Mais uma vez toda esta situação foi, na minha opinião, um grande tiro no pé do governo, que demonstra (mais uma vez) a sua inaptidão para conduzir este género de processos.
Em primeiro lugar, a farsa da “sociedade civil” como organizadora do evento: um evento curiosamente aberto por um secretário de estado, com a participação de outros, e encerrada pelo primeiro ministro. As circunstâncias que rodearam esta iniciativa permitem levantar uma questão: é legítimo ao governo impor em eventos público organizados por si regras de limitação à liberdade de expressão e condicionadoras da possibilidade de cada um dos presentes relatar como bem entender o que lá se passou? Quando supostamente pretende fomentar a discussão pública e deseja que a “sociedade civil” participe no processo? Ou afinal confirma-se que essa vontade foi expressa com reserva mental?
É que se afinal tudo não passou de uma reunião privada do governo com consultores e conselheiros escolhidos por este, que se faça à porta fechada e com o recato que o governo quiser – como está ao seu alcance e já as faz, vinculando os participantes às condições que entender (e a que estes admitam submeter-se), e não convide jornalistas. Caso contrário, caso entenda fazê-las em público, parece-me válida a tomada de posição dos jornalistas em abandonar o local no exacto momento em que essas restrições passariam a entrar em vigor.
Assim como o governo entendeu marcar uma posição sobre a questão, é perfeitamente legítimo que os jornalistas também queiram marcar a sua, nomeadamente a de que não são a central de comunicações do governo, uma cadeia de transmissão de informação formatada ou parte do séquito do governo, de que este pode por e dispor como lhe aprouver nas suas iniciativas públicas.
Na minha opinião, o que os jornalistas deveriam ter feito era ficar e relatar posteriormente integralmente o sucedido, recorrendo aos meios que achassem convenientes – por exemplo gravações e filmagens ocultas, ignorando liminarmente as restrições à citação, e enfrentando as possíveis repercussões (que seriam limitadas – sequer existindo – a possível limitação do acesso a eventos posteriores). De qualquer forma, o abandono do local também me parece uma resposta proporcional. Uma pena que não tivessem estendido a sua iniciativa a não transmitir nada em relação ao evento, nomeadamente em relação às intervenções inicial e final.
O jornalismo e os jornalistas portugueses são fracos, e são muito culpados da displicência e sobranceria com que são tratados, e na maneira como se deixam conduzir pelo Poder. Mas isso não justifica nem elimina a possibilidade e a justiça de criticar farsas destas promovidas pelo governo.