A opinião de um especialista

Ao contrário de muitos, não fico indignado pela carta que José Sócrates escreveu ao Diário de Notícias, afirmando que o discurso de Passos Coelho nas Jornadas Parlamentares do PSD mostra como ele está “próximo da miséria moral”. Afinal, estamos a falar de alguém que, por experiência própria, sabe muito bem do que está a falar.

Uma simples lição

Para lá dos processos de intenções, do aproveitamento político e da exploração mediática, há uma simples lição a retirar desta polémica em torno das dívidas à Segurança Social de Passos Coelho e do alegado incumprimento fiscal de António Costa: independentemente das intenções honestas ou criminosas dos contribuintes, a natureza confusa e obscura dos regimes fiscais e “contributivos” (os que dão outro nome a “impostos” para que os incautos os julguem menos invasivos) só produz efeitos nocivos; permite às autoridades abusarem dos direitos dos contribuintes de forma a obterem mais receita, fazem com que cidadãos honestos quebrem inadvertidamente as regras, e permite aos desonestos explorar as zonas mais nebulosas da lei para escapar às obrigações que deveriam ser iguais para todos. Não é difícil perceber. Mas pelos vistos, é difícil de resolver.

Como está Portugal?

Já muita tinta e largura de banda foram gastas com as declarações de António Costa numa conferência com “investidores chineses” (o dr. Futre é que tinha razão), dizendo que estes haviam “ajudado” a que Portugal estivesse “na situação em que está, muito diferente daquela que estava há quatro anos”. Para dizer a verdade, gastou-se tinta e largura de banda a mais. O episódio mais não foi do que uma demonstração de como António Costa é, como já várias vezes eu disse, um Zelig político, um “camaleão” que fala de forma a que a audiência ouça o que quer ouvir. Infelizmente para ele, esqueceu-se que hoje em dia, com o YouTube, os blogues e “os twitters e o facebooks” (para citar o já mencionado dr. Futre), ninguém na posição do dr. Costa fala só para a audiência que está diante de si naquele momento em concreto, mas para uma audiência mais vasta, em qualquer lugar e em qualquer altura, e que o que se diz aos primeiros para lhes agradar pode ser visto por – e desagradar aos – segundos uns dias ou meses mais tarde.

A gaffe em si pouco justifica para além de uma graçola ou outra (um pequeno pecado a que eu próprio não resisti aqui e ali) e da aparição do merecidamente esquecido Alfredo Barroso a anunciar a sua desfiliação do PS, com o propósito de mostrar o seu desagrado com as declarações de Costa e de lembrar ao país que ainda percorre o mundo dos vivos. Mas talvez fosse bom que, deixando aos partidos e seus aguadeiros (uma área de actividade em que nunca há desemprego) a incumbência de prosseguir com o triste espectáculo a que a questão deu origem, algumas pessoas com um pouco mais de sensatez e outras preocupações se dedicassem a discutir quão diferente está o país, e em que medida a diferença é positiva ou negativa.

Ninguém contestará que o país está mais pobre do que estava em 2011, nem que muitas pessoas viram as suas condições de vida degradarem-se nestes últimos anos. Mas também ninguém pode com honestidade contestar que essa é em primeiro lugar uma responsabilidade do Governo anterior, que, liderado por alguém notoriamente perturbado e sem noção da realidade, deixou o país à beira do precipício. E este Governo teve pelo menos o mérito de evitar a queda por esse mesmo precipício abaixo. A pobreza e degradação das condições de vida que tiveram lugar ao longo destes anos teria sido muito pior se o programa de austeridade que o Governo de Passos Coelho executou e a que nos submeteu tivesse sido substituído pela austeridade da bancarrota e do caos que se lhe seguiria.

Mas, apesar de ser necessário reconhecer este mérito ao Governo de Passos Coelho, é também preciso perceber o problema que se esconde por detrás dele: desde o princípio, muito antes das polémicas com o Tribunal Constitucional, e muito antes do dr. Vitor Gaspar escrever uma carta fingindo ser um homem de princípios, que o Governo optou por combater a ameaça do precipício da bancarrota com aumentos de impostos e cortes da despesa pública sem qualquer reforma do Estado e da sua relação com os cidadãos nas áreas sob as quais alça os seus amplos tentáculos. Por outras palavras, desde o início que o Governo optou deliberadamente por manter intocado o estatismo que herdou, deixando-o apenas e só com menos dinheiro. Infelizmente, fê-lo ao mesmo tempo que usava e abusava de uma retórica “reformista”, cujo único resultado foi precisamente reduzir ainda mais do que já estavam reduzidas as condições políticas para se realizarem reformas efectivas no futuro.

Veja-se bem a triste sucessão de governantes e sua conduta política a que os infelizes cidadãos deste país tiveram o azar de ser sujeitos nos últimos anos: Durão Barroso entrou prometendo reformas e descidas de impostos, e saiu a meio para Bruxelas, com os impostos mais altos e nenhuma reforma concretizada. Depois do indescritível e breve interregno santanista, veio o “animal feroz”, que prometeu reformas e impostos mais baixos, e saiu da forma que se viu, com o país de rastos, com impostos ainda mais altos e a precisar de tantas reformas como precisava em 2005. E por último vieram Passos Coelho e Portas, com boas intenções e falta de vergonha, respectivamente, prometendo uma “reforma do estado” que até para pôr no papel foi complicada, quanto mais para fazer sair dele. Perante tão deprimente elenco de “reformadores” e resumo das suas “conquistas”, quem poderá culpar o comum português por duvidar da palavra e das intenções de quem no futuro lhe venha a pedir reformas?

Desde a fatídica noite em que o engenheiro Guterres resolveu abandonar o convívio com os seus concidadãos para evitar que Portugal se transformasse num pântano, todas as promessas de “reformas” e de “combate” aos “interesses estabelecidos” (ou como diz um amigo meu, num tom quase encantatório de conto infantil, “os poderes que são“) traduziram-se na manutenção de tudo aquilo que fora identificado como problema. Ao fim de 13 anos de “crise” permanente, a carga fiscal continua a aumentar, sem nunca conseguir ser suficiente para cobrir as despesas a que o Estado se obriga, criando assim anualmente os défices que geram a malfadada dívida que enche os debates entre quem tem pouco para dizer. Para sair da crise, serão mesmo precisas uma série de reformas, com custos difíceis de suportar para algumas pessoas e que trarão um elevado grau de incerteza a muitas outras. Depois de 13 anos a ouvir os “responsáveis” políticos a “pedir sacríficios” em nome de “reformas” que não mudaram nada, dificilmente os portugueses acreditarão que quem o venha a fazer no futuro possa querer mais do que justificar com bons sentimentos o enriquecimento dos tais “poderes que são” – e que aparentemente nunca deixam de ser. Claro que sobre esta embrulhada e como a ultrapassar, António Costa não diz nem dirá uma singela palavra, quanto mais não seja porque não pensa fazer nada de substancialmente diferente do que tem sido feito até agora. E provavelmente, porque talvez nem sequer perceba o problema.

Pensemos na bola

Champions-League-BallA ver o Juventus-Borussia, a senhora minha mãe pergunta: “isto é para quê?”. Disse-lhe “para a Liga dos Campeões”. Senti-me tentado a responder “como qualquer outra coisa nesta vida, no fundo não é para nada. No fim, acabamos todos empatados debaixo do chão”, mas achei que era demais.

A carta das reformas gregas

Parece que a carta do governo grego delineando as reformas necessárias para que o “Eurogrupo” aprovasse o prolongamento do empréstimo ao país foi redigida, não pelo próprio governo grego, mas pela Comissão Europeia. Ou seja, a ser verdade* Tsipras e Varoufakis estão tão desesperados pela obtenção de financiamento e/ou tão pouco interessados em cumprir o que quer que seja com que se comprometam, que estão dispostos a abdicar da sua autonomia na definição de quais os compromissos a estabelecer como contrapartida para a obtenção desse financiamento. O resultado final não vai ser bonito para ninguém.

*No facebook, o meu amigo Rodrigo Vaz nota que não sabemos se isto é verdade ou não, e por isso eu não deveria ter escrito isto sem este “a ser verdade”, tomando uma hipótese como um facto. Ele tem toda a razão, e por isso mesmo editei o texto para corrigir esse erro.

Insistências

Na Lisbon Summit 2015, Maria Luís Albuquerque volta a insistir que “os impostos são demasiado altos” mas “para podermos baixar os impostos temos de controlar a despesa, pois temos de aumentar os impostos na medida em que é necessário para se poder pagar a despesa prevista no Orçamento. Caso contrário, estaríamos a aumentar a dívida”. Ou seja, insiste na desonestidade de esconder que a despesa pública vigente decorre de uma escolha política sua. Por isso mesmo, eu insisto que estas declarações da Ministra das Finanças são uma admissão do seu falhanço como governante, e algo que a deveria desqualificar do exercício de outras funções a que ela aspira.

Louçã e o Financial Times sobre a Grécia

No inenarrável programa que é o Prós e Contras, em que José Manuel Fernandes fala de coisas sérias sobre a arquitectura política da União Europeia, e Fátima Campos Ferreira o interrompe para fazer questões menores acerca do Syriza, Francisco Louçã acaba de dizer que o Financial Times diz que a Grécia tem de reconverter a sua dívida. Ora, ainda há bem pouco tempo, o Financial Times publicou artigos (como este), dizendo que a dívida grega não é tão insustentável assim, e que até tem custos com o “serviço da dívida” menores que outros países, como Portugal, por exemplo. Infelizmente, Fátima Campos Ferreira, que tanto gosta de interromper os seus convidados, não o confrontou com este pequeno pormenor.

Inherent Vice

A partir do momento em que a “ex-old lady” do detective privado Larry “Doc” Sportello (Joaquin Phoenix), de seu nome Shasta Fay-Hepsworth (Katherine Waterston), lhe entra pela casa dentro numa noite de 1970, é difícil de saber o que se está a passar em cada uma das cenas subsequentes de Inherent Vice, o mais recente filme de Paul Thomas Anderson, baseado no romance homónimo de Thomas Pynchon. Com “uma pesada combinação de ingredientes faciais” que “Doc” não é capaz de interpretar, Shasta conta-lhe que a mulher do homem – Michael Wolfmann (Eric Roberts) – com quem está envolvida e o amante desta a querem envolver num esquema para roubar o dinheiro de Wolfmann e interná-lo num hospício. Nas duas horas e meia de filme que se seguem, e à medida que o mistério se adensa na nuvem de fumo dos charros de “Doc”, há de tudo: Sortilège (Joanna Newson), a hippie com um “minor” nos “clássicos” e que serve de narradora ao filme; “Bigfoot” Jensen (Josh Brolin), o “polícia renascentista” “com um brilho nos olhos que diz ‘violações dos direitos civis’ que odeia o FBI ainda mais que os praticantes do “estilo de vida” de “Doc”; um judeu que confranterniza com a Aryan Brotherhood; um ex-presidiário membro de um gangue chamado The Black Gorilla Family; uma casa de “massagens” (daquelas com “finais felizes”); uma ex-dependente de heroína chamada Hope (Jena Malone) à procura do marido morto que ela acha estar ainda vivo, uma socialite adúltera e o seu “conselheiro espiritual”; uma ciumenta procura-adjunta do Ministério Público; agentes do FBI de dúbio carácter, uma misteriosa entidade chamada “The Golden Fang“; uma não menos misteriosa “beldade oriental”; um agente infiltrado ao serviço nem ele sabe muito bem de quem; antigos actores na Lista Negra de Hollywood; uma banda chamada Spotted Dick; um cartel de heroína indochinês; “polícias demasiado estúpidos para viver e polícias demasiado espertos para o seu próprio bem”; um rabo de saias filmado como tal por P.T.A com “uma preferência” pela companhia simultânea de dois homens diferentes; uma cooperativa de dentistas; filhas que fogem dos pais; “loan sharks”; hospícios mais preocupados em fazer lavagens ao cérebro do que em curar a atormentada psique dos seus pacientes; e, como não poderia deixar de ser, teorias da conspiração mais vastas que os espaços recônditos da mente aos quais certas substâncias em voga na altura supostamente davam acesso. O que não parece haver é uma linha inteligível que una isto tudo.

Nem poderia haver. Inherent Vice é um filme que se desenrola a partir do ponto de vista de “Doc”, e tendo em conta que ele está constantemente “pedrado”, o que nós vemos faz tão pouco sentido para nós como para ele. “Doc” está permanentemente a anotar coisas como “paranoia alert” e “not hallucinating“, ou com dúvidas acerca de se uma empregada de limpeza mexicana o é realmente ou se será antes uma espécie de “espiã” de quem ele está a investigar. Ele não consegue deixar de pensar que todos os mais insignificantes detalhes com que se vai deparando estão todos ligados numa “integração vertical” de “evil-doing” que só ele consegue ver, nem de ao mesmo tempo temer que a única ligação que existe é a que a sua imaginação constrói. E nós somos atirados para o meio dessa confusão, deixados tão ou mais desorientados que ele.

E no entanto, no meio da loucura, há algo a que nos agarrar. No meio de um enredo aparentemente incoerente, Inherent Vice está cheio de coisas profundamente andersonianas, pequenos faróis para nos orientar no meio do nevoeiro alucinogénico do filme. Logo em primeiro lugar, a proximidade espiritual a Robert Altman: todo o filme parece ser uma espécie de “revisitação” e homenagem a The Long Goodbye. Em segundo lugar, há também os oníricos flashbacks malickianos a que Anderson recorrera em The Master e a que a presença e adorável cara de Waterstone dão outro encanto aqui.

Mas não é apenas no uso constantemente de referências dos seus realizadores preferidos que Inherent Vice se assemelha aos anteriores filmes de Anderson. Como em Magnolia ou Punch-Drunk Love, a Califórnia surge aqui como uma estranha terra onde acontecem coisas estranhas aos seres humanos cujo destino foi lá viver, como se todo um pedaço de terra estivesse “pedrado” e a viver numa realidade só perceptível com o consumo de substâncias ilegais. Como em quase todos os filmes de Paul Thomas Anderson, Inherent Vice dá um triste fim a quem alguma vez tenha feito algum mal a uma criança. E como todos os filmes de Anderson, de Hard Eight a The Master, passando por Boogie Nights, Magnolia, Punch-Drunk Love e There Will Be Blood, também Inherent Vice é um filme sobre pessoas à procura de saber como devem viver, à procura de uma resposta acerca de qual a conduta correcta, qual a melhor forma de agirem uma vez que os problemas com que se deparam surgiram à sua frente: tal como em Magnolia Anderson nos fazia ouvir a voz de Jim Kurring a dizer o quão difícil era saber se o que cada uma das pessoas com que se cruza no seu dia de trabalho como polícia precisa é de “um pouco de ajuda” e um “pouco de perdão” ou de “irem para a prisão”, também em Inherent Vice nos põe a ouvir Shasta perguntar a “Doc” o que deve fazer, ou este à procura de saber qual vai ser “a coisa” que o vai deixar sem dormir à noite, para a poder corrigir.

Afinal, por detrás da confusão, das personagens alucinadas e do enredo inacreditável, Inherent Vice é apenas um filme sobre pessoas com saudades, seja de um tempo pré-Charles Manson em que a Califórnia parecia ser um paraíso, seja de alguém que as deixou. Tal como todos os filmes de Paul Thomas Anderson, Inherent Vice é um filme sobre pessoas à procura de alguma forma de redenção. É um filme sobre solitárias almas perdidas, à procura de voltarem para junto de algo que as ancore a este mundo, seja isso um velho barco que “é mais do que um barco”, o marido julgado morto, o antigo colega de trabalho, a mulher e a filha há muito afastadas, ou, como no caso de “Doc”, o porto não-muito-seguro de Shasta, ora perto ora longe, mas sempre no seu coração e pensamento. Mas como diz Sortilège em voice-over, servindo não tanto de narradora como de coro ao estilo dos antigos em que ela é versada, “yet there is no avoiding time, the sea of time, the sea of memory and forgetfulness, the years of promise, gone and unrecoverable, of the land almost allowed to claim its better destiny, only to the claim jumped by evildoers known all too well, and taken instead and held hostage to the future we must live in now forever.” “Does this mean we’re back together?“, pergunta Doc a Shasta. Ela dá-lhe uma resposta, uma que talvez ele já conhecesse mas quisesse ouvir vinda “de uma voz que não a sua”. Ou talvez uma resposta que ela não tem forma de saber se é verdadeira. “May we trust this blessed ship is bound for some better shore, risen and redeemed, where the American fate mercifully failed to transpire“, diz Sortilège. Mas o quer que seja que “Doc” acredite acerca do seu destino, será sempre algo de que ele duvidará, como acontece com tudo o resto no filme. E porque os olhos dele são também os nossos, o mesmo acontecerá connosco.

A falsa “responsabilidade” de Maria Luís Albuquerque

maria-luis-albuquerque-cc5bMaria Luís Albuquerque, uma candidata a líder do PSD que nas horas vagas se dedica ao ofício anteriormente conhecido como o do Ministério da Fazenda, tem nestes últimos dias estado nas bocas do mundo, ou pelo menos do estreito e sufocante mundo da intelligentsia lusa. Tudo porque, segundo consta, se mostrou pouco interessada em dar o seu aval às exigências do novo governo grego, ficando assim do lado dos países que impuseram o acordo concluído na passada sexta. Infelizmente, haveria razões bem melhores para criticar Maria Luís, mas a que a indignação pátria fecha os olhos por preguiça ou fraca compreensão.

Numa entrevista que deu ontem à TVI, com o propósito de explicar a sua posição na reunião do “Eurogrupo” e acima de tudo promover a sua campanha para a sucessão de Passos Coelho, a Ministra das Finanças afirmou ser “uma pessoa muito prudente”, uma louvável característica pessoal que a leva a não admitir uma descida de impostos nos próximos tempos, dado que o défice orçamental ainda não “deixou de existir” e um alívio da carga fiscal iria pôr em causa o objectivo de contenção da dívida pública portuguesa. É uma afirmação que encaixa bem na “mensagem” eleitoral que o PSD (com a sempre oportunista colaboração do CDS/PP) tem vindo a ensaiar, e que a próprio Maria Luís tinha já proferido anteriormente: um partido “responsável” como o PSD não vai ceder à tentação eleitoral de baixar impostos nas vésperas dos portugueses irem colocar a sua respectiva cruzinha no boletim de voto (ou ignorar em massa as festividades), colocando as necessidades do país à frente das do próprio partido.

Mas é também – e acima de tudo – uma mensagem que, como qualquer pessoa com dois dedos de testa facilmente compreende, esconde não só o seu próprio eleitoralismo (“nós”, PSD, não somos como “eles”, “os políticos” que só querem “tachos” e “poleiro”) como também o falhanço do governo ao longo destes anos em que teve o mérito de evitar a bancarrota mas a incapacidade de conseguir o que quer que fosse para além disso: ao dizer que é “prematuro” falar de descidas de impostos por estas implicarem uma subida do défice, a Ministra das Finanças reconhece (sem querer reconhecer) que o governo por cuja política orçamental ela é directamente responsável foi incapaz de reduzir a despesa pública na medida necessária a aliviar um pouco da carga fiscal que sufoca os portugueses. Pois se uma descida de impostos provocaria uma subida do défice, é porque essa despesa é ainda demasiado elevada para que aquilo que o Estado extrai dos bolsos dos contribuintes seja suficiente para cobrir as verbas que saem do Ministério de Maria Luís. E se assim é, é porque o governo assim fez com que fosse. É à Ministra das Finanças que cabe a definição do que o Estado gasta ou não gasta. Se acha que é necessário baixar impostos mas a despesa pública é demasiado elevada para que se possa dispensar receita, basta-lhe cortar essa despesa. Ao contrário do que se poderia imaginar pelo eco das suas palavras de ontem, a elevada despesa pública do Estado português não é uma fatalidade, algo que é imposto a Maria Luís pelo Além ou uns deuses já não do Olimpo mas de Frankfurt. É algo que resulta da vontade política da própria Ministra e do seu chefe de Governo e parceiro de orientação Pedro Passos Coelho.

Maria Luís Albuquerque é, como já o havia sido o seu antecessor Vítor Gaspar, e como continuam a ser Paulo Macedo e Nuno Crato, um exemplo paradigmático do “falso reformismo” do Governo PSD/CDS: sob o manto retórico das “reformas”, a coligação manteve intacto o estatismo que herdou, apenas com menos dinheiro. Numa outra sua declaração infeliz, a Ministra das Finanças disse há meses que que como “não há muitos ricos em Portugal” e se “procura sempre proteger quem tem menos recursos”, a “classe média acaba por ser a grande sacrificada” pelas medidas orçamentais que têm de ser implementadas. Sendo verdade que há “poucos ricos” em Portugal e por conseguinte a Grande Redistribuição fiscal que alimenta os sonhos dos nossos bem-pensantes não poderá nunca passar dos minutos de REM do seu soninho, também é verdade que o que essa declaração de Maria Luís propositadamente ignorou é que a escassez de abastados de que ela se queixa é acompanhada por uma vasta abundância de “boys” e “girls” que dependem do que o orçamento vai tendo para oferecer, e de quem, por sua vez, as lideranças partidárias – dos partidos do Governo, claro, mas também do PS – estão também bastante dependentes, e que é em virtude dessa abundância que Maria Luís Albuquerque deliberadamente preferiu aumentar a carga fiscal à tal “classe média” em detrimento de deixarem cair aqueles que os seguram ou irão segurar no futuro.

Para tornar as coisas mais graves, essa opção, emparelhada com a retórica que a mascara, consegue apenas juntar o pior de dois mundos: atrai o descontentamento que o reformismo sempre provoca, sem trazer consigo nenhuma das vantagens que resultariam das reformas que na prática não foram feitas. O que não só afecta a popularidade do Governo, um mal que honestamente não me tira descanso, como diminui a predisposição dos eleitores para aceitarem verdadeiras reformas no futuro, quanto mais não seja porque duvidam da palavra e das intenções de quem as venha prometer. Se tivessem juízo, seria com isto que se indignariam todos aqueles que nos últimos dias protestavam contra Maria Luís Albuquerque. E se tiverem juízo, será por isto que os militantes do PSD não a escolherão para sua futura líder.

A questão russa

(Artigo publicado no Diário Económico de ontem)

Qualquer pessoa de bom senso dirá que o cessar-fogo acordado para a Ucrânia será, caso consiga interromper mesmo a guerra, uma boa notícia. Mas esse mesmo bom senso levará essas mesmas pessoas a compreenderem que se está longe de resolver o problema, pela simples razão de que em nada se mudou os factores que lhe deram origem.

Tudo nasceu da fraqueza russa. À desintegração do império russo vestido de vermelho nos anos 90, com a perda dos países do Pacto de Varsóvia e a independência das repúblicas sob o seu domínio, seguiu-se a aproximação destas à UE e à NATO. Mais tarde, a transformação do Estado russo numa Máfia operando no sector energético como Tony Soprano operava na remoção de lixo, permitiu à quadrilha putinista enriquecer mas deixou-a à mercê das descidas de preços, que diminuíram o peso das suas carteiras e se arriscam a fazer o mesmo ao apoio popular do regime. Se juntarmos a esta percepção de fraqueza externa e interna do poder do Kremlin a profunda crise demográfica do país, percebe-se que a Rússia se sinta ameaçada no presente e com receio de confrontos no futuro. O horizonte convida-a usar a violência o mais cedo possível. As populações “etnicamente russas” em países como a Ucrânia, Geórgia ou Moldávia dão-lhe o pretexto.

Ou seja, o problema que enfrentamos na Ucrânia é russo, e talvez não tenha solução. Talvez a “Europa” tenha cometido um erro de cálculo ao forçar a aproximação à Ucrânia, não percebendo que a fragilização da posição russa levaria a uma reacção agressiva. Mas dado o interesse do regime em promover conflitos externos para manter o poder interno, ceder à Rússia talvez só a incentive a arranjar mais sarilhos; mas como Putin vê na unidade e expansão euro-americana uma ameaça, sentir-se-á motivado a prosseguir com tropelias destas na esperança de dividir e travar essa aliança. Façamos o que fizermos, estaremos a jogar o jogo do Kremlin.

Um incurável optimista

Disse e insinuei por escrito que, caso a Grécia saísse do euro, o faria no último dia de Fevereiro. Pelo andar da carruagem, a confusão vai ter lugar mais cedo. Talvez eu seja, de facto, um incurável optimista que nunca espera o pior.

And Then I Don’t Feel So Bad

Por falta de juízo dos seus editores, a revista online americana de cinema Bright Wall/Dark Room publica, no seu número de Fevereiro, um ensaio deste vosso criado, sobre como The Sound of Music dá todos os anos no Natal num qualquer canal da televisão portuguesa, e o poder dos filmes de nos tornarem todos crianças. A revista está disponível para assinantes, mas quem arranjar a app consegue adquirir este número de graça. Fica aqui um pequeno excerto:

Movies turn us all into children, or at least the good ones do. They make us think like children, feel like children do. Even when they elicit experiences and feelings only an adult would undergo, they do so by subjecting us to a very childlike process: placing us in an imaginary world. Just as a child pictures himself to be Snow White, Dumbo, or King Arthur, so to does an adult find himself taken over by whatever the screen tries to impress upon him. It might be a very adult thing, sadness over the dissolution of a marriage in Blue Valentine, or the desperation inherent in any one of Clint Eastwood’s moral tragedies, or all the emotional turmoil in Paul Thomas Anderson’s Magnolia. It might also be an unsophisticated emotion, like the wonder provoked by Kubrick’s 2001, or the thrills and suspense-filled anxiety of a Hitchcock film, or even the hysteria of a Monty Python comedy. Either way, we’re carried by the story through experiences we can only ever live vicariously.

And that’s what The Sound of Music does for me.

Notas do Subterrâneo (de Lisboa)

Numa estação do Metro de Lisboa, ao sair da carruagem, dei de caras com um cartaz publicitário com a pergunta “És tudo o que podias ser?”. Fiquei um pouco abalado. A última coisa que esperava de um “outdoor” do Metro era que me fizesse defrontar interrogações existenciais.

Sarilhos

(Artigo publicado no Diário Económico de ontem)

A crer no que se vai vendo, ouvindo e lendo, toda a Europa espera do novo governo grego a sua salvação: metade do continente concorda com o seu programa e anseia pelo seu “contágio” para além das fronteiras helénicas; a outra metade vê nele uma desgraça que servirá de lição a quem ainda tenha veleidades “anti-austeritárias”. Mas, de onde me sento, é difícil conceber algum final feliz para a aventura.

Imaginemos que a União Europeia cede a algumas das pretensões gregas (que todos os dias mudam): Portugal, Espanha, Itália e especialmente a França logo pediriam igual benevolência para si próprios. Se fossem atendidos, a moeda única passaria a ser vista pelos míticos “mercados” como assente, não no frugal rigor orçamental germânico, mas no instável despesismo mediterrânico, e como tal cada vez menos confiável. O euro perderia valor, tal como os rendimentos dos europeus. Se fossem ignorados, o radicalismo político nesses países explodiria, quem sabe se literalmente. E se as posições gregas forem elas próprias ignoradas, o resultado não será melhor: se não quiser ser ele a ceder à UE, Tsipras terá que declarar bancarrota e sair do euro quando o empréstimo europeu chegar ao fim. Essa via permitiria o regresso ao dracma e a sua impressão em massa para aumentar salários e despesa, mas a esse aumento nominal dos salários corresponderia, com a inflação, uma descida real do seu valor, e uma degradação das condições de vida. A Grécia substituiria a “austeridade” da “sra. Merkel” por uma “austeridade” interna do “sr. Tsipras”, e a troca não traria melhoras. Tal como para o resto da Europa, onde a incerteza provocada pela saída de um país do Euro provocaria a sua desvalorização e respectivas consequências.

Aconteça o que acontecer com o Syriza, a Grécia e a Europa estão metidas num enorme sarilho. Como sairão dele? Mal, provavelmente.

Um enorme trinta-e-um

European-union-sfSpanEsta manhã, as classes falatórias do continente europeu acordaram em polvorosa com a notícia da vitória do Syriza. Dos que exultam com o resultado aos que nele vêem um Apocalipse, todos atribuíram um enorme significado à coisa. Era escusado: a vitória do Syriza é tão irrelevante como o seria a sua derrota. Infelizmente, os problemas que a crise grega implica para a Grécia e para a Europa precedem a eleição de ontem, e sobreviver-lhe-iam independentemente de qual fosse o vencedor. A subida do Syriza ao poder apenas precipita a sua confrontação.

Em 2010, o conhecido jornalista americano Michael Lewis viajou para a Grécia para escrever um artigo sobre a crise do país. Publicado na Vanity Fair e incluído no seu livro Boomerang, e o retrato que faz é aterrador. Uma Grécia que, anos 80 e 90, sofria taxas de juro sobre os seus títulos de dívida pública 10% mais altas que as alemãs, viu na adesão à moeda única uma forma de ser tratada “como um país totalmente funcional do Norte da Europa”. O problema, explica Lewis, é que estava longe de o ser, dado os seus défices monstruosos e a inflação indomada da sua antiga moeda nacional, e só mesmo as mágicas artes da manipulação das contas (com a prestimosa ajuda da Goldman Sachs e o fechar de olhos do resto da “Europa”: Lewis cita um economista grego que, em 1998, notava como as contas oficiais gregas deixavam de fora metade da sua dívida real) permitiram que a Grécia aderisse ao euro desde o seu início. Uma vez conseguido este objectivo, o país pôde então “adquirir para a sua dívida uma garantia implícita da Europa (leia-se da Alemanha)”, permitindo aos gregos contrair empréstimos a taxas semelhantes às dos alemães.

Não foi só o “povo grego” a aproveitar a oportunidade: os bancos gregos, diz Lewis, emprestaram cerca de 30 mil milhões de euros ao Estado (a juntar a todos os outros que este último pediu emprestado a muitas outras entidades), que prontamente os atirou ao lixo: entre 2000 e 2010, os salários do sector público (excluindo subornos que pediam aos incautos que a eles recorrem) duplicaram; a companhia de caminhos de ferro tinha uma despesa sete vezes menor que as suas despesas; o seu sistema educativo, apesar de ser um dos piores da Europa, tinha quatro vezes mais professores por aluno que um dos melhores, o finlandês; empregos que fossem classificados como “trabalho árduo” tinham como idade de reforma 55 anos para os homens e 50 para as mulheres, e incluíam profissões como radialistas ou músicos; o pagamento de impostos era uma actividade praticamente facultativa: os médicos, uma profissão onde escasseiam os necessitados e paupérrimos, eram conhecidos por declararem rendimentos inferiores aos necessários para se pagar imposto; e a explosão do défice em 2009, por exemplo, era explicada a Lewis pelo então Ministro das Finanças como uma consequência de ter sido um ano eleitoral, e que como tal os funcionários do fisco local tinham recebido ordens para não serem especialmente rigorosos na cobrança fiscal. E claro, a massagem das contas públicas continuava, com, por exemplo, o montante real dos gastos do Estado com o sistema público de pensões a ser mais de três vezes superior ao declarado às instituições europeias. Como seria de esperar, nada disto teve um happy ending.

Quando o Pasok chegou ao poder, substituindo a Nova Democracia, teve de admitir que o buraco orçamental era muito maior do que era até reconhecido, e que a Grécia teria de pedir o resgaste à troika do FMI, BCE e UE. Como diz Lewis, a “Europa concordou em gastar milhões de dólares para resgatar a Grécia. Em contrapartida, a Grécia comprometeu-se a dar uma volta à quase totalidade da sua economia.” Mas como até a mais distraída das leituras de uma das recentes avaliações da execução do programa grego mostra, a promessa ficou longe de ser cumprida: “a Grécia”, diz o FMI, “tem continuado a fazer progressos significativos no reequilíbrio da sua economia. Mas tem ficado para trás na execução de reformas indutoras da produtividade”, para o que contribuiu a resistência de “interesses instalados”. O “ajustamento” terá sido efectuado “através de canais recessivos (compressão de despesa e salários reais), em vez de ganhos de produtividade”, e objectivos como os das privatizações, reformas no mercado laboral, e da própria contenção da dívida ficaram muito aquém do exigido e prometido. Por alguma razão, no mês passado, a EU teve de prolongar o programa de empréstimos à Grécia por mais dois meses, dados os receios de que tudo estivesse à beira de ruir.

É verdade que, o ano passado, a Grécia conseguiu um excedente orçamental. Mas feito “à bruta” (veja-se, por exemplo, os cortes nas pensões, feitos não de forma gradual mas de uma assentada), o “ajustamento” grego não podia deixar de ter tido consequências gravíssimas para a população. Desde o elevado desemprego jovem, passando pelos funcionários públicos despedidos, pelas pessoas que não conseguem contrair empréstimos e por isso têm de fechar os seus pequenos negócios, por quem não deixou de ter dinheiro para pagar as escolas dos filhos, até quem deixou de ter dinheiro para pagar o suborno aos médicos para que os seus velhos sejam tratados num hospital, uma enorme fatia da população grega viu, de um dia para o outro, a sua vida piorar significativamente, e com poucas perspectivas de alguma vez vir a melhorar. E escusado será dizer que, embora mais “austeritário”, o Estado grego não ficou por isso menos corrupto: a máquina fiscal que outrora servia acima de tudo para cobrar subornos a quem não queria pagar impostos comporta-se agora de forma autoritário para cobrá-los mesmo a quem não os deve.

Perante isto, não é de espantar que um partido como o Syriza tenha conseguido ganhar as eleições. Para quem viva num país que passou pelo acima descrito, o voto em quem promete querer a “reestruturação da dívida” (com perdão de parte dela) e a manutenção da Grécia no seio quente e fofo da moeda única, o aumento do “investimento público” em cerca de 4 mil milhões de euros e a descida de impostos, surge naturalmente como algo atractivo, se bem que apenas da mesma forma (e com as mesmas consequências) que o canto da sereias era atractivo para os marinheiros companheiros de um mítico habitante daquelas terras.

Aliás, não tem faltado quem diga que esta vitória do Syriza é uma prova de como a “austeridade” da “sra. Merkel” (uma oportunista política de importância menor elevada a ideóloga firme e toda-poderosa pela simplicidade mental dos críticos) tem como único resultado a ascensão das forças políticas radicais. Deixando de lado o problema do raciocínio de se identificar os “radicais” como um mal mas achar-se que a forma de os combater é precisamente adoptando a sua agenda, esta é uma tese que peca pela incapacidade de compreender a natureza do berbicacho que defrontamos. Pois não é só na Grécia que os “radicais” e os “extremos” conquistam um lugar nos voláteis corações dos eleitores, e em alguns desses outros locais, não é a austeridade que os anima, mas precisamente o que entendem ser um excesso de “generosidade” para com os que se queixam dela: se na Grécia a vitória do Syriza talvez se deva à forma como Merkel, a Finlândia e a Holanda fizeram a “Europa” lidar com a crise, na Alemanha, Finlândia e Holanda, a ascensão de partidos radicais “nacionalistas” não se deve de forma alguma à ideia de que os “povos do sul” estão a ser autoritariamente condenados à pobreza pelo “fundamentalismo austeritário” dos “países do norte”, mas à percepção de que alemães, finlandeses e holandeses estão a pagar a “preguiça” e a “boa vida” dos “laxistas” do “Mediterrâneo”.

Pouco interessa qual dos lados tem razão, quanto mais não seja porque o mais provável é que ambos estejam igualmente longe da verdade. O que interessa é que os lados existem, e colocam um enorme problema à União Europeia, problema esse que decorre da forma como os seus arranjos políticos e económicos foram desenhados. O “anti-austeritarismo” grego ou espanhol e o nacionalismo “anti-dependentes” da Alemanha ou da Finlândia, apesar das suas muitas diferenças, têm no euro uma origem comum: a adopção de uma mesma moeda por países com condições e características políticas, sociais e económicas tão diferentes como a Grécia (ou Portugal) e a Alemanha (ou a Finlândia), fez com que a dada altura fosse inevitável que as necessidades de países com problemas orçamentais se tornassem incompatíveis com a credibilidade da moeda, a necessidade de restrições orçamentais nesses países com a possibilidade de terem algum crescimento económico, e a eventual conveniência de transferências monetárias dos mais ricos para os mais pobres com o apoio eleitoral aos partidos de governo nesses países mais ricos. Os arranjos políticos e económicos da União Europeia produziram não só um conflito de interesses de duas democracias, uma incompatibilidade entre vontades igualmente legítimas das respectivas maiorias eleitorais de cada um dos regimes democráticos integrantes da UE, como assegurou também que ninguém fica contente com o resultado: dependendo da proveniência, ora se protesta a falta de “solidariedade” de uns, ou o estar-se a pagar a “preguiça” e o “despesismo” dos outros.

Na Grécia, considera-se que a dívida actualmente contraída pelo Estado é insustentável, ou no mínimo incompatível com os “direitos humanos do povo grego”. E embora haja quem diga que a dívida grega até é mais sustentável que a de outros países, a verdade é que a necessidade de obter excedentes orçamentais primários de 4,5% do PIB em 2016 parecem, dado o estado do país, ser incompatíveis com a possibilidade dos gregos levarem uma vida minimamente decente. Nesse sentido, uma “reestruturação” da dívida talvez fosse útil (embora se argumente que as taxas de juro gregas são já tão baixas que tal medida não serviria de muito). O problema está em que uma “reestruturação” não se faz unilateralmente, e os credores da Grécia só a aceitariam se tivessem um mínimo de confiança (que obviamente não têm) de que o país aproveitaria esse alívio para fazer as reformas que em tempos de dificuldade não conseguiam fazer, em vez de o usar para regressar aos “bons velhos tempos” descritos por Michael Lewis. De forma unilateral, a única coisa que a Grécia pode fazer é declarar uma bancarrota, uma opção que, embora permitindo o regresso à sua extinta moeda nacional e o recurso à sua impressão em massa para aumentar salários e despesa, teria como consequência real uma outra “austeridade”, porventura ainda mais violenta: com a inflação, o aumento nominal dos salários corresponderia muito provavelmente a uma descida real do seu valor, e a uma degradação das condições de vida dos que ainda tivessem emprego, para não falar dos que entretanto se juntariam à longa fila de desempregados, após o fecho de mais não sei quantos negócios, levados na corrente. A Grécia substituiria a “austeridade” da “sra. Merkel” e imposta pelo estrangeiro por uma “austeridade” interna do “sr. Tsipras”, e dificilmente ficaria melhor com a troca.

Deve ser por isto que muita gente fora da Grécia viu com bons olhos uma vitória do Syriza: a desgraça que se abateria lá pelos lados helénicos serviria de exemplo para quem, por aqui e por ali, vá tendo veleidades “anti-austeritárias”. O problema está em que a desgraça não se cingiria à Grécia, alastrando-se em maior ou menor grau por toda a União. Parece ser verdade que o sistema financeiro europeu está muito menos exposto à dívida grega, e que portanto uma eventual bancarrota causaria teoricamente menos danos agora do que teria provocado em 2010. Mas convém não esquecer que, a partir do momento em que a Grécia reintroduzisse uma moeda própria, os gregos que ainda tivessem euros na sua mão teriam de os trocar, colocando no mercado uma inundação de euros para venda que conduziriam a uma sua desvalorização. A simples saída de um país da moeda única colocaria em dúvida a credibilidade desta última, quanto mais não seja porque haveria sempre a possibilidade de as coisas até correram bem e do seu exemplo ser posteriormente seguido por outros países. E claro, uma saída grega do euro implicaria perdas de montantes relativamente avultadas nos cofres dos países da União: a Alemanha, obviamente, seria quem teria mais a perder. Mas até o nosso país se arriscaria a perder 1,1 mil milhões de euros com a brincadeira. E há quem receie que os fundos de resgate não têm dinheiro suficiente para lidar com uma crise que eventualmente se abatesse sobre a Espanha ou a Itália em consequência do que resultasse de uma saída grega.

Por outro lado, se a Alemanha e restante União Europeia acabarem por ir ao encontro das pretensões de Tsipras, a incerteza e o perigo não seriam menores. O resultado imediato seria o de incentivar os restantes países em dificuldades (não só Portugal, não só a Espanha, mas também a Itália e acima de tudo a França) a pedirem igual ou semelhante benevolência. A credibilidade do euro, que sofreria logo com o perdão ou simples reestruturação da dívida grega (a moeda passaria a estar associada, não à política ortodoxa de Frankfurt, mas às práticas orçamentais criativas de Atenas), ficaria pelas ruas da amargura com a mera possibilidade de semelhantes perdões e reestruturações se estenderem ao resto do continente, e de que as reformas que não foram feitas deixassem de ser vistas como necessárias. A perda de valor do euro afectaria não só os salários e poupanças dos gregos, mas também o valor dos rendimentos dos cidadãos dos outros países da zona euro, implicando uma degradação das suas condições de vida. E perante as dificuldades estruturais das suas economias e a relutância em realizar as reformas que poderiam ajudar a colmatá-las, as expectativas de que pudessem melhorar seriam tão escassas como os empregos que sobreviveriam à tempestade.

Aconteça o que acontecer com o Syriza, aconteça o que acontecer no país que agora irá governar em coligação com os nacionalistas-populistas-justicialistas dos dissidentes da Nova Democracia, nem a Grécia nem o resto da Europa se verão livres de dificuldades nos tempos que se avizinham. Nem a Grécia nem a Europa evitarão uma qualquer forma de “austeridade”. Nem os problemas relacionados com a forma como a Grécia tem sido governada desaparecem, nem os problemas inerentes ao desenho dos arranjos políticos da “Europa” deixarão de existir.

Temos, por isso, um enorme trinta-e-um em mãos. Como saíremos dele?

Mal.

Atenas e Berlim

António Costa, líder do PS, diz, a propósito da vitória do Syriza, que “cada povo deve ser livre de fazer as suas próprias escolhas”. E tem toda a razão. O povo grego pode escolher não se sujeitar às exigências da Alemanha, da Finlândia, e dos restantes países mais “austeritários”. E os eleitores alemães, finlandeses e dos outros países mais “austeritários” têm todo o direito de escolher não pagar aos gregos os custos das escolhas que estes últimos fazem. O que está em causa no conflito entre Atenas e Berlim não é um confronto entre “democracia” e “autoritarismo”. É, isso sim, um conflito de interesses de duas democracias, uma incompatibilidade entre duas vontades igualmente legítimas das respectivas maiorias eleitorais de cada um destes dois regimes democráticos. Por isso é que o problema é grave e complicado de resolver, independentemente dos méritos ou deméritos das duas posições.

Leopardos e camaleões

O dr. Paulo Portas, interrompendo as prolongadas férias que de há uns anos para cá anda a gozar a expensas do Orçamento Geral do Estado, escreveu um artigo no Observador sobre Winston Churchill. O texto, com o estilo retórico habitual na personagem (fazendo com que só os mais pacientes o consigam ler na íntegra), “argumenta” (tanto quanto o uso da palavra se pode aplicar a Portas) que “Churchill talvez não sobrevivesse aos tempos e aos modos da política contemporânea”. Por uma vez na vida, concordo com Portas: também eu temo que políticos como Churchill talvez não fossem bem sucedidos na política tal como ela hoje se pratica. Afinal, na política moderna proliferam e prosperam políticos precisamente da estirpe do dr. Portas, para infelicidade e desgraça de todos nós. Embora no seu caso concreto talvez isso esteja perto de deixar de ser verdade.

Dias de reflexão

Portugal tem um “dia de reflexão” nas vésperas das eleições. A Grécia tem um “dia de reflexão” nas vésperas das eleições. O desgraçado estado a que ambos estes países (cada um à sua maneira e grau) chegaram é prova mais do que suficiente que o tal “dia” não serve de muito.

Insistindo na asneira

Bergoglio Jorge Bergoglio, o responsável máximo da Igreja Católica conhecido por “Francisco”, veio “clarificar” as suas declarações, feitas após os ataques terroristas em Paris, de que se chamassem um nome feio à sua mãe, ele daria um murro na cara ao autor dos insultos, declarações essas que foram interpretadas como uma justificação dos ditos ataques terroristas. Bergoglio, a bordo do avião que o levou das Filipinas a Roma, garantiu que não, que se tratavam apenas de uma “abordagem humana” à questão. E acrescentou que “em teoria podemos dizer que uma reacção violenta a uma provocação ou ofensa é uma coisa má”, que “em teoria podemos dizer que temos liberdade de expressão”, mas que na realidade “somos humanos”, e que também “há a prudência, uma virtude da coexistência humana”. Ou seja, depois de ter reagido aos ataques terroristas preferindo dar ênfase, não aos ataques, mas à questão da suposta ofensa das caricaturas do desengraçado jornal francês onde trabalhavam os assassinados, Bergoglio pretende vir “clarificar” essa reacção inicial insistindo na asneira, colocando a agressão à “coexistência humana” na falta de “prudência” dos assassinados, e não nos assassinos. Algo que diz tudo acerca de um senhor com quem muita gente parece simpatizar, talvez por prestarem mais atenção ao ar simpático do senhor do que ao conteúdo – arrisco dizer – malévolo do que por vezes diz.

O problema

A triste saga da (demorada) privatização da TAP mostra bem qual é o problema da existência de empresas detidas pelo Estado. Tudo – até a sua privatização – está acima de tudo sujeito a critérios políticos do detentor do poder, e aos interesses dos grupos de pressão que a ele têm acesso, em detrimento de tudo o resto.

“Basta um mau encontro”

No telejornal da RTP, o enviado especial António Esteves Martins discursava a partir de Paris acerca dos ataques terroristas na capital francesa quando, a dada altura, começou a dizer como nos bairros de onde eram originários estes terroristas viviam também muitos “jovens portugueses”, e que “basta um mau encontro” para que se “convertam” ao “fundamentalismo terrorista”. Estas palavras (cujo sentido irei distorcer mas que garanto terem sido exactamente assim enunciadas) fizeram-me pensar. Realmente, a vida burguesa dos arredores lisboetas deve ser mesmo muito diferente da dos bairros sociais parisienses. Nestes meus anos de existência terrena, tive já muitos encontros (ou, para ser mais preciso, alguns encontros) e uma parte deles (a grande maioria), foram aquilo que qualquer pessoa que valorize a verdade classificaria de maus – para a pobre rapariga que, por azar ou falta de sensatez, acedeu ao meu convite para ceder a sua companhia em cada particular ocasião. No entanto, nunca me “converti” ao que quer que fosse – exceptuando talvez ao desespero existencial – muito menos ao fundamentalismo terrorista. Aliás, se alguém ganhou ressentimento contra a sociedade ocidental liberal foi o – diminuto – número de membros da metade feminina da espécie que passou pela terrível experiência de ser cortejada pela minha pessoa, capaz de provocar até na mais adorável das almas (caso de uma ou duas das vítimas) um incontrolável desejo de vingança contra um mundo que permite que jovens inocentes sejam sujeitas a tal brutalidade. Talvez fosse isso que Esteves Martins queria dizer: uma jovem portuguesa residente num banlieue tem um “date” com um qualquer “irmão Kouachi”, e de tão negativa é a experiência, fica logo pronta para partir para a Síria ou o Iraque para combater com o “Estado Islâmico”. Assim, parecem ter razão aqueles que consideram que o fim do terrorismo só será conseguido com o fim das frustrações amorosas de grande parte da população. Ou seja, é algo muito pouco provável.

O filósofo Larry David sobre o drama existencial da selecção sexual

O filósofo Larry David sobre o drama existencial da selecção sexual

“Heroes, just for one day”

João Marques de Almeida, um conhecido colunista que até escreve bons artigos quando os seus argumentos são “inspirados” por terceiros, escreve hoje no Observador um texto sobre os atentados de Paris, em que diz que “certamente que David Bowie não escreveu “Heroes” a pensar nos soldados jihadistas, mas a letra aplica-se a esses “heróis por um dia””. Diz Marques de Almeida que “como se viu nos últimos dias, os jihadistas conseguem derrotar todos, um país, a Europa, o mundo livre, durante um dia. Seguramente que se sentem como reis quando matam indiscriminadamente e semeiam o terror. E morrem como “heróis” para muitos que sonham um dia morrer como eles. Bin Laden e aqueles que atacaram os Estados Unidos no dia 11 de Setembro de 2001 foram os “heróis” de quem matou, anos depois, em Madrid e em Londres. E os terroristas de 2004 e de 2005 terão sido os “heróis” dos irmãos Kouachi. E vão surgir mais “heróis”.”

Marques de Almeida conhece a letra da canção, e o verso (que cita) “we can beat them just for one day, we can be heroes.” Mas, pelos vistos, não sabe o seu significado, e por isso não percebe que nem deixando a palavra “heróis” entre aspas, não atribuindo assim real heroicidade aos sujeitos, se pode aplicar a letra da canção aos terroristas (não estou acusar Marques de Almeida de considerar os terroristas como heróis, estou a acusá-lo de fazer um mau paralelo). Produzida em 1977, “Heroes” conta a história de um casal (que mais tarde se veio a saber ser o produtor de Bowie, Tony Visconti, e a – à altura – sua amante, a cantora Antonia Mass) que se encontra e se beija junto ao Muro do Berlim, desafiando as armas que, disparando sob as suas cabeças mas que, para sua sorte, falham o alvo (“And the guns shot above our heads (over our heads)“) e que por isso, são heróis por um dia. Mesmo descontando as intenções originais de Bowie, e dando liberdade para as mais rocambolescas interpretações e comparações, é absurdo dizer que “a letra” se aplica aos “soldados jihadistas”. A letra de “Heroes” nunca se pode aplicar às pessoas que têm as armas na mão e que disparam na direcção das cabeças de inocentes. A aplicar-se a alguém, a letra de “Heroes” aplica-se a pessoas como Yohan Cohen, o jovem de 22 anos feito refém no supermercado parisiense, que morreu a tentar salvar a vida de uma criança de três anos da ameaça do terrorista Amedy Coulibaly. A aplicar-se a alguém, a letra aplica-se a pessoas como Yoav Hattab, Philippe Braham e Francois-Michel Saada, as outras vítimas do “soldado jihadista”. A aplicar-se a alguém, a letra de “Heroes” aplica-se a Lassana Bathily, um empregado do mesmo supermercado, que ajudou a proteger a vida dos reféns sobreviventes. E aplicar-se-ia também a Clarissa Jean-Philippe, a polícia morta em Montrouge, ou a Ahmed Merabet, o polícia muçulmano morto em Paris. Quase todos (à excepção de Bathily) pessoas que não tiveram a mesma sorte do par romântico de Bowie, e que acabaram mesmo por morrer. “The shame”, diz Bowie, “was on the other side”. E por isso mesmo, a letra da sua canção nunca se poderá aplicar a quem está do lado onde está a vergonha. Algo que Marques de Almeida deveria ter percebido antes de escrever o seu artigo.

A “nossa sociedade ocidental, céptica, individualista” merece ser defendida

No site da Rádio Renascença, Graça Franco, por entre algumas considerações sensatas embora banais, afirma que “no ataque ao “Hebdo” não está apenas o ódio e a vingança de pretensos ofendidos. Está uma barbárie que progride na exclusão social das nossas periferias. Está o vazio que a nossa sociedade ocidental, céptica, individualista, pretensamente modernaça nos seus sem-valores, sem nada para oferecer a uma geração perdida no vazio e na ignorância alimentada de “reality shows” e pouco mais espelhada numa pobreza intelectual confrangedora.” Por muito que se possa compreender as razões do lamento da dra. Franco e até a sua preocupação com os “sem-valores” das nossas sociedades “modernaças”, é difícil de concordar com a afirmação. Graça Franco tem razão ao alertar para a “exclusão social” das “periferias” de cidades como Paris: como disse na ETV , há, em cidades como a capital francesa, bairros que quase funcionam como estados-pária, onde as autoridades dos países onde se situam mal conseguem entrar e as comunidades neles residentes vivem sob o jugo de grupos fundamentalistas radicais, cheios de vontade de negar direitos às suas mulheres e de doutrinar jovens rapazes para irem combater contra os infiéis, seja onde for. Mas, ao contrário do que a dra. Graça Franco parece argumentar, esses jovens não são como os jovens que são educados no “vazio” e na “ignorância alimentada a reality shows”. São jovens educados, por esses mesmos fundamentalistas religiosos a que esses bairros estão entregues (fora do alcance do Estado ou de líderes religiosos mais sensatos), a odiarem esse carácter “modernaço” das nossas sociedades, a odiarem o tal “vazio” que identificam num modo de vida em que as adolescentes podem andar de mini-saia, fazer sexo com quem muito bem entendem (e não fazer com quem não querem), em que qualquer um é livre de, se quiser, ingerir bebidas alcoólicas, ver pornografia, não acreditar em Deus ou acreditar mas dar-lhe pouca importância, e até mesmo ver a Casa dos Segredos com a maior das atenções, por muito “confrangedora” que a “pobreza intelectual” que a dra. Graça Franco associa ao programa seja. Podemos, e em certo sentido devemos, encontrar muitos problemas nas nossas sociedades, e criticá-los com a veemência que entendermos necessária. Mas nos ataques terroristas destes últimos dias – e dos últimos anos – não está o “vazio”, o “cepticismo” e o “individualismo”. Está, isso sim, um ódio visceral a tudo isto. A Casa dos Segredos não é o problema. O problema está em haver gente que odeia um modo de vida em que ver algo como a Casa dos Segredos é um direito. Um modo de vida e uma série de direitos que merecem ser defendidos.

À atenção da dra. Ana Gomes

We must stop blaming ourselves for Islamist terror, um artigo de Padraig Reidy no Telegraph:

We’d forgot about Charlie Hebdo. In 2011, the satirical magazine, firmly rooted in the anti-clericalism of the French left, was firebombed after it published an edition poking fun at Islam: “100 lashes if you don’t die of laughter”, read the cover.

At the time, unthinkable in the light of today’s attack on Charlie’s office, there was “debate” over whether the magazine’s cartoonists and editors had “gone too far”.

Bruce Crumley, a correspondent for Time, rushed to condemn not the bombers, but the scribblers.

“Not only are such Islamophobic antics [as publishing cartoons] futile and childish,” he wrote, “but they also openly beg for the very violent responses from extremists their authors claim to proudly defy in the name of common good. What common good is served by creating more division and anger, and by tempting belligerent reaction?”

He went on: “Do you still think the price you paid for printing an offensive, shameful, and singularly humor-deficient parody on the logic of ‘because we can’ was so worthwhile? If so, good luck with those charcoal drawings your pages will now be featuring.”

Others sought to contextualise the attacks against the backdrop of alienation felt by many French Muslims.

Underlying all this was a persistent assumption. Islamist attacks are only ever reactions, only ever brought about by provocation from the West. All the way back to the Ayatollah Khomeini’s contract on the head of Salman Rushdie in 1989, we have accepted the idea that it is up to authors, artists and cartoonists to justify themselves in the face of threats and real violence.

Rushdie himself even apologised for his supposed “insult” to Islam, in fear for his life.

If the rise of Isil has taught the world one thing, it is that the provocation is beside the point. Jihadists kill because that is what they do. It does not matter if you are a French cartoonist or a Yezidi child, or an aid worker or journalist: if you are not one of the chosen few, you are fair game. Provocation is merely an excuse used by bullies to justify their actions, while ensuring the world bows to their will.

A arte perdida de falar sem dizer nada

A Grécia prepara-se para ter eleições legislativas a 25 de Janeiro, e ninguém com responsabilidades (ou sem elas) na “Europa” consegue evitar dizer o que pensa acerca do assunto. O Governo alemão, dizem as más línguas e o Der Spiegel, fez saber que, se os gregos quiserem sair do euro, são livres de o fazer. O tom ameaçador da declaração não é uma coincidência. Uma senhora da Comissão Europeia, por sua vez, diz que a adesão da Grécia ao euro é “irrevogável”, e ao contrário do dr. Portas, fala a sério. E até o dr. Durão, despido de funções europeias e de vergonha no rosto (mas, felizmente, não de roupas), veio avisar os gregos de que caso não cumpram os seus compromissos, os seus parceiros europeus poderão “perder a paciência”. Não é preciso ser um génio para compreender que qualquer político de nacionalidade não-grega deveria, até ao dia das eleições e se questionado acerca delas, responder simplesmente “até dia 25 não vou comentar esse assunto para não interferir no processo eleitoral, e a partir daí logo veremos o que acontece”. Infelizmente, também não é preciso ser sensato para se ter cargos importantes na política europeia, como os casos acima referidos demonstram à saciedade. Gente geralmente dada, a propósito dos mais variados temas, a falar sem dizer nada, sente-se agora compelida a dizer tudo o que lhe vai na alma acerca da Grécia e da sua governação. Talvez por ser uma questão que lhes toca particularmente o coração. Pena que não tivessem demonstrado o mesmo fervor pelos assuntos desse país nos anos em que alegremente os seus governantes aldrabavam as contas públicas, mantendo o inacreditável estado de coisas que vigorava por aqueles lados e abrindo as portas ao descalabro presente. Nessa altura, a “Europa” fechava os olhos e deixava o fogo começar a arder, como se daí não viesse qualquer perigo. Agora, prefere deitar achas para a fogueira. Não foi uma melhoria.