Fé na matemática

O meu texto de ontem no Observador.

‘Quando li esta deliciosa crítica de Alexander Masters ao livro The Universe in Your Hand lembrei-me do famoso e infame modelo macroeconómico do PS com os seus 207.000 empregos em quatro anos. E, nem de propósito, ontem Stephen Hawking contou-nos aquilo em que ‘acredita’: que a informação se transforma em holograma quando passa num buraco negro. O que me deixou muito feliz, uma vez que estou muito familiarizada com todas as possibilidades permitidas aos hologramas, pela via mais óbvia, a das séries infantis que os meus filhos vêem na televisão. Há uma destas séries que tem um avô preso num universo alternativo e cujo vilão atua por meio de hologramas. Acho que amanhã, para as impressionar (há que aproveitar enquanto não chega a adolescência), digo às minha crianças que provavelmente os buracos negros tiveram o seu papel na separação de avô e neto.

Como refere Alexander Masters, há um grupo numeroso de cientistas respeitáveis, ferozmente ateus, deliberadamente descrentes dessas fábulas que são as religiões, cujo intelecto não se contenta com menos do que uma cristalina prova científica. Misturam-se a custo com os simplórios beatos ou new age que acreditam num Deus criador ou numa energia harmoniosa universal com que comunicam através de mantras e meditação. Oferecem a esses beatos e new agers o tratamento merecido: a chacota. E no meio de tanta teoria exótica e improvável, nunca lhes ocorreu ponderar se o apelo espiritual da grande maioria da população mundial é afinal resposta a alguma lei natural ainda não descoberta. Ou se a procura de resposta aos ‘porquê?’ e ‘para quê?’ é, hélas, tão racional como o encantamento que as personalidades científicas têm com a beleza (fria) do ‘como?’, que é ao que a ciência responde.

Em todo o caso, eu, que como católica sou alvo de chacota das personalidades científicas, fiquei satisfeita com o que li dessas teorias (todas mais veneráveis do que qualquer religião) que, entre surpreendentes outros, concebem universos dentro de universos. Porque quando eu era criança vivia fascinada com a imagem do Atlas carregando o mundo nos ombros. (Mal sabia eu que décadas mais tarde faria parte de um grupo que tem no seu cânone um livro chamado Atlas Shrugged.) Bom, a criança Maria João também vivia convencida que o nosso mundo era um brinquedo num mundo de gigantes, tal como os globos terrestres são brinquedos no nosso. Pelo que, dou já aqui como provado de forma cristalina, as imaginações infantis são uma ótima fonte de explicações cosmológicas.’

O resto (até chegar aos números do PS) está aqui.

‘he go crazy’

Já por várias vezes pensei em escrever sobre Sampaio da Nóvoa, mas tenho descoberto que o candidato presidencial é um tema difícil. Rio-me imenso a ler a pomposidade e auto-encantamento do senhor e ainda não estou convencida que a sua candidatura não seja um plano de alguém maquiavélico (e com um tremendo sentido de humor) com algum objetivo que eu ainda não vislumbrei (além de enredar o PS nesta ridicularia). As únicas palavras que me ocorrem para escrever são ‘a criatura é lunática’. Poderia eventualmente referir os sapatos de padre que o senhor usa, mas essa essa informação tem copyright da Margarida Bentes Penedo e ficar-me-ia mal roubar as observações alheias. Na verdade, quando penso em Sampaio da Nóvoa recordo-me sempre deste pequeno interlúdio do Fawlty Towers:

Pelo que o melhor é lerem este maravilhoso texto de Paulo Tunhas sobre Sampaio da Nóvoa, quase tão hilariante como a personagem que descreve.

Distopia na Amazon

O meu texto de hoje no Observador.

‘Espero que os meus caros leitores estejam atentos ao presente abalo no mundo ocidental. Primeiro surgiu a notícia no New York Times, que falou com cem ex-funcionários da Amazon e contou pormenores próprios das zonas mais negras da imaginação de George Orwell: pessoas com problemas sérios de saúde com más avaliações por não aguentarem o ritmo de quando estavam saudáveis, críticas das chefias que põem o mais robusto a chorar publicamente, quotas assumidamente darwinistas de pessoas a despedir em cada ano, denúncias anónimas sobre colegas, incentivo a um ambiente de conflito entre colegas, horários de trabalho que impedem vidas familiares ou namoricos e pelos vistos até se corre o risco de receber um e-mail do chefe a meio dos one night stand possíveis.

As ondas de choque, obedientes, sucederam-se, que afinal a Amazon é um dos pilares da vida moderna. Um executivo da Amazon fez na sua página de Linkedin uma refutação sentida daquilo que vê como calúnia à sua empresa e até o dono e fundador, Jeff Bezos, escreveu um e-mail (que nem tinha nada o objetivo de escapar para os media) afirmando que a Amazon do artigo do NY Times não era a sua Amazon e se faz favor que lhe contassem por mail eventos semelhantes aos espalmados no jornal.

A muito esquerdista Salon não tem largado o osso da malvada Amazon. A um bocadinho menos esquerdista Slate tem sido mais ponderada, questionando se cem trabalhadores podem ser representativos de uma empresa com mais de 150.000 ou se o ambiente de trabalho por lá será pior do que noutras empresas tecnológicas. The Guardian saliva de contentamento.

Eu, fazendo uso de toda a ponderação disponível na minha personalidade, tenho de reconhecer: o artigo do NY Times pôs em causa o meu modo de vida.’

O resto está aqui.

verão chinês 2.0: sem a Revolução Cultural não se entende a China destes dias

shanghai redemption

É um cliché chinês dizer que sem Revolução Cultural não teria havido as reformas capitalistas de Deng Xiaoping da década de 80 (porque por um lado a RC escaqueirou a burocracia chinesa, que precisou de ser reconstruida e, por outro, horrorizou tanto a quase totalidade da população que ficaram todos mais que predispostos a aceitarem as soluções opostas às de Mao; da política até à literatura, os anos 80 chineses foram uma rejeição do coletivo e uma ode ao indivíduo). Mas não é só o capitalismo chinês que precisa da RC para ser entendido. Xi Jinping é também ele um rebento da RC, e o caído em desgraça Bo Xilai likewise (e a ‘nova esquerda’ que Bo liderava, então, era maoismo até à medula). Pormenor que eu adoro, porque ando por estes dias a escrever furiosamente sobre esta geração de jovens adolescentes que tiveram a sua vida revirada pela RC (os chineses de 3ª geração). É uma geração complexa, que, por ter levado com as maluquices maoistas, foi privada de educação formal. Primeiro as aulas das escolas foram suspensas para que os adolescentes se pudessem dedicar a espancar, torturar e até matar professores, secretários partidários e colegas das classes contrarrevolucionárias. E depois – porque o sucesso do socialismo é sempre inevitável e não havia empregos para tanta gente nas cidades, nem lugares nas escolas ou, sequer, livros escolares – foram enviados para ‘subir à montanha e descer à aldeia’ para se tornarem camponeses para o resto da vida nas zonas rurais chinesas. A consequência desta falta de educação formal foi o desemprego massivo desta geração nos anos 90 (porque não tinham qualificações para concorrer no mercado de trabalho da China capitalista). Depois de sacrificados pela RC, foram sacrificados pelas reformas capitalistas. Tough luck. Tirando uns poucos que escaparam a esta sorte e que tiveram destino oposto, tornando-se empresários multimilionários, artistas internacionalmente reconhecidos, autores de sucesso. Muitos expatriaram-se e vingaram nos países de acolhimento. Agora, são os senhores da política chinesa. E nota-se. Se Bo foi extirpado do PCC, na verdade Xi Jinping também tem muitos tiques maoistas.

Isto tudo a propósito do mais recente livro de Qiu Xiaolong, Shanghai Redemption, sobre a queda do neo-maoista Bo Xilai. Qiu escreve romances policiais. Eu sou fã do género, mas não é a qualidade do enredo que me faz ler Qiu Xiaolong desde aquele momento que comprei o Death of a Red Heroine na Waterstones de Guildford (sim, eu preservo estas memórias relacionadas com os meus livros). O que me vicia em Qiu é a forma como conta os meandros da vida de Shanghai, os pântanos políticos em que o Inspetor Chen se move para resolver os mistérios que lhe são muitas vezes impostos pelas autoridades partidárias, a descrição dos petty city dwellers das cidades chinesas, todos aqueles pormenores muito chineses que dificilmente um ocidental conseguiria descrever com a mesma autenticidade.

Um tema que perpassa por todos os livros de Qiu (sobretudo em Death of a Red Heroine) é o da classe social e da aristocracia partidária que o comunismo (oh, surpresa) criou. Que não é nada de novo da era da reforma, porque a classe social e os benefícios que advinham de se fazer parte de uma família da elite partidária comunista são assunto que também atravessou esse movimento de suposta igualitarização radical da sociedade que foi a Revolução Cultural. Em suma, os romances policiais de Qiu Xiaolong são uma muito boa introdução à estrutura social que o Partido Comunista Chinês criou.

Um bocadinho de uma entrevista de Qiu Xiaolong sobre Shanghai Redemption: ‘What really alarmed me was his grab for more power through the “Chongqing model,” which was informed with Maoist discourse and practice, including governmental directives for people to sing “red songs” in praise of Mao and the party in the pre-reform years. I shuddered at the memory of me standing helpless beside my father, who was ruthlessly beaten by Red Guards as those songs were originally sung. But my feelings had to do with much more than personal remembrance.’

Feministas (da subespécie louca) que afinal gostam de piropos

O meu texto de ontem no Observador.

‘O cruzamento entre feminismo e esquerdismo é mais perigoso do que uma guerra nuclear declarada. Não por culpa do feminismo, claro, que ainda faz muita falta. Mas o esquerdismo é assim: pega num bom conceito, tritura os neurónios ao seu portador e apresenta-nos os resultados. Com o cristianismo sucede a mesma coisa. Conheço muito católico de esquerda que transporta o sonho de viver numa espécie de comunismo beato, numa casa albergando várias famílias vivendo comunitariamente, educando a criançada em conjunto, partilhando cozinha, e outras ideias aterradoras semelhantes. Quando cruzado com o esquerdismo, nada está a salvo.

De volta ao feminismo (versão histérica) acrescentado de esquerdismo. Li no outro dia um texto sobre piropos de Jessica Valenti, antes feroz denunciadora desta calamidade (com rival só no degelo das calotes polares) que é o piropo de rua. Que agora fica insegura se nenhum senhor desconhecido com quem se cruza não faz uns barulhos esquisitos nem lhe dirige nenhum impropério hardcore. Que pensa que está particularmente atraente no dia em que (enfim, enfim!) os impropérios regressam. Que se questiona angustiadamente se aos 36 anos já passou o seu ‘last fuckable day’.

Perante isto, penso que é bom fazer aqui uma proposta para as nossas políticas de saúde. Isto porque nós também temos excesso de oferta desta subespécie feminista que perde tanto do seu claramente pouco precioso tempo a clamar contra esse problema – inexistente para a maioria das mulheres – que são as opiniões de desconhecidos oferecidas na rua. E só não lemos textos como o de Jessica Valenti porque afinal as nossas feministas, subespécie louca, não são tão desassombradas a olharem para si próprias (levam-se demasiado a sério e desconhecem o auto-humor) nem entendem a ambiguidade. Assim, parece-me oportuno sugerir que aquela consulta obrigatória de apoio psicológico para as mulheres que querem abortar seria bem mais útil se dirigida para estas feministas bipolares.’

O resto está aqui.

Em primeira mão apresento-vos a música que vai ser o tema de campanha do PS

Totalmente em sintonia com a nova estética de outdoors do PS, fontes bem colocadas dentro da direção de campanha do PS para as legislativas de outubro garantiram-nos que (para substituir Vangelis, primeiro, e os grunhidos ameaçadores de sócrates, depois) a música tema da campanha vai ser esta:

Já para a noite eleitoral, o PS está a guardar esta linda melodia:

# Boicote Hollande

O meu texto de ontem no Observador.

‘Há uns dias soube desta imaginativa campanha que visa convencer os indignados do mundo a boicotar os produtos alemães. Com hashtag no twitter e tudo, como toda a campanha respeitável tem por estes dias.

Tenho a informar que fiquei agradavelmente surpreendida. Também sou dessas pessoas que se recusa a gastar dinheiro no que ofende as minhas convicções. Recuso-me a dar dinheiro a propaganda socialista travestida de jornalismo, por exemplo. Só depois de tortura digna da Gestapo ponderaria gastar o meu dinheiro com o tratado francês de José Sócrates (no que, de resto, estou acompanhada de todos os portugueses, que mostraram grande maturidade literária ao fingir que a magna obra não existia). Ou, já que penso nisso, com as recentes biografias de Passos Coelho e António Costa. Sabendo a quantidade de abortos que a senhora fez, nem por 50€ compraria um quadro de Paula Rego. E por aí fora.

Como me identifico com o espírito da campanha, decidi caridosamente ajudar. Desde logo porque notei que na hashtag tuiteira, que pretendia remeter a Alemanha à pobreza mais cubana pelo boicote mundial das pessoas decentes aos seus produtos, escasseavam afinal os produtos alemães que se deviam boicotar. O mais concreto que por lá vi foi ‘No more German porn #boycottgermany’.

Fiquei com medo que, afinal, a campanha se reduza a um indignado – com banho por tomar há uma semana, barba à moda das zonas tribais do Paquistão, a mesma t-shirt preta justa de marca Boss Orange (tss, tss, alemã) vestida há quatro dias e quatro noites, a mandar um tuite anti-essa-cáfila-germânico-financeira enquanto sentado no banco aquecido do seu Volkswagen. Por isso decidi intervir, que é sempre bom ajudar pessoas a serem algo mais que revolucionários de smartphone. Aqui vão, portanto, vários produtos germânicos a boicotar.’

O resto está aqui.

a gente mais reles que o mundo produziu

Já tinha apanhado ontem os comentários ignóbeis de uma criatura (supostamente humorista) cuja falta de educação só é igualada pela falta de piada. Mas hoje, depois de ler este texto de Ana Sá Lopes, percebi que não tinha sido só a criatura supostamente humorista a pegar na aparição de Laura Ferreira sem cabelo. A ultra-socrática Estrela Serrano também achou por bem meter as suas colheradas. Bom, que alguém use uma mulher a recuperar de um cancro – que, como Ana Sá Lopes bem diz, viveu a sua doença dignamente e discretamente – para atacar um político (que também não anda a alardear a doença da mulher) é do mais soez e vil que se consegue. Mas, sinceramente, cada vez mais me convenço pelo que vou vendo que ser/ter sido socrático é estar moralmente e eticamente em estágio sub-humano (apesar da paradoxal propensão desta gente para dar lições de moral).

Mas o texto de Estrela Serrano é mais sórdido ainda noutro nível que não o político. Vejam o que diz a pessoa: ‘tratando-se de um evento oficial, seria difícil evitar a presença de fotógrafos e ainda mais difícil que estes deixassem de fotografar Laura Ferreira, sobretudo encontrando-se ela numa situação singular. A decisão de se expôr, foi, assim, em primeiro lugar sua e de Passos Coelho.’

Laura Ferreira está, portanto, num estado em que se aparece em público está-se a ‘expor’ – e, já agora, expor não tem nem nunca teve acento circunflexo (eu não costumo fazer de corretor ortográfico humano, mas aqui não há perdão de nada). É, como se retira do texto da pessoa Serrano, alguém que não está em condições de estar em locais com fotógrafos e onde fica difícil não ser fotografada. Está, presume-se, como os leprosos da idade média, bons para se fazerem ver cobertos de panos ou, melhor, permanecerem escondidos nas leprosarias.

Mas que gente é esta?! A senhora (a senhora é a Laura, não a outra pessoa, evidentemente), tem toda a dignidade humana em si mesma, tem tanto direito a passear-se pela rua como a pessoa socrática. Não é vergonha nenhuma ter um cancro, não é vergonha nenhuma estar sem cabelo. Pelo contrário, Laura Ferreira foi de uma ENORME CORAGEM ao apresentar-se assim, sem cabelo mas segura. Foi mesmo um ato de esperança para qualquer pessoa que perca o cabelo durante o tratamento de um cancro. E por ser mulher, este ato de Laura Ferreira tem uma carga verdadeiramente libertadora. Não que as feministas idiotas – como lhes chama Ayaan Hirsi Ali – consigam perceber isto. Na verdade, a chicktv levezinha tem mais espessura intelectual do que estas criaturas nacionais do sexo feminino. É verem o vídeo abaixo, da temporada de Sex and the City quando a Samantha teve o cancro da mama.

Quanto ao resto que a pessoa Serrano também diz, referindo-se ao ‘sentimento de compaixão que a sua [de Laura] imagem  sem cabelo provoca’, não tem que se preocupar. Quem, que esteja já no estádio humano, olha para Laura vê apenas uma mulher corajosa. Já quem olha para Estrela Serrano e quem lhe bate palmas e quem faz piadas sobre um cancro, vê que essa gente merece compaixão. Porque há faltas muito mais graves do que a falta de cabelo. E que se notam à vista desarmada e são, essas sim, visualmente assaz repugnantes.

Para a Laura: desejo-lhe boas melhoras. Não aprecio particularmente o seu marido, mas da Laura fiquei muito orgulhosa. E sim, reflete bem no seu marido o seu ato. Não por, como dizem, expor a doença da mulher à procura de compaixão mas, ao invés, por estar orgulhosamente ao lado de uma Laura sem cabelo.

A defesa da caridade pelos extremistas mais insuspeitos

O meu texto de ontem no Observador.

‘Hoje tinha um ótimo tema para a minha crónica: a assessora de Ada Colau, presidente de câmara de Barcelona, que se fez fotografar a urinar no meio de uma avenida de Múrcia. A senhora – proveniente da inevitável extrema-esquerda que tem assolado as costas mediterrânicas nos últimos anos – é uma ‘ativista pós-porno’ (se o caro leitor não souber o que é, é melhor googlar porque também não faço ideia). Pretendia eu ilustrar como a nossa queriducha extrema-esquerda pós-isto-e-aquilo é afinal tão tradicionalista. Porque, como comentava no Facebook um blogger conhecido da nossa praça, a sua avó fazia o mesmo (urinar na rua) no tempo em que pastava cabras.

Mas como a extrema-esquerda tem para comigo cuidados intermináveis e nunca cessa de me dar temas para crónicas, pude cingir-me ao material pátrio.

(Extrema-esquerda, é conveniente definir, presentemente engloba boa parte do PS. Nos últimos dias tivemos o porta-voz do PS e conselheiro dileto de António Costa, Porfírio Silva, alinhando-se com a extrema-esquerda holandesa na crítica ao social-democrata Dijsselbloem. E Tiago Barbosa Ribeiro, líder da concelhia do Porto do PS, mimou ainda mais o presidente do Eurogrupo: chamou-lhe ‘direitista’ – eu tive de confirmar se estava a ler sobre as purgas maoistas ou o twitter português. E a seguir postou um comentário de Zizek – filósofo marxista com palavras brandas para o uso de violência – sobre a novela grega.)

Bom, mas a extrema-esquerda (ver definição acima) tornou-se irremediavelmente tradicionalista (como a incontinente de Múrcia). Por estes dias não fez mais do que apelar a que praticássemos a caridade com a Grécia.’

O resto está aqui.

o súbito amor da esquerda pela caridade

As coisas são como são: finitas. No meu caso, e eu até sou dada a emoções intensas (ou, se calhar, por isso), é tudo finito menos o amor pelas minhas crianças. A gente de esquerda, que insulta a eito quem tem a ousadia de promover ou participar em esquemas que são a boa e velha caridade – porque esta gente lunática acha que as doações se passarem pelo estado perdem o poder de humilhar – agora anda, porventura sob efeito de substâncias estranhas, a apregoar a bondade de fazermos a caridade à Grécia de lhe doarmos o nosso dinheiro (porque, sejamos claro, num cenário em que não há pagamentos de dívidas passadas e há a exigência de novo ’empréstimo’ – que tornar-se-á insustentável e impagável em devido tempo – é de doações que se trata).

Em primeiro lugar, digo que considero especialmente indecoroso e imoral que se sugira que Portugal, Chipre, a Estónia, a Eslováquia, Malta e a Eslovénia devem pagar a manutenção dos interesses instalados na Grécia. Isto seria um claro exemplo de exploração dos mais pobres pelos mais remediados. Considero tal coisa profundamente indecente e quem vê como justa uma situação dessas deve procurar com urgência uma coisa básica que se chama ‘decência’.

Em segundo lugar, lamento, mas a caridade está nas coisas finitas. Eu sou grande apoiante da caridade, não pratico tanto quanto devia, mas quando pratico escolho: ou quem está perto de mim e necessita (o que desqualifica a Grécia); ou os verdadeiramente pobres (o que também desqualifica a Grécia). Eu sei que agora há grande alarido com a suposta crise humanitária grega, mas qualquer pessoa portadora de cérebro sabe que há quem viva imensamente pior. (No ano passado estive na Grécia e vi os gregos de férias nos hotéis e nos restaurantes, as zonas pobres do Peloponeso não mostravam miséria, o marcador mais forte da crise que se sentia era o número de lojas fechadas por todo o lado). Pelo que, se quisermos, como estado, fazer caridade a alguém, até mesmo se quisermos perdoar alguma dívida, sugiro os países africanos ou o Haiti ou algum país subdesenvolvido afligido por alguma catástrofe natural. E a nível individual, cada um ajuda quem quer. Eu escolho, por exemplo, ajudar os Leigos para o Desenvolvimento.

nunca tinha visto tanta gente satisfeita por ir sofrer um calote

Portanto expliquem-me como se eu tivesse cinco anos: os gregos votaram em ‘pregamo-vos um calote com o que já vos devemos e passem para cá mais dinheiro’, foi isso?

Uau, ainda bem que há tanta gente a rejubilar por cá. O que me leva a fazer a seguinte proposta: quando os quase dois mil milhões de euros que a Grécia nos deve não aparecerem e precisarmos de pagar a garantia desse dinheiro que o estado português deu, quando a sobretaxa do IRS tiver de continuar para pagar o calote grego, a medida pode ser só aplicada a quem andou publicamente a apregoar que a dívida grega é insustentável e não é para pagar? Agradecida.

Também quero um referendo

varoufakisVou já avisando: se os gregos votarem ‘não’ no referendo, como adiantam as sondagens, e ainda assim houver acordo de assistência financeira da UE – mesmo que seja com as condições exatas do fim de semana passado – também exijo que seja feito um referendo para ver se o bom povo português quer ou não emprestar dinheiro à Grécia (desde logo porque já sabemos que ‘a dívida é insustentável’ e ‘não pode ser paga’, donde…). Estou certa que neste pedido estou acompanhada de todos os que viram no referendo grego a mais cristalina prova da democracia das últimas décadas. De resto, a imagem que aqui coloco (apanhada no facebook da Isabel Santiago Henriques) é para demonstrar a extensão do sentimento democrático de Varoukafis e dos seus enamorados: aquele onde os jornalistas não são impertinentes.

Mas agradeçamos, que, como Varoufakis disse, é o referendo grego que mostra que euro e democracia podem coexistir – que antes eram mutuamente exclusivos e nós andamos a participar em eleições faz-de-conta que os políticos nos permitiam só para nos entreterem. (Quão mais ridículo se pode ser que este V qualquer coisa?)

E faço incidir também os holofotes na palavra escolhida pela criatura V: ‘celebração’. Os gregos estão sem acesso ao seu dinheiro, os bancos estão fechados, os pensionistas estão desesperados, as filas nos multibancos fazem lembrar as do tempo de guerra à porta de onde se distribuíam os cupões de racionamento, os supermercados têm as prateleiras vazias, o turismo deste ano vai ser atroz porque toda a gente está a cancelar reservas, o desemprego explodiu desde janeiro, o ministro da defesa ameaça com a imposição da ordem pelos militares. Mas a criatura V acha que vai ganhar o referendo, vai manter-se como ministro, pelo que fala em ‘celebração’.

O syriza estará seguramente no top 5 de exemplos de um governo de canalhas a que assistiremos durante a nossa vida.

A culpa é dos políticos hiperativos

O meu texto desta semana no Observador.

‘Devo começar esta crónica esclarecendo que temo pela saúde do meu computador (já de si uma fraca máquina, que eu acredito em poupar dinheiro nas tecnologias para gastar em sapatos e maquilhagem – e livros e viagens, acrescento só para os sexistas de serviço não virem a correr chamar-me fútil) se volto a ouvir ou a ler, a propósito da interminável novela grega, que ‘a Europa está dominada por contabilistas’ ou ‘as pessoas são mais importantes que os bancos’. (E uma pergunta de passagem: saberão que os bancos é onde está guardado o dinheiro das pessoas?)

Por várias ordens de razões. Uma. Não respeito a falta de originalidade. Duas. Repudio a ignorância. Três. Não aprecio líricos moralistas, sempre prontos a darem sentenças sobranceiras sobre o que os outros devem fazer com o seu dinheiro e a mostrar tão publicamente quanto possível como são pessoas de coração mais benévolo que os bárbaros materialistas que contam tostões da dívida grega (vejam bem que a discórdia entre gregos e eurogrupo era ‘só’ – li eu por aí – 0,01% do PIB europeu, que ninharia).

Bom, eu não sou contabilista, nunca achei piada a Contabilidade, mas sou liberal. Donde: muito ciosa da minha liberdade de gastar o meu dinheiro como bem entendo. Tenho o bom hábito de ficar ofendida sempre que encontro as almas anticontabilistas ‘o que conta são as pessoas não os números’ que querem fazer boas ações com o meu dinheiro (ou com o dos alemães). O dinheiro é como as barrigas: é meu, faço o que quero. Não sou política, não tenho de dar estas satisfações, entretenham-se com a vossa vida sff.

E, reconheço, fico à beira da apoplexia com a beatífica repugnância à ditadura que os malévolos fenómenos económicos estendem sobre a virtuosíssima política.’

O resto está aqui.

Syriza: um governo de medricas (qual governo que faz frente à Europa toda, qual carapuça)

filas grecia atm(o sucesso do Syriza, segundo os critérios da esquerda lunática nacional)

Estou como a Helena Matos (que bom texto), um tanto irritada por perder tempo com estes pantomineiros gregos (e as sucursais nacionais), e estou apertada com prazos para escrever outras coisas, mas tem de ser. Ora vamos lá.

1. O referendo às propostas das ‘instituições’ é algo que faz muito sentido, e não me venham com argumentos ‘a questão é muito técnica, os pobres e vulgares cidadãos gregos não percebem nada’. Tanto percebem que acorreram às caixas multibanco para levantar euros, membros do parlamento grego incluídos. Faz-me todo o sentido perguntar a uma população se quer cortes de despesa e aumentos de impostos para continuar a ter financiamento externo. O que já é evidente chantagem e má-fé do governo grego é marcar o referendo para DEPOIS de a Grécia já ter falhado um pagamento ao FMI, estar em default e falida. E, como é óbvio e diz a adulta Lagarde, quando já nem se mantêm as propostas das ‘instituições’. Se Tsipas e Varoufakis tivessem negociado seriamente nestes cinco meses, em vez de engonharem e escreverem no twitter e apostarem em deixar a decisão para o limite a ver se a UE tremia dos joelhos e ajoelhava perante as imposições gregas – e sim, aqui quem tem feito imposições é a Grécia, que pretende ter o dinheiro dos outros segundo o diktat grego – e, de seguida, levassem a necessária austeridade a referendo, teriam sido políticos sérios (mas, quiçá, a seriedade é um conceito burguês e reacionário). Com este timing, apenas se trata de chantagem, manipulação e desonestidade. (E o BCE, ainda assim, vai continuar a ajudar a Grécia. Se isto não é solidariedade europeia, não sei o que é.)

2. Não dei por tanques prussianos junto às fronteiras terrestres gregas, nem que tivesse sido imposto um bloqueio marítimo na extensa costa grega. Ninguém está a obrigar a Grécia a nada. A Grécia tem toda a soberania para decidir recusar as propostas dos que estão dispostos a financiá-la. Não quer a austeridade imposta pela troika, não tem; como se vê, nenhum país se prepara para invadir a Grécia caso recuse financiamento das ‘instituições’. Não há, portanto, nenhum ataque à soberania grega. Claro que se recusar a austeridade da troika, terá a austeridade do default. E se sair da posição de ‘lacaio de Merkel’ (que pelos vistos tem quem não sofre de pulsões suicidárias) tornar-se-á lacaio de Putin – mas quanto a isso já se percebeu que Tsipras não tem grandes problemas.

3. E a falta de solidariedade europeia, que tanto apoquenta os corações da boa gente da esquerda lunática nacional? Eu, por mim, estou de consciência tranquila. Estive uma semana o ano passado de férias na Grécia, este ano planeio ir lá mais uns dias e não vejo maior solidariedade com um país do que decidir livremente gastar nele o meu dinheiro. A crise humanitária grega até teve a simpatia de se ocultar enquanto eu por lá andei, a ponto de não a ter vislumbrado. E eu sou daquelas pessoas sensíveis a imagens de pobreza, ir à Índia para mim é um tormento (da única vez que lá fui de férias perdi o sono durante alguns meses, e isto não é força de expressão; e das vezes que lá ia em trabalho fazia por estar fechada no hotel o máximo tempo possível), recuso-me a ir à África subsahariana, e não consigo apreciar o pitoresco de hordas de pedintes. Quanto ao resto, era o que faltava qualquer porção do meu dinheiro contribuir para manter gastos militares gregos (onde ‘as instituições’ pedem o dobro das poupanças que pretende o governo grego, ao contrário da notícia que por aí circulou) ou para sustentar a tv pública syrízica de propaganda ou para pagar pensões gregas mais elevadas do que aquela a que eu, um dia, com sorte, terei direito. Não gosto de parasitas nem de predadores.

4. Voltando ao referendo, não entendo por que razão o Syriza – que diz ter um mandato que não lhe permite aceitar as propostas das ‘instituições’ e que afirma ir fazer campanha pelo não – não recusa simplesmente a proposta e vai à sua vida. Tsipras e sus muchachos, além de irresponsáveis e incompetentes, são uns medricas que nem conseguem aceitar o ónus e a responsabilidade da decisão de entrar em default, falir e sair do euro. Até parecem pretender continuar a governar como se nada fosse se perderem o referendo.

O estranho caso do milagre económico comunista que ainda não apareceu para picar o ponto

soviet unionFaz agora 5 meses – quase ao dia certo – que percebemos a extensão da personalidade adorável dos atuais líderes gregos, com a sua mistura de ar desdenhoso e arrogante, ofensas e insultos proferidos em abundância e mentira continuada sobre vontade de encontrar compromissos (que sabemos inexistente, que não há nada que comunistas gostem mais do que caos e confusão para lá no meio do turbilhão arrecadarem poder que de outra forma não conseguiriam).

Mas nestas negociações com a Grécia – que são muito mais do que uma forma de encontrar acordos financeiros – há dois pontos importantes a ressalvar.

1. A negociação com a Grécia não deixa de ser uma batalha civilizacional – como são todas as guerras que se fazem ao comunismo, essa ideologia profundamente imoral. É muito importante que as instituições formerly known as troika não permitam que um governo comunista reclame sucessos económicos obtidos à custa do dinheiro dos capitalistas (também conhecido como poupanças dos restantes cidadãos europeus, que por acaso têm direito de as gastar como bem entendem, ao contrário dos gregos e outros comunistas avulsos com a mania que têm direitos sobre o dinheiro e a propriedade alheios).

2. E a propósito de sucessos económicos, chego ao 2º ponto. Não entendo. Estou confusa. Então mas onde estão a abundância e crescimento económico que os comunistas e esquerdistas radicais nos garantem vir com as políticas defendidas pelo Syriza? Ao fim deste tempo todo, o milagre económico comunista na Grécia devia já ter tornado irrelevante a necessidade de financiamento externo. Cinco meses já deveriam fazer a diferença na criação de riqueza devido a tão avassaladoramente fantásticas propostas económicas do Syriza. Onde está a taxa de crescimento da economia a triplicar a da zona euro? Onde estão os lucros estonteantes e a receita fiscal a crescer? Onde está o emprego a multiplicar-se e os ordenados a engordarem? Por que diabo necessitam que outros lhes emprestem dinheiro? É muito estranho que as políticas económicas comunistas afinal destruam centenas de empregos por dia (fora o que aí virá depois de a troika mandar o Syriza para as caves conspirativas de onde nunca devia ter saído). A realidade não pode continuar a contrariar desta maneira as boas teorias.

Hergé e Jane Austen, dois autores a banir

Tintin Castafiore EmeraldAs alminhas(inhas) Tiago Ivo Cruz e Ana Bravo – que argumentam o racismo e a misoginia de Hergé – foram grandes perdas para o analfabetismo. E agora – pegando nesta infalível tese sobre a ausência de mulheres nos livros de Hergé, que não é mais do que um apagão ao mulherio – decidi-me a deixar de ler a Jane Austen. Como se sabe, ou TODAS as realidades do mundo estão contidas dentro de uma obra literária ou essa obra é negacionista disto e daquilo. Quer escrever um romance passado em 2015? Pois não pense descrever só êxtases sexuais, traições, lágrimas e por aí. Ou bem que inclui a descrição detalhada do período de ajustamento acordado com a toika, os números do desemprego (preferencialmente com gráficos mostrando os dados da Pordata) e uma ou outra notícia contestatária da austeridade ou nenhuma editora o publica, porque está a apagar a crise que se vive agora. E faz favor de incluir uma ou duas violações e uma mulher morta pelo ex-marido, que ainda é acusado de negacionismo da violência sexual e doméstica sobre as mulheres.

Mas regressando a Jane Austen, afinal aquilo tudo se passa ao mesmo tempo que as guerras napoleónicas e nem vislumbre delas nos livros (há uns militares a distraírem as irmãs Bennet em Pride and Prejudice e as meninas casadoiras – outro conceito que agora devia ser proibido de aparecer na literatura de todos os tempos, que como se sabe hoje uma mulher não tem de ter a ambição de casar – em Persuasion, mas nem uma batalha, nem a descrição da estratégia de Waterloo, népias). E com tanto romance, não há vestígio de sexo nos livros – eventualmente apenas a sugestão de que Charlotte preferia manter o marido, Mr Collins, clérigo e o maior lambe-botas da literatura, à distância. É certo que os desejos andam à solta (e as adaptações para televisão facilmente os evidenciam), mas de the real thing, nada. Proscreva-se Jane Austen das bibliotecas e das livrarias. JÁ.

Semana do absurdo

O meu texto de ontem no Observador.

‘Da próxima vez que voltar a afirmar que quarenta e um anos depois do 25 de abril ainda temos uma democracia disfuncional, posso exibir esta semana como prova. E ilustro com dois casos.

O primeiro absurdo da semana passou-se na segunda feira à noite, na Barca do Inferno, e não foi pelo abandono em direto de Manuela Moura Guedes. Vi o programa poucas vezes e geralmente só as intervenções de Sofia Vala Rocha, de quem sou amiga (fica a declaração de interesses). E não via porque o nível de opiniões políticas das senhoras à esquerda está como o de Soares na sua fase os-mercados-provocam-terramotos, a acompanhar o que parece ter geração espontânea em muitas pessoas da esquerda (de ambos os sexos): sofrerem de uma certa confusão entre regras do debate político e os métodos da invasão da China por Kublai Khan.

Só até à saída de Manuela Moura Guedes, na última Barca, tivemos Isabel Moreira (uma criação política socrática) dizendo que Sofia V. Rocha não era séria a debater, ao contrário de si própria, garantidamente ‘séria quando falo’ – ao mesmo tempo que proferia a falsidade de que o PS não pretende (como Sofia afirmava) cortar nas pensões futuras. O que, recorde-se, foi assumido aquando da apresentação do cenário macro do PS: a partir de 2027 as pensões terão já o corte máximo resultante da baixa da TSU que o PS promete. É simples: agora paga-se menos e depois recebe-se menos. E quando Moura Guedes estava de saída, a magnânima Moreira não resistiu a desferir um último ataque a quem já estava em retirada.

Já Raquel Varela, a mais afamada académica e autora mundial em tudo e mais um par de botas, declarou-se humildemente uma ‘especialista em Segurança Social na Universidade Nova de Lisboa’. Apesar de ser historiadora (e eventualmente até poder conhecer a História da Segurança Social), de erradicar a demografia como risco para a sustentabilidade da SS e não entender que as pensões recebidas não têm nada a ver com ‘poupança’ dos valores descontados, e de a SS ser um assunto predominantemente económico, Varela é especialista. A mesma Varela que aparenta dificuldade com conceitos económicos básicos e que retira deles conclusões delirantes que apresenta – outra vez com modéstia e usando um jargão pseudo-económico – como geniais.’

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malditos

scientific farming u washMaldita globalização. Malditas empresas ocidentais que aproveitam o trabalho barato na China para baixar os preços nos seus países. Malditos consumidores que aproveitam os salários baixos chineses sem pesos na consciência. Maldito consumismo.

Malditos todos: entre 1990 e 2014, a China diminui para metade a parte da população que passa fome; desde 1990, 155 milhões de almas chinesas escaparam à fome. Números dessa organização ultra-capitalista que é a FAO.

 

Diagnosticaram-me ideologia

O meu texto de ontem no Observador.

‘Ideologia’ foi uma doença muito avistada depois de PSD e CDS ganharem as eleições de 2011. Todas as pessoas decentes do país se queixaram, nos primeiros seis meses do governo, que a malvada coligação queria implementar um ‘programa ideológico’. Acabar com as golden shares foi ‘ideológico’, as alterações da legislação laboral tresandaram a’ ideologia’, o corte dos subsídios aos funcionários públicos esteve carregadinho do pecado ‘ideológico’, os cortes na despesa nos vários setores (de resto menores do que os negociados pelo PS no memorando de entendimento) foram o cúmulo da ‘ideologia’.

Com a proximidade das eleições, os diagnósticos de ‘ideologia’ têm explodido outra vez nos lados dos técnicos de saúde política afetos ao PS. Eu nos últimos tempos já fui objeto de vários diagnósticos de ‘ideologia aguda’ no twitter, na sua forma declarada e incurável. Às vezes pondero se não seria melhor (para bem da saúde pública) acoplar uma campainha à minha carteira para avisar quem se cruza comigo desta debilitante condição liberal em que me encontro.

Claro que quem se queixa de ‘ideologia’ tem muita razão. Os partidos – todos – apresentam uma ideologia aos eleitores através das suas propostas políticas nos programas eleitorais; e os eleitores decidem para que combinação ideológica estão mais virados em cada momento eleitoral. Na verdade, os partidos menos ideológicos que por cá temos são PSD (cuja grande ambição da maioria dos seus militantes é ser de esquerda) e CDS (que ainda não se arrumou o socialismo beato).

Nem só os jovens costistas das redes sociais e do comentário político se preocupam com este surto infeccioso. António Costa também parece estar baralhado com o vírus ideológico. Por exemplo, em março, Costa ‘criticou o Governo por ter abdicado de uma abordagem pragmática na resolução dos problemas do país “por puro preconceito ideológico”’ (Expresso, 17/3/2015). Em abril, Cassete Costa afirmou: ‘Este Governo nunca olhou para os problemas de uma forma pragmática, olha sempre para os problemas com preconceito ideológico’ (RR, 12/4/2015).

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Adolescentes à deriva

O meu texto de hoje no Observador.

‘Dentro dos temas de que fujo está a conversa ‘a juventude de hoje está perdida’ e todas as variações de ‘antes o mundo era maravilhoso e agora está um descalabro’.

Ora bem: antes o mundo não era maravilhoso e agora não está um descalabro. Ou, se está um descalabro, pelo menos está menos do que costumava estar. Como o meu objetivo não é provar este ponto (e estou com pressa de chegar aos adolescentes), deixo-vos os argumentos de outros, um de 2012, um de 2013 e outro de 2014. Até britânica e conservadora The Spectator e a americana e esquerdista Slate concordam que o mundo não está condenado. Por isso, caro leitor pessimista, lamento informá-lo, mas não, a humanidade não caminha para o apocalipse. Habitue-se.

É bom recordar os progressos nestes dias em que se tornou mantra nacional declarar que a sociedade está doente, ou, pelo menos, os jovens estão doentes, estamos a criar monstros, levemos as mãos à cabeça que famílias e escolas estão a falhar e o futuro que aguarda os menores é uma distopia que nem Orwell previu.

É certo que a realidade espicaçou. Primeiro o bullying de um adolescente por várias raparigas. Houve os que gozaram com o bullying e acham que deve ser à antiga, um rapaz enrijece se levar pancada e quem dá relevância a estes incidentes só incentiva a mariquice nacional. E os que prometeram violências ainda mais atrozes às agressoras – enquanto viam e partilhavam furiosamente o vídeo, expondo as identidades de agredido e agressoras, tornando-se assim participantes e agravando a agressão que tanto repudiavam.’

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A câmara de Lisboa associou-se de vez ao crime organizado?

homer x rayNão tenho nada contra uma realidade que se encontra em inúmeros desses países bárbaros que compõem a União Europeia, a saber uma tarifa fixa nos táxis desde o aeroporto até à cidade mais importante que o aeroporto serve (desde que, evidentemente, se possa optar pela tarifa normal dependente dos quilómetros do percurso). Geralmente garante que não somos (muito) enganados por taxistas que se põem a dar voltas desnecessárias antes de chegar ao destino para conseguir percursos mais caros. Faz tanto mais sentido optar-se por uma tarifa fixa quanto os aeroportos são geralmente longe da cidade, com percurso de estrada e de autoestrada, que incluem portagens. E também não tenho nada a obstar a que se cobre pela entrada dos carros no aeroporto – táxis e outras variantes – ou pela permanência de mais de 10 minutos.

Mas claro que a associação da ANTRAL, da ANA e da inevitável Câmara Municipal de Lisboa (agora presidida pelo delfim de António Costa) só podia magicar ‘soluções’ que não são mais formas de saque legalizadas, com esta proposta de pagamento de 20€ desde o aeroporto da Portela até, no máximo, 14 km de distância – que, depois, pagam-se os 20€ e os quilómetros que acrescem.

Eu moro ao pé do rio, no lado oposto, em Lisboa, ao do aeroporto, e não me lembro de pagar mais de 15€ para ir para o (ou vir do) aeroporto, incluindo a marcação ou o pedido telefónico do táxi e as malas. Se vou do aeroporto da Portela para casa dos meus pais (em Alvalade, e onde às vezes deixo o meu carro), o mais provável é o taxista encontrar forma de me insultar, ou vai a arfar durante todo o percurso, porque é um percurso pequeno e barato (não pago sequer 10€).

À parte a parvoíce da taxa de 1€ para a ANA, e a bacoquice do motorista fardado, agradeço que a Câmara Municipal de Lisboa – que, ao contrário da ANTRAL que defende os interesses dos seus associados, supostamente, alegadamente, teoricamente defende os interesses dos lisboetas – me explique, como se eu tivesse 5 anos, de que forma é que pagar quase o dobro (para minha casa; ou mais do dobro no caso dos meus pais) por viagem de táxi do aeroporto está a defender os meus interesses? Onde é que isto é diferente de sancionar um saque aos clientes de táxis? Será que o vírus que causa estupidez tem concentrações anormalmente elevadas nos edifícios da CML?

Entradas no dicionário

O meu texto de ontem no Observador.

‘Há duas tiras de quadradinhos em que a Mafalda, de Quino, introduz uma explicação para as desavenças no mundo: o facto de metade do mundo estar a almoçar quando a outra metade está a dormir. E termina ditando ao Filipe uma carta ao secretário-geral da ONU sugerindo que o que divide o mundo afinal não é a política mas o sono.

Às vezes tenho uma desconfiança prima desta quanto à esquerda e à direita: que o que as divide não é tanto os valores ou os caminhos políticos; é o dicionário. É que não se aventa outra explicação para usos tão exóticos de certas palavras.

Um exemplo: sucesso. António Costa há poucos dias afirmou, num evento sobre educação, que ‘este governo não foi capaz de conviver com nenhuma das marcas de sucesso da governação socialista’. Uau. O país inteiro vive encadeado com tanto sucesso socialista, efeito de resto agudo por estes dias quando se preenche a declaração para o IRS.’

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dia particularmente problemático para as cabecinhas da esquerda

Sample-Sale charlotte olympiaAlgumas vezes ocorre-me ser assaltada pela desconfiança de que ser de esquerda implica alguma deficiência cognitiva (ou, em alternativa, hipocrisia grossa). É que se acho normal – e, gostando eu de diversidade e de ter pessoas inteligentes de quem discordar, muito aprazível – que haja quem defenda o estado como central na economia, na sociedade, na cultura e, até, na vida corrente das pessoas (há uns sinceros com a ideia paternalista de que há muitos adultos à solta que não sabem resolver a sua vida e que o estado tem de lhes ensinar, e há outros que gostam da ideia de desta forma ter poder sobre os outros), já a defesa de certas causas como ‘de esquerda’ só nos pode fazer concluir pelo que pus na primeira frase.

A indignação com a abertura dos supermercados no 1 de maio, além de raiar a loucura, raia a idiotia. Não teria nada contra o 1º de maio ser o feriado por excelência daqueles que apenas se sustentam através do seu trabalho (ao invés dos que detêm também capital e que são simultaneamente trabalhadores e investidores) e que, como no dia de ano novo e o dia de Natal, tudo, exceto os serviços que não podem parar, encerrasse. Mas o 1 de maio não é nada disso e, dos tempos em que já tenho idade para ter memória, nunca foi. Os cafés e restaurantes sempre estiveram abertos. Os centros comerciais sempre funcionaram. Sempre houve feiras aqui e ali para aproveitar o feriado. Os cinemas e espetáculos sempre continuaram sem interrupção. Os museus sempre receberam visitantes. Por todo o lado, menos nos supermercados, se encarou o 1 de maio como um feriado igual aos outros.

Que se veja como um ignomioso, brutal, iníquo (e mais quinze adjetivos pejorativos) ataque aos trabalhadores uma (ou duas) cadeias de supermercados abrirem no 1 de maio só mostra como agora as causa da esquerda (pelo menos da esquerda histérica) são pequenas e não têm nada a ver com justiça nem com proteção dos trabalhadores. Fazem lembrar os conservadores religiosos para quem foi uma punhalada bem colocada entre as costelas que os hipermercados abrissem ao domingo à tarde. Quem trabalha neste dia nos supermercados é compensado por isso em mais do que determina a lei, trabalha porque quis e os outros trabalhadores de outras empresas, sobretudo os que ganham menos, têm possibilidade de comprar bens essenciais mais baratos. E para as almas sensíveis a quem repugna ver pessoas de menores rendimentos a acorrerem a um supermercado só para aproveitar uma promoção, e lá dentro sobreviver aos encontrões e às longas filas, do not worry. As senhoras do extremo oposto da pirâmide social fazem as mesmas figuras com os sample sales e os stock off de marcas de luxo. As más figuras por causa de promoções são, afinal, um unificador social.

Sample-Sale

Os magos

O meu texto de ontem no Observador.

‘Não deixa de ser reconfortante para os que não apreciam a imprevisibilidade na natureza humana que nem perante as maiores calamidades os maluquinhos parem de produzir os seus disparates.

Estava o mundo inteiro ainda em choque com o terramoto do Nepal e a mortandade e destruição de casas e monumentos que trouxe quando já a cantora turca e ativista dos direitos dos animais Leman Sam informava o mundo sobre as causas do sismo. Claro que há pessoas sensaboronas e crédulas que acreditam na verdade oficial de ter sido um embate de placas tectónicas, com a placa indiana a deslizar mais do que o costume para baixo da placa euro-asiática. Mas Leman Sam sabe melhor. E, para nosso gáudio, contou-nos.

No final de 2014 ocorreu no Nepal o festival em celebração da deusa hindu Gadhimai, sendo sacrificados largos milhares de búfalos, cabras e pombos. Ora como é evidente – e a cantora turca notou – o terramoto não se tratou de mais do que a deusa hindu reclamar igual sacrifício dos humanos que sacrificaram os animais. Uma espécie de reposição do equilíbrio cósmico, se quiserem. À parte ficar por esclarecer se a deusa que fez tremer a terra foi Gadhimai outra vez, ou se foi Kali (que tem reputação de destruidora), todos vemos que o tweet da senhora turca tem uma lógica inabalável.

Um tanto desnecessário o tweet, no entanto, porque a causa dos terramotos já havia ficado estabelecida em 2010, quando um clérigo iraniano nos elucidou: é o sexo extraconjugal (provocado, por sua vez, pelas vestimentas insinuantes das mulheres pouco castas) que causa os terramotos. E como parece que o clérigo iraniano é dado à literalidade, os terramotos que referia não eram os sensoriais nem as consequências sísmicas nas relações humanas; não: eram mesmo aqueles que fazem as casas tremer e os edifícios desabarem.

(Mário Soares – suspiremos – apresentou também uma explicação alternativa, dando ideia de que as placas tectónicas são reativas à usura dos mercados.)’

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para o PS o mundo não pára de mudar

wormHá tanto para criticar no coelho que ontem o PS tirou da cartola que terá de ficar para depois. Mas porventura o que mais me impressionou naquilo tudo foi a indigência ideológica com que os programas (e o tal coelho da cartola prepara-se para ser uma porção importante do programa eleitoral do PS, ainda que não admire mais um flip-flop de Costa nestes assuntos económicos) são feitos nos partidos políticos portugueses que estão habituados a governar. Chamam uma dúzia de ‘especialistas’ para darem os seus contributos, estes têm umas ideias mais ou menos malucas e, preferencialmente, completamente desgarradas da realidade (no melhor dos casos, são ideias inúteis e inócuas) e, tchantchantchan, tornam-se bandeira dos programas de governo como se fossem A solução para o país. Independentemente de serem potenciais criadoras de mais problemas ou, sequer, consistentes com as posições políticas anteriores do partido.

Isto não mostra só como os líderes políticos de PS (e PSD, onde se passam processos iguaizinhos) são uns basbaques que engolem a primeira tolice que ‘os especialistas’ lhes vendem – porque, lá está, são pessoas que além dos meandros traiçoeiros da política de nada percebem -; no fundo são ideologicamente tão consistentes como uma minhoca das couves.

Tomem por exemplo a proposta dos ‘especialistas’ do PS para a descida da TSU para empresas e trabalhadores. Por princípio, não tenho nada contra – desde que se assuma que isto implicará, no futuro, pensões muito pequenas. Claro que isto tresanda ao ‘choque fiscal’ que foi o trunfo de Durão Barroso em 2002 – e não é preciso lembrar que não só não houve choque fiscal nenhum como Manuela Ferreira Leite correu a aumentar ‘temporariamente’ o IVA para 19%, pois não? Mas o mais curioso é que esta baixa da TSU aparentemente vai ser proposta pelo partido que há muito poucos anos criou o novo código contributivo, que alargava a base de incidência dos descontos para a SS a tudo e mais alguma coisa que os trabalhadores recebessem, aumentando escandalosamente o montante de contribuições para a segurança social. Implicou mais custos para as empresas e foi uma redução significativa nos ordenados líquidos dos trabalhadores. Para os que trabalham a recibos verdes, foi mesmo um assalto com arma branca (vieram outros a seguir deste governo, sim).

E atenção: este novo código contributivo não se justificou com a necessidade de austeridade que a criatura socrática iniciou; a justificação foi inteiramente a de quererem assegurar a sustentabilidade da segurança social. Foi defendido por Elisa Ferreira, João Galamba, Vieira da Silva e António Costa – os mesmos que agora defendem redução da TSU e redução das pensões.

Que credibilidade se pode atribuir a gente assim?! É que, lamento, mas posições sobre a fórmula da segurança social, se as pensões devem apenas ser um garante contra uma situação de pobreza (eventualmente complementado com produtos privados) ou permitir continuar um nível de vida aproximado ao que se tinha enquanto se trabalhava, que tipos de rendimentos devem ser abrangidos, e por aí adiante, não podem ser posições circunstanciais e conjunturais nem opiniões que mudam com o vento. Num assunto crucial como a Segurança Social, o que o PS disse ontem é que é uma maria vai com as outras, sem espinha dorsal e sem qualquer princípio norteador. O que, em boa verdade, não é novidade.

Espremer direitos

O meu texto de hoje no Observador.

‘A indignação das boas almas sensíveis deste fim de semana veio a propósito de notícias (dadas – não fossem as boas almas sensíveis estarem distraídas – em tom de denúncia de grave atentado aos direitos humanos) do pedido a duas enfermeiras do Porto para fazerem prova de amamentação. Notícias que usavam termos mais próprios para a ordenha (havia que sugerir imagens repudiantes) do que para a amamentação: ‘espremer mamas’ e ‘esguichar leite’. Usar o neutro (e correto) ‘tirar leite’ seria demasiado delicado e poético para a intenção das notícias, presume-se.

Aproveito para informar já que as manchetes do próximo fim de semana dos jornais que com tanto enlevo protegeram a amamentação (e tenho um ataque de tosse enquanto escrevo isto) serão do calibre de ‘malévolos polícias impedem assalto a supermercado por pobres orfãos adolescentes desadaptados’.

E as boas almas que logo rasgaram as vestes nas redes sociais (o que permitiu diversão no twitter, que estas indignações tontas têm consequências boas) vão de seguida organizar uma petição para banir dos consultórios dos médicos de família a obrigação de se abrir a boca, estender a língua e dizer ‘aaaah’ para que o médico nos examine a garganta, que isto é figura muito triste que fazem os doentes e não pode ser. E vão também – em defesa da perigada honra feminina – juntar-se às reclamações dos muçulmanos residentes na Europa que exigem que as suas recatadas mulheres sejam examinadas por médicas e enfermeiras nos hospitais públicos. Onde já se viu uma senhora decente ter de mostrar as mamas a um homem que não o marido? – é a pergunta comum dos indignados progressistas portugueses e dos muçulmanos radicais.’

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para os maluquinhos lactantes

breast pump(é uma bomba de tirar leite)

Uma bomba de tirar leite (aqui em cima está uma igual à que eu tive aquando da amamentação da criança mais nova) é um instrumento inócuo, indolor e não, não é um atentado à dignidade da pessoa humana, mulheres incluídas. Não, uma bomba de tirar leite não se confunde com uma cadeira de pregos medieval. E apesar de compreender a excitação com isso da notícia de ‘espremer mamas’, lamento informar a quem tivesse mais entusiasmo com a imagética da coisa, mas a uma mulher que esteja a amamentar basta pressionar levemente (mais uma vez, não dói nem incomoda nada) o mamilo que saem logo umas gotas de leite (muito pouco sexy – eu bem pedi desculpa por estragar imagens).

tortura medieval(não é uma bomba de tirar leite)

Vingança pornográfica, de facto

O meu texto de ontem no Observador.

‘Uma boa história de vingança dá sempre suculento material literário. A personagem mais requintadamente vingativa de sempre é, sem discussão, o conde de Monte Cristo de Dumas (que, não há vergonha em confessar estas coisas, foi uma das grandes paixões da minha adolescência, afinal nenhuma adolescente saudável de doze anos resiste ao torturado prisioneiro inocente do Castelo de If). Logo a seguir candidata-se Heathcliff, em O Monte dos Vendavais. E, claro, a vingança é um filão interminável para a literatura policial – género que não dispenso. Na versão lusa, tivemos há poucos anos O Mar em Casablanca, de Francisco José Viegas, oferecendo-nos uma sangrenta vingança por causa de uns ainda mais sanguinários eventos em Angola trinta anos antes, em contextos inspirados naqueles em que Sita Valles foi torturada, violada e executada por comunistas da fação contrária.

À conta de tantos livres – e filmes – corremos o risco (ou, pelo menos, eu, que sou literariamente impressionável, corro) de ficarmos parciais com as mentes vingativas. Mas no caso das vinganças, como em tantos outros, a tecnologia destrui-nos o romantismo.

É que tem havido um grande número de pessoas encantadoras – cujo ressentimento e falta de escrúpulos é certamente apenas um pormenor – que partilha na internet fotografias ou vídeos de conteúdo sexual quando uma relação amorosa (ou qualquer coisa vagamente relacionada) termina. Do ex, claro.’

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