Henrique Neto

Mas por que raio está Henrique Neto a apresentar a sua candidatura à Presidência a esta hora (16h), em vez de às 20 horas? Sou tudo menos um adepto de se fazerem as coisas em função dos telejornais, mas se há candidato a quem, pela sua falta de notoriedade junto da população em geral, dava jeito um directozinho às oito da noite, é Henrique Neto.

O monstro

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Leviathan_by_Thomas_Hobbes Na passada semana, a polémica da “lista VIP” de contribuintes animou os telejornais e a classe política, perante a incompreensão ou indiferença geral da população. Afinal, saber se o Sec. de Estado “sabia ou não sabia” ou se se deve demitir é tipo de questão para a qual os eleitores reservam a atitude mental que Ferro Rodrigues um dia disse ter para com o segredo de justiça, e quem os pode culpar? No entanto, a existência da tal lista revela algo que deveria preocupar e muito o cidadão comum. Ela, juntamente com as fugas acerca da situação fiscal de Passos Coelho e outros, mostram como o sigilo fiscal pouco passa de uma ficção em Portugal, e como isso põe em perigo a saúde do Estado democrático.

Diz “o povo” que “quem não deve, não teme”, e diz mal. É precisamente “quem não deve” que mais tem a temer de quem o pode acusar infundadamente de “dever”. Se o sigilo fiscal de qualquer cidadão não estiver devidamente protegido, se um qualquer funcionário fiscal puder aceder aos nossos dados, todos estamos potencialmente sujeitos a ser alvos de uma perseguição fiscal, bastando que por alguma razão tenhamos caído nas más graças de alguém com um computador das “Finanças”. Numa altura em que a Autoridade Tributária tem por hábito partir do princípio de que o contribuinte está em falta e exigir-lhe que prove a sua inocência, é fácil de perceber como “não dever” não é garantia de nada.

No fundo, ninguém pode ficar descansado. O aumento de poderes da AT conjugado com a sua incapacidade para proteger a segurança dos nossos dados dão ao nosso Estado democrático o pior do carácter dos autoritários: transforma todo e qualquer cidadão numa potencial ameaça a todo e qualquer cidadão. Ao contrário do que pensava o senhor que lhe deu o nome, quanto mais poderoso é o Leviatã estatal, mais os homens se tornam nos lobos dos homens.

Cofres “cheios”

Quem ouça as declarações propagandísticas da Ministra das Finanças e do Primeiro-Ministro acerca dos “cofres cheios” do Estado português, e as não menos propagandísticas críticas da oposição a essas mesmas declarações, até poderia pensar que o Estado já consegue ter um excedente orçamental. Não tem, nem terá tão cedo.

A “eficácia” da brutalidade

Brutalidade Há dias, no Observador, David Dinis escreveu um artigo sobre a polémica em torno da “lista de contribuintes VIP” que tem animado a classe política e os telejornais perante a indiferença ou incompreensão generalizadas da população. Após algumas considerações a propósito do caso, Dinis (pessoa que, pelo que leio e ouço, tenho em boa conta) escreve que “o Fisco é um dos trunfos maiores do ajustamento e modernização do Estado que temos para apresentar” tanto “aos credores” como “aos contribuintes” e que por isso “convinha muito não estragar o retrato”. Li e não acreditei no que li. Até que, vasculhando aquilo a que se convencionou chamar “as redes sociais”, deparei com várias comentários lamentando a circunstância deste caso vir “manchar” a “credibilidade” da Autoridade Tributária, “uma das poucas coisas que funcionam bem em Portugal”, dizia um dos opinadores.

É verdade que os vários governos que nos têm calhado em sorte desde que a dra. Manuela Ferreira Leite colocou o dr. Paulo Macedo a reformar a máquina tributária insistem em vangloriar-se da acrescida “eficácia” dessa mesma máquina no combate à evasão fiscal. Mas que sucessivos governos vivam noutro mundo que não o real não me surpreende. Já que portugueses comuns que são forçados a sujeitarem-se aos ditames das gentes que alternadamente nos pastoreiam acreditem nas balelas que nos tentam impingir é algo que acho bem mais preocupante. E para acreditar que o Fisco “funciona bem” e é um exemplo do melhor que “ajustamento” trouxe requer uma credulidade a um nível que está perto do humanamente impossível.

Não deve haver indivíduo que tenha tido o infortúnio de por via do nascimento ser cidadão português que não conheça, por experiência própria ou tenebrosos relatos de terceiros, os métodos a que a Autoridade Tributária/ex-DGCI (tal como com as polícias políticas do antigamente ou os serviços secretos russos, convém mudar o nome da coisa regularmente na esperança de que o facto de tudo continuar na mesma passe despercebido) recorre para “combater a evasão fiscal”. Todos os portugueses já receberam (ou conhecem alguém que recebeu) uma carta da AT/ex-DGCI a acusá-los de uma dívida que não têm, ameaçando-os de multas, penhoras ou processos judiciais caso esta não seja saldada, geralmente num prazo curto. Qualquer português que não ande a dormir sabe, mesmo sem pessoalmente ter tido o azar de passar por um semelhante calvário, como a AT/ex-DGCI (ou a Segurança Social) gosta de enviar notificações sobre situações fiscais de incumprimento que não correspondem à realidade do contribuinte ameaçado, na esperança de que ou a incompreensão do que lhe está a ser exigido (o português dessas notificações é deliberadamente ilegível) ou o receio dos custos inerentes a um longo processo no tribunal o levem a pagar sem protestar. Na prática, a AT/ex-DGCI declara o cidadão culpado até prova em contrário, e espera que por ignorância ou medo, o coitado admita a culpa ou não tente sequer provar a inocência, e se limite a “pagar e calar”, de forma a que o Estado vá conseguindo amealhar uns tostões aqui e ali para alimentar o “monstro” em que se tornou.

Mesmo o caso das “facturas” e a maior frequência com que os portugueses as pedem está longe de ser o sucesso que o Governo gosta de propagandear e em que David Dinis aparentemente acredita: convém não esquecer que os portugueses com pequenos negócios foram forçados a adquirir equipamento especial para processar essas facturas electronicamente, e que passados poucos meses foram novamente forçados a adquirir a versão actualizada, tudo do seu bolso. Em muitos casos (e só aqui em Caxias, onde vivo, me lembro de dois, e podem ter sido mais), donos de “pequenos estabelecimentos comerciais” tiveram de fechar o seu negócio por não conseguirem comportar esses custos. Os liberais-em-nome-apenas que proliferam por aí dirão que um negócio que não tem dinheiro suficiente para custos desses é um negócio que não tem condições para existir, mas mostram apenas a sua ignorância: não percebem, primeiro, que esse pequeno negócio tinha pelo menos a vantagem de dar trabalho a pessoas que, sem ele, ficam desempregadas. E em segundo lugar, ignoram que quando o outro senhor austríaco falou de “destruição criativa”, falava dos negócios que desapareciam por causa do mercado, não devido à imposição artificial de barreiras à livre interacção das pessoas pelo Estado. A destruição promovida pela AT/ex-DGCI, como qualquer destruição provocada pela visível e pesada mão do Estado, é tudo menos “criativa”.

A “eficácia” do Fisco é, na realidade, muito pouco eficaz. Consegue cobrar mais, é verdade, mas cobra mais de forma indiferenciada, independentemente das pessoas efectivamente deverem ou não. Consegue cobrar mais, porque aterroriza os cidadãos a pagarem o que a AT/ex-DGIC lhes diz que devem antes de terem ainda mais complicações e para que não se arrisquem a ter de pagar ainda mais, por muito inocentes que sejam à partida. Consegue cobrar mais, não por actuar de forma mais “moderna”, mas por recorrer à brutalidade. Ao contrário do que David Dinis escreve, não há qualquer perigo de se “estragar o retrato”. Há muito que a pintura está já bem borrada.

VEM

O Governo anunciou, pela boca do Secretário de Estado Pedro Lomba (acerca de quem, qual Vladimir Putin, circulavam já rumores sobre a sua saúde, dado que há muito não nos agraciava com a sua presença), um programa de subsídios destinado a fazer regressar alguns dos emigrantes que tenham deixado este nosso belo e triste Portugal. Não deixa de ser uma curiosa medida: o mesmo Executivo que incentivou os “jovens” a serem empreendedores no estrangeiro quer agora que eles se transformem em rent-seekers no nosso país. No fundo, uma perfeita ilustração da natureza do Governo de Passos, Portas e Albuquerque.

Rússia entra na “Tyson Zone”

Sabemos que um país se transformou numa autocracia agressiva, perigosa e difícil de compreender (enfim, num regime que entrou na “Tyson Zone”) quando, como se de uma qualquer Coreia do Norte se tratasse, começam a surgir rumores acerca de problemas de saúde do seu líder:

Is Vladimir Putin hospitalized with a stroke? Rumors were flying fast and furious on Twitter last night, and the Interpreter has collected most of the circumstantial evidence here. The liberal radio station Echo Moskvy has a story leading its homepage noting that Putin has not been seen in public since March 6.

Pior era difícil

A crer no que se tem passado nos últimos dias, o debate político daqui até às eleições não vai passar do refrão “o meu é menos vigarista que o teu”. Falar-se-á dos “candidatos a Primeiro-Ministro” (e de Primeiros-Ministros passados) da forma como se discutem os presidentes de clubes de futebol. Se há coisa de que o país não precisava, era disto.

Invulgar

No seu artigo de hoje no Diário de Notícias, intitulado “Perfeitamente invulgar”, a jornalista Fernanda Câncio faz uma louvável análise das incongruências entre o retrato que Passos Coelho faz do seu passado e a realidade do seu percurso. O próprio artigo é um invulgar trabalho de jornalismo, pois é raro em Portugal investigarem-se seriamente estas questões. Fico assim a aguardar por um artigo similar da jornalista Fernanda Câncio acerca da gritante falta de consistência entre os rendimentos que José Sócrates dizia ter e a vida que ele levava até à sua detenção e prisão preventiva. Estou certo que o facto da jornalista Fernanda Câncio ter tido uma relação com José Sócrates, e de ter ido com ele em viagens pagas pelo dinheiro que ele canalizava através do “amigo” Carlos Santos Silva, não lhe retirará a objectividade nem a vontade de revelar a verdade.

A opinião de um especialista

Ao contrário de muitos, não fico indignado pela carta que José Sócrates escreveu ao Diário de Notícias, afirmando que o discurso de Passos Coelho nas Jornadas Parlamentares do PSD mostra como ele está “próximo da miséria moral”. Afinal, estamos a falar de alguém que, por experiência própria, sabe muito bem do que está a falar.

Uma simples lição

Para lá dos processos de intenções, do aproveitamento político e da exploração mediática, há uma simples lição a retirar desta polémica em torno das dívidas à Segurança Social de Passos Coelho e do alegado incumprimento fiscal de António Costa: independentemente das intenções honestas ou criminosas dos contribuintes, a natureza confusa e obscura dos regimes fiscais e “contributivos” (os que dão outro nome a “impostos” para que os incautos os julguem menos invasivos) só produz efeitos nocivos; permite às autoridades abusarem dos direitos dos contribuintes de forma a obterem mais receita, fazem com que cidadãos honestos quebrem inadvertidamente as regras, e permite aos desonestos explorar as zonas mais nebulosas da lei para escapar às obrigações que deveriam ser iguais para todos. Não é difícil perceber. Mas pelos vistos, é difícil de resolver.

Como está Portugal?

Já muita tinta e largura de banda foram gastas com as declarações de António Costa numa conferência com “investidores chineses” (o dr. Futre é que tinha razão), dizendo que estes haviam “ajudado” a que Portugal estivesse “na situação em que está, muito diferente daquela que estava há quatro anos”. Para dizer a verdade, gastou-se tinta e largura de banda a mais. O episódio mais não foi do que uma demonstração de como António Costa é, como já várias vezes eu disse, um Zelig político, um “camaleão” que fala de forma a que a audiência ouça o que quer ouvir. Infelizmente para ele, esqueceu-se que hoje em dia, com o YouTube, os blogues e “os twitters e o facebooks” (para citar o já mencionado dr. Futre), ninguém na posição do dr. Costa fala só para a audiência que está diante de si naquele momento em concreto, mas para uma audiência mais vasta, em qualquer lugar e em qualquer altura, e que o que se diz aos primeiros para lhes agradar pode ser visto por – e desagradar aos – segundos uns dias ou meses mais tarde.

A gaffe em si pouco justifica para além de uma graçola ou outra (um pequeno pecado a que eu próprio não resisti aqui e ali) e da aparição do merecidamente esquecido Alfredo Barroso a anunciar a sua desfiliação do PS, com o propósito de mostrar o seu desagrado com as declarações de Costa e de lembrar ao país que ainda percorre o mundo dos vivos. Mas talvez fosse bom que, deixando aos partidos e seus aguadeiros (uma área de actividade em que nunca há desemprego) a incumbência de prosseguir com o triste espectáculo a que a questão deu origem, algumas pessoas com um pouco mais de sensatez e outras preocupações se dedicassem a discutir quão diferente está o país, e em que medida a diferença é positiva ou negativa.

Ninguém contestará que o país está mais pobre do que estava em 2011, nem que muitas pessoas viram as suas condições de vida degradarem-se nestes últimos anos. Mas também ninguém pode com honestidade contestar que essa é em primeiro lugar uma responsabilidade do Governo anterior, que, liderado por alguém notoriamente perturbado e sem noção da realidade, deixou o país à beira do precipício. E este Governo teve pelo menos o mérito de evitar a queda por esse mesmo precipício abaixo. A pobreza e degradação das condições de vida que tiveram lugar ao longo destes anos teria sido muito pior se o programa de austeridade que o Governo de Passos Coelho executou e a que nos submeteu tivesse sido substituído pela austeridade da bancarrota e do caos que se lhe seguiria.

Mas, apesar de ser necessário reconhecer este mérito ao Governo de Passos Coelho, é também preciso perceber o problema que se esconde por detrás dele: desde o princípio, muito antes das polémicas com o Tribunal Constitucional, e muito antes do dr. Vitor Gaspar escrever uma carta fingindo ser um homem de princípios, que o Governo optou por combater a ameaça do precipício da bancarrota com aumentos de impostos e cortes da despesa pública sem qualquer reforma do Estado e da sua relação com os cidadãos nas áreas sob as quais alça os seus amplos tentáculos. Por outras palavras, desde o início que o Governo optou deliberadamente por manter intocado o estatismo que herdou, deixando-o apenas e só com menos dinheiro. Infelizmente, fê-lo ao mesmo tempo que usava e abusava de uma retórica “reformista”, cujo único resultado foi precisamente reduzir ainda mais do que já estavam reduzidas as condições políticas para se realizarem reformas efectivas no futuro.

Veja-se bem a triste sucessão de governantes e sua conduta política a que os infelizes cidadãos deste país tiveram o azar de ser sujeitos nos últimos anos: Durão Barroso entrou prometendo reformas e descidas de impostos, e saiu a meio para Bruxelas, com os impostos mais altos e nenhuma reforma concretizada. Depois do indescritível e breve interregno santanista, veio o “animal feroz”, que prometeu reformas e impostos mais baixos, e saiu da forma que se viu, com o país de rastos, com impostos ainda mais altos e a precisar de tantas reformas como precisava em 2005. E por último vieram Passos Coelho e Portas, com boas intenções e falta de vergonha, respectivamente, prometendo uma “reforma do estado” que até para pôr no papel foi complicada, quanto mais para fazer sair dele. Perante tão deprimente elenco de “reformadores” e resumo das suas “conquistas”, quem poderá culpar o comum português por duvidar da palavra e das intenções de quem no futuro lhe venha a pedir reformas?

Desde a fatídica noite em que o engenheiro Guterres resolveu abandonar o convívio com os seus concidadãos para evitar que Portugal se transformasse num pântano, todas as promessas de “reformas” e de “combate” aos “interesses estabelecidos” (ou como diz um amigo meu, num tom quase encantatório de conto infantil, “os poderes que são“) traduziram-se na manutenção de tudo aquilo que fora identificado como problema. Ao fim de 13 anos de “crise” permanente, a carga fiscal continua a aumentar, sem nunca conseguir ser suficiente para cobrir as despesas a que o Estado se obriga, criando assim anualmente os défices que geram a malfadada dívida que enche os debates entre quem tem pouco para dizer. Para sair da crise, serão mesmo precisas uma série de reformas, com custos difíceis de suportar para algumas pessoas e que trarão um elevado grau de incerteza a muitas outras. Depois de 13 anos a ouvir os “responsáveis” políticos a “pedir sacríficios” em nome de “reformas” que não mudaram nada, dificilmente os portugueses acreditarão que quem o venha a fazer no futuro possa querer mais do que justificar com bons sentimentos o enriquecimento dos tais “poderes que são” – e que aparentemente nunca deixam de ser. Claro que sobre esta embrulhada e como a ultrapassar, António Costa não diz nem dirá uma singela palavra, quanto mais não seja porque não pensa fazer nada de substancialmente diferente do que tem sido feito até agora. E provavelmente, porque talvez nem sequer perceba o problema.

Pensemos na bola

Champions-League-BallA ver o Juventus-Borussia, a senhora minha mãe pergunta: “isto é para quê?”. Disse-lhe “para a Liga dos Campeões”. Senti-me tentado a responder “como qualquer outra coisa nesta vida, no fundo não é para nada. No fim, acabamos todos empatados debaixo do chão”, mas achei que era demais.

A carta das reformas gregas

Parece que a carta do governo grego delineando as reformas necessárias para que o “Eurogrupo” aprovasse o prolongamento do empréstimo ao país foi redigida, não pelo próprio governo grego, mas pela Comissão Europeia. Ou seja, a ser verdade* Tsipras e Varoufakis estão tão desesperados pela obtenção de financiamento e/ou tão pouco interessados em cumprir o que quer que seja com que se comprometam, que estão dispostos a abdicar da sua autonomia na definição de quais os compromissos a estabelecer como contrapartida para a obtenção desse financiamento. O resultado final não vai ser bonito para ninguém.

*No facebook, o meu amigo Rodrigo Vaz nota que não sabemos se isto é verdade ou não, e por isso eu não deveria ter escrito isto sem este “a ser verdade”, tomando uma hipótese como um facto. Ele tem toda a razão, e por isso mesmo editei o texto para corrigir esse erro.

Insistências

Na Lisbon Summit 2015, Maria Luís Albuquerque volta a insistir que “os impostos são demasiado altos” mas “para podermos baixar os impostos temos de controlar a despesa, pois temos de aumentar os impostos na medida em que é necessário para se poder pagar a despesa prevista no Orçamento. Caso contrário, estaríamos a aumentar a dívida”. Ou seja, insiste na desonestidade de esconder que a despesa pública vigente decorre de uma escolha política sua. Por isso mesmo, eu insisto que estas declarações da Ministra das Finanças são uma admissão do seu falhanço como governante, e algo que a deveria desqualificar do exercício de outras funções a que ela aspira.

Louçã e o Financial Times sobre a Grécia

No inenarrável programa que é o Prós e Contras, em que José Manuel Fernandes fala de coisas sérias sobre a arquitectura política da União Europeia, e Fátima Campos Ferreira o interrompe para fazer questões menores acerca do Syriza, Francisco Louçã acaba de dizer que o Financial Times diz que a Grécia tem de reconverter a sua dívida. Ora, ainda há bem pouco tempo, o Financial Times publicou artigos (como este), dizendo que a dívida grega não é tão insustentável assim, e que até tem custos com o “serviço da dívida” menores que outros países, como Portugal, por exemplo. Infelizmente, Fátima Campos Ferreira, que tanto gosta de interromper os seus convidados, não o confrontou com este pequeno pormenor.

Inherent Vice

A partir do momento em que a “ex-old lady” do detective privado Larry “Doc” Sportello (Joaquin Phoenix), de seu nome Shasta Fay-Hepsworth (Katherine Waterston), lhe entra pela casa dentro numa noite de 1970, é difícil de saber o que se está a passar em cada uma das cenas subsequentes de Inherent Vice, o mais recente filme de Paul Thomas Anderson, baseado no romance homónimo de Thomas Pynchon. Com “uma pesada combinação de ingredientes faciais” que “Doc” não é capaz de interpretar, Shasta conta-lhe que a mulher do homem – Michael Wolfmann (Eric Roberts) – com quem está envolvida e o amante desta a querem envolver num esquema para roubar o dinheiro de Wolfmann e interná-lo num hospício. Nas duas horas e meia de filme que se seguem, e à medida que o mistério se adensa na nuvem de fumo dos charros de “Doc”, há de tudo: Sortilège (Joanna Newson), a hippie com um “minor” nos “clássicos” e que serve de narradora ao filme; “Bigfoot” Jensen (Josh Brolin), o “polícia renascentista” “com um brilho nos olhos que diz ‘violações dos direitos civis’ que odeia o FBI ainda mais que os praticantes do “estilo de vida” de “Doc”; um judeu que confranterniza com a Aryan Brotherhood; um ex-presidiário membro de um gangue chamado The Black Gorilla Family; uma casa de “massagens” (daquelas com “finais felizes”); uma ex-dependente de heroína chamada Hope (Jena Malone) à procura do marido morto que ela acha estar ainda vivo, uma socialite adúltera e o seu “conselheiro espiritual”; uma ciumenta procura-adjunta do Ministério Público; agentes do FBI de dúbio carácter, uma misteriosa entidade chamada “The Golden Fang“; uma não menos misteriosa “beldade oriental”; um agente infiltrado ao serviço nem ele sabe muito bem de quem; antigos actores na Lista Negra de Hollywood; uma banda chamada Spotted Dick; um cartel de heroína indochinês; “polícias demasiado estúpidos para viver e polícias demasiado espertos para o seu próprio bem”; um rabo de saias filmado como tal por P.T.A com “uma preferência” pela companhia simultânea de dois homens diferentes; uma cooperativa de dentistas; filhas que fogem dos pais; “loan sharks”; hospícios mais preocupados em fazer lavagens ao cérebro do que em curar a atormentada psique dos seus pacientes; e, como não poderia deixar de ser, teorias da conspiração mais vastas que os espaços recônditos da mente aos quais certas substâncias em voga na altura supostamente davam acesso. O que não parece haver é uma linha inteligível que una isto tudo.

Nem poderia haver. Inherent Vice é um filme que se desenrola a partir do ponto de vista de “Doc”, e tendo em conta que ele está constantemente “pedrado”, o que nós vemos faz tão pouco sentido para nós como para ele. “Doc” está permanentemente a anotar coisas como “paranoia alert” e “not hallucinating“, ou com dúvidas acerca de se uma empregada de limpeza mexicana o é realmente ou se será antes uma espécie de “espiã” de quem ele está a investigar. Ele não consegue deixar de pensar que todos os mais insignificantes detalhes com que se vai deparando estão todos ligados numa “integração vertical” de “evil-doing” que só ele consegue ver, nem de ao mesmo tempo temer que a única ligação que existe é a que a sua imaginação constrói. E nós somos atirados para o meio dessa confusão, deixados tão ou mais desorientados que ele.

E no entanto, no meio da loucura, há algo a que nos agarrar. No meio de um enredo aparentemente incoerente, Inherent Vice está cheio de coisas profundamente andersonianas, pequenos faróis para nos orientar no meio do nevoeiro alucinogénico do filme. Logo em primeiro lugar, a proximidade espiritual a Robert Altman: todo o filme parece ser uma espécie de “revisitação” e homenagem a The Long Goodbye. Em segundo lugar, há também os oníricos flashbacks malickianos a que Anderson recorrera em The Master e a que a presença e adorável cara de Waterstone dão outro encanto aqui.

Mas não é apenas no uso constantemente de referências dos seus realizadores preferidos que Inherent Vice se assemelha aos anteriores filmes de Anderson. Como em Magnolia ou Punch-Drunk Love, a Califórnia surge aqui como uma estranha terra onde acontecem coisas estranhas aos seres humanos cujo destino foi lá viver, como se todo um pedaço de terra estivesse “pedrado” e a viver numa realidade só perceptível com o consumo de substâncias ilegais. Como em quase todos os filmes de Paul Thomas Anderson, Inherent Vice dá um triste fim a quem alguma vez tenha feito algum mal a uma criança. E como todos os filmes de Anderson, de Hard Eight a The Master, passando por Boogie Nights, Magnolia, Punch-Drunk Love e There Will Be Blood, também Inherent Vice é um filme sobre pessoas à procura de saber como devem viver, à procura de uma resposta acerca de qual a conduta correcta, qual a melhor forma de agirem uma vez que os problemas com que se deparam surgiram à sua frente: tal como em Magnolia Anderson nos fazia ouvir a voz de Jim Kurring a dizer o quão difícil era saber se o que cada uma das pessoas com que se cruza no seu dia de trabalho como polícia precisa é de “um pouco de ajuda” e um “pouco de perdão” ou de “irem para a prisão”, também em Inherent Vice nos põe a ouvir Shasta perguntar a “Doc” o que deve fazer, ou este à procura de saber qual vai ser “a coisa” que o vai deixar sem dormir à noite, para a poder corrigir.

Afinal, por detrás da confusão, das personagens alucinadas e do enredo inacreditável, Inherent Vice é apenas um filme sobre pessoas com saudades, seja de um tempo pré-Charles Manson em que a Califórnia parecia ser um paraíso, seja de alguém que as deixou. Tal como todos os filmes de Paul Thomas Anderson, Inherent Vice é um filme sobre pessoas à procura de alguma forma de redenção. É um filme sobre solitárias almas perdidas, à procura de voltarem para junto de algo que as ancore a este mundo, seja isso um velho barco que “é mais do que um barco”, o marido julgado morto, o antigo colega de trabalho, a mulher e a filha há muito afastadas, ou, como no caso de “Doc”, o porto não-muito-seguro de Shasta, ora perto ora longe, mas sempre no seu coração e pensamento. Mas como diz Sortilège em voice-over, servindo não tanto de narradora como de coro ao estilo dos antigos em que ela é versada, “yet there is no avoiding time, the sea of time, the sea of memory and forgetfulness, the years of promise, gone and unrecoverable, of the land almost allowed to claim its better destiny, only to the claim jumped by evildoers known all too well, and taken instead and held hostage to the future we must live in now forever.” “Does this mean we’re back together?“, pergunta Doc a Shasta. Ela dá-lhe uma resposta, uma que talvez ele já conhecesse mas quisesse ouvir vinda “de uma voz que não a sua”. Ou talvez uma resposta que ela não tem forma de saber se é verdadeira. “May we trust this blessed ship is bound for some better shore, risen and redeemed, where the American fate mercifully failed to transpire“, diz Sortilège. Mas o quer que seja que “Doc” acredite acerca do seu destino, será sempre algo de que ele duvidará, como acontece com tudo o resto no filme. E porque os olhos dele são também os nossos, o mesmo acontecerá connosco.

A falsa “responsabilidade” de Maria Luís Albuquerque

maria-luis-albuquerque-cc5bMaria Luís Albuquerque, uma candidata a líder do PSD que nas horas vagas se dedica ao ofício anteriormente conhecido como o do Ministério da Fazenda, tem nestes últimos dias estado nas bocas do mundo, ou pelo menos do estreito e sufocante mundo da intelligentsia lusa. Tudo porque, segundo consta, se mostrou pouco interessada em dar o seu aval às exigências do novo governo grego, ficando assim do lado dos países que impuseram o acordo concluído na passada sexta. Infelizmente, haveria razões bem melhores para criticar Maria Luís, mas a que a indignação pátria fecha os olhos por preguiça ou fraca compreensão.

Numa entrevista que deu ontem à TVI, com o propósito de explicar a sua posição na reunião do “Eurogrupo” e acima de tudo promover a sua campanha para a sucessão de Passos Coelho, a Ministra das Finanças afirmou ser “uma pessoa muito prudente”, uma louvável característica pessoal que a leva a não admitir uma descida de impostos nos próximos tempos, dado que o défice orçamental ainda não “deixou de existir” e um alívio da carga fiscal iria pôr em causa o objectivo de contenção da dívida pública portuguesa. É uma afirmação que encaixa bem na “mensagem” eleitoral que o PSD (com a sempre oportunista colaboração do CDS/PP) tem vindo a ensaiar, e que a próprio Maria Luís tinha já proferido anteriormente: um partido “responsável” como o PSD não vai ceder à tentação eleitoral de baixar impostos nas vésperas dos portugueses irem colocar a sua respectiva cruzinha no boletim de voto (ou ignorar em massa as festividades), colocando as necessidades do país à frente das do próprio partido.

Mas é também – e acima de tudo – uma mensagem que, como qualquer pessoa com dois dedos de testa facilmente compreende, esconde não só o seu próprio eleitoralismo (“nós”, PSD, não somos como “eles”, “os políticos” que só querem “tachos” e “poleiro”) como também o falhanço do governo ao longo destes anos em que teve o mérito de evitar a bancarrota mas a incapacidade de conseguir o que quer que fosse para além disso: ao dizer que é “prematuro” falar de descidas de impostos por estas implicarem uma subida do défice, a Ministra das Finanças reconhece (sem querer reconhecer) que o governo por cuja política orçamental ela é directamente responsável foi incapaz de reduzir a despesa pública na medida necessária a aliviar um pouco da carga fiscal que sufoca os portugueses. Pois se uma descida de impostos provocaria uma subida do défice, é porque essa despesa é ainda demasiado elevada para que aquilo que o Estado extrai dos bolsos dos contribuintes seja suficiente para cobrir as verbas que saem do Ministério de Maria Luís. E se assim é, é porque o governo assim fez com que fosse. É à Ministra das Finanças que cabe a definição do que o Estado gasta ou não gasta. Se acha que é necessário baixar impostos mas a despesa pública é demasiado elevada para que se possa dispensar receita, basta-lhe cortar essa despesa. Ao contrário do que se poderia imaginar pelo eco das suas palavras de ontem, a elevada despesa pública do Estado português não é uma fatalidade, algo que é imposto a Maria Luís pelo Além ou uns deuses já não do Olimpo mas de Frankfurt. É algo que resulta da vontade política da própria Ministra e do seu chefe de Governo e parceiro de orientação Pedro Passos Coelho.

Maria Luís Albuquerque é, como já o havia sido o seu antecessor Vítor Gaspar, e como continuam a ser Paulo Macedo e Nuno Crato, um exemplo paradigmático do “falso reformismo” do Governo PSD/CDS: sob o manto retórico das “reformas”, a coligação manteve intacto o estatismo que herdou, apenas com menos dinheiro. Numa outra sua declaração infeliz, a Ministra das Finanças disse há meses que que como “não há muitos ricos em Portugal” e se “procura sempre proteger quem tem menos recursos”, a “classe média acaba por ser a grande sacrificada” pelas medidas orçamentais que têm de ser implementadas. Sendo verdade que há “poucos ricos” em Portugal e por conseguinte a Grande Redistribuição fiscal que alimenta os sonhos dos nossos bem-pensantes não poderá nunca passar dos minutos de REM do seu soninho, também é verdade que o que essa declaração de Maria Luís propositadamente ignorou é que a escassez de abastados de que ela se queixa é acompanhada por uma vasta abundância de “boys” e “girls” que dependem do que o orçamento vai tendo para oferecer, e de quem, por sua vez, as lideranças partidárias – dos partidos do Governo, claro, mas também do PS – estão também bastante dependentes, e que é em virtude dessa abundância que Maria Luís Albuquerque deliberadamente preferiu aumentar a carga fiscal à tal “classe média” em detrimento de deixarem cair aqueles que os seguram ou irão segurar no futuro.

Para tornar as coisas mais graves, essa opção, emparelhada com a retórica que a mascara, consegue apenas juntar o pior de dois mundos: atrai o descontentamento que o reformismo sempre provoca, sem trazer consigo nenhuma das vantagens que resultariam das reformas que na prática não foram feitas. O que não só afecta a popularidade do Governo, um mal que honestamente não me tira descanso, como diminui a predisposição dos eleitores para aceitarem verdadeiras reformas no futuro, quanto mais não seja porque duvidam da palavra e das intenções de quem as venha prometer. Se tivessem juízo, seria com isto que se indignariam todos aqueles que nos últimos dias protestavam contra Maria Luís Albuquerque. E se tiverem juízo, será por isto que os militantes do PSD não a escolherão para sua futura líder.

A questão russa

(Artigo publicado no Diário Económico de ontem)

Qualquer pessoa de bom senso dirá que o cessar-fogo acordado para a Ucrânia será, caso consiga interromper mesmo a guerra, uma boa notícia. Mas esse mesmo bom senso levará essas mesmas pessoas a compreenderem que se está longe de resolver o problema, pela simples razão de que em nada se mudou os factores que lhe deram origem.

Tudo nasceu da fraqueza russa. À desintegração do império russo vestido de vermelho nos anos 90, com a perda dos países do Pacto de Varsóvia e a independência das repúblicas sob o seu domínio, seguiu-se a aproximação destas à UE e à NATO. Mais tarde, a transformação do Estado russo numa Máfia operando no sector energético como Tony Soprano operava na remoção de lixo, permitiu à quadrilha putinista enriquecer mas deixou-a à mercê das descidas de preços, que diminuíram o peso das suas carteiras e se arriscam a fazer o mesmo ao apoio popular do regime. Se juntarmos a esta percepção de fraqueza externa e interna do poder do Kremlin a profunda crise demográfica do país, percebe-se que a Rússia se sinta ameaçada no presente e com receio de confrontos no futuro. O horizonte convida-a usar a violência o mais cedo possível. As populações “etnicamente russas” em países como a Ucrânia, Geórgia ou Moldávia dão-lhe o pretexto.

Ou seja, o problema que enfrentamos na Ucrânia é russo, e talvez não tenha solução. Talvez a “Europa” tenha cometido um erro de cálculo ao forçar a aproximação à Ucrânia, não percebendo que a fragilização da posição russa levaria a uma reacção agressiva. Mas dado o interesse do regime em promover conflitos externos para manter o poder interno, ceder à Rússia talvez só a incentive a arranjar mais sarilhos; mas como Putin vê na unidade e expansão euro-americana uma ameaça, sentir-se-á motivado a prosseguir com tropelias destas na esperança de dividir e travar essa aliança. Façamos o que fizermos, estaremos a jogar o jogo do Kremlin.

Um incurável optimista

Disse e insinuei por escrito que, caso a Grécia saísse do euro, o faria no último dia de Fevereiro. Pelo andar da carruagem, a confusão vai ter lugar mais cedo. Talvez eu seja, de facto, um incurável optimista que nunca espera o pior.

And Then I Don’t Feel So Bad

Por falta de juízo dos seus editores, a revista online americana de cinema Bright Wall/Dark Room publica, no seu número de Fevereiro, um ensaio deste vosso criado, sobre como The Sound of Music dá todos os anos no Natal num qualquer canal da televisão portuguesa, e o poder dos filmes de nos tornarem todos crianças. A revista está disponível para assinantes, mas quem arranjar a app consegue adquirir este número de graça. Fica aqui um pequeno excerto:

Movies turn us all into children, or at least the good ones do. They make us think like children, feel like children do. Even when they elicit experiences and feelings only an adult would undergo, they do so by subjecting us to a very childlike process: placing us in an imaginary world. Just as a child pictures himself to be Snow White, Dumbo, or King Arthur, so to does an adult find himself taken over by whatever the screen tries to impress upon him. It might be a very adult thing, sadness over the dissolution of a marriage in Blue Valentine, or the desperation inherent in any one of Clint Eastwood’s moral tragedies, or all the emotional turmoil in Paul Thomas Anderson’s Magnolia. It might also be an unsophisticated emotion, like the wonder provoked by Kubrick’s 2001, or the thrills and suspense-filled anxiety of a Hitchcock film, or even the hysteria of a Monty Python comedy. Either way, we’re carried by the story through experiences we can only ever live vicariously.

And that’s what The Sound of Music does for me.

Notas do Subterrâneo (de Lisboa)

Numa estação do Metro de Lisboa, ao sair da carruagem, dei de caras com um cartaz publicitário com a pergunta “És tudo o que podias ser?”. Fiquei um pouco abalado. A última coisa que esperava de um “outdoor” do Metro era que me fizesse defrontar interrogações existenciais.

Sarilhos

(Artigo publicado no Diário Económico de ontem)

A crer no que se vai vendo, ouvindo e lendo, toda a Europa espera do novo governo grego a sua salvação: metade do continente concorda com o seu programa e anseia pelo seu “contágio” para além das fronteiras helénicas; a outra metade vê nele uma desgraça que servirá de lição a quem ainda tenha veleidades “anti-austeritárias”. Mas, de onde me sento, é difícil conceber algum final feliz para a aventura.

Imaginemos que a União Europeia cede a algumas das pretensões gregas (que todos os dias mudam): Portugal, Espanha, Itália e especialmente a França logo pediriam igual benevolência para si próprios. Se fossem atendidos, a moeda única passaria a ser vista pelos míticos “mercados” como assente, não no frugal rigor orçamental germânico, mas no instável despesismo mediterrânico, e como tal cada vez menos confiável. O euro perderia valor, tal como os rendimentos dos europeus. Se fossem ignorados, o radicalismo político nesses países explodiria, quem sabe se literalmente. E se as posições gregas forem elas próprias ignoradas, o resultado não será melhor: se não quiser ser ele a ceder à UE, Tsipras terá que declarar bancarrota e sair do euro quando o empréstimo europeu chegar ao fim. Essa via permitiria o regresso ao dracma e a sua impressão em massa para aumentar salários e despesa, mas a esse aumento nominal dos salários corresponderia, com a inflação, uma descida real do seu valor, e uma degradação das condições de vida. A Grécia substituiria a “austeridade” da “sra. Merkel” por uma “austeridade” interna do “sr. Tsipras”, e a troca não traria melhoras. Tal como para o resto da Europa, onde a incerteza provocada pela saída de um país do Euro provocaria a sua desvalorização e respectivas consequências.

Aconteça o que acontecer com o Syriza, a Grécia e a Europa estão metidas num enorme sarilho. Como sairão dele? Mal, provavelmente.