Burrell e Valcheck

Valcheck e Burrell Uma das “teses” da série televisiva The Wire – uma das melhores de sempre – é a de que, em determinadas instituições (para não dizer todas), só são promovidas a cargos de liderança dois tipos de pessoas: as que estão tão integradas no sistema que não têm qualquer vontade de o afrontar, e as que são tão incompetentes que não terão qualquer capacidade para o fazer. Resta saber a qual das duas categorias pertencerá o nosso novo comissário europeu.

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“Uma pipa de massa”

“Que se calem”, disse, com a classe que lhe é reconhecida, o senhor que à primeira oportunidade virou as costas aos seus compromissos com o país para ocupar um cargo europeu, “aqueles que dizem que a Comissão não é solidária com Portugal”. Tudo porque, com pompa inversamente proporcional à vergonha na cara, Durão Barroso e Passos Coelho vieram hoje anunciar os 26 mil milhões de euros de fundos estruturais que a União Europeia atribuirá a Portugal ao longo dos próximos anos. “Uma pipa de massa”, segundo Barroso, que “é preciso gastar bem”. Pois é aí que está o problema. A experiência do país com os fundos europeus não augura nada de bom nesse capítulo.

Há uns anos, em Março de 2003, a The Economist publicava um artigo que punha em dúvida a ideia de que os fundos europeus beneficiavam os países que os recebiam. O artigo citava o português Pedro Pita Barros, que contava como, quando fez um comentário semelhante numa conferência, muitas pessoas comentaram em privado – e em privado – que concordavam com ele. “The most obvious way that regional aid might be damaging”, lia-se no artigo, “is by distorting priorities”: “businesses spring up to exploit the availability of subsidies, most obviously for construction and “training”, rather than responding to the real demands of the market. In order to qualify for it, recipient countries usually have to chip in around half of the cost of an EU-financed project. That tempts them to spend taxpayers’ money on schemes that they might otherwise not bother with. This is a potential headache in a country like Portugal, which is undergoing a ferocious budgetary squeeze to keep within the euro area’s fiscal rules but which is nonetheless tempted to press ahead with new infrastructure projects of marginal value—for fear of losing “European money”“.

Um argumento semelhante é desenvolvido pelos nossos Carlos Guimarães Pinto, Miguel Botelho Moniz e Ricardo Gonçalves Francisco no seu O Economista Insurgente: “os subsídios europeus foram bem aproveitados no desenvolvimento de infraestruturas públicas e no crescimento de certos sectores”. O problema esteve em que “a simples transferência de fundos vem com poucas exigências para além de um caderno de encargos e, por vezes, cofinanciamento dos investimentos. Os beneficiários apenas se têm que preocupar em preencher todas as exigências burocráticas exigidas pela autoridade gestora dos fundos”. E assim, “pessoas e empresas que teriam aplicado os seus esforços noutro tipo de actividades” deslocaram-nos para actividades que apenas eram rentáveis por decisão, não das preferências das pessoas através de cuja procura se criasse um mercado para determinadas actividades, mas das estruturas políticas europeias e nacionais, que definiam o que era “estratégico” e “prioritário”. O grande problema dos subsídios europeus, dizem o Carlos, o Miguel e o Ricardo, foi “terem deslocado recursos de actividades produtivos para actividades rentistas”. Substituiram o mercado da interacção dos indivíduos pelo mercado da influência política. E com isso, claro, vem sempre corrupção.

No seu artigo, a The Economist citava Pita Barros, que argumentava que “it’s when you hear people seriously suggesting that Portugal should fiddle its official statistics, so that we are still rated poor enough to qualify for European subsidies, that you wonder if this has gone too far”. Um funcionário comunitário também citado pelo artigo acrescentava que “the best thing the EU could do for Greece is to cut off the structural funds immediately. They’re turning Greece into Europe’s Mezzogiorno [the depressed southern part of Italy]. Anybody who works hard at a regular business is regarded as an idiot, since it’s much easier to set up a project to draw in European subsidies.”
O artigo terminava lamentando o facto de ser muito provável que estes erros fossem mantidos, porque os fundos estruturais eram vistos pelas estruturas comunitárias essencialmente como um instrumento de propaganda, tanto da própria União como a nível interno de governantes sempre dispostos a fazerem anúncios que lhes pudessem dar votos. Onze anos depois, pelos vistos, não aprendemos nada, e o lamento da revista pode infelizmente continuar a ser feito.

O “bully” enfraquecido

(Artigo publicado no Diário Económico de ontem)

Num artigo no Sunday Times, o primeiro-ministro britânico afirmou que “é altura” dos países europeus tomarem uma posição firme contra a Rússia caso se confirmem as responsabilidades russas no desastre do voo MH17. Cameron tem razão, mas duvido que uma ameaça europeia e americana de isolar a Rússia, caso esta não cesse o seu apoio à insurreição no leste da Ucrânia, viesse a alterar o comportamento de Putin: é por sentir que a Rússia está já isolada que Putin age como age. Toda esta crise é um produto do enfraquecimento russo: nos anos 80 e 90, com a incapacidade do império de manter o controlo sobre as várias “nacionalidades” que o compunham; e recente, com a aproximação ucraniana à NATO e à UE.

Longe de ser a “afirmação do poderio russo” que por aí se anuncia, a desestabilização do leste ucraniano surge da percepção de que esse poder é cada vez menor. A Rússia é um país que vê os vizinhos quererem fugir da sua “esfera de influência”, numa gravíssima crise demográfica, e com um orçamento de Defesa quase insignificante quando comparado com os EUA. E a circunstância do regime ser (como escreveu Fraser Nelson) “uma gigantesca empresa energética com um exército” pode ter enriquecido os seus corruptos líderes, mas também os fragilizará, à medida que os EUA começarem a usar o emergente sector do gás de xisto para baixarem os preços no mercado energético global: não só verão a sua riqueza diminuída, como se arriscam a que uma economia atrofiada lhes retire o apoio popular.

Mas com as suas tropelias na vizinhança, Putin une os russos em torno do líder que os “protege” de um “Ocidente moralmente decadente” e dos “nazis” da Ucrânia. Sanções mais pesadas serão talvez a resposta necessária ao que se passou. Mas não deixarão de servir a Putin para conquistar apoio interno. Lidar com o Putin é como lidar com um “bully”: se ignorarmos os seus tormentos, estes continuarão porque ninguém lhes vai pôr fim. Se respondermos, estaremos a reagir como ele sempre quis. Façamos o que fizermos, jogaremos sempre o jogo dele.

Os “candidatos messiânicos”

José Pedro Aguiar Branco, de quem ninguém se lembrava ser ainda Ministro da Defesa, apareceu há dias a lamentar a atenção que tem sido dada aos que chamou de “candidatos messiânicos”, na sua sempre preocupada mas pouco ajuizada cabeça portadores de uma “instabilidade política” que só prejudica o país e os seus esforços para sair da crise. Aguiar Branco não nomeou os ditos “candidatos messiânicos”, mas a coisa tem sido, sem grande esforço, interpretada como tendo António Costa e Rui Rio como alvos. Tendo em conta que Aguiar Branco faz parte do Governo que os tais “candidatos” pretendem remover, compreende-se a sua preocupação. Mas o Ministro da Defesa deveria também compreender que, para lá Conselho de Ministros ou do Largo do Rato, poucos sejam os que a partilham.

Longe do que Aguiar Branco parece crer, o problema do país não está nos “candidatos messiânicos”, mas precisamente naqueles que eles se propõem substituir. Não ocorre a Aguiar Branco que António Costa e Rui Rio surgem – e surgem como messiânicos – precisamente porque os que eles pretendem substituir deixaram de ser solução. Não ocorre a Aguiar Branco que os candidatos messiânicos sejam, não a causa, mas um produto da “instabilidade política”, e que esta seja causada precisamente pela falência e descredibilização simultânea do Governo PSD/CDS e da liderança do PS.

Não sei se Costa e Rio estarão ou não à altura dessas esperanças que neles são depositadas (tenho as maiores dúvidas quanto a António Costa, e acho que Rui Rio terá de enfrentar enormes dificuldades para o conseguir), mas só um cego ou alguém comprometido com as respectivas causas é que não percebe que é o facto de tanto o Governo PSD/CDS como a actual liderança do PS não motivarem qualquer confiança nos eleitores de que poderão inverter o estado de coisas do país que faz com que estes depositem as suas esperanças em possíveis alternativas, como as simbolizadas por Costa e Rio.

É fácil de perceber a razão pela qual o PS não inspira a confiança dos portugueses. O governo de Sócrates pôs-nos no bonito estado em que estamos, e a actual liderança nunca viu grande mal nessa política. Agora que diz ter “saído da gaiola”, Seguro encena uma ruptura, mas a política que propõe em nada se distingue da que o “engenheiro” entendeu por bem seguir. Acresce que existe na generalidade da população a percepção – certa ou errada, suficiente para que ninguém preste grande atenção ao que diz e muito menos confie nas suas palavras – de que por muito que Seguro critique o Governo e prometa gritar com a “sra. Merkel” para que a Alemanha nos subsidie, não irá, caso receba as chaves de São Bento e do governo do país, conduzir uma política muito diferente da “austeridade” que Passos Coelho tem seguido.

A desconfiança dos portugueses no actual Governo, por sua vez, não é menos compreensível. Este bem pode ter conseguido evitar a bancarrota do país, mas não conseguiu evitar a sua própria falência. De resto, a única coisa que a coligação conseguiu foi mesmo desagradar aos eleitores, sem mudar grande coisa. O que se prepara para deixar é o exacto estatismo que encontrou em 2011, mais “austero” por força das circunstâncias, mas igualmente irreformado por falta de vontade ou capacidade. Com a “reforma do Estado” entre a gaveta e o documento rabiscado por Portas, a coligação conseguiu apenas o extraordinário feito de atrair para si o descontentamento popular que as reformas costumam atrair sem que tivesse tentado sequer fazê-las. Consegue garantir que entregará de volta o poder ao PS, sem ter mudado nada do que este lhe havia deixado.

A verdadeira “instabilidade política” nasce desta simultânea fraqueza do actual governo e do principal partido da oposição. Como escrevi após às europeias, a única solução política que poderia sair deste relativo impasse seria aquilo a que noutros tempos se chamava de uma “fusão”, ou com menor benevolência, de “pastel”, a chamada à governação em simultâneo do poder decrépito e da alternativa ainda em gestação. Embora aparentemente engenhosa – e atractiva para quem queira aparecer como sua eminência parda e superficialmente neutral – a “solução” não solucionaria grande coisa. Em vez de produzir um poder forte, conseguiria apenas trazer duas fraquezas para a sua sede, que não juntariam outra coisa além do desprezo generalizado de uma população que já o nutre por ambas as partes, e que tenderia a acentuá-lo se fizessem um cozinhado deste género. Além de que, o que não é irrelevante, traria para dentro do governo um conflito político que deveria estar fora dele, no parlamento e na sociedade em geral. Esta “solução” seria assim apenas provisória, e com a agravante de degradar as já de si muito precárias condições de exercício do poder num país com cada vez maior desconfiança na classe política. O “Bloco Central” pode ter servido em 83/85, mas convém não esquecer que a seguir veio a adesão à CEE e os seus abençoados fundos, um verdadeiro maná caído dos céus berlinenses que permitiu camuflar os nossos males internos e as querelas insanáveis que eles tendem a produzir. Mas em 2016 ou 2017 não virão fundos, antes exigências de “austeridade” e de medidas impopulares.

É por isto que uma mudança de liderança tanto no PS como no PSD (e já agora, no CDS) seria bem vinda, e é dessa forma aparentemente encarada pela generalidade das pessoas. O “messianismo” de que Aguiar Branco se queixa é apenas a consequência inevitável do facto dos portugueses não verem poder sair daqui qualquer solução para os seus problemas. O “messianismo” de Rui Rio e António Costa é um produto de eles serem alguém que não Passos Coelho e Seguro. Destes últimos, já nenhum português suspeita que possam ser solução para o que quer que seja. Em alguém que não eles, ainda poderão ter alguma esperança. Rio e Costa poderão frustrar essas esperanças, mas por enquanto, ainda é possível tê-las. Quem alguma vez as depositou no actual Governo ou na actual oposição certamente já as perdeu por completo.

Eurocepticismo

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Poucas semanas depois das últimas “europeias”, uma amiga minha, satisfazendo a minha curiosidade, dizia-me estar “desiludida” com a “Europa”. “Dantes”, disse ela, “acreditava mesmo no ideal europeu, mas agora não tenho grande esperança naquilo”.

O sentimento é compreensível. Em tempos, esse “ideal europeu” anunciava paz e cooperação a um continente que, até há poucas décadas, se entretinha não com noitadas de chefes de Governo discutindo a PAC, mas com guerras sucessivas e quase intermináveis, e o alargamento e “aprofundamento” da UE prometiam o fim dos “egoísmos nacionais” e a prosperidade generalizada. Hoje, se ainda prometem algo, ninguém acredita. E quanto mais a UE se “aprofundou”, mais se dividiu.

Não é nada que não fosse expectável. Entre os vários países membros existem tamanhas diferenças que nenhuma entidade política pode governar sem negligenciar os legítimos interesses de uma parte significativa dos seus cidadãos, que, dependendo da proveniência, ora protestam a falta de “solidariedade” de uns, ou se queixam de pagar a “preguiça” e o “despesismo” dos outros. No meio do ruído, todos acabam por esquecer o que a UE nos traz de bom: sem a livre circulação de pessoas, serviços e bens que oferece, a vida como hoje a conhecemos seria impossível. Mas ao avançar demais na integração política, ao alargar o número de questões não sujeitas ao direito de veto dos países membros, a UE fez com que os cidadãos se sintam cada vez mais governados por um poder que lhes é “estranho”, no sentido de vir de outro lugar que não o seu. E assim, arrisca-se a que as pessoas prefiram abdicar do que a UE lhes oferece, em troca de sentirem que o seu país volta a ser dono do seu próprio destino.Por muito mau que esse destino possa ser.

Há dias, um grupo de eurodeputados virou as costas quando o hino da UE foi tocado. Mas é possível ser céptico em relação à UE sem ser “antieuropeísta”. Sou “eurocéptico”, mas na medida em que sou céptico em relação à política: quanto mais tentar fazer, piores resultados obterá, e por isso só uma UE que limite o seu diktat ao que de bom nos traz e na medida estritamente necessária, alargando o que cabe à esfera nacional, poderá permitir que a “Europa” e os “europeus” não fiquem mesmo de costas voltadas.

António Costa e a “Doutrina Ruth Marlene”

Através da nossa Graça Canto Moniz, descubro que António Costa se debruçou, no âmbito da campanha interna do PS, sobre a “Doutrina Ruth Marlene”, demonstrando não só a sua particular consciência dos agudos problemas que o seu partido enfrenta como um irreprensível gosto musical:

“O maior sinal da fraqueza do PS, não sei se têm reparado, é que, nas últimas semanas, voltámos àquela discussão que eu já há muitos anos não ouvia, coligam-se à esquerda ou coligam-se à direita”, disse.

Por “há tantos anos” não ouvir abordar este tema, António Costa disse ter-se lembrado de um discurso antigo que proferiu “contra a política do pisca-pisca”, ou seja, sobre “se o PS pisca à esquerda ou se pisca à direita”.

Mas, frisou o candidato a secretário-geral socialista, o PS é um partido que “não pisca-pisca”, isto é, “não pisca nem à esquerda nem à direita”.

Já a dra. Marlene se lamentara do facto de “a moda do pisca-pisca” ser algo que “parecia estar a dar” e ter “vindo para ficar”. António Costa, esse, não quer contribuir para a preservação desse estado de coisas. Claro que seria útil saber a que tipo de coligações o PS estaria aberto caso o dr. Costa se torne líder do partido, e não venha a obter uma maioria absoluta em legislativas. mas Costa prefere fazer proclamações de que o PS “se dirige a todos”, mesmo que ao fazê-lo acabe por não lhes dizer nada. Mas corre riscos, para os quais a própria dra. ruth marlene já em tempos alertou: quando “eles vêm com ela fisgada” às vezes “não levam nada”.

A democracia portuguesa

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Nenhum político escapa a terminar a sua carreira em lágrimas, terá dito um dia um exemplar britânico da espécie. A crer na história dos governos da democracia portuguesa, a máxima parece ser verdadeira.

Em 1978, o mesmo descontentamento popular nascido da crise financeira e da “austeridade” exigida pelo FMI que levara o PS a alargar a sua base de apoio parlamentar juntando-se ao CDS, levou o presidente Eanes a criticar o Governo num discurso do 25 de Abril e o CDS a aproveitar a ocasião para sair do barco. Após o breve interregno dos executivos de iniciativa presidencial, o PS perderia as eleições para a AD. A crise económica, essa, continuava em cena, e a sua força fez-se sentir nas eleições autárquicas de 1982. O governo saiu derrotado, e de novo Freitas do Amaral fugiu de uma coligação a que havia aderido. Perante a necessidade de novo resgate do FMI, PS e PSD formam o Bloco Central, e terminados os anos de sacrifício, vieram Cavaco Silva e 7 anos de fundos europeus, crescimento económico e vitórias eleitorais. Mas em 1992, a crise voltaria a bater à porta, e só abandonaria o País dois anos depois.

Foi tarde de mais para evitar a derrota de Cavaco e a ascensão de Guterres, que governaria cinco anos de aparente prosperidade, até que em 2000, a Europa e o País pararam de crescer, e uma derrota nas autárquicas de 2001 levou Guterres a demitir-se. Sucederam-lhe Durão Barroso e as suas “medidas difíceis”, que lhe garantiram o ódio popular e o convidaram a exilar-se em Bruxelas, entregando o País a Santana Lopes e, de imediato, a Sócrates. Durante alguns anos, a propensão do homem para gastar dinheiro que não tinha criou a ilusão de que as coisas estavam a melhorar. Mas mal a crise o obrigou a aplicar “austeridade”, logo foi desalojado de São Bento. A “austeridade”, no entanto, continuou, e prepara-se agora para derrotar Pedro Passos Coelho.

O padrão é evidente e fácil de compreender: desde o seu nascimento que a democracia portuguesa trouxe consigo a promessa implícita da melhoria das condições de vida da população, e sempre que um governo parece incapaz de a cumprir, perde o poder. Como grande parte do eleitorado espera do Estado e da sua distribuição de recursos essa melhoria de condições de vida, e o País não pode pagar o Estado na sua actual dimensão, não se pode esperar nada de bom: qualquer governo precisará de reduzir o Estado, mas nenhum terá o apoio eleitoral para o fazer.

A solução, em democracia, só poderá ser uma: em vez de procurar agradar aos eleitores e esconder deles as dificuldades que os esperam, um político que queira governar bem e ser premiado por isso terá de se apresentar a eleições prometendo apenas e só as tais inescapáveis dificuldades, e convencer os eleitores da sua necessidade. É difícil ganhar assim, mas de outra forma tudo estará perdido à partida.

O Fim de Um Mundo

Franz Ferdinand in Sarajevo A 28 de Junho de 1914, o carro que transportava o Arquiduque austríaco Franz Ferdinand pela principal avenida de Sarajevo foi atingido por uma bomba que acabou por ferir outras vinte e duas pessoas. Saído ileso do atentado, o herdeiro do trono imperial austríaco pretendia visitar os feridos, quando o seu chaffeur se enganou no caminho para o hospital, e para seu azar, entrou na rua onde se encontrava um tal de Gravilo Princip, um membro da Crna Ruka (a “Mão Negra”), o grupo terrorista sérvio que tinha sido responsável pelo atentado à bomba a que o Arquiduque escapara, e que desta vez, não falharia. Um mês depois, o império declarava guerra à Sérvia. No dia seguinte, a Rússia czarista ordenava a mobilização das suas tropas contra os austríacos. A 1 de Agosto, a Alemanha declarava guerra à Rússia, e no dia 3, declararia guerra à França. No dia seguinte, seria a Bélgica a receber uma declaração de guerra do governo do Kaiser. Nesse mesmo dia, o Reino Unido declarava oficialmente a abertura das hostilidades contra a Alemanha.

Lloyd George, o então Ministro das Finanças britânico, lamentava-se acerca de como um “furacão” conduzira “as nações” para o interior de um “caldeirão em ebulição”. Ao contrário do que pensara, nenhum “furacão” fora do controlo humano lançara “as nações” para a guerra. Mas a sua visão de um “caldeirão em ebulição” era particularmente feliz. Dentro do “caldeirão” que era o continente europeu “ferviam” demasiados ingredientes a uma temperatura demasiado alta. A uma dada altura, o “caldeirão” começou a transbordar, e de lá de dentro saíram milhares de soldados. A “Grande Guerra” em que iriam participar, essa, só terminaria quatro anos depois, e grande parte deles não durou tanto tempo.

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Na véspera da declaração de guerra, ninguém sabia se o Reino Unido se juntaria ao conflito continental. Quando, em finais de Julho de 1914, a Alemanha pediu a neutralidade britânica, deixara bem claras as suas intenções de atacar a França. Aparentemente, não era nada que incomodasse Edward Grey, o Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, desde que a Alemanha se mostrasse “ansiosa por preservar a paz europeia” e russos e franceses fossem “irrazoáveis” quanto às suas pretensões, ou seja, que a França se mantivesse neutral e a Alemanha respeitasse essa neutralidade. Como Churchill viria a descrever, o seu companheiro de Gabinete queria “fazer com que os alemães percebessem” que não poderiam ignorar a vontade inglesa, mas “sem fazer com que a França ou a Rússia sentissem que” a Inglaterra “estava no seu bolso”. Acabou por não conseguir nenhuma das duas, e os dois blocos agiam como se a Inglaterra lhes tivesse dado as garantias que cada um deles pretendia, a Alemanha acreditando que o Império Britânico se manteria neutral, França e Rússia confiantes de que em caso de guerra não seriam deixadas sozinhas.

O próprio governo parecia não saber muito bem que caminho ia seguir. Nem todos os membros do Gabinete concordavam com Grey, e nem a declaração de guerra da Alemanha à Rússia foi suficiente para sanar a divisão. A neutralidade continuava a ser a opção preferida de muitos deles, e só quando o Chefe do estado-maior alemão Helmuth von Möltke lançou um ultimato à Bélgica, exigindo liberdade de circulação por todo o território da Bélgica para as tropas alemãs, os mais renitentes se deixaram convencer. Já em 1906, o cenário de uma violação da neutralidade belga era previsto como passível de arrastar a Inglaterra para uma guerra continental. Se, como garantia o Primeiro Ministro Asquith, nada a obrigava a nela participar, os riscos de se manter de fora pareciam demasiado elevados. A anexação da Bélgica e da Holanda fazia com que a Alemanha tivesse acesso aos portos da costa do Canal, em posição de atacar as ilhas britânicas, juntamente com a – como avisava então um memorando do Estado-Maior britânico – a “elevada indemnização imposta à França”, colocariam a Alemanha numa “posição dominante” no continente, que poderia “deixar ao seu alcance” uma futura “preponderância naval”. A tradição estratégica britânica sempre procurara limitar a fraqueza do seu exército expedicionário através de duas linhas essenciais: a primeira, como o Sir Humphrey de Yes Minister diz, “manter a Europa dividida”, para que a sua superioridade naval (a segunda) não fosse posta em causa por uma potência hegemónica que a pudesse suplantar. Aliás, o receio de Grey de que a França e a Rússia se poderiam passar para o outro lado mostra bem como a prioridade da política externa britânica era a de impedir a supremacia continental de uma das potências. A Inglaterra entrava na guerra não por um mero chiffon de papier (como o Chanceller alemão Bethmann Hollwegg se lamentaria), mas pelo desejo de manter o equilíbrio da balança de poder.

Num dos seus livros, o historiador escocês Niall Ferguson argumenta que caso a Inglaterra tivesse ficado de fora, “mesmo que apenas por algumas semanas”, o resultado poderia ter sido o de uma união aduaneira “semelhante à União Europeia dos nossos dias” e que teria tido a vantagem de não “esgotar” o império colonial britânico como veio a aontecer com duas Guerras Mundiais. Para Ferguson, a Inglaterra errou ao ver numa “Europa Teutónica” o monstro que a iria devorar. De facto, Möltke ameaçava “instigar uma revolta na Índia” apenas no “caso de a Inglaterra tomar uma posição” enquanto “opositora da Alemanha”. E em Julho, os (provisórios) objectivos de guerra alemães não previam ainda a anexação da Bélgica e da França. Mas Ferguson desvaloriza o potencial impacto da transferência da França para a esfera de influência alemã, prevista desde logo, bem como o enfraquecimento russo, que em conjunto deixariam a Inglaterra isolada. Em 1957, quando essa união aduaneira acabou mesmo por avançar, era do interesse inglês a entrada da Alemanha para a esfera francesa. Por um lado, tanto a Alemanha como a França estavam absolutamente aniquiladas, enquanto em 1914 uma “união” dos dois países deixaria esse bloco como uma ameaça ao Reino Unido. E por outro, a Rússia aparecia então como uma ameaça, não um aliado enfraquecido como seria em 1914. E mesmo assim, o Reino Unido só acabaria por aderir à “Europa” em 1972. Mas acima de tudo, Ferguson desvaloriza o que representaria a inacção da Inglaterra perante a violação da neutralidade belga. Se perdesse o “seu bom nome”, a Inglaterra arriscava-se a “destruir” a sua “posição no mundo”. Ao não respeitar uma aliança, arriscava-se a que, no futuro, os seus aliados seguissem o mesmo caminho, deixando-a isolada numa hora de necessidade como ela lhes teria feito a eles.

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A entrada da Alemanha numa guerra com a Rússia e a França tornava assim dificilmente evitável a participação britânica no conflito. Em plena “Crise de Julho”, a Alemanha daria ao seu velho aliado austro-húngaro um “cheque em branco” que declarava que este último podia contar com a Alemanha enquanto “um aliado e um amigo – fosse qual fosse a decisão”. Este “cheque em branco” parece ser um exemplo de um supostamente ambicioso “imperialismo militarista” alemão, ansioso por entrar em guerra para demonstrar a sua superioridade e, como dizia Lenine, “saquear” os concorrentes em “decadência”. Mas se alguém estava em decadência, era a própria Alemanha. Se é verdade que a média do crescimento anual do seu PIB per capita, no período 1870-1913, fora de 1,6% (apenas inferior ao dos Estados Unidos), representando um crescimento absoluto na ordem dos 84% (mais do dobro do inglês), também é verdade que a despesa pública crescia ainda mais (entre 1890 e 1913, a despesa pública alemã, em percentagem do PIB, cresceu 2%). Devido à dificuldade em cobrar impostos (continuava a ser, como dissera o futuro Chanceller Bernard von Bulow em 1890, “um pobre viajante” obrigado a “bater à porta dos estados individuais à procura de subsistência”), a Alemanha tornava-se dependente da contracção de dívida (60% do produto antes da guerra, 21 679 milhões de marcos em comparação com os 8 566 de 1887), ao mesmo tempo que tornava esse endividamento mais caro, devido à falta de confiança dos credores na capacidade alemã de saldar essa dívida (o preço dos títulos de dívida pública vendidos pelo Estado alemão caiu em 26,5% entre 1886 e 1913, enquanto as compensações pagas aos seus credores subiram de 3,56% para 4,06%, o que significa que os seus credores lhe entregavam menos dinheiro em troca de garantias mais elevadas). Em caso de guerra, os custos do esforço militar seriam, temiam, insuportáveis.

A solução para este problema poderá parecer simples: não entrar em guerra. Grey tinha essa expectativa. Mas se porventura a Alemanha viesse no futuro imediato a ser alvo de uma agressão externa, a progressiva degradação da sua situação financeira apenas agravaria a fragilidade que sentia em 1914. Longe de se ver como uma potência em ascensão, a Alemanha, dizia von Bulow, sentia-se “cercada”. Em 1909, Moltke chegara à conclusão de que a Alemanha não poderia vencer uma guerra com a Inglaterra, e em 1914, o Kaiser achava-se já “contorcendo isolado na teia” em que o seu país se via enredado. Foi aliás por se verem a si próprios como fracos que os responsáveis militares alemães alteraram o famoso “plano Schlieffen”, reduzindo o número de tropas a serem mobilizadas para a frente de batalha. E era por esperar que a Alemanha ficasse “esgotada” em caso de conflito que Grey não acreditava que esta desencadeasse um ataque “agressivo e ameaçador” à Rússia. Mas talvez precisamente devido a essa hipótese, a Alemanha, alertava o financeiro Max Warburg, não podia “esperar” mais: por um lado, não se podia dar ao luxo de abandonar o aliado austríaco, o único que lhe restava, por outro, temia a ameaça que a França e a Rússia poderiam vir a constituir dois anos mais tarde.

Estes dois países, por sua vez, tinham também razões para preferirem uma guerra logo naquele Verão de 1914. A França estava obrigada, pelo tratado assinado em 1893, a aliar-se com a potência czarista em caso de guerra – além de que via nas atribulações austríacas uma oportunidade de expansão do poderio alemão, que compreensivelmente temia desde a humilhação da “guerra franco-prussiana”. A Rússia, por seu lado, avisara já os austríacos de que se a Áustria “corresse para a guerra”, a Rússia se sentiria “compelida” a defender a Sérvia. Em 1908, deixara-a “anexar” a Bósnia-Herzegovina – que a Áustria de facto já administrava como protectorado – e enfurecera os nacionalistas sérvios que esperavam dos seus “irmãos eslavos” protecção e ajuda. Agora não faria o mesmo, e só admitia suspender a mobilização de tropas se a Áustria se mostrasse disponível para “eliminar” do seu ultimato as exigências que “infringiam os direitos de soberania da Sérvia”. O problema estava em que eram precisamente esses “direitos” que a Áustria pretendia “infringir”. O “factor político” da Sérvia, dizia o Imperador, tinha de ser “eliminado”.

Talvez não fossem meras palavras de um pai desgostoso com a morte de um filho às mãos de um bando de assassinos. Afinal, já outro membro da família real, a Imperatriz Elizabeth, havia sido assassinada, esfaqueada em Genebra por um anarquista no ano 1898, e nenhuma guerra resultara daí. A diferença estava nas ambições sérvias, e na pressão que estas colocavam sobre o Império. A sua defesa implicava mais despesas militares, que implicavam a cobrança de mais impostos, que por sua vez implicavam maior descontentamento nas regiões de onde a instabilidade vinha. Por a “monarquia ter sido apanhada pelo pescoço”, e “não como vingança pelo assassinato” do Arquiduque, dizia Conrad von Hotzendorff, chefe do estado-maior do Império, este tinha de “optar entre permitir que fosse estrangulado ou fazer um último esforço para impedir a sua desintegração”.

A Sérvia era, realmente, um “factor político” complicado para o Império dos Habsburgos. Em 1898, em conversa com um diplomata britânico, um jornalista sérvio confessava que a ele e aos seus compatriotas “de forma alguma” interessava “o desarmamento” – ou seja, o fim da tensão entre as potências – “na esperança de ganhar alguma coisa com conflagração geral”. A crescente decadência do Império Otomano conduzira à independência sérvia após o Congresso de Berlim de 1878, e permitia-lhe alimentar ambições de expansão e união eslava, com a bênção e as armas da Rússia. Com o apoio russo, a Sérvia criou uma Liga Balcânica com o objectivo de expulsar definitivamente os Otomanos da região, e em 1912, na primeira “Guerra dos Balcãs”, acabariam por consegui-lo. Pelo meio, tratariam de invadir a Albânia, um pequeno estado cuja independência o Império Austro-Húngaro se havia comprometido a garantir. No governo da Sérvia estava Nikola Pasic, o Primeiro-Ministro que chegara ao poder na sequência do regicídio de 1903, que arrancara o rei Alexander do poder e vários pedaços do corpo à rainha Draga, e fora já criada a “Mão Negra”; um dos seus fundadores, “Apis”, era agora o chefe dos serviços secretos sérvios. Se em 1898 os sérvios olhavam com esperança para a “conflagração geral”, agora pareciam procurar activamente fazê-la deflagrar. A visita do Arquiduque a Sarajevo oferecer-lhe-ia a oportunidade.

O império Austro-Húngaro não fizera nenhum favor a si próprio ao “anexar” o território bósnio: se na prática já o controlava, a oficialização do domínio surgia como um acto puramente provocatório, e assim foi recebido não só pelos sérvios como pelos seus patronos russos, sem os quais a Liga Balcânica teria sido impossível. E não custa imaginar como, do lado sérvio, tendo recentemente escapado ao domínio Otomano, se olhava para o gigantesco vizinho austríaco e se temia passar para debaixo da sua alçada. Por outro lado, ao conspirarem um atentado contra Franz Ferdinand, o estado sérvio – na pessoa de “Apis” – e a “Mão Negra” garantiam que uma resposta austríaca não poderia nunca deixar as autoridades do estado eslavo incólumes. Grey viria mais tarde a dizer que “a Alemanha estava com medo do futuro”. Na realidade, estavam todos. A Áustria temia que ele trouxesse a sua desintegração, às mãos do terrorismo sérvio e das ambições independentistas das suas minorias. A França e a Rússia, a destruição da Sérvia e a afirmação do rival germânico nos Balcãs. A Alemanha, a afirmação russa, e a degradação da sua própria situação interna. E a Inglaterra, paradoxalmente, temia a afirmação do poderio alemão. E assim, todos arriscaram um presente imediato sangrento, na expectativa de um evitarem um futuro ainda pior. Não tiveram grande sorte. Em plena crise, Bethmann Hollweg avisava para a possibilidade de um “conflito generalizado” conduzir a uma “revolução de todas as condições existentes”. As convulsões que marcariam a vida do continente europeu nas décadas seguintes mostram como estava certo. No Verão de 1914, milhares de soldados partiram para os campos lamacentos que marcariam as suas vidas nos anos seguintes, ou no pouco tempo que lhes restou. Quando partiram, foi-lhes prometido que estariam de volta no Natal seguinte. Nesse Natal de 1914, as trincheiras foram palco de confraternizações de soldados inimigos, jogos de futebol, missas pelos mortos de ambos os lados. Nos Natais seguintes, esse cenário não se repetiu. Até Novembro de 1918, os que haviam sobrevivido estavam demasiado ocupados tentando matar-se uns aos outros. Depois de 1918, o mundo que haviam deixado para trás nunca mais regressou.

Precipício 1914

***

Esse mundo havia sido, dizia com saudade e tristeza John Maynard Keynes, um “extraordinário episódio” na História humana. Tinha-se perdido um “paraíso” em que o grau de liberdade de circulação de bens e pessoas permitia a um número considerável delas gozar de “confortos” que haviam estado “fora do alcance dos mais ricos e mais poderosos monarcas de outrora”. Depois dele, vieram “as restrições”, os monopólios, a “exclusão” e “os projectos e as políticas de militarismo e imperialismo”. Mas ao contrário do que Keynes dizia, esse mundo que recordava com saudade não chegara “ao fim em Agosto de 1914”. Essa data foi apenas aquela em que o fim desse mundo se fez notar. O “paraíso” de Keynes era um mundo de uma Europa de Impérios, e tudo mudara já décadas antes, quando a decadência do Império Otomano fez com que nas fronteiras com o Império Austro-Húngaro passasse a estar, não outro império capaz de controlar os vários grupos étnicos no seu interior, mas um pequeno estado, suficientemente homogéneo para alimentar anseios de unidade racial (tanto mais problemáticos quanto menor era a capacidade do império austro-húngaro de os acalmar no seu interior, ou de obter os recursos para suprimir eficazmente as veleidades que pudessem surgir), mas demasiado fraco para não precisar de arrastar as outras grandes potências na sua defesa. A “Grande Guerra” não trouxe o fim de um mundo. Antes foi o fim desse mundo que tornou a “Grande Guerra” possível.

Leituras Recomendadas

T.C.W. Blanning (org.), The Nineteenth Century, 2000

Christopher Clark, The Sleepwalkers, 2014

Norman Davies, Europe: A History, 2007

Niall Ferguson, The Pity of War, 1998
Virtual History, 1997
The War of the World, 2006

A.J.P Taylor, The Struggle for Mastery in Europe, 1848-1918, 1954

Mudanças

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Na passada semana, em entrevista ao director do Diário Económico, Teixeira dos Santos lançou a ideia de que caso não haja o “acordo” partidário em torno das “reformas indispensáveis ao país” pedido pelo Presidente, este poderia convocar eleições para a partir daí “constituir as bases do compromisso”. Duvido que desse bom resultado.

Em primeiro lugar, porque PSD, PS e CDS não só não querem chegar a acordo algum, como menos ainda desejam “reformar” o Estado que lhes serve de instrumento de distribuição de benesses, e como tal, de meio de sobrevivência. Em segundo lugar, porque eleições antecipadas nos próximos meses seriam a maior garantia de que nenhuma reforma se fará.

Em democracias como a nossa, com um Estado que mal evade a falência, os eleitores votam essencialmente para não perderem o pouco que ainda não lhes foi retirado por governos que pouco ou nada querem mudar, mas que têm de se curvar perante a avassaladora força das contas, e que se vão sucedendo à medida que o descontentamento que removeu o antecessor se vira sem piedade para o novo ocupante até que este se despeça. Em tal ambiente, as “reformas indispensáveis” só poderão ser promovidas por um Governo que, antes de chegar ao poder, tenha a inteligência de perceber quais as “reformas” necessárias e a capacidade de convencer os eleitores da sua utilidade.

Ora, ninguém no seu perfeito juízo acredita que qualquer uma das actuais lideranças partidárias possua alguma destas qualidades. Mas se “as europeias” mostraram a sua fraqueza e a necessidade de as substituir, legislativas antecipadas seriam a bóia de salvação por que desesperadamente anseiam. Para que o país mude no sentido em que precisa de mudar, PSD, PS e CDS precisam de mudar primeiro, algo a que eleições antecipadas seriam um decisivo entrave. O conselho de Teixeira dos Santos deve, por isso, ser olimpicamente ignorado.

António Costa, Rui Rio, o pântano e o Síndroma de Hollande

francois-hollande-vise-dans-la-chansonOntem, “nos facebooks” (como diria Paulo Futre), António José Seguro veio confessar, aos que usam a sua página para o insultar sem comedimento, que estava “indignado”. Tudo porque “a irresponsabilidade do António Costa” e a sua “ambição pessoal” terem provocado “danos” ao PS, na figura de umas sondagens que “dão uma queda brutal” nas intenções de voto aos socialistas. Pena que Seguro não note como pelo menos uma dessas sondagens indica uma preferência significativa pelo seu opositor, sugerindo a qualquer um que ainda possua a capacidade de raciocínio que talvez os “danos” sejam causados, não pela “irresponsabilidade” de Costa, mas pela nulidade de Seguro. Se alguém precisava de mais alguma prova de que Seguro não vive neste mundo, o próprio tratou de as dissipar com a partilha deste seu estado de alma.
Seguro indignado

Ao contrário do que Seguro aparentemente crê, o “problema” do PS não está na atitude “irresponsável” de Costa, mas no próprio Seguro. Há dias, uma amiga minha com a falta de juízo necessária para ser uma habitual eleitora socialista, mas sem chegar à loucura de apreciar o “engenheiro” Sócrates, dizia-me como seria incapaz de votar “no Seguro”. Eu espantei-me que alguém que em 2011 tenha votado num PS liderado por alguém que execrava – Sócrates – fosse agora incapaz de continuar a votar no PS só porque Seguro é o líder. Meio indignada, ela dizia-me que em 2011 tinha votado “no PS, não no Sócrates”, e que Seguro era “mau demais” para ser Primeiro-Ministro e ela, de boa consciência, dar o seu voto a um partido por ele liderado.

A amostra pode ser pouco representativa, mas é – para além de muito boa companhia, devo eu acrescentar no caso de isto lhe chegar aos olhos – sintomática da fraqueza ambulante de Seguro: há pessoas, “simpatizantes” do PS e tudo, para quem nem a plena consciência da política pouco honesta de Sócrates foi suficiente para cortar o cordão umbilical com um partido que está para além das suas lideranças momentâneas, mas que ficam aterradas com a possibilidade uma completa nulidade como Seguro ter responsabilidades governativas, ao ponto de porem de lado tais reservas.

Gente afecta à coligação governamental talvez se divirta com estas atribulações. Mas este não é apenas um problema de Seguro, nem sequer um simples problema do PS. É um problema do país. Como já aqui escrevi, as “europeias” mostraram a falência da governação de Passos Coelho, mas também como a ela não corresponde uma afirmação do Partido Socialista com alternativa credível ao exercício do poder, a um ano de eleições legislativas. Se tudo ficasse na mesma, a única saída para o vazio de poder daí resultante seria um “Bloco Central”. Uma solução que, em qualquer circunstância, tem o problema de trazer para dentro do governo um conflito político que deveria estar fora dele, no parlamento e na sociedade em geral, e que nas condições actuais teria a agravante de juntar dois partidos destituídos de qualquer força, que não juntariam outra coisa além do desprezo generalizado de uma população que já o nutre por ambas as partes. António Costa, ao avançar para uma mudança de liderança, abre a possibilidade de se encontrar uma saída para este impasse, caso a essa mudança no PS corresponda uma outra atitude do eleitorado para com o partido.

Mas duvido que Costa seja capaz de ultrapassar o “Síndroma de Hollande”: nas nossas democracias modernas, que enfrentam uma crise de sustentabilidade do Estado Social, os eleitores votam, em grande medida, não a favor de uma qualquer das alternativas à disposição, mas contra o poder do momento, com o propósito de não perderem o que ainda não lhes foi tirado; chegado ao governo, qualquer partido tem que aplicar medidas de consequências duras e impopulares, e logo o descontentamento que arrumou com o antecessor se vira contra o novo poder, e com tanta mais força quanto foi dito aos eleitores que os sacrifícios anteriores eram excessivos ou escusados.

Ainda recentemente, na Quadratura do Círculo, Costa dizia – com razão – que o actual Governo foi parar ao poder dizendo que iria cortar nas “gorduras do Estado”, para logo descobrir que as “gorduras” não eram assim tantas, e que só atacando os problemas estruturais da despesa pública se poderia controlá-la. Mas, analisando o discurso de Costa, o que tem dito ele, senão exactamente o mesmo que critica no actual governo? Costa tem dito insistentemente que o governo foi demasiado longe na sua “austeridade”, e que haveria outras maneiras de cortar na despesa. A não ser que mude radicalmente de discurso nos próximos meses, Costa talvez consiga ir morar para São Bento, mas apenas para logo quebrar as promessas explícitas ou implícitas que fará para lá chegar. É por isso que, ao contrário do Carlos, tenho algumas dúvidas que António Costa venha a gozar de melhores “condições políticas, mediáticas e institucionais” para “corrigir os actuais desequilíbrios” do país. A única forma de ultrapassar o problema posto pelo “Síndroma de Hollande” só poderá passar por não esconder aos eleitores as dificuldades que os esperam, e convencê-los da sua necessidade. Sem o fazer – e nada até hoje mostra que António Costa tenha vontade de o fazer – não será de espantar que o destino de um governo de Costa se assemelhe ao do seu amigo François, e mais não venha a ser que um pequeno interregno da crise do sistema político português, não a sua solução.

Com um pouco de sorte, talvez da outra metade da crise ela possa vir. Pois pelas mesmas razões que é necessária uma mudança de liderança no PS, seria avisado mudar de líder no PSD (sem que o Governo se demita. Eleições antecipadas seriam a melhor forma de nada mudar no PS e no PSD). Afinal, a vitória do PS só parece fraca porque o resultado da coligação PSD/CDS foi tão miserável que seria de esperar um massacre eleitoral por parte dos socialistas. E por sorte, no PSD, há alguém – Rui Rio – que há mais de uma década alertou para os problemas que o país enfrenta agora (veja-se o livro que publicou em 2002), e que foi capaz de ir para eleições sem medo de as perder, disposto a correr o risco de ser impopular mas não abdicando de deixar bem claro o que entende ser necessário fazer.

Claro que Rio é também alguém que, em já vários momentos de crise do PSD e do país, se recusou a descer a Lisboa e repetir as suas façanhas no Porto, quem sabe um sintoma de que não tem a vontade ou capacidade de enfrentar os problemas nacionais. Mas os resultados das “europeias”, que longe de terem criado uma crise, mostraram antes o pântano em que o país já se encontrava, abriram também caminho para sairmos dele. É preciso é haver quem se mexa.

António Costa, o Zelig da política portuguesa

600full-zelig-posterNo longínquo ano de 1983, estreou nos cinemas Zelig, um dos melhores filmes de Woody Allen. Filmado como um documentário “falso” – um mockumentary, para quem quiser armar-se em conhecedor em conversa com os amigos – contava as estranhas peripécias de Leonard Zelig, um “camaleão humano” que adoptava os traços físicos e psicológicos daqueles com quem se cruzava: junto de chineses parece ele próprio chinês, junto de um lutador de boxe transforma-se num lutador de boxe, junto de índios parece um deles. Zelig torna-se uma celebridade na América dos anos 20, até começar a ser tratado por uma psicóloga (interpretada por Mia Farrow) que se apaixona por ele e com quem acabará por ficar.

Lembrei-me do filme de Allen a propósito da campanha interna do Partido Socialista, e os elogios e apoios que António Costa tem recolhido e merecido. De Mário Soares a José Sócrates, passando por Maria João Avillez (senhora de mérito e qualidade que me custa nomear em parelha com Sócrates), não tem faltado quem, dentro e fora do Rato, veja em António Costa os mais variados méritos e deposite nele maior ou menor esperança. Só se compreende que gente tão diferente partilhe o apreço por uma mesma figura se tivermos em conta que ela – António Costa – é uma espécie de Leonard Zelig da política portuguesa, um “camaleão humano” capaz de ser para tudo e todos aquilo que cada um quer ver.

Ultimamente, tem corrido por aí a ideia de que o PS é tradicionalmente um partido menos “atribulado” que o PSD, um partido que tende a resolver melhor as suas divisões internas, um hábito que Costa e Seguro estariam a trair. Só o pode dizer quem ignore ou esqueça a história do PS. Desde o princípio que o PS foi fértil em disputas internas e animadas conspirações, opondo facções que pouco ou nada se aturavam. O “soarismo”, assente numa linha “social-democrata” que não hesitou em “pôr o socialismo na gaveta” para fazer do PS um “partido charneira” que, coligado (em posição dominante) com o CDS ou o PSD, enfrentasse o PCP e o poder militar e aproximasse Portugal da “Europa” que em 75 assegurava estar “connosco”, cedo se tornou a facção dominante, mas também desde muito cedo – logo mal aderiu ao partido – a facção vindo do MES, encabeçada por Jorge Sampaio, entendeu que o PS deveria seguir uma via radicalmente diferente, liderando “a esquerda” contra “a direita” e com o socialismo bem a descoberto. Durante anos, nunca deixou de conspirar, e quando chegou à liderança do partido, logo Sampaio tratou de pôr a estratégia à prova, senão a nível nacional, na Câmara de Lisboa, onde se coligou com o PCP e animou os sonhos “unitários” de gente que nunca abandonou 1962. Quando perdeu a liderança, o “sampaísmo” perdeu-a para Guterres, que embora também tenha conspirado abundantemente (e partilhado o seu mítico sotão com os “sampaístas”), conseguia ser ainda mais “social-democrata” que Soares (que da Presidência da República lhe foi fazendo a vida negra) e colocava o socialismo numa gaveta ainda mais funda, apaixonado que estava pela “Terceira Via” de Blair e uma retórica “centrista” que irritava quem falava da “esquerda” no tom exaltado que muita gente no PS sempre gostou de usar ao mencionar o termo. Depois do breve interregno – “sampaísta” – de Ferro Rodrigues, veio o “socratismo”, a descendência degenerada do “guterrismo”, que olhou para o “centrismo” e obsessão com o parecer “moderno” da “Terceira Via” e o entendeu exclusivamente como um instrumento para convencer os incautos a darem-lhes o poder, para a partir daí tratarem da sua vida e dos “amigos” que, em escutas telefónicas convenientemente consideradas ilegais, o seu líder dizia ser necessário “ajudar”.

António Costa esteve com todos eles. No Verão Quente de 75, quando aderiu ao PS, poderá ter desabafado que “o partido não é tão à esquerda como gostaria”, mas naqueles tempos, aderir ao PS era rejeitar determinantemente o PCP (do seu pai, ainda por cima) e optar por uma “esquerda democrática” sem delírios “frentistas”. Além de que aquando da candidatura presidencial de Soares – exemplo máximo de uma agenda política de afirmação de uma “esquerda democrática” contra o resto da esquerda, não se lhe conhece nenhuma tentação de a ela se opôr, nem por uma adesão à candidatura de Salgado Zenha. O “sampaísmo”, entrado no PS após – e só após – o 25 de Novembro de 1975, talvez lhe tenha enchido as medidas, com o PS mais “à esquerda” que sonhara desde a juventude, mas não o suficiente para um ruptura total com o “soarismo” (a candidatura que “montou” em 1984 para a liderança da Juventude Socialista juntaria aparentemente “gente” afecta ao “soarismo” e ao “sampaísmo”, por exemplo), nem para deixar de aderir ao governo de António Guterres. Uma vez aí, Costa cedo seduziu uma comunicação social que nunca deixou de admirar como o ministro, “de esquerda”, conseguia “roubar a agenda da direita” (as consequências das políticas da agenda “roubada”, como a lei das escutas telefónicas que permitiria as escutas realizadas a Ferro Rodrigues no âmbito do “caso Casa Pia”, nunca mereciam a mesma atenção, nem a ele eram atribuídas). Após o breve exílio no Parlamento Europeu, Costa voltou a integrar o governo sob a chefia de José Sócrates, de onde só sairia para o “desafio” da Câmara de Lisboa. Num sítio e noutro, compreendeu sempre muito bem como as funções que exercia podiam servir como instrumento de promoção pessoal para vôos mais altos, que dele há já muito se esperam.

Todos estes passos permitem a qualquer um ver em António Costa aquilo que quiserem ver, projectando nele os seus mais íntimos desejos para o governo do país. Mário Soares, há muito esquecido do conteúdo da sua acção política histórica e daquilo que representou, olha para o passado “sampaísta” de Costa e vê nele o “socialismo de punho erguido” com que hoje parece sonhar. A passagem pelo governo de Guterres e a sua apetência por governar “à direita”, juntamente com a retórica de “controlo da dívida” da sua governação em Lisboa, são por sua vez o que permite a pessoas “centristas” como Avillez terem a esperança de que Costa será um governante sensato e pragmático, capaz de lidar com os problemas reais do país. E às desprezíveis alminhas do socratismo que ainda hoje nos continuam a assombrar, preocupadas em recuperarem os meios com que se “ajudarem” mutuamente, o oportunismo de Costa, evidente em todo o seu percurso, permite-lhes acreditar que, em troca do seu apoio na luta interna, talvez venham a receber um Ministério “útil” ou dois – como o das Obras Públicas ou o do Ambiente – com que, sob o manto do “reformismo” e das “apostas no futuro”, distribuir o pouco dinheiro que o país vai tendo pelas mais ou menos vastas clientelas que desde 2005 têm vivido à sua sombra.

No final de Zelig – ATENÇÃO A “SPOILERS” – Leonard Zelig e a sua amada psicóloga fogem de avião dos soldados nazis que os procuravam capturar. Depois de ela (a única que sabia pilotar um avião) desmaiar, Zelig tem a sorte de, graças às suas faculdades camaleónicas, imitar essa sua capacidade e voar para hangar seguro nos EUA. – FIM DOS “SPOILERS” – Com um pouco de sorte, talvez António Costa acabe por fazer algo similar, e uma vez chegado a São Bento, utilize as suas próprias faculdades camaleónicas para adoptar as características de um governante como o que o país precisa. Mas, se o conseguirá ou não fazer – ou sequer se haverá ou não alguém capaz de o fazer – é uma outra conversa, que terá de ficar para outro dia.

Já não se fazem golpes palacianos como antigamente

Sede do PSUm dia depois de António José Seguro ter apresentado à Comissão Política do Partido Socialista a sua proposta para as “eleições primárias” do “candidato a Primeiro-Ministro – tendo a primeira sido aprovada e as segundas marcadas para dia 28 de Setembro – António Costa apresentou a sua candidatura, insistindo que quer disputar a liderança do partido e a realização de um Congresso, mas aceitando o modelo de Seguro por não se querer “envolver” em “questões estatutárias”. para mal dos seus pecados, prefere deixar-se “envolver” num “trinta e um” criado por um Seguro que, se prova alguma fosse ainda necessária, demonstrou inequivocamente como vive num mundo que não o nosso.

As cabecinhas da Comissão Política do PS, afectas a Seguro ou a Costa, que aprovaram ou não votaram contra este modelo das primárias, certamente não perceberam bem o que acabaram de criar. Ou (como será o caso de algumas delas) sabem-no muito bem, e isso não abona nada a seu favor. Como tudo o que sai da fértil imaginação de Seguro, as “primárias” socialistas estão repletas de problemas. Em primeiro lugar, na sua abertura aos “simpatizantes” do partido, uma figura nebulosa que permite aos caciques locais das “federações locais” tornearam os cadernos eleitorais dos seus militantes e, através das artes que melhor dominam, arregimentar uns quantos “carneiros” à boa velha maneira oitocentista e pô-los a votar no seu candidato preferido. Assim, sob a capa de uma abertura do partido ao país e de uma retirada de poder do “aparelho”, dar-se-ia a este última carta branca para as suas mais típicas tropelias.

Outro problema é o do que está a ser eleito, o “candidato a Primeiro-Ministro”: esta separação da liderança do partido e da chefia do governo (ou de “candidatura” à chefia do Governo) só cabe mesmo na cabeça de alguém que nunca viveu de outra coisa que não da intriga partidária. Abrir-se-ia caminho à hipótese de haver um líder partidário, e ao mesmo tempo e em separado, um outro militante (subordinado ao líder no partido) que seria “candidato a Primeiro-Ministro”. Quem seria o responsável pela condução política do partido? Quem conduziria a agenda, escolheria as listas dos deputados, enfim, quem é que lideraria? O chefe do partido eleito pelo aparelho, ou o “candidato a Primeiro-Ministro” eleito uns meses antes das legislativas?

Seguro, julgando-se muito esperto, garante que o problema não se põe, pois garante que se perder com Costa, se demite de Secretário-Geral. Resta que, primeiro, o modelo ficaria para o futuro, e talvez nem todos os que se encontrassem em tal posição optassem pela mesma conduta, e segundo, que essa promessa coloca logo uma questão: então porque é que não se parte já para a eleição da liderança do partido, em vez de para umas eleições que, caso um dos candidatos ganhe, obrigará a uma mudança de líder? A resposta, que Seguro não dará porque nem no seu caso a falta de senso chega tão longe, é que Seguro está a usar a artimanha das primárias, não para “abrir o partido ao país” e libertar a eleição de cargos partidários dos aparelhos e suas redes de clientelas (o que seria uma excelente ideia), mas para tentar adiar o inevitável e esperar que por milagre se realizem eleições legislativas antecipadas. Como já disse ontem na SIC Notícias, não é coincidência que Alberto Martins ande por aí a falar de “funcionamento irregular das instituições” e a rezar em voz alta para que Cavaco dissolva a Assembleia.

António Costa, que percebeu bem o problema que as eleições europeias puseram a nu, e que agiu em conformidade, não percebe agora o que Seguro está a tentar. Ou, se percebe, não é capaz de voltar a agir em conformidade. Talvez o problema seja mesmo já não se fazerem golpes palacianos como antigamente, com discussões em sótãos, e comezainas com vichyssoises reais ou imaginárias. Se tivesse tido bom senso ou coragem, António Costa teria, em primeiro lugar, apresentado a sua demissão da Câmara Municipal de Lisboa, para que não o acusassem de estar a usar a função como um poiso onde cair caso não consiga tomar o poder no PS. De seguida, e mal Seguro apareceu com as “primárias”, deveria ter recusado participar na farsa, e exigir a realização de um Congresso e eleições directas para a escolha do líder. e caso seguro insistisse ele próprio na fantasia de que lhe serve para alguma coisa continuar agarrado á sua cadeira no Rato, todos os elementos do grupo parlamentar do PS que apoiam Costa deveriam imediatamente deixar de colaborar com a direcção, como em tempos uma gigantesca parte do grupo parlamentar do PSD fez com Sá Carneiro. Os riscos que pessoalmente correriam, claro, seriam maiores. Mas da forma como parece que as coisas vão correr, o risco maior é do país: o de, no que ao PS diz respeito, não se fazer nada para se sair do pântano que as “europeias” desenterraram.

As “primárias” do PS (corrigido)

António José Seguro pretende realizar “eleições primárias” para a escolha do “candidato a Primeiro-Ministro” do PS (uma ideia meritória, que eu acho que todos os partidos deveriam copiar, se aplicada à escolha dos líderes e aberta a todos os eleitores, não apenas à nebulosa figura dos “simpatizantes”), mas não se demite de Secretário-Geral do partido. Ora, se bem percebo, Seguro parece aceitar que António Costa corra para São Bento, desde que o deixem ficar no Rato a distribuir uns cargos e empregos a nível interno à rapaziada amiga. Estamos bem entregues.

Um génio

António José Seguro está ausente do debate da moção de censura do PCP. Tudo porque acha que é “um frete” ao Governo. Mas, “por uma questão de coerência”, vai aparecer na votação, e para a aprovar, apesar de ser um frete, e de explicitamente “censurar” o PS por fazer parte da “troika nacional” com os dois partidos do Governo.

O pântano

PantanoUma incompreensível excitação tomou conta do Largo do Rato. Durante a campanha eleitoral para as “europeias”, o PS sentiu-se suficientemente à vontade para resgatar José Sócrates do seu programa na RTP que só é visto pelo dr. Silva Pereira e o João Galamba, e exibi-lo como trunfo eleitoral num famoso restaurante (de fraca qualidade) da Baixa lisboeta. Ontem, após ter vencido as eleições europeias com 31,4% dos votos – contra os 27,7% da coligação governamental – António José Seguro apareceu aos portugueses que não estavam a ver o “Poder do Amor” ou o “Rising Star” afirmando, aparentemente sem qualquer sombra de hipocrisia, que “este governo chegou ao fim” e que a vitória socialista significa que “os portugueses” querem um governo “liderado pelo PS”. A crer nos jornais de hoje, ninguém – nem os militantes do PS – concorda com ele.

São várias as vozes que clamam por uma acalmia dos entusiasmos socialistas, e todas elas notam a escassa margem da vitória. Mas mais do que uma questão de quantidade de votos no PS, a fraqueza da vitória rosa é uma questão de qualidade desses mesmos votos: Seguro está muito enganado se pensa que as pessoas votaram no seu partido com uma grande convicção de que este mudará o país nos próximos anos, em vez de por mera repulsa contra a coligação governamental. E mais enganado estará se acreditar que não faz diferença.

Imaginemos que esta vitória do PS lançará, como Seguro deseja, o partido para uma vitória incontestável nas legislativas. Admitamos até que, quantitativamente, essa hipotética vitória venha a ser “estrondosa”. Será muito diferente tal vitória ser resultado de uma adesão convicta e forte ao programa do PS, de uma confiança de que os socialistas terão uma política que melhorará as circunstâncias do nosso país, ou ser resultado de uma mera rejeição do actual Governo. Não custa perceber porquê. Imaginemos que, por alguma razão, o PS, uma vez alçado a São Bento, se vê forçado a aplicar alguma medida de consequências difíceis e impopular junto do eleitorado: se a vitória socialista resultar dessa adesão ao programa do partido, essas eventuais medidas serão relativamente bem aceites, porque em certo sentido já o teriam sido anteriormente, com a identificação forte do eleitorado com a perspectiva de uma governação liderada por Seguro. Já se Seguro for parar a São Bento fruto do desprezo que o eleitorado parece sentir por PSD e CDS/PP, que ninguém duvide que à primeira medida impopular que prejudique de forma imediata as condições de vida de algum sector da sociedade portuguesa, logo o descontentamento contra o actual governo que pudesse ter conduzido Seguro ao poder se viraria contra ele.

Ora, se à apesar de tudo escassa votação no PS, ao excelente resultado da CDU, ao jubileu de “Márinho e Pinto” e à elevadíssima abstenção, juntarmos a incredulidade com que o triunfalismo da declaração de Seguro foi recebido pelos poucos que lhe prestam atenção, dificilmente restará alguma dúvida de que esta foi, qualitativamente ainda mais que quantitativamente, uma vitória fraca do PS, que talvez sirva para o lançar para o poder mas que nenhumas condições para o exercer lhe trará. Os partidos encararam estas “europeias” como uma espécie de jogo de pré-temporada para as legislativas. Mas o PS, se bem que tenha ganho o encontro, não jogou de jeito. Nada que devesse apoquentar o português comum, se o problema se ficasse por aí.

Resta que não fica. Ninguém contestará que a saúde de um sistema político se pode talvez medir pela capacidade que este tenha de gerar dentro de si uma alternativa a um poder que tenha perdido o favor popular. Estas eleições, e o clima político que as precedeu, parecem indicar que a confiança popular no actual Governo se perdeu. O que claramente não indicam é que o eleitorado veja uma clara alternativa no PS. Por isso 66,7% dos portugueses ficaram em casa, 12,6% votaram na CDU, 7,4% branco ou nulo, 7,1% no dr. “Márinho”, 4,5% no Bloco de Esquerda, 2,1% no Livre, e 6,8% nas mais ou menos folclóricas restantes agremiações que se apresentaram a concurso. À falência da governação de Passos Coelho não correspondeu – pelo menos por enquanto – uma afirmação do Partido Socialista com alternativa credível ao exercício do poder. Ficou apenas o “pântano” que um dia um antigo mentor de Seguro disse querer evitar.

Há, claro, uma “solução” óbvia para o problema, que muitas alminhas – algumas delas penadas – pedem insistentemente: aquilo a que noutros tempos se chamava de uma “fusão”, ou com menor benevolência, de “pastel”, a chamada à governação em simultâneo do poder decrépito e da alternativa ainda em gestação. Embora aparentemente engenhosa – e atractiva para quem queira aparecer como sua eminência parda e superficialmente neutral – a “solução” não solucionaria grande coisa. Em vez de produzir um poder forte, conseguiria apenas trazer duas fraquezas para a sua sede, que não juntariam outra coisa além do desprezo generalizado de uma população que já o nutre por ambas as partes, e que tenderia a acentuá-lo se fizessem um cozinhado deste género. Além de que, o que não é irrelevante, traria para dentro do governo um conflito político que deveria estar fora dele, no parlamento e na sociedade em geral. Esta “solução” seria assim apenas provisória, e com a agravante de degradar as já de si muito precárias condições de exercício do poder num país com cada vez maior desconfiança na classe política. O “Bloco Central” pode ter servido em 83/85, mas convém não esquecer que a seguir veio a adesão à CEE e os seus abençoados fundos, um verdadeiro maná caído dos céus berlinenses que permitiu camuflar os nossos males internos e as querelas insanáveis que eles tendem a produzir. Mas em 2016 ou 2017 não virão fundos, antes exigências de “austeridade” e de medidas impopulares.

O resultado das eleições de ontem, apesar da esfuziante celebração de Seguro, não deve alegrar ninguém. Não penso que seja exagero dizer que é o pior que podia acontecer. Ao PS, ao PSD e CDS/PP, e acima de tudo – pelo que põe a nu e deixa antever – a todo o país.

A derrota e o falhanço da coligação

Por muito que os empedernidos defensores do Governo se esforcem para nos convencer do contrário, o resultado eleitoral de hoje é uma significativa derrota da coligação e da sua governação ao longo dos últimos três anos. Se é ou não uma vitória do PS e qual o seu significado, é outra questão (acerca da qual tenciono escrever amanhã), mas que em nada muda o facto de que estes resultados constituem uma forte rejeição eleitoral do Governo e da sua política. Tal não significa que o Governo se deva demitir amanhã. Significa algo muito pior: significa que todos estes anos de governação foram tempo perdido.

Os partidos do governo notarão – com razão – que um resultado negativo, tendo em conta a “política de austeridade” que o Governo teve de aplicar, era apenas e só algo de natural. E realmente, ao fim de três anos de “sacrifícios”, a maioria dos – poucos – portugueses que se deram ao trabalho de ir votar preferiram colocar a sua cruzinha nos quadrados dos partidos da oposição, do PS ao dr. “Márinho e Pinto”, e é bem provável que daqui a um ano, quando se realizarem as legislativas, o resultado não venha a ser muito diferente.

Em si, uma derrota eleitoral, mesmo uma que atire (e não será o caso) um partido para fora do poder, não tem nada de mal. Pessoalmente, acho que os partidos deveriam ter para com as derrotas eleitorais a mesma relação que Ferro Rodrigues um dia disse ter com o segredo de justiça. E se estes três anos de políticas impopulares tivessem servido para se realizarem reformas que efectivamente mudassem a forma como o país tem vindo a funcionar, reformas que dessem condições ao país para este ter um futuro melhor, uma derrota eleitoral seria irrelevante: o mais importante já teria sido conseguido.

O problema está em que a única coisa que a coligação conseguiu foi mesmo desagradar aos eleitores, sem mudar grande coisa. O que se prepara para deixar é o exacto estatismo que encontrou em 2011, mais “austero” por força das circunstâncias, mas igualmente irreformado por falta de vontade ou capacidade. Com a “reforma do Estado” entre a gaveta e o documento rabiscado por Portas, a coligação conseguiu apenas o extraordinário feito de atrair para si o descontentamento popular que as reformas costumam atrair sem que tivesse tentado sequer fazê-las. Consegue garantir que entregará de volta o poder ao PS, sem ter mudado nada do que este lhe havia deixado. Hoje, a coligação perdeu. Mas não foi por ter perdido que falhou. Falhou porque nos três anos antes da derrota, nada fez para que ela tivesse sido tão inevitável como valido a pena.

Dia de reflexão

José Pacheco Pereira, no Público, sobre o “dia de reflexão”:

“Hoje é o dia absurdo em que, mesmo que queira falar de certas coisas, não posso falar delas. Hoje é um dia em que há censura em nome do mesmo princípio com que houve censura durante quarenta e oito anos: proteger a paz dos espíritos dos portugueses para que eles se portem bem.

É um absurdo em democracia e este absurdo soma-se a outros que começam a impregnar o tempo e o modo das campanhas eleitorais, acrescentando-se à já enorme decadência daquilo que foi uma das conquistas da democracia – a possibilidade de fazer livremente propaganda das suas ideias, programas e pessoas.”

A democracia na “Europa”

Na sua incessante e talvez infrutífera luta para despertar no português comum – esse distraído espécime – um incontrolável amor às “questões europeias”, muito boa e má gente tem vindo a insistir na natureza e (a nível da União Europeia) singularidade “democrática” do Parlamento Europeu como razão para que todos se “mobilizem” para “o voto” no próximo domingo. O esforço é compreensível, e em parte, louvável. Mas peca por não compreender o carácter particular dessa natureza democrática do Parlamento Europeu, e por tomar tudo o que seja democrático como necessariamente bom. E na “Europa”, por muito que se louve o quão democrático é o PE e se lamente o “défice de democracia” da União, a verdade é que o real problema é esta ser demasiado democrática numas coisas, e insuficientemente democrática noutras.

Se é verdade que hoje olhamos para a democracia com bons olhos e como intrinsecamente boa, não é menos verdade que essa é uma atitude relativamente recente: até ao século XIX, a “democracia” não era bem aquilo a que hoje damos tal nome, antes o “domínio da multidão”, um perigo para o saudável governo representativo a que hoje damos o nome de “democracia”. Com essa mudança de nome, esquecemo-nos que no sentido que hoje atribuímos à palavra, a democracia não é apenas o governo da maioria: é o governo da maioria com limites, com controlo, para que essa maioria não “oprima” a minoria (ou as minorias).

Quando elaboraram a sua Constituição, os “pais fundadores” da República americana, gente que tinha lido uns livros e sabia de cor o que gregos de dúbia proveniência e identidade haviam dito acerca destes assuntos, juntavam à desconfiança do poder executivo (resultante da sua associação à detestada monarquia britânica) o temor pelo ramo legislativo. Quando desenharam o Congresso – o parlamento lá do sítio – desenharam-no com duas câmaras, uma mais “democrática”, a Câmara dos Representantes, com uma distribuição proporcional à dimensão de cada um dos Estados da União, e uma que o pretendia ser ligeiramente menos, o Senado, constituído por um número igual de senadores de cada Estado independentemente da sua dimensão. Esta divisão visava equilibrar a natureza mais volátil da Câmara dos Representantes (onde os mandatos são apenas de dois anos) com a maior “ponderação” do Senado (com mandatos de seis anos), procurando garantir um fórum onde os mais pequenos pudessem ter uma palavra a dizer quanto ao que a força dos números pudesse ter conseguido impor na Câmara dos Representantes.

Na construção do Parlamento Europeu não se teve cuidados destes. Há apenas uma Câmara, com uma distribuição mais ou menos proporcional à dimensão dos países que constituem a UE. Durante muito tempo, o direito de veto que cada país tinha sobre o que viesse “da Europa” servia para dar o equilíbrio que faltava pela ausência de uma espécie de Senado – dava até mais equilíbrio, ao permitir que um simples país vetasse o que todos os outros lhe pudessem querer impor. Mas à medida que um maior número de questões foi sendo objecto de votações por maioria qualificada no Conselho, esse equilíbrio foi-se desvanecendo, e a “democracia” do Parlamento Europeu é cada vez mais a “tirania da maioria”. É verdade que elegemos os nossos 21 representantes portugueses no parlamento europeu. Mas que influência terão esses pobres 21 no meio dos 751 que por lá se sentam?

Resta que, enquanto que há – e havia já em 1787 – um “povo americano”, falta hoje – tanto quanto faltava em 1950 – um “povo europeu”: dar aos “jovens europeus” uns meses num “Erasmus” a trocar culturas e doenças venéreas não faz uma identidade. E por muito pouco nacionalista que eu seja (a “portugalidade” e as nossas misérias não me enchem de particular orgulho e desejo de as proteger da “senhora Merkel”) tenho a sensatez de reconhecer que, ao contrário do que se passava nos EUA, não temos no continente europeu uma língua comum e uma história política também ela relativamente comum. Temos, isso sim, séculos e séculos de histórias nacionais, muitos deles passados em alegre brutalidade uns contra os outros. Ninguém vê os habitantes do Wisconsin preocupados com tratados energéticos do Iowa com o Canadá, mas toda a gente vê os polacos preocupados com um entre a Alemanha e a Rússia. Os Estados Unidos tiveram a vantagem de, desde a nascença, os seus constituintes terem menos e menores diferenças que as que separam todos os países europeus uns dos outros. E convém não esquecer que, onde tais diferenças existiam nos EUA – como na questão da escravatura – conduziram a uma brutal guerra civil que ninguém quererá reproduzir por cá.

É por faltar esse tal “povo europeu” que nem os acasalamentos do Erasmus fazem nascer que a verdadeira sede da democracia no continente europeu continuam a ser os parlamentos nacionais, cada vez mais menosprezados pela crescente transferência de decisões para a esfera das maiorias qualificadas na União. Por isso digo que o problema da União Europeia não é o “défice democrático” lamentado pelos mais entusiastas: é a conjugação de um excesso de democracia no seu pior sentido com um défice dela no que tem de melhor. O Parlamento Europeu, por exemplo, é excessivamente democrático: se o compararmos com as instituições americanas, ele não é uma espécie de Câmara dos Representantes do povo europeu, antes é uma espécie de Senado em que cada Estado luta pelos seus interesses nacionais, com a diferença de que alguns estados (os com maior dimensão) têm mais poder do que os outros; os números têm mais força que os limites que supostamente os deviam controlar; é “democrático” no sentido pejorativo que os senhores gregos de dúbia proveniência e identidade lhe davam. Ao mesmo tempo, a UE é pouco democrática ao menosprezar a verdadeira representação política dos seus cidadãos, aquela que está assente nos vários parlamentos nacionais. Onde a democracia no sentido moderno reside, nos parlamentos nos quais se sentam os verdadeiros representantes dos cidadãos, a UE insiste em esvaziar o poder que essas instituições têm, transferindo-o para essas distantes instâncias onde o “interesse europeu” (o dos “números”) é defendido. Em ambos os casos, quem fica a perder é o tal “povo” de que tanto se falta mas em quem pouco se pensa.

Em defesa da abstenção

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Nunca fui um homem de praia. Fujo dela como Sócrates da verdade. Mas nem eu nutro pelos areais de Portugal a mesma aversão que por eles evidenciam os nossos evangelizadores da cidadania. Sempre que algum acto eleitoral tem lugar num mês abençoado pelo sol, como as “europeias” próximas, logo os nossos Cíceros saltam a alertar para o perigo da abstenção supostamente decorrente da preferência pela praia em detrimento da urna. Nunca percebi o temor. Afinal, parece-me lógico que o cidadão que se desloca ao areal da sua preferência será mais propenso a, de caminho, ir votar, do que quem num dia invernoso pensa em não sair de casa. Mas percebo – e bem – quem encara com indiferença o colocar da cruzinha no boletim. Como o parecem perceber também os restantes europeus, que igualmente têm para com as “europeias” a mesma atitude que um ex-líder do PS um dia disse ter para com o segredo de justiça.

Poucas coisas são tão censuradas no debate público como a abstenção eleitoral. Ainda recentemente, Cavaco Silva disse que só quem vota tem depois legitimidade para criticar os políticos eleitos. É uma opinião muito proferida, especialmente por políticos eleitos alvos de críticas do português comum. Mas por que razão é que alguém que, por exemplo, votou num partido ou candidato que concorreu a uma eleição com um programa repleto de medidas irrealizáveis ou nocivas, e com esse voto, deu a sua caução a essas mesmas medidas, tem mais legitimidade que alguém que se absteve por considerar que nenhum partido ou candidato se apresentava com um programa realista ou benéfico? Por que razão é que a pessoa que votou num determinado programa tem mais legitimidade para criticar os efeitos nocivos do seu cumprimento, do que alguém que nunca nele acreditou?

Não parece ocorrer a ninguém que a abstenção possa resultar de uma intensa atenção à vida política ou de uma reflexão séria a propósito dos méritos relativos de ir votar ou celebrar a ocasião com uma higiénica ausência da cabine de voto. Claro que uma parte significativa não opta pela abstenção – está em abstenção. Mas haverá também muita gente que, como eu, se abstém precisamente porque dedica o seu tempo a ouvir quem pede o nosso voto. E nenhuma eleição merece menos que o dêmos do que as “europeias”.

Dirá quem de mim discorda que o Parlamento Europeu é a única instituição democrática da UE, e que por isso deveria ser amado e acarinhado. Mas ele é tudo menos isso: não havendo um povo europeu, os eleitos para aquela instituição não são verdadeiros representantes dos cidadãos. Esses estão nos parlamentos nacionais. O PE é apenas uma ficção de Parlamento, em que cada deputado defende apenas os interesses e clientelas do seu país, e não a representar realmente quem quer que seja. Até a mim a praia parece mesmo mais recomendável.

Palavra

Na Comissão parlamentar do Orçamento e Finanças, João Galamba, incansável apóstolo do Socratismo, vocifera contra a “falta de palavra” do actual governo. É pena que gente como o João – e já agora, membros e apoiantes do actual governo – só se lembrem do valor da verdade e abominem a mentira quando não estão no poder, e logo mudem quando acham que lhes dá jeito.

Sem saída

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Quem estivesse à procura de um exemplo do quão deplorável é o debate político em Portugal, certamente o encontrou no passado domingo. Sem excepção, governo e oposição falaram da “troika” – uns em alegria esfuziante com a sua saída, outros queixando-se de que não nos deixará – como se nela residisse o problema do país. Sem excepção, todos fingiram não compreender que, longe de ser o problema, a “troika” só cá esteve porque o país tinha outros – e abundantes – problemas, que por cá permanecem.

A crer no discurso de Passos Coelho, estamos hoje melhor que há três anos. É verdade que os juros da dívida portuguesa atingiram valores baixíssimos nos últimos meses. Mas o que mudou não foi a sua sustentabilidade, foram as reconfortantes palavras dos responsáveis do BCE, sussurrando aos nervosos ouvidos dos “mercados” que farão “o que for preciso” para evitar o colapso do euro. E se Portugal tem beneficiado nos últimos meses de uma conjuntura relativamente favorável, caso a França entre em bancarrota ou precise de um resgate, o muito falado mas pouco visto “reformismo” governamental não preparou o país para evitar que se repita o que aconteceu quando a Grécia e a Irlanda caíram.

Há tempos, Jerónimo de Sousa disse que “não há saídas limpas”. Falava da “troika”, claro, mas teria tido maior razão se falasse das várias opções à nossa disposição: nenhuma delas é “limpa”. As reformas que o Governo nunca tirou da gaveta teriam tido elevados custos. Não as ter feito garante que, por muito “limpos” que a “troika” nos deixe, não sairemos da cepa torta. O PCP acha que “limpa”, só a “saída” da “política patriótica e de esquerda”, mas a ruptura com quem nos empresta o dinheiro que não temos rapidamente nos lançaria numa pobreza assustadora. O PS diz, com razão, que a situação da dívida continua precária, mas quer “resolver” o problema aumentando a despesa e baixando os impostos, que só “limparia” o nosso crédito. Governo e oposição entretêm-se respondendo ao que uns e outros vão dizendo, mas deixam sem resposta os problemas do país. E este último sem saída para os deixar para trás.