naquela zona não começaram agora – é o Oh Jerusalem, da dupla Larry Collins e Dominique Lapierre. (Livro sobre o qual escrevi no primeiro jornal que deu guarida a textos meus – o Notícias do CUPAV – depois do assassinato de Ytzhaz Rabin, que era referido no livro nos seus tempos do Palmach, a 4 de novembro de 1995. Lembro-me perfeitamente de ter sabido desta notícia numa área de serviço da A1, já bem de noite no regresso de Coimbra, onde tinha ido à festa de 20 anos do CUMN.)

oh jerusalem

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Educar como na família Kennedy

A minha deriva maternal hoje no Observador.

‘Há uns anos li na Vogue um texto sobre Rory Kennedy, a filha mais nova de Ethel e Robert Kennedy, a propósito da realização do documentário Ethel, com o ponto de vista da sua mãe dos eventos que viveu e presenciou. Ou mais ou menos; vi o filme há dias e o ponto de vista é só da senhora de RFK. Às tantas, sobre a sua educação no meio de 11 irmãos, dizia Rory (tradução minha) ‘Eu tento educar cada um dos meus filhos [tem 3] como se fosse o décimo primeiro. Penso que ignorá-los e dar-lhes espaço para fazerem as suas coisas é uma boa abordagem’.

Esta opinião volta-me de tempos a tempos. Sucede sempre que leio aquelas intermináveis listas de conselhos para pais – escritas, estou convencida, por malfeitores com desígnios que ainda não desvendei – que nos informam o guião infalível para criarmos filhos bons alunos a matemática, filosofia, astrofísica e grego antigo, com capacidades de liderança, sociáveis, não influenciáveis pelos seus pares, enfim, perfeitos e destinados a ocuparem os mais altos cargos de cada nação.

O resto está aqui.

Hasta la Virtude, siempre!

casino lisboaVenho aqui dar o meu apoio público a Ribeiro e Castro, senhor que quer impedir que o vício e a imoralidade estejam apenas a um clique de distância. É certo que não entendi bem a lógica de se considerar o jogo um mal a ser combatido, mas já se admitir que este mal exista desde que ninguém ganhe dinheiro com ele ou que os lucros de tão hedionda atividade sustentem programas sociais. Afinal anda o estado a promover o vício de uns pobres coitados dados a desbaratar o seu dinheiro, explorando-os de facto, para ter dinheiro para acorrer a outros fracos que ou não têm dinheiro ou o desbaratam de outras formas (eventualmente até da mesma)? Usar o vício de uns para ajudar outros é um comportamento moral do estado, é isso? Ah, bom, estamos sempre a aprender.

Pequenas perplexidades à parte, estou com Ribeiro e Castro: é necessário promover a virtude e travar qualquer medida ‘liberal’ (batam na madeira 3 vezes, sff). No caso concreto, concordo que se deve impedir a todo o custo as pessoas de disporem do seu dinheiro como entenderem – se o entendimento for arriscarem no jogo esse dinheiro. Mas há muita atividade e muitos comportamentos indutores de vício e imoralidade por aí e Ribeiro e Castro não lhes presta a devida atenção. Assim, vão aqui algumas propostas que Ribeiro e Castro pode aproveitar e que promoverão um aumento da moralidade pública.

1. Encerrar bares e discotecas, locais pecaminosos onde homens e mulheres contactam e se conhecem, sabe-se lá com que intenções.

2. Encerramento de redes sociais, onde se conectam pessoas que sem esses veículos ficariam sossegadas em suas casas.

3. Prevenção atempada do vício do jogo: proibição do ensino dos pais aos seus filhos da bisca do três e do keims.

4. Ao abrigo da lei do esquecimento, dar ordem aos motores de busca para apagarem todas as referências ao ‘grupo da sueca’ dos tempos de Cavaco enquanto pm.

5. Sobre indústria pornográfica nem preciso de me pronunciar: é banir tudo.

6. Encerrar locais onde se albergam espetáculos de striptease, sejam os strippers membros das forças de segurança ou não.

Ou, em alternativa, nacionalizar todas estas atividades e usar as suas receitas nos tratamentos do stress pós traumático provocado nos professores por se submeterem àquela experiência reminiscente de viver quatro meses numa zona de guerra e a que normalmente chamamos ‘testes’. (Também se pode aproveitar, de caminho, para comprar e enviar a Mário Nogueira os dvds do Poirot, para o senhor aprender o que é um bigode decente. A estética noticiosa televisiva teria muito a ganhar se Mário Nogueira aproveitasse essa pequena formação.)

Da um caso em que se merece uma cobertura de alcatrão e penas

Também venho aqui opinar sobre a gente maravilhosa e, sobretudo, liberal, a propósito das medidas verdes que o ministério do ambiente quer implementar. Em boa verdade nem vale a pena gozar com isto do ‘liberal’, porque Moreira da Silva era aquele senhor que nos congressos do PSD reagia indignado face às maldosas acusações ao PSD de que este seria um ‘partido liberal’ e, além disso, Moreira da Silva tem escrito na testa ‘sou um socialista retinto’ e só ainda não tinha reparado quem esteve muito distraído.

Não vale a pena gozar mais com esta gente, porque o José Meireles Graça já a cobriu do que merece: de ridículo (em dois takes). E os Andrés também já disseram coisas pertinentes.

Venho, por isso, apenas aludir aqui à dimensão da loucura desta gente que nos governa. E pego nos sacos de plástico e na taxa proposta de 0,10€ para cada saco.

Na minha empresa durante muito tempo comprámos sacos iguais àqueles usados nos supermercados à razão de centenas de milhar por ano. O custo dos sacos andava à volta de 1$00 – meio cêntimo de euro. Isto era o preço de venda das empresas que produzem estes produtos. O custo com cada saco era, evidentemente, inferior. Os supermercados – pequenos ou grandes – comprarão uma quantidade bastante maior em cada ano e este é o tipo de produto que o aumento da quantidade embaratece o custo individual. Assim, mesmo aceitando que preço destes sacos de supermercado aumentou consideravelmente (não faço ideia se foi assim), por cada saco as empresas de distribuição não pagarão mais de 1 cêntimo por saco. Again: o custo dos sacos para as empresas produtoras – e este custo evidentemente incorpora a quantidade de matérias primas usada na produção – será ainda inferior.

As empresas que cobram aos clientes cada saco costumam vendê-los por 5 cêntimos – o que é uma roubalheira mas só compra quem quer – e as outras que não cobram diretamente pelos sacos evidentemente incorporam esse custo no preço daquilo que vendem.

Como o estado – que de facto tem em Moreira da Silva um digno representante – nunca tem vergonha de ir além daquilo que é uma roubalheira nas empresas privadas, propõe uma taxa de 10 cêntimos para cada saco de plástico. Sim: temos um governo que propõe uma taxa sobre um produto que é mais de dez vezes o custo desse produto. Custo esse que, repito, inclui a porção de recursos usados na sua produção.

Além de só gente doida varrida propor uma taxa que é várias vezes o preço do produto taxado, há que ter em consideração que os sacos de supermercado são geralmente reutilizados como sacos para o caixote do lixo. (Eu, durante anos, usei-os também para vedar cheiros das fraldas das minhas crianças.) Pelo que se os consumidores deixassem de trazer sacos do supermercado, iriam comprar o mesmo número de sacos para colocar nos caixotes do lixo ou para fraldas ou para outra coisa qualquer, gastando-se assim o mesmo número de sacos e de matérias primas usadas para produzir sacos. A diferença é que os consumidores teriam de gastar mais dinheiro em sacos.

Por isso o estatista Moreira da Silva que não pretenda com esta medida qualquer benesse ambiental. Quer, como sempre, desviar custos dos consumidores para o estado. Resta-nos a esperança de que o CDS honre o voto de muitos, inviabilize estas maluquices ambientais e faça Moreira da Silva perceber que o melhor outlet para as suas ambições de justiceiro ambiental é criar num canto de sua casa um altar para rezar a Al Gore.

 

Porque no sábado à noite fui ver o Yves Saint Laurent

yslQue nem foi dos meus criadores preferidos (nada ultrapassa a estética anos 30 da Chanel ou as criações fabulosas do Tom Ford – que tem aquele dom raríssimo do toque de Midas: tudo o que cria é bom e belo, desde carteiras e perfumes ao cinema; acho que nem que se esforçasse criaria algo sem qualidade). Os anos insolentes de YSL foram antes do meu tempo e, de quando me lembro, o costureiro já estava demasiado institucionalizado. Mas YSL tinha, como eu, a mania de misturar cores fortes. Por isso, sempre que faço o mesmo (como hoje, que estou de jeans rosa schiaparelli, túnica roxa e casaco verde água), posso dizer que YSL foi o meu mentor.

(Além de que também gosto muito de Piet Mondrian.)

Misoginia e falta de juízo

O meu texto de hoje no Observador, sobre maravilhosos ditos e sentenças de juízes em casos de violações e de abusos sexuais a menores.

‘Hoje trago casos em que a realidade imita a ficção.

Parte da ficção vem dos livros de Nancy Mitford e de uma das suas personagens: Lord Alconleigh, fidalgo de província que servia como magistrado. O método usado para determinar a culpa dos supostos meliantes que lhe apresentavam era simples e tornava desnecessárias maçadas como provas, testemunhos, interrogatórios e contra-interrogatórios; bastava ponderar se o acusado tinha ou não cara de criminoso. A simetria facial e a forma mais ou menos ameaçadora das sobrancelhas sentenciavam a pena ou a absolvição.

Claro que, agora na realidade, nenhum juiz cai no exagero de determinar sentenças baseando-se nas feições dos acusados. Têm um método ainda mais infalível: decidem com base no sexo dos queixosos. Porque toda a gente sabe (ou, pelo menos, os juízes sabem): as mulheres são mentirosas. Capazes de inventar qualquer historieta alucinada para destruir a vida de um coitado do sexo masculino. De os levar à loucura, à aplicação de uns sopapos (que eles nem queriam) e, de seguida, ainda vão para os tribunais caluniar um homem.’

Em defesa da direção patriótica do BE

Venho aqui dar o meu apoio público à direção do BE, que apesar de tudo tenta prestar o melhor serviço ao país que consegue, mesmo pagando o preço de purgas, deserções e afins. (Haver purgas e deserções, na verdade, é apenas um caso de respeitar a tradição dos partidos extremistas de esquerda, pelo que os tradicionalistas ficam certamente embevecidos com esta coerência bloquista.) É mesmo um caso claro de no good deed goes unpunished. Fações e pessoas conhecidas – Daniel Oliveira, Rui Tavares, Ana Drago – têm saído do BE, em discordância com a política das direções de não participação em governos e de não se aliarem ao PS. (Reprimam os apupos por ideias tão aberrantes, sff.) Como qualquer pessoa com juízo entende, de facto quando se têm as ideias políticas com o potencial destrutivo da economia, dos mais basilares direitos dos cidadãos (o direito à propriedade privada, desde logo e como se viu na bomba atómica disfarçada de proposta de reestruturação da dívida que Louçã patrocinou), da confiança que os cidadãos podem ter uns nos outros e nas instituições, enfim, de tudo – nestes casos, a única posição decente que os portadores destas ideias podem ter é mesmo ficarem o mais longe possível de um governo. Devemos, portanto, agradecer à direção do BE e pedir-lhe que se mantenha inflexível nesse ponto. Entre o BE e as cabecinhas de Oliveira, Tavares e Drago – que não se distanciam do caos e destruição que o BE propõe, a única diferença é que querem mesmo implementá-lo em vez de apenas brincarem com a ideia – não hesitemos em elogiar a auto-exclusão do BE. O partido está a dizer-nos que o melhor que pode suceder ao país é não governar e eu não vejo motivo nenhum para não acreditar nisso. Além de que aprecio sempre que as pessoas sejam sinceras sobre as suas próprias limitações.

Tintinólogos do mundo, uni-vos

Vão a correr ler este texto maravilhoso do Paulo Tunhas no Observador, quase todo sobre Tintin – e Hergé (como se se pudesse escrever sobre um sem escrever também sobre o outro). Eu tenho mais ou menos a mesma relação com os livros do Tintin: when the things get tough, quando não há paciência para absolutamente mais nada, (re)lê-se os livros do Tintin, a melhor psicoterapia à disposição da humanidade.

blue lotusAcrescentava só um pequeno ponto, que é talvez o mais agridoce dos livros do Tintin: as suas incursões pela política. Destaco duas. A primeira do Lótus Azul, onde Hergé mostra a China repartida, não só pelas concessões das potências europeias nas grandes cidades (vê-se a de Shanghai) mas também pela invasão japonesa dos anos 30. Hergé foi mesmo acusado de ter escrito um livro político em vez de um livro para crianças. E nisto, como em tudo o resto (o humor, a amizade, os preconceitos,…), os livros de Tintin são de hoje. A China e o Japão continuam em zangas intermináveis à conta de minúsculas disputas territoriais de ilhotas. E não há vez que a China não use a carta ‘invasão japonesa’ e, sobretudo, a ‘violação de Nanjing’. (O Flowers of War, de Zhang Yemou dá-nos o vislumbre do que foi o evento.) Pelo seu lado, o Japão menoriza as atrocidades dos soldados japoneses pela Ásia oriental nos anos 30 e 40, o que enfurece a China e a Coreia. Como de costume, o presente só se entende através do passado – e as visões do passado só se entendem através do presente. E nestes casos de eventos históricos violentos, tal como nos traumas individuais e como diz Dori Laub (que eu estou a notar uma ausência de referências a autores relevantes há bastante tempo aqui no blog, o que me faz temer pelas nossas reputações), os traumas são eventos sem fim.

A segunda é ainda mais desiludida e assassina e calhou ser como termina a série do Tintin. Está no último quadradinho dos Pícaros, com o avião de Tintin e companhia a voar de regresso. Hergé repete a visão da capital de San Theodoros com o avião de Tintin e companhia sobrevoando a cidade antes de aterrar. Nos dois quadradinhos se vêem as lixeiras e as famílias que nelas vivem. Apenas mudaram – depois da transição política em que Tintin participou – os uniformes dos guardas armados que patrulham as lixeiras e os cartazes com o nome do ditador.

picaros

A nossa democracia está na adolescência. Um orgulho.

O meu texto de hoje no Observador: um estudo longitudinal e científico sobre a relação dos media com os candidatos a primeiro-ministro socialistas.

‘Inícios de 2002, numa sala de espera de um consultório ao pé do Marquês de Pombal. Havia uma revista Visão e pus-me a lê-la enquanto esperava pelo (atrasado) médico. Estávamos em campanha eleitoral para as legislativas, depois de Guterres ter fugido do pântano que criou. Na Visão havia duas reportagens. Uma sobre a campanha de Durão Barroso, com o tom trocista que se esperava (o cherne, recordam-se?). A outra, sobre a campanha de Ferro Rodrigues (alguém tão capaz de criar empatia com o eleitorado como o glaciar médio), tinha um tom diferente. Os cristãos mais conservadores não falam de Nossa Senhora como o jornalista falava de Ferro Rodrigues, ser radioso que ostentava todas as qualidades possíveis num ser humano. Quando fui chamada para a consulta, ia com a certeza que o jornalista (nome conhecido, de resto) tinha acabado de escrever o texto com lágrimas de comoção no canto do olho por ter versado sobre objeto tão sublime e ter participado na nobre missão de o dar a conhecer ao mundo.’

O resto está aqui.

My 2 cents

Deixem-me também dar umas colheradas nesta conversa do financiamento do ensino superior. Concordo que tendencialmente o custo dos cursos superiores deve ser suportado pelos alunos e famílias, desde que haja atribuição de bolsas a quem quer e tem notas para frequentar o ensino superior mas não tem família que o pague. E a eliminar-se o financiamento público, terá de se alargar o dinheiro disponível para bolsas. (Algo que penso que é pacífico.)

(E para o que se segue: juro que não fui raptada e substituida por António Arnaut.)

Mas, para além deste ponto inicial, eu recebo sempre com muitas reservas estes aumentos das propinas pagas no ensino superior público, ou das taxas pagas no SNS ou no sistema judicial. Porque apesar de estes aumentos por si só fazerem sentido para o financiamento saudável (e para além de todas as discussões necessárias sobre a possibilidade de escolha nos prestadores de cuidados de saúde), com a extorcionária carga fiscal atual não penso que haja qualquer justificação moral para aumentar o que seja. Com o nível de impostos que pagamos, podemos todos exigir serviços públicos de primeira água sem mais contribuições privadas. Parece-me que defender a racionalidade e a moralidade no financiamento dos serviços públicos do princípio utilizador-pagador, estando tudo já inquinado e distorcido à partida com o saque fiscal a que estamos sujeitos, é apenas ajudar que mais recursos privados sejam transferidos para a esfera pública.

Por mim, enquanto não baixarem impostos não têm apoio para qualquer aumento de qualquer taxa, por muito que isso em abstrato seja justo. Vão buscar os recursos que necessitam para SNS, ensino superior público, tribunais, whatever, ao tal estado que era para reformar e afinal continuou igual, talvez com uns gramas a menos de celulite. E que, neste momento, já está outra vez a correr desvairado em direção ao carrinho dos gelados.

gelados

Ad Majorem Dei Gloriam (ou O Engate) – versão 2.0

Ocorreu ontem, uns graus de latitude a norte de onde estou, a ordenação como padre jesuíta do Paulo Duarte. O Paulo, que eu conheci no CUPAV e que costumava encontrar em aviões – o Paulo era comissário de bordo – ou no aeroporto de Lisboa, ele compostíssimo, elegante e cheio de energia e eu desgrenhada (que, como se sabe, só se emerge gorgeous de 18 horas de viagens de avião nas comédias românticas de Hollywood), com olheiras e o cérebro toldado de uma noite de regresso de Hong Kong passada em aviões. O Paulo, que eu descobri que tinha decidido tornar-se jesuíta na ordenação de outro amigo, o Gonçalo Castro Fonseca – mais um padre heterodoxo, que me proporcionou a melhor experiência da Fontana di Trevi ever (mas sem banhos) e com quem partilhei expedições irresponsáveis como um assalto (sem apropriação ou dano de propriedade alheia, acalmem-se) noturno ao encantador Castelo de Xavier, em pleno País Basco com a ETA em guerra (sim, eu sei que as minhas crianças me farão pagar estas coisas com juros usurários).

Admiro, cada vez mais, a capacidade de entrega e de renúncia de pessoas como o Paulo e o Gonçalo. Também sei o quão apaixonante e envolvente é Deus, sempre pronto a arrebatar-nos (como o Paulo dizia há poucos dias, ‘Deus é irresistível’). E como são gratificantes e prazentosos os momentos de namoro com Deus (também chamados de oração, ainda que nisto, como em tantas outras coisas, eu seja esquisita; contemplação inaciana – que requer tempo e disponibilidade – está muito bem, em coisas como terços não me apanham). Mas as relações longas têm todos momentos espinhosos, um lifelong affair com Deus não é exceção. Não me refiro às zangas com Deus, que são geralmente muito úteis. Não: não me imagino a suportar aqueles momentos, que, dizem-me, todos passam, de secura espiritual e em que Deus aparentemente se esconde, eu que lido tão mal e me melindro com silêncios e ausências e sofro horrores quando as explicações do que não entendo (que é tudo o que me faz sofrer) tardam. Nem, claro, tenho a capacidade de renunciar aos afetos humanos ou aos bens materiais (logo eu que sou tão materialista e me afeiçoo tanto a alguns objetos – não da espécie eletrodoméstico, evidentemente; é mais coisas como as minhas estantes art deco, a mais recente lá em casa adquirida num leilão a um preço indecoramente baixo e que agora alberga os livros das minhas orientalices; o anel e os brincos lindos de morrer com que fui presenteada quando as minhas crianças nasceram; a minha saddle bag street chic de ganga; por aí). Por estas e outras coisas me serem tão difíceis maravilho-me por pessoas como o Gonçalo e o Paulo as aceitarem de coração aberto.

Hoje é dia de agradecer, portanto, o Paulo, o Gonçalo, as suas vocações e aquilo que representam para a Igreja (que também é mais ou menos aquilo que representa o Papa Francisco): padres que não sendo do mundo, estão no mundo e não estão em guerra com o mundo; padres que querem acolher e converter, em vez de quererem fechar a Igreja num grupo de estóicos e puros que aguentam serem cristãos; padres que se ocupam das suas missões e não estão obcecados com a moral sexual; padres que são cristãos e não papistas.

A música é um presente para o Paulo; como contacta muito com refugiados políticos, alguns vindos dos imbróglios do Médio Oriente, parece-me que o tema ‘escravas persas’ é adequado.

Talvez seja um problema oftalmológico, João

Isto

burkae isto

niqab 2é diferente disto

freiraNo último caso eu vejo uma cara. E expressão facial.

E a não ser que aches que abuso sexual de menores decorre de alguma causa associada ao uso de determinada roupa, não vejo o paralelo que estabeleces. (Se bem que até podes achar, e não é argumentação que me repugne, que o abuso sexual por religiosos é potenciado de alguma forma pelo voto de castidade.) Porque o uso de burka não aparece do nada: vem da mesma preocupação de eliminar a possibilidade de desejos sexuais pecaminosos entre homens e mulheres que leva à mutilação sexual feminina; vem, ainda, do estatuto menor que se atribui às mulheres na maioria do Islão e que leva à mutilação genital feminina.

Elas gostam e querem

Uma curiosa forma de niqab que eu só vi no Dubai e que parece um açaime. As mulheres gostam.

niqabTambém fiquei a saber que uma mulher com filhos que veja que não consegue sustentá-los e a si própria só com o seu rendimento e que, portanto, não sai de uma situação em que é alvo de violência do marido, afinal continua com o marido porque gosta de apanhar.

(já estou sem ideias para títulos)

É isto, João, só isto e nada mais do que isto. Apesar da lei em França estar a ser aplicada há anos, não sei como não temos tido notícias apocalípticas sobre as coitadas das mulheres que foram obrigadas a mostrar ao mundo as maçãs do rosto. E se as burkas fossem roxas, eu seria uma grande apoiante. (Já agora, esta do uso da burka como rejeição do ocidente é um pouco estranha, não? O que faz uma mulher no Ocidente a afirmar que rejeita o Ocidente? E porque tem ‘o Ocidente’ de acolher e acatar os valores e as afirmações de quem rejeita o Ocidente? É a questão da imigração e da recusa de integração destas comunidades, que não se consubstancia só nesta questão da burka, que eu entendo que também não se deve permitir. Sou uma nazi.)

Já agora para tornar a conversa ainda mais surreal, dei por mim a pensar nas turistas muçulmanas que se cobrem por esse mundo fora. Se em Londres se vê mulheres de burka com a pele e olhos claros das inglesas que andam de niqab (de burka não dá para ver nada do que são) que têm olhos bonitos (ainda que não maquilhados) e são elegantes, já as turistas muçulmanas que andam cobertas não costumam ter olhos bonitos e são tendencialmente volumosas. Onde é que quero chegar (se a algum lado)? Que me parece que, quando no Ocidente, os maridos muçulmanos não se importam de exibir que têm uma (ou mais) mulher bonita – como, de resto, qualquer homem – deixando-a descobrir-se. (E não vejam nisto qualquer arrufo feminista contra a exibição de mulheres, que eu acho ótimo exibirmo-nos todos uns aos outros e antes ser objeto sexual do que andar de burka).

Acrescento: ó Vítor, sinceramente, mas que disparate! Percebo que achas que quem usa burka o faz porque quer usar burka – Vv. aí no Blasfémias sabem estas coisas, apesar de eu já não poder saber que as mulheres não querem usar burka, e se a lei diz que as pessoas são livres então as pessoas são livres, não têm qualquer condicionamento para além da lei (Deus meu). Mas seguindo o teu argumento (e referi porque faz sentido proibir que as pessoas andem nuas na rua, se a lei tem outro argumento, o meu é o que eu apresentei) se um indignado se queixar de alguém que anda de burka já está tudo bem, é isso? E já que foste buscar o exemplo absurdo do cigano, também achavas bem que alguma comunidade – por pressão social, económica, whatever – obrigasse os membros de uma etnia ou nacionalidade a identificarem-se com uma braçadeira, um sininho, o que fosse? E ficavas descansado se essa etnia ou nacionalidade acatasse a exigência da comunidade por falta de capacidade económica para a recusar, por exemplo? Como está na lei que uma pessoa não pode obrigar outra a usar braçadeira, sininho, etc, estava tudo bem para ti? (É tão bom ver o mundo quadriculado.)

Figuras tristes à conta de António Costa

Tenho poucos palpites sobre a crise dos jornais em papel, mas aquele que tenho vai neste sentido: os leitores/compradores dos jornais não gostam de perceber que os jornalistas/comentadores estão a chamar-lhes tolos. Isto a propósito deste texto da Ana Sá Lopes, onde se elogia a forma como Costa já lida com os seus apoiantes mais à esquerda com a recusa do ‘pisca-pisca’ (e a expressão é desde logo de uma elegância de primeira água, ainda bem que Costa é apoiado por ‘a’ Cultura itself).

Ora bem, foi António Costa que colocou no debate da liderança do PS a ideia de um diálogo alargado à esquerda e recusou alianças com PSD e CDS. Depois viu a rotunda estupidez do que estava a fazer e já arrepiou caminho. Resumido como para uma criança de 5 anos: Costa criou ele próprio o problema e agora está aflito a tentar resolvê-lo.

Perante isto, o que opina Ana Sá Lopes? Que Costa é um troca-tintas? Que Costa cria problemas à sua própria candidatura? Que Costa diz coisas sem pensar bem nelas? Que Costa parece um contorcionista que diz uma coisa e o oposto? Que Costa é inábil? Que Costa está apenas a tentar remendar a argolada em que se meteu? E que nenhuma destas possibilidades augura um bom pm? Não. Ana Sá Lopes fala em ‘aguda capacidade estratégica de Costa’ (sim, leram bem, não precisam de ir a correr para o oftalmologista). A senhora ou não percebe o que ouve e o que escreve ou está a brincar com os seus leitores.

Última gota?

João, neste momento o debate já não vale muito a pena, porque tu achas que estás a rebater argumentos, como se fosse má avaliação minha que me faz ter a minha opinião, quando é evidente que temos valorizações diferentes que nos levam a posições diferentes, desde logo sobre a burka, a lei e, até, o bom senso das pessoas.

1. Não são a mesma coisa resíduos de sangue menstrual e de muco vaginal ou umas mãos por lavar (e vou mesmo ter de falar de resíduos de fezes?). Ou se percebe a diferença ou não se percebe. E não vejo porque hás-de tu assumir comportamentos de bom senso se a ausência de legislação para ti é benéfica precisamente para permitir todos os comportamentos, os sensatos e os outros. Se as pessoas tivessem todas bom senso e bons propósitos e bons sentimentos (coisas que, de resto, são diferentes para cada indivíduo) não haveria necessidade de criação de leis.

4. Não faço ideia em que te baseias para supor que não havia coação pelo facto de a lei ter sido implementada sem problema. A mim parece-me precisamente o contrário: com a existência da proibição muitas mulheres tiveram a oportunidade de se livrarem daquelas coberturas todas com a desculpa do cumprimento da lei e sem necessitarem de afrontar maridos, pais, irmãos, religiosos, etc. Mais: até me parece que muitos pais e maridos e irmãos tiveram eles próprios a desculpa perante a comunidade de não mais exigirem às mulheres da sua família que se cobrissem. No facebook Nelson Reprezas contava como via mulheres sauditas que mal chegavam ao avião de Riad se desfaziam daqueles panos todos. Eu nunca fui a Riad, espero nunca lá ir, mas também já vi situações semelhantes noutros locais (e muitas sauditas destapadas noutros países). Só não percebe que as mulheres se tapam para não afrontar as convenções sociais do seu país ou comunidade ou família e se destapam logo que podem quem não quer.

Do resto do ponto só é relevante não considerares a burka degradante, porque tudo gira à volta disso. Tu aceitas que os direitos humanos das mulheres das comunidades muçulmanas sejam ignorados porque assumes que são elas que o querem – e também não sei onde foste buscar a ideia de que essas mulheres já estão protegidas pela legislação contra a coação dos seus familiares, porque à realidade em que elas vivem não foi de certeza. Eu não. E não aceito porque são os meus direitos que ficam assim diminuídos. Isto são valores e opiniões e conceitos de realidade diferente. Não é nada que se rebata. Tu achas uma coisa e eu acho outra. Podes achar-me uma tremenda intervencionista se quiseres, eu acho a tua posição também nada coerente (porque se há algo que deve ser defendido pela lei são os direitos humanos e ou não aceitas que existam tais leis de todo ou, então, não podes defender nenhum absolutismo neste caso) e, como já se percebeu, nada recomendável – porque o que tu defendes diminui os meus direitos. E se calhar tu achas que legislar a forma de vestir (mesmo só recusando os extremos) diminui a tua liberdade. É um conflito e não entendo por que hei-de eu aceitar que sejam os teus direitos a permanecer intactos. O que tem piada – salvo seja – é que tu nem concebas esse conflito. Acho que é porque, no fundo, pensas que sabes melhor do que eu como é que eu devo viver em liberdade. Ou então que o meu conceito de liberdade não vale tanto quanto o teu.

5. As leis obviamente devem ser gerais e abstratas. Mas só devem ser feitas quando existem problemas concretos que surgem e têm de ser enquadrados legalmente. Só faz sentido criar leis para o uso da internet depois de existir internet. Só se legisla o uso de burka depois destas aparecerem em determinado país. A proibição do uso da burka não é apenas para as mulheres muçulmanas, é para todas e, também, para todos, que presumo que os homens não possam agora passar a cobrirem-se totalmente. A lei francesa é uma lei geral criada para responder a um problema concreto. Está tudo bem.

6. Não sei se perante a lei francesa o uso de burka é crime ou apenas infração. De uma forma ou de outra, que digas que ‘não tem vítima’ é muito curioso e apenas uma opinião tua. Mais uma vez desvalorizas inteiramente a vivência da mulher debaixo de uma burka e ignoras aquilo que a burka representa. Não falei em ‘valores coletivos’. Estou a defender os meus valores e, neste como noutros assuntos, puxo para o lado que coincide com os meus valores.

Nota: apanhei estes posts do João Miranda ontem à noite. Não há nada melhor do que palpitar sobre assuntos de que nada se entende. Se bem percebi, é o mesmo um véu de casamento – e mais informo que se há coisas com que embirro são véus e vestidos de noiva e quando casei evidentemente não levei véu, e vestido de noiva foi mais ou menos – que permite ver perfeitamente a cara da noiva, e permite à noiva ver também muito bem, e uma burka ou niqab. E o João Miranda nem entende que a fotografia de uma mulher com uns olhos lindamente maquilhados (coisa não permitida por quem insiste no niqab – com a burka não se vêem olhos -, nem uma musselina amarela é um pano preto ou azul opaco, pelo que a foto é uma fraude) é mesmo o melhor argumento para mostrar como as mulheres não querem prescindir de mostrar os seus encantos. Enfim.

vejam lá os cogumelos que andam a pôr na comida de António Costa, que os resultados têm sido devastadores

cmlJá não bastava a figura ridícula de apresentar como solução para o país ‘aumentar a riqueza’. Ou de não conseguir produzir nada que vá além de uma banalidade avassaladora, muito bem expressa nos slogans de uma originalidade groundbreaking ‘capacitar Portugal’ ou ‘mobilizar Portugal’ (a sério?!). Também não era suficiente o azar (de que o próprio aparentemente não tem consciência, pobre alma) de ser apoiado por tudo o que é socrático (bater na madeira muitas vezes). Ou o azar ainda maior de ter a falta de inteligência (more of which later) de elogiar a criatura que faliu o país.  Não, tudo isto – que levaria qualquer pessoa, mesmo que político, com uma réstea de noção de… bem, de tudo, a recolher-se durante umas semanas em sua casa observando um rigoroso silêncio – não foi suficiente para António Costa.

Não, o magnífico edil quis equiparar-se a Tony Blair e pôr toda a gente a perguntar ‘António Costa finalmente enlouqueceu?’. Eu explico. Sabem a câmara municipal mais endividada do país? Aquela a que preside um senhor que pretende governar o país com rigor orçamental? Pois bem, a câmara de Lisboa, a mais endividada do país (estou a repetir-me?), entendeu gastar dinheiro a felicitar Carlos do Carmo pelo grammy recebido. Na Avenida de Roma dei de caras com dois cartazes da CML a dizer isso mesmo. É certo que nos tempos de desbarato do dinheiro dos contribuintes Lisboa passava o tempo a celebrar ou a mostrar o seu pesar por tudo e mais alguma coisa: a vitória do Sporting no campeonato de futebol, a morte de Amália, o nobel de Saramago, o casamento da Carochinha. Mas com a falência socrática lá os lisboetas foram poupados às políticas celebratórias dos presidentes de câmara. Costa, o magnífico, o grande, o judicioso, o inventor de prosperidade pretende pôr novamente Lisboa a celebrar quando e o que é conveniente celebrar e, de caminho, deitar fora dinheiro dos contribuintes. Temos homem. Temos pm. E só não temos governador do universo se Costa não quiser.

(Os cartazes eram o que está lá em cima, com a identificação do prémio em baixo e o nomeda CML ainda mais abaixo. Tirei foto com o telemóvel mas sou nada e não consigo passar para o computador.)

As últimas gotas da garrafa

João,

Acho muito bem que queiras opinar (não que eu tenha de achar alguma coisa, evidentemente, mas acho) sobre o caso da decisão do TEDH sobre a proibição da burka em França, chamando para isso os argumentos que entenderes. Não vejo é a lógica de responderes com alguns argumentos que nada têm a ver com o que eu disse.

1. Quanto ao nudismo, não vejo o que tem a ver para o debate haver locais onde se pode praticar nudismo nem que isso seja feito na ‘católica’ Munique. Não tenho qualquer problema de ordem moral ou religiosa com o nudismo, desde pequena conheço a praia do Meco, ainda hoje gosto muito da praia de Alfarim, anos a fio passei férias de verão em Espanha onde desde que me lembro que era permitido o topless. Isto nada tem a ver com, por exemplo, nós, mulheres, produzirmos fluxos vaginais que desaconselham – por questões de higiene e saúde pública – que estas partes dos nossos corpos estejam em contacto com objetos com que inúmeras outras pessoas vão também contactar. Tu achas que esta questão se resolve com bom senso. Eu prefiro – para minha proteção e dos meus filhos – que se resolva com uma proibição.

2. Não defendo nenhum enquadramento legal diferente para os crimes ditos de honra (nem para outros crimes de ódio). Já me parece que ignorar que esses crimes sucedam em Londres (por exemplo), e por que sucedem, da mesma forma que nas zonas tribais do Paquistão dará mau resultado, mas isso nada tem a ver com enquadramento legal.

3. A decisão do TEDH não é uma vitória das mulheres francesas, é uma vitória minha também.

4. O resto radica em conceções diferentes que temos do problema. Tu consideras que o problema existe apenas quando há coação da mulher a usar a burka, e eu considero que não, o problema não é só esse. Como já disse e repeti, para mim o problema existe porque considero que um país europeu não deve aceitar relacionar-se com uma pessoa que pela forma como se apresenta está ela própria a recusar a sociedade que a acolheu, a criar problemas de segurança e de dificuldade de identificação. (E em França, obviamente, não houve mulheres presas por causa desta situação e a lei tem sido aplicada sem dramas de maior.) Também consideras que apenas faz sentido discutir a permissibilidade do anonimato em público, e mais uma vez eu acho que não é esse o único problema. E sim, esta discussão sobre a burka é para mim uma discussão sobre direitos humanos.

5. Não entendo bem o problema de legislar para resolver um problema concreto. Legislar para resolver problemas virtuais ou para ilustrar princípios teóricos é que não faz muito sentido. E se há problema concreto que a UE deve enfrentar é mesmo este das comunidades muçulmanas. Estes debates são importantes – para mim, precisamente para contrariar a ideia bem-pensante de que se protege a liberdade recusando a proibição da burka – mas também são um exercício de diletantismo. Porque o problema existe e é explosivo, as mulheres dessas comunidades são pessoas efetivamente diminuidas nos seus direitos (e isto não é matéria de opinião), e perdemos tempo a discutir graus de purismo das ideias.

6. (Agora sem ser resposta a nada que tenhas referido.) Qualquer princípio vale se a sua aplicação prática conduzir a algo justo – na conceção de ‘justo’ de cada um. O que houve mais na história das ideias políticas foram princípios que são muito bonitos na teoria e que, quando aplicados à natureza humana, criam realidades iníquas. Um princípio liberal, para mim, é algo que promova uma sociedade e indivíduos mais livres (e este ‘livres’ também é ao gosto de cada um). Se há pessoa que passa a vida a reclamar do excesso de leis e de regulamentações sou eu, mas não confundo liberalismo apenas com exiguidade ou inexistência de leis. Por vezes é necessário condicionar a liberdade criando uma lei para defender a liberdade. É um paradoxo, mas a realidade também não é linear.

E mais champanhe

Ainda a propósito das burkas, ide ler o José Meireles Graça – que tem quase, quase sempre razão em tudo (e o quase, quase sempre passa a invariavelmente quando me cita, como é evidente) – que faz um bom ponto da situação e termina com um parágrafo que devia ser evidente para toda a gente, mas não é. E nesta questão dos muçulmanos na UE há muita gente que gosta de desconversar, como se a liberdade fosse algo teórico e não algo que se vivencia. Como se as nossas leis não estivessem cheias de infrações e crimes que o são independentemente da vontade/liberdade dos visados. Como se nas nossas sociedades a própria liberdade não fosse imposta devido a considerações sobre a dignidade do ser humano, através da proibição da escravatura, por exemplo (porque alguém até pode gostar de ser escravo de outra pessoa – e há livros sobre os tempos da escravaura nos Estados Unidos, é ir-se ler o Gone With the Wind, para falar só de um, onde os escravos até estão muito satisfeitos com a sua condição).

Sobre os trapos – que o José Meireles Graça referiu e também é uma conversa muito interessante para estas considerações sobre os direitos das mulheres – falo noutra altura.

Continuando com o champanhe

Então por causa dos comentários indignados a este post com a horrorooooooooooooooosa supressão da liberdade que é proibir o uso de burka, venho aqui deixar uns tantos argumentos. (Aos anos que eu andava para escrever este post, e ia sempre deixando para depois. Hoje, como se vê, é dia de pôr as coisas na ordem devida).

1. A liberdade de nos vestirmos como queremos – que é, no fundo, a liberdade de nos exprimirmos através das nossas roupas – não é absoluta quando colide com liberdades e direitos de terceiros. Em minha casa eu posso andar nua, totalmente tapada com um pano preto, até poderia vestir-me integralmente de amarelo (cor que me fica pessimamente). Não me choca – pelo contrário – que num restaurante, bar, discoteca, o que seja, os proprietários estabeleçam um dress para admissão de clientes. Que pode ser uso de saltos de mais de 10cm, gravata, burka, tudo nu acima da cintura – o céu é o limite. No espaço público é diferente e não podemos esquecer que a forma como nos vestimos implica a forma como nos relacionamos com os outros. As restrições ao vestuário não apareceram com a proibição das burkas em França e na Bélgica. Também é proibido andarmos a passear pela cidade inteiramente despidos – desde logo por uma questão de higiene. Não entendo as comichões que provocam as proibições do uso da burka – no espaço público e nos edifícios públicos, evidentemente – a pessoas que encaram normalmente e sem grandes sobressaltos da liberdade a proibição de andarmos sem roupa. O uso da burka tem como finalidade precisamente recusar essa relação com os outros e traz consigo todo um leque de problemas de segurança, de dificuldade de de identificação,… que justificam inteiramente a proibição.

2. A questão da liberdade das mulheres poderem usar uma burka se assim o entenderem é muito bonita mas só a põe quem não faz ideia do que se passa nas comunidades muçulmanas residentes na Europa. Pode-se falar de liberdade nos casos de mulheres ocidentais não muçulmanas que casam com muçulmanos e, a partir daí, passam a usar burka. Falar de liberdade quando nos referimos a muçulmanas imigrantes na Europa, que muitas vezes não têm instrução que lhes permita encontrarem um emprego, não falam ou falam mal a língua do país de acolhimento, não têm qualquer ligação ao exterior da sua comunidade, não fazem ideia de apoios legais ou sociais de que poderiam usufruir, têm filhos que, sozinhas, não conseguem sustentar, e, e, e… – falar de liberdade nestes casos só pode mesmo fazer quem não tem noção do significado da palavra.

3. Acho piada que coisas dispiciendas como ‘a dignidade da mulher’ não sejam razão para nada. Na verdade, os sistemas penais europeus estão cheios de crimes e infrações para os casos em que algo ofende a dignidade de um ser humano. Se eu chamo canalha a alguém, por exemplo, essa pessoa pode sentir-se ofendida na sua dignidade e, se apresentar queixa e eu não provar que é, de facto, um canalha, o sistema penal atribui-me uma pena. O mesmo para difamações, calúnias, atentado ao bom nome, etc. A violência doméstica é crime porque ofende a dignidade daquele que é agredido. Mas pelos vistos algo que só ofende a dignidade da mulher – e o uso de burka é algo ostensivamente utilizado para diminuir a dignidade de uma mulher, tirando-lhe a identidade e a individualidade, a capacidade de se relacionar com o mundo, obrigando-a ao uso de um símbolo de submissão e é expressão mais visível e simbólica do desrespeito pelos direitos humanos das mulheres promovido pelos muçulmanos – já se deve ignorar. De facto eu sou de opinião que os métodos muçulmanos de tratamento das mulheres têm, apesar de tudo, aceitação no Ocidente porque apelam ao machismo dos ocidentais.

4. A questão da burka não pode ser desligada de todos os restantes problemas que trazem as comunidades muçulmanas residentes na Europa (já falei deles aqui e não me vou repetir). Não estejamos com rodriguinhos: se aceitamos o símbolo do desrespeito pelos direitos das mulheres que é a burka, não venham depois tentar convencer que se incomodam com realidades como crimes ditos de honra, mutilação genital feminina ou aplicação do direito familiar do país de origem em vez do do país de acolhimento. (Na verdade não tentam convencer ninguém, o que se tem passado é que deixam as mulheres muçulmanas residentes na Europa entregues à sua sorte.)

5. Como bem se explica neste texto da Standpoint, as contemporizações com os estados de alma anti-femininos dos muçulmanos residentes nos países europeus atentam contra os direitos das mulheres – todas – nos países europeus.

Admirável facebook novo

O meu texto de hoje no Observador, sobre as últimas aleivosias do facebook.

«O meu love affair com a blogosfera persiste, a minha relação tumultuosa com o facebook iniciou-se em fins de 2012 e estou por estes dias a render-me aos encantos do twitter. O instagram e outros, de que já ouvi uns zunzuns, nem faço ideia do que são. Quando toda a gente estiver extasiada com a next big thing, eu estarei pronta para as redes de hoje. A única realidade trazida pela internet que me arrebatou logo foram as compras online. Comecei com um pólo dos All Blacks para o meu sobrinho para presente de Natal, numa época em que estas excentricidades ainda causavam ansiedade nos bancos e tinha de se ir lá dizer sim, senhora, esse pagamento do cartão de crédito é para aceitar. Depois travei conhecimento com a Amazon e o Net-a-Porter e foi o início do meu enlevo com os sites de venda online, que alguns sobressaltos ainda não exterminaram.»

Vive la France (por uma vez sem exemplo, que eu sou uma vendida a tudo o que está para norte dos white cliffs of Dover)

flutes

European Human Rights Court Sustains France’s Burqa Ban

Se alguém vier para a caixa de comentários com o argumento imbecil da limitação da liberdade das muçulmanas que querem, estão desejosas, nada mais almejam do que andarem de burka por cá, não desespere: logo que tiver tempo (que agora estou muito ocupada) venho cá chamar nomes em abundância.

Hong Kong blues

«A buoyant and rain-soaked crowd stretching more than 2 miles across Hong Kong on Tuesday marked the anniversary of the city’s handover to China by denouncing interference from Beijing and demanding democratic elections.

The public holiday marking the end of British colonial rule and the city’s return to Chinese sovereignty has become an annual day of protest in Hong Kong. This year, the 17th anniversary of the handover, the event has taken on new significance.

Demands for universal suffrage are growing while some members of the public are increasingly concerned about Beijing’s approach to the city, which was promised a high degree of autonomy after the handover. The slogan of this year’s rally was “Defending Hong Kong Authority: No fear of Beijing’s threat of comprehensive control.”»

No WSJ
Uma das coisas mais curiosas de acompanhar por estes dias na China é esta relação dos chineses de Hong Kong com os mainlanders. Não só nas questiúnculas políticas, mas também com os turistas ou estudantes da mainland China, vistos mais ou menos como os selvagens da província que vêem à cidade e não se sabem comportar. Um dos últimos incidentes que honkongers e mainlanders aproveitaram para verter fel uns sobre os outros envolveu uma criança pequena urinando numa rua movimentada de Honk Kong.

Deixem-me voltar às questões natalizantes do senhor que o PSD teve a infeliz ideia de ir buscar

Ainda a propósito das vacuidades – para não lhe chamar imbecilidades – que Joaquim Azevedo tem entendido produzir a ritmo que faz mal à saúde (a nossa), e desta entrevista que deu ao Público (em que o jornalista conseguiu apresentar ideias mais concretas do que Azevedo), apetece-me deter-me em alguns pormenores.

1. Era inevitável que o PSD – o ultra-uber-mega-neo-liberal, o ‘governo mais à direita de sempre’, que passa os dias a roubar rebuçados às criancinhas e bengalas aos velhotes – fosse buscar alguém cujo discurso assenta no único ponto de criticar as empresas, não era? (E o facto de ter feito parte da AEP também – além de nos fazer desconfiar da possibilidade de personalidade múltipla de Azevedo – diz tudo da qualidade das nossas associações patronais.)

2. Na entrevista, Azevedo diz que a ‘questão de liberalizar os despedimentos tem pouquíssimos meses’. Eu pasmo como alguém que apresenta o mercado de trabalho como a maior dificuldade ao nascimento de bebés em Portugal mostra tamanha ignorância sobre esse mercado de trabalho. Talvez o problema de Azevedo seja desconhecimento sobre o significado do verbo ‘liberalizar’, porque o que governo não fez (acho que tem objeção de consciência) foi liberalizar – os despedimentos ou outra coisa qualquer. Apenas tornou as indemnizações, e para aqueles que começaram um emprego a partir daí, mais baratas. Nem no conceito de justa causa mexeram de forma a incluir os casos de pessoas que não faltam, não são insolentes para as chefias mas também não fazem as tarefas do seu trabalho.

3. Depois do meu texto no Observador, um amigo advogado que trabalha do departamento jurídico de uma grande empresa de distribuição ligou-me por causa das 2 horas diárias para amamentação que podem gozar as mães recentes. Eu refiro estas duas horas de amamentação que as mães geralmente aproveitam até os bebés terem 1 ano, porque têm direito a elas independentemente de amamentarem ou não e, depois disso, apenas podem continuar a usufruir das 2 horas diárias apresentando atestado médico comprovando que amamentam. Ora o tempo médio de amamentação em Portugal é cerca de 3 meses, pelo que nunca tive conhecimento de caso nenhum em que uma mãe continuasse com as 2 horas para lá do ano de idade do bebé. Mas diz-me o meu amigo que no setor onde trabalha é prática comum apresentaram-se atestados médicos de amamentação durante mais um ou dois anos. Que serão na sua maioria, evidentemente, falsos. Pode-se argumentar que caixas de supermercado e repositores não têm ordenados fantásticos, nem uma profissão muito aliciante, o que não leva a grande lealdade para com a empresa. Mas duas coisas são certas. Uma: que a falta de seriedade não é excusiva de patrões. Duas: que a existência de leis que permitem esquemas destes são meios muito eficazes para manter os ordenados das mulheres o mais baixo possível (e promoções na carreira, népias), que as empresas já sabem que vão só ter 6 horas pelo preço acordado pelas 8; donde, só vão pagar o que acham justo pelas 6.

4. Tendo em conta esta notícia de ontem, mostrando que Portugal é dos países europeus com mais mães de filhos até aos 6 anos a trabalharem a tempo inteiro, mais sentido (em direção à alucinação, óbvio) ganham as afirmações de Azevedo, que dão ideia de que em Portugal qualquer mulher que engravide é despedida e, depois disso, tem uma enorme dificuldade em encontrar novo emprego. É que até nisto a criatura consegue atirar ao lado e escamotear problemas que de facto existem, como continuar a haver uma distribuição desigual em termos de tarefas domésticas e prestação de cuidados aos filhos – que não é despiciendo quando se analisa a produtividade das mulheres face aos homens, nem a progressão de carreiras de uns e outros. Mas isto Azevedo até deve achar bem, já que se cala sobre este assunto.

5. A minha amiga Sofia Rocha passa a vida a clamar contra a ausência de nomeações de mulheres por este governo. É certo que qualquer homem pensante faria diferença face a Joaquim Azevedo, mas nem neste caso, quanto mais não fosse pela questão simbólica de mostrar o quanto se valoriza o trabalho feminino, se poderia ter nomeado uma mulher para chefiar a comissão para a natalidade? Até parece aquelas conferências da Arábia Saudita sobre direitos das mulheres onde só participam homens.

arabia saudita(imagem daqui)

P.S. off topic: Estou agoniada desde que vi no facebook dos Antigos Alunos do Colégio de São João de Brito a notícia da morte do filho de Judite de Sousa. A jornalista pede que se pense agora no seu filho, mas eu só consigo pensar na mãe e em como está a passar o supremo horror de qualquer mãe.

E pagar por atos sexuais sem contracetivo?

O meu texto de hoje no Observador, sobre a magnífica comissão com que o PSD brindou o país para propor – depois disso só nos faltará o céu cair-nos em cima da cabeça – medidas para aumentar a natalidade.

«Peço já desculpa ao leitor que procurar um texto sobre prostituição ou, no mínimo, sobre a recente decisão de incluir a prostituição nas contas nacionais. Não, este texto é sobre o santo e piedoso assunto da natalidade. Ou, melhor, sobre a comissão que prepara propostas para que o estado promova o aumento da natalidade, a pedido do PSD. Pensei esperar pelos resultados da comissão. Mas decidi adiantar-me: a própria comissão é já um assunto comentável e tenho uma ou duas sugestões a fazer – que não levo a mal se aproveitarem.

De facto, Joaquim Azevedo, o presidente da comissão, tem-se pronunciado em dois sentidos. Nenhum deles, para não vos desperdiçar o suspense, tem sido o de dar exemplos concretos de propostas. Num, emite vacuidades de tal dimensão que nos questionamos como tal talento – só equiparável ao de Manuel Alegre – ainda não foi recrutado para a política nacional. Assim, tivemos pérolas do calibre ‘Portugal também precisa de renascer’.»

O resto está aqui.

Prioridades (cof, cof, cof, cof)

O Miguel já focou aqui a questão mais importante, que é a defesa da liberdade de expressão. Mas este caso do estudante de artes que foi acusado e a julgamento – tendo o ministério público, o mesmo que o acusou, pedido a absolvição – não se fica pelas questões da liberdade de expressão. O José Meireles Graça – que hoje teve a amabilidade de me interromper um dia em que estou bastante dispirited – já referiu que talvez (talvez) os recursos do nosso simpático sistema judicial – aquele que não se dá ao trabalho de investigar os roubos que sofrem os cidadãos, e que oferece um juiz bastante incomodado por ter de tratar de questões comezinhas dos quezilentos e implicativos cidadãos queixosos sempre que depara com casos de agressões várias, burlas ou até violências domésticas (que os juízes são pessoas muito importantes e nada menos que um homicídio de uma família inteira justifica que gastem o seu tempo) – tenham sido desperdiçados nesta imbecilidade.

«[L]embro-me bem de um que teve um chumbo redondo por ter apresentado um trabalho que consistia num armário cheio de frascos de compota, cada frasco com uma etiqueta identificando o que continha. Havia uma que dizia compota de pregos, outra de parafusos, outras de vários conteúdos, e mesmo uma que rezava “compota de merda”, que era efectivamente o que o frasco continha.

Chamava-se a escultura O Compotador, e ignoro por que razões a originalidade, e até a franqueza, do trabalho não mereceram aprovação. O artista achava-a uma obra de arte, tinha um significado simbólico e continha uma mensagem – precisamente o que caracteriza boa parte da escultura contemporânea, muita dela ornando as nossas rotundas municipais. Fosse hoje e bastaria talvez designar o frasco de excrementos como “compota de políticos” e logo o corpo docente, a associação de carros de praça lisbonense e Pacheco Pereira aplaudiriam a mãos ambas.»

O resto do maravilhoso texto está aqui.

E, claro, estamos muito bem entregues, tendo esta gente do simpático sistema judicial (que deixa de investigar e, se for o caso, punir aquilo que deve investigar e punir para se entregar à perseguição de estudantes espigadotes) decidido agora usurpar as funções políticas.

Deuses constitucionais

O meu texto de hoje no DE sobre o amável Conselho da Revolução e as suas brincadeiras irresponsáveis.

«O TC recusou – qual deuses do Olimpo acima dos mortais – aclarar o acórdão sobre o OE2014.

Disse: “Não cabe ao Tribunal Constitucional esclarecer outros órgãos de soberania sobre os termos em que estes devem exercer as suas competências no plano administrativo ou legislativo”. Sério? Faço uma pequena retrospetiva. Temos tribunais a decidir percursos de estradas, se os professores podem ter testes, que maternidades devem estar abertas. A PGR, em vez de investigar crimes, preocupa-se se um grupo de quadros fica ou não em Portugal. Em suma: os agentes da Justiça, que unanimemente consideramos um descalabro, decidem entreter-se, como se tivessem a casa arrumada, substituindo-se aos políticos e aos programas eleitorais dos partidos. Qual cereja em cima do bolo, o TC, aquando do acórdão que recusou aclarar, sugeriu que aumentassem impostos se queriam visto do TC. (O que já reconhece não ser da sua competência.»

O resto está aqui.

Não, não vão ser favas contadas

Como é muito cansativo estar sempre a repetir a mesma conversa, e às tantas achamos que já não vale a pena e que quem ainda não percebeu nunca vai perceber and let´s move on, hoje deixo-vos o ótimo texto do Paulo Tunhas no Observador (um tudo-nada demasiado compreensivo com Passos Coelho, mas tudo se perdoa a um texto que lá pelo meio refere P. G. Wodehouse e até cria uma parceria Wodehouse-Tunhas).

«Há, provavelmente, muito mais tolerância e compreensão por parte da população portuguesa em relação ao que faz o governo de Passos Coelho do que normalmente se pretende. E isso porque as pessoas, que não se vestem nem calçam de teorias da sociedade, percebem que a situação obriga a que vivam durante bastante tempo muito pior do que viviam. Não gostam (era o que faltava que gostassem), mas percebem. E percebem também, já agora, a imensa responsabilidade do governo de Sócrates na sua situação actual. Uma responsabilidade que não é exclusiva, mas que foi decisiva. Os resultados das eleições europeias lembram este último facto, e não é por António Costa substituir (substituirá?) o sofrível Seguro que as coisas mudarão no capítulo. Nem a coisa vai com a pretensa subtileza das “narrativas”. Esta compreensão não é teórica, é prática – ela resiste precisamente às teorias e às “narrativas” – e é ela que permite a “resiliência que a maioria das pessoas tem demonstrado”, para utilizar as palavras certíssimas de Manuel Villaverde Cabral neste jornal.

[...]

PS. Sem nada a ver com isto. António Costa declarou, no passado dia 14, não se sentir no direito de continuar no sossego da vida que tem tido se puder ser útil ao país. Confesso que nunca imaginei que ser presidente da maior câmara do país permitisse levar uma vida sossegada. Pensava que só os proverbiais taxistas salazaristas pensavam assim. Está-se sempre a aprender.»

Além da surpreendente droga que quase toda a gente no comentadorismo e jornalismo parece ter tomado e os impede de perceber as contas por acertar que o eleitorado tem com o PS e que o facto de o PS ter governado 13 dos anos entre 1995 e a bancarrota de 2011 não está obliterada da memóriados eleitores, qual mês de Fevereiro de 2011, eu pasmo ainda que não se percebam mais umas coisas que podem dificultar o caminho ao auto-proclamado herdeiro de sócrates. (Tirando imprevisível cataclismo, é provável que o PS, com qualquer líder, ganhe as próximas legislativas; que, com qualquer líder, tenha uma grande vitória é que eu duvido.) É que a imagem que sócrates cultivou de animal feroz talvez se concretize na forma boçal e agressiva que usava com quem se lhe atravessava no caminho, mas já não tem lógica atribuir-lhe qualquer capacidade eleitoral ou carisma dignos de nota. Na verdade, sócrates ganhou eleições legislativas com maioria absoluta depois da demissão de um governo com um pm que não tinha ido a eleições, acoçado por toda a comunicação social, e depois do PS ter fugido anteriormente (com Guterres) convenientemente antes da situação financeira apertar. À segunda vez que foi a votos, sócrates só conseguiu uma maioria relativa – e isto apesar de ter rebentado com as contas nacionais para comprar votos (é a por de mais conhecida novela do défice de 2009). À terceira, perdeu de forma humilhante. (Cavaco Silva, em 96, desgastado por 10 anos de governo, uma crise económica séria e uma gestão desastrosa do assunto presidencial, obteve 46% dos votos nas presidenciais.)

sócrates foi o único pm português que, de cada vez que repetiu eleições, piorou o resultado. Claro que se pode embelezar o que se quiser na ‘narrativa’ sobre sócrates mas, baseando-me nas palavras de Paulo Tunhas, também aqui a realidade é malcriada e impõe-se. Provavelmente ainda mais malcriada do que sócrates.

Presidente da comissão para a natalidade in the sky with diamonds

Esta comissão para a natalidade tem dado todos os sinais de perigo – espero enganar-me – de que vai ser uma pantominice e merecerá colheradas mais fundamentadas, porque o assunto é sério.

Mas comento já a bomba que o presidente da comissão para a natalidade entendeu servir esta semana: há empresas que obrigam mulheres a assinar declarações garantindo que não vão engravidar. Convenientemente, o dito senhor não concretizou que empresas eram essas, de que setor, nada. Deixou, portanto, a pairar esta acusação sobre todas as empresas. E, claro, os indignados profissionais (que se calhar até despediram a empregada doméstica quando engravidou; e, mesmo se não, ganhariam mais em estudarem o próprio umbigo) lá fizeram render a sua indignação.

Vale a pena esclarecer que a lei já torna difícil despedir uma mulher grávida ou que tenha sido mãe recentemente. Além das dificuldades todas dos demais despedimentos, o despedimento de uma mulher grávida ou puérpera – incluindo-se a não renovação de contratos – está sujeita a parecer dos senhores que zelam pela igualdade.

Posto isto, se a dita criatura tivesse dito que há patrões que ameaçam as mulheres de que não serão aumentadas e promovidas se engravidarem, eu estaria certa de que falava verdade. Se proclamasse que patrões ameaçam as mulheres que para eles trabalham de que não teriam contrato renovado se engravidassem, eu acreditava, apesar de saber que é bem mais fácil não renovar contrato a homem ou mulher não grávida nem recém-chegada da licença de maternidade. Agora que diga que mulheres assinam declarações comprometendo-se a não engravidar, é muito ridículo.

Claro que malucos há em todo o lado e nos patrões haverá na mesma proporção, pelo que até pode haver um caso qualquer de alguém alucinado que o tenha feito, mas que ganha uma empresa em exigir tal declaração a uma mulher? Tal declaração, a existir, é inteiramente inválida. Se a mulher que a assinou engravidar, a empresa tem de seguir exatamente os mesmos trâmites que teria se a mulher não a tivesse assinado. Mais: uma empresa que alguma vez tivesse a ousadia de pretender justificar um despedimento de uma mulher porque esta engravidou quando assinou como tal não aconteceria, teria no dia a seguir a ACT a inspeccionar tudo e mais alguma coisa e estaria condenada a pagar multas pesadíssimas porque o trabalhador x ainda não foi à consulta de medicina do trabalho desse ano, e o mapa de férias está rasurado, falta uma cadeirinha na casa de banho e outras coisas semelhantes. E é certo e sabido que qualquer juiz do tribunal do trabalho a condenaria à maior indemnização possível. De resto nem era necessário que a empresa exibisse a declaração em processo contra a colaboradora, bastava que fizesse queixa à ACT para que esta caísse em cima da empresa.

Em suma: uma empresa não ganha nada com tal declaração e tem muito a perder. Das duas uma: ou os patrões são gente maligna e maquiavélica que engendra formas de explorar todos os seus trabalhadores, ou são burros que exigem coisas que os vão prejudicar. As duas, cada uma à vez conforme é mais conveniente, não. Algum maluco poderá tê-lo feito, evidentemente, mas falar do assunto como se fosse uma prática já bastante generalizada é torpe. E eu já estou farta de pagar impostos para ter idiotas úteis requisitados pelo governo a insultar-me pela minha atividade profissional.