“How small, of all that human hearts endure, that part which laws or kings can cause or cure”

readyforchildren Hoje à tarde, o Parlamento entregou-se a uma animada discussão sobre o apoio à natalidade. Se bem percebi, não houve grupo parlamentar que não tivesse apresentado alguma proposta que pretendesse “apoiar as famílias” e resolver a “crise demográfica” do país. E a maioria, pela boca de Luís Montenegro, até admitiu aceitar todas as propostas dos restantes grupos parlamentares, em nome do “consenso” que fica sempre bem nestas coisas. Pode parecer estranho que gente que se odeia e que passa os dias a acusar-se mutuamente de abrigar nos seus corações os mais pérfidos desejos e propósitos, encontre subitamente um tema em que, da “Esquerda” à “Direita” todos parecem poder abraçar-se calorosamente, ambicionando em igual medida que o país comece a multiplicar-se como coelhos. No entanto, é algo com que não nos devíamos espantar. Para o percebermos, basta percebermos como a classe política portuguesa, pela sua ignorância e para nossa desgraça, partilha – apesar do muito que entre si discorda acerca de como o fazer – a crença na capacidade da Política – da governação dos assuntos dos seres humanos por seres humanos – para resolver todo e qualquer problema.

Infelizmente, a Política é bastante limitada naquilo que consegue realizar. Pacheco Pereira escreveu em tempos que Eugénio de Andrade lhe costumava dizer que a Política não consegue resolver o problema de estar apaixonado por alguém e não ser correspondido. Problema mais grave que este não deve haver, e só mesmo os mais sortudos não terão como o reconhecer. Mas não é preciso ir tão longe. Ao contrário do que os senhores deputados e as senhoras deputadas parecem crer, o pouco empenho da população no esforço procriador que eles acham ser necessário a bem da Nação e do Estado-Providência só parcialmente se deve à legislação que sai do hemiciclo para o qual foram eleitos. Claro que uma carga fiscal mais baixa ou um mercado arrendamento que fizesse com que um jovem casal não tivesse que ser obrigado a endividar-se para a vida a comprar uma casa ajudariam. Mas a crise demográfica que afecta o nosso país não é um exclusivo do Portugal “austeritário”. É um fenómeno do mundo desenvolvido do “Ocidente” (em sentido lato), e é em grande medida resultado de uma profunda mudança cultural, que nenhuma iniciativa legislativa, por muito bem intencionada que seja, irá mudar.

Em primeiro lugar, não se crê, no mundo “ocidental”, na existência de Deus como em tempos se acreditou, e como tal, “crescer e multiplicar” não surge para muita gente como algo imperioso, como surgirá, julgo (não me conto entre os que fazem parte de qualquer um dos grupos), a quem acredita na existência do Senhor, seja qual for a denominação que segue. Não é certamente coincidência que seja nos países com maior adesão religiosa no “Ocidente” que a crise demográfica menos se faz sentir, e Portugal não é um deles: muita gente se diz “católica”, mas fá-lo apenas por confundir a simples fé na existência de Deus com a (coisa diferente) pertença a essa particular forma de adorar o Dito, que implica a aceitação das regras ditadas pelo Chefe da Igreja Católica Apostólica Romana, regras essas (principalmente as que dizem respeito ao sexo, ao uso de contraceptivos e tudo aquilo a que se costuma chamar de “costumes”) que os “católicos”-em-nome-apenas ignoram olimpicamente. Para complicar as coisas, o mundo mudou mesmo em 1960 com o aparecimento da pílula: permitiu às mulheres terem sexo (uma coisa geralmente aprazível, dependendo das circunstâncias e do parceiro) sem necessariamente correrem o risco de engravidar (com todos os custos que a condição acarreta), e portanto, “ter filhos” passou a ser essencialmente uma escolha. Escolha essa que, por razões ligadas a uma série de coisas que melhoraram as nossas vidas nas últimas décadas, é exercida cada vez menos vezes: as mulheres passaram a “integrar o mercado de trabalho” (perdoe-se o abominável jargão), o que lhes deu maior independência e as fez ter menos tempo disponível para dar à luz uma prole muito extensa (excepto, claro, as que têm dinheiro para contratar outras mulheres que cuidem das crianças); o alargamento da educação a todos os estratos sociais e o aumento da escolaridade obrigatória fazem com que um filho seja um encargo para (pelo menos) 18 anos, e num número cada vez maior de casos, para 20, 25 ou 30 anos, quando antes ter um filho era, para muita gente, ter mais uma fonte de rendimento; e um pouco de tudo isto faz com que as pessoas comecem uma família cada vez mais tarde (no meu caso concreto, a razão está mesmo em nenhum Governo me arranjar uma jovem disposta a aturar-me para o resto da vida e a perpetuar os meus fracos genes). Por muito que custe à “Direita”, as “Famílias” têm hoje menos filhos porque já não aceitam a velinha sociedade do Portugal arcaico do século passado e o que ela implicava. E por muito que desagrade à “Esquerda”, nascem menos criancinhas hoje, não por causa da “austeridade”, mas porque vivemos em tempos mais prósperos e melhores do que vivíamos há 50 ou 60 anos atrás.

Num século já há muito deixado para trás, quando a qualidade de vida hoje ao alcance da maioria de nós era um exclusivo de reis e membros da sua corte (e mesmo esses sem alguns confortos que hoje encaramos quase como direitos naturais), um senhor inglês disse que “de tudo aquilo que os corações humanos suportam, é pequena a parte que leis e reis causam ou curam”. Como se vê pela forma como falam dos “incentivos” e “apoios” à “natalidade”, os senhores e as senhoras que nos pastoreiam não compreendem esta simples evidência. Claro está que se pode sempre argumentar que esta chuva de propostas se deve, não a uma genuína crença na capacidade de resolver o problema demográfico, mas a uma incansável vontade dos nossos representantes de fingirem estar muito preocupados com o assunto, e assim obterem uns quantos votos, aqui e ali, de quem se deixar comover. Mas não sei se, a ser verdade, isso deveria absolvê-los. Afinal, entre serem lunáticos sem noção dos seus limites, ou hipócritas sem vergonha que os impeça de explorar assuntos sérios, não sei qual a alternativa pior.

Os maus hábitos dos Governos portugueses

No Assembleia Geral da ETV da passada sexta-feira, a propósito da discussão em torno de uma eventual redução da TSU, falei sobre o hábito dos vários Governos portugueses de optarem por medidas avulsas, e da sua incapacidade, ou falta de vontade, para fazerem reformas abrangentes.

http://rd3.videos.sapo.pt/playhtml?file=http://rd3.videos.sapo.pt/3ZzFAzPonvgzJisj6Z8W/mov/1

Uma receita para o desastre

mushroom1 Sentado à frente da televisão, a saltar de canal em canal (há que fazer exercício para manter a linha), esbarro num anúncio do Prós e Contras da RTP e fico a saber que o programa desta semana será dedicado às “Presidenciais”. É natural: com a candidatura de Henrique Neto, as notícias sobre Sampaio da Nóvoa e o PS, a relutância em avançar de Guterres, o diário pingar de candidatos folclóricos, e claro, a infindável novela de Marcelo e Santana (que seria um excelente nome para uma dupla sertaneja), as classes conversadoras deste país abraçaram o tema com um incansável vigor. No entanto, não faltam, do Governo a Jerónimo de Sousa, passando por Pacheco Pereira e Ferro Rodrigues, vozes que tentam chamar essa gente à razão, explicando que as atenções de todos deveriam centrar-se fundamentalmente nas eleições legislativas de Setembro ou Outubro.

Longe de mim discordar dessas opiniões, de uma sensatez evidente. Mas, sendo os dois actos eleitorais tão próximos um do outro, e dada a cultura política dos principais intervenientes na vida política – os políticos propriamente ditos e os jornalistas que os cobrem – era previsível que as “Presidenciais” desviassem das legislativas as atenções mediáticas.

Não é difícil perceber porquê. As limitações inerentes ao cargo de Presidente e a natureza unipessoal da candidatura a Belém são particularmente convidativas à discussão em torno de se Fulano se candidata ou não, se Sicrano o apoiará, quais serão os restantes candidatos, que “hipóteses” terá cada um deles, se haverá ou não segunda volta, e qual será a atitude de cada um dos candidatos perante o previsível “Parlamento pendurado” que sairá das legislativas, caso para sorte do sujeito venha a ser escolhido para residir no Palácio de Belém. Por outras palavras, o facto do Presidente da República não ter responsabilidades governativas e o de os candidatos concorrerem em nome próprio ao cargo conspiram para que a campanha presidencial seja discutida da forma que mais agrada aos nossos jornalistas, assente em “cenários”, leituras vagamente conspirativas, próprias de quem vê House of Cards e, na mediocridade da coisa, descortina qualidade e um retrato realista da política, vista como um desporto em que a única coisa que importa é quem ganha e quem perde, e não o conteúdo do que se propõe e quais as suas consequências para o futuro dos portugueses.

Já as legislativas, apesar de tudo, implicam pela natureza do que está em causa – a governação propriamente dita – a discussão de questões substantivas, com consequências na vida das pessoas, e que exigem, mesmo que da forma superficial a que estamos habituados em Portugal, um tratamento de assuntos de economia, finanças, educação, saúde, justiça, política europeia. Enfim, coisas sérias, que implicam algum conhecimento, e para as quais os jornalistas não estão preparados, e pelas quais os políticos não têm interesse, formados que foram na intriga partidária e empenhados que parecem estar em dar razão aos jornalistas que vêem em House of Cards um documentário sobre a natureza do Poder.

O resultado de tudo isto também não é difícil de antever: as “Presidenciais” abafarão a campanha para umas legislativas decisivas para o futuro – imediato e a longo prazo – do país, e esta será dominada por tudo menos pelo essencial, que será discutido, e mais tarde implementado, à nossa revelia. Independentemente do resultado das eleições de Setembro ou Outubro, as políticas a que os portugueses serão sujeitos – uso a expressão no seu sentido pleno – em grande medida, estarão elas próprias carentes de legitimidade. Por isso, quando forem aplicadas, serão encaradas como ilegítimas por parte de uma população que, na realidade, não as terá escolhido nem consentido. O cozinhado que se irá preparar ao longo dos próximos meses está a seguir uma infalível receita para o desastre. Que ninguém se espante, se e quando ele ocorrer.

Um país pendurado

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Com as notícias de que o PS se prepara para apoiar a candidatura de António Sampaio da Nóvoa, o país político entregou-se de alma e coração ao tema das “Presidenciais”. O resto do país, por sua vez, encolheu os ombros, mais por incredulidade do que por exasperação. Há uns anos, Nóvoa discursara no “10 de Junho”, mas como ninguém ouve os discursos dessa festividade, a maioria dos portugueses só ficou a saber da existência do senhor no último Congresso do PS, quando lá apareceu de cravo apropriadamente artificial ao peito e com um discurso desprovido de qualquer ideia que fosse além dos lugares-comuns do reacionarismo travestido de progressismo a que em Portugal se dá o nome de “Esquerda”. Mais do que ser um “desconhecido” sem hipóteses de ganhar, o problema da candidatura de Nóvoa é o de ele não ser aquilo de que Portugal precisa na Presidência. Pior é que não é fácil vislumbrar quem o seja.

Este é um claro sintoma da crise do sistema político português: o próximo Parlamento dificilmente deixará de ser aquilo a que os ingleses chamam de “pendurado”, sem maioria absoluta de um partido. Uma maioria absoluta, embora necessária para governar da forma difícil que o país precisa para ser bem governado, só foi obtida em Portugal em ocasiões em que (com ou sem razão) os eleitores acreditavam haver perspectivas de prosperidade, o que manifestamente não é o caso da actual conjuntura. Ser Presidente nestas condições não será fácil. A natureza do cargo, logo para começar, não ajuda, e para piorar as coisas, aos olhos dos portugueses, não há quem aparente ter a credibilidade que adviria de ter percebido os problemas do país a tempo, e que daria legitimidade para agora apresentar alternativas.

Perante o ódio generalizado aos políticos, o crescimento dos pequenos partidos e até pelo que se passa por essa Europa fora, não é de espantar que se comece a recear o populismo e que se diga que estamos “a jeito” para aparecer um qualquer pretendente a “salvador” que acabe a condenar-nos a todos a uma “democracia à Venezuelana”. Na realidade, talvez esse desprezo quase universal pelos políticos o impeça: o descrédito do ofício é tal, que já ninguém espera salvação. Mas mesmo que nos poupe a um Syriza qualquer, esse fenómeno não evitará o apodrecimento do sistema: um eleitorado que se revê cada vez menos nos partidos tenderá a desligar-se da política; e quanto maior for a parte do eleitorado que se mantém à margem da política, mais os partidos tenderão a prestar atenção apenas aos seus aparelhos e clientelas, desligando-se da sociedade. Não teremos um descalabro, mas cairemos numa lenta degradação da governação e das nossas condições de vida. Olhando para o horizonte das Legislativas e das Presidenciais, é o próprio País que parece estar à beira de ficar “pendurado”.

No jobs for the (thin) girls

Como notou aqui o João Cortez, a Assembleia Nacional francesa aprovou uma lei que proíbe o recurso a modelos “demasiado magras” em desfiles ou sessões fotográficas de moda, em prol, dizem, da luta contra a anorexia. Por outras palavras, a Assembleia Nacional francesa proíbe algumas pessoas de acederem a certos empregos, apenas e só em função da sua aparência física. Entre o actual poder e a desprezível Frente Nacional, a distância não é muita.

Um espectro

Sampaio da Nóvoa Um espectro paira sobre Portugal: o da candidatura de um ente incorpóreo a que testemunhos dão o nome de Sampaio da Nóvoa (ou “Névoa”) à Presidência da República. Segundo o Expresso, este ser fantasmagórico anunciará em breve uma candidatura a Belém, e conta até com o apoio do antigo inquilino do palácio local, Mário Soares. Há já alguns anos que ocasionais artigos em suplementos de jornais tentavam, como no filme, implantar na mente das pessoas a ideia de que o vulto em causa se poderia lançar em tal aventura. Mas a vasta maioria dos portugueses desconhecia-o por completo até ao dia em que apareceu no Congresso do PS, de cravo apropriadamente artificial ao peito. Descobriram então que se tratava de um antigo Reitor da Universidade de Lisboa, ou seja, um burocrata que compensava a pouca qualidade intelectual com uma assinalável habilidade para obter promoções na carreira, e que dentro da sua cabeça não residia nenhuma ideia que fosse para além dos lugares-comuns do reaccionarismo-travestido-de-progressismo a que neste país se dá o nome de “esquerda”. No dia seguinte, votaram-no ao esquecimento. Ele, no entanto, continua a sonhar com outro tipo de votos, mais favoráveis e de maior consequência.

Que uma não-entidade como Sampaio da Nóvoa nutra ambições de ser Presidente da nossa pobre República não é algo que deva preocupar quem quer que seja: todos nós temos desejos que gostaríamos de ver realizados, e que o de alguém seja o de presidir aos nossos destinos não nos deve merecer mais que a nossa cordata comiseração. Mais preocupante é a possibilidade de haver quem, com responsabilidades e obrigação de ter mais juízo, lhe queira satisfazer a vontade: segundo a TVI, Sampaio da Nóvoa conta já com o apoio do PS, que no entanto será anunciado algum tempo depois do seu anúncio de candidatura. Confesso que, quando ouvi isto, me ocorreu que, a ser verdade, talvez tudo não passasse de um daqueles truques baixos palacianos em que a rapaziada do Rato é pródiga: talvez os dirigentes socialistas receassem que, apoiando o PS outro candidato e Sampaio da Nóvoa avançando como independente com o apoio de Soares, o PS se pudesse dividir e ser incapaz de evitar a derrota; garantindo ao ex-Reitor o apoio mas prometendo de má-fé anunciá-lo apenas mais tarde, o PS dar-lhe-ia tempo para que demonstrasse para além de todas as dúvidas a sua gigantesca nulidade, podendo depois apoiar o seu verdadeiro candidato mais descansadamente. Temo, no entanto, que isto não passe de wishful thinking.

Uma vez afastadas as hipóteses de António Guterres e António Vitorino, é difícil vislumbrar quem possa concorrer à Presidência e ter fundadas esperanças de ganhar. Talvez António Costa e os seus conselheiros pensem que o manto de “independente” com que o putativo candidato se cobrirá lhe permita esconder a inexistência de qualquer qualidade, lhe dê hipóteses de lutar pela vitória, e que sendo o candidato quem (e como) é, o PS seja agraciado depois com um Presidente dócil e disposto a ser bem-mandado por um Governo rosa. Ou pior, pensam mesmo que Sampaio da Nóvoa seria o Presidente da República que Portugal precisa. Seja qual for o cenário verdadeiro, nenhum abona muito a favor do PS, nem augura nada de bom para o nosso futuro. Nada que nos devesse espantar: desta gente, nascida e criada pela intriga partidária, não seria de esperar uma mínima noção do que se exige na situação em que o país se encontra, muito menos de qual deveria ser o seu papel na melhoria das condições de vida dos portugueses. Eles que não se espantem também, se ninguém lhes ligar.

O sistema

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje, aqui em versão “director’s cut”, ligeiramente mais longa)

Mal se conheceu a dimensão da vitória do PSD e da derrota do PS nas eleições madeirenses, e ainda antes das surreais peripécias da recontagem, logo o inqualificável Marco António correu a dizer que o resultado mostrava como a oposição perde por só prometer “o facilitismo e a ilusão”, num pouco subtil exercício de propaganda para as legislativas. Até o geralmente inteligente Vital Moreira se apressou a escrever sobre a “lição a retirar” do que se passou no meio do Atlântico. Ora, tirar ilações para as legislativas destas “regionais” é não perceber nem a Madeira, nem o país.

A maioria conquistada por Miguel Albuquerque deve-se à (para ele) feliz confluência de dois factores: por um lado, ter surgido nos últimos anos como um opositor de Alberto João Jardim permitiu-lhe não sofrer com um hipotético cansaço dos eleitores com o “jardinismo”; por outro, ao conquistar o poder no PSD regional, herdou do seu antecessor a máquina de controlo do “sistema” madeirense de dependências em que assentou o longo reinado de Jardim. Sem uma efectiva divisão interna no seio dessa máquina, o “sistema” permaneceu intacto, entregando a vitória no colo de Albuquerque.

No “continente”, nem o PSD pode neste momento sonhar em reproduzir essa vitória, nem o PS deverá temer uma derrota similar. Em Portugal, o “sistema” é, como já fora no séc. XIX, essencialmente “rotativo”. Como na Madeira, assenta essencialmente no uso do Estado e do Orçamento para uma distribuição de recursos na esperança de receber votos em troca, mas ao contrário da Madeira, não garante o domínio de um só grupo sobre tudo o resto. Pelo contrário, garante que nenhum dos “rotativos” se tornará efectivamente dono do país, nem terá de recear a extinção.

Acresce que esse “sistema” está francamente fragilizado, com a falência do Estado a limitar o que este pode distribuir. O que daí resulta é a mútua incapacidade dos dois “rotativos” para conquistar uma vitória real, e o parlamento “pendurado” que aí vem. Assim, ao mesmo tempo que garante a sobrevivência dos rotativos, o “sistema” português garante também que nenhum deles terá força para governar. As eleições na Madeira foram noutro “país”.”

Vendedores da banha-da-cobra

snake_oil_ad_by_emptysamurai-d4sm7bi Não deve ser fácil, a vida de um político. Se quiserem ter um mínimo de sucesso na carreira, os praticantes desse mal-afamado ofício têm se sujeitar às mais variadas indignidades, desde passarem a flor da idade a agitar bandeirinhas da agremiação a que se juntaram, a percorrerem o célebre “circuito da carne assada” numa fase da vida em que certamente prefeririam o convívio com os filhos e (se tiverem tido sorte na sua escolha) o cônjuge. Se virem realizadas essas excelsas aspirações, têm de passar os anos que os separarão de um qualquer emprego mais ou menos semelhante a uma reforma a suportar a bajulação dos companheiros de profissão que sonham em substituí-lo, e a satisfazer as mais mesquinhas exigências daqueles que os alçaram ao trono e que lá os mantêm.

Esta deprimente lista nem inclui o pior: tal como uma qualquer estrela pop ou concorrente de um reality show, o seu sucesso depende da sua popularidade junto de pessoas que os conhecem única e exclusivamente dos curtos minutos de exposição televisiva que vão tendo aqui e ali. Não é por isso de espantar que, tal como as celebridades hollywoodescas e as obscuras personalidades que se vão revezando na Venda do Pinheiro, os políticos dos nossos tempos orientem as suas acções por um guião definido e indistinto, com receio de que o mínimo desvio daquilo que deles se espera provoque a censura da multidão espectadora. Resta que, para seu azar, a exibição ininterrupta de indivíduos a produzirem discursos indistinguíveis uns dos outros, longe de fazer nascer na audiência um infinito amor pelas personagens, sugere-lhes apenas a impressão de que “eles são todos iguais” e “dizem o que for preciso para agradar”.

É portanto natural que, quando um qualquer exemplar da espécie surge diante das pessoas como alguém que “diz o que pensa” e “sem medo de ser impopular”, acabe logo sendo objecto de simpatias e dos mais rasgados elogios. Para não ir mais longe no tempo, a popularidade e o prestígio que alguém como John McCain gozou durante muito nos EUA se deve quase exclusivamente à percepção de que se tratava de um maverick sem receio de ir contra o seu partido ou de enfrentar este ou aquele interesse. No Reino Unido, Boris Johnson deve toda a carreira ao ar mal-arranjado que ostenta e à sua propensão para gaffes: merecida ou imerecidamente, os traços pelos quais McCain e Johnson são conhecidos contrastam-nos favoravelmente com os adversários arranjadinhos e ensaiados que conseguem falar sem dizer nada passível de crítica ou concordância.

ZeMaria3 Infelizmente, políticos desse género não abundam, e na maioria dos casos aqueles que parecem possuir essas características não passam disso mesmo: Como os concorrentes do Big Brother que dizem não estar a desempenhar um papel mas “a ser dentro da casa” iguais ao que são “lá fora”, mas que na realidade se limitam a desempenhar o papel de “concorrente que diz ser dentro da casa como é lá fora”, não faltam políticos que parecem não ter medo de ser impopulares, e que fazem desse papel que desempenham a sua forma de serem “iguais” aos “outros”, de “dizerem o que é preciso para agradar”. Portugal, para nosso azar, parece ter-se especializado na produção desta espécie de vendedores da banha-da-cobra que, no fundo, se vendem a si mesmos. Tivemos recente o caso do dr. Vitor Gaspar, que cultivava a sua aparente “falta de jeito” para “comunicar” e que dessa forma parecia diferente do resto da classe política, e que sob a capa de “não ter medo de ser impopular” e assim levar a cabo “medidas necessárias”, mudou tanto quanto possível na medida em que deixou tudo na mesma ao mesmo tempo que construiu para si uma reputação de possuidor de uma “coragem” que, na realidade, nunca demonstrou. Antes dele, já Cavaco Silva vivera do mesmo truque, e com consequências bem mais graves, José Sócrates tomou de assalto (meço bem as palavras) o país.

Ao que parece, estes exemplos não bastaram para que os portugueses aprendessem a lição e emendassem os erros. Vinda de uma destacada subalternidade ao dr. Gaspar, Maria Luís Albuquerque chegou a Ministra das Finanças e prepara-se para tentar, num futuro mais ou menos próximo, atingir patamares ainda mais altos. Os comentadores do Eixo do Mal, com a sobranceria e falta de juízo que não se cansam de exibir, acharam por bem gozar com uma eventual escolha de Maria Luís (nome artístico) para a liderança do PSD. Trata-se, asseguraram todos, de um “erro” enorme do PSD, pois conduziria, dizem, a uma derrota estrondosa nas eleições legislativas.

Ora, pelo contrário, Albuquerque é precisamente mais um exemplo de alguém extraordinariamente hábil nessa arte de parecer não ter medo de ser impopular, de parecer ter coragem, de vender de si uma imagem construída e falsa de quem não está a tentar vender de si uma imagem construída e falsa. Sendo claramente uma mulher inteligente e hábil, sabe debater com qualquer potencial adversário, o que, juntamente com o ar duro que ostenta, ajuda a confirmar na cabeça do eleitorado a ideia de que se trata de alguém sem medo de “enfrentar” o que quer que deseja e disposta a “fazer o necessário”. Mas basta olhar para a prática em vez da retórica para perceber como a política de Albuquerque denuncia o carácter enganador e fraudulento da imagem que ela quer passar de si própria: como Gaspar antes de si, Maria Luís não fez mais do que adoptar uma postura de quem faz “reformas”, e seguir uma política que nunca enfrentou os interesses instalados daqueles que a poderão apoiar na sua escalada política. Também eu acho que será um gigantesco “erro” do PSD escolher Maria Luís Albuquerque para sua futura líder, mas não por pensar que ela conduziria inevitavelmente a uma derrota eleitoral; seria um “erro”, precisamente porque Albuquerque tem características que lhe podem permitir ser extraordinariamente bem sucedida numa corrida eleitoral, mas que fariam dela (como já hoje fazem) uma péssima governante. A plausível eventualidade de não haver alternativas melhores não nos deve levar a esquecê-lo.

Under The Skin

Com algum atraso, vi finalmente o filme Under The Skin, realizado por Jonathan Glazer e com a presença da muito apreciada por certas facções do Insurgente Scarlett Johansson. Glazer realizou dois filmes antes de Under The SkinSexy Beast, que tinha méritos, e Birth , acerca do qual é difícil dizer o mesmo – e é mais conhecido pelo famoso vídeo de Karma Police dos Radiohead. Johansson, por sua vez, passou a maior parte do tempo que se seguiu à sua explosão com Lost in Translation a ser mal aproveitada em filmes que ou não tinham grande interesse ou não sabiam o que fazer com ela: compreensivelmente tida como uma das mulheres mais desejáveis e desejadas do mundo, Johansson parecia condenada a (salvo raras excepções, como em Scoop de Woody Allen e, em menor grau e com um sotaque britânico deplorável, em The Prestige de Christopher Nolan) a desempenhar papéis de menina bonita mas pouco mais (note-se como deixei Matchpoint e Vicky, Cristina, Barcelona de fora das excepções. Não foi esquecimento). Era como se a sua beleza fosse tão fora deste mundo que a impedia de ser escolhida para interpretar seres humanos em vez de caricaturas. Em Under The Skin, Glazer, tal como Joseph Gordon-Levitt no fraquinho Don Jon e Spike Jonze no excelente Her, aproveita a extraterrestrialidade da beleza de Johansson e a sua imagem de símbolo sexual para dar corpo à personagem que ela interpreta (mesmo quando, como em Her, ela apenas lhe empresta a voz) e substância ao enredo do filme. Agora que perceberam o que fazer com ela, Johansson poderá finalmente ter a carreira que merece.

Tentar descrever Under The Skin não só seria estragar um pouco a experiência de ver o filme como um esforço infrutífero. Tudo o que eu pudesse dizer seria revelar tudo e ao menos tempo insuficiente para dar a mais insignificante ideia acerca do que se passa. O filme é, literalmente, indescritível. Chamar-lhe “hipnótico” não seria despropositado, não só pelo tom ou pela interpretação discreta mas excelente de Johansson, como pela beleza visual que Glazer e o seu director de fotografia (Daniel Landin) dão à Escócia onde o filme se passa. Mas mesmo isso seria insuficiente para o qualificar. Under The Skin é um dos filmes mais estranhos que já vi. Um bom filme, mas dos mais estranhos que já vi. O melhor que consigo dizer é que é uma espécie de E.T. se E.T. fosse um filme de terror, se E.T. tivesse sido realizado por Stanley Kubrick nos intervalos da rodagem de The Shining. E no entanto, é também um filme quase comovedor acerca de algo muito simples: a ideia de que ser humano é ser frágil, é ser vulnerável. Mesmo (ou especialmente) se formos uma qualquer Scarlett Johansson vinda de outra planeta.

Henrique Neto

Mas por que raio está Henrique Neto a apresentar a sua candidatura à Presidência a esta hora (16h), em vez de às 20 horas? Sou tudo menos um adepto de se fazerem as coisas em função dos telejornais, mas se há candidato a quem, pela sua falta de notoriedade junto da população em geral, dava jeito um directozinho às oito da noite, é Henrique Neto.

O monstro

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Leviathan_by_Thomas_Hobbes Na passada semana, a polémica da “lista VIP” de contribuintes animou os telejornais e a classe política, perante a incompreensão ou indiferença geral da população. Afinal, saber se o Sec. de Estado “sabia ou não sabia” ou se se deve demitir é tipo de questão para a qual os eleitores reservam a atitude mental que Ferro Rodrigues um dia disse ter para com o segredo de justiça, e quem os pode culpar? No entanto, a existência da tal lista revela algo que deveria preocupar e muito o cidadão comum. Ela, juntamente com as fugas acerca da situação fiscal de Passos Coelho e outros, mostram como o sigilo fiscal pouco passa de uma ficção em Portugal, e como isso põe em perigo a saúde do Estado democrático.

Diz “o povo” que “quem não deve, não teme”, e diz mal. É precisamente “quem não deve” que mais tem a temer de quem o pode acusar infundadamente de “dever”. Se o sigilo fiscal de qualquer cidadão não estiver devidamente protegido, se um qualquer funcionário fiscal puder aceder aos nossos dados, todos estamos potencialmente sujeitos a ser alvos de uma perseguição fiscal, bastando que por alguma razão tenhamos caído nas más graças de alguém com um computador das “Finanças”. Numa altura em que a Autoridade Tributária tem por hábito partir do princípio de que o contribuinte está em falta e exigir-lhe que prove a sua inocência, é fácil de perceber como “não dever” não é garantia de nada.

No fundo, ninguém pode ficar descansado. O aumento de poderes da AT conjugado com a sua incapacidade para proteger a segurança dos nossos dados dão ao nosso Estado democrático o pior do carácter dos autoritários: transforma todo e qualquer cidadão numa potencial ameaça a todo e qualquer cidadão. Ao contrário do que pensava o senhor que lhe deu o nome, quanto mais poderoso é o Leviatã estatal, mais os homens se tornam nos lobos dos homens.

Cofres “cheios”

Quem ouça as declarações propagandísticas da Ministra das Finanças e do Primeiro-Ministro acerca dos “cofres cheios” do Estado português, e as não menos propagandísticas críticas da oposição a essas mesmas declarações, até poderia pensar que o Estado já consegue ter um excedente orçamental. Não tem, nem terá tão cedo.

A “eficácia” da brutalidade

Brutalidade Há dias, no Observador, David Dinis escreveu um artigo sobre a polémica em torno da “lista de contribuintes VIP” que tem animado a classe política e os telejornais perante a indiferença ou incompreensão generalizadas da população. Após algumas considerações a propósito do caso, Dinis (pessoa que, pelo que leio e ouço, tenho em boa conta) escreve que “o Fisco é um dos trunfos maiores do ajustamento e modernização do Estado que temos para apresentar” tanto “aos credores” como “aos contribuintes” e que por isso “convinha muito não estragar o retrato”. Li e não acreditei no que li. Até que, vasculhando aquilo a que se convencionou chamar “as redes sociais”, deparei com várias comentários lamentando a circunstância deste caso vir “manchar” a “credibilidade” da Autoridade Tributária, “uma das poucas coisas que funcionam bem em Portugal”, dizia um dos opinadores.

É verdade que os vários governos que nos têm calhado em sorte desde que a dra. Manuela Ferreira Leite colocou o dr. Paulo Macedo a reformar a máquina tributária insistem em vangloriar-se da acrescida “eficácia” dessa mesma máquina no combate à evasão fiscal. Mas que sucessivos governos vivam noutro mundo que não o real não me surpreende. Já que portugueses comuns que são forçados a sujeitarem-se aos ditames das gentes que alternadamente nos pastoreiam acreditem nas balelas que nos tentam impingir é algo que acho bem mais preocupante. E para acreditar que o Fisco “funciona bem” e é um exemplo do melhor que “ajustamento” trouxe requer uma credulidade a um nível que está perto do humanamente impossível.

Não deve haver indivíduo que tenha tido o infortúnio de por via do nascimento ser cidadão português que não conheça, por experiência própria ou tenebrosos relatos de terceiros, os métodos a que a Autoridade Tributária/ex-DGCI (tal como com as polícias políticas do antigamente ou os serviços secretos russos, convém mudar o nome da coisa regularmente na esperança de que o facto de tudo continuar na mesma passe despercebido) recorre para “combater a evasão fiscal”. Todos os portugueses já receberam (ou conhecem alguém que recebeu) uma carta da AT/ex-DGCI a acusá-los de uma dívida que não têm, ameaçando-os de multas, penhoras ou processos judiciais caso esta não seja saldada, geralmente num prazo curto. Qualquer português que não ande a dormir sabe, mesmo sem pessoalmente ter tido o azar de passar por um semelhante calvário, como a AT/ex-DGCI (ou a Segurança Social) gosta de enviar notificações sobre situações fiscais de incumprimento que não correspondem à realidade do contribuinte ameaçado, na esperança de que ou a incompreensão do que lhe está a ser exigido (o português dessas notificações é deliberadamente ilegível) ou o receio dos custos inerentes a um longo processo no tribunal o levem a pagar sem protestar. Na prática, a AT/ex-DGCI declara o cidadão culpado até prova em contrário, e espera que por ignorância ou medo, o coitado admita a culpa ou não tente sequer provar a inocência, e se limite a “pagar e calar”, de forma a que o Estado vá conseguindo amealhar uns tostões aqui e ali para alimentar o “monstro” em que se tornou.

Mesmo o caso das “facturas” e a maior frequência com que os portugueses as pedem está longe de ser o sucesso que o Governo gosta de propagandear e em que David Dinis aparentemente acredita: convém não esquecer que os portugueses com pequenos negócios foram forçados a adquirir equipamento especial para processar essas facturas electronicamente, e que passados poucos meses foram novamente forçados a adquirir a versão actualizada, tudo do seu bolso. Em muitos casos (e só aqui em Caxias, onde vivo, me lembro de dois, e podem ter sido mais), donos de “pequenos estabelecimentos comerciais” tiveram de fechar o seu negócio por não conseguirem comportar esses custos. Os liberais-em-nome-apenas que proliferam por aí dirão que um negócio que não tem dinheiro suficiente para custos desses é um negócio que não tem condições para existir, mas mostram apenas a sua ignorância: não percebem, primeiro, que esse pequeno negócio tinha pelo menos a vantagem de dar trabalho a pessoas que, sem ele, ficam desempregadas. E em segundo lugar, ignoram que quando o outro senhor austríaco falou de “destruição criativa”, falava dos negócios que desapareciam por causa do mercado, não devido à imposição artificial de barreiras à livre interacção das pessoas pelo Estado. A destruição promovida pela AT/ex-DGCI, como qualquer destruição provocada pela visível e pesada mão do Estado, é tudo menos “criativa”.

A “eficácia” do Fisco é, na realidade, muito pouco eficaz. Consegue cobrar mais, é verdade, mas cobra mais de forma indiferenciada, independentemente das pessoas efectivamente deverem ou não. Consegue cobrar mais, porque aterroriza os cidadãos a pagarem o que a AT/ex-DGIC lhes diz que devem antes de terem ainda mais complicações e para que não se arrisquem a ter de pagar ainda mais, por muito inocentes que sejam à partida. Consegue cobrar mais, não por actuar de forma mais “moderna”, mas por recorrer à brutalidade. Ao contrário do que David Dinis escreve, não há qualquer perigo de se “estragar o retrato”. Há muito que a pintura está já bem borrada.

VEM

O Governo anunciou, pela boca do Secretário de Estado Pedro Lomba (acerca de quem, qual Vladimir Putin, circulavam já rumores sobre a sua saúde, dado que há muito não nos agraciava com a sua presença), um programa de subsídios destinado a fazer regressar alguns dos emigrantes que tenham deixado este nosso belo e triste Portugal. Não deixa de ser uma curiosa medida: o mesmo Executivo que incentivou os “jovens” a serem empreendedores no estrangeiro quer agora que eles se transformem em rent-seekers no nosso país. No fundo, uma perfeita ilustração da natureza do Governo de Passos, Portas e Albuquerque.

Rússia entra na “Tyson Zone”

Sabemos que um país se transformou numa autocracia agressiva, perigosa e difícil de compreender (enfim, num regime que entrou na “Tyson Zone”) quando, como se de uma qualquer Coreia do Norte se tratasse, começam a surgir rumores acerca de problemas de saúde do seu líder:

Is Vladimir Putin hospitalized with a stroke? Rumors were flying fast and furious on Twitter last night, and the Interpreter has collected most of the circumstantial evidence here. The liberal radio station Echo Moskvy has a story leading its homepage noting that Putin has not been seen in public since March 6.

Pior era difícil

A crer no que se tem passado nos últimos dias, o debate político daqui até às eleições não vai passar do refrão “o meu é menos vigarista que o teu”. Falar-se-á dos “candidatos a Primeiro-Ministro” (e de Primeiros-Ministros passados) da forma como se discutem os presidentes de clubes de futebol. Se há coisa de que o país não precisava, era disto.

Invulgar

No seu artigo de hoje no Diário de Notícias, intitulado “Perfeitamente invulgar”, a jornalista Fernanda Câncio faz uma louvável análise das incongruências entre o retrato que Passos Coelho faz do seu passado e a realidade do seu percurso. O próprio artigo é um invulgar trabalho de jornalismo, pois é raro em Portugal investigarem-se seriamente estas questões. Fico assim a aguardar por um artigo similar da jornalista Fernanda Câncio acerca da gritante falta de consistência entre os rendimentos que José Sócrates dizia ter e a vida que ele levava até à sua detenção e prisão preventiva. Estou certo que o facto da jornalista Fernanda Câncio ter tido uma relação com José Sócrates, e de ter ido com ele em viagens pagas pelo dinheiro que ele canalizava através do “amigo” Carlos Santos Silva, não lhe retirará a objectividade nem a vontade de revelar a verdade.

A opinião de um especialista

Ao contrário de muitos, não fico indignado pela carta que José Sócrates escreveu ao Diário de Notícias, afirmando que o discurso de Passos Coelho nas Jornadas Parlamentares do PSD mostra como ele está “próximo da miséria moral”. Afinal, estamos a falar de alguém que, por experiência própria, sabe muito bem do que está a falar.

Uma simples lição

Para lá dos processos de intenções, do aproveitamento político e da exploração mediática, há uma simples lição a retirar desta polémica em torno das dívidas à Segurança Social de Passos Coelho e do alegado incumprimento fiscal de António Costa: independentemente das intenções honestas ou criminosas dos contribuintes, a natureza confusa e obscura dos regimes fiscais e “contributivos” (os que dão outro nome a “impostos” para que os incautos os julguem menos invasivos) só produz efeitos nocivos; permite às autoridades abusarem dos direitos dos contribuintes de forma a obterem mais receita, fazem com que cidadãos honestos quebrem inadvertidamente as regras, e permite aos desonestos explorar as zonas mais nebulosas da lei para escapar às obrigações que deveriam ser iguais para todos. Não é difícil perceber. Mas pelos vistos, é difícil de resolver.

Como está Portugal?

Já muita tinta e largura de banda foram gastas com as declarações de António Costa numa conferência com “investidores chineses” (o dr. Futre é que tinha razão), dizendo que estes haviam “ajudado” a que Portugal estivesse “na situação em que está, muito diferente daquela que estava há quatro anos”. Para dizer a verdade, gastou-se tinta e largura de banda a mais. O episódio mais não foi do que uma demonstração de como António Costa é, como já várias vezes eu disse, um Zelig político, um “camaleão” que fala de forma a que a audiência ouça o que quer ouvir. Infelizmente para ele, esqueceu-se que hoje em dia, com o YouTube, os blogues e “os twitters e o facebooks” (para citar o já mencionado dr. Futre), ninguém na posição do dr. Costa fala só para a audiência que está diante de si naquele momento em concreto, mas para uma audiência mais vasta, em qualquer lugar e em qualquer altura, e que o que se diz aos primeiros para lhes agradar pode ser visto por – e desagradar aos – segundos uns dias ou meses mais tarde.

A gaffe em si pouco justifica para além de uma graçola ou outra (um pequeno pecado a que eu próprio não resisti aqui e ali) e da aparição do merecidamente esquecido Alfredo Barroso a anunciar a sua desfiliação do PS, com o propósito de mostrar o seu desagrado com as declarações de Costa e de lembrar ao país que ainda percorre o mundo dos vivos. Mas talvez fosse bom que, deixando aos partidos e seus aguadeiros (uma área de actividade em que nunca há desemprego) a incumbência de prosseguir com o triste espectáculo a que a questão deu origem, algumas pessoas com um pouco mais de sensatez e outras preocupações se dedicassem a discutir quão diferente está o país, e em que medida a diferença é positiva ou negativa.

Ninguém contestará que o país está mais pobre do que estava em 2011, nem que muitas pessoas viram as suas condições de vida degradarem-se nestes últimos anos. Mas também ninguém pode com honestidade contestar que essa é em primeiro lugar uma responsabilidade do Governo anterior, que, liderado por alguém notoriamente perturbado e sem noção da realidade, deixou o país à beira do precipício. E este Governo teve pelo menos o mérito de evitar a queda por esse mesmo precipício abaixo. A pobreza e degradação das condições de vida que tiveram lugar ao longo destes anos teria sido muito pior se o programa de austeridade que o Governo de Passos Coelho executou e a que nos submeteu tivesse sido substituído pela austeridade da bancarrota e do caos que se lhe seguiria.

Mas, apesar de ser necessário reconhecer este mérito ao Governo de Passos Coelho, é também preciso perceber o problema que se esconde por detrás dele: desde o princípio, muito antes das polémicas com o Tribunal Constitucional, e muito antes do dr. Vitor Gaspar escrever uma carta fingindo ser um homem de princípios, que o Governo optou por combater a ameaça do precipício da bancarrota com aumentos de impostos e cortes da despesa pública sem qualquer reforma do Estado e da sua relação com os cidadãos nas áreas sob as quais alça os seus amplos tentáculos. Por outras palavras, desde o início que o Governo optou deliberadamente por manter intocado o estatismo que herdou, deixando-o apenas e só com menos dinheiro. Infelizmente, fê-lo ao mesmo tempo que usava e abusava de uma retórica “reformista”, cujo único resultado foi precisamente reduzir ainda mais do que já estavam reduzidas as condições políticas para se realizarem reformas efectivas no futuro.

Veja-se bem a triste sucessão de governantes e sua conduta política a que os infelizes cidadãos deste país tiveram o azar de ser sujeitos nos últimos anos: Durão Barroso entrou prometendo reformas e descidas de impostos, e saiu a meio para Bruxelas, com os impostos mais altos e nenhuma reforma concretizada. Depois do indescritível e breve interregno santanista, veio o “animal feroz”, que prometeu reformas e impostos mais baixos, e saiu da forma que se viu, com o país de rastos, com impostos ainda mais altos e a precisar de tantas reformas como precisava em 2005. E por último vieram Passos Coelho e Portas, com boas intenções e falta de vergonha, respectivamente, prometendo uma “reforma do estado” que até para pôr no papel foi complicada, quanto mais para fazer sair dele. Perante tão deprimente elenco de “reformadores” e resumo das suas “conquistas”, quem poderá culpar o comum português por duvidar da palavra e das intenções de quem no futuro lhe venha a pedir reformas?

Desde a fatídica noite em que o engenheiro Guterres resolveu abandonar o convívio com os seus concidadãos para evitar que Portugal se transformasse num pântano, todas as promessas de “reformas” e de “combate” aos “interesses estabelecidos” (ou como diz um amigo meu, num tom quase encantatório de conto infantil, “os poderes que são“) traduziram-se na manutenção de tudo aquilo que fora identificado como problema. Ao fim de 13 anos de “crise” permanente, a carga fiscal continua a aumentar, sem nunca conseguir ser suficiente para cobrir as despesas a que o Estado se obriga, criando assim anualmente os défices que geram a malfadada dívida que enche os debates entre quem tem pouco para dizer. Para sair da crise, serão mesmo precisas uma série de reformas, com custos difíceis de suportar para algumas pessoas e que trarão um elevado grau de incerteza a muitas outras. Depois de 13 anos a ouvir os “responsáveis” políticos a “pedir sacríficios” em nome de “reformas” que não mudaram nada, dificilmente os portugueses acreditarão que quem o venha a fazer no futuro possa querer mais do que justificar com bons sentimentos o enriquecimento dos tais “poderes que são” – e que aparentemente nunca deixam de ser. Claro que sobre esta embrulhada e como a ultrapassar, António Costa não diz nem dirá uma singela palavra, quanto mais não seja porque não pensa fazer nada de substancialmente diferente do que tem sido feito até agora. E provavelmente, porque talvez nem sequer perceba o problema.

Pensemos na bola

Champions-League-BallA ver o Juventus-Borussia, a senhora minha mãe pergunta: “isto é para quê?”. Disse-lhe “para a Liga dos Campeões”. Senti-me tentado a responder “como qualquer outra coisa nesta vida, no fundo não é para nada. No fim, acabamos todos empatados debaixo do chão”, mas achei que era demais.

A carta das reformas gregas

Parece que a carta do governo grego delineando as reformas necessárias para que o “Eurogrupo” aprovasse o prolongamento do empréstimo ao país foi redigida, não pelo próprio governo grego, mas pela Comissão Europeia. Ou seja, a ser verdade* Tsipras e Varoufakis estão tão desesperados pela obtenção de financiamento e/ou tão pouco interessados em cumprir o que quer que seja com que se comprometam, que estão dispostos a abdicar da sua autonomia na definição de quais os compromissos a estabelecer como contrapartida para a obtenção desse financiamento. O resultado final não vai ser bonito para ninguém.

*No facebook, o meu amigo Rodrigo Vaz nota que não sabemos se isto é verdade ou não, e por isso eu não deveria ter escrito isto sem este “a ser verdade”, tomando uma hipótese como um facto. Ele tem toda a razão, e por isso mesmo editei o texto para corrigir esse erro.

Insistências

Na Lisbon Summit 2015, Maria Luís Albuquerque volta a insistir que “os impostos são demasiado altos” mas “para podermos baixar os impostos temos de controlar a despesa, pois temos de aumentar os impostos na medida em que é necessário para se poder pagar a despesa prevista no Orçamento. Caso contrário, estaríamos a aumentar a dívida”. Ou seja, insiste na desonestidade de esconder que a despesa pública vigente decorre de uma escolha política sua. Por isso mesmo, eu insisto que estas declarações da Ministra das Finanças são uma admissão do seu falhanço como governante, e algo que a deveria desqualificar do exercício de outras funções a que ela aspira.

Louçã e o Financial Times sobre a Grécia

No inenarrável programa que é o Prós e Contras, em que José Manuel Fernandes fala de coisas sérias sobre a arquitectura política da União Europeia, e Fátima Campos Ferreira o interrompe para fazer questões menores acerca do Syriza, Francisco Louçã acaba de dizer que o Financial Times diz que a Grécia tem de reconverter a sua dívida. Ora, ainda há bem pouco tempo, o Financial Times publicou artigos (como este), dizendo que a dívida grega não é tão insustentável assim, e que até tem custos com o “serviço da dívida” menores que outros países, como Portugal, por exemplo. Infelizmente, Fátima Campos Ferreira, que tanto gosta de interromper os seus convidados, não o confrontou com este pequeno pormenor.

Inherent Vice

A partir do momento em que a “ex-old lady” do detective privado Larry “Doc” Sportello (Joaquin Phoenix), de seu nome Shasta Fay-Hepsworth (Katherine Waterston), lhe entra pela casa dentro numa noite de 1970, é difícil de saber o que se está a passar em cada uma das cenas subsequentes de Inherent Vice, o mais recente filme de Paul Thomas Anderson, baseado no romance homónimo de Thomas Pynchon. Com “uma pesada combinação de ingredientes faciais” que “Doc” não é capaz de interpretar, Shasta conta-lhe que a mulher do homem – Michael Wolfmann (Eric Roberts) – com quem está envolvida e o amante desta a querem envolver num esquema para roubar o dinheiro de Wolfmann e interná-lo num hospício. Nas duas horas e meia de filme que se seguem, e à medida que o mistério se adensa na nuvem de fumo dos charros de “Doc”, há de tudo: Sortilège (Joanna Newson), a hippie com um “minor” nos “clássicos” e que serve de narradora ao filme; “Bigfoot” Jensen (Josh Brolin), o “polícia renascentista” “com um brilho nos olhos que diz ‘violações dos direitos civis’ que odeia o FBI ainda mais que os praticantes do “estilo de vida” de “Doc”; um judeu que confranterniza com a Aryan Brotherhood; um ex-presidiário membro de um gangue chamado The Black Gorilla Family; uma casa de “massagens” (daquelas com “finais felizes”); uma ex-dependente de heroína chamada Hope (Jena Malone) à procura do marido morto que ela acha estar ainda vivo, uma socialite adúltera e o seu “conselheiro espiritual”; uma ciumenta procura-adjunta do Ministério Público; agentes do FBI de dúbio carácter, uma misteriosa entidade chamada “The Golden Fang“; uma não menos misteriosa “beldade oriental”; um agente infiltrado ao serviço nem ele sabe muito bem de quem; antigos actores na Lista Negra de Hollywood; uma banda chamada Spotted Dick; um cartel de heroína indochinês; “polícias demasiado estúpidos para viver e polícias demasiado espertos para o seu próprio bem”; um rabo de saias filmado como tal por P.T.A com “uma preferência” pela companhia simultânea de dois homens diferentes; uma cooperativa de dentistas; filhas que fogem dos pais; “loan sharks”; hospícios mais preocupados em fazer lavagens ao cérebro do que em curar a atormentada psique dos seus pacientes; e, como não poderia deixar de ser, teorias da conspiração mais vastas que os espaços recônditos da mente aos quais certas substâncias em voga na altura supostamente davam acesso. O que não parece haver é uma linha inteligível que una isto tudo.

Nem poderia haver. Inherent Vice é um filme que se desenrola a partir do ponto de vista de “Doc”, e tendo em conta que ele está constantemente “pedrado”, o que nós vemos faz tão pouco sentido para nós como para ele. “Doc” está permanentemente a anotar coisas como “paranoia alert” e “not hallucinating“, ou com dúvidas acerca de se uma empregada de limpeza mexicana o é realmente ou se será antes uma espécie de “espiã” de quem ele está a investigar. Ele não consegue deixar de pensar que todos os mais insignificantes detalhes com que se vai deparando estão todos ligados numa “integração vertical” de “evil-doing” que só ele consegue ver, nem de ao mesmo tempo temer que a única ligação que existe é a que a sua imaginação constrói. E nós somos atirados para o meio dessa confusão, deixados tão ou mais desorientados que ele.

E no entanto, no meio da loucura, há algo a que nos agarrar. No meio de um enredo aparentemente incoerente, Inherent Vice está cheio de coisas profundamente andersonianas, pequenos faróis para nos orientar no meio do nevoeiro alucinogénico do filme. Logo em primeiro lugar, a proximidade espiritual a Robert Altman: todo o filme parece ser uma espécie de “revisitação” e homenagem a The Long Goodbye. Em segundo lugar, há também os oníricos flashbacks malickianos a que Anderson recorrera em The Master e a que a presença e adorável cara de Waterstone dão outro encanto aqui.

Mas não é apenas no uso constantemente de referências dos seus realizadores preferidos que Inherent Vice se assemelha aos anteriores filmes de Anderson. Como em Magnolia ou Punch-Drunk Love, a Califórnia surge aqui como uma estranha terra onde acontecem coisas estranhas aos seres humanos cujo destino foi lá viver, como se todo um pedaço de terra estivesse “pedrado” e a viver numa realidade só perceptível com o consumo de substâncias ilegais. Como em quase todos os filmes de Paul Thomas Anderson, Inherent Vice dá um triste fim a quem alguma vez tenha feito algum mal a uma criança. E como todos os filmes de Anderson, de Hard Eight a The Master, passando por Boogie Nights, Magnolia, Punch-Drunk Love e There Will Be Blood, também Inherent Vice é um filme sobre pessoas à procura de saber como devem viver, à procura de uma resposta acerca de qual a conduta correcta, qual a melhor forma de agirem uma vez que os problemas com que se deparam surgiram à sua frente: tal como em Magnolia Anderson nos fazia ouvir a voz de Jim Kurring a dizer o quão difícil era saber se o que cada uma das pessoas com que se cruza no seu dia de trabalho como polícia precisa é de “um pouco de ajuda” e um “pouco de perdão” ou de “irem para a prisão”, também em Inherent Vice nos põe a ouvir Shasta perguntar a “Doc” o que deve fazer, ou este à procura de saber qual vai ser “a coisa” que o vai deixar sem dormir à noite, para a poder corrigir.

Afinal, por detrás da confusão, das personagens alucinadas e do enredo inacreditável, Inherent Vice é apenas um filme sobre pessoas com saudades, seja de um tempo pré-Charles Manson em que a Califórnia parecia ser um paraíso, seja de alguém que as deixou. Tal como todos os filmes de Paul Thomas Anderson, Inherent Vice é um filme sobre pessoas à procura de alguma forma de redenção. É um filme sobre solitárias almas perdidas, à procura de voltarem para junto de algo que as ancore a este mundo, seja isso um velho barco que “é mais do que um barco”, o marido julgado morto, o antigo colega de trabalho, a mulher e a filha há muito afastadas, ou, como no caso de “Doc”, o porto não-muito-seguro de Shasta, ora perto ora longe, mas sempre no seu coração e pensamento. Mas como diz Sortilège em voice-over, servindo não tanto de narradora como de coro ao estilo dos antigos em que ela é versada, “yet there is no avoiding time, the sea of time, the sea of memory and forgetfulness, the years of promise, gone and unrecoverable, of the land almost allowed to claim its better destiny, only to the claim jumped by evildoers known all too well, and taken instead and held hostage to the future we must live in now forever.” “Does this mean we’re back together?“, pergunta Doc a Shasta. Ela dá-lhe uma resposta, uma que talvez ele já conhecesse mas quisesse ouvir vinda “de uma voz que não a sua”. Ou talvez uma resposta que ela não tem forma de saber se é verdadeira. “May we trust this blessed ship is bound for some better shore, risen and redeemed, where the American fate mercifully failed to transpire“, diz Sortilège. Mas o quer que seja que “Doc” acredite acerca do seu destino, será sempre algo de que ele duvidará, como acontece com tudo o resto no filme. E porque os olhos dele são também os nossos, o mesmo acontecerá connosco.