Um grupo de iluminados ilustres democratas de esquerda produziu um manifesto elegendo a defesa da justiça social e o aprofundamento democrático como instrumentos de combate à crise.
Não resisto a fazer alguns comentários:
- Desde logo, a falta de sentido democrático de certas pessoas sempre que a democracia não vai no sentido certo. É que é no mínimo caricato falar em aprofundamento democrático em Portugal quando temos um governo suportado numa maioria absoluta parlamentar que resultou de eleições legislativas ocorridas há menos de seis meses.
- Depois, é perfeitamente abusivo mencionar a “rua árabe”, como se os indignados de cá fossem comparáveis às pessoas que viviam/vivem em ditaduras ou pseudo-democracias.
- Temos ainda a já habitual presença do bicho papão, desta feita sob a forma do “situacionismo neo-liberal”, dos “obscuros jogos de capital”, da “anarquia financeira internacional” e d’ “a destruição e [d']o caos que os mercados financeiros mundiais têm produzido nos últimos tempos”.
- Por fim, num manifesto que pretende promover a construção de um novo paradigma (que bela palavra) para o estado, para a sociedade e para a economia é sintomático que o único vislumbre de medidas minimamente concretas corresponda a adiamento de receita e manutenção ou aumento de despesa. Não é de estranhar, afinal de contas a preocupação com o dinheiro é uma cena que não assiste a socialistas (e afins).
E no entanto temos um ponto quase em comum: eu também não gosto de políticas de austeridade que acrescentam desemprego e recessão, sufocando a recuperação da economia. Mas infelizmente são o triste e necessário resultado de viver anos e anos a fio acima do que se podia. Finalmente chegou a conta de um rumo que de novo nada tem.