Sixties revisited

E agora para desenjoar das minhas beatices todas dos últimos tempos, aqui vai uma história de prostitutas. (Se bem que o tema prostitutas também seja muito bíblico.) E é por histórias destas de costumes que a Vanity Fair continua a ser uma revista imperdível.

‘In Madam, a memoir she published in France in 1994, Fernande Grudet portrayed herself as an aristocrat, born in the château country of the Loire Valley, where her father was a local solon. She had been educated at a Visitandines convent, taking vows of austerity. She had also been a war heroine, a Resistance fighter who paid for that resistance with an internment at a concentration camp.

Lies, all lies, according to a 2010 French television documentary about Claude. Trying to see the entirety of this program is like trying to crack the Da Vinci Code. The production company that had made it is defunct, and I could not find it in any film archive. It was available, in snippets, on the Internet. It alleged to show proof that père Grudet actually ran a snack cart at the Angers train station, that little Fernande had never been at the convent. As for her time in the concentration camp, ostensibly Ravensbrück, the program explored a story that Claude is said to have told about how she saved the life of Charles de Gaulle’s niece while there (or vice versa) and submitted to an affair with a German doctor in order to survive. A historian in the documentary said that Claude probably made all of this up, and the idea that the madam was ever interned was dismissed as another example of Claude’s talent for self-mythologizing.

But, according to Patrick Terrail, the proprietor of Ma Maison, “she had a camp number tattooed on her wrist. I saw it.”

Taki concurred. “I saw the tattoo,” he said. “She showed it to me and Rubi. She was proud she had survived. We talked about the camp for hours. It was even more fascinating than the girls.” But which camp was it? The myth may have been Ravensbrück, but only Auschwitz used tattoos. Hence the Rashomon quality of Claude’s life. Taki then told me that Claude had been imprisoned not for her role in the French Resistance but for her faith. “She was Jewish,” he said. “I’m certain of that. She was horrified at the Jewish collaborators at the camp who herded their fellow Jews into the gas chambers. That was the greatest betrayal in her life.”’

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O Papa Francisco e os irmãos mais velhos do filho pródigo

O meu texto de hoje no Observador.

‘Comecemos já por lamentar que Jesus – esse lamechas, coração de manteiga, incapaz de compreender o bem supremo de cumprir a estrita lei mosaica, ‘glutão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores’ (Mt 11,19) e que muito claramente não sabia o que era bom para si próprio – não tenha tido os bons conselhos dos atuais católicos tradicionalistas, os que impediram que se chegasse a uma maioria de dois terços (apesar de perto) para que a Igreja, finalmente, reconhecesse a sua obrigação (sim, obrigação) de acolher os católicos recasados e os homossexuais.

Se Jesus tivesse tido os bons préstimos dos atuais católicos conservadores, os Evangelhos estariam limpos daquelas histórias mal avisadas que Jesus congeminou. Vejam por exemplo o disparate da parábola dos trabalhadores da vinha. Onde já se viu o dono da vinha (i.e., Deus) recompensar da mesma forma os conscienciosos e esforçados que trabalharam todo o dia e os mandriões que só trabalharam uma hora? Onde já se viu um Deus que dispensa o mesmo amor e a mesma misericórdia aos que cumprem escrupulosamente e aos que apenas aparecem para dar um ar de sua graça? E mais uma: o que é isso do Deus-dono-da-vinha sair ele próprio para angariar trabalhadores? Um Deus que vai à procura incansavelmente dos que acedem vir para a sua vinha trabalhar em vez de ficar confortavelmente sentado esperando que lhe venham implorar por trabalho, fazendo entrevistas difíceis (Em que vinhas já trabalhou e por quanto tempo? Quantos cestos de uva apanha por hora? E etc.) e regateando o salário? Que ideia mais desaparafusada.

E o que dizer então da parábola do filho pródigo? Há um livro muito curioso que o padre Henri Nouwen escreveu a partir de meditações sobre o quadro O Regresso do Filho Pródigo de Rembrandt (o livro tem o mesmo nome). Evidentemente a parábola não é sobre o filho, é sobre o Pai que acorre a acolhê-lo mal o vislumbra ao longe, festeja o seu regresso e nem quer ouvir desculpas ou promessas e nem lhe exige garantias de bom comportamento futuro; basta-lhe saber que o filho quer estar com ele. (Tal qual a Igreja atualmente com quem tem família não reconhecida num casamento católico ou é homossexual, não é?)’

O resto está aqui.

E agora um texto sobre cristãos irritantes

E já que estou grounded com a criança mais nova com febre, aproveito e aconselho a leitura de mais este post do João Miguel Tavares em resposta aos oh-tão-habitais ‘não sei como se diz cristão se não concorda com o que se escreve numa encíclica’ (no caso a Humanae Vitae).

É certo que nos últimos anos o grupo dos cristãos que gosta de pertencer a um grupinho exclusivo e de difícil entrada anda – com o incentivo de alguma hierarquia da Igreja, desde logo João Paulo II (sobretudo) e Bento XVI (que apesar de tudo revelava algum gosto pelo debate e vontade de ser conciliador) – tem espalhado a ideia de que um católico tem de concordar com tudo o que a Igreja e os papas produzem, como se algo que a parte humana da Igreja produzisse pudesse ter um valor sequer comparável com a Bíblia e as verdades fundamentais constantes do Credo e dos dogmas. E é conveniente ir espalhando a ideia contrária – e certa. O catecismo é algo mutável, pelo que não é matéria de Fé. E as encíclicas do Papa ou determinações doutrinárias do Igreja são algumas vezes benéficas, outras irrelevantes e outras aberrações. Como, de resto, é normal nas empresas humanas. Nem umas nem outras são matéria de Fé.

Além da questão da contraceção, outro disparate aberrante que a Igreja produziu e no qual ainda persiste é essa forma light de socialismo que é a Doutrina Social da Igreja. Graças a Deus, nada disto é matéria de Fé.

Então um texto sobre sexo – pronto, ok, sobre contraceção

A propósito de dois posts no Pais de Quatro do João Miguel Tavares e da Teresa Mendonça sobre a visão da Igreja sobre contracetivos, apetece-me oferecer os meus dois cêntimos.

E aconselho a leitura das críticas do João Miguel à Humanae Vitae, porque se dá ao trabalho de escrever longamente e cheio de razão sobre o assunto. Eu, sobre a mania da Igreja de dar palpites sobre a sexualidade dos casais, sou mais rápida do que o João Miguel: os padres que ganhem juízo, preocupem-se com os pobres e esfomeados e vítimas de violência no mundo (e já têm muito trabalho com esses), se lhes apetecer ocuparem-se da sexualidade, bem, têm muitos padres abusadores de que tratar antes de ocuparem espaço mental com a vida íntima dos casais. A Igreja devia dar-se por satisfeita com os casais que escolhem casar pela Igreja e permanecer casados, em vez de lhes levantar problemas – porque os padres e irmãos e freiras não sabem (até porque costumam rodear-se de leigos desejosos de lhes mostrar como são bons e puros e capazes de seguir todos os ensinamentos da Igreja, mesmo – ou sobretudo – os mais absurdos) mas os casais com filhos vivem cansados, têm filhos e problemas profissionais e com a filharada, só um louco no cimo disso ainda vai dizer quando é que deve haver abstinência ou atividade sexual.

E, quanto aos tais métodos naturais que a Igreja aconselha (até parece que não tem mais nada com que se ocupar), se forem seguidos como a Igreja pretende, ainda têm um pormenor que me irrita de sobremaneira e que é fruto do intrínseco machismo da Igreja (seria de supor que quem tanto clama contra as ideologias de género e afirma as diferenças entre homens e mulheres entendesse que homens a decidir não conseguiriam responder de forma eficiente às questões das mulheres, desde logo porque nem as conhecem ou percebem, mas não). Segundo a Igreja, as mulheres devem abster-se de ter sexo durante o período de ovulação, precisamente quando estão hormonalmente mais propensas à atividade e ao prazer sexuais. Uns queridos, estes padres. (E para os maluquinhos católicos que lerem isto, saibam que dei conta desta minha objeção ao meu padre preferido quando fiz CPM – por acaso outro casal que lá estava eram a Teresa e o João Miguel – e que não só não fui expulsa e excomungada como o referido senhor presidiu ao meu casamento e me teve a participar nas missas durante anos).

Mas, curiosamente, a Teresa também tem muita razão, sobretudo no que toca à pílula e à sua defesa dos métodos naturais. A pílula (ou outros métodos contracetivos hormonais que não tenham a desvantagem de se poder esquecer de tomar o comprimido diário) apesar da imensas e reconhecidas vantagens, não é nenhuma panaceia e tem inúmeros efeitos adversos: dores de cabeça (das verdadeiras), mudanças de humor, aumento de peso, celulite a explodir, varizes, tensão arterial descontrolada. E não é nada uneard of que a pílula diminua o apetite sexual das mulheres.

E por tudo isto vem a discussão dos métodos naturais (a Teresa explica, não se trata das temperaturas) e esta discussão não tem de ter nada a ver com religião. Como não podia deixar de ser, as americanas discutem o assunto em abundância e, nos casos de loucura extrema, estão em pé de guerra as fações pró-pílula e pró-métodos naturais. Com acusações de conspiração da indústria farmacêutica para ganhar dinheiro convencendo as mulheres a usarem a pílula de um lado e, do outro, denúncias de que querem aprisionar as mulheres na moral sexual castigadora das religiões. Duvido muito, apesar das garantias que os médicos dão, que os métodos naturais sejam praticáveis em quem tenha, só um exemplo mas há muitos, ciclos menstruais irregulares. Mas em certas circunstâncias e para certas mulheres, aproveitar o ciclo hormonal (e não vejo nenhuma razão por que não hão-de usar preservativo na altura da ovulação, quando a Igreja recomenda abstinência, por exemplo) será talvez a opção mais divertida em termos sexuais – continuando segura. E como diz a Teresa, devia ser ensinado em Educação Sexual, porque permite que uma mulher conheça detalhadamente o funcionamento do seu corpo (o que é sempre bom) e, até, ajuda quem quer engravidar.

O bottom line é: todos os métodos contracetivos têm vantagens e inconvenientes e cada mulher e cada casal devem decidir o que melhor lhes serve. E é um disparate tão grande a Igreja gastar tempo com pílulas e preservativos como rejeitar-se o método de Billings só porque a Igreja o aconselha. E nos dias em que a Igreja parece ter acordado para alguns problemas na sua relação com muitos católicos, esta questão dos métodos contracetivos que a Igreja aprova deve também ser debatida. Desde logo se a Igreja tem de aprovar ou desaprovar alguma coisa.

Ateliers abertos em Lisboa

ateliers

Acabei de saber desta iniciativa dos Ateliers Abertos em Lisboa (hoje e no fim de semana) pela professora de pintura da criança mais velha e acho a ideia fabulosa. Não só porque passar um tarde de fim de semana a visitar ateliers é um ótimo programa como isto foi magicado por uma associação que se chama Castelo D’If e qualquer pessoa que tenha lido tantas vezes como eu o Conde de Monte Cristo aí entre os doze e os treze anos não pode se não ficar derretida. (aqui a brochura com datas, horas, ateliers e mapas)

A democracia está ao serviço do PS, não sabia?

O meu texto de ontem no Observador.

‘O cidadão ingénuo poderá pensar que a democracia representativa tem como fim a promoção do bem comum. E que os partidos políticos existem para dar voz às diferentes visões do mundo dos indivíduos; para que, pelo confronto ou pelo compromisso, as opiniões do maior número de pessoas sobre o que é uma sociedade justa fiquem contidas nas leis. Pois bem, se vive com esta ilusão, caro cidadão ingénuo, é tempo de encarar a realidade: a democracia representativa, pelo menos a portuguesa, não serve para nada disso. Por cá, serve para assegurar os interesses do PS.

Não, não me refiro àquelas realidades insidiosas que ocorrem – e ocorrem tanto mais quanto maior volume de dinheiros as administrações centrais e locais movimentarem – de promiscuidades entre empresários (se calhar deveria dizer ‘alegados empresários’) e políticos. Também não me refiro a alucinações como a cientificamente comprovada da Juventude Socialista nas eleições europeias de 2009, quando reclamava em outdoors o ‘direito ao TGV’. (Outdoors de resto perigosos. Eu ia tendo um acidente para os lados do campus da Universidade Católica ao ter a minha visão turvada pela leitura de tal delírio.)

Refiro-me a Elisa Ferreira quando, nas eleições do parágrafo anterior e com admirável candura, admitiu que obras nos bairros sociais do Porto haviam sido feitas com ‘dinheiro que é do estado, é do PS’ (JN 9/5/2009).

E como o dinheiro que é do estado é do PS, António Costa não teve problemas de consciência em estar quatro meses a receber ordenado de presidente da Câmara Municipal de Lisboa enquanto se dedicava a tempo inteiro à campanha interna do PS. E como o dinheiro que é dos contribuintes lisboetas também é do PS, Costa não tem pudor em dar anualmente dezenas de milhar de euros à Fundação Mário Soares (cujo contributo para a sociedade é irrelevante) para contentar o senhor que está no nome da fundação, que é, no regresso do favor, um dos seus apoiantes mais entusiastas. Ou que inunde Lisboa de cartazes a felicitar outro seu apoiante (Carlos do Carmo) por este ter recebido um prémio. (E a comunicação social embevecida perante um político que quer ser primeiro ministro mas dá este uso questionável ao dinheiro dos contribuintes.)’

O resto está aqui.

Das profundezas (ou será das superficialidades?) da memória

Aparentemente houve um alucinado do PS que veio comparar este governo ao ‘pior’ do governo de Santana Lopes.

É só para avisar a gente do PS que quando o governo de Santana Lopes caiu – por muitas objeções que tal governo levantasse ou por mais défices orçamentais inexistentes tenha inventado Vítor Constâncio – não foi necessário um resgate financeiro internacional do FMI. Já quando o governo de sócrates se demitiu…

O PS aparentemente ainda não percebeu a gravidade do que fez ao país. Mas os eleitores, podem estar descansados lá pelo PS, perceberam. Nem percebeu o PS que os eleitores sabem bem atribuir a culpa destes 3 últimos anos, por muito que estejam insatisfeitos com o governo atual.  E pela razão mais elementar: estão a pagar do seu bolso o que o PS fez ao país.

sócrates e a imbecilidade

É conveniente, porque é um grande apoiante do atual líder do PS e o atual líder do PS foi inteiramente cúmplice (e até se orgulha) dos governos socráticos, voltarmos a dar alguma atenção à criatura socrática. (Com grande risco, se não mesmo definitivo prejuízo, para a nossa saúde).

Diz a criatura que ‘O Governo tem de dizer [aos portugueses] se é a favor ou contra a venda da Portugal Telecom’. E mais: ‘”o Estado não pode abandonar a PT” e sujeitá-la ao “mercado das telecomunicações”’.

Passemos ao lado da mentira compulsiva habitual na criatura – dizer que a fusão da PT e da Oi só foi decidida em 2013, como se a aliança da PT e da Oi só nessa altura tivesse ocorrido, em vez de ter sido decidida por sócrates himself enquanto pm, como bem lembrou Pires de Lima.

Passemos também ao lado do facto de tanto a criatura socrática como Costa terem pertencido a governos – os de Guterres – que privatizaram (e bem) em força. Afinal não custa acreditar que Costa (e sócrates se alguma vez se chegar a candidatar à presidência, que é o seu grande sonho) para vencer eleições conte com os eleitores com maior défice de memória – e de inteligência e, já agora, de apreço por quem tem coluna vertebral.

Não passemos ao lado – porque é relevante – do pormenor de o mesmo sócrates que decidiu o investimento da PT na Oi ter sido, depois de corrido do governo português, contratado, com o patrocínio de Dilma, para representante de empresas brasileiras na UE. Ou, em linguagem mais corrente, para fazer lobby na UE pelas empresas brasileiras. Ou, em ainda mais corrente, ‘para abrir portas’ na UE. (Não que a coincidência de atividade entre sócrates e PPC vá trazer alguma vergonha aos socráticos quando atacam o atual pm por ter feito o que o seu santo de altar faz nos intervalos de dissertar sobre tortura.)

Chegando ao importante. Aparentemente o PS está a transformar-se num partido marxista que não reconhece a propriedade privada. (Não que os partidos do governo tenham grande palmarés no que a isto toca.) Porque quem tem de se pronunciar sobre a venda da PT Portugal são os acionistas da PT – e o estado que vá meter o bedelho nos seus assuntos, que já tem muito que se ocupar e não age de molde a dar grandes lições de eficiência e eficácia. Portugal não corre nenhum risco de ficar sem telecomunicações com a PT Portugal pertencente a este ou àquele. O único risco que se corre se o estado não se mantiver arredado de negócios privados é o de Costa, quando for pm, não ter uns tachos na PT para recompensar os seus boys com ordenados anuais de mais de 500.000€ – tal como sócrates fez.

Seja patriota: faça amigos e fuja do sal

O meu texto de hoje no Observador.

‘Há dias li um texto de Anna Almendrala no Huffington Post sobre amizades. Dizia lá que, além das reconhecidas vantagens de ter amigos (companhia, diversão, cumplicidade, fuga da solidão, apoio em tempos problemáticos e mais trezentas e quarenta e sete vantagens), se comprova que ter amigos faz bem à saúde. A certa altura o artigo cita mesmo um estudo que equipara o risco de mortalidade de quem não tem uma rede social forte ao de quem fuma quinze cigarros por dia ou bebe diariamente seis bebidas alcoólicas.

Enquanto lia o texto pensei enviá-lo às minhas amigas mais chegadas, quiçá escrever um post sobre amizade, referindo como as minhas amizades de adolescência ainda são tão centrais na minha vida (tanto que vinte anos depois ainda contacto com frequência com a maioria, e jantamos e fofocamos e até engravidamos ao mesmo tempo), como incentivo os meus filhos a serem amigos dos filhos dos meus amigos, como nos últimos anos a blogosfera e o facebook permitiram que me tornasse amiga de pessoas que nunca conheceria (e que ninguém vilipendie estas novas redes ao pé de mim). Poderia até elabor

ar sobre as amizades femininas – as amizades entre mulheres são das relações humanas mais curiosas (e recompensadoras e cúmplices) que se podem estabelecer, e são tantas vezes desconsideradas por homens (os que não concebem não ser o centro de todas as relações femininas) e por mulheres (as sem arte para constituir estas deliciosas amizades). Com algum tempero de questões de género, desde logo como provocação amigável a quem se amofina com estes temperos.

Pensava eu o exposto acima, mas continuei a ler o texto e tive os inícios de um pequeno ataque de nervos. É que às tantas se passa de elencar os benefícios para as pessoas das suas amizades para passar a ponderar os benefícios para a saúde pública da existência das amizades. Chega mesmo a lamentar-se a necessidade de maior pesquisa neste campo antes de se fazerem ‘campanhas de saúde pública sobre relações’.’

O resto está aqui.

Ó senhor ministro, não ceda ao facilitismo

O João Miguel Tavares diz o essencial na sua crónica do Público de hoje sobre Crato e a impossibilidade de um ministro continuar em funções depois do caos deste início de ano escolar: ‘Nuno Crato deve ser devidamente responsabilizado – é inadmissível ter um governo que exige tanto aos portugueses e tão pouco a si próprio.‘ De facto de um governo que acha que temos de levar com austeridade para aprendermos a não ser consumistas, que aconselha os portugueses a não serem ‘piegas’ e, em caso de descontentamento, a emigrar, nada mais se pode esperar do que a exigência de que os ministros se comportem pela bitola que pedem à população. E de um ministro que tinha um discurso tão assente na exigência, no rigor, no combate ao facilitismo, menos ainda se entende como não aplica a si próprio aquilo que advoga.

De resto algo (entre muitas coisas) que eu não desculpo a este governo é não ter tornado o critério de incompetência como causa para despedimento (de facto, não aqueles rodriguinhos que estão na lei e não se sustentam perante os juízes lunáticos dos tribunais do trabalho). E a desestabilização da vida de tantos alunos, professores e famílias que Crato deixou que ocorresse – por mau planeamento, por défice de controlo, por pressa de implementar o que estava impróprio para implementação – é uma tremenda incompetência. Que não é nova no ministro, que é já conhecido por dar cabo do que existe (que pode ser questionável mas vai funcionando) para o substituir por nada ou por impraticabilidades. Foi o caso do estatuto do bolseiro, das aulas de inglês no primeiro ciclo, do novo programa de matemática (do que pude observar pelo meu filho mais velho, o anterior era extremamente bem concebido; o novo a ver vamos e de qualquer forma voltamos à maluquice de passar a vida a mudar programas) e, até, dos testes intermédios no 2º ano e no 4º ano, cuja utilidade ainda não vislumbrei.

The Daily Beast está muito atento ao que se escreve aqui no blog

Mais achas para a discussão da existência histórica ou não de Jesus (enquanto homem, não enquanto Deus, que isso são outros quinhentos).

Antes de vos deixar com a prosa escorreita e bem humorada dos autores do texto, aproveito para dar um exemplo de uma boa dose de gente que (segundo os positivistas para quem só sucedeu aquilo que há prova – e de testemunhas idóneas e neutras, que não se admitem relatos com parcialidade) não tinha existido até ter passado a ter existido. Trata-se de gente pertencente a uma seita judaica, com vida monacal, composta por homens, mulheres e (inevitavelmente) crianças, e com algumas semelhanças (e muitas diferenças) com os rituais dos cristãos (o batismo pela água, por exemplo). Foram contemporâneos de Jesus e nada se sabia sobre eles – supõe-se que sejam os misteriosos essénios – até se descobrirem num imensamente feliz acaso em 1946 os Manuscristos do Mar Morto em Qumran.

«Michael Paulkovich, author of No Meek Messiah, has proclaimed that Jesus never existed. In his book, the author details his shocking discovery of “one-hundred-twenty-six authors from the time of Jesus who should have, but did not record anything about the Christian godman.”

Paulkovich’s case rests on three main pillars. First, the discovery that no ancient writers from the first few centuries CE mention Jesus. Second, the assumption that most writers should have mentioned Jesus, since he was the Son of God and all that. Third, the keen observation that Jesus never wrote anything himself. Although an undeniably compelling trinity of argumentation, it is not without its logical problems.

Let’s get one thing straight: There is nigh universal consensus among biblical scholars—the authentic ones, anyway—that Jesus was, in fact, a real guy. They argue over the details, of course, as scholars are wont to do, but they’re pretty much all on the same page that Jesus walked the earth (if not the Sea of Galilee) in the 1st century CE.

So that brings us to Paulkovich’s list: 126 ancient writers, 0 references to Jesus. The list has a few issues. Although everyone on it is indeed ancient, some are a little too ancient—as in, lived-a-hundred-years-before-Jesus too ancient (Asclepiades of Prusa, for example).

A great many of the writers are philosophers, some quite famous (Epictetus). Philosophers aren’t really known, now or then, for their interest in current events. Some writers are mathematicians, rhetoricians, satirists, poets, or epigrammatists (Martial). Unless we’re looking for an ancient limerick about Jesus, these are probably the wrong authors to be reading.

Fully fourteen of the 126 are doctors, including a dermatologist, an ophthalmologist, and a gynecologist (Soranus). We can first point out that Jesus was supposed to have a gift for healing, so he probably didn’t take his annual checkup seriously. Also, even if Jesus did visit a doctor or fourteen, and even if they kept records of the savior’s health, we could never have access to those records because, you know, HIPAA.

There are some authentic historians on the list, though we can probably assume that someone writing a biography of Alexander the Great (Curtius Rufus) might not find an appropriate place to slot Jesus into that story. The vast majority of the authors listed, however, have none of their writings preserved for us, or mere fragments at most. It’s hard to say that a writer didn’t mention Jesus when all we have of that writer are a few lines quoted in someone else’s work.

We do have the writings of Sextus Julius Frontinus—but what he wrote was a treatise on aqueducts. Jesus may have been the fountain of life, but it was the Romans who had the decent delivery system.»

O resto está aqui.

Abutres islâmicos

Em 2008 lembro-me de ter lido – salvo erro no USA Today (hei-de ter o recorte do texto algures, mas ao fim de vários anos e de uma mudança de casa não faço ideia onde) – uma reportagem sobre os adolescentes e jovens adultos no Iraque durante a guerra. A surge já se fazia sentir, mas a situação estava longe de estável – como se viu, ainda não estava estável quando Obama (naquela que deve estar no top 10 da decisões mais estúpidas de um líder político na idade contemporânea) decidiu retirar as tropas americanas do Iraque. Dizia a reportagem que os pais inicialmente se preocupavam com as filhas, não fossem elas envolverem-se com intenções românticas e/ou sexuais com os militares americanos. E que das filhas passaram depois a preocupar-se sobretudo com os filhos, temendo que estes se radicalizassem e juntassem aos rebeldes sunitas que combatiam os americanos. (Sim, aquelas coisas abjetas de mães exibindo felicidade porque um filho seu se matou num ato terrorista que de vez em quando apanhamos nas notícias são resultado de personalidades doentias que, felizmente, não são partilhadas por todos as mães e pai muçulmanos).

Agora, numa curiosa revolução sexual islâmica (se calhar lá estão à procura da sua Joana D’Arc islâmica), também já as raparigas correm o risco de se radicalizarem, ainda que a sua grande utilidade para os radicais islâmicos continue a ser a de ‘noivas’ dos jihadistas e de produtoras de herdeiros da sua nobilíssima atividade. Este texto do Observador é, por isso, sintomático e preocupante. Como se a internet e as redes sociais não tivessem já perigos suficientes para os adolescentes (e preocupações e cuidados para os pais), agora há ainda estes abutres islâmicos espreitando quando os adolescentes estão frágeis e vulneráveis para os recrutarem – e explorarem.

O governo afinal quer promover as importações

Eu uso diariamente um certo produto que costumo comprar nas farmácias ou nas parafarmácias. Lá no meio do verão pretendi reabastecer-me de mais umas tantas caixinhas (são pequeninas e adoráveis) e, para meu choque e horror, informaram-me que tinha sido retirado do mercado ‘pelas autoridades’ por causa de um dos materiais que são usados para a sua embalagem e perfeita conservação enquanto os fiéis consumidores não os usavam. Propuseram-me na farmácia um substituto de outro material sem o proto-assassino componente (que por acaso manteve e embalou o dito produto sem que qualquer dano me tivesse feito durante os últimos quinze anos) que eu, embora amuada, comprei e experimentei.

Não gostei; a qualidade do produto que as nossas queridas autoridades autorizam por cá é assaz deficitária. Valeu-me no entanto vivermos num continente de bárbaros e ignorantes que ainda não se regem pelos apertados padrões civilizacionais do nosso país (provavelmente nem sequer têm uma ASAE treinada em técnicas antiterroristas, os rústicos) e continuam a vender o radioativo produto aos desprevenidos que o querem comprar. Fui à net, há sites e mais sites a vender aqueles perigosos exterminadores da humanidade e eu acabei a encomendar um número considerável de caixas à Amazon britânica.

Não sei se esta bonita decisão de banir um produto procurado teve mão do omnipresente (em tudo o que é imbecilidade governativa vagamente relacionada com o corpo e a mente) Leal da Costa, mas seja quem for o autor de tão iluminada decisão, o resultado é este: em vez de comprarmos cá, vamos agora comprar lá fora.

O dinheiro dos políticos sem dinheiro

‘Há aqueles políticos que entram na vida política profissional com pouco mais do que a roupa que têm no corpo – para começarmos o texto com imagética pitoresca – e que lá para os cinquenta e picos anos se retiram da política profissional possuidores de casas na Quinta da Marinha e/ou na Quinta do Lago, gordas carteiras de investimentos, enfim, com o ar próspero de quem teve rendimentos mais generosos do que os relativamente modestos ordenados dos políticos. E há também – e igualmente curiosos – os políticos que saem (geralmente obrigados por derrotas) da política ou que por lá continuam sem que constituam magras poupanças ao alcance da classe média. Há quem os elogie; no entanto a mim deixam-me inquieta.

Vejamos o caso de Marcelo Rebelo de Sousa, saltitante entre a política e a sua atividade profissional fora da política, que, como bem nos lembraram quando MRS foi presidente do PSD, lhe trazia largos rendimentos que perdeu com estas funções. Estes largos rendimentos – vindos dos pareceres caros, da universidade, dos comentários… – levar-nos-iam a pensar que MRS acumulou já um simpático património. Ora há uns anos, no Conversas Improváveis com Marcelo Rebelo de Sousa e Ricardo Araújo Pereira, afirmou o político/celebridade mediática que antes da presente crise económica gastava o que ganhava, já havia avisado os filhos que não teriam herança e que apenas com a crise percebera a necessidade de mudar os hábitos.’

O resto aqui.

Notas sobre o duelo de cavalheiros (enfim, são o contrário disso)

Sobre Costa haverá muito a dizer. O sentimento de entittlement sobre a coisa pública que carrega, visível na suprema lata com que mantêm o cargo (e o ordenado) de presidente da CML enquanto passa quatro meses a passear-se pelo país em trabalho eleitoral das primárias do PS, ou como afirma que não devia ter dado oportunidades a Seguro, como se lhe coubesse permitir que Seguro (acaso fosse capaz) brilhasse. O seu percurso profissional, sempre feito na política e na traiçoeirice que esta proporciona, que nos garante desde já que teremos um pm que não faz a mais pequena ideia do que é, por exemplo, uma PME (daquelas, que são a maioria, que não vivem empoleiradas no dinheiro dos contribuintes, que essas Costa provavelmente conhece muito bem). A sua produção assustadora de banalidades, tanto mais grave quanto faz da política vida há décadas, revelando que é apenas um gestor de dinheiros e de tachos, que ideologia não tem nenhuma e é incapaz de alinhavar ideias que vão além de tonterias como ‘tenho visão estratégica’, ‘precisamos de uma agenda para a década’, o que faz falta ‘é aumentar a riqueza’. Mas isso fica para depois. Para agora uns pequenos apontamentos sobre as primárias e o PS segurista.

1. As primárias foram um sucesso, muitos simpatizantes votaram, saiu delas um vencedor com imensa legitimidade. Usemos mesmo um cliché: um lindo exercício de cidadania. Os simpatizantes que votaram estão de parabéns. Mas, como já referiu José Manuel Fernanades, por exemplo, votou muito menos gente proporcionalmente que noutros países. Porquê? Em minha opinião, pela mesma razão das vitórias pífias do PS (cuja culpa de facto não foi só de Seguro): o PS foi um partido despesista desde 1995 até 2011, ano em que se não fosse a troika teríamos falido. Os eleitores não são parvos (apesar de terem votado duas vezes em sócrates) e sabem perfeitamente quem nos trouxe até estes 3 anos de garrote.

2. Todos os métodos de escolha de líderes partidários serão certamente melhores do que as diretas aos militantes. Este tipo de eleições trouxe-nos sócrates e Passos Coelho. Ganhavam os líderes que melhor controlavam o aparelho – i.e., que mais prometiam e que maiores benesses tivessem possibilidade de ganharem para os aparelhistas. As diretas em si próprias eram a garantia que o estado continuaria a servir os interesses dos aparelhos partidários e, logo, continuariam mastodôntico, alarve, em processo de hiper-obesidade acelerada. Com as primárias a escolha do líder volta a fugir apenas destes critérios, porque os simpatizantes não votam com o cargo x em vista. É, para mim, uma gigantesca melhoria.

3. Claro que nenhum partido que quer governar pode ter um líder como Seguro. Quem vai votar com confiança num so called líder que afirma ter-se anulado durante vários anos? E depois de ter dito o disparate quando Costa lhe contestou a liderança, ainda veio repetir a imbecilidade nestas últimas semanas. Se o próprio garante que não se consegue afirmar, quem se daria ao trabalho de o contrariar? E a moção de censura do PCP, lembram-se da figura? E quem leva a sério o seu recém distanciamento face a sócrates se durante anos se fingiu orgulhoso da governação socialista que sempre isentou de culpas? Enfim, Seguro não precisa de inimigos quando se tem a si próprio.

4. Aparentemente há vida inteligente no PS, que entende – além das culpas do PS na crise de 2011 – o erro crasso que será dar a entender ao eleitorado que se pretendem coligações de governo com o PCP ou que a CRP é afinal um documento datado m algumas partes. Seguro e este PS que, pelos vistos, raciocinam podem bem questionar-se: não estaria o PS em píncaros nas sondagens se, e com este governo azelha que resolve tudo com mais um aumento de impostos, se tivesse em devido tempo distanciado de sócrates e mostrado que havia compreendido o que as políticas socráticas fizeram ao país? É que às vezes há recompensa por fazer o que está certo.

Servos das já-não-tão-belas artes

O meu texto de ontem no Observador, ainda sobre a cópia privada.

‘Na sexta feira a lei da cópia privada foi aprovada na generalidade por PSD e CDS. Isso, ao contrário do que algumas pessoas malévolas – e, evidentemente a soldo dos mais obscuros interesses que corroem subterraneamente a sociedade portuguesa e sabe-se lá se não mesmo financiadores do ISIS – afirmam, será ótimo para o país. Explico porquê.

Em primeiro lugar, o óbvio: vamos ter um novo imposto, mais 15 a 20 milhões de euros a passar dos privados para o estado e deste para várias organizações burocráticas que representam os artistas (todos – menos aqueles que não representam). Mais uma maravilha deste governo viciado em impostos.

Em segundo, inauguramos o tempo do Estado inventar impostos, assim como na embaixada de D. João V a Roma se lançavam moedas, de cada vez que um negócio se torna obsoleto. Como um bom senhor disse no programa Prós e Contras de 15 de setembro, as vendas de música em cd têm decrescido. É certo que não se entende o que estas estatísticas têm a ver com a cópia privada – que pretende regular a cópia daquilo que anteriormente se adquiriu – porque qualquer criança entende que se não se adquire nada, então também não se tem a possibilidade de copiar. Mas deixemos essas lógicas elaboradas para outras áreas da governação menos importantes, como a Educação ou a Justiça.’

O resto está aqui.

O título é um tanto injusto para as Belas Artes, que se eu fosse multimilionária seria com certeza colecionadora de pintura, mas é para dar o efeito que os artistas rentistas têm no azedar do que é bom.

Falta de respeito estratégica

António Costa que esteja descansado que eu – ao contrário de todas as outras pessoas malévolas (por exemplo o Rui Castro, maldoso até à medula, deixou no facebook um vídeo onde um popular com a 4ª classe previa complicações com o caudal da chuva no Marquês de Pombal) – não vou falar de cheias em Lisboa. Mesmo se, en passant, acabar por referir a Praça de Espanha, também não será por causa das inundações, mas antes para notar como durante o verão os sprinklers que pretendiam regar a relva faziam o bom serviço de também refrescar o alcatrão e, no meu caso, lavar de raspão o meu carro quando por lá passava. O que tenho de agradecer, porque eu embirro fortemente com gastar dinheiro em lavagens de automóveis.

costa inundações

Não, o meu objetivo é chamar a atenção a António Costa que é melhor ter cuidado, ou ainda leva com um processo disciplinar por faltas ao trabalho. Enfim, ninguém esperava de Costa – menos os seus maiores entusiastas nos seus suspiros mais íntimos – que fosse uma versão, adequada às circunstâncias, de Guiliani no 11 de Setembro. Nem sequer que aparecesse, só para mostrar que he cares, como faziam Jorge VI e a rainha Elizabeth com as casas bombardeadas do East End durante o blitz, colocando Costa umas galochas e supervisionando os desentupimentos na Baixa (em boa verdade se tivesse aparecido por Lisboa antes das inundações para mostrar que he cares também teria sido oportuno). Em todo o caso, aparecer alegremente num jantar de campanha das primárias em Coimbra no dia em que Lisboa inundou, talvez seja excessivo. Questões de vergonha e de respeito.

(foto da Sofia Vala Rocha)

Vender e esquecer

Já vem atrasado, que tive uma semana atarefada, mas aqui fica o meu texto da semana passada sobre a venda apressada do BES. E aproveito para lembrar que a solução encontrada pelo governo (camuflado de BdP) para o BES é filha do mesmo ar do tempo do país que leva a que Rui Moreira ameace com expropriações proprietários que querem legalmente aumentar as rendas nas suas propriedades, anos a fio depois de uma lei iníqua os impedir de cobrar as rendas de mercado dos arrendamentos mais recentes.

‘[A] forma de fazer o melhor negócio é, evidentemente, não parecer desesperado por vender. Sabe-se: quem está pressionado para vender e tem calendário para cumprir, perde poder negocial – porque interessa mais o momento que o valor. Desta vantagem (só vender se bem), governo e BdP já se desfizeram. Por muito que pm diga que tem 2 anos para vender, é sabido que se quer vender em poucos meses. Há razões para vender cedo. Evitar a erosão dos depósitos no NB (que diminui o valor), eliminar instabilidade ou não fazer parte das tarefas do BdP gerir bancos comerciais. Mas maiores argumentos para a rapidez vêem de outro lado: em 2015 há eleições legislativas e Governo quer ter o assunto BES arrumado na esperança que os eleitores esqueçam este processo miserável. A falha crassa na supervisão pelo BdP (com troca de acusações entre KPMG e Vice-Governador e despromoção deste) apesar da confiança política do governo em quem tão clamorosamente falhou. O provável conhecimento pelo governo desde fins de 2013, que Costa assumiu ter, de que quem administrava o BES montara um ‘esquema fraudulento’ no GES. O primeiro spin do Governo à expropriação do BES, congratulando-se por acionistas – aqueles a quem BdP, CMVM e Governo repetidamente asseguraram estar tudo sólido, tendo até BdP permitido um aumento de capital recente sabendo que o BES era gerido por autores de fraudes – perderem o seu investimento. (Não há partido como o PSD para maltratar, e com gozo, a sua base eleitoral). Ou – o mais grave institucionalmente – como o Governo em todo este processo cobardemente se escondeu atrás do BdP, como se decisões da expropriação e da venda pudessem ser apenas técnicas, quando são sobretudo políticas. A venda rápida é amiga do esquecimento.’Todo o texto aqui.

INEM envie com urgência ambulância com colete de forças ao escritório ou à casa de Rui Moreira

Aqui fica (sem grandes comentários, que não tenho agora tempo para mais) o socialismo nacional em todo o seu esplendor e que mostra como as coisas são neste país: os cidadãos podem ficar com a sua propriedade – aquela por que pagaram ou que herdaram (i.e., aquela por que os antecessores pagaram) – apenas enquanto o estado, benevolente e generosamente, lhes permitir. Enjoy, que é uma espécie de One Flew Over the Cuckoo’s Nest (aguarda-se a rebelião).

A sala do Hotel Intercontinental, no Porto, estava cheia de investidores, proprietários e potenciais proprietários de edifícios no centro da cidade e foi a eles que o presidente da autarquia, Rui Moreira, se dirigiu, com um aviso muito claro: “Se porventura pensarem que vão expulsar [cafés e lojas históricas] resistentes da cidade, saibam que a Câmara do Porto utilizará todos os recursos legais ao seu alcance para o impedir. Para sermos claros, no Estado Novo usavam-se expropriações por esta razão”.

O autarca falava na abertura da conferência Reabilitar para Revitalizar, que marcou o 10.º aniversário da Porto Vivo – Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU) e o fim do programa de intervenção do Eixo Mouzinho/Flores, e tinha na audiência um outro interlocutor especial – o secretário de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza, Miguel de Castro Neto. Foi a ele que o presidente da Câmara do Porto se dirigiu primeiro, manifestando-lhe o que disse ser a sua “principal preocupação”. “Há um crescimento vertiginoso dos preços das transacções na baixa e no centro histórico da cidade. Receio que a população autóctone possa ser expulsa e não queremos nem imaginar a cidade sem esta população, sem a forma como falam, como se comportam, como conhecem e se movimentam na cidade”, disse.

Rui Moreira defendeu que a actualização de rendas era “razoável e útil”, mas não a qualquer preço. E, depois, voltou-se para os proprietários, dizendo que, apesar do “muito respeito” que tem por eles, irá estar “muito alerta” em relação à forma como eles lidam com espaços emblemáticos da cidade. “Estou muito preocupado com os cafés históricos e lojas tradicionais da cidade. Eles que aguentaram tanto tempo, subitamente, podem ser excluídos, quando, pela primeira vez, vêem que o investimento que fizeram começa a dar frutos?”, questionou. E afiançou: “Não queremos transformar o Porto na República Dominicana das cidades”.

(Também por questões de tempo não comento a imbecilidade – para ser, ainda assim, agradável – de Moreira afirmar que agora as lojas e cafés que usufruem de rendas até aqui controladas – ou seja, lojas e cafés anteriores a 1990 – comecem só agora a ‘dar frutos’. O que o país precisa mais são negócios que dão prejuízos nos primeiros vinte e quatro anos, pelo menos, de existência.) Mas uma nova era, se Moreira levar a sua avante, se iniciará: em vez de se expropriar um bem em último caso e por inegável interesse público, agora vai-se expropriar porque os proprietários tomam ações que a lei lhes permite. Mas não faz mal, que no Estado Novo – esse expoente de boa política económica e de respeito pelos direitos individuais – também se fazia assim.

António Costa vai nu

Até já as minhas crianças percebem que o que se passa em Lisboa não está dentro do arco de normalidade da vida numa cidade. Hoje à tarde a descer a Marquês de Fronteira na parte de baixo do El Corte Inglés. Criança mais nova muito escandalizada: ‘Mãe, estão a fazer obras, estão a partir a estrada toda!’ Criança mais velha muito indignada: ‘Pois, estão sempre a fazer obras!’

Traduzindo para quem não conhece a zona, que é central em Lisboa e com grande fluxo de automóveis. Não há muito tempo houve obras de longa duração e grande incómodo, decididas pela autarquia, na Av. Duque d´Ávila e na parte referida da Marquês de Fronteira. (Tendo sido criada uma ótima solução para o trânsito que desce a Marquês de Fronteira: há duas faixas e, de repente, depois de um semáforo, passa só a uma faixa, gerando as filas de trânsito que se imaginam, que António Costa teima em infernizar a vida aos que têm de andar de carro em Lisboa.) Não muitos meses depois do fim das ditas obras, a parte da Marquês de Fronteira está com metade das faixas com o asfalto todo levantado e o início da Duque d´Ávila está também com metade das faixas cortadas e com buracos que fazem lembrar A Viagem ao Centro da Terra de Verne. É eficiência, António Costa sabe o que faz, os portugueses podem confiar nele, e mais uns etc. de tonterias.

Em todo o caso Costa está a pouco mais de uma semana de ganhar o PS (presumo), há já alguns dias que os dois candidatos às primárias pararam de nos divertir com os embaraços que criam a si próprios (e esse era o melhor side effect das primárias) e espera-se que as coisas se tornem um bocadinho mais claras. Que os projetos e ideias e alternativas prometidos – e, asseguram-nos, estão quase na meta final – sejam concretizados, que aparentemente a época de férias já terminou de vez e agora as atenções ficam mais despertas e exigentes, em vez de se continuar no registo do costume, de prometer milagres (simpáticos mas etéreos) sem que ninguém perceba quando e como vão ocorrer.

É esperar. Mas não muito.

Leituras Escocesas

Highland Fling, da Nancy Mitford. Um fling evidentemente muito apimentado, como convém nos climas frios.

highland fling

E da grande Kate Atkinson, também com o romance in the making entre Jackson Brodie e Louise Monroe.

OneGoodTurnWhenWillThereBeGoodNewsRefira-se ainda que a vila escocesa de Gretna Green é amplamente referida nos livros de Jane Austen, porque era o destino onde os apaixonados britânicos (ou, no caso da Lydia do Pride and Prejudice, do militar oportunista e da adolescente tonta) se iam casar à revelia das famílias

Justiça poética

É curioso que Maria de Lurdes Rodrigues se queixe do esforço financeiro que faz com o processo que já levou à sua condenação. Logo uma senhora que participou no governo da criatura socrática, conhecida por processar a eito jornalistas e comentadores que tinham a ousadia de não admirar a radiosa liderança socrática e se incomodarem pelos persistentes casos que não costumam atormentar pessoas honestas e rodeavam o então pm. Queixas – por vezes queixas civis, nem sequer criminais – que não levavam a nenhuma condenação ou, sequer, a acusação. Mas que obrigavam os ditos processados a terem gastos com advogados, além de perderem tempo de trabalho. Com sócrates, era assim; criticas-me e levas com honorários de advogados para pagar.

Maria de Lurdes Rodrigues não teve qualquer problema de consciência por participar num governo que desta forma sem vergonha pressionava jornalistas e comentadores a calarem as críticas a sócrates, pois não? Ora então desejo que continue a ter um grande esforço financeiro com todo este processo.

Manifesto pela Abolição dos Trabalhos de Casa

O meu texto de hoje no Observador.

‘Pego no mote dado por este texto no Observador para falar numa causa que deveria juntar todas as mães e todos os pais com prole em idade escolar: a abolição da peste epidémica que são os trabalhos para casa (ou como o meu filho mais velho, garboso frequentador do 3º ano, diz, Tortura Para Crianças).

Às vezes ouço pessoas referirem-se aos TPC como algo que molda o caráter das crianças, que lhes ensina a primazia do dever (donde o irritante nome ‘deveres’) face aos prazeres da vida que já lhes estão disponíveis; no fundo, são a bala de prata que leva os estudantes ao sucesso académico e até, no caso de jovens em risco, lhes evita uma vida entregue ao crime ou, pelo menos, à mandriagem.’

O resto está aqui.

Aristocratas do socialismo

O meu texto de hoje no Observador, sobre as castas de aristocratas que o socialismo inevitavelmente gera.

‘A semana passada foi uma grande semana para o país. Ficámos a saber que podemos ganhar dezenas de milhar de euros anualmente sem fazer absolutamente nada. Não tema o leitor: não venho aqui vender nenhum esquema fraudulento daqueles que nos propõem rendimentos estratosféricos trabalhando duas horas a partir de casa. Nem se trata de aconselhar a dar o golpe do baú, que nesses casos pode mesmo ser muito trabalhoso contentar o dono ou a dona do baú. Não, refiro-me ao emprego dos administradores não executivos dos bancos nacionais, que Godinho de Matos tão bem descreveu na entrevista que deu ao jornal i. Como administrador não executivo do BES, entrava mudo, saía calado, não fazia ideia do que se passava no banco, não fazia perguntas (até se podia fazer, mas nunca ninguém fez e já se sabe que não é de bom tom quebrar tradições). E, por essa hercúlea tarefa, foram-lhe pagos em 2013 42.000€.

E quais são as condições de recrutamento para tão relaxante e rentável profissão? Um doutoramento? Um pós-doutoramento? Experiência em cargos de topo em organizações internacionais? Não complique, caro leitor. Para ser selecionado para administrador não executivo de uma grande empresa portuguesa – daquelas, bem entendido, que aumentam a faturação quando empregam quem tenha o ouvido dos decisores políticos – basta: a) ser de esquerda; e b) estar ligado à resistência ao regime de antes de 74.’

O resto está aqui.

Preconceito em pelota

A Carla Quevedo no i sobre as fotografias de nudez roubadas e os disparates abundantes (que os disparates são assim, vêm sempre abundantemente) que sobre o roubo se disse. E na conclusão (muito acertada) da Carla sobre o assunto, eu ainda acrescentaria que uma mulher de bem só tiraria fotos nua a contragosto e para fazer a vontade ao marido. Tudo o que esteja fora disso, é expor as tentadoras. Quiçá criar-se uma página daquelas que agora surgem no facebook, ‘base de dados de mulheres solteiras que tiram fotos nuas’.

‘Comecemos pelo princípio. Um hacker entrou sem autorização nas contas iCloud de várias celebridades de Hollywood, como Jennifer Lawrence, a cantora Rihanna ou a modelo Kate Upton, e espalhou pela rede imagens das protagonistas, nuas, que estavam na chamada “nuvem”, a qual julgavam segura. Além de “hackar” as contas para roubar o que não era dele, partilhou o saque publicamente. Os crimes são tantos que quase não tenho espaço para os enumerar. No entanto, adivinhem quem foram apontadas como as maiores culpadas do roubo? As vítimas, claro. E porquê? Porque estavam nuas.’

Piedades

yummi O comentador João fez aqui um longo comentário a este meu post. E como reconheceu estar cheio de vontade de receber vergastadas, eu, como boa cristã (enfim, péssima, mas é o que se arranja), gosto de aceder à vontade e às necessidades dos demais sempre que tal não me desgosta grandemente e, portanto, aqui venho aplicar lógica e sensatez à questão. Também porque são argumentos muito frequentemente utilizados – pelo que os meus comentários seguintes vêm a propósito do comentário linkado mas não são observações necessariamente destinadas ao autor do comentário. E, também como é costume, usando-se – mais do que factos, imparcialidade, racionalidade – distorções, preconceitos e ignorância. Ignorância por não conhecerem os textos bíblicos nem os estudos feitos por quem se dedicou a aprender as línguas dos originais e escalpeliza cada pormenor para conhecer de onde vem, com o que se relaciona, qual o significado; ignorância por não fazerem ideia do valor que a Igreja dá àquilo que contestam; ignorância por tomarem todo o cristianismo como os conservadores protestantes americanos, que lêm a Bíblia de forma literal (algo inteiramente recusado pela Igreja) e passam a vida às guerras por causa do criacionismo versus darwinismo. (É certo que Bento XVI, na sua deriva ultra-conservadora mal-aconselhada em que tentou fazer da Igreja um grupo de meia dúzia de fanáticos dados à obediência cega ao Papa e à observância de 15.000 regrinhas inúteis que viam como mais glamourosas do que o tradicional amor ao próximo, procurou identificar o Jesus da fé com o Jesus histórico e sugerir uma leitura factual de todos os eventos dos Evangelhos. Mas, opinião – e sublinho o ‘opinião’ – de Bento XVI enquanto Papa à parte, a posição da Igreja está bem clara num documento muito feliz sobre o tema, de resto coordenado por um Cardeal Ratzinger em grande forma.)

Por exemplo: o que significam pomposidades do calibre ‘Não se pode apresentar argumentos racionais a quem não valoriza a razão, nem argumentos lógicos a quem não valoriza a lógica e muito menos argumentos científicos para quem pensa que a ciência é fundamentalmente nefasta.’ Eu não faço ideia de quem é que não valoriza a razão, nem a lógica e considera a ciência nefasta. A Igreja e os católicos não são certamente, e quem assim vê o catolicismo, lá está, não faz a mais pequena ideia do que diz. E em que casos de investigação académica ‘gera-se um silêncio que apesar de tudo é mais confortável que confrontar a ira dos cristãos com razão e ciência’?? Talvez em Marte (sociedade que desconheço), haja casos numerosos de ‘ira dos cristãos’, mas neste planeta o que vejo é muito académico, escritor ou colunista atacar o cristianismo porque sabe que essa é uma forma de ganhar fama rapidamente. E, porventura, esconder falta de talento (veja-se Dan Brown ou Saramago); e quem é Sam Harris fora as arengas contra a fé? Eu não tenho tido notícia de cristãos a atacarem quem contesta a sua fé – lembro-me de uma religião que o faz, mas não é a católica – e até diria que a ira vem dos que contestam o catolicismo, mas isso são juízos de valor ao cuidado de cada um. E espanto-me sempre com a ferocidade e o tempo que os ateus prosélitos dedicam ao cristianismo (vivendo numa sociedade felizmente laica); estou mesmo convencida que isto será alguma condição psicológica que um dia será diagnosticada.

Ora bem, a tese do João (e não só do João) é que não há qualquer indício histórico da existência de Jesus e muitos académicos reconhecidos (a sério?) opinam pela não existência. E para mostrar o quão escandaloso a falta de indícios é, revela como há documentação histórica sobre Júlio César. Portanto, Jesus – que era um homem comum em termos de estatuto social (e o facto de o Filho de Deus ser um homem comum até é algo bastante usado nas reflexões católicas) – só existiu de facto se houver documentação igual à existente para o que foi o homem mais poderoso do mundo romano. Bom, argumentação fraca. É que não existiram no mundo só as pessoas que apareceram em documentos (exigindo-se evidentemente o original, que as cópias prestam-se a todas as manigâncias) oficiais ou de historiadores reconhecidos, preferencialmente com assento de nascimento e certidão de óbito. Todas as outras pessoas não documentadas, toma, não existiram, é isso? Continuar a ler

As mulheres de Jesus

Um texto de Anselmo Borges, no DN, para ser lido de alfa a ómega. Nunca é de mais salientar que a forma como Jesus se relacionou com as mulheres foi (tal como tudo o resto em Jesus) revolucionária: não só faziam parte das suas discípulas como eram as mais leais; foram apenas mulheres que acompanharam Jesus quando foi crucificado e foi a uma mulher que Jesus ressuscitado apareceu pela primeira vez. E, já agora, os doze discípulos homens – que a Igreja usa para fundamentar o sacerdócio apenas masculino – foram, com grande probabilidade, uma (como tantas outras dos Evangelhos, e quase todas que fazem referência ao Antigo Testamento) construção catequética, no contexto da crescente divergência entre cristianismo e judaísmo, de forma a colocar o cristianismo, em vez do judaísmo, como a religião herdeira de Israel com as suas doze tribos.

(A questão do casamento de Jesus não tem qualquer importância para a fé – só mesmo para os curiosos do que foi o Jesus histórico (como eu). Pode não se ter casado e ter quebrado o costume, tal como mais tarde fez S. Paulo, que, de resto, procurava imitar Jesus tanto quanto podia. Ou pode ter sido casado e enviuvado durante a sua vida privada, o que tal também não tem qualquer implicação teológica.)

‘Os exegetas mais conceituados reconhecem que, também no que se refere às mulheres, Jesus operou uma revolução. Por princípio, as mulheres não deviam falar com um homem em público, o seu testemunho não tinha força, eram definidas como uma “lua”, recebendo o seu brilho do “sol”, que era o homem, eram impuras por causa da menstruação. Jesus não atendeu à impureza ritual, falou com a samaritana, uma mulher que tinha tudo contra ela – herética, estrangeira, com vários homens na sua vida -, teve discípulos e discípulas, fazendo-se acompanhar por eles e por elas nas suas tarefas apostólicas. Como escreve o teólogo X. Pikaza, “Jesus rompeu com todas as tradições culturais do seu tempo e trata a mulher como igual”; “homens e mulheres aparecem no seu projecto como iguais, sem prioridade de um sexo sobre o outro”; “não quis sacralizar a sociedade patriarcal da sua época” e “fundou um movimento de homens e mulheres, contra os rabinos da sua época, que não admitiam as mulheres nas suas escolas”. E A. Piñero: “Jesus foi um rabino relativamente anómalo no panorama dos doutores da Lei do século I, porque teve um ministério activo no qual as mulheres não só estavam presentes, mas eram discípulas.” Inclusivamente constata-se que as mulheres foram as discípulas mais fiéis e destemidas: “De facto, ao chegar a provação da Cruz, os Doze abandonam-no; elas, pelo contrário, permanecem fiéis até ao fim” (Pikaza) e foi Maria Madalena quem primeiro teve a convicção avassaladora de fé de que ele está vivo em Deus.

[...]

Decisivo é que Jesus, infringindo os preceitos patriarcais, deu início a um movimento inclusivo de homens e mulheres, sem discriminação. A Igreja Católica ainda não tirou daí todas as consequências.’

O texto completo aqui.

 

Martírios populares

Há um grande serviço à humanidade feito pelo Observador – além, obviamente, de dar guarida aos textos da yours truly e de demais insurgentes – que tem pasado despercebido: traz-nos, todas as semanas, um texto do Paulo Tunhas. O desta semana é hilariante (posso confessar que lágrimas de riso ocorreram enquanto escrevi estas linhas). Eu li-o ao fim da tarde no cabeleireiro (ainda por cima um rapaz que eu nunca havia visto, que as duas senhoras que se revezam para me aparar os caracóis estavam de férias e de folga, o que significa que a minha reputação junto desta pessoa ficou arruinada ainda mais cedo do que é costume) e entre rir-me imenso, contorcer-me para parar de rir imenso, maior vontade de rir à conta do olhar perplexo do rapaz (que desde logo estranhou eu estar a ver coisas só co letras em vez de com fotos ‘de famosos’), fiz uma figura que me obrigou a ser mais generosa do que devia com a gorjeta. E fui transportada para os tempos em que morei numa zona de Lisboa circundante aos bairros onde se comemora o Santo António. Apesar de a minha experiência não ter sido tão traumática, também posso partilhar a alegria de ter no início de uma pequena travessa em frente às minha janelas de então (era um 1º andar) de um lado da casa – o outro tinha uma vista catita sobre a encosta – os ensaios da marcha do bairro (que era coisa para se iniciarem três meses antes dos dançarinos se exibirem na Av. da Liberdade e, portanto, animarem as noites de uma boa porção do nosso ano). Ou de como se nos abriam duas opções para viver o Sto. António: ou nos encerrávamos em casa entre, o mais tardar, a hora de almoço do dia 12 e o dia 14, acautelados contra qualquer necessidade de sair de casa como se de um inverno nuclear se tratasse; ou fugíamos de Lisboa entre essas datas.

Um excerto das experiências de Paulo Tunhas no S. João:

‘Mas, sexta-feira de tarde, o mundo mudou mais do que alguém, mesmo alguém advertidíssimo da incerteza da existência, poderia esperar. Vinda do centro da Rotunda, uma voz gritava, amplificada por um potentíssimo aparelho sonoro: “Are you ready?”, “Arriba! Arriba!”, “Tudo nice?”, “Es-pe-cta-cu-lar!”, “Uau!”, e coisas assim. Com um entusiasmo e uma regularidade aterrorificantes.

É claro que me assustei. A atmosfera não era em nada balsâmica. E assustei-me cada vez mais à medida que as horas passavam e a coisa não parava. À noite, com as persianas fechadas e os vidros a tremer, era impossível ouvir música, ver um filme ou ler um livro. Acrescentei mais três portas fechadas dentro de casa e, como um animal acossado, enfiei-me, inerme, no quarto, o mais longe possível do horror. A voz continuava a berrar (“Arriba! Arriba!”) e um baixo persistente atacava, percutante, a noite. Adormeci por exaustão por volta da uma e meia da manhã, quando a gritaria parou, como alguém que, de repente, se vê livre de uma dor aguda e inteiramente absorvente.

Sábado foi a mesma coisa, salvo que naturalmente pior, porque estas desventuras deixam marcas na nossa “organização nervosa”, para falar como Júlio Dinis. Impossível fazer o que quer que seja, a não ser remoer o ódio. Domingo, fui almoçar a casa da minha mãe e cravei-lhe dois lorenins, para aquela noite e para a noite de S. João propriamente dita. Passou essa noite – o mesmo – e a noite de S. João. Terça-feira, feriado, e apesar da “organização nervosa” estar ainda mais debilitada, vi a manhã como uma manhã de Natal da infância. O pesadelo tinha acabado e o mundo ia renascer belo e puro. Ia finalmente poder ler, trabalhar, ouvir música.

O doce engano durou até cerca das quatro da tarde, altura em que os “Uaus!” e os “Arribas!” retornaram com inusitado vigor (ainda os ouço em imaginação).’

O resto da experiência está aqui.

Guerra dos sexos digital

O meu texto de hoje no Observador.

‘Todas as mulheres já devem ter passado por momentos em que se repara que o cérebro do homem com quem se conversa (socialmente, em trabalho, estes momentos não se fazem esquisitos) deixa de funcionar. Fica demasiado distraído a olhar para o decote (especialmente se tiver algum indício de cleavage – e os wonderbra são instrumentos letais para a exibição da inteligência ou eloquência masculinas) ou para as pernas (sobretudo se estiverem pouco cobertas e assentes nuns saltos altos) e esquece-se de manter o fio condutor do raciocínio. Ou o objetivo passa de mostrar a lógica dos argumentos para tocar amigavelmente, no meio do gesticular, na mulher com quem fala. Há casos em que estes comportamentos são ofensivos – o toque pressupõe intimidade que é inexistente ou o senhor faz questão de exibir a opinião de que a mulher com quem interage é só o decote ou as pernas – mas na grande maioria das vezes são inofensivos, divertidos e, até, elogiosos. (De resto, às mulheres também acontece).

Claro que é mais estimulante (e enternecedor) quando a resposta masculina à admiração pelo feminino é a tentativa de nos impressionarem (pela sapiência, beleza, proeza física, status, fortuna – aquilo em que o homem se sentir mais dotado). E no topo há aquela classe de homens – a que eu chamo os grandes elogiadores – que têm uma verdadeira mestria a elogiar mulheres. (Um dos dons mais subvalorizados da história da humanidade.) Elogiam abundantemente, sempre com gosto e doses certas de admiração e atrevimento. Neste caso, o elogio é mesmo uma questão de respeito. Não o respeito puritano, mas aquele que sentimos por alguém que tem uma qualidade que muito valorizamos.

No reverso insultuoso e exasperante das relações entre os sexos temos sermos ignoradas – ou não se dão ao trabalho de reagir (por uma mulher? porquê?), ou desvalorizam o que dizemos e produzimos, ou lembram-nos que somos subalternas de uma hierarquia superior masculina (afinal, a ordem natural das coisas, não é?). E, pior, na estratosfera ofensiva há as ameaças de morte e violação, eventos agradáveis que por estes dias ocorrem frequentemente na net envolvendo sobretudo mulheres opinativas (as mulheres a terem e proferirem opiniões, onde é que isto vai parar?). Algo que se pode com propriedade caracterizar como um curto-circuito cerebral masculino. Mas em ainda mais perigoso.’

O resto está aqui.

O PS é a minha musa

Inspirada pelo comovente house sharing socialista e por uma boa questão do Paulo Gorjão no twitter sobre a natureza dos militantes socialistas que vão votar nestas primárias – e que, como se sabe, alguns já foram objeto de uma certidão de óbito -, e, ainda, por outra coisa que estou presentemente a escrever, aqui vai uma das cenas preferidas das minhas crianças do Hotel Transilvânia.