O Insurgente

Maio 20, 2013

Dois Divórcios

Filed under: Comentário,Política,Política Fiscal,Portugal — Bruno Alves @ 14:15

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

As recentes peripécias governamentais têm provocado grande entusiasmo, talvez na esperança de que a discórdia entre os dois partidos da coligação traga um divórcio. Principalmente depois de Paulo Portas ter afirmado ser “politicamente incompatível” com a taxa a aplicar aos pensionistas.

Compreendo a ânsia, mas convém ter em conta que Portas já disse tudo e o seu contrário. Logo depois de proclamar a sua “incompatibilidade” com a medida, Portas quis “sossegar” os pensionistas dizendo que graças a si a medida deixara de ser “obrigatória” para ser “meramente opcional”. Mas se esta é “opcional”, é porque é ainda possível optar-se por ela. E já na sua declaração de há semanas atrás, Portas disse o mesmo que antes Passos Coelho dissera: essa medida está prevista, e será adoptada se não se conseguir poupar dinheiro com outras.

No entanto, é significativo que ninguém tenha compreendido isso: todas as declarações de Portas se destinam a fazê-lo parecer (sublinhe-se o “parecer”) preocupado com as intenções do PSD. Atente-se bem na medida que fez Portas demarcar-se do seu parceiro (ao mesmo tempo que de forma dúplice admite que ela seja aplicada): ela afecta directamente uma parte do eleitorado que, mesmo que não vote no CDS, é essencial à sua propaganda. É essa a diferença que faz um partido que se diz muito preocupado com “os mais fracos da sociedade” não ter qualquer incómodo em diminuir os apoios aos desempregados. Tudo porque faz também parte da propaganda do CDS ser duro para com quem “vive de subsídios”.

Tudo isto mostra bem qual é a verdadeira preocupação gerada pela “TSU dos pensionistas”, e como o Governo só cairá, não por questões de substância, mas se o CDS considerar que perde mais votos por se manter ao lado do PSD do que a lançar o País em crise.

Mas há um outro divórcio trazido à luz do dia por estas atribulações: o já há muito existente entre os cidadãos e a política. Enquanto as pessoas comuns se preocupam com os seus empregos, os impostos elevados e o futuro incerto, os partidos preocupam-se com a data das próximas eleições e o que delas sairá. Talvez aí percebam o que andaram a fazer.

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Maio 16, 2013

Venezuela de calças na mão (2)

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 16:12

O que imperialistas americanos e seus fantoches da estirpe do nosso Rui Carmo não compreendem é que o papel higiénico não passa de uma convenção burguesa de cujas garras o socialismo bolivariano libertou o bom povo venezuelano.

Maio 14, 2013

Chicago, 1920

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 14:43

(Artigo publicado no Diário Económico de ontem)

No debate com os deputados da passada sexta, o primeiro-ministro confirmou que o Governo pondera um corte às “pensões em pagamento”. Ou seja, aplicar a nova fórmula de cálculo das pensões dos funcionários públicos não apenas a quem se reformar a partir de agora, mas também àqueles que o fizeram segundo as regras anteriores.

Passos Coelho argumenta que a medida se justifica como forma de garantir que o Estado tenha dinheiro para pagar as pensões. A oposição considera-a inconstitucional e socialmente insensível. Nenhuma das partes compreende que a proposta, sem querer, põe a nu um dos principais problemas inerentes ao “Estado Social”.

Sempre que qualquer Governo realiza um corte nas pensões, toda a esquerda se levanta, protestando com a “quebra do contrato social”, dizem. Têm razão, mas não percebem como esse “contrato”, por natureza, foi feito para ser quebrado.

A promessa do “Estado social”, de uma garantia de uma pensão em função dos descontos feitos ao longo da vida contributiva, é, logo à partida, fraudulenta. O sistema de pensões equivale a um esquema de pirâmide em que os da base pagam as pensões dos do topo, e em que as verbas que estes últimos recebem, longe de estarem garantidas pelo tal “contrato”, dependem do número de pessoas (e montante de dinheiro que conseguem gerar) a alimentar o sistema na base. A proposta do Governo, por muito que ofenda as sensibilidades dos que a criticam, é a consequência natural do “modelo” que querem proteger.

Reside aí o erro de ver o sistema de pensões público como moralmente superior aos privados. Os socialistas de todos os partidos costumam dizer que estes últimos comportam um risco maior, que implicam entregar as pensões à “economia de casino” da “especulação bolsista”. Mas o “contrato social” não oferece maior segurança. Permite até que um dos contratantes (o Estado) altere os seus termos unilateralmente, sem qualquer compensação. Quem acha que entregar as pensões “aos privados” equivale a ir com elas para Las Vegas, ficando à mercê da sorte, devia compreender que, no nosso “Estado Social”, elas ficam à mercê da demografia e da discricionariedade de quem tem a “força” para impor condições. Em vez de Las Vegas, temos Chicago nos anos 20.

Maio 10, 2013

O “contrato social”

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 16:49

Pedro Passos Coelho confirmou hoje que o Governo irá aplicar um corte às “pensões a pagamento”. Ou seja, aplicar-se-à a nova fórmula de cálculo das pensões dos funcionários públicos não apenas a quem se reformar a partir de agora, mas também àqueles que o fizeram segundo as regras anteriores. Como nota aqui o João Luís Pinto, a medida mais não é que um default aos compromissos do Estado para com os pensionistas. 

Durante anos, ouviu-se gente como Francisco Louçã a gritar na defesa do sistema público de pensões, como algo de moralmente superior à suposta entrega das pensões à “economia de casino” que os sistemas privados implicariam. Talvez vá sendo altura de se começar a perceber que o sistema público não é menos inseguro: não só está tão sujeito à “economia de casino” como os privados, como também tem a insegurança adicional de uma das partes – o Estado- poder de forma unilateral escapar-se aos compromissos que assumiu, sem que qualquer compensação tenha de ser atribuída à outra parte, os cidadãos, que nem sequer têm a liberdade de não “assinar” o “contrato social” que enche a boca dos políticos, mas que, como a evidência demonstra à saciedade, não tem qualquer validade.

Maio 4, 2013

“Problemas que hão-de vir, problemas que nem sequer sonhámos”

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 16:39

Passos Coelho acaba de se queixar dos que “estão sempre” a “ver problemas”, por vezes até “problemas que hão-de vir, problemas que nem sequer sonhámos”. Não lhe ocorre que é precisamente por sucessivos Governos terem feito orelhas moucas de quem lhes avisava para inúmeros “problemas que hão-de vir”, “problemas” que nem sequer sonhavam, que o país está como está.

Passos no Pombal

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 16:25

Estou a ouvir, na SIC Notícias, Passos Coelho a discursar num almoço de militantes do PSD, no aniversário do partido. O homem está a falar num tom que faz com que pareça que se está a dirigir a crianças de 5 anos ou pessoas com “problemas de aprendizagem”. É compreensível, dada a audiência presencial da coisa. Mas Passos bem podia ter em conta que há mais gente (pouca) a ver na televisão.

Abril 30, 2013

A fogueira

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 16:14

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Por esta altura, até mesmo a vasta maioria de pessoas que comemora o Dia da Liberdade exercendo a sua de ignorar os discursos da cerimónia oficial, ouviu já a intervenção do Presidente da República em que este parece advertir o PS de que “se persistir numa lógica de crispação política”, “de nada valerá estar no governo ou na oposição”.

O discurso de Cavaco estava também recheado de “avisos” implícitos ao governo, mas o contexto em que a afirmação anterior foi feita, e o tom de ralhete com que a proferiu, tornaram inevitável que tudo fosse visto como um acto de hostilidade para com o PS.

O deputado João Galamba, usando termos perfeitos para lhe garantir o saciar da sua sede de aparecer nas televisões, afirmou que Cavaco “endoidou”. Pacheco Pereira, com outra elevação, considera que este discurso marca uma viragem no exercício do mandato presidencial. Na realidade, nem um nem outro têm razão: o discurso de Cavaco é apenas mais um exemplo daquilo que ele tem feito desde que chegou a Belém.

No seu primeiro mandato, a ânsia de ter a estadia renovada por mais cinco anos fez com que Cavaco permanecesse impávido e sereno enquanto Sócrates degradava as finanças públicas e a saúde do sistema político. Quando o actual governo anunciou as medidas orçamentais para este ano, o Presidente juntou a sua voz ao coro que contra elas protestava, diminuindo severamente a margem de manobra governamental. A semana passada, permitiu simultaneamente ao PSD usar as suas palavras para atacar o PS e a este fazer-se de virgem ofendida e acusar Cavaco de favorecer “o seu” governo. Hoje como no primeiro dia, Cavaco não faz mais que deitar achas para a fogueira política portuguesa.

Dir-se-ia que nada disto é relevante, que tudo não passa de jogos sem consequência entre pessoas que nada têm mais para fazer além de se candidatarem a cargos públicos e fingirem que zelam pelo bem comum. O mal está em que enquanto se entretêm em números destes, os problemas do país continuam à espera de resolução, e a confiança dos portugueses em quem deveria trabalhar para a encontrar perto de se esgotar. 

Abril 27, 2013

Pode ficar descansado

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 21:01

António José Seguro disse hoje para “os portugueses” não lhe pedirem para “ir para o Governo”. Da minha parte, pode ficar descansado, que eu prometo que não lhe vou pedir nada disso.

Abril 24, 2013

O melhor do Governo não deixa de ser mau

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 15:43

Estive ontem a ver o telejornal da RTP, em que o Governo teve bastante destaque, desde o “memorando de crescimento” de Álvaro Santos Pereira às novas medidas na Saúde introduzidas por Paulo Macedo, passando pela entrevista a Nuno Crato a propósito dos manuais de Matemática. O que mostrou foi tudo menos reconfortante, por ter sido muito revelador do que tem sido a governação. Macedo, Crato e “o Álvaro” são, em certo sentido, do melhor que este Governo tem: pessoas aparentemente bem intencionadas que querem tomar as medidas que julgam ser as melhores para o país. Mas Macedo, Crato e “o Álvaro” mostram bem como até o melhor do Governo não deixa de ser mau. As medidas por eles anunciadas não introduzem qualquer mudança na forma como o Estado funciona e como se relaciona com os cidadãos. Mantêm o dirigismo habitual em todos os Governos, continuam a padecer da ilusão de que um Ministério sediado numa qualquer Avenida lisboeta consegue saber como todas as empresas, escolas e hospitais ou centros de saúde devem funcionar. Mesmo no seu melhor, o que o Governo faz não deixa de ser estatismo. Gerido de forma diferente do que seria pelo PS, mas estatismo na mesma.

Abril 23, 2013

Doze

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 14:44

Começou ontem o Doze, um novo site sobre desporto, onde irei escrever mais ou menos regularmente sobre futebol americano, e mais ou menos irregularmente sobre cinema. Sou suspeito, mas recomendo a visita.

Duas nulidades

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 14:35

(Artigo publicado hoje no Diário Económico)

Na passada semana, Passos Coelho convidou o líder do PS para uma reunião, teoricamente para tentarem chegar a um acordo quanto à forma de tirar Portugal da crise. Na prática, Seguro e Coelho apenas conseguiram pôr todos os outros portugueses de acordo quanto à sua completa nulidade. Seguro saiu da reunião afirmando que, estando com o Governo na defesa do “rigor orçamental”, não podia concordar com o “desmantelamento do Estado” que atribui a Passos. Seguro parece querer “rigor orçamental” desde que o Estado possa continuar a gastar mais do que aquilo que tem, o que diz tudo acerca da sua qualificação para liderar uma alternativa ao actual executivo.

Já o problema do primeiro-ministro não está no que disse, mas no que fez: ter convocado a reunião. È óbvio para qualquer um (até para Seguro) que o “encontro” não teria qualquer resultado prático, que o “consenso” que ambos os convivas dizem querer não passa de uma palavra vã que usam para se tentarem atrapalhar mutuamente. No caso de Passos, teatros deste género são algo que o ex-jota parece confundir com a governação. Afinal, o que tem esta sido que não uma série de encenações escondendo uma realidade bem diferente da que propagandeiam?

Veja-se a muito elogiada declaração que o chefe do Governo fez após a declaração de inconstitucionalidade do OE deste ano: Passos afirmou que não seria possível aumentar mais impostos, e que se teria de cortar na despesa social; em primeiro lugar, quantas vezes este Governo já disse que não ia aumentar mais os impostos? E em quantas dessas acabou isso por efectivamente acontecer? Em segundo, seria bom não confundir os cortes que o Governo faz com verdadeiras reformas. Se a prática governativa até aqui for um indicador da futura, as “reformas” podem estar presentes no discurso, mas na realidade traduzem-se por “meros cortes”. Nenhuma medida governamental muda nada na forma como o Estado funciona ou se relaciona com os cidadãos – muda apenas a quantidade de dinheiro que distribui (menos) e que cobra (mais). Deixa Portugal tão estatista como antes, apenas tornando impossível a manutenção da ilusão de que não vivemos num país pobre. Nada que mereça elogios.

Abril 21, 2013

“Coligação com os portugueses”

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 01:16

Parece que António José Seguro disse na celebração do aniversário do PS que queria fazer uma “coligação com os portugueses”. Pelos outros não posso falar, mas pessoalmente, agradeço o convite, mas prefiro declinar. Só aceito governar sozinho.

Abril 7, 2013

Nunca pensei vir a ter tanta vontade de ouvir Seguro

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 19:22

Acabo de ouvir que António José (ou Tó-Zero, como escreveu o Jorge Costa) Seguro não vai comentar hoje a declaração de Passos Coelho, ficando essa tarefa entregue a um porta-voz do PS. Estou desolado: só mesmo o acto de ouvir Seguro é que me faz sentir menos incomodado por termos o Governo que temos.

“Forte contenção da despesa pública”

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 18:57

Quantas vezes é que este Governo já disse que não ia aumentar impostos, antes cortando na despesa? E de todas essas vezes, o que é que acabou por acontecer?

Abril 1, 2013

Via Sacra

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política — Bruno Alves @ 16:52

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

De início, pensei que fosse da época pascal. Talvez as evocações de crucificações e ressurreições tivessem levado Pires de Lima, à saída de uma reunião do CDS, ou Marques Mendes, no seu programa na SIC, a sugerirem ao Governo uma remodelação redentora. Mas rapidamente me lembrei: é um velho hábito da política portuguesa, este de querer “remodelações” como meio de tornar mais popular um Governo caído em desgraça.

É como se olhassem para um Executivo como uma equipa de futebol, e para as remodelações como a abertura do mercado de transferências: se a equipa não está a jogar bem, “dispensa-se” uma ou outra “maçã podre”, e “contrata-se” um ou outro “reforço”, na esperança de que os “remates falhados” de ontem se transformem em sucessos amanhã.

Infelizmente para quem comete a imprudência de aceitar pertencer a um Governo, ou pior, de o liderar, não estamos a falar de algo equivalente a um jogo de futebol. Ao contrário do que almas mais optimistas possam pensar, o problema do Governo não é a existência de alguns “erros de casting”, é o da política que promove, e o facto de, mesmo que quisesse, não ter condições para conduzir outra.

Imagino que não haveria ministro que as pessoas mais quisessem ver pelas costas do que Miguel Relvas. Mas Relvas não foi escolhido para integrar o Governo pelos seus eventualmente lindos olhos – foi escolhido para integrar o Governo para representar e assegurar a defesa de uma série de interesses clientelares do PSD, os mesmos que deram o poder interno a Passos Coelho, e que fazem com que a política governamental seja aquilo que é: mudar tanto quanto possível na medida em que nada de essencial mude realmente.

Com Relvas “remodelado”, outras pessoas tratarão de garantir que essa política não tenha um destino similar. A cara nova até poderá ser mais apelativa às simpatias populares, mas as consequências da prática governativa serão as mesmas, como será o descontentamento generalizado com elas. Por muito que custe a quem o apoia, uma remodelação não salvará o Governo. Mas mais preocupante é a provável possibilidade de o fim do Governo também não salvar o País.

Março 21, 2013

Assim se vê quão mau é o actual Governo

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 03:07

Até José Sócrates parece estar suficientemente reabilitado para ser contratado como comentador pela RTP.

Março 18, 2013

Voto de confiança

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 22:44

O Presidente do Banco de Portugal veio assegurar os portugueses de que nada tinham a temer em relação à segurança dos seus depósitos bancários. Se nesta matéria se aplicar a mesma regra que aos treinadores de futebol e aos “votos de confiança” dos seus dirigentes, está na hora de levantar o dinheiro da conta.

Março 9, 2013

Um inútil

Filed under: Comentário,Economia,Política,Portugal,socialismo,União Europeia — Bruno Alves @ 15:58

António José Seguro apresentou ontem a sua moção “Portugal Tem Futuro” ao Congresso que (de forma apoteótica, certamente) o reelegerá como caseiro da liderança do PS. Ao que consta, o documento tem 35 páginas, e não custa a imaginar que nem o próprio se tenha dado ao trabalho de as ler todas. Talvez por isso mesmo, Seguro tratou de simplificar a tarefa aos jornalistas, dizendo-lhes qual a “proposta” lá contida sobre a qual deveriam falar, e nos jornais e televisões, todos cumpriram o seu papel.

A crer no que Seguro quer “fazer passar” dessa sua moção, a sua grande proposta é a de uma “política europeia de progressiva mutualização dos sistemas de apoio ao emprego e de combate ao desemprego, em particular do subsídio de desemprego”. Ou seja: o programa político de Seguro consiste de uma proposta que não só não depende de si, como é algo sobre o qual nenhum cidadão português tem qualquer palavra a dizer. A grande medida que Seguro propõe, aquela que ele quer que os jornalistas promovam na cobertura noticiosa da sua moção, consiste apenas e só de expressar um desejo de que os contribuintes alemães e holandeses subsidiem através dos seus impostos programas de “apoio” ao emprego em Portugal e nos paguem subsídios de desemprego mais altos para compensar o nosso atraso. “Portugal Tem Futuro”, desde que os outros façam por isso.

A ideia é apelativa, mas a não ser que Seguro planeie concorrer nas eleições alemãs deste ano, duvido que Portugal tenha o tal “futuro” que Seguro lhe antevê: mesmo que o “líder” socialista consiga convencer o seu partido e depois os restantes portugueses das propriedades salvíficas da “mutualização” (em português: os outros que paguem as nossas asneiras), o parlamento português ainda não tem poderes para obrigar outros países soberanos a financiarem os delírios dos políticos indígenas.

Mas há que reconhecer um mérito da proposta, que demonstra que Seguro até tem alguma sensatez. Afinal, ao dizer que “Portugal Tem Futuro” na condição de os governos e cidadãos dos outros países da UE estarem dispostos a pagá-lo, Seguro reconhece a inutilidade de uma sua eventual nomeação para o cargo de Primeiro-Ministro. A crer na sua moção, a “sra. Merkel” é mesmo a nossa única esperança.

Março 6, 2013

Mudar?

Filed under: Comentário,Economia,Política,Política Fiscal,Portugal — Bruno Alves @ 14:38

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Após a manifestação do passado dia 2, não faltou quem afirmasse que, perante o descontentamento manifestado nas ruas, o Governo teria de mudar de política. Tendo em conta o historial do executivo, que rapidamente se esquece do que foi dito na semana anterior sempre que a “rua” faz barulho, a expectativa até é razoável.

Já não o é, no entanto, esperar que o descontentamento desapareça. Se os “movimentos” que organizaram a manifestação têm um programa, o mesmo não se pode dizer de uma parte significativa de quem saiu à rua: protestam, não contra uma política e a favor de uma alternativa, mas contra a situação do país, que não vai mudar independentemente da política seguida ou do Governo do dia.

Na sua origem, o “Estado social” tinha como propósito garantir um mínimo de condições de vida a quem por si só não tinha rendimentos para isso. Por cá, teve como objectivo tornar Portugal num país “como os outros”: durante décadas, através da educação e da saúde “tendencialmente gratuitas”, dos incentivos ao crédito à habitação, de empregos no sector público, etc., o Estado serviu para dar aos portugueses padrões de vida para os quais não havia riqueza no país; o Estado não redistribuía dinheiro dos mais ricos para quem menos tinha – espalhava pelo maior número de clientelas possível o dinheiro que não havia.

Só o pôde fazer enquanto houve quem estivesse disposto a nos emprestar dinheiro, e é isso que hoje escasseia. O Governo está a fazer um mau trabalho, por falar em reformas sem as fazer. Mas as “alternativas” que por aí circulam, a começar nas “Cinco Medidas” de Seguro, em nada mudarão a realidade. Os “cortes” governamentais empobrecem os portugueses, mas sem eles ou sem aumentos de impostos (que não empobrecem menos), ninguém nos emprestará o dinheiro que não temos e de que precisamos.

Quer se deixe pressionar pela “rua” quer não, o Governo não acabará com o descontentamento. Por isso, mais valia que fizesse verdadeiras reformas em vez de meros remendos desesperados. Sem elas, continuaremos a viver da “gentileza de estranhos”, e a lamentarmo-nos sempre que a deixarem de manifestar.

Março 5, 2013

Noutras notícias da esquerda portuguesa

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 22:46

Consta que Daniel Oliveira anunciou a sua saída do Bloco de Esquerda. Logo por azar, num dia de Manchester United-Real Madrid e da morte do camarada Chavez, o que fez com que ninguém, ou quase, tenha dado por isso. Mas o Daniel não precisa de se preocupar: terá uma oportunidade de receber mais atenção quando daqui a uns tempos aparecer (como “independente”, claro está) numa lista a qualquer coisa do PS.

Sócrates está de luto

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 22:10

Parece que faleceu o principal comprador dos “computadores” Magalhães. Alvo, obviamente, de um ataque do imperialismo ianque inimigo da revolução boliviariana, que lhe causou cancro.

Fevereiro 18, 2013

O processo

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Quando confrontado com os mais recentes números do desemprego, Passos Coelho afirmou que estes resultam de “um processo pelo qual o País tem que passar”.

Tem alguma razão: num país que viveu “acima das suas possibilidades”, o aumento do desemprego é consequência inevitável de não mais ser possível manter uma série de empresas e actividades de negócio que só podiam prosperar no clima ilusório em que vivíamos antes da crise nos trazer de volta à realidade. Mas não deixa de ser preocupante a aparente incapacidade de Passos Coelho de compreender a gravidade do problema do desemprego nas circunstâncias concretas do País.

Ainda em Maio, Passos afirmava que o desemprego deveria ser encarado como “uma oportunidade”, pedindo aos portugueses que adoptassem “uma cultura de risco”. Mas com empresas a fecharem e uma incerteza quanto ao dia de amanhã maior do que as contas bancárias, encontrar um novo emprego não é uma questão de “iniciativa” das pessoas. Muitas trabalhavam em indústrias que perderam a sua competitividade com o exterior, e nunca mais regressarão; ou não têm “competências” para procurar empregos noutras áreas; ou, por terem uma certa idade, são consideradas demasiado velhas por “empreendedores” como os que por aí abundam. Algumas poderiam “arriscar” abrir o seu próprio negócio, mas por muita “cultura de risco” que se tenha, é preciso também dinheiro. E quem vai conseguir obter um empréstimo nesta conjuntura? E com a carga fiscal actual, que perspectivas há de esse negócio ser bem sucedido?

A única forma de o desemprego deixar de ser, para muita gente, uma sentença vitalícia, e de as pessoas procurarem aproveitar as oportunidades que lhes possam surgir e criar as que não estão imediatamente ao seu alcance, será realizando uma série de reformas que até agora ainda não passaram do papel, ou nem sequer nele foram escritas. Até lá, por muito que o “ciclo” se “inverta”, o problema do desemprego será tão grave como é hoje.

O País pode ter que passar por este “processo”, mas está nas mãos do Governo a possibilidade de evitar que ele se repita. Pena que mantenha os braços cruzados.

Fevereiro 7, 2013

The Master

Filed under: Comentário,Cultura — Bruno Alves @ 03:13

Em Novembro passado, não resisti a ir ao Monumental para ver antecipadamente The Master, o novo filme de Paul Thomas Anderson que estreia hoje nas salas de cinema portuguesas. O filme estreara em Setembro nos EUA, e o Festival de Cinema de Lisboa e Estoril iria fazer uma exibição do filme. As centenas de pessoas que, tal como eu, não conseguiram esperar pela estreia normal do filme não deveriam saber muito bem o que esperar. Quando o filme acabou, imagino que também não soubessem muito bem o que tinham acabado de ver.

Quando, há uns anos, vi There Will Be Blood, o filme anterior de Anderson, também não soube bem o que pensar. Dos seus anteriores filmes, coisas como Hard Eight ou Magnolia faziam crer que Anderson era uma espécie de fruto de um caso amoroso entre Robert Altman e Martin Scorsese; Boogie Nights era uma mistura de GoodFellas com Spinal Tap. Punch Drunk Love já era algo vindo de outro planeta, mas o estilo era o mesmo. There Will Be Blood não – parecia ser algo realizado por Kubrick, com planos longuíssimos mas sem o movimento constante que os filmes anteriores exibiam. Era brilhante, sim, mas não aquilo a que eu estava habituado.

Tal como com There Will Be Blood, o amor ilícito que deu à luz The Master foi o de Kubrick e Terrence Malick em vez do de Altman e Scorsese. Mas sendo o segundo filme que Anderson faz nesse estilo, desta vez não foi isso que me deixou “desorientado”. Desta vez, foi outra coisa: se uma pessoa for rapaz (ou rapariga) de certa predisposição mental e emocional, The Master esmurra-nos a cara sem piedade com tanto brilhantismo que é impossível perceber exactamente o que acabou de acontecer.

O filme (de longe o melhor de 2012 – dos que vi, Django Unchained e Moonrise Kingdom são também brilhantes, mas The Master está para além da capacidade de descrição da linguagem humana) centra-se na relação entre um veterano da Marinha americana na II Guerra (Joaquin Phoenix) e o líder de uma seita religiosa (Philip Seymour Hoffman) que o “acolhe”. Nas duas horas que se seguem, Phoenix e Hoffman entretêm-se a tentar mostrar-nos quem é o melhor actor, e fica provado à saciedade que é impossível escolher: há uma cena numa cela de uma prisão que, quando os Oscars se aproximarem e as hipóteses de Hoffman e Phoenix receberem a estatueta forem discutidas, toda a gente mencionará como prova da qualidade sobre-humana das duas interpretações, mas honestamente qualquer outra poderia servir de exemplo. E depois há Amy Adams, que até a ser execrável e assustadora consegue ser adorável: sempre que aparece, Adams puxa tudo na sua direcção e (em alguns casos literalmente) agarra o que vier com as duas mãos, só largando quando quer e depois do trabalho estar feito.

Anderson dá espaço e tempo para estes três brilharem: a câmara fica neles enquanto for preciso. Mas ao contrário de There Will Be Blood, não é quase estática. O uso do “slow-motion” que enchia Hard Eight, Boogie Nights ou Magnolia está de volta, como se Anderson quisesse combinar as duas fases da sua carreira num só filme. The Master é, no fundo, o filme mais Paul Thomas Anderson –como adjectivo- que Paul Thomas Anderson já fez (tal como Django Unchained é o filme mais Quentin Tarantino que Tarantino já fez): pode não ser o seu melhor filme (e eu acho que talvez seja), mas é sem dúvida aquele em que o seu estilo está mais amadurecido, em que tudo aquilo que ele já fez se junta num só filme. Se Anderson não quiser (e eu espero que queira), não precisa de fazer mais filmes – tudo o que havia para fazer, fez com The Master.

E fê-lo de forma ainda mais conseguida do que havia feito até aqui: nenhum dos travelling shots scorsesianos que celebrizaram Anderson é tão deslumbrante como um em que Phoenix foge por uma plantação agrícola ao nascer do sol; nenhuma das sequências em “slow-motion” dos filmes anteriores é tão encantatória como a de uma festa em que Hoffman é o convidado de honra; e se as personagens de Mark Whalberg ou Julianne Moore em Boogie Nights, ou qualquer uma em Magnólia, arrasavam o bem-estar emocional de qualquer um, em The Master basta olhar para a cara perturbadoramente alterada de Joaquin Phoenix para questionarmos a nossa própria sanidade mental.

Tudo isto salta para a nossa frente quando se vê o filme. Violentamente: o filme é um assalto de brilhantismo e é impossível acabar de o ver sem se ficar impressionado (nem que seja a detestar o filme, o que vai acontecer a muitos dos que o virem). O que parece ser difícil é perceber o que tudo aquilo quer dizer, qual o significado de todas as coisas que nos são atiradas à cara durante mais de duas horas. Lembro-me que, quando o fui ver, nem consegui dormir de tanto que fiquei a pensar no que acabara de ver. Sem chegar a grandes conclusões. Talvez o filme não tenha significado, talvez não queira dizer nada: talvez seja só um olhar sobre a vida daquelas três pessoas, uma “experiência” – nada mais que um conjunto de “estados de espírito” filmados para os reproduzir em quem estiver a ver. À medida que a insónia dessa noite se prolongava, comecei a achar que não, que o filme tinha um significado, que bastava pensar nos outros filmes de Anderson para perceber qual era (quem não os conheça vai ficar um pouco perdido). Mas honestamente, isso é pouco importante. Tal como é pouco importante saber se o filme é bom ou mau, um exercício pretensioso ou uma obra-prima, uma “seca” descomunal ou um filme brilhante – The Master é, acima de tudo, uma coisa única, diferente de qualquer outra que se possa ver nas salas de cinema. Nem que fosse só por isso (e eu acho que é por bastante mais) vale a pena ser visto.

Fevereiro 6, 2013

Noutro mundo

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Media,Política,Portugal — Bruno Alves @ 16:04

(artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Do mais completo anonimato até há dias atrás, Franquelim Alves passou a ser o nome mais badalado da política portuguesa. Não por o cargo para o qual foi nomeado ser de particular importância – não creio que Steven Spielberg venha a realizar um filme sobre o poder transformador da Secretaria de Estado do Empreendedorismo – mas por o ocupar depois de ter tido responsabilidades num banco de má fama.

Realmente, não é sinal de sensatez governativa nomear para o executivo alguém que terá dito à comissão de inquérito sobre o “caso BPN” que teve conhecimento de “irregularidades” que abdicou de denunciar às autoridades competentes. Por um lado, parece difícil de acreditar que Alves (tanto quanto sei, a coincidência de apelido não passa disso mesmo) traga consigo para o cargo uma competência ou ideias de uma qualidade que compensem a barulheira em torno da sua nomeação. Por outro, estas estão completamente ausentes da contestação ao seu nome. Tal como o nome de quem deveria ser o líder do PS foi o único elemento do “debate” interno do partido.

Estes dois episódios ocorridos na mesma semana são uma demonstração inequívoca de como os nossos políticos (e a comunicação social que os segue) parecem viver num mundo completamente diferente do dos restantes portugueses. No “país real”, as pessoas estão preocupadas com o desemprego, os impostos, a falta de expectativas para o futuro. Já “entre a Arcada e São Bento”, como dizia o outro senhor, todos parecem preocupados em fazer com que o vizinho do lado tenha “má imagem”: António Costa faz barulho para que Seguro pareça um líder fraco; Seguro procura que Costa pareça desleal; a oposição insurge-se contra a nomeação de Alves para “fragilizar” o Governo; este não recuará na dita precisamente para não parecer susceptível a pressões.

Não é de espantar que a desconfiança dos eleitores nos políticos seja total. Se o problema fosse só esse, e estes últimos os únicos afectados, não haveria motivo para grandes preocupações. Mas essa desconfiança e o facto de haver razão para ela existir são obstáculos adicionais a que se reforme o país. Bem vistas as coisas, a vontade de viver noutro mundo que não o do “país real” é compreensível.

Janeiro 28, 2013

Chimpanzee That…

Filed under: Cultura,Diversos,Internacional,Videos — Bruno Alves @ 21:25

Algures no mundo, Karl Pilkington está a preparar o regresso das “Monkey News”

Janeiro 21, 2013

A “mensagem”

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Media,Política,Portugal — Bruno Alves @ 20:06

(artigo publicado hoje no Diário Económico)

Sabendo que a situação que o país enfrenta o obriga a tomar medidas que provocarão uma enorme contestação, o Governo anuncia-as seguindo sempre a mesma estratégia: deixa sair uma proposta para as redacções para testar a opinião pública, e diz que não passa de uma mera “hipótese” quando o barulho da rua é maior que a sua coragem.

Fê-lo com a privatização-tornada-concessão-tornada-sabe-Deus-o-quê da RTP; fê-lo com a TSU; e voltou a fazê-lo agora com as propostas do “relatório do FMI”. Em todas estas ocasiões, não conseguiu mais que exibir a sua fraqueza.

É comum ouvir-se dizer (especialmente se quem estiver a falar for Marcelo Rebelo de Sousa ou um qualquer outro vácuo) que um Governo (este ou outro) “não consegue fazer passar a sua mensagem”. Como se a política promovida fosse imaculada de erros, e os pobres governantes fossem apenas incapazes de fazer as pessoas perceber o quão brilhantes são. Mas a “comunicação” de um executivo tende a reflectir a sua acção governativa, e neste caso, a primeira mostra como a segunda navega à vista.

Veja-se o caso do mais recente soundbite do Governo, a “refundação do Estado” e a necessidade de “debater” quais as suas funções: Passos quer fazer passar a noção de que tem uma ideia para o futuro de Portugal para além do mero cumprimento das exigências da “troika”, e portanto arranja umas palavras bonitas que insinuem uma “visão”; ao mesmo tempo, são palavras que não o comprometem a nada, e um governo que quer começar a debater as funções do Estado dois anos depois de ter tomado posse é tudo menos um governo que sabe para onde quer levar o país.

Nem para si o executivo sabe ser bom: a conjugação dessa retórica reformista com uma prática limitada a cortes de benefícios e aumentos de impostos junta também contra si o descontentamento com as consequências do imobilismo real e o receio do reformismo, mesmo que não mais que imaginário. Se a “mensagem” de um Governo revela o seu carácter, o nosso não passa de um grupo de desonestos ou de incompetentes. Ou pior, de uma letal combinação dos dois.

Dezembro 26, 2012

Ser ou não ser

Filed under: Comentário,Media,Portugal — Bruno Alves @ 21:15

O “caso” Artur Baptista da Silva diz muito acerca deste país: a crer na cobertura noticiosa do dito, em Portugal importa mais o facto de ele ser ou não ser não sei o quê na ONU, do que a validade ou sua ausência do seu argumento.

Dezembro 7, 2012

O poder e o povo

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Portugal — Bruno Alves @ 21:33

(artigo publicado hoje no Diário Económico)

Por entre divagações sobre a Palestina e o último Congresso do PCP, Mário Soares usa a sua mais recente crónica semanal na concorrência para extravasar o seu descontentamento com o rumo da governação de Passos Coelho. Para além de afirmar que o Primeiro-Ministro nos faz estar “pior que a Grécia”, certamente um exagero retórico que não merece comentários em termos que possam ser publicados, Soares diz que o Governo “tem Portugal inteiro contra ele”, algo de que Passos Coelho “talvez até goste”, pois “o povo não existe para o Primeiro-Ministro”.

Talvez Soares o tenha escrito por se recordar de Passos Coelho ter afirmado não governar para agradar ao eleitorado. Mas se tivesse prestado mais atenção à prática política do Governo, Soares teria percebido que o problema da governação, longe de se dever a Passos ter pela aprovação popular o mesmo desdém que Ferro Rodrigues um dia disse ter pelo segredo de justiça, está precisamente em o Governo se “afligir” com o que “o povo” pensa. É o “povo” das suas clientelas, é certo, mas num país com cerca de 60% de dependentes do Estado, é difícil encontrar outro. Como difícil será fazer uma política diferente da actual, sem se reformar o Estado. Coisa que o Governo não quer fazer, por muito que diga que sim.

Por que razão a “reforma” das autarquias toca apenas nas freguesias e não nas câmaras municipais? Por que razão a “privatização” de um canal da RTP ficará provavelmente na gaveta? Por que razão a cada recuo num anunciado corte de despesa se seguiu um concretizado aumento de impostos? Não foi por não se ter ouvido “o povo”, mas por, de uma forma ou de outra, todas estas medidas afectarem o “povo laranja”; recua-se porque não convém ofender as clientelas, exige-se “sacrifícios adicionais” porque é preciso satisfazer as exigências dos nossos credores.

O resultado é o previsível: o Governo junta contra si o descontentamento dos que levam a sério a retórica reformista ao provocado pelo empobrecimento causado pela prática imobilista. Mesmo que completamente errado na explicação, Soares tem razão numa coisa: “com esta política”, Passos Coelho “corre grandes riscos”.

Novembro 23, 2012

Dumb and Dumber

Filed under: Diversos,Teoria — Bruno Alves @ 18:13

No blogue Brainiac, do Boston Globe:

It’s easy to think of history as a march of progress, with humans growing smarter and more capable over time. But if you think about how evolution really works, the march may be the opposite direction, Stanford biologist Gerald Crabtree argues in a new article in the journal Trends in Genetics. In other words, we may well be getting dumber. Crabtree reasons that our intelligence and emotional stability would have developed “in a world where every individual was exposed to nature’s raw selective mechanisms on a daily basis.” Before agriculture and urban society, human beings would have lived or died on their spatial reasoning skills: Learning to build shelters and tools took serious intelligence. By comparison, many contemporary activities that we think of as more intellectually taxing, like doing math problems, are actually computationally simple. That’s why your phone can beat you at chess, but even the most advanced robots are bad at washing dishes. Now that evolutionary demands have slackened, so, perhaps, have our wits. Human intelligence must be mediated by many thousands of genes, he argues, and the more genes required, the more likely that some of them have mutated or been selected against over the millennia. The relatively stable societies we live in can make up for a lot of the resulting defects in thinking. “Community life would, I believe, tend to reduce the selective pressure placed on every individual, every day of their life,” he argues. “Indeed that is why I prefer to live in such a society.”

Novembro 16, 2012

Um país doente

(artigo publicado hoje no Diário Económico)

Num momento de maior entusiasmo, Jerónimo de Sousa congratulou os participantes na greve de dia 14 pela “dimensão histórica” do evento. Segundo o líder do PCP, tal dimensão “exige que dela sejam retiradas todas as ilações políticas”. Para Arménio Carlos e a CGTP, a ilação a tirar é necessidade de outra política, e portanto, de outro Governo. “Só assim se pode mudar”, ouviu-se no discurso do “camarada Arménio”.

Quem tenha seguido as festividades pela televisão facilmente percebeu a mensagem que se quis passar. Entrevistada por uma repórter, uma manifestante dizia ser preciso “fazer-se uma revolução para mudar isto”. Mas, na realidade, a greve e o seu programa político são profundamente reaccionários: a última coisa que querem é “mudar”. A “perda de direitos” contra a qual se protesta não é mais do que o desfazer de uma ilusão, a de que poderíamos ter padrões de vida semelhantes aos dos mais desenvolvidos países europeus sem produzirmos a riqueza correspondente. O endividamento estatal não nos trouxe só auto-estradas, estádios de futebol vazios e aeroportos sem voos. Trouxe abundantes empregos na função pública, e fez com que se pudesse “oferecer” serviços “tendencialmente gratuitos” aos portugueses, permitindo-lhes utilizar uma parte do rendimento – que de outra forma não estaria disponível – para a aquisição de bens que alimentaram a fantasia de que Portugal era um “país como os outros”. Agora que falta dinheiro ao Estado, deixou de ser possível esconder que ele falta também a grande parte das pessoas. A política governamental é criticável, e poderia ser diferente. Mas, tivessem as opções concretas sido outras, uma perda significativa dos rendimentos e qualidade de vida dos portugueses não teria sido evitada, pela simples razão de que estes não eram sustentáveis.

No fundo, chegou a hora de acordar para a realidade. Com ela, serão notórias as dificuldades. O descontentamento manifestado na greve e nos protestos de dia 14 não é uma cura para a doença do país. É um sintoma

Novembro 10, 2012

Uma optimista

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 12:09

(artigo publicado no Diário Económico de ontem)

A “senhora Merkel” (como agora se diz) é uma inveterada optimista: quando afirmou que serão necessários “mais 5 anos de austeridade” para “convencer o mundo de que vale a pena investir na Europa”, Merkel parecia estar a dar mais um pretexto para a acusarem de querer impor cruéis sacrifícios ao resto do continente; na realidade, o prazo quinquenal corre o risco de pecar por defeito.

Como já aqui escrevi variadas vezes, a “austeridade” não é uma escolha de pérfidos senhores apostados em empobrecer as pessoas comuns, mas sim o resultado de uma série de países (e pessoas comuns) se terem endividado mais do que seria comportável. Mas para piorar as coisas, não bastará que a crise das dívidas soberanas se resolva para que os sacrifícios terminem. Como diriam dois célebres defuntos, também eles alemães, paira sobre a Europa o espectro de uma outra austeridade – a que resulta da aparentemente crescente incapacidade deste conjunto de países para competirem na (perdoe-se o chavão) “economia globalizada de hoje”.  

Desde que, no longínquo ano de 1973, o preço do petróleo indispôs a economia mundial, nunca mais os países europeus cresceram como o haviam feito nas décadas anteriores. Décadas das quais herdaram generosos sistemas de providência, que têm de ser pagos por populações tão mais envelhecidas quanto menos ricas. Tal só será possível com a retirada de uma porção cada vez maior dos rendimentos dos que sustentam esses sistemas, com a diminuição dos benefícios que estes oferecem, ou com uma letal combinação das duas hipóteses.

Cinco anos de medidas de emergência talvez reponham a confiança nos bonds dos países europeus. Mas muito após esse período, a minha geração continuará, se não desempregada, em empregos com baixos salários e sem segurança, sobrecarregada com impostos, para suportar aqueles com emprego protegido e pensões asseguradas pelo Estado. Cinco anos de austeridade não serão suficientes para pagar o futuro empenhado durante décadas. Sem culpas da “senhora Merkel”.

Outubro 31, 2012

Desvios

(artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Quando afirmou que existe “um enorme desvio entre o que os portugueses acham que devem ter como funções sociais e os impostos dispostos a pagar para assegurar as mesmas funções”, Vítor Gaspar, talvez inadvertidamente, pôs a nu a complicada situação em que o país se encontra.

É quase ofensivo dizer-se que os portugueses pagam pouco pelo seu “Estado Social”: entre impostos, “taxas” e “contribuições” (impostos com outros nomes), os contribuintes entregam ao Estado mais de metade do seu rendimento. “Pouco” não é a melhor palavra para descrever o que os portugueses pagam pelo que o Estado lhes “dá” (as longas listas de espera na Saúde, uma Educação medíocre, e pensões e subsídios cada vez mais baixos). No entanto, por muito que paguem, os portugueses não evitam o carácter profundamente deficitário do “Estado Social”. Por muito que paguem, não pagam o suficiente para que a Saúde, por exemplo, não tivesse em Abril um défice de 74 milhões de euros. É algo expectável num modelo de financiamento que usa os impostos como preço indirectamente cobrado: o dinheiro é distribuído de acordo com os critérios dos políticos e funcionários que administram o sistema, e não de acordo com as necessidades das pessoas que recorrem a esses serviços, sendo assim propenso a desperdícios (se as pessoas pagassem, mesmo que subsidiadas pelo Estado, directamente por esses serviços, estes teriam de responder às suas necessidades, regulando a sua oferta de acordo com a procura dos pacientes, em vez dos objectivos traçados pelos políticos e burocratas).

Mas há outras razões para défices como esse: a Saúde é cara, e Portugal não produz riqueza suficiente. O “enorme desvio” que Gaspar não menciona é mais importante que o que referiu: o “desvio” entre o nível de vida que esperamos e aquele que podemos ter. É nesse “desvio” que reside a “austeridade”, e seja com aumentos de impostos, seja com redução da despesa, continuaremos a sentir o seu efeito. Não só precisamos de fazer reformas (que este Governo não quer), como de ajustar as nossas expectativas.

Outubro 29, 2012

“Uma Terra de Paz”

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 14:28

Vieram duas senhoras à minha porta de casa, dizendo que estavam a “contactar todas as pessoas para trazer as boas notícias de uma Terra de Paz”. Fiquei na dúvida se seria um qualquer grupo religioso ou duas apoiantes de Barack Obama que pensavam que ainda estávamos em 2008.

Outubro 27, 2012

Inadequado

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 21:41

Disse Vítor Gaspar que os impostos em Portugal são altos porque a despesa pública também o é, e que para reduzir os impostos “é preciso adequar as funções do Estado àquilo que a sociedade portuguesa e o sistema político português são capazes de, de forma sustentável, financiar”. Tem toda a razão, mas quem o ouvisse até poderia pensar que Gaspar não é Ministro das Finanças de um Governo que tem feito tudo menos essa “adequação”.

Outubro 18, 2012

Encruzilhada

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 15:45

(artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Após as atribulações dos últimos meses, Portugal está numa posição pouco invejável: o Governo talvez tenha perdido as condições para governar, e o país não está em condições de mudar de Governo.

A contestação às medidas previstas para o OE de 2013, embora um problema sério, não se compara em gravidade à aparente (e aparentemente crescente) desorientação governamental na sua elaboração. Todos os dias são anunciadas medidas, logo seguidas de avisos de que talvez seja possível “aligeirar o esforço”. Todos os dias o Governo perde com isso autoridade, e com ela margem de manobra para conduzir toda e qualquer política reformista. Só não faz grande mossa, pois o Governo parece não ter outra política que não “cortes” (de salários) e “aumentos” (de impostos).

Empobrecimento sem reformas, portanto.Ainda para mais, pressionado publicamente pelo Presidente, e com o CDS a distanciar-se do ónus da governação, não é expectável que as coisas melhorem para Passos Coelho. Como também dificilmente melhorarão para o país, mesmo que os desejos da “rua” se materializem e o Governo se dissipe no ar. Tornou-se moda defender um governo de salvação nacional, mas não ocorre aos seus arautos que, como já aqui escrevi, não é crível que a austeridade seja mais tolerável aos portugueses se proveniente de um governo cozinhado nas sedes partidárias do que foi vinda de um governo com legitimidade democrática. Para além de que o provável fracasso da experiência, arrastaria inevitavelmente todo o sistema político consigo, sem se fazer ideia do que viria depois.

Restaria a hipótese da realização de eleições antecipadas. Nada melhor que a perspectiva de 3 ou 4 meses sem governo para assustar quem nos empresta dinheiro e aumentar a probabilidade do descalabro. E mesmo que os nossos credores se mantivessem calmos: teria o novo governo condições para fazer o que este não consegue? Teria a vontade que este não tem? Com este governo ou com outro, na realidade, tudo continuará como está.

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