prevenção anti-totalitária

animal farm

Esta foi a minha introdução ao Animal Farm, a Orwell, aos totalitarismos, à corrupção do poder, à treta do igualitarismo (que acaba sempre no ‘todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros’). Vi o filme vezes sem conta em criança numa cassete de vídeo, sem perceber evidentemente todas as metáforas e analogias que continha.

(A minha segunda introdução a Orwell foi com o 1984, livro que o meu irmão mais velho leu em 1984 e que eu folheei e li páginas avulsas, entusiasmada por haver um livro com o título daquele ano. Percebendo ainda menos a mensagem de Orwell do que com o filme O Triunfo dos Porcos.)

Ainda há pouco tempo, em resposta às intermináveis perguntas das minhas crianças sobre os filmes, os brinquedos, as aulas e, enfim, TUDO da minha infância, lhes falei do filme (que é bom endoutrinar o anti-comunismo desde pequeninos) e lhes contei o que queria dizer. A criança mais nova claro que me ignorou e a mais velha fez-me saber, mais uma vez, que não gosta de conversas sobre política. Mas agora que foi relançado o filme, terão mais dificuldade em escapar ao dvd do que ao youtube.

(E eu, aparentemente, sou um bocadinho produto da CIA.)

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sócrates, o político que muitos portugueses merecem

Muito bom texto do Vítor Cunha sobre o assunto do momento. Mas não é só o PS que precisa de se livrar de sócrates. E relembro que mesmo sem esta prisão já era politicamente suicidária a ressurreição política de sócrates apadrinhada por Costa – e é mais uma prova da inépcia política de Costa, o tal que não pára de se vangloriar de ter ‘visão estratégica’. Viu-se.

Mas, como disse, não é só o PS que tem de olhar para o que andou a fazer. São os jornalistas que durante anos andaram a fingir que – não havendo acusações nem, menos ainda, condenações – era politicamente aceitável um pm com aquela licenciatura, com as casinhas beirãs com projetos assinados de cruz, com as escutas do caso Face Oculta eliminadas de forma estranha e um quilométrico etc. Foi a direção da RTP que teve o despudor de oferecer, com dinheiros dos contribuintes, tempo de antena a uma criatura que conduziu o país a um resgate financeiro internacional e a seguir foi viver para Paris com o seu estilo ostensivo de pato-bravo.

Ah, e a ida para Paris. O que se diria de um empresário que paga os salários atrasados aos seus funcionários e embolsa o dinheiro da parte da TSU descontada aos trabalhadores, desculpando-se com falta de pagamento dos clientes, dificuldades de tesouraria, escassez de encomendas, whatever, mas continua a exibir perante esses trabalhadores (a quem não paga) a sua vida dispendiosa, mesmo que financiada com recursos próprios? Eu diria que tal empresário gozava com a desgraça alheia – desgraça de que, de resto, tem culpas. Mas que se diz de sócrates? Nada, evidentemente, que dizer alguma coisa do exílio de luxo da criatura é apenas ‘inveja’, ‘ressentimento contra quem tem pais ricos’, blablabla.

A Helena Matos também tem razão. Porque a persona sócrates não foi só criada pelo próprio. Foi criada com a conivência de muitos. E mesmo sem qualquer acusação ou sentença judicial é moralmente indefensável.

Não tem implicações políticas? Gargalhada.

Os comentadores enamorados por josé sócrates, que António Costa herdou, bem se esforçam para não contaminar o PS com o caso sócrates.

Vamos lá ver: mesmo que nada se prove – que os tais 20 millhões foram acumulados por sócrates e vindos de onde ou que, existindo os 20 milhões, eram do seu amigo e nada tinham a ver com sócrates – resta sempre o facto político. A prisão? Não. Que sócrates criou (enquanto Costa fazia parte do governo) regimes especiais de transferência de capitais para Portugal (fiscalmente muito apelativos e extinguindo implicações criminais) que os seus grandes amigos correram a aproveitar. Isto na possibilidade mais benigna.

Também será interessante de saber como o António-Costa-da-esquerda-da-esquerda-do-PS justificará um imposto de 5% sobre milhões de euros (decidido pelos governos de que fez parte) quando não se compromete com redução fiscal para famílias de classe média. Tanto mais que a entrada de dinheiro do país, só por si, não interessa a ninguém e não é ‘investimento produtivo’ – pelo menos é o que têm dito a propósito dos vistos gold.

António Costa existe mesmo?

O meu texto de hoje no Observador.

‘Venho aqui confessar: não vislumbro o que pretende António Costa com a estratégia política que tem seguido e os temas em que tem martelado.

As eleições antecipadas em 2015. Mesmo depois do Presidente da República ter dito que as eleições serão na data prevista, o PS lá teve de reincidir no tema a propósito da demissão de Miguel Macedo. E antes de o PR ter dado a opinião sobre o assunto, toda a gente que costuma usar os neurónios sabia que Cavaco nunca iria antecipar as eleições. Porque considera – e muito bem – que a data das eleições não tem de andar a reboque das conveniências eleitorais do PS e porque deu em 2013 oportunidade ao PS de haver eleições antecipadas. O PS recusou e claro que Cavaco terá todo o gosto em oferecer ao PS aquilo que o próprio partido escolheu.

Era evidente que Costa perderia esta batalha da antecipação das eleições. (E se para a direção do PS não era evidente, aconselho que se demitam em bloco e se retirem para uma vida de contemplação num mosteiro nepalês.) Para que a escolheu, então? Para ter assunto, já que claramente não faz ideia – ou faz e não quer contar – de como resolverá os urgentes problemas do país, os de financiamento do estado? Mas ao político que se apresenta como conseguindo por Merkel no lugar de germânica causadora de duas guerras mundiais que deve desculpas e compensações ao mundo, será que esta imagem de bulldozer que arrasa todos no interesse de Portugal é beneficiada com o facto de nem o Presidente conseguir convencer?’

O resto aqui.

O Insurgente goes to Mais Mulher

Aqui fica o vídeo do programa Mais Mulher, na SIC Mulher, de 17 de novembro onde o André Abrantes Amaral, o Bruno Alves e eu estivemos à conversa com Ana Rita Clara. Sobre o blog e sobre o que se pode esperar do governo até às eleições legislativas. (Somo o último segmento da 1ª parte.)

o perigo amarelo-dourado, parte 3

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A propósito deste meu post, o Rui Carmo deixou no facebook o testemunho de um deputado do PS que disse no Fórum TSF de 6ª feira que os vistos gold devem estar associados a ‘investimento produtivo’. Como estou em modo caridoso, dou uma insformações básicas a criaturas socialistas que entendem tanto de Economia e investimento como eu de veterinária. Aquilo que os estrangeiros pagam a portugueses para obterem vistos gold terá um de três destinos. (O José Meireles Graça, mais ou menos ao mesmo tempo em que eu escrevia a primeira versão deste post, explica a mema coisa a propósito de outro assunto.)

1. Ou será usado em consumo – e, segundo eu me lembro de ter ouvido nos últimos anos, os socialistas ADORAM o consumo e aumentos da procura interna, pelo que deviam adorar vistos dourados que permitem os portugueses consumam mais. (Mais IVA e mais IRC pelo menos, yeah!) Falam mesmo do consumo como se fosse uma obrigação patriótica consumir. Devemos estar gratos a quem nos dá oportunidade de cumprir em pleno as nossas obrigações patrióticas.

2. Ou investido. Este capital pode ser usado para criar novos negócios – que geram emprego, riqueza, IMPOSTOS (hmmmmmmm). Last I heard haver quem invista e crie novas empresas é bom para o PIB e para o país. Pode ser usado para compra de novos imóveis, constribuindo para dinamizar o setor da construção (e mais emprego, riqueza, IMPOSOS). E por aí fora.

3. Ou pode ser colocado no banco. E aí – tendo em conta que serão 500.000€ menos impostos – certamente não ficarão numa conta à ordem. Serão aplicados em produtos financeiros (cujos rendimentos gerarão IMPOSTOS) e serão usados pelos bancos para financiar negócios vários na economia portuguesa – o que quer dizer mais investimento, mais emprego e mais IMPOSTOS! Uau.

Nós sabemos que o PS desde que faliu o país anda desorientado – é ver o último episódio patético de Costa a dizer que Cavaco teria poderes diminuídos com eleições em Outubro quando, afinal, também os teria com eleições em Junho. Como li no twitter, dinheiro de estrangeiros assim só por si a entrar no país parece que não interessa nada – exceto s for para comprar títulos de dívida, ocasião em que se torna dinheiro salvífico. Bom, ninguém espera que o PS coloque os interesses das pessoas acima do interesse do partido (que confunde com o estado). Mas, se pensar bem chega à conclusão que os vistos gold são uma medida muito simpática. Porque lhes dá aquilo que para o PS está acima de tudo: impostos para gastar em obras inúteis, do género de um novo centro de congressos em Lisboa.

o perigo amarelo-dourado – os vistos gold e o mercado e a ideologia imbecil

Ora venho aqui dar-vos o privilégio de usufruirem da minha experiência nisto do mercado imobiliário e dos chineses, já que parte das minhas tarefas presentes se ligam ao mercado imobiliário de imóveis não habitacionais e tenho, neste âmbito, clientes chineses. Sendo que – para ficar tudo bem claro – nunca vendi nada a nenhum chinês para obtenção de visto gold.

O André Abrantes Amaral escreveu aqui que os vistos gold distorcem o mercado e dificultam a recuperação do mercado imobiliário, porque os chineses além de comprarem um imóvel compram também a autorização de permanência no espaço Schengen. Mais ou menos o mesmo, com um ou outro acrescento, tenho lido no facebook e no twitter. A minha opinião é a oposta.

Segundo o Observador, foram vendidos 1681 imóveis para obtenção do visto gold. Evidentemente isto é um valor residual e de modo nenhum capaz de distorcer o mercado. Quem tem um imóvel para vender e não o vende porque quer vender mais caro a um chinês, bem, o mais provável é que não o venda de todo ou se canse de esperar e ganhe juízo. De resto, segundo o que me dizem das imobiliárias com que trabalho, o que se passa no mercado habitacional é a maior vontade dos proprietários de fazerem descontos sobre o preço inicialmente pedido para venderem mais depressa. Por outro lado, a qualidade que eu aplicaria aos chineses ricos não é a burrice, pelo que não vejo por que não hão-de os chineses que querem o visto golf comprar casas de valor de mercado acima de 500.000€ – é que há muitas à venda – em vez de comprarem casas de 200 ou 300 mil euros por 500.000€. Por alguma razão as imobiliárias de luxo apostam cada vez mais nos potenciais compradores chineses.

E não vejo como introduzir mais agentes num mercado seja distorcer o mercado. Estrangeiros ricos a comprarem casas pode aumentar o preço das casas? Bom, as exportações por empresas portuguesas têm exatamente o mesmo efeito sobre os preços por cá: uma empresa com capacidade exportadora só vende cá se lhe pagarem o que consegue cobrar nos mercados com maior poder de compra para onde exporta. (As importações têm o efeito inverso.) Vamos proibir as exportações?

E não esqueçamos que este pagamento pelas casas – a preço de mercado ou mais caro – é feito a portgueses e seria dinheiro que, de outra forma, não entraria no país. (Está quase pronto outro post sobre isto, porque o Rui Carmo deu-me no fb umas informações sobre umas tiradas de um deputado solialista reveladoras, como sempre, de uma assombrosa literacia económica.)

A conversa da distorção do mercado que os chineses trazem é a repetição daquela de há uns 10 anos, quando os chineses começaram a arrendar lojas – porque nós somos tacanhos e não conseguimos lidar com a mudança sem puxar todos os cabelinhos da nossa cabeça. Que pagavam rendas muito mais caras do que os lojistas portugueses (esquecendo a ridicularia das rendas pagas por muitos logistas com contratos anteriores a 1990 e que as rendas mais altas, a existirem, também eram recebidas por portugueses). Que as rendas eram pagas pela embaixada da China. Que isto e que aquilo. Dez anos depois o mercado de arrendamento continua a funcionar, os solavancos que teve deveram-se à crise pós 2008 e não aos arrendamentos a chineses, não há escassez de lojas para empresas portuguesas devido aos arrendamentos a empresas de estrangeiros. Enfim, o mundo não acabou.

Outro argumento contra os vistos gold é a suposta infâmia de darmos a possibilidade de residência a quem possa simplesmente pagar esse privilégio. Como se as autorizações de residência não tivessem sempre uma contrapartida: ou trabalho no país (muitas vezes é necessária a existência prévia de um contrato de trabalho), ou contribuições regulares para a segurança social, ou… Pode até dar-se autorização de residência a um estrangeiro que tenha educação superior e não a outro que não a tenha – basta o país querer atrair quadros qualificados que lhe fazem falta. O que aqui se trata é de estabelecer que ‘ter dinheiro’ (igual a ter capital) é moralmente inferior a ter ‘capacidade de trabalho’. É um julgamento moral e ideológico, feito por aqueles seres etéreos que se supõem tão puros que desdenham quem obtenha algo (e uma autorização de residência noutro país não afeta o centro da esfera da dignidade de cada indivíduo desse país) simplesmente porque pode pagá-lo, que pretendem viver num mundo acima das imposições do vil metal. Como se ter dinheiro fosse algo torpe que merecesse punição social (em vez de algo que pode ser usado para promoção do bem comum, concretamente através da criação de riqueza). Tenho tanta paciência para esta gente etérea como para aqueles de que falava Oscar Wilde quando dizia que um cínico sabe o preço de tudo e o valor de nada. E não tenho paciência para os etéreos porque não gosto de hipócritas.

nós gostávamos de um poucochinho de escrutínio, se não for demasiado incómodo

Mais cedo ou mais tarde vai ter de se levar a sério a ameaça que é a pertença não assumida a esta teia de interesses e lealdades que é a maçonaria por parte de eleitos ou de nomeados políticos para organismos estatais. E, já agora, também de juízes e magistrados. Também não deixa de ser curioso como a maioria da comunicação social convive bem com esta opacidade e a investigue tão pouco.

Diretor do SIS sai este mês, Passos procura substituto – não maçon

Maçons nas secretas: registo de interesses público abre guerra no PSD

o perigo amarelo-dourado

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Nós, como se sabe, somos pobres mas esquisitos. Além de levarmos a mal que os turistas venham cá gastar o seu dinheiro, dando cabo da calma lisboeta (e, em alguns locais de Lisboa, invertendo caminhos de decadência económica e imobilizada – e nós sabemos o quanto gostamos da decadência para nos comiserarmos dela) agora também querem investir por cá. Não há meio de nos deixarem sossegados. Algumas pessoas são obrigadas a vender as suas casas a chineses mais caras do que venderiam a portugueses, outras pessoas são obrigadas a trabalhar para empresas de estrangeiros que cá residem devido ao visto gold – e por aí fora de atrocidades horríveis a que vimos sendo obrigados.

Antes que comece a paranóia provinciana portuguesa do costume contra os vistos gold, é bom lembrar que medidas semelhantes existem em vários países por esse mundo fora. São formas eficazes de atrair investidores estrangeiros. E – além disso – são muito usados por portugueses que investem noutros países, concretamente aqueles da lusofonia cujos laços e entendimentos económicos e negócios lá costumam encher a boca dos nossos políticos e também de alguns comentadores. Portanto ao atacar os vistos gold é bom que se tenha noção de que se ataca um meio que muitos portugueses usam para ganhar dinheiro noutros países.

Quanto à corrupção (e às consequências políticas que aparentemente Passos Coelho mais uma vez não deixou que um seu ministro tirasse), investigue-se, julgue-se, puna-se. E sempre deu para a nossa investigação judicial mostrar que, afinal, existe.

The kindness of

não necessariamente de estranhos. Uma das cenas do cinema que melhor retrata a generoridade foi por mim avistada em Platform, de Jia Zhangke. Numa das cidades por onde a trupe de artistas que o filme segue passa, um deles encontra um primo cuja irmã, estudante, vive em casa dos seus pais. O primo não estudou, ocupa-se de tarefas meniais mal pagas e desprestigiadas e tem como única opção para o seu risonho futuro trabalhar numa mina. Local onde – e este é um momento delicioso de tão acre (e num país comunista) – antes de assinar o contrato lhe explicam que nele consta que os acidentes não são responsabilidade da empresa (pública) que lhe dá trabalho, mas sim do acaso, que aceita que a responsabilidade pela sua segurança é dele e não da empresa (pública) e por aí fora. Resumindo: que era uma criatura descartável cuja única valia era retirar o minério que fizesse a empresa ter as suas receitas. A irmã, pelo contrário, havia estudado, iria licenciar-se e escaparia à pobreza degradante do irmão. Outro momento delicioso do filme – agora mais temperado de acre e de doce – ocorre quando, antes da trupe sair cidade e de assinar o contrato com a mina, dá ao primo cinco yuan (fortuna que na verdade não pode dispensar) para entregar à irmã. O primo, regressado a casa, acrescenta 5 yuan seus e dá à prima 10 yuan dizendo-lhe que vêm do irmão.

O primo – e quase todos os outros membros da trupe – não estão na situação impossível do futuro mineiro mas têm perspetivas muito difusas para si próprios. A expressão da individualidade (com o uso de umas calças à boca de sino, por exemplo) é mal vista na pouco individualista China que, por acréscimo, está (no filme) a sair da paranóia igualitária da Revolução Cultural; ainda não se entendeu bem como funciona isso do capitalismo; notam-se os primeiros vislumbres de que os capitalistas iriam rivalizar em importância e poder com os funcionários do partido comunista. Esta crítica do filme que encontrei dá bem o tom do filme e das vidas do grupo de jovens artistas. Que estão num limbo entre o socialismo e o capitalismo, a pobreza e o desenvolvimento económico, o igualitarismo radical e o individualismo. E se perguntam ‘what happens now?‘.

Beleza, segredo da felicidade. Ou não.

O meu texto de hoje no Observador.

‘Há quem retire imenso prazer de uma vida austera e com poucas necessidades a desorganizar a rotina. Quem arquive os extratos bancários das suas contas bem recheadas com o mesmo enlevo que outros guardam as jóias herdadas da avó. Quem goste de adquirir objetos para ostentar prosperidade e quem prefira bens preciosos e únicos que apenas uns poucos (os eleitos) reconhecerão. Não estou nada segura que haja apenas uma maneira de usar o dinheiro em prol da felicidade de cada um.

E as experiências que são mais prazenteiras do que os bens materiais? Habituamo-nos, dizem, aos objetos que possuímos e deixamos de lhes dar valor. Como os James cantam ‘if I hadn´t seen such riches, I could live with being poor’. Ora eu duvido.’

Tudo aqui.

Repor A VERDADE

Têm-se propagado muitas falsidades a propósito do já famoso (e os maldosos dizem também infame) comunicado do PCP sobre a ‘chamada’ queda do muro de Berlim e eu venho aqui assistir o PCP na reposição dA VERDADE. Começo por reconhecer que numa leitura simplista, apressada e enviesada desta peça verdadeiramente extraordinária que é o comunicado do PCP, se conclui que os old beans comunistas são piadistas ainda mais talentosos que o P. G. Wodehouse. Mas o comunicado evidencia algumas incongruências que manda a seriedade iluminar. Deixo duas.

Primeira. Diz-se que o muro caíu, mas na verdade o muro não caíu coisíssima nenhuma. Isto é nada mais do que uma forma aleivosa de lançar dúvidas sobre a perícia técnica do bloco soviético na construção de edifícios e outro imobilizado de relevante interesse público. Como se vê pela foto, se há crítica que nem os mais preconceituosos poderiam fazer à arquitetura estalinista era a de não ser sólida e perene (ao invés, criticavam a estética, esse conceito burguês). (Ao contrário, de resto, daquela barraquinha americana do Checkpoint Charlie, com ar de ir arrastada de cada vez que uma rajada de vento mais forte se fizesse sentir ou que nevasse à boa maneira alemã.) Estabeleça-se, portanto, que o muro não caíu. O muro, de facto, foi deitado abaixo. Poderão argumentar que aquilo que se aprecia se mantém e só se manda abaixo o que não queremos. Mas essa visão resulta apenas de estarem inebriados pelas teorias psicológicas capitalistas que são – tal como foi a destruição do muro e das conquistas todas que o povo da RDA alcançara (e atente-se que este povo em 1989 vivia consideravelmente melhor do que em 1289) – uma conspiração imperialista para destruir o comunismo e a felicidade universal que este, como era sabido, trazia.

Stalin_Architecture

Segunda. Há muito folclore associado às pessoas que queriam fugir da RDA e alguns até que foram mortos tentando passar o muro. Até se diz que o muro foi construído para evitar que as pessoas fugissem da felicidade comunista para as agruras da vida capitalista na Berlim ocidental. Nada mais falso. Aqueles que se aventuraram na perigosa passagem para o lado ocidental fizeram-no pelo mais puro amor ao comunismo. Tão indignados estavam com as mentiras que a propaganda capitalista difundia sobre as indigentes condições de vida na RDA comparativamente à RFA que nada (tirando as balas dos guardas do muro) os demoveu de viajarem até ao lado ocidental para repor a verdade sobre as verdadeiras conquistas e a felicidade universal do povo alemão na RDA. Ambicionavam somente contar ao mundo capitalista as maravilhas do comunismo aplicado. E deram a vida por esse nobre objetivo. Cada pessoa de cada cruz deste monumento berlinense é um admirável mártir comunista.

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Piropo: problema de gente sem problemas

O meu texto desta semana no Observador:

‘Além da morte e dos impostos há mais uma coisa certa na nossa vida: podemos contar com a esquerda para nos entreter de tempos a tempos com a sua alienação dos problemas dos portugueses, inventando supostos dramas que os ingratos cidadãos teimam em não sofrer.

Como a inquietação sobre o sexo dos anjos já é banal, o PS nas últimas semanas tem procurado responder às mais viscerais preocupações do indivíduo lusitano. Deixo uma: corrigir a enorme injustiça de Sócrates, depois de ter assinado o memorando com a troika para o qual trabalhou afincadamente seis anos, não ter sido condecorado pelo Presidente da República. Eu estou com o PS. Tenho notado em todos os meus amigos e conhecidos um incansável desgosto por esta injustiça. Eu, arredada dos problemas dos meus concidadãos, pensava até agora que era fúria pela carga fiscal que o despesismo alucinado de Sócrates e a falência que inevitavelmente se lhe seguiu nos impuseram. Ou angústia pela incerteza do futuro dos empregos ou desilusão por não mais se conseguir dar aos filhos o que antes era possível. Mas não: afinal é tudo solidariedade com a não condecoração de Sócrates.

E o Bloco de Esquerda, essa bênção dos céus para nos alegrar na chegada do outono, lá voltou à carga com a criminalização do piropo de rua, que considera ser uma forma de assédio sexual.’

O resto está aqui.

Samsara governativa

samsara

Samsara é, no budismo, o ciclo de nascimento e mortes sucessivas que é apenas interrompido pelo moksha, a libertação ocorrida quando se alcança a plenitude espiritual – ou, no budismo mahayana, pela transferência de mérito de um bodhisattva simpático. Mas até lá resta aos pobres mortais (de todas as espécies) penarem na vida atual os castigos ou gozarem as recompensas merecidas pelas aleivosias ou virtudes das vidas anteriores. E na presente vida já se sabe que se trabalha – mesmo que em forma de, sei lá, alforreca – para os tais castigos e recompensas que abundaram na vida seguinte.

Nos próximos meses até às eleições legislativas de outubro de 2015 – e ninguém com juízo supõe que o PR vá antecipar a data das eleições só porque o PS faz birra e quer muito porque lhe é conveniente eleitoralmente – o governo não vai fazer mais do que tentar escapar à sorte (ou à justiça) do samsara. Que remeteria PSD e CDS para a opisição com grupos parlamentares diminutos.Tendo como único mérito ter evitado catástrofe maior do que aquela com que nos confrontamos nos primeiros meses de 2011, iludido o segundo resgate que tantos deram como certo tantas vezes, os partidos do governo vão agora tentar convencer os eleitores de que afinal na próxima legislatura é que será o tempo de implementarem o programa eleitoral que apresentaram em 2011 e não cumpriram. Isto ao mesmo tempo que adotam um eleitoralismo – reviravoltas com a diminuição da sobretaxa do IRS, medidas pró-natalidade,… – ao mesmo tempo que Passos Coelho tenta preservar ao máximo a sua imagem de anti-eleitoralista. Sabe-se lá por que razão, está convencido que os portugueses apreciam doses de tough love dos seus governantes.

Não tendo avançado com a prometida reforma do estado nos primeiros meses da legislatura – reorganização dos serviços, extinção de institutos e observatórios exóticos, encolher entidades reguladoras obesas e despesistas que prestam serviços medíocres aos mercados e aos consumidores, concentração dos recursos públicos nas funções que o governo considerasse primordiais retirando-se das restantes, etc. – não o farão certamente no último ano de legislatura. Esta reforma não é tarefa para um governo acossado – e muito justamente – por todos.

A maior dificuldade? Convencerem os eleitores de que farão uma reforma penosa e contra todos os interesses instalados numa legislatura mais amena do que a presente quando escolheram não a fazer na situação de garrote que foi o resgate da troika.

Não se pode fazer um programa europeu de troca de socialistas?

O Rui Carmo ontem já postou sobre o assunto, eu ontem também já disse umas coisas no facebook, mas apetece-me vir aqui também frisar o azar que temos com os socialistas que nos calharam. Houve umas criaturas tontas que saíram de Portugal para se juntar aos malucos que andam lá pelo Crescente Fértil, e desconfio que não o terão feito pela curiosidade com as paisagens do berço da civilização e por aí. Enquanto na Síria e no Iraque, terão feito o que os outros jihadistas fazem (ou já teriam provado em si próprios os mimos dos jihadistas mais convictos): matam gente, torturam, violam e escravizam mulheres não muçulmanas, aterrorizam as populações, degolam jornalistas e inocentes que foram para aquelas bandas para ajudar as pessoas.

Perante jihadistas que querem regressar, na Grã-Bretanha discute-se se se deve usar legislação da Idade Média para os julgar como traidores. Por toda a Europa se discute o que fazer com estes malucos que regressam e como lidar com o perigo que representam face à possibilidade de implementarem aqui as boas ideias terroristas que aprenderam no Levante.

Por toda a Europa? Não, há um pequeno recanto que resiste ainda e sempre ao bom senso e à sanidade. Situa-se no Largo do Rato, em Lisboa, na sede do Partido Socialista, onde aparentemente a preocupação não é com a população portuguesa que pode apanhar com as maluquices desta gente regressada, não é punir pessoas que se associaram a um bando criminoso inimigo da República Portuguesa. Não, no PS preocupam-se com a segurança das pessoas que prezam tanto a sua segurança que não se importam de matar e morrer em nome de Allah. As prioridades do PS, como de costume, estão em plena sintonia com os interesses dos portugueses.

Turistas em Lisboa: somos pobres mas esquisitos

‘O turista insistente devia perceber que está muito bem visitar países que participaram na conferência de Bandung (a de 1955) e que precisam de se sujeitar a estas tormentas. Ou cidades como Paris e Roma, cuja reconhecida penúria as faz aceitar milhões de turistas anuais. Porque ter tantos turistas é um atentado à dignidade lusitana. Gente nova e diferente na cidade? Pfff. E o turismo como setor estratégico? Queremos ser um país de camareiros e empregados de mesa? Era o que faltava, que nós estamos todos destinados a trabalhar em empresas de tecnologia de ponta (que as qualificações da maioria da população não se adequem, é um pormenor; não sejamos picuinhas).’

Aqui.

Deve a Igreja preferir a facilidade do julgamento ou a enorme dificuldade do Amor e da Misericórdia?

A Daniela respondeu ao meu artigo no Observador e apesar de já ter prometido abster-me de temas beatos por muito tempo, é um post com partes tão erróneas no que refere sobre Igreja e fé que deixo aqui algumas notas.

1. As bitolas da fé católica são o Amor e a Misericórdia de Deus. As virtudes teologais são a Fé, a Esperança e a Caridade (i.e., Amor). Qualquer pessoa que leia o Novo Testamento entende o feroz combate que Jesus e, depois, os Apóstolos fazem ao justicialismo e a visões justiceiras de Deus. Além das parábolas que referi (e mais há), temos o ‘não julgueis para não serdes julgados’, temos a teologia da cruz de Paulo, temos o ‘se Deus está por nós, quem está contra nós?’ paulino, temos o Espírito Santo paráclito (i.e., temos o ES – Deus – como nosso advogado de defesa), e um quilométrico etc. Querer elevar a justiça a um papel que não tem – e propositadamente não tem – pode ser muita coisa, mas não é catolicismo. O tema da justiça, que aparece ao nível da praxis e não de virtude de fé, está sempre relacionado com a justiça de reconhecer a cada pessoa um reduto de dignidade e tratá-la dessa forma, não de recompensa dos justos e punição dos incumpridores. A justiça vista da forma terrena é tão ausente do catolicismo que a Igreja – como se viu no caso dos padres pedófilos ou do assassino ‘inconseguido’ de João Paulo II (para dar um exemplo criminoso e outro misericordioso) – tem mesmo dificuldade em ver-lhe utilidade e usá-la.

2. A Igreja não tem de ficar de porta aberta à espera de que quem concorde queira entrar. É certo que há muito setores que querem ser um grupo pequenino de puros, com regras de entrada estreitas, mas também não é isso o catolicismo. Inerente ao catolicismo está – e, mais uma vez, vem no chato que é o Novo testamento – a missionação e a evangelização. Foi isso que transformou a Igreja no que é hoje. E usaram-se argumentos tão avassaladores e intelectualmente refinados como o da imagem que deixo abaixo, do Qorikancha, um mosteiro dominicano construído literalmente em cima de um local de culto inca, em Cuzco. Ou seja, através de esquemas como por os locais de culto cristãos onde estavam os anteriores pagãos conseguiu-se converter os nativos de um continente. Imaginam-se portanto os critérios exigentes para com os fieis que vinham associados a esta fineza teológica. A ideia: preferia-se ter as pessoas dentro da Igreja, mesmo que devido ao hábito de ir prestar culto à divindade no local do costume, do que exigir-lhes concordâncias absolutas com isto e com aquilo antes de as deixar entrar. Conclusão: estar dentro de uma Igreja com um porta aberta onde ninguém entra – não vamos olhar para o lado da crise de vocações ou dos números de católicos nas missas e nas outras atividades da Igreja a diminuirem, ou vamos? e também vamos fingir que a inveja e a bufaria dentro da Igreja católica não eram incentivadas em setores tradicionalistas perante o sucesso dos progressistas? – pode ser muita coisa mas, mais uma vez, não é catolicismo.

Qorikancha3. Quanto à parábola do aluno da Daniela, é rápido. De facto o difícil nesta maluquice do cristianismo inventado por Jesus é que foge completamente aos critérios humanos. Todos passariam, mesmo, desde logo porque não falamos de recompensas profanas. É uma religião que até tem um ‘bom ladrão’. A parábola da Daniela é precisamente o oposto da parábola dos trabalhadores da vinha. Eu, que tenho como fé o cristianismo, prefiro a versão de Jesus à da Daniela.

4. É sempre muito prático ignorar a História da Igreja e assumir que esta é a primeira vez que a Igreja tem convulsões que levam a que trema e se transforme. Voltando à Bíblia, está lá bem explicada a guerra entre a fação conservadora (Pedro e Tiago) que queria manter o respeito à lei mosaica e a de Paulo, que via como desnecessários os preceitos judaicos. O que se adotou foi esse grande abandalhamento da Igreja (como agora se diria) proposto por Paulo. Mesmo a comunhão tem vindo a ser cada vez mais democratizada, depois de séculos em que foi algo reservado para os dias de festa e para as pessoas mais importantes. A comunhão como algo corrente e que até pode ser diário, a comunhão de crianças,… é tudo recente na Igreja. E não deixou de ser considerado mais um abandalhamento da Igreja pelos conservadores de cada altura.

5. Concordo com a Daniela: a Igreja não pode comprometer as suas verdades fundamentais para agradar ao mundo. Sucede que para mim as verdades fundamentais são a vida, a morte e ressurreição de Jesus (por sinal a tradição oral mais antiga de todas do cristianismo) e o amor e a misericórdia de Deus. Segundo o post da Daniela, a verdade fundamental presume-se serem o catecismo e a lista dos que podem comungar.

6. A Igreja é e deve ser diversa. Continuar a ler

Convencionalismos socialistas de fim de semana

Ontem dei com esta entrevista de Maria Antónia Palla ao i (que ter uma mãe interessante também tem cachet eleitoral). Lá se fala da família de MAP, que, apesar de não católica e republicana, era tão puritana, tradicionalista e controladora dos seus membros femininos como as mais estritas famílias católicas. Não é a primeira vez que me deparo com esta característica – a esquerda progressista e defensora de todo o tipo de igualdade menos aquela que lhes transtorne a vida famíliar e os ponha a ir ao supermercado e a mudar fraldas e dar banho à filharada. (Atualmente a rapaziada esquerdista já é mais partipativa, mas tanto quanto a rapaziada de direita e são mais influenciados pelos ambientes urbanos, educados e cosmopolitas do que pela ideologia.) E esta é uma experiência quase universal das mulheres de esquerda of a certain age. Zita Seabra conta isso mesmo na sua experiência de clandestinidade em Foi Assim, Doris Lessing relata-a de forma mais ou menos autobiográfica através de Martha Quest e as entrevistadas por Cecília Barreira em Confidências de Mulheres, Anos 50-60 lá o confirmam. (Em referência ao Nobel de Lessing, tenho de confessar que os Nobel de Alice Munro e Mo Yan dos últimos anos me reconciliaram um tudo nada com estes prémios.) E basta olhar para as ministras dos governos PS – sempre restritas às áreas tradicionalmente femininas: Saúde, Educação, Segurança Social, Ambiente para a mulher prestadora de cuidados da família, a educadora dos filhos, a dona de casa gestora e poupadora de recursos; Cultura para a tradicional anfitriã que junta nos seus salões a elite social e a elite cultural; e exoterismos como ministra da Igualdade para Maria de Belém continuar a ser ministra – para perceber que esta visão machista é intrínseca ao PS. Na tomada de posse do último governo de Sócrates foi ridículo ver como os quatro últimos lugares da hierarquia do governo eram ocupados por mulheres. (O PSD – que também tem abundantes falhas neste ponto, como a minha amiga Sofia Vala Rocha bem costuma apontar – e o CDS – idem -, apesar de tudo já tiveram por duas vezes ministras das finanças e uma ministra da Justiça.)

E já que estamos a falar de convencionalismos, e porque os ambientes que criamos para viver dizem muito sobre nós próprios, a sala de Maria Antónia Palla não podia ser mais convencional. Bonita, e com as paredes num leve tom de verde, que eu aprovo wholeheartedly (sou uma pessoa incapaz de viver em casas de paredes brancas e os meus quartos são sempre pintados de verde claro), e com as portas e rodapés brancos (outro requisito) e adoro soalhos antigos (e casas velhas, também). Mas oh quão tradicional.

Sixties revisited

E agora para desenjoar das minhas beatices todas dos últimos tempos, aqui vai uma história de prostitutas. (Se bem que o tema prostitutas também seja muito bíblico.) E é por histórias destas de costumes que a Vanity Fair continua a ser uma revista imperdível.

‘In Madam, a memoir she published in France in 1994, Fernande Grudet portrayed herself as an aristocrat, born in the château country of the Loire Valley, where her father was a local solon. She had been educated at a Visitandines convent, taking vows of austerity. She had also been a war heroine, a Resistance fighter who paid for that resistance with an internment at a concentration camp.

Lies, all lies, according to a 2010 French television documentary about Claude. Trying to see the entirety of this program is like trying to crack the Da Vinci Code. The production company that had made it is defunct, and I could not find it in any film archive. It was available, in snippets, on the Internet. It alleged to show proof that père Grudet actually ran a snack cart at the Angers train station, that little Fernande had never been at the convent. As for her time in the concentration camp, ostensibly Ravensbrück, the program explored a story that Claude is said to have told about how she saved the life of Charles de Gaulle’s niece while there (or vice versa) and submitted to an affair with a German doctor in order to survive. A historian in the documentary said that Claude probably made all of this up, and the idea that the madam was ever interned was dismissed as another example of Claude’s talent for self-mythologizing.

But, according to Patrick Terrail, the proprietor of Ma Maison, “she had a camp number tattooed on her wrist. I saw it.”

Taki concurred. “I saw the tattoo,” he said. “She showed it to me and Rubi. She was proud she had survived. We talked about the camp for hours. It was even more fascinating than the girls.” But which camp was it? The myth may have been Ravensbrück, but only Auschwitz used tattoos. Hence the Rashomon quality of Claude’s life. Taki then told me that Claude had been imprisoned not for her role in the French Resistance but for her faith. “She was Jewish,” he said. “I’m certain of that. She was horrified at the Jewish collaborators at the camp who herded their fellow Jews into the gas chambers. That was the greatest betrayal in her life.”’

O Papa Francisco e os irmãos mais velhos do filho pródigo

O meu texto de hoje no Observador.

‘Comecemos já por lamentar que Jesus – esse lamechas, coração de manteiga, incapaz de compreender o bem supremo de cumprir a estrita lei mosaica, ‘glutão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores’ (Mt 11,19) e que muito claramente não sabia o que era bom para si próprio – não tenha tido os bons conselhos dos atuais católicos tradicionalistas, os que impediram que se chegasse a uma maioria de dois terços (apesar de perto) para que a Igreja, finalmente, reconhecesse a sua obrigação (sim, obrigação) de acolher os católicos recasados e os homossexuais.

Se Jesus tivesse tido os bons préstimos dos atuais católicos conservadores, os Evangelhos estariam limpos daquelas histórias mal avisadas que Jesus congeminou. Vejam por exemplo o disparate da parábola dos trabalhadores da vinha. Onde já se viu o dono da vinha (i.e., Deus) recompensar da mesma forma os conscienciosos e esforçados que trabalharam todo o dia e os mandriões que só trabalharam uma hora? Onde já se viu um Deus que dispensa o mesmo amor e a mesma misericórdia aos que cumprem escrupulosamente e aos que apenas aparecem para dar um ar de sua graça? E mais uma: o que é isso do Deus-dono-da-vinha sair ele próprio para angariar trabalhadores? Um Deus que vai à procura incansavelmente dos que acedem vir para a sua vinha trabalhar em vez de ficar confortavelmente sentado esperando que lhe venham implorar por trabalho, fazendo entrevistas difíceis (Em que vinhas já trabalhou e por quanto tempo? Quantos cestos de uva apanha por hora? E etc.) e regateando o salário? Que ideia mais desaparafusada.

E o que dizer então da parábola do filho pródigo? Há um livro muito curioso que o padre Henri Nouwen escreveu a partir de meditações sobre o quadro O Regresso do Filho Pródigo de Rembrandt (o livro tem o mesmo nome). Evidentemente a parábola não é sobre o filho, é sobre o Pai que acorre a acolhê-lo mal o vislumbra ao longe, festeja o seu regresso e nem quer ouvir desculpas ou promessas e nem lhe exige garantias de bom comportamento futuro; basta-lhe saber que o filho quer estar com ele. (Tal qual a Igreja atualmente com quem tem família não reconhecida num casamento católico ou é homossexual, não é?)’

O resto está aqui.

E agora um texto sobre cristãos irritantes

E já que estou grounded com a criança mais nova com febre, aproveito e aconselho a leitura de mais este post do João Miguel Tavares em resposta aos oh-tão-habitais ‘não sei como se diz cristão se não concorda com o que se escreve numa encíclica’ (no caso a Humanae Vitae).

É certo que nos últimos anos o grupo dos cristãos que gosta de pertencer a um grupinho exclusivo e de difícil entrada anda – com o incentivo de alguma hierarquia da Igreja, desde logo João Paulo II (sobretudo) e Bento XVI (que apesar de tudo revelava algum gosto pelo debate e vontade de ser conciliador) – tem espalhado a ideia de que um católico tem de concordar com tudo o que a Igreja e os papas produzem, como se algo que a parte humana da Igreja produzisse pudesse ter um valor sequer comparável com a Bíblia e as verdades fundamentais constantes do Credo e dos dogmas. E é conveniente ir espalhando a ideia contrária – e certa. O catecismo é algo mutável, pelo que não é matéria de Fé. E as encíclicas do Papa ou determinações doutrinárias do Igreja são algumas vezes benéficas, outras irrelevantes e outras aberrações. Como, de resto, é normal nas empresas humanas. Nem umas nem outras são matéria de Fé.

Além da questão da contraceção, outro disparate aberrante que a Igreja produziu e no qual ainda persiste é essa forma light de socialismo que é a Doutrina Social da Igreja. Graças a Deus, nada disto é matéria de Fé.

Então um texto sobre sexo – pronto, ok, sobre contraceção

A propósito de dois posts no Pais de Quatro do João Miguel Tavares e da Teresa Mendonça sobre a visão da Igreja sobre contracetivos, apetece-me oferecer os meus dois cêntimos.

E aconselho a leitura das críticas do João Miguel à Humanae Vitae, porque se dá ao trabalho de escrever longamente e cheio de razão sobre o assunto. Eu, sobre a mania da Igreja de dar palpites sobre a sexualidade dos casais, sou mais rápida do que o João Miguel: os padres que ganhem juízo, preocupem-se com os pobres e esfomeados e vítimas de violência no mundo (e já têm muito trabalho com esses), se lhes apetecer ocuparem-se da sexualidade, bem, têm muitos padres abusadores de que tratar antes de ocuparem espaço mental com a vida íntima dos casais. A Igreja devia dar-se por satisfeita com os casais que escolhem casar pela Igreja e permanecer casados, em vez de lhes levantar problemas – porque os padres e irmãos e freiras não sabem (até porque costumam rodear-se de leigos desejosos de lhes mostrar como são bons e puros e capazes de seguir todos os ensinamentos da Igreja, mesmo – ou sobretudo – os mais absurdos) mas os casais com filhos vivem cansados, têm filhos e problemas profissionais e com a filharada, só um louco no cimo disso ainda vai dizer quando é que deve haver abstinência ou atividade sexual.

E, quanto aos tais métodos naturais que a Igreja aconselha (até parece que não tem mais nada com que se ocupar), se forem seguidos como a Igreja pretende, ainda têm um pormenor que me irrita de sobremaneira e que é fruto do intrínseco machismo da Igreja (seria de supor que quem tanto clama contra as ideologias de género e afirma as diferenças entre homens e mulheres entendesse que homens a decidir não conseguiriam responder de forma eficiente às questões das mulheres, desde logo porque nem as conhecem ou percebem, mas não). Segundo a Igreja, as mulheres devem abster-se de ter sexo durante o período de ovulação, precisamente quando estão hormonalmente mais propensas à atividade e ao prazer sexuais. Uns queridos, estes padres. (E para os maluquinhos católicos que lerem isto, saibam que dei conta desta minha objeção ao meu padre preferido quando fiz CPM – por acaso outro casal que lá estava eram a Teresa e o João Miguel – e que não só não fui expulsa e excomungada como o referido senhor presidiu ao meu casamento e me teve a participar nas missas durante anos).

Mas, curiosamente, a Teresa também tem muita razão, sobretudo no que toca à pílula e à sua defesa dos métodos naturais. A pílula (ou outros métodos contracetivos hormonais que não tenham a desvantagem de se poder esquecer de tomar o comprimido diário) apesar da imensas e reconhecidas vantagens, não é nenhuma panaceia e tem inúmeros efeitos adversos: dores de cabeça (das verdadeiras), mudanças de humor, aumento de peso, celulite a explodir, varizes, tensão arterial descontrolada. E não é nada uneard of que a pílula diminua o apetite sexual das mulheres.

E por tudo isto vem a discussão dos métodos naturais (a Teresa explica, não se trata das temperaturas) e esta discussão não tem de ter nada a ver com religião. Como não podia deixar de ser, as americanas discutem o assunto em abundância e, nos casos de loucura extrema, estão em pé de guerra as fações pró-pílula e pró-métodos naturais. Com acusações de conspiração da indústria farmacêutica para ganhar dinheiro convencendo as mulheres a usarem a pílula de um lado e, do outro, denúncias de que querem aprisionar as mulheres na moral sexual castigadora das religiões. Duvido muito, apesar das garantias que os médicos dão, que os métodos naturais sejam praticáveis em quem tenha, só um exemplo mas há muitos, ciclos menstruais irregulares. Mas em certas circunstâncias e para certas mulheres, aproveitar o ciclo hormonal (e não vejo nenhuma razão por que não hão-de usar preservativo na altura da ovulação, quando a Igreja recomenda abstinência, por exemplo) será talvez a opção mais divertida em termos sexuais – continuando segura. E como diz a Teresa, devia ser ensinado em Educação Sexual, porque permite que uma mulher conheça detalhadamente o funcionamento do seu corpo (o que é sempre bom) e, até, ajuda quem quer engravidar.

O bottom line é: todos os métodos contracetivos têm vantagens e inconvenientes e cada mulher e cada casal devem decidir o que melhor lhes serve. E é um disparate tão grande a Igreja gastar tempo com pílulas e preservativos como rejeitar-se o método de Billings só porque a Igreja o aconselha. E nos dias em que a Igreja parece ter acordado para alguns problemas na sua relação com muitos católicos, esta questão dos métodos contracetivos que a Igreja aprova deve também ser debatida. Desde logo se a Igreja tem de aprovar ou desaprovar alguma coisa.

Ateliers abertos em Lisboa

ateliers

Acabei de saber desta iniciativa dos Ateliers Abertos em Lisboa (hoje e no fim de semana) pela professora de pintura da criança mais velha e acho a ideia fabulosa. Não só porque passar um tarde de fim de semana a visitar ateliers é um ótimo programa como isto foi magicado por uma associação que se chama Castelo D’If e qualquer pessoa que tenha lido tantas vezes como eu o Conde de Monte Cristo aí entre os doze e os treze anos não pode se não ficar derretida. (aqui a brochura com datas, horas, ateliers e mapas)

A democracia está ao serviço do PS, não sabia?

O meu texto de ontem no Observador.

‘O cidadão ingénuo poderá pensar que a democracia representativa tem como fim a promoção do bem comum. E que os partidos políticos existem para dar voz às diferentes visões do mundo dos indivíduos; para que, pelo confronto ou pelo compromisso, as opiniões do maior número de pessoas sobre o que é uma sociedade justa fiquem contidas nas leis. Pois bem, se vive com esta ilusão, caro cidadão ingénuo, é tempo de encarar a realidade: a democracia representativa, pelo menos a portuguesa, não serve para nada disso. Por cá, serve para assegurar os interesses do PS.

Não, não me refiro àquelas realidades insidiosas que ocorrem – e ocorrem tanto mais quanto maior volume de dinheiros as administrações centrais e locais movimentarem – de promiscuidades entre empresários (se calhar deveria dizer ‘alegados empresários’) e políticos. Também não me refiro a alucinações como a cientificamente comprovada da Juventude Socialista nas eleições europeias de 2009, quando reclamava em outdoors o ‘direito ao TGV’. (Outdoors de resto perigosos. Eu ia tendo um acidente para os lados do campus da Universidade Católica ao ter a minha visão turvada pela leitura de tal delírio.)

Refiro-me a Elisa Ferreira quando, nas eleições do parágrafo anterior e com admirável candura, admitiu que obras nos bairros sociais do Porto haviam sido feitas com ‘dinheiro que é do estado, é do PS’ (JN 9/5/2009).

E como o dinheiro que é do estado é do PS, António Costa não teve problemas de consciência em estar quatro meses a receber ordenado de presidente da Câmara Municipal de Lisboa enquanto se dedicava a tempo inteiro à campanha interna do PS. E como o dinheiro que é dos contribuintes lisboetas também é do PS, Costa não tem pudor em dar anualmente dezenas de milhar de euros à Fundação Mário Soares (cujo contributo para a sociedade é irrelevante) para contentar o senhor que está no nome da fundação, que é, no regresso do favor, um dos seus apoiantes mais entusiastas. Ou que inunde Lisboa de cartazes a felicitar outro seu apoiante (Carlos do Carmo) por este ter recebido um prémio. (E a comunicação social embevecida perante um político que quer ser primeiro ministro mas dá este uso questionável ao dinheiro dos contribuintes.)’

O resto está aqui.

Das profundezas (ou será das superficialidades?) da memória

Aparentemente houve um alucinado do PS que veio comparar este governo ao ‘pior’ do governo de Santana Lopes.

É só para avisar a gente do PS que quando o governo de Santana Lopes caiu – por muitas objeções que tal governo levantasse ou por mais défices orçamentais inexistentes tenha inventado Vítor Constâncio – não foi necessário um resgate financeiro internacional do FMI. Já quando o governo de sócrates se demitiu…

O PS aparentemente ainda não percebeu a gravidade do que fez ao país. Mas os eleitores, podem estar descansados lá pelo PS, perceberam. Nem percebeu o PS que os eleitores sabem bem atribuir a culpa destes 3 últimos anos, por muito que estejam insatisfeitos com o governo atual.  E pela razão mais elementar: estão a pagar do seu bolso o que o PS fez ao país.

sócrates e a imbecilidade

É conveniente, porque é um grande apoiante do atual líder do PS e o atual líder do PS foi inteiramente cúmplice (e até se orgulha) dos governos socráticos, voltarmos a dar alguma atenção à criatura socrática. (Com grande risco, se não mesmo definitivo prejuízo, para a nossa saúde).

Diz a criatura que ‘O Governo tem de dizer [aos portugueses] se é a favor ou contra a venda da Portugal Telecom’. E mais: ‘”o Estado não pode abandonar a PT” e sujeitá-la ao “mercado das telecomunicações”’.

Passemos ao lado da mentira compulsiva habitual na criatura – dizer que a fusão da PT e da Oi só foi decidida em 2013, como se a aliança da PT e da Oi só nessa altura tivesse ocorrido, em vez de ter sido decidida por sócrates himself enquanto pm, como bem lembrou Pires de Lima.

Passemos também ao lado do facto de tanto a criatura socrática como Costa terem pertencido a governos – os de Guterres – que privatizaram (e bem) em força. Afinal não custa acreditar que Costa (e sócrates se alguma vez se chegar a candidatar à presidência, que é o seu grande sonho) para vencer eleições conte com os eleitores com maior défice de memória – e de inteligência e, já agora, de apreço por quem tem coluna vertebral.

Não passemos ao lado – porque é relevante – do pormenor de o mesmo sócrates que decidiu o investimento da PT na Oi ter sido, depois de corrido do governo português, contratado, com o patrocínio de Dilma, para representante de empresas brasileiras na UE. Ou, em linguagem mais corrente, para fazer lobby na UE pelas empresas brasileiras. Ou, em ainda mais corrente, ‘para abrir portas’ na UE. (Não que a coincidência de atividade entre sócrates e PPC vá trazer alguma vergonha aos socráticos quando atacam o atual pm por ter feito o que o seu santo de altar faz nos intervalos de dissertar sobre tortura.)

Chegando ao importante. Aparentemente o PS está a transformar-se num partido marxista que não reconhece a propriedade privada. (Não que os partidos do governo tenham grande palmarés no que a isto toca.) Porque quem tem de se pronunciar sobre a venda da PT Portugal são os acionistas da PT – e o estado que vá meter o bedelho nos seus assuntos, que já tem muito que se ocupar e não age de molde a dar grandes lições de eficiência e eficácia. Portugal não corre nenhum risco de ficar sem telecomunicações com a PT Portugal pertencente a este ou àquele. O único risco que se corre se o estado não se mantiver arredado de negócios privados é o de Costa, quando for pm, não ter uns tachos na PT para recompensar os seus boys com ordenados anuais de mais de 500.000€ – tal como sócrates fez.

Seja patriota: faça amigos e fuja do sal

O meu texto de hoje no Observador.

‘Há dias li um texto de Anna Almendrala no Huffington Post sobre amizades. Dizia lá que, além das reconhecidas vantagens de ter amigos (companhia, diversão, cumplicidade, fuga da solidão, apoio em tempos problemáticos e mais trezentas e quarenta e sete vantagens), se comprova que ter amigos faz bem à saúde. A certa altura o artigo cita mesmo um estudo que equipara o risco de mortalidade de quem não tem uma rede social forte ao de quem fuma quinze cigarros por dia ou bebe diariamente seis bebidas alcoólicas.

Enquanto lia o texto pensei enviá-lo às minhas amigas mais chegadas, quiçá escrever um post sobre amizade, referindo como as minhas amizades de adolescência ainda são tão centrais na minha vida (tanto que vinte anos depois ainda contacto com frequência com a maioria, e jantamos e fofocamos e até engravidamos ao mesmo tempo), como incentivo os meus filhos a serem amigos dos filhos dos meus amigos, como nos últimos anos a blogosfera e o facebook permitiram que me tornasse amiga de pessoas que nunca conheceria (e que ninguém vilipendie estas novas redes ao pé de mim). Poderia até elabor

ar sobre as amizades femininas – as amizades entre mulheres são das relações humanas mais curiosas (e recompensadoras e cúmplices) que se podem estabelecer, e são tantas vezes desconsideradas por homens (os que não concebem não ser o centro de todas as relações femininas) e por mulheres (as sem arte para constituir estas deliciosas amizades). Com algum tempero de questões de género, desde logo como provocação amigável a quem se amofina com estes temperos.

Pensava eu o exposto acima, mas continuei a ler o texto e tive os inícios de um pequeno ataque de nervos. É que às tantas se passa de elencar os benefícios para as pessoas das suas amizades para passar a ponderar os benefícios para a saúde pública da existência das amizades. Chega mesmo a lamentar-se a necessidade de maior pesquisa neste campo antes de se fazerem ‘campanhas de saúde pública sobre relações’.’

O resto está aqui.

Ó senhor ministro, não ceda ao facilitismo

O João Miguel Tavares diz o essencial na sua crónica do Público de hoje sobre Crato e a impossibilidade de um ministro continuar em funções depois do caos deste início de ano escolar: ‘Nuno Crato deve ser devidamente responsabilizado – é inadmissível ter um governo que exige tanto aos portugueses e tão pouco a si próprio.‘ De facto de um governo que acha que temos de levar com austeridade para aprendermos a não ser consumistas, que aconselha os portugueses a não serem ‘piegas’ e, em caso de descontentamento, a emigrar, nada mais se pode esperar do que a exigência de que os ministros se comportem pela bitola que pedem à população. E de um ministro que tinha um discurso tão assente na exigência, no rigor, no combate ao facilitismo, menos ainda se entende como não aplica a si próprio aquilo que advoga.

De resto algo (entre muitas coisas) que eu não desculpo a este governo é não ter tornado o critério de incompetência como causa para despedimento (de facto, não aqueles rodriguinhos que estão na lei e não se sustentam perante os juízes lunáticos dos tribunais do trabalho). E a desestabilização da vida de tantos alunos, professores e famílias que Crato deixou que ocorresse – por mau planeamento, por défice de controlo, por pressa de implementar o que estava impróprio para implementação – é uma tremenda incompetência. Que não é nova no ministro, que é já conhecido por dar cabo do que existe (que pode ser questionável mas vai funcionando) para o substituir por nada ou por impraticabilidades. Foi o caso do estatuto do bolseiro, das aulas de inglês no primeiro ciclo, do novo programa de matemática (do que pude observar pelo meu filho mais velho, o anterior era extremamente bem concebido; o novo a ver vamos e de qualquer forma voltamos à maluquice de passar a vida a mudar programas) e, até, dos testes intermédios no 2º ano e no 4º ano, cuja utilidade ainda não vislumbrei.

The Daily Beast está muito atento ao que se escreve aqui no blog

Mais achas para a discussão da existência histórica ou não de Jesus (enquanto homem, não enquanto Deus, que isso são outros quinhentos).

Antes de vos deixar com a prosa escorreita e bem humorada dos autores do texto, aproveito para dar um exemplo de uma boa dose de gente que (segundo os positivistas para quem só sucedeu aquilo que há prova – e de testemunhas idóneas e neutras, que não se admitem relatos com parcialidade) não tinha existido até ter passado a ter existido. Trata-se de gente pertencente a uma seita judaica, com vida monacal, composta por homens, mulheres e (inevitavelmente) crianças, e com algumas semelhanças (e muitas diferenças) com os rituais dos cristãos (o batismo pela água, por exemplo). Foram contemporâneos de Jesus e nada se sabia sobre eles – supõe-se que sejam os misteriosos essénios – até se descobrirem num imensamente feliz acaso em 1946 os Manuscristos do Mar Morto em Qumran.

«Michael Paulkovich, author of No Meek Messiah, has proclaimed that Jesus never existed. In his book, the author details his shocking discovery of “one-hundred-twenty-six authors from the time of Jesus who should have, but did not record anything about the Christian godman.”

Paulkovich’s case rests on three main pillars. First, the discovery that no ancient writers from the first few centuries CE mention Jesus. Second, the assumption that most writers should have mentioned Jesus, since he was the Son of God and all that. Third, the keen observation that Jesus never wrote anything himself. Although an undeniably compelling trinity of argumentation, it is not without its logical problems.

Let’s get one thing straight: There is nigh universal consensus among biblical scholars—the authentic ones, anyway—that Jesus was, in fact, a real guy. They argue over the details, of course, as scholars are wont to do, but they’re pretty much all on the same page that Jesus walked the earth (if not the Sea of Galilee) in the 1st century CE.

So that brings us to Paulkovich’s list: 126 ancient writers, 0 references to Jesus. The list has a few issues. Although everyone on it is indeed ancient, some are a little too ancient—as in, lived-a-hundred-years-before-Jesus too ancient (Asclepiades of Prusa, for example).

A great many of the writers are philosophers, some quite famous (Epictetus). Philosophers aren’t really known, now or then, for their interest in current events. Some writers are mathematicians, rhetoricians, satirists, poets, or epigrammatists (Martial). Unless we’re looking for an ancient limerick about Jesus, these are probably the wrong authors to be reading.

Fully fourteen of the 126 are doctors, including a dermatologist, an ophthalmologist, and a gynecologist (Soranus). We can first point out that Jesus was supposed to have a gift for healing, so he probably didn’t take his annual checkup seriously. Also, even if Jesus did visit a doctor or fourteen, and even if they kept records of the savior’s health, we could never have access to those records because, you know, HIPAA.

There are some authentic historians on the list, though we can probably assume that someone writing a biography of Alexander the Great (Curtius Rufus) might not find an appropriate place to slot Jesus into that story. The vast majority of the authors listed, however, have none of their writings preserved for us, or mere fragments at most. It’s hard to say that a writer didn’t mention Jesus when all we have of that writer are a few lines quoted in someone else’s work.

We do have the writings of Sextus Julius Frontinus—but what he wrote was a treatise on aqueducts. Jesus may have been the fountain of life, but it was the Romans who had the decent delivery system.»

O resto está aqui.