Não, quem foge ao fisco não pode ser pm

Estou desacordo com o Carlos Guimarães Pinto aqui quanto à aceitabilidade de termos um pm que fugiu aos impostos. E – para comentar de passagem os casos PPC e Costa, se o de PPC é evidente a aldrabice de vir dizer que não sabia se tinha de pagar Segurança Social (além das trapalhadas dos valores), o de Costa veremos o que é, mas eu vou já dizendo que não compro as papas e os bolos de quererem que alguém acredite que um apartamento em poucos meses valorize quase para o dobro do valor, sendo que o valor inicial era aquele sobre o qual teria de se pagar sisa. Já parace a história de um certo pm que vivia num prédio onde as pessoas que estavam isentas do pagamento de sisa por um enooooooooorme acaso compraram as casas substancialmente mais caras do que aqueles que tiveram de pagar sisa.

As razões da discordância são várias. Primeira. Não é inevitável fugir aos impostos, pelo que qualquer pessoa pode sempre escolher cumprir devidamente as suas obrigações fiscais e quem queira fazer carreira política devia aprender desde cedo que este é um custo of doing business.

Segunda. É socialmente aceitável em Portugal um certo grau de fuga aos impostos porque os temos imoralmente altos. E quem costuma vir com historietas da média da carga fiscal europeia que use os neurórios, porque temos rendimentos consideravelmente mais baixos e, como tal, a mesma percentagem de imposto é bastante mais custosa em quem tem menores rendimento do que em quem os tem maiores, mesmo que neste último caso em valor absoluto se pague muito mais de imposto. Mas os políticos não são – e não devem ser – julgados pelos padrões dos comuns mortais que se deixam governar em vez de governarem. O escrutínio é das melhores invenções da democracia e é usado em todas as democracias adultas (não é o caso da nossa). Precisamente para garantir que são os melhores – e não apenas os mais bem colocados no partido ou na pirâmide social – que ocupam os lugares que maiores decisões tomam sobre a vida de outros. E na minha definição de ‘melhor’ não está apenas a competência e a capacidade de gestão de dinheiros públicos, está também a seriedade, o espírito de serviço e o compromisso com o bem-comum. Qualidades que não costumam ocorrer nos mesmos que fogem aos impostos.

Terceira. PPC – que aumentou impostos como ninguém ainda o havia feito e refinou a AT e a legislação a pontos de as ter tornado instrumentos que só podem ser descritos como de totalitarismo fiscal – e Costa – que ainda há pouco aumentou de forma enlouquecida as taxas cobradas aos lisboetas e que de modo nenhum promete baixar impostos ou por travão nos abusos permitidos atualmente à AT (e que apoiou todos os aumentos de impostos de sócrates, bem como as listas de devedores e outros atropelos semelhantes) – são duas pessoas a quem não se exige (e não se pode exigir) menos do que uma exemplar e inatacável relação com o estado enquanto contribuintes.

Diferente seria se um político que não pagou aqui e ali os impostos devidos implementasse uma descida de impostos para todos os seus concidadãos e defendesse que o nível de imposto ao qual fugiu era imoral e que a partir de certo nível é um sintoma de autorrespeito e um imperativo moral fugir aos impostos. Não é extamente isto que tem sucedido com PPC e Costa.

Happy Birthday Master Insurgente

happy birthday

O Insurgente fez dez anos e está de parabéns. Ao meu mau feitio e à minha língua viperina (mas tudo o resto é encantador) os insurgentes aturam-nos há seis anos e estou-lhes muito grata por esta experiência. Por escrever com eles, por nos divertirmos na nossa hiperativa lista de mails (e às vezes discutirmos ferozmente sem que tenha havido sequelas nas relações pessoais), pela companhia para os almoços a meio caminho entre o Porto e Lisboa e para os gins à beira Tejo, por nos termos tornado amigos, por impedirem que me sinta um alienígena neste país de esquema mental socialista onde a valorização da liberdade nunca ocorre no primeiro momento (mas lá chegaremos). Lembro-me perfeitamente de quando li o mail com convite indecente do André Azevedo Alves para me juntar aos insurgentes. Estava acampada em casa dos meus pais na semana da mudança da minha casa anterior para a minha casa atual, nas primeiras semanas da gravidez da criança mais nova (e cuja personalidade, não certamente por acaso, pode muito justamente ser descrita como a de um insurgente). Gostei muito do convite, fiz muito bem em aceitá-lo e os planos insurgentes de dominarmos o mundo estão de vento em popa. (Temos infiltrados na assembleia da República e em vários departamentos governamentais, tomámos conta do turismo nacional, e estamos agora em reuniões secretas com os americanos para decidirmos quem se candidatará às primárias para as presidenciais americanas de 2016). Em suma: let’s keep up the good work.

E, nesse espírito, deixo aqui o meu texto de 4ª feira no Observador, sobre os dramas exagerados à volta de uma barbearia com uma estratégia de promoção parva.

‘É uma pena Patricia Arquette não viver em Portugal. Assim, em vez de no seu discurso de agradecimento pelo Oscar falar de minudências como o diferencial nos ordenados pagos aos homens e às mulheres, com uma especial menção para as mães (cujos sacrifícios em termos de carreiras e rendimentos por causa da maternidade são conhecidos), teria referido assuntos importantes que ocupam algumas feministas portuguesas. Exemplo: impedir que uma barbearia privada não receba só no seu interior homens e cães.’

O resto está aqui.

Finalmente fui posta no lugar

SAUDI-ARABIA-WOMENS-CONFERENCE

Venho aqui fazer um mea culpa (e estou mesmo a planear dormir esta noite numa cama de pregos, qual faquir, para me penitenciar). É que tenho a mania – descobri hoje que absurda – de que sei de uma forma que homem nenhum pode saber o que são as consequências do machismo e até da violência (efetiva, ameaçada, tentada, sugerida – não interessa, que são apenas graus) sexual. E, quando é o caso, não tenho problemas nenhuns em dizer ‘ganha juízo, não sabes do que falas, tem decência se faz favor’ a um homem que esteja a dizer alguma coisa sobre assuntos femininos ou de igualdade de género para a qual eu tenha pouca paciência. Mesmo com aqueles que têm a mania que são progressistas e modernos, e até se afirmam feministas e são grandes defensores do direito ao aborto. Oh quanto esquerdista aqui na blogosfera (já são muitos anos e de início era ainda mais humilde blogger do que sou hoje, e em Portugal há o bom hábito de desconsiderar quem se vê como um peão sem importância) me fez bullying de formas que só se faz a mulheres? Ainda hoje no meu texto do Observador falo das restrições de discurso que se aplicam às mulheres e que são das formas mais insidiosas de machismo dos dias de hoje. É uma forma dos homens manterem o high ground: os assuntos importantes são os que eles definem, a forma de os discutir é determinada pelo padrão masculino, as mulheres publicamente visíveis têm de ser perfeitas (qualquer pequeno defeito leva pancada ad eternum) enquanto aos homens a mediocridade basta, exige-se às mulheres uma especialização que nos homens é inexistente (uma mulher ou se interessa por política a tempo inteiro ou se perde uns minutos a discutir assuntos tradicionalmente femininos vê-se logo que é incapaz de organizar dois pensamentos sobre política), os homens perdem tempo infinito dizendo imbecilidades sobre futebol mas ai da mulher que diga ou escreva algo sobre carteiras. É ver-se o que se tem dito e escrito sobre A Barca do Inferno para perceber do que falo (e se não percebem, lá está ‘ganhem juízo, não sabem do que falam, tenham decência e etc.’).

Escrevo isto, mas hoje já não sou assim. Reformei-me. Com a polémica da crónica de Gabriel Mithá Ribeiro percebi que afinal não são as pessoas que vivem as situações que percebem mais delas e o que implicam. Gabriel Mithá Ribeiro, achava eu, tinha uma especial autoridade para falar do que é ser pobre precisamente por já ter sido pobre. Tal como estas mulheres corajosas (há mais uma aqui na Maria Capaz) tinham especial autoridade para falar do que é a violência sexual. E que estas últimas podiam dizer a qualquer homem ‘sabe lá do que fala quando fala de violações ou agressões sexuais’. Mas não. Afinal quem mais sabe sobre todos estes assuntos não é quem os vive, mas quem teoriza sobre eles e quem os usa para o discurso político.

Mais: quem viveu a pobreza e a agressão sexual nem sequer sabe – segundo as estrelas brilhantes da esquerda portuguesa – o que é a pobreza (e, presume-se, a agressão sexual e o machismo) se o relato que faz da sua experiência não se enquadrar no discurso inflexível da esquerda. (E não, não é nada degradante e vil e soez desvalorizar estas experiências de vida das pessoas – desde que esta desvalorização seja feita por gente de esquerda; se for por gente da direita, são, claro, umas criaturas animalescas sem o mais básico respeito pelos seres humanos que viveram tempos difíceis.)

É que parece que Gabriel Mithá Ribeiro fala com sobranceria dos outros pobres e orgulha-se em excesso do seu feito de pelos seus méritos ter saído de uma situação de pobreza. Como se sabe, a sobranceria e o desprezo pelos semelhantes é património da esquerda. Só a gente pomposa sem qualquer talento próprio que deve tudo o que tem e o que é à situação confortável da sua família é que tem direito a sentir orgunho nas suas conquistas, mesmo que inexistentes. Ainda: era o que faltava alguém usurpar o hábito da esquerda de tentar determinar que assuntos quem (concretamente, a direita) pode referir e usar publicamente. E Gabriel Mithá Ribeiro, não sendo de esquerda, tem de ser perfeito (é como as mulheres); se demonstra uma qualquer paixão humana, ora centremo-nos nessa paixão e desqualifiquemos tudo o que diz.

Mas, como disse, estou reformada, vou começar a pedir licença aos meus melhores sobre o que dizer do machismo ou de algum apalpão no metro de que me recorde. Vejo agora que há homens que sabem muito mais disso do que eu e penitencio-me por ter gozado já por várias vezes no facebook com os generosos homens sauditas que participaram na conferência sobre direitos das mulheres onde as mulheres se notabilizaram pela completa ausência. Mas só tontas (como eu era antes) supunham que das experiências femininas percebiam mais as mulheres do que os homens. Eu estava enganada e o homens sauditas – e os seus espelhos nacionais: os que sabem melhor que GMR o que é ser pobre – certos.

(Um dia destes escrevo sobre o poder que estes relatos na primeira pessoa têm – não é por acaso que a esquerda em peso correu a atacar GMR – e sobre a falta de decência básica que é nem permitir a uma pessoa que conte a sua história, como todas enviesada pela sua subjetividade.)

Sente-se a falta da solidariedade grega

???????????????????????????????Algures no meio dos seus seis livros sobre a Segunda Guerra Mundial, Churchill refere a sua dívida a Franco. Lembra como Franco havia sido ajudado pela Alemanha nazi, tanto durante a guerra civil como depois e como Espanha e Alemanha eram dois fortes aliados. E, evidentemente, Hitler esperava que a recompensa da sua ajuda ao regime franquista fosse a participação espanhola na guerra do lado do Eixo – mesmo se fosse uma participação à italiana, decidida quando França já estava vergada à Alemanha e se esperava que a Grã-Bretalha a seguisse. Mas Franco tinha outros planos que não incluíam gratidões a Hitler, mas manter Espanha arredada da guerra – e, de caminho, dar menos um problema aos Aliados. E assim Churchill lembrou como pôde sempre contar com Franco (e não conta nos seus livros mas sabe-se que também com ajuda de subornos britânicos a várias personalidades franquistas para que defendessem a permanência em paz de Espanha), que recebia toda a ajuda da Alemanha sem qualquer intenção de lhe retribuir declarando guerra à Grã-Bretanha.

As esperanças de Hitler face a Franco – e a ingratidão deste – lembram-me a reação da extrema-esquerda nacional face às reivindicações do Syriza. Como se em algum momento o governo grego tivesse o objetivo de defender os interesses portugueses (não tem) ou os interesses portugueses e gregos fossem coincidentes (não são). Mas temos, por exemplo, Louçã afirmando que o governo grego é quem defende os portugueses. Claro que o conceito de democracia de Louçã não será o meu – o meu tem a ver com eleições e votos e respeito pelas escolhas dos eleitores – mas talvez fosse bom explicar a Louçã que ele póprio não representa os portugueses (sempre votaram nele em números escassos) para saber por quem queremos ser representados.

E depois temos a carta das 32 personalidades – a carta que António Costa fumou mas não inalou – pedindo ao governo português para ser bonzinho para os gregos. Ainda que esquecendo as medidas que alguns dos signatários propuseram anteriormente (exigência unilateral de reestruturação) e que têm tido o bom efeito de subir taxas de juro da dívida grega, levar a levantamentos massiços de euros dos bancos gregos e, hélas, nenhum acordo sobre a dívida. E lá tivemos de ouvir com resignação Carlos César queixando-se que o PR humilhou os gregos. (Falsear contas da dívida pública nas últimas décadas para dar ideia de que se cumpriam os critérios de convergência para o Euro não é humilhante, é, quem sabe, motivo de orgulho para os gregos; já as palavras dos políticos portugueses são um golpe de que os gregos não recuperarão. Pois.)

O que me parece é que os políticos à esquerda – PS e Costa incluídos – se esqueceram que devem defender os interesses dos portugueses – que mesmo no meio de uma crise económica feroz emprestaram dinheiro à Grécia e é imoral defender que a Grécia não nos deve pagar esse dinheiro, sacrificando ainda mais os contribuintes portugueses – e não os interesses gregos.

O pior de tudo é que, de facto, os resgates internacionais do FMI têm custos sociais atrozes – ainda que a Grécia não esteja no torpor pré-revolução industrial que tantos sugerem – e devem ser questionados e repensados. Mas a Grécia é, porventura, o país menos merecedor de ser dado como exemplo de vítima do FMI.

Entretanto nisto, pelo menos, o governo (a quem devemos o mimo de agora pagarmos os sacos em todos os supermercados) não perdeu a cabeça e tivemos a consequência de não andarmos a apregoar aos ventos que não pagaremos o que nos emprestarem ou não pagaremos na totalidade: juros de títulos de dívida a 10 anos à taxa mais baixa de sempre (com ajuda do plano de compra de dívida do BCE, é certo). E o PR lembrou que já tivemos para com a Grécia a melhor solidariedade: emprestamos dinheiro em 2010 quando a Grécia precisou. Agora é a hora de esperarmos nós a solidariedade grega de nos pagarem o dinheiro que vai aliviar os contribuintes portugueses. Solidariedade preferencialmente diferente da ameaça da Grécia de vetar a entrada de Portugal e Espanha na CEE há 3 décadas se não recebesse mais dinheiro – grande solidariedade, Grécia, obrigados! Mas, lá está, sobre gratidão grega lembremos outra vez a história de Franco face à Alemanha há 75 anos.

(A fotografia é da Praça Callao em 1935.)

O chá segundo Maria João Marques

castleton

Ora então a pedido de várias famílias residentes no facebook, aqui vão umas palavras explicativas da razão por que este produto só vingará nos consumidores portugueses que são, cumulativamente, tontos e não apreciadores de chá.

O chá tem um método. Colocam-se folhas de chá (e aqui refiro-me a chá, às folhas da camellia sinensis ou da sua variante camellia assamica, não às infusões que as pessoas têm a mania irritante de chamar chá) em água perto dos 100º, um bocadinho menos para o chá verde. Deixa-se o chá abrir durante uns minutos (i.e., as folhas passarem o aroma, o sabor e coisas boas como teína, anti-oxidantes e mais umas tantas coisas para a água), coloca-se na chávena e bebe-se. O bule deve ser cerâmico. Bules de vidro (que até ficam bonitos quando se usam os chás cujas folhas estão presas de forma a formarem uma flor quando abrem) são de evitar e coisas como recipientes de alumínio a quem alguns tolos chamam de ‘bule’ são de fugir (sim, aquelas coisas repelentes que se usam por cá nos cafés, de alumínio ou inox e com bicos que deitam o so called chá por todo o lado menos na chávena, são um grande sintoma da iliteracia nacional). Um chá decente não vem em saquetas (que têm sempre folhas muito partidas e de má qualidade); e mesmo as saquetas de tecido com folhas maiores ou os infusores que se colocam dentro do bule não são ideais, porque não permitem a infusão homogénea por toda a água que está no bule. Um chá é tanto melhor quanto folhas que se utilizam são maiores e, no caso do chá preto, quanto mais pontas douradas tem. E depois há os chás de origem (os Darjeeling são chás pretos delicados e maravilhosos, os Assam são fortes e bons para beber ao pequeno almço com leite, os Yunnan são fortes e ligeiramente fumados,…), os primeiros botões de cada arbusto, os segundos botões de cada arbusto, os chás de apenas um jardim de chá (na fotografia está uma lata do jardim Castleton em Darjeeling), os chás aromatizados (com especiarias, por exemplo, que eu também gosto muito com e sem leite) e um interminável etc.

Os chás verdes (ou os chás oolong, que estão a meio caminho entre o chá verde e o chá preto) são ainda mais delicados. Precisam de mais tempo de contacto com a água, a água deve estar menos quente, as folhas são maiores, os sabores são muito mais delicados. Os chineses usam as mesmas folhas para várias levas de água no mesmo bule e de cada vez as folhas de chá passam sabores diferentes para a água. Também põem folhas de chá numa chávena e vão colocando água quente de um thermos na chávena e vão bebendo o chá com as mesmas folhas.

O chá é isto e não se admitem variações. Claro que às vezes há que comprometer. No escritório eu tenho um jarro elétrico e bebo chá numa caneca onde coloco a água a ferver e uma saqueta de chá. Mas entre comprometer (para não ter de carregar um thermos com chá) e beber umas coisas de umas cápsulas vai uma distância que qualquer pessoa com respeito por si própria não quer percorrer. Passar água a ferver durante uns segundos por uma cápsula com umas ervinhas pode ser alguma coisa, mas não é chá. Porque o chá precisa de tempo e de água menos quente.

E para os que ainda não estão convencidos: o tubo por onde passa a água que veio da cápsula e que é vertida na chávena para o suposto chá é o mesmo por onde passou o café que se fez na máquina e tem resíduos desse mesmo café (por mais que se passe água limpa); pelo que, e porque o sabor do café é mais intenso do que o sabor dos chás e infusões, vai-se ter um suposto chá que além de ser suposto chá vai saber a café. E, para isto, mesmo para os apreciadores de chá é melhor beber café.

(E nem vou à questão da estratégia de marketing da empresa, que fico com urticária com a conversa que trata os clientes como parvos e acha que a comunicação e a embalagem e a promoção e ‘o conceito’ são muito mais importantes do que o produto. Em todo o caso, dizem na notícia que ‘não vendem chá, vendem um conceito’. E de facto é verdade e devemos acreditar nos senhores: não vendem chá.)

Vitrine de apostas erradas de António Costa. E do PS.

O meu texto de ontem no Observador.

‘Mais aterradora é a posição do conselheiro político de confiança de Costa, Porfírio Silva. Entusiasta da abolição do arco da governação, vai mais longe e quer apropriar para o PS algumas das bandeiras do PCP. No texto ‘As unidades da esquerda’, de 4 de Outubro de 2014, explica. Por exemplo: uma ‘pergunta cada vez mais atual’ a que o PS deve responder, usando ‘instrumentos que estavam um tanto esquecidos’ (mais sobre este ‘esquecidos’ no parágrafo seguinte), é ‘que nacionalizações para este tempo’.

Não vale a pena magoarem a córnea de tanto esfregarem os olhos. Leram bem. O mais próximo conselheiro de Costa – escolhido presumo porque Costa vê mérito nas peculiares ideias do senhor – aconselha-o a averiguar o que há por aí no país para nacionalizar. Separo as sílabas: na-cio-na-li-zar. Não sei o que é mais trágico (e cómico): se Porfírio Silva achar que há que nacionalizar, se nem entender que o mecanismo ‘nacionalização’ não estava nada esquecido – simplesmente foi recusado e repudiado eleição após eleição pelos votantes (claramente uns rústicos que não sabem responder decentemente às perguntas cada vez mais atuais) que se recusaram a dar expressão eleitoral de monta aos partidos amigos de nacionalizar.’

Está completo aqui.

A crise da comunicação social explicada numa notícia.

Nesta notícia do jornal dito de referência chamado Diário de Notícias. É que isto não é só ativismo político (coisa diferente de ativismo político é que é difícil encontrar no DN; e por alguma razão eu não dou nem um cêntimo do meu dinheiro a esta publicação neste estado de coisas). É a notícia mais imbecil, ignorante, aparvalhada, estulta, básica, ignorante que eu me recordo de ter lido em Portugal nos últimos anos.

E nem trago isto aqui para entrar na discussão sobre os números das exportações, que mesmo que fossem um sucesso seriam um sucesso das empresas, não do governo. E também nunca partilhei da ideia gaspárica e passista de que devíamos ser um país totalmente virado para as exportações, e as empresas que vendem para o mercado interno – as tais vilãs que não se dedicam aos bens transácionáveis – que vão à falência, que os portugueses devem ser uma espécie de chineses que trabalham para exportar e que, no resto do tempo, poupam em vez de consumir, que as ‘taças de ferro de arroz’ que os tempos maoístas garantiam na velhice agora já não são asseguradas.

A desinformação, estupidez e má-fé começam logo no título: a Alemanha ROUBA crescimento económico a Portugal (entretanto ‘rouba’ foi alterado para ‘desviou’). A tese do artigo, que espanta ter sido congeminada por alguém sem deficiências cognitivas, é esta: os países com quem temos défices nas trocas comerciais estão a prejudicar o crescimento económico do país. (O que, por acaso e tal como no caso de ontem, é termos a esquerda novamente a tomar para si as imbecilidades deste governo, desde logo que o PIB vale apenas pelas exportações.)

Vamos lá ver.

1. A coisa mais bonita da economia é que não é um jogo de soma nula. Aquilo que uns ganham não é aquilo que os outros perdem. (De resto tem sido esta a tragédia de comunistas pelo mundo inteiro.) Pelo contrário: em economia, o bem dos outros é o meu bem e o mal dos outros é o meu mal. Se eu tenho um vizinho rico, vou-lhe conseguir vender mais e vou enriquecer também. Se o meu vizinho é pobre, a probabilidade de continuarmos ambos pobres é maior. A evolução da economia não se faz por transferência de riqueza de uns lados para outros, de uns indivíduos para outros, mas por inovações (tecnológicas, dos canais de distribuição, da maior proximidade das relações entre agentes económicos,…) que verdadeiramente criam riqueza out of the thin air. Os mesmos recursos de antes, depois da inovação permitem que se crie uma riqueza maior, que a produção seja mais abundante. Quem não sabe ou não percebe isto, devia escrever na secção de mexericos ou de crimes (o DN também aposta forte aqui) mas abster-se de todo de ecrever sobre assuntos económicos.

2. Só um rematado imbecil pode supor – como sucede no artigo – que aquilo que compramos à Alemanha (a vilã deste texto) poderia ser produzido em Portugal ou, podendo ser, que o seria pelo mesmo preço ou mais barato. Só um rematado imbecil não sabe que se não comprássemos à Alemanha o que compramos, os consumidores portugueses ou não compravam de todo (porque não produzíamos) ou compravam muito mais caro (porque é precisamente por não conseguirmos produzir mais barato que não se produz cá). E, como se não comprássemos à Alemanha também não lhes venderíamos (estas coisas funcionam sempre para os dois lados), o rendimento que os portugueses obtêm com as exportações ir-se-ia, não seria compensado pelo que se produzia a mais para o mercado interno (o autor do texto não deve saber que somos um país de 10 milhões de pessoas) e teríamos portugueses com rendimentos menores a necessitarem de comprar bens que seriam mais caros ou inexistentes. É a isto que se chama perder poder de compra.

3. A beterraba que escreveu o artigo é tão ignorante que nem percebe que o que importamos da Alemanha pode ser necessário para exportar para os sítios onde a criatura vê o comércio internacional como virtuoso. Dou o exemplo da minha empresa. Temos a frota de marca alemã, os empilhadores de paletes são alemães, a estanteria do armazém a mesma coisa e sei lá mais quantos equipamentos que suportam o trabalho das pessoas da empresa. É por termos esses equipamentos – que nos permitem organizar o trabalho melhor e diminuir custos – que conseguimos vender quer para o mercado interno quer para outros países. Pelo que o jornalista que vá dar palpites sobre que tipo de relações comerciais devo ter ou deixar de ter com a Alemanha, Espanha e os outros países no seio caridoso da sua família, que nas decisões das minha empresa não tem que se meter nem opinar. Se não gosta, simplesmente não compra – que é o que eu faço com o DN enquanto o jornal dito de referência continuar com esta indigência desinformativa.

4. A beterraba também não sabe, mas se Portugal tem um défice comercial com a Alemanha, é porque os agentes económicos livremente escolhem importar mais da Alemanha do que exportam. Tal como Portugal não é uma economia, fechada, também a UE não é outra economia fechada. E ainda bem. Pelo que, a não ser que a beterraba – e os partidos malucos syrízicos em que provavelmente vota e para os quais faz propaganda – queiram tirar Portugal da UE e da Organização Mundial de Comércio, vai suceder sempre – e é não só normal como saudável que assim seja – que com uns países temos excedentes comerciais e com outros temos défices comerciais. Nem uns nem outros nos ‘roubam’ crescimento económico. Pelo contrário: podermos comprar e vender a todos é o que potencia o nosso crescimento económico.

A versão ‘ viveram acima das possibilidades’ vinda da esquerda

Há que reconhecer: no início (mas ainda persiste) da implementação do programa de ajustamento havia o discurso do governo que assentava na ideia de que os portugueses se tinham endividado para consumir, que queriam gastar mais do que conseguiam ganhar e que tinham de ser ensinados a portarem-se como cidadãos economicamente responsáveis. As políticas fiscas extorcionárias de Vítor Gaspar não só visavam obter rapidamente dinheiro que permitisse ao estado honrar os seus compromissos financeiros como, também (ou, se calhar, sobretudo), castigar os portugueses por terem consumido em excesso, puni-los pelas veleidade de comprar os certamente apelativos ecrãs de LSD que no outro dia foram apresentados ao mundo por Paes Mamede.

Por mim, nunca alinhei nesse discurso. O excesso de consumo privado resolve-se quando os privados têm de pagar as contas e, para isso, gastam menos dinheiro em consumo e passam a gastar mais em amortizações de capital e juros dos empréstimos que contraíram. Não foi por isto que Portugal necessitou de um resgate financeiro. Foram os desvarios do estado, que desde Guterres aproveitou a possibilidade de endividamento a taxas de juros baratas trazida pelo euro (ou pela entrada nos mecanismos das taxas de câmbio) para gastar como se não houvesse amanhã. As privatizações (pela diminuição do stock de dívida) mantinham o nível de dívida em montantes aceitáveis e a diminuição das taxas de juro permitiam que se gastasse noutros lados. Depois veio o PSD e CDS, que claro que tiveram como política de consolidação orçamental (ataque fulminante de tosse) o aumento de IVA e mais taxas e taxinhas. Por fim veio a catástrofe sócrates, que, mesmo num contexto em que a economia já não crescia, o financiamento se tornava mais caro, e, depois, a crise de 2008 revelou todo o edifício sem alicerces que eram as finanças públicas portuguesas, continuou a gastar como se não houvesse amanhã.

Sempre com a crença – que Costa (naquela que é a única coisa inteligível das banalidades que diz) partilha – de que estimulando a procura interna a economia vai crescer, a dívida (pelo crescimento do PIB) diminui percentualmente e o mundo, de súbito, torna-se maravilhoso. Que isto desde 2000 não funcione, não interessa nada. Um bom socilaista acha que os outros são imbecis e vão persistir ad eternum em comportamentos que não levam a lado nenhum.

O resgate financeiro veio na sequência de políticas públicas desastrosas, não de decisões privadas. Nunca comprei esta narrativa (pobre da palavra narrativa, que depois de sócrates vai ficar sinónimo de historieta propagandística) destinada a sancionar a política fiscal imoral deste governo – e não apoiei a forma como se reduziram os défices orçamentais.

A esquerda – neste ponto muito concreto com razão – sempre se insurgiu contra esta visão do ‘viveram acima das possibilidades’. Foi por isso com surpresa que ontem, numa conversa de twitter com Rui Cerdeira Branco e Marco Capitão Ferreira, que o Rui sugeriu que a troika serviu para nacionalizar o crédito malparado privado. Entretanto (enquanto escrevia este post) já explicou que se referia à banca alemã, mas a conversa toda de ontem com o Rui e o Marco ia no sentido dos privados portugueses. Até parecia que são nacionalizados todos os prejuízos das empresas portuguesas, que de cada vez que há dificuldades em pagar aos bancos o financiamento que se obteve lá estão os contribuintes bondosos dispostos a ajudar nos tempos de dificuldade e por aí fora.

Claro que isto é uma tremenda alucinação, como qualquer pessoa sabe. As inúmeras empresas que faliram – muitas por não conseguirem pagar as dívidas à banca – são prova disso. E conheço muita gente que tinha empresas que, tendo falido ou não, teve de entregar todas as garantias que tinha contratado para os empréstimos da banca, ficando sem casas, carros, património de toda a espécie. E que tem níveis de vida agora que são um fraco reflexo do que um dia foram. (Quem diz que os funcionários públicos foram os mais afetados por esta crise devia ter um piano a cair-lhe em cima.)

E o pior é que não têm dificuldades por decisões de gestão insensatas ou de passos maiores do que a perna, mas porque foram exterminados pela contração da procura interna protagonizada por Vítor Gaspar e Passos Coelho através do enorme e imoral aumento de impostos.

Mas o curioso disto tudo é que a esquerda socialista, na sua ânsia de branquear a governação socialista quase ininterrupta entre 1995 e 2011 para fins eleitorais em 2015, parece que também já não recusa apontar o dedo aos privados portugueses pela necessidade de resgate em 2011.

O que, a verificar-se a tendência, é só mais um sintoma do desnorte socialista.

Prazeres de fim de semana

Hogwarts

Aqui vai uma breve história do antissemitismo em Hogwarts. (Algo que, tendo sido eu dos maluquinhos que pré-encomendava com meses de antecedência os livros do Harry Potter na Amazon, não podia deixar de trazer para aqui. E aproveito para dizer aos adultos que se queixam da limpeza de sofrimento emocional das atuais histórias de crianças – filmes and so on – que se nota que nunca leram a série Harry Potter.)

‘Jews were admitted as early as 1878, when Headmaster Eupraxia Mole, after receiving a justly famous letter from the Chief Dybbuk of Poland, recommended it. Assimilated wizards of Jewish ancestry began making their mark at the school long before that—probably the best known being Disraeli’s wizard brother, Nigel (Ravenclaw, 1829)—and the Jewish influence at Hogwarts extends back even further. Maimonides was warmly received in 1191, and though Spinoza’s invitation to deliver a series of lectures, in 1652, was met with protests, organizers were careful to note that it was the philosopher’s virulent anti-wizarding stance that they objected to, not his Jewish extraction.’

A beterraba que vai ser primeiro-ministro de Portugal

Vamos por de lado por agora a consumada burrice – e era uma previsível consumada burrice – que foi a colagem à e a celebração da vitória do syriza na Grécia como se fosse solução para coisa alguma em vez de uma vitória de um radicalismo perigoso e anacrónico – e que ficaria bem num adolescente ganzado que militasse na JS, mas que é preocupante em quem quer ser primeiro-ministro – para nos centrarmos na maravilhosa retórica de António Costa.

Diz António Costa «sempre ter sempre recusado “que a renegociação da dívida fosse a única e a necessária solução”» para logo de seguida dar a solução: “redução da dívida, de redução do serviço da dívida por redução das taxas de juro”. Isso mesmo: a solução não é, segundo Costa, renegociar a dívida e logo de seguida indica o caminho certo, que é renegociar a dívida. (Presumo que com a ‘involução’ do syriza já tenha percebido que soluções unilaterais sobre a dívida não são muito bem sucedidas.)

O que é mais perturbante é que eu não estou certa da causa – entre duas extremamente graves – desta contradição feita com tanto à-vontade por Costa. Se é mentira empedernida associada ao mais largo desrespeito pelos eleitores, a quem chama de imbecis; se é mesmo falta de capacidade de compreender aquilo que diz, incapacidade de relacionar conceitos nem muito complicados, enfiz, burrice atroz.

A ideologia de vacinar os filhos

Parte do meu texto de hoje no Observador.

‘Ora nada pior do que tornar a ciência objeto de lutas política.

Qualquer pessoa de bem já tem contabilizadas algumas gargalhadas à conta do criacionismo ensinado como se uma teoria científica se tratasse. O filme Inherit the Wind continua atual nos lados da direita religiosa americana.

Do lado esquerdo temos o dogma do aquecimento global. Eu – que reciclo (porque faz sentido reutilizar em vez de desperdiçar), que entendo os benefícios de respirarmos ar despoluído, bebermos água limpa e não termos solos contaminados, e que aprovo uma gestão sustentável dos recursos do planeta – confesso que vejo mais fanatismo nos defensores do aquecimento global do que segurança vinda de uma investigação conclusiva. E, de cada vez que se alude às temperaturas que não subiram nos últimos anos ou à não ocorrência dos vários cataclismos climatéricos que nos tinham prometido, a resposta é mais ferocidade que ciência.

Na energia nuclear passa-se o mesmo. Não tenho opinião sobre o assunto e duvido que venha alguma vez a tê-la. Porque os dois lados estão tão politicamente conotados que não percebo onde acaba o argumento científico e começa o político. Não estou segura de que um extremo não esteja disposto a comprometer os evidentes riscos de segurança para ter energia mais barata; e que no oposto não se ignorem desenvolvimentos tecnológicos que tornem as centrais nucleares mais seguras para manter um estandarte político.

Pelos vistos vamos ter este folclore também na discussão das vacinas.’

Está completo aqui.

O Holocausto está a morrer

O meu texto de 4ª feira no Observador.

‘As datas redondas são importantes. Convidam à avaliação daquilo cujo aniversário se comemora – ou se lembra com pesar – muitas vezes com o benefício (ou o preconceito) do conhecimento do que se lhe seguiu, ao término de processos de luto, ao encerramento de questões com a validade passada, ao tributo ao sofrimento das vítimas (se as houve).

Este ano celebram-se os setenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial e da descoberta pelo mundo do extermínio sistemático de judeus pelos nazis. Ontem lembrou-se a chegada dos aliados a Auschwitz. Não penso que seja possível avaliar ou entender, nem passados setenta anos, aquilo que se chama de Holocausto. É demasiado maligno, demasiado desumano – o objetivo não era apenas matar judeus, era (como muitos sobreviventes afirmavam sentir-se) torná-los em não-pessoas –, demasiado grande (vejam-se os números de judeus mortos e aprisionados). E, por outro lado, demasiado seco, demasiado profissional, com demasiada eficácia operacional, com a racionalidade industrial com que se produz qualquer bem inócuo – como alguém também disse da Primeira Guerra Mundial, os campos de extermínio foram uma linha de montagem de morte. Houve ódio, claro, mas houve também indiferença, desinteresse e, sobretudo, falta de empatia – que é, argumenta o psicólogo Simon Baron-Cohen, a fonte da crueldade humana.

Não se consegue perceber. Resta-nos, portanto, lembrar.

Mas a distância dos eventos cria problemas.’

O resto está aqui.

a culpa é dos alemães – repetir até acreditarmos

A culpa das desventuras económicas gregas é, como se sabe, dos alemães. Os gregos aldrabaram as contas públicas anos a fio, distribuiram direitos e privilégios que até nos fazem rir a nós, os aprisionados pela CGTP, construiram auto-estradas ao lado de auto-estradas. (Sem surpresa, são estes os atuais heróis dos socialistas costistas.) Mas claro que a culpa da presente crise é dos alemães. Que, evidentemente, têm obrigação de continuar a financiar os desvarios dos gregos em vez de fazerem com o seu dinheiro aquilo que bem entendem. Mais ou menos como dizia há uns tempos um economista alucinado da esquerda portuguesa: nós decidimos qual o nível mínimo com que queremos viver e exigimos à UE que nos financie. A esquerda sempre considerou que tem direitos sobre o dinheiro dos outros, não é nada de novo.

Mas esta suposta culpa alemã pelas desgraças gregas – Alemanha, que, recorde-se, aceitou financiar a Grécia quando já mais ninguém o fazia – tem muito de propagandística.

Em 1960, Kruschev mandou retirar da China todos os diplomatas e técnicos soviéticos, colapsando as relações comerciais entre os dois países e terminando o fornecimento de material militar pela URSS. Em 1960 estava-se, na China, com mortes a eito pela fome gerada pelo grande salto em frente lançado em 1958. E havia uma dívida à URSS de 430 milhões de rublos, que Mao decidiu pagar – para proteger a imagem do sucesso económico do comunismo chinês, e sem que tal lhe fosse exigido pela URSS – até 1965. Em 1962 a China já só devia à URSS 138 milhões de rublos (os números são de Frank Dikotter em Mao´s Great Famine). Como não havia divisas com que pagar à URSS, a China tinha de as obter exportando aquilo que conseguia, sobretudo bens alimentares. Tivemos, portanto, a China a retirar bens alimentares a populações que morriam à fome para pagar um empréstimo que nada a obrigava a pagar tão cedo.

Tudo ao contrário da Grécia, dir-me-ão, que agora quer não pagar a dívida precisamente para aliviar a população grega. E aqui sim, nada coincide. Mas na China a escassez de comida nos anos do grande salto em frente foi – e, oficialmente, ainda é – apresentada como resultante da necessidade de fazer os pagamentos da dívida que a URSS exigia. A fome e as mortes não foram a consequência das políticas absurdas para as obras de irrigação ou para a produção de aço, da coletivização radical, da megalomania de Mao que não entendia que a realidade não se verga à sua vontade. Não, a fome e as mortes deveram-se aos míticos ‘três anos de desastres naturais’ e aos pagamentos à URSS. Ainda hoje é esta a explicação reproduzida pelas populações que só têm acesso às fontes chinesas.

O que é parecido na China de 1960 e na Grécia atual? Os comunistas – e Tsipras é comunista e os socialistas portugueses cada vez mais querem ser comunistas -, pagando as dívidas ou não pagando, culpam sempre outros pelos resultados dos desvarios próprios.

Syriza: a vacina com muitos efeitos secundários

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No ano passado estive de férias na Grécia. Com grande pena minha falhei as grandes e violentas manifestações da praça Syntagma, mas apanhei lá um desfile de orgulho gay, colorido e divertido, de que deixo aqui uma fotografia. Estive em Atenas (não muito tempo) e, como não sofro daquela aflição de tantos portugueses enfadados de só poder ir de férias para locais para onde tenham transporte aéreo sem escalas, alugámos um carro e fomos para uma praia a quatro horas de distância de Atenas.

A Grécia tem muito de parecido com Portugal. Os restaurantes e os hóteis, mesmo com crise e com resgate internacional, estavam com frequência abundante de gregos. As roupas e os carros não são assim tão diferentes dos nossos. Há, como se mostra acima, paradas LGBT. As aldeias perdidas longe de Atenas tinham as mesmas casas por pintar e muros só de cimento das aldeias perdidas longe de Lisboa, com as senhoras de idade vestidas de preto. E Atenas deve ter um presidente de câmara parecido com Costa, também às voltas com a recolha de lixo na capital, que acaba tornando os montes de lixo numa das features da cidade (fotografia abaixo, para verem como é igual).

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Mas também havia diferenças. Mais (ainda mais) casas com sinais de estarem à venda. Mais lojas fechadas (e bombas de gasolina e cafés) pelo meio de Atenas e pelas tais aldeias perdidas do que se vê por cá. A auto-estrada tinha com frequência trajetos em desuso ao lado, não de estradas nacionais substituídas pela auto-estrada mas de troços de auto-estrada substituídos por novos troços de auto-estrada – dando ideia do escrupuloso dinheiro dos contribuintes e dos credores que havia sido feito. Enfim, a nuvem da crise era mais opressora do que se notava em Portugal.

No meio disto tudo, o Syriza vai provavelmente hoje ganhar as eleições. E ou se hollandiza – e mostra em definitivo que o paleio da esquerda radical só serve mesmo para enganar os tolos – ou provocará o fim do financiamento à Grécia com a consequente calamidade económica, com ordenados e pensões e demais compromissos do estado grego por pagar. Claro que a vitória do Syriza pode ser a vacina que os europeus precisam para se relembrarem dos efeitos económicos das políticas da extrema-esquerda, e tirar as veleidades dos partidos de esquerda dos outros países, mas eu não sou cínica a ponto de desejar esta clarificação sacrificando um país e os gregos que não votam no Syriza.

Por cá é divertido sobretudo ver como não só no partido-irmão do Syriza, o BE, há entusiasmo por esta esperada vitória. O PS costista está carregado de gente com olhos arregalados de satisfação. O que diz muito do que é atualmente o PS – e como não percebem o país (Portugal, mesmo) nem o mundo.

Ana Cristina Leonardo bem podia aprender a ler

Graças aos tags dos comentários que o António Parente me fez num post da Ana Cristina Leonardo no fb dei com esta maravilhosa caixa de comentários sobre o meu texto de hoje no Observador, cheia de gente encantadora que, apesar de não saber ler, mais que compensa a falha em tonitruantes manifestações de superioridade esquerdista e pacifista e insultos.

Ora bem, no meu texto, eu refiro ‘A Segunda Guerra Mundial tem alguns paralelos curiosos com o presente e os perigos do extremismo islâmico (e não apenas do terrorismo). Os nazis eram um grupo de loucos dispostos a tudo, com um tipo particular de fé ateia que não está muito longe da intransigência fundamentalista islâmica‘. Comparo, portanto, o nazismo com o extremismo islâmico. Ora a boa gente do parágrafo acima fez equivaler ‘extremismo islâmico’ ao ISIS (sabe-se lá por que devaneios) e dedicam-se com fúria a demonstrar como a situação do ISIS é diferente da da Alemanha da década de 30. E eu, claro, sou uma ignorante por não saber que o ISIS e a Alemanha de 1939 são coisas diferentes. Isto, claro, apesar de eu ter referido extremismo islâmico – presente (e quanto) no Irão, na Arábia Saudita, na Síria e em sei lá quantos mais lugares – e nunca ter feito qualquer equiparação entre ISIS e Alemanha. Gente maravilhosamente perspicaz, portanto.

No meu texto avanço depois para comparar 3 (três) pontos específicos dos ‘alguns’ paralelismos que tinha apontado – que, como toda a gente percebe, é equivalente a escrever ‘a situação do ISIS é igual, sem tirar nem por, ponto por ponto, à da Europa em 1939′ -: drones, moderados e apaziguamento de Obama. A conclusão do texto é:

‘Não que eu recuse de todo o apaziguamento. Por razões diferentes dos seus autores, com a sua incapacidade de perceber que do lado oposto estão loucos que não medem sucesso e falhanço pelo número de pessoas vivas e pela qualidade de vida das populações, como nós costumamos. Mas porque cada vez mais me convenço que uma guerra é tão maléfica como uma paz podre. A decisão por uma ou por outra não obedece a leis gerais mas a circunstâncias concretas.

Pelo menos aprenda-se com a Segunda Guerra Mundial que o apaziguamento é uma opção pela paz podre e não pela paz.’

Pessoas pensantes poderiam chegar à conclusão que a paz podre foi o que trouxe a primavera árabe e os resultantes governos islâmicos, foi o que fez nascer a al qaeda, foi o que fez florescer as ditaduras laicas mas sangrentas e apoiantes do terrorismo destronadas com a primavera árabe, e foi e é o que mantém situações dramáticas de supressão de direitos humanos de metade da população da zona – as mulheres – e de violência sobre elas. Uma paz podre não é inócua; é perigosa e mortífera. Mas, mesmo assim, eu digo claramente que não prefiro a guerra a isso.

O que, perante isto, entende esta gente iletrada – perdão, esclarecida – que eu defendo? O evidente. Nas palavras de Ana Cristina Leonardo: ‘que o melhor era ir lá com uns tanques e depois fazer uma conferência em Potsdam para dividir o petróleo.’ Cinco minutos de palmas, sff.

Estas maravilhosas interpretações das minhas palavras – ou, na verdade, o que os macaquinhos na cabeça e os preconceitos da Ana Cristina Leonardo & friends os levam a interpretar das minhas palavras, e nem faz mal se for o contrário do que eu escrevo – estão no meio de outras considerações deliciosas. Uma senhora que não vislumbro quem seja diz que tem uma questão pessoalíssima comigo. Um tal de João José Cardoso diz que eu, por só ter referido livros britânicos, acho que a Segunda Guerra Mundial foi apenas britânica e que tudo revolveu à volta do Canal da Mancha. Ora bem, pessoas do mundo, ficam a saber, da parte do tal João José Cardoso: perante assuntos complexos que envolvam muitos países, línguas, culturas, datas, whatever, ai de quem se interessar mais por um ponto específico desse assunto. Ou leem sobre a totalidade ou NADA. Eu, presentemente, também tenho a casa a abarrotar de livros e papers sobre maoísmo. Ficam a saber – porque são obedientes e usam o fantástico método João José Cardoso -, assim, que para mim TODO o comunismo em qualquer país se resume ao maoísmo e que TODA a história da China, tanto quanto eu sei, existe apenas entre 1949 e 1976. Bravo pela estratosfericamente inteligente conclusão.

Este João José, que é uma pessoa certamente desempoeirada das ideias, também me chama ‘beata’. Ficam também a saber que qualquer pessoa que num estado laico tenha a falta de vergonha de se afirmar como católica é uma ‘beata’. Está ao lado dos imbecis passistas que usaram o mesmo argumento comigo, e dos invertebrados que dantes me associavam à Opus Dei e ao uso de cilícios. Não se preocupem, não vou cair no preconceito oposto e aconselhá-lo a tomar banho, pentear o cabelo, por um perfume, deixar de lado a t-shirt com o Che Guevarra e, enfim, abandonar o ar de rato de biblioteca que tanto esquerdista tem.

E ao estonteante senhor que afirma ‘esta Sarah Palin ilustra bem a diferença entre ser culta e debitar cultura a metro para o parecer…’, queria descansá-lo. Nunca na vida pretendi ser culta, era o que faltava. Até porque se sabe bem que as pessoas de direita nunca são cultas. Por muito conhecimento que adquiram, são sempre assim uns patos-bravos da cultura, de cada vez que se lhe referem é só exibicionismo e ostentação, aquilo não nos sai naturalmente como à boa gente de esquerda que se vê que bebeu cultura desde pequeninos. E na verdade nem sabemos bem, tal como o novo-rico desadaptado, o que é Cultura com C grande. Em vez de citar Chomsky, Zizek e outros autores que as pessoas cultas referem, falo em Churchill e Martin Gilbert. Vê-se à légua que o meu verniz cultural é muito fininho. Mas, lá está, como sou mansa e humilde de coração, queria aqui garantir que não pretendo dar-me ares de pessoa culta, nem pensar, e que olho com ar enlevado para a posição cultural muito mais elevada de Ana Cristina Leonardo e de este Humberto Baião.

Termino dizendo-me muito feliz com as gargalhadas que provoquei. Podia aqui agora citar o pai da Lizzie Bennet no Pride and Prejudice sobre rirmo-nos dos outros e os outros rirem-se de nós, que tem piada e era bastante apropriado, mas já me dei ares suficientes por hoje e é altura de não roubar protagonismo à gente verdadeiramente culta do país. E tempo de agradecer a experiência sociológica que o António Parente me ofereceu, que ver estas pessoas – que se calhar até votam – ajuda a explicar o estado do país. O problema nem é que sejam de esquerda ou profundamente preconceituosas. O problema, repetindo-me, é que não sabem ler.

o governo liberal, parte 3658ª

Este Moreira da Silva é uma estirpe letal de um virús estupidificante com que por algum grande azar Portugal se contaminou.

Vejam bem onde chegámos: as empresas de grande distribuição planearam as suas compras de consumíveis para os seus negócios sem pedir autorização ou sem dar cavaco às políticas imbecis do ministro do ambiente.

E agora, aparentemente em nome da proteção ambiental que a fiscalidade verde pretende trazer, milhões de sacos de plástico já produzidos vão ficam a envelhecer num qualquer armazém porque já não podem ser usados. O ambiente que se lixe – bem como os recursos que foram gastos a produzir e, eventualmente, a destruir estes sacos de plástico não usados – o que interessa é a taxinha daquele ser vivo de espécie indeterminada que preside ao ministério do ambiente.

Um atentado à portuguesa

Sim, temos de tirar os esqueletos do armário e exorcizar fantasmas daquela coisa podre que Mário Soares chama democracia. Para podermos, de facto, ter uma democracia.

‘E de facto, tudo o que é revelado no Correio da Manhã, mais o que consta há muito tempo, configura não só um padrão de actuação, mas uma filosofia: a de alguém para quem o essencial da política não é persuadir os cidadãos e debater com os adversários, como nas democracias, mas acumular meios de controle, manipulação e impunidade, como nas ditaduras.

Perante tudo isto, não basta tratar o Correio da Manhã como um jornal “sensacionalista”, e confundir estas notícias com as revelações sobre o fim do namoro do Ronaldo, de que não se fala nos salões bem-pensantes. Também não basta dizer que há uma investigação judicial a decorrer, e que não se pode tomar conhecimento do que transpira na imprensa. O regime tem a obrigação de esclarecer se o que corre sobre alguém que liderou um dos maiores partidos portugueses e governou este país durante seis anos – e que, no que é politicamente relevante, vai muito para além da chamada “Operação Marquês” — é ou não é verdade.

Se for verdade, teremos de reconhecer que a democracia portuguesa enfrentou uma verdadeira conspiração a partir do poder, e que só a crise financeira de 2010-2011, ao arruinar o socratismo, poupou o regime ao domínio de uma facção sem escrúpulos e à confrontação política que fatalmente resultaria desse domínio. Desde há 40 anos, ensinaram-nos a reconhecer um golpe de Estado: o parlamento fechado com tanques à porta, e um general de óculos escuros, na televisão, a anunciar a proibição dos partidos e a censura à imprensa. Ninguém nos preparou para outra hipótese: a degradação por dentro do próprio regime, através de combinações entre os oligarcas para diminuir de facto a liberdade e a transparência da vida pública.’

Rui Ramos, num texto a ler completo aqui.

documentário mais ou menos perdido sobre a descoberta pelos aliados dos campos de concentração

Um complemento certamente horrendo mas útil ao Shoah de Claude Lanzmann.

‘Singer’s documentary opens with footage from German Concentration Camps: Factual Survey of the British 11th Armoured Division liberating the Bergen-Belsen concentration camp in Northern Germany on April 15, 1945. There, the Allied troops discovered a strange sight.

“Neat and tidy orchards. Well-stocked farms lined the wayside. And the British soldier did not fail to admire the place, and its inhabitants—at least, until he began to feel a smell,” says a narrator in voiceover.

The British soldiers found tens of thousands of emaciated prisoners inside the camp, many of which were on the brink of death by starvation. The camera lingers on piles of naked, skeletal corpses stacked several bodies high, as well as line after line of dead children. A total of 30,000 corpses were witnessed by Allied troops, according to the film. Singer managed to track down several British soldiers who were there, and some break down in tears recalling the horrors. […]

So, Hitchcock served as a “director’s advisor,” supervising the way the footage was edited. He demanded that the documentary emphasized long shoots and frequent pans, so that people wouldn’t question its authenticity. He was also blown away by the stark contrast between the quotidian (the lives of Germans living near the camps) and the ghastly (the nightmare within), and requested that the film use maps to highlight their proximity, driving home the message that these German citizens knew exactly what was going on.

“Hitchcock himself is reputed to have been very nauseated by the footage,” says Singer. “He saw it in the cutting room and then didn’t want to watch it again.”

Bernstein’s time, however, soon ran out. According to a June 1945 memo from the Psychological Warfare Film department, Bernstein, lost in an artistic quagmire, was relieved of his duties. “Here he was trying to make a propaganda film, and he ended up making a great documentary,” says Singer. “And that’s not really what the government wanted.”

The Americans then installed acclaimed Double Indemnity filmmaker Billy Wilder as supervising director, and used some of Bernstein’s footage to create a short propaganda film entitled Death Mills. Whereas Bernstein’s film was artistic and captured the full breadth of suffering, Wilder’s version is described as a “hectoring short film” that “merely accused the Germans of committing these crimes.” Still, to the Americans’ credit, the film premiered in Germany.

“We must show it to as many Germans as possible,” Wilder says in a 1988 interview.’

No The Daily Beast.

neste momento só consigo dizer: António Costa é doido varrido. e muito perigoso.

Li este post da Helena Matos e fiquei perto de desenvolver uma doença cardiovascular à conta da irritação que me assaltou.

Conheço muito razoavelmente a zona do Martim Moniz e da Rua do Benformoso. De 2001 até finais de 2008 vivi mais acima na encosta para a Graça. Quando queria apanhar o metro, a estação mais perto era no Martim Moniz, tendo eu de descer algumas ruas muito íngremes e maltratadas – o último presidente da CML que ligou alguma coisa aos problemas concretos daquela zona foi Pedro Santana Lopes.

O Martim Moniz teve – estou certa – as intervenções mais desastrosas depois do 25 de abril por uma câmara municipal. Acho que ainda no tempo de Abecassis licenciou-se o horrendo Centro Comercial da Mouraria, que seria candidato a edifício mais feio de Portugal se não tivesse como sério concorrente o centro comercial do lado oposto da praça, penso que chamado Centro Comercial Martim Moniz, salvo erro já do tempo de João Soares. O que é de certeza do tempo de João Soares foi a intervenção na placa central da praça, que alia de uma forma magistral fealdade e presunção. Visto de cima, do miradouro da Senhora do Monte, faz uns desenhos (uma estrela) e é tolerável. Mas ao nível da praça são apenas pedras e desníveis sem sentido e muito feios. Obra de um arquiteto que não entende que o efeito no papel pode não ser o mesmo ao nível dos olhos das pessoas.

Com tudo isto poderia pensar-se que a CML tivesse feito um voto de abstenção de intervenção na praça durante umas quatro décadas e deixasse a praça regenerar-se lentamente de tanto atentado estético. Mas não.

Nos últmos anos aquela zona tem-se tornado um centro de lojas chinesas, mas não só. O Centro Comercial da Mouraria tem uma míriade de lojas, empresários e trabalhadores que vendem produtos, e são os próprios, de diversas proveniências asiáticas. Compram-se as coisas mais improváveis lá. Uma amiga que faz aneis encontrou no CCM (e em mais nenhum sítio) uns expositores acrílicos para os aneis. Num jantar de celebração do Ano Novo Chinês em 2012 em que estive, com americanos, vietnamitas e alguns portugueses interessados nos orientes, verificou-se que toda a gente conhecia o supermercado chinês Hua Ta Li no Martim Moniz e o CCM era sítio onde se ia com alguma frequência. O semanário que se publica em Portugal em mandarim tem os escritórios na Rua da Mouraria. Além de chineses há paquistaneses, bangladeshis, indianos, etc., aparentemente tudo a conviver sem problemas.

Também acho bem que se requalifique a zona. Podia-se começar por organizar uma reunião com os proprietários dos vários edifícios à volta do Martim Moniz e acordar trabalhos nas fachadas que as tornem esteticamente suportáveis. Podia-se dar incentivos – ou mesmo subsídios, que viver numa cidade bonita é uma externalidade (e não, para os maluquinhos: não tenho, nem tenho na empresa, nem tenho na família nenhum prédio que precise de obras na fachada e que se queira transferir esse custo para os contribuintes), ou isenções de IMI, ou… – para requalificação das fachadas dos prédios da zona, que muitas estão lastimáveis.

O que não vejo que se aceite é que Costa queira enxotar uns imigrantes para beneficiar outros e, menos ainda, que deva andar a determinar onde são os lugares de culto islâmicos. Os socialistas que esbracejam com qualquer aproximação entre estado e religião católica acham isto bem, presumo?

Mas enfim, trata-se de Costa. A criatura tem tanta ‘visão estratégica’ que não consegue resolver um único problema concreto dos lisboetas. Nem dá pela sua existência. O trânsito é infernal também à conta das imbecilidades que Costa criou. Nos dias de chuva e dos inevitáveis acidentes é incapaz de dirigir polícias para agilizar o trânsito nos pontos problemáticos. (Hoje na Av. de Ceuta quem ia para Alcântara não conseguia passar nos semáforos onde se virava para a ponte, porque o trânsito da ponte, com o acidente, estava ingovernável. E claro que enviar polícia para restabelecer a circulação num sentido de uma via fulcral de Lisboa nunca ocorreria a Costa, que só se interessa pela fluidez automobilística quando está a apanhar multas por excesso de velocidade na A2.) Os automobilistas de Lisboa têm de ser punidos, segundo a doutrina Costa. Como se vê na proibição de carros anteriores a 2000 em certas zonas de Lisboa. Quem não tem dinheiro para comprar carros recentes não tem vícios, não é? Ou vá trabalhar para os subúrbios, que a esquerda portuguesa não aprecia suburbanos em demasia.

Votem nesta criatura, votem.

do senhor ‘as caricaturas de Maomé foram uma ofensa’

Não é uma ilustração ao meu texto no Observador, mas podia bem ser. Foi a resposta da Revista Atlântico à posição do governo português è primeira publicação das caricaturas no jornal dinamarquês. A Lucy Pepper é a autora.

freitas bomba

Ser Charlie na Arábia Saudita e na Câmara de Lisboa

O meu texto de ontem no Observador.

‘Não sei se é a realidade se são as direções dos jornais europeus, mas alguma coisa está a dar argumentos às boas almas esclarecidas (que, aqui, é sinónimo de ateias prosélitas) que ensaiam novamente uma equivalência entre todas as malvadas religiões que, como se sabe, só provocam caos e mortandade. Tal como fizeram depois do 11 de Setembro. Ora vejam.

Um jornal judaico ultra-ortodoxo apagou as três líderes europeias do sexo feminino da fotografia da manifestação de Paris do último domingo. Parece que o corpo feminino não é modesto (que bom, diria eu, mas os senhores ultra-ortodoxos não concordam) e deve por isso ser tapado. Como as três senhoras estavam bastante agasalhadas, que estava frio, presumo que as caras femininas também não sejam modestas.

Na Arábia Saudita alcançou-se uma importante conclusão teológica: os bonecos de neve são anti-islâmicos. Incitam, por alguma razão misteriosa, à luxúria e ao eroticismo. (Talvez seja o facto de tanta mulher totalmente tapada levar até a entusiasmos com as formas arredondadas dos bonecos de neve, ou quiçá um eventual prazer sensorial enquanto se molda a neve com as mãos. Penso que é melhor não inquirirmos mais.) E as vozes dos que se convencionou chamar muçulmanos moderados (são os que não apregoam os benefícios de matar infiéis, incluindo os ultra-reacionários) já se fizeram ouvir com nova ofensa à conta da primeira capa do Charlie Hebdo depois do atentado. Sem perceberem que, a ser provocação, é muito pálida depois da gigantesca provocação que é um ato terrorista com mortes. Regressando à Arábia Saudita, país com tão simpático regime, o blogger contestatário Raif Badawi já recebeu as primeiras 50 chicotadas (públicas) e iniciou a pena de dez anos de prisão por ‘insultos ao islão’.

Perante isto, o que se fez do lado da Igreja Católica por estes dias? Bem pior.’

O resto está aqui.

Freitas do Amaral, sócrates e as caricaturas de Maomé

Não vou trazer para aqui as palavras ignóbeis de Ana Gomes, porque já foram tratadas. E não tenho pingo de paciência para a gente alarve que acha que a culpa do terrorismo islâmico é das suas vítimas, já falei disso no fb, o Bruno também já postou, por hoje já chega. Mas como há quem tanto se indigne porque o comunicado do MNE não referiu a liberdade de expressão – condenando evidentemente o atentado -, e como muita dessa indignação vem do sítio do costume, convém lembrar qual foi a reação de Freitas do Amaral, MNE de Sócrates, aquando da violência gerada pela publicação das caricaturas de Maomé em 2005 num jornal dinamarquês. (E que veio mais tarde a cair em cima também do Charlie Hebdo.)

Freitas do Amaral considerou que ‘o essencial’ não era condenar as ameaças e as manifestações violentas que ocorreram pelo mundo muçulmano e aqui e ali na Europa. Para Freitas do Amaral, o mais importante foi condenar o abuso da liberdade de expressão que ofendeu o Islão. E sócrates – a criatura que por estes dias pretende passar-se por mártir da supressão da liberdade de expressão – concordou oficialmente com o seu MNE. (De resto toda a esquerda se mostrou confortável com a posição do então governo.)

Freitas do Amaral e sócrates foram dois políticos que, a seu tempo, se colocaram do lado dos agressores terroristas contra as vítimas deste. E isto é algo que nunca ninguém deve esquecer.

Acrescento: o Pedro Morgado chamou-me a atenção para esta notícia, que mostra que o BE também teve um comportamento decente nesta história, que o PCP (dando-lhe dignidade de corredor) também esbracejou e que Alegre se fez ouvir no bom sentido (mais ou menos). Em suma, nem toda a esquerda aceitou de forma impávida esta reação ignominiosa.

Os países têm os ex-presidentes que merecem

Faz por estes dias 10 anos que estava em Miami. Vivia-se o rescaldo do tsunami do Índico e as notícias estavam cheias disso. A ajuda internacional americana tinha dois rostos, que se juntaram e dispuseram a trabalhar juntos para socorrer as populações afetadas: Bill Clinton e George Bush (o pai). Vi-os em vários programas televisivos e impressionou-me a cumplicidade, o respeito, o apreço e até a amizade entre aqueles dois homens que as ideias políticas dividiam e que haviam disputado eleições amargas. Não havia azedume, não deixavam recados insinuados, não espetavam farpas; simplesmente consideravam-se iguais e trabalhavam juntos em algo que evidentemente era mais importante do que divergências políticas. O respeito que eu tenho por ambos veio sobretudo desses dias. São dois homens grandes acima de querelas partidárias.

Isto é nos Estados Unidos. Por cá os ex-presidentes são criaturas tão pequenas e imersas nas tricas partidárias que só nos fazem sentir vergonha pelas figuras alheias. Ramalho Eanes é o único que se porta decentemente como convém a um ex-PR. Sampaio é a nulidade política que sempre foi. E Soares – que confessa à enlevada Clara Ferreira Alves ser um cidadão ‘especial’ – não pára de se embaraçar (isto se conhecesse o conceito) nem de mostrar que se julga acima das responsabilidades exigidas ao comum cidadão – quando deveria ser ainda mais escrupuloso no seu cumprimento – ou proprietário das instituições. Publicamente e sem qualquer vergonha condiciona uma investigação criminal – como fez na primeira visita a sócrates – e agora vem exigir (quem é Soares?!) ao PR que se pronuncie sobre uma investigação judicial em curso. Que tanta gente se babe com Soares só revela como estamos mais perto de Cuba do que do Estados Unidos.

Não temos culpa que Raquel Varela não tenha tido educação em pequena

Há pessoas que se não têm a sorte de receber educação e formação em casa, deviam tentar suprir essa falta através de aprendizagens avulsas com a vida. A literatura é um meio fabuloso, para isso como para tantas outras coisas.

Lembram-se daquela cena de Emma, de Jane Austen, em que no piquenique Emma – a filha do mais rico proprietário de terras da zona, rica, bonita, inteligente e educada – ridiculariza Miss Bates, a solteirona ridícula e pobre? E de como Mr Knightley de seguida descompõe Emma por ela, da sua situação privilegiada e sendo uma espécie de trend-setter rural, ter abusado publicamente de uma mulher que já nada tem se não o respeito das pessoas da aldeira? Bom, isto é mais ou menos algo precioso que sempre me foi transmitido pelo meus pais – para além, bem entendido, de me ensinarem a avaliar as pessoas pelo que são, não por bens materiais que possuam, por estatuto social, por cargo profissional (há muito imbecil que chega longe) ou, até, por graus académicos que obtenham (que, como se vê por Raquel Varela, um phd não é certificado de ausência de estupidez). Que era inaceitável de alguma forma maltratar alguém por não ter tido as vantagens de que eu felizmente dispunha.

Raquel Varela não teve a sorte que eu tive de ter este bom pedaço de formação, mas certamente que nos seus anos de vida poderia já tê-lo aprendido, de forma a não fazer as figuras indecorosas que faz ao gozar com a mãe de Cristiano Ronaldo. É certo que é uma tendência que se apercebe nesta esquerda malcriada (desculpem lá, mas chamar esquerda caviar a esta gente é abastardar o conceito de esquerda caviar; é, quando muito, esquerda presunçosa) o facto de aproveitarem a sua proximidade com o poder político ou uma perceção (às vezes errada) de que estão a lidar com maltrapilhos, sem poder económico e mediático e social que lhes permita uma eficaz resposta, para abusarem das outras pessoas. Isto foi visível também, por exemplo, na tentativa (que fez boomerang) de Raquel Varela humilhar na tv em horário nobre um miúdo empreendedor. Mas alguém devia explicar a Raquel Varela que verdadeira falta de gosto são as coisas indecorosas que escreve, que dão muito mais vómitos que o facto de a mãe de Ronaldo ver a Casa dos Segredos.

Enfim, é ler a Isabel Santiago Henriques sobre o que Raquel Varela escreveu, que fica tudo dito. E perceber que por muitos livros que Raquel Varela tenha lido, peças de teatro que tenha assistido, boa música que tenha ouvido – bem, nada disso lhe aproveitou para a tornar uma pessoa decente.

Votar à esquerda, dormir à direita

Do meu texto de hoje no Observador, que o André aqui já referiu, deixo o primeiro parágrafo. Com incursão à polémica que o Carlos já aqui contou.

‘Nas primeiras décadas do século XX associava-se uma expressão aos políticos socialistas britânicos que vinham de famílias da classe alta: vote labour, sleep tory. Irredutíveis defensores da socialização dos meios de produção (era assim o socialismo antes do colapso da União Soviética, é bom lembrar, que agora há muito socialista saudoso dessa pureza ideológica), viviam em consonância com os seus ideais: habitavam nos bairros chiques de Londres ou nas suas casas ancestrais no campo, frequentavam socialmente apenas os seus pares da pirâmide social, cumpriam todos os rituais upper-class e – daí a expressão – para o adultério escolhiam as senhoras casadas da mesma classe social.’

E, sobre a visão comunista da beleza feminina na China maoísta, para quem tiver curiosidade, este paper (dá para ler gratuitamente) dá umas pistas interessantes. E mais uma coisa. Não sei se concordo com a expressão ‘esquerda chique’ que se tem assciado ao objeto do meu texto. Para mim, esquerda chique era a Nancy Mitford apoiando o PS francês vestida de Dior – o que é uns patamares acima, por todas as razões (incluindo o talento para a escrita), de Isabel Moreira e Raquel Varela.

convite mal intencionado à conta do ordenado do motorista de sócrates

Sabem aquela boa gente adoradora de sócrates que passa a vida a clamar contra as empresas que pagam o salário mínimo e contra os patrões que pagam absurdamente pouco aos seus funcionários? Pois eu gostava de saber o que pensa esta boa gente do facto de o motorista de sócrates ganhar só 600€ por mês. É um ordenado baixo para um motorista, uma empregada doméstica a tempo inteiro ganha mais do que isto, enfim, é muito pouco dinheiro, a vida está cara, quem consegue viver com umas centenas de euros por mês?

Convido, assim, a boa gente que a boa gente que admira sócrates e se escandaliza contra os baixos ordenados do país a comentar o facto de uma pessoa – socialista e pleno de consciência social e sempre pronto a dar prestações sociais (desde que pagas com o dinheiro dos outros, evidentemente) – pagar um ordenado ão baixo ao seu motorista. Sendo que essa pessoa, conforme se noticia, era bastante perdulário quando se tratava de si próprio e comprava fatos de gosto questionável mas caros, viagens, vida desafogada em Paris, carros vistosos (e também caros) e por aí adiante. Será que a boa gente que se escandaliza com salário mínimo não se escandaliza com este magro ordenado que o seu ídolo paga aos seus serviçais? Não veem nenhuma contradição entre este pobre ordenado e a justiça social que está sempre nas suas bocas – e na de sócrates? Ou já estão na fase de assumir publicamente que a justiça social é mesmo só para o dinheiro dos outros e não para o seu?

Bom, certamente que a ausência de comentários sobre o assunto se deve ao agudo sentimento de traição que estão a viver, porque quem passa a vida a insultar empresários que pagam salários baixos não deixará passar este flagrante caso de exploração do fator trabalho.

Tenho tido pouco tempo, muito trabalho, não tenho acompanhado devidamente o processo sócrates – que, como se sabe, o tempo escasso é para se gastar nas coisas importantes, que as insignificantes vão ficando para as calendas (ou para nunca). Mas já que falo deste caso, deixem-me fazer uns pequenos comentários sobre o advogado João Araújo, que tanto tem encantado o país – o que não espanta, que o país gosta de pavões. Um. Se sócrates tem necessidade de tentar passar a mensagem de que este é um caso político, desconfiamos que esta estratégia nasce da fragilidade da sua defesa quanto aos factos por que é investigado. E de quem tanto se queixa de desinformação, é João Araújo – que nos primeiros dias de detenção de sócrates dizia não ser certo que fosse o advogado de sócrates porque não tinha ainda procuração – o mesmo que as notícias dizem ter-se reunido com sócrates antes da detenção e tentado negociar que os depoimentos fossem feitos em liberdade? Se sim, podia pelo menos lançar-nos poeira para os olhos com maior subtileza e inteligência.

Heim, o Bloco a portar-se bem

Muito bem o BE nestas duas iniciativas legislativas que foram ontem aprovadas. Não percebo duas coisas.

1. Por que razão as notícias nos títulos escolheram sempre dar a primazia a aspetos jurídicos (ser crime público ou não) em vez de ao que é mais importante: que a violação tenha deixado de ser crime apenas quando algum grau de violência física tivesse sido usado (sancionando-se, assim, violações em que se recorresse a ameaças ou quando a mulher estivesse embriegada ou drogada de mais ou em que não se usasse muita violência) para passar a ser crime sempre que a mulher não dá o seu consentimento.

2. Por que diabo todos os partidos exceto BE e Verdes se abstiveram? Entendo as objeções que alguns possam ter à questão do crime público, mas na questão do consentimento não vejo como possa haver dúvidas. Só posso entender que não tenham querido associar-se a um projeto do BE. Mas tal como foi indecoroso o uso do PS das tragédias de dezenas de mulheres para benefícios eleitorais, também me custa que prevaleçam politiquices sobre a necessidade de melhorar a legislação nos casos de violência sexual sobre mulheres (ou sobre quaisquer outros grupos demográficos ou sociológicos, for that matter).

Um presente de Natal de The Daily Beast para os fãs de Hitchcock (eu, por exemplo)

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‘Ingrid Bergman was among the hosts of the dinner, and she did a fine job of it, direct and sincere in her admiration for Hitchcock. At the end of the ceremony applauding him, Bergman walked to his table to embrace Hitchcock. With help, he got to his feet, and when she hugged him he lifted his arms slightly as if to return the hug. He was not a man given to casual affectionate display; the moment was charged with emotion.

“She’s been in love with me for 30 years, you know. Mad for me all her life,” he’d announced to me one afternoon earlier on. And he repeated it from time to time, drunk and sober. “Hitch,” I said as gently as I could, “why are you telling me this? You know, I was a journalist for some years … you do know that, don’t you?” […]

Today, with the memories of Ingrid Bergman so vivid in his mind, it seems clear that he’s been thinking about her a great deal. When they were working together, 35 years ago, she was in her prime and one of the most beautiful women in the world. She was a celebrated bohemian, considered a scandalous woman. It’s not unrealistic to think they might have had a love affair if he had wanted it or known how to ask. And perhaps they did–but I doubt it. Now in his old age, Hitchcock develops crushes on young women, gives them money, and asks them to do God knows what. It may be that some hagiographer yet to come will find the stained sheets of fact and memory amid his papers. To make great films, that’s one thing; to make yourself happy, that’s quite another.’

O texto é longo mas vale todo imenso a pena. Até se aprende como, afinal, um perfil com uma grande protuberância na zona do estômago pode ser uma mais-valia. (A fotografia é um presente meu.)

Atualização: Os fãs de Hitchcock que leem o Insurgente são exigentes com os presentes que se lhes dão por aqui. Houve já quem reclamasse por estar Grace Kelly na fotografia em vez de Ingrid Bergman. Ora bem, a fotografia, como é por de mais evidente a quem me conhece, foi escolhida por estar lá James Stewart – que, helas, não contracenou com Bergman em filmes hitchcockianos. Mas como sou uma boa alma, aqui vai uma fotografia de Ingrid Bergman (e Cary Grant, que mania de achar que o que interessa ao mulherio não conta) para ilustrar o texto.

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