Suécia: quase 3x a economia de Portugal

Sérgio Sousa Pinto tem sido sempre uma voz lúcida no meio do Partido Socialista. Anteontem escreveu este belíssimo texto no Expresso.

Um terço da Suécia

Em Portugal não gostamos do capitalismo. As razões gerais desta inclinação coletiva têm uma explicação histórica propriamente portuguesa, mas, no fundamental, estão há muito descritas na “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber.

Mário Soares, insuspeito de divergir do país neste aspeto como em tantos outros, uma vez confrontado com a espinhosa tarefa de governar Portugal no final dos anos 70 e na primeira metade dos anos 80, percebeu que o atraso português — uma evidência só disputável por maluquinhos — não seria vencido sem o concurso de um sector privado vigoroso e empreendedor, gerador de riqueza, lucros, salários, impostos e contribuições, à semelhança do que existia nos países que Soares admirava, desde logo as so­ciais–democracias nórdicas e a Alemanha de Brandt e Schmidt.

Como o tempo político do país ainda era o do ideologismo mais ou menos terceiro-mundista, ou pelo menos latino e mediterrânico, o PS, primeiro partido socialista do Sul da Europa a chegar ao poder (Pietro Nenni não conta), meteu na gaveta o entulho inaproveitável, a que muitos chamavam erradamente socialismo, e dedicou-se às tarefas de reconstrução de uma economia privada, num esforço que seria continuado pelo PSD. Primeiro, acabar com a tutela militar e o Conselho da Revolução, depois, fazer a apologia dos “empresários de progresso” (invenção de Soares), falar timidamente dos “agentes económicos” e abrir caminho para as privatizações, recuperando mesmo, nesse processo, capitães da finança e da indústria do antigamente.

Soares sabia que nenhum regime assente na liberdade sobreviveria no atraso económico e no subdesenvolvimento. A Europa aceleraria a “convergência” e a democracia portuguesa tornar-se-ia sociologicamente irreversível. Tanto assim era que os socialistas portugueses encararam com ceticismo as nacionalizações operadas por Pierre Mauroy, primeiro-ministro de Mitterrand, beneficiários que eram de uma experiência de governo que faltava aos seus camaradas franceses.

Ora, em 2020 ainda se encontram socialistas que falam do sector privado como sector dos “negócios” com um esgar de repulsa. O sector público, instituído em nome do bem geral, é ontologicamente superior ao mundo dos negócios, da cobiça, da acumulação e da exploração. Nesta mundivisão, o atraso português deixa de existir e é substituído pelo atraso “nos direitos” dos portugueses face aos outros povos com os quais (felizmente) persistimos em comparar-nos. A diferença é toda. O progresso nos “direitos”, espalhafatosamente materializado em conquistas cada vez mais simbólicas ou pífias, num cortejo de bombos e cantigas de embalar, carece de recursos, a obter, forçosamente, “onde se estão a acumular”.

As classes médias cada vez gozam de mais “direitos” e subsidiações, para (alegadamente) acederem a bens e serviços que noutros países pagam tranquilamente do seu bolso, porque a punção fiscal é menos esmagadora. A fantasia dos “direitos” domina a boca de cena, e a política — da extrema-esquerda à extrema-direita — é uma grande feira de “direitos”, propostos por demagogos de todas as persuasões. Cada vez mais distante está o problema do atraso português, “the sick man of Europe” da Europa Ocidental, agora disfarçado pela chegada à União Europeia de países muito mais pobres e muito mais martirizados pela história.

Que a social-democracia sue­ca tenha consentido e viabilizado uma economia privada que, com a mesma população de Portugal, é quase três vezes a economia portuguesa é coisa que não alarma parte significativa de um certo socialismo à portuguesa. O que se trata é de igualar, e até suplantar, os “direitos” dos suecos, dispondo do equivalente a um terço da economia sueca. Infelizmente, não é possível.

É de recordar que a Suécia está 19º no ranking de liberdade económica, já Portugal está em 62º.

Resultado de imagem para sweden business

Mário Centeno em 2011 e 2015: o neoliberal

Adivinhe quem disse:

O Estado paga muito mais do que os privados às pessoas com menos qualificações e isto distorce tudo. Incluindo o próprio Estado, que não consegue atrair os bons quadros porque não lhes paga o suficiente, e não lhes paga o suficiente porque arrasta o peso daquela mole de pessoas não-qualificadas a quem paga acima do mercado.

É impossível instalar uma fábrica no interior de Portugal com câmaras municipais que são as maiores empregadoras, com programas operacionais disto e daquilo, com subsídios de desemprego… Não há maneira de concorrer com isto.

Quem foi o perigoso neoliberal que disse isto? Mário Centeno. Antes de ser político, antes de ter amarras políticas, em 2011. E agora um conjunto de 3 notícias divertidas de 2015.

Portugal é o único país da sua liga económica a crescer menos de 2%

O ministro dos Negócios Estrangeiros Santos Silva defendeu hoje como “grande objetivo para 2020 manter o ritmo do crescimento económico”.

Quem o ouve até pensa que temos um crescimento monstruoso que é necessário manter. A realidade colocando em perspectiva com países que já estão ao nosso nível é a seguinte:

Portugal, o país do poucochinho…

A Mentira de Centeno: carga fiscal sobe mesmo e é a maior de sempre

Resumo rápido:

1 – O primeiro documento do relatório do OE 2020 apontava para uma carga fiscal de 34,7% em 2019 e de 35% em 2020. Um aumento. Centeno de manhã disse que a carga fiscal não aumentava. Estava a mentir. Mas depois o governo disse que havia erros no relatório e, por isso, havia a possibilidade de Centeno afinal não estar a mentir (e ser o relatório a estar errado).

2 – No entanto, na versão corrigida do documento, a carga fiscal ainda subiu para um valor maior. O Governo prevê agora uma carga fiscal de 34,9% este ano e de 35,1% no próximo ano. Centeno mentiu mesmo. E é relevante dizer que esta será a maior carga fiscal de sempre.

Notícia Sábado

Lição para o Governo, escrever 100x no quadro:

“Eu não minto mais”

Centeno mentiu de manhã. Orçamento diz que a carga fiscal aumenta. Agora Governo diz que houve um erro.

Isto parece realmente uma anedota, mas não é. Nem num trabalho da faculdade isto acontece. E o que aconteceu? Aconteceu que o documento mais importante do Governo está cheio de erros. Alguns nem sei se propositados ou não.

Estava eu muito bem a ouvir o Ministro das Finanças a garantir que a carga fiscal não subia durante a conferência de imprensa quando decidi ir pegar no documento para confirmar. E lá fui eu à página 60 do relatório do OE ver a tabela mais importante do documento mais importante do governo:

E ali está. Somar a linha 1 e linha 5 da coluna da “2020 Previsão, % do PIB” e dá 35% de carga fiscal para 2020. Somar a linha 1 e linha 5 da coluna da “2019 Estimativa, % do PIB” e dá 34.7%. Como 35 é maior do que 34.7, o governo prevê um aumento da carga fiscal e o ministro mentiu quando disse que não iria haver aumento de carga fiscal.

Confrontado com isto, o Ministério já assumiu que há um erro. E não só há um erro, como com o passar das horas já se identificaram variados erros no documento. Como é que o documento mais importante do Governo está cheio de erros é uma coisa que nem me passa pela cabeça, sobretudo quando a data de entrega até foi escolhida pelo próprio governo.

O governo quis tanto entregar na data prometida, cumprir o que tinha prometido, que acabou por nada entregar em condições. Agora vai ter de corrigir o documento e enviar nova versão. Sintomático dos socialistas. Parece um país a brincar isto.

RTP: um canal que depende de financiamento do Estado nunca será independente

Alguém ainda acredita que se pode garantir a independência de um canal que depende de financiamento do Estado?

RTP em pé de guerra deixa direção no limbo :

O diferendo que opõe a equipa do Sexta às 9 à direção de informação é antigo e, nas últimas reuniões do Conselho de Redação, tem ficado a saber-se de outras histórias comprometedoras para as responsáveis máximas do canal público: desde uma notícia sobre os prémios a dirigentes e funcionários da TAP que ficou na gaveta (a história foi revelada pelo jornal i, na edição de 6 de junho)  até à famosa peça do lítio que ficou em stand by, esperando pelo fim da campanha eleitoral e pelos resultados das legislativas, tudo tem sido debatido nas reuniões do CR, muitas vezes num tom que o responsável pela redação da ata da reunião se diz incapaz de reproduzir. «A audição da jornalista Sandra Felgueiras decorreu num ambiente muito tenso, com interpelações sucessivas entre a jornalista e a diretora de informação que dificultaram a transcrição. Por isso, e no sentido de melhor aclarar este caso, anexamos documento assinado por toda a equipa do Sexta às 9 em que detalha pormenorizadamente o que sucedeu».

Acontece que a ata referente à reunião de 11 de dezembro acabou por não reproduzir a versão da equipa do Sexta às 9, que se sentiu injustiçada e, na sequência da mesma, distribuiu um comunicado à redação, com o título «Esclarecimento urgente à redação face a algumas omissões e imprecisões na ata do Conselho de Redação», onde diz que Flor Pedroso admitiu que interferiu na reportagem sobre o ISCEM. Nesse mesmo comunicado, a equipa do Sexta às 9 dá a sua versão sobre o que se passou no caso ISCEM e afirma que «a diretora de informação garantiu ter falado, no dia 8 de outubro, presencialmente com Regina Moreira no seu gabinete do ISCEM». Só depois de a repórter Ana Raquel Leitão ter falado com Regina Moreira sobre a reportagem é que Flor Pedroso contou à equipa de investigação que lecionava no instituto.

Nota: convém acrescentar que o modelo de governance da RTP foi alterado durante o governo de Passos, porque o anterior modelo era uma festa de poder do Governo.