O Insurgente

Maio 12, 2012

A propósito de “oportunidade”, Passos Coelho perdeu uma de estar calado

Filed under: Comentário,Economia,Política,Portugal — Bruno Alves @ 18:52

Anda por aí muita falsa indignação com as declarações de Pedro Passos Coelho sobre o desemprego. O que é pena, porque o que não falta nelas (ou pelo menos, naquilo que delas as televisões deram a conhecer) são motivos para que essa indignação fosse genuína. Consta que o Primeiro-Ministro terá “pedido aos portugueses” que adoptassem uma “cultura de risco” e que encarassem o desemprego “como uma oportunidade de mudarem de vida”. Percebo o que Passos Coelho quer dizer. E teria toda a razão em dizê-lo se Portugal se pudesse orgulhar de uma economia, como se diz agora, “dinâmica”. O problema é que não é esse o caso.

Em Portugal, na conjuntura actual, perder o emprego não abre qualquer oportunidade. Cria, apenas e só, dificuldades. O problema do desemprego em Portugal só com muita má vontade poderá ser descrito como um de uma série de gente com “falta de iniciativa” que prefere ficar em casa a “arriscar”, recebendo subsídios em vez de um salário. Na realidade, com empresas a fecharem, dificuldade em contratar, e uma incerteza quanto ao dia de amanhã maior do que as contas bancárias, encontrar um novo emprego não é uma questão de vontade e “iniciativa”, é quase um milagre. E claro que algumas dessas pessoas poderiam “arriscar” abrir o seu próprio negócio. Mas por muita “cultura de risco” que se possa ter, para abrir um negócio é preciso também dinheiro. E quem é que vai conseguir obter um empréstimo nas circunstâncias actuais? e que perspectivas é que há de que esse negócio possa ser bem sucedido?

Para além de que realmente muita gente não tem qualquer possibilidade de “arriscar”. Seria importante que Passos Coelho não se esquecesse de que, quando fala do desemprego em Portugal, está a falar em grande medida de uma série de pessoas que não viram apenas o seu emprego a desaparecer – antes viram desaparecer toda e qualquer perspectiva de de exercerem qualquer actividade. Pessoas que trabalhavam em indústrias que perderam por completo toda a sua competitividade com o exterior, que se tornaram obsoletas, que nunca mais regressarão ao nosso país; e pessoas que não têm (no horrível termo burocrático dos nossos dias) “competências” para procurarem empregos noutras áreas; ou que por terem 40, 45, 50 ou mais anos, são consideradas demasiado velhas por “empreendedores” como os que enchem os discursos de Passos Coelho; que, pura e simples, foram deixadas para trás pelo andar da carruagem. Essas pessoas, mudaram mesmo de vida. Mas essa mudança foi efectivamente uma tragédia para elas, e não lhes abriu qualquer oportunidade.

Mas se Passos Coelho quer realmente que os portugueses vejam o desemprego como uma oportunidade, tem bom remédio. Porque é dele e dos seus colegas de Governo que isso depende. A única forma de o desemprego deixar de ser, para muita gente, algo de permanente, mas apenas algo de temporário, e dee as pessoas procurarem aproveitar as oportunidades que lhes possam surgir e criar as que não estão imediatamente ao seu alcance, é o Governo realizar uma série de reformas que até agora ainda não passaram do papel, ou nem sequer nele foram escritas. Quando for mais fácil contratar, quando as empresas e as pessoas puderem canalizar as suas receitas para o investimento em vez de para o pagamento de impostos, quando criar uma empresa deixar de ser um pesadelo e a economia for realmente “dinâmica” o suficiente para o risco que as pessoas correm possa valer a pena.

Mas para isso, o Governo terá de, em vez de se limitar a fazer discursos, realmente fazer essas reformas. Até lá, as únicas oportunidades que existem são as que Passos Coelho perde de estar calado.

Maio 9, 2012

“You can’t always get what you want”

É extraordinário como ainda há quem seja capaz de ter entusiasmos destes. Um político francês ganha umas eleições (alguém tinha de as ganhar), e por esse mundo fora não falta quem pareça acreditar que chegámos a uma espécie de Terra Prometida. No domingo, essa totémica figura intelectual que dá pelo nome de Marcelo Rebelo de Sousa dizia que a partir de agora, “a Europa vai ter de olhar para o crescimento”. E nas páginas do New York Times, Paul Krugman anunciou que a chegada de Hollande ao poder aumenta as hipóteses de sobrevivência do Euro e do “projecto europeu”. Já com Obama abundaram arrebatamentos deste género, mas o homem era dado a proclamações salvíficas e possuía uma retórica suficientemente vaga para que ninguém pensasse muito sobre o que ele dizia. Hollande, no entanto, não consegue dizer três palavras sem se adormecer a si próprio, e faz promessas que deixam bem claro que ou não tem consciência da realidade ou mente de forma descarada. Nenhuma delas uma característica particularmente redentora.

Hollande ecoa o discurso muito em voga de que é preciso deixar a “aposta” na “austeridade” e “virarmo-nos” para o “crescimento”. Como se houvesse uma opção. Como se a “austeridade” fosse uma escolha. Como se bastasse querer “crescer” para o conseguir. Mas ao contrário do que muitas pessoas parecem pensar, não há ninguém que defenda “políticas de empobrecimento”. A “austeridade” que de facto nos empobrece não é uma escolha, algo a que se possa “pôr fim” por decreto e voluntarismo.

É estranho como as pessoas parecem crer na capacidade de um governo (nenhum em particular, mas a entidade abstracta) para resolver problemas. Na realidade, os governos são um animal dos mais impotentes que existem à face da Terra. Estão limitados pelas acções de outros governos, pelas acções de simples indivíduos cujos resultados não controlam, e acima de tudo pelas circunstâncias. Nenhum governo escreve numa folha em branco. E nas circunstâncias actuais, é impossível acabar com a “austeridade”. Com cortes de impostos ou cortes da despesa, com aumentos de impostos ou aumento do “investimento público”, os europeus em geral e os portugueses em particular vão continuar a empobrecer. Qualquer “aposta” no “crescimento” dificilmente será bem sucedida.

O que Hollande propõe, e que tanta esperança alimenta nos que excitadamente acolheram a sua eleição, é atirar dinheiro para a economia. O problema é que o dinheiro custa dinheiro. Para “investir”, o Estado precisa ou de cobrar mais impostos, que dificultarão a vida à classe média e que mais depressa farão fugir os ricos do que fazê-los pagar mais, ou se endividar. E quem é que emprestará dinheiro a Estados já excessivamente endividados, numa conjuntura como a actual, a não ser com juros quase proibitivos? Basicamente, estar-se-ia a repetir o erro das últimas décadas, alimentando uma falsa prosperidade hipotecando o futuro cada vez mais.

É claro que há um outro sítio ao qual os Estados podiam ir buscar dinheiro. Ao contrário do que a sabedoria popular nos ensina, o dinheiro até cresce nas árvores. Apenas quanto mais se colhe, menos valor ele tem. Se os governos quiserem (e querem sempre) “injectar” dinheiro na economia, basta pedirem aos Bancos Centrais para o imprimirem. É o que Hollande tenciona fazer, e certamente que o BCE terá ouvidos receptivos para o Eliseu. E como que por milagre, haverá mais dinheiro a circular. Mas esse dinheiro valerá menos. O pouco que as pessoas comuns conseguiram poupar valerá menos. Os que ainda vão recebendo um salário irão ver esse salário representar menos poder de compra. Haverá mais dinheiro, mas o empobrecimento será maior.

O melhor que os governos têm a fazer, nestas circunstâncias, é garantir que a “austeridade” não se venha a repetir no futuro. É garantir que políticas como as que nos conduziram até aqui são definitivamente abandonadas. É garantir que no futuro as pessoas não tenham que abdicar de metade do que ganham para alimentar um Estado que nem assim paga tudo o que deve, e que a única coisa que lhes dá em troca é um aumento de impostos de seis em seis meses. Mas para isso, será preciso reformar profundamente os sistemas públicos de Segurança Social, os sistemas públicos de Saúde, os sistemas públicos de Educação. Na prática, isso traduzir-se-á em fazer com que um número significativo de pessoas paguem mais por eles. A longo prazo, será a melhor opção para todos. Mas a curto prazo, significará também o empobrecimento dessas pessoas. É triste, mas é verdade.

Ninguém mais do que eu gostaria que as políticas dos governos, fossem as de Obama, as de Passos Coelho, as de Hollande, as de Merkel ou as de qualquer um outro, fizessem com que eu pudesse olhar para o futuro e ver outra coisa que não a desgraça que todos tememos estar aí à porta. O problema está em que a “austeridade” não foi uma escolha feita em detrimento do “crescimento”, por perfídia de uns senhores de índole duvidosa que ocupam o poder. “Crescimento” todos queremos. Mas infelizmente, como sabiamente dizia o filósofo Jagger, “you can’t always get what you want”.

Maio 7, 2012

“Aló Presidente”

Filed under: Comentário,Humor,Internacional,Media,Política — Bruno Alves @ 21:13

Um artigo sobre o programa de Hugo Chávez na televisão venezuelana:

The driving principle behind “Aló Presidente” is that the revolution will be televised, at great length. We follow Chávez as he visits housing projects, cuts ribbons at factory openings and expropriates businesses and private property “owned by the bourgeoisie” for the state. “Expropriate it!” is Chávez’s catchphrase, his version of “You’re fired!” When he points at a building and says, “Exprópiese!” it’s always a cue for applause from his followers.

Maio 6, 2012

Au revoir, Sarko (3)

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 19:38

Mas, apesar de tudo (vitória de um socialista, possível exílio europeu para Sarkozy), é sempre bom ver um político-molusco como o homúnculo do Eliseu a ser derrotado.

Au revoir, Sarko (2)

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 19:32

O pior da derrota de Sarkozy até nem é a vitória de um socialista: é mesmo o facto de isto o libertar para daqui a uns anos ir para a Presidência da Comissão Europeia.

Au revoir, Sarko

Filed under: Diversos — Bruno Alves @ 19:20

A derrota de Sarkozy é uma péssima notícia para as revistas cor-de-rosa.

Maio 5, 2012

Satisfação

Filed under: Comentário,Justiça,Política,Portugal — Bruno Alves @ 22:03

O sentimento não é bonito, eu sei. Mas não consigo evitá-lo. O Automóvel Clube de Portugal entendeu fazer uma queixa-crime contra alguns ex-ministros do Governo então liderado por José Sócrates, por gestão danosa dos contratos das SCUT’s, e eu, de forma vergonhosamente pouco cristã, encho-me de satisfação. Já há alguns meses, quando foi anunciado que vários Ministros e Secretários de Estado desse mesmo Governo estavam a ser investigados por variadas práticas duvidosas, tinha tido a mesma reacção. Bem sei que neste país a probabilidade de algum destes processos ter outro resultado que não serem entregues a Cândida Almeida e ficarem para sempre num estado de permanente esquecimento é bastante limitada. Mas só o facto de haver uma mínima possibilidade de ver os elementos do bando que nos “governou” nos últimos anos a terem de lidar com todos os “incómodos” associados à forma como a justiça portuguesa funciona, desde a sua morosidade aos abusos que comete, é algo que sinceramente me alegra.

Janeiro 20, 2012

Natalie Portman e as formas (de governo)

Filed under: Comentário,Política,Portugal,Teoria — Bruno Alves @ 22:37

De atenienses apreciadores de sodomia “man on boy”, a suíços negligenciadores da prole, passando por fazendeiros americanos donos de escravos, durante séculos a questão de “qual a melhor forma de governo?” atormentou os mais variados filósofos. Uns preferiam o “filósofo rei”, outros o “governo do povo”, outros uma estranha combinação a que deram o nome de “governo representativo”. Insatisfeitos com a resposta de pensadores que dedicaram a sua vida a pensar sobre o problema, académicos portugueses decidiram buscar iluminação no povo português. Num estudo recentemente divulgado, 56% dos inquiridos responderam que a democracia era “preferível” a qualquer forma de governo. Mais ou menos a percentagem de pessoas que passa a vida a queixar-se dos políticos que eles próprios elegem. 15% das pessoas, no entanto, afirmaram que “em algumas circunstâncias”, um governo autoritário seria preferível. Estas pessoas têm em tão pouca conta a sua opinião, que são da opinião de que ela não deve contar para nada, e acham importante dizê-lo apesar de acharem que ninguém os deve ouvir. Coisas da democracia que abominam.

O problema de qual o melhor regime possível é apenas uma questão das muitas que se podem colocar acerca do governo dos homens, e para dizer a verdade, uma que pouco me entusiasma (entusiasmos, só os tenho de cada vez que vejo Natalie Portman). Quanto perguntamos “qual a melhor forma de governo?”, estamos a perguntar quem é que deve governar, sem colocarmos a questão de o quê é que o governo deve fazer: estamos a dizer quem é que deve tomar a decisão, e não qual é que deve ser a tal decisão. E ao contrário do que os sodomitas e os negreiros (para não falar no desprezível suíço abandonador de crianças) nos poderiam levar a pensar, o número de pessoas que toma a decisão dificilmente melhora ou piora a qualidade da dita.

Se há coisa que a História da Humanidade (ou este texto) nos mostra, é que a estupidez humana não tem limites. Ela abunda na espécie, e em cada um dos seus membros individualmente, passando de geração em geração. Todos tomamos decisões erradas, todos fazemos asneira. Alguns senhores nas terras da velha Pérsia dirão que esse problema é resolvido pela sua forma de governo directamente proveniente de um tal de Allah, mas até Deus, caso exista (coisa de que duvido), comete os seus pequenos erros (o maior deles, obviamente, o de não ter assegurado que Natalie Portman se apaixonasse por mim). Por isso, seja qual for a forma de governo, a decisão acerca de o que é que o governo deve fazer será muitas vezes errada. A estupidez irá comandar, independentemente do número de pessoas a exercê-la. A democracia representativa apenas garante que todas as formas de estupidez serão ouvidas. E dá a oportunidade de ao fim de uns anos, corrigir a que tiver sido seguida, mesmo que estupidamente ninguém aproveite essa oportunidade: nenhuma estupidez será descriminada.

É por isso que as respostas mais sensatas ao inquérito do estudo foram as das cerca de 26% de pessoas que disseram que “não sabiam” ou que eram “indiferentes” à questão de qual é a melhor forma de governo. Porque realmente, há coisas mais importantes sobre as quais pensar: o que deve o governo fazer, por exemplo. Ou, quem sabe, na Natalie Portman. É o que eu faço, pelo menos.

Janeiro 17, 2012

“Forget austerity, sovereign debt and the euro. Europe has a much deeper problem”

Artigo do New York Times sobre a crise nos países europeus:

“Europe is undergoing not one but two simultaneous economic crises. The first is a rapid, obvious one — all about sovereign debt, a collapsing currency and austerity measures — that we hear about all the time. The second is insidious but more important. After decades of trying, Europe as a whole still can’t quite figure out how to be flexible enough to compete in the global economy.”

Dezembro 17, 2011

“The dream is collapsing”

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 22:48

Amanhã, o Governo vai reunir-se “informalmente” e, segundo consta, anunciar uma série de medidas a serem tomadas no próximo ano. António José Seguro, por sua vez, prosseguiu hoje o seu esforço hercúleo de não passar um singelo dia sem dizer uma barbaridade. Resolveu o líder do PS deixar um “pedido” a Passos Coelho: que ponha “fim à austeridade”. Diz Seguro que amanhã o Governo terá a “oportunidade” de anunciar medidas que promovam o emprego e o crescimento, “oportunidade” essa que, presume-se, não deve ser desperdiçada. Infelizmente, o Governo não tem qualquer “oportunidade” para tal. Seguro, aparentemente, ainda não se apercebeu da triste realidade que este país terá de enfrentar: nos próximos (longos) tempos, Portugal não terá qualquer “oportunidade” de “crescer” ou de pôr fim à austeridade.

Durante anos (para não dizer décadas), nós portugueses quisemos ser “como os outros”: quisemos viver como se vivia “lá fora”, porque, afinal, “isto” era “o século XX” (e depois o XXI). Rapidamente nos deparámos com um pequeno problema: não éramos como os outros. Mais concretamente, não éramos tão ricos como os outros. Uma injustiça, obviamente. O problema também rapidamente foi resolvido: se não havia dinheiro, pedia-se emprestado; se não temos tanto dinheiro como “eles”, usemos o “deles”; e desde que “acreditemos” em “nós”, que até “fizemos” os Descobrimentos, um dia conseguiremos ser efectivamente ricos.

Durante anos, vivemos nesta ilusão. Até ao dia em que, como no filme do outro senhor, o sonho entrou em colapso: o endividamento era de tal ordem, que, especialmente numa conjuntura de crise financeira internacional, ninguém nos quis emprestar mais a não ser a preços proibitivos. A partir desse momento, Portugal deixou de poder viver como “os outros”, sem sermos como “eles”. A partir de agora, os portugueses vão ter de viver como realmente são. E, pelo menos por enquanto, são pobres.

A “esperança” que Seguro pede que seja dada aos portugueses é impossível, e a “austeridade” contra a qual ele constantemente se manifesta é apenas a realidade que tentámos esconder no passado. O empobrecimento dos portugueses é tudo menos uma coisa positiva, e o Governo tem como responsabilidade criar as condições para que no futuro seja possível sair dele; mas o empobrecimento é apenas a reposição da normalidade, uma correcção do estado de falsa prosperidade que julgámos ser real. Seguro pode dizer o que quiser (e infelizmente para todos nós, ele aparenta querer dizer muita coisa). Passos Coelho é que não pode dizer que a austeridade vai chegar ao fim, porque ela ainda agora começou. Com estas medidas ou com outras, com cortes na despesa ou cortes na receita, com “troika” ou sem “troika”, com euro ou sem euro, os portugueses vão empobrecer. Quem disser o que Seguro pede ao Governo que diga, ou mente ou não vive neste mundo.

Dezembro 15, 2011

Um génio

Filed under: Comentário,Economia,Política,Portugal — Bruno Alves @ 21:22

Pedro Nuno Santos, um deputado da Nação que a Nação desconhecia, declarou ao mundo que tem para com os credores do país mais ou menos o mesmo sentimento que Eduardo Ferro Rodrigues nutria pelo segredo de Justiça: o deputado do PS disse que se está “marimbando para os bancos alemães que nos emprestaram dinheiro nas condições em que nos emprestaram”. Segundo o dr. Santos, Portugal tem uma “bomba atómica” que pode “usar na cara dos alemães e dos franceses”: exclamar em fervor patriótico “ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos a dívida”.

Na cabeça deste senhor, mal tais palavras saiam da boca do governo pátrio, “as pernas dos banqueiros alemães até tremem”. Infelizmente, as dos portugueses também tremerão, mas de fraqueza, causada por manifesta falta de nutrição. Não ocorre ao dr. Santos que, a partir do momento em que Portugal não pagasse a sua dívida, seriam os portugueses quem mais sofreria. Não ocorre ao dr. Santos que, se Portugal não fizer um esforço para dar confiança aos seus credores, ninguém nos empresta mais dinheiro, e o país ficará num estado ainda mais precário do que aquele em que o seu antigo chefe Sócrates a todos nos deixou. O dr. Santos não se deixa amedrontar por tais cenários: ele não quer colaborar no “servilismo” dos “políticos europeus” para com “os mercados”, porque acha que “em primeiro lugar” está a defesa dos “interesses nacionais”: o dr. Santos não se preocupa com as consequências de isolar Portugal do mundo, mantendo o país longe de poder pedir dinheiro emprestado durante sabe Deus quantos anos, condenando os indígenas a uma pobreza que nunca julgaram ser possível nos nossos dias, desde que não sejamos “servis” perante “os mercados”. É um génio, o Dr. Santos.

Novembro 2, 2011

A crise grega explicada

Filed under: Comentário,Economia,Humor,União Europeia,Videos — Bruno Alves @ 23:09

Agosto 20, 2011

Estranhezas

O Presidente da República, Cavaco Silva, foi à sua página do Facebook (há que ser moderno e “jovem”) mostrar o seu desacordo relativamente à proposta (chamemos-lhe assim, para não ferir susceptibilidades), feita por Merkel e Sarkozy, de que os países da zona Euro adoptem limites constitucionais ao endividamento e aos défices públicos. Disse o Presidente que tal ideia era algo de “teoricamente muito estranho”. A posição de Cavaco, essa sim, é bastante estranha. Em primeiro lugar, porque o Presidente nunca se pronunciou contra o já velhinho e esquecido PEC, que mais não era que a imposição de um limite ao endividamento e défices públicos dos países da zona Euro. Certo que os limites não estavam inscritos nas Constituições, e que o PEC começou a ser esquecido ainda antes de ser velhinho (por alguma razão chegámos onde chegámos). Mas constituiam uma mesma limitação dessas mesmas “variáveis” que tanto parecem incomodar agora Cavaco. Em segundo lugar, porque durante meses, durante anos, Cavaco Silva nos tem dito que “é preciso mais Europa”, que precisamos de “mais União”, e toda essa série de lugares comuns que ele tanto gosta de partilhar com quem tem o azar de não conseguir mudar de canal antes de ele começar a falar. O que é que será que Cavaco pensava que seria essa tal “maior União”, que não maior poder para aqueles que a pagam? Que não a imposição de limites à festa dos países menos “teoricamente estranhos” por parte dos que a andaram a pagar, e que mais pagarão quanto maior for a tal “União”? Ou será que aquilo que Cavaco andava a pedir era que os contribuintes alemães continuassem alegremente a pagar o nosso estilo de vida? Aparentemente, para Cavaco, “mais União” significa “mais dinheiro” de países que não fazem asneira a ser distribuído para países que o gastam como se não houvesse amanhã. Assim, em vez de explicar aos portugueses que, aconteça o que acontecer, a festa já acabou, e nunca mais vai recomeçar, Cavaco parece mais interessado em alimentar-lhes a ilsuão de que, mais uma vez, alguém nos irá ajudar, mesmo que ninguém pareça muito interessado em fazê-lo, ou seja sequer capaz de o conseguir. Uma posição que, na realidade, não devia supreender. Afinal o homem, avisou-nos ele, não se “resigna” ao estado a que o país chegou. Nem que para isso tenha de se alhear por completo da realidade. Só acho “estranho” é que o Presidente não perceba que, daqui para a frente, a realidade não vai deixar que nos alheemos dela.

Agosto 12, 2011

A Alemanha e a crise

Filed under: Economia,Humor,Internacional,Política,Portugal,União Europeia — Bruno Alves @ 22:04

Artigo de Michael Lewis na Vanity Fair:

“With Greece and Ireland in economic shreds, while Portugal, Spain, and perhaps even Italy head south, only one nation can save Europe from financial Armageddon: a highly reluctant Germany. The ironies—like the fact that bankers from Düsseldorf were the ultimate patsies in Wall Street’s con game—pile up quickly as Michael Lewis investigates German attitudes toward money, excrement, and the country’s Nazi past, all of which help explain its peculiar new status.”

Julho 23, 2011

Eleições no PS

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 22:16

Parece que é hoje que se ficará a saber quem é o novo líder do PS, se António José Seguro, se Francisco Assis. Apenas não percebo por que razão foi preciso esperar até ao fim de hoje para se apurar os resultados. É verdade que o acto eleitoral só termina hoje à noite, mas pelos vistos os votos já estavam todos dentro das urnas antes mesmo de este começar, talvez se pudesse ter acelerado o processo.

Junho 30, 2011

Justiça lhe seja feita

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 16:24

Ao contrário do que fazia José Sócrates, Pedro Passos Coelho responde às perguntas que lhe são feitas. Concorde-se ou não com o que homem diz, ao menos ele não trata as pessoas como parvas.

Junho 5, 2011

Passos Coelho terá de governar para não ser reeleito

Para Pedro Passos Coelho e para o PSD (e muito provavelmente para Portas e o CDS/PP), o pior está ainda para vir. Não há, realisticamente, nenhuma perspectativa de que as coisas fiquem “melhores” para o país. É preciso que a implementação do programa acordado com o FMI e a UE corra de forma imaculada, que tudo seja feito a tempo e horas (e que seja mesmo feito), e depois, esperar que obtenha os resultados que se espera obter, coisa que muito boa gente diz não ser possível. O Governo precisa de ser perfeito, coisa que não será, e mesmo que fosse, precisaria ainda muita sorte e de uma conjuntura muito favorável. O optimismo que o “eng.” José Sócrates tanto gostava de ver nos portugueses tornou-se uma impossibilidade. É por isso mesmo que passos Coelho e o próximo governo não podem pensar em ser reeleitos. Ninguém vai ficar contente com o que sucederá nos próximos anos. A probabilidade do PSD ser derrotado nas próximas eleições é muito grande. Por isso mesmo, mais vale que governe bem. Já que não pode governar para ganhar eleições, já que não pode governar para bem dos interesses eleitoralistas do “aparelho”, que governe para bem do país. E governar para bem do país é governar, não para escapar às dificuldades que se avizinham, não para adiar e fugir às reformas que nos exigem que façamos, mas para que não tenhamos de voltar a passar por dificuldades semelhantes, para que nunca mais tenhamos de fazer reformas que nos custem tanto a fazer, para que o país não volte a cair no erro de viver de ilusões durante mais de uma década. Passos Coelho tem de perceber que uma derrota em 2015, nas próximas eleições, não tem forçosamente de ser um sinal de que fracassou. Se assim o quiser, pode ser um sinal de que governou bem, de que teve a coragem para fazer as reformas que ninguém quer que se façam, mas de que todos nós precisamos. Sempre tive dúvidas de que Passos coelho percebesse isto. Espero muito sinceramente estar enganado.

Alívio

Há uns anos, quando era comentador no Jornal da Noite da SIC, o dr. Santana Lopes partilhava com os telespectadores o seu “estado de alma”: ora estava “animado”, ou “desiludido”, ou outra coisa qualquer (eu ansiei sempre por que ele dissesse que estava f*****, mas infelizmente ele nunca me satisfez). Eu hoje estou “aliviado”. Sempre fui céptico em relação ao PSD de Passos Coelho, por razões que os leitores do Insurgente conhecerão. Não alimento grandes fantasias acerca do futuro do país nos próximos anos, por muito bom que o próximo Governo venha a ser (e espero que as minhas dúvidas em relação a Passos Coelho sejam infundadas). Mas a simples saída do Governo de José Sócrates é, pura e simplesmente, um alívio: vamos deixar de ter de assistir à infindável sucessão de mentiras que durante anos e anos nos foram sendo ditas, não continuaremos a ser presenteados com a retórica totalmente desligada da realidade do país que Sócrates exibia, deixámos para trás o clima vagamente siciliano da pandilha que nos andou a governar. Nos próximos anos, e por muito bom que o governo de Passos Coelho possa vir a ser, continuaremos a empobrecer, continuaremos a enfrentar dificuldades, continuaremos a viver mal. Mas ao menos, respiraremos melhor. Já não é mau.

Maio 26, 2011

O PSD vai ganhar estas eleições

Filed under: Comentário,Legislativas 2011,Media,Política,Portugal — Bruno Alves @ 21:26

Não há dia em que João Marcelino não desanque em José Sócrates nem deixe de elogiar Passos Coelho no telejornal da RTP. Quando umas das vozes do regime abandona Sócrates como uma ratazana foge de um navio à beira de ir ao fundo, percebe-se que as coisas não estão a correr bem para os lados do Rato.

Abril 14, 2011

Irracionalidades

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 22:55

(publicado também aqui)

O dr. Silva Pereira, que segundo consta, é Ministro do Governo do Partido Socialista que tão bem tomou conta dos destinos do país até que uma oposição “irresponsável” nos lançou no abismo, mostrou-se hoje muito agastado com “a irracionalidade” que, segundo ele, “vai nesses mercados”. Deixemos de lado a riqueza da linguagem do senhor ministro, e deixemos também de lado o facto de que quem está disposto a emprestar dinheiro a Portugal só o faz a juros altíssimos ser um comportamento que nada tem de irracional. Entre a “irracionalidade” dos “mercados” e a de governantes como os senhores do PS, dêem-me a irracionalidade “dos mercados” todos os dias. No mercado, só compra e vende quem quer às condições que bem entende aceitar ou rejeitar, enquanto que o Estado governado por inteligências como o sr. Silva Pereira me obriga a “comprar” um Estado Providência falido, um Serviço Nacional de Saúde ineficaz, um sistema educativo miserável, e uma série de políticas que não conseguem senão arrastar todo um país para a situação absolutamente desesperada em que Portugal actualmente se encontra.

Abril 8, 2011

O discurso de Sócrates

Filed under: Comentário,Media,Política,Portugal — Bruno Alves @ 23:51

Na abertura do Congresso do Partido Socialista, José Sócrates fez um discurso bastante “animado”, que levou à histeria os militantes e ao pânico qualquer português sensato. Os jornalistas, claro, ficaram rendidos à “combatividade” e “resiliência” (vai-se ouvir muito esta palavra até domingo) do (ainda) Primeiro-Ministro. Talvez fosse bom que alguém lhes explicasse (Sócrates, esse, sabe isso muito bem, apenas não se importa) que berrar muito não serve de nada para tirar o país do buraco em que está.

Março 26, 2011

A ilusão

Filed under: Comentário,Economia,Política,Portugal — Bruno Alves @ 22:29

(publicado também aqui)

Parece que Paul Krugman escreveu um artigo sobre a crise portuguesa, em que diz que Portugal comete um erro em seguir agora uma política de austeridade, quando há tanto desemprego no país. Segundo Krugman, o Estado português deveria aumentar a despesa pública agora (para “reanimar” a economia), e poupar depois. Mesmo dando de barato que o aumento da despesa reanimaria a economia, o que é bastante duvidoso (se houve coisa que o Estado português fez ao longo das últimos tempos foi gastar dinheiro, e não consta que a economia tenha andado muito animada), Krugman esquece-se de uma coisa: o Estado português não tem dinheiro. Para “gastar” como Krugman recomenda, precisa de pedir emprestado. E “os mercados”, como agora se diz, só emprestam dinheiro a Portugal, se Portugal seguir políticas de austeridade. Ao contrário do que Krugman parece pensar, o problema de Portugal não é a suposta “ilusão da austeridade” dos dias de hoje, mas a ilusão do despesismo que alimentámos durante anos e anos.

Março 23, 2011

Não acabou

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 22:33

(publicado também aqui)

Há dias, Pedro Passos Coelho terá dito (segundo o que leio no Público), referindo-se ao PEC apresentado pelo Governo e a entretanto confirmada rejeição do mesmo, que “o teatro” tinha chegado ao fim, ou seja, que era altura de derrubar o Governo. De facto, o Governo caiu, mas tenho sérias dúvidas que “o teatro” tenha acabado. E basta ter visto o debate de hoje para o perceber.

Quando o Governo tomou posse, um outro debate parlamentar levou-me a escrever que o “ciclo político” que então se iniciava mais não era que um “longo intervalo” entre uma legislatura e a seguinte: todos os partidos tinham a sensação de que esta legislatura não contava. A anterior tinha terminado (o PS já não tinha maioria absoluta), mas a actual surgira num quadro de tão grande indefinição e incerteza (até pela conjuntura económica) que ninguém esperava nada de muito relevante enquanto ela durasse. Desde então, e como na altura escrevi, os partidos representados no Parlamento encararam esta legislatura como esse tal “longo intervalo entre a anterior e a próxima”: fora uma ou outra excepção o debate não passaria nunca de um “jogo de posicionamento” que duraria até à convocação de eleições antecipadas, em que o PS se apresentaria como um agente de “modernização” que só a “cegueira” do “bota-abaixismo” e da “irresponsabilidade” ousava bloquear, e a oposição acusaria o Governo de “arrogância” e, claro, “irresponsabilidade”. Todos sabiam que a legislatura não chegaria ao fim, e todos procurariam que esse destino funesto fosse considerado da responsabilidade da outra parte.

Foi isso que se verificou até hoje. E hoje continuou. Com a excepção da intervenção de Manuela Ferreira Leite, que durante anos alertou quem a quis ouvir para o que de facto se veio a verificar, todos os “agentes políticos” mais não fizeram que “posicionar-se” para a “batalha eleitoral” que se avizinha. O facto de Sócrates ser derrubado não o impede de continuar o tal “teatro”, antes pelo contrário: uma vez fora do poder, Sócrates não têm outra alternativa senão continuar com o “teatro”, representando o papel do Primeiro-Ministro “determinado” e “corajoso”, mas “vítima” do “egoísmo” e dos “interesses partidários” dos que a ele se opõem, motivados por “ressentimento”. E mesmo o dr. Passos Coelho, apesar de ser o autor do obituário do “teatro”, terá de a ele recorrer abundantemente: terá de fingir que nada havia hoje que justificasse queda do Governo, que já não a justificasse há muito tempo; terá de fingir que não serviu de muleta à política que agora crítica; terá de fingir que, tal como Sócrates, passou anos a ignorar os avisos de manuela ferreira leite, a única pessoa que, pelo seu discurso, teria legitimidade para pedir aos portugueses os sacríficios que o “teatro” (de Sócrates, de Passos, de Cavaco) tornou inevitáveis.

Quando escrevi acerca do intervalo que então se iniciava e que agora termina, disse que o verdadeiro problema estava em que, enquanto os deputados e governantes se divertiam a atirar a batata quente de um lado ao outro do hemiciclo, os problemas do país não teriam intervalo. Não tiveram. Disse que piorariam, e de facto pioraram. E salvo essas raras excepções, o Parlamento não os discutiria, como não discutiu. Tornar-se-ia (e foi) inútil, aumentando (como aumentou) a descrença dos cidadãos nos seus representantes. A conta, claro, saiu cara para nós. E o pior é que, tal como o “teatro” não acabou, a conta também não vai ficar por aqui.

Janeiro 27, 2011

Se é isso que é preciso…

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 21:41

Depois de Paulo Portas ter vindo a público afirmar que o CDS se encontra disponível para uma coligação pré-eleitoral com o PSD, Pedro Passos Coelho disse que um tal entendimento teria de se fazer “à volta de ideias”. A acreditar nas palavras de Passos Coelho (e acreditar nas palavras de Passos Coelho é algo que só com dificuldade consigo fazer), não haverá coligação pré-eleitoral entre PSD e CDS. “Ideias” não é algo a que Portas e Passos Coelho sejam particularmente dados.

Janeiro 25, 2011

O “segundo” Cavaco

Filed under: Comentário,Política,Portugal,Presidenciais 2011 — Bruno Alves @ 21:57

Agora que Cavaco Silva foi eleito para o seu segundo mandato como Presidente da República, parece haver um número relativamente vasto de pessoas que espera que ele “ponha na linha” o Governo. É uma expectativa que não se compreende. É verdade que, na campanha, Cavaco terá prometido uma “magistratura actuante” (a pessoa responsável por este slogan merecia viver para a eternidade num país governado por José Sócrates), mas nada garante que daí venha algum bem. Aliás, se olharmos para os últimos cinco anos, para o mandato que Cavaco Silva realizou, os únicos sinais que se vislumbram são de que pouco de positivo pode ser esperado. Durante cinco anos, Cavaco Silva viu o Primeiro-Ministro mentir (ao Parlamento, aos cidadãos), ser envolvido em negócios obscuros, ignorar a situação dramática do país, em resumo, arrastar a vida política portuguesa para um lamaçal cada vez menos digno. Durante esses cinco anos, Cavaco parece não ter achado que o “regular funcionamento das instituições” estava ameaçado, parece ter achado que seria melhor manter o Governo no poder do que provocar uma crise política, o que, dado o particular grau de gravidade a que as coisas chegaram, me parece evidenciar pobres faculdades de julgamento. Dirá o leitor que Cavaco apenas manteve o Governo no poder porque estava no seu primeiro mandato, e provocar uma crise política arriscaria a sua recondução no cargo; agora, reeleito, sentir-se-á livre para tomar a opção correcta (aparentemente, é esta a opinião dos dirigentes do PSD, que salivam com a perspectiva de governar de mãos atadas. Cada um tem as manias que tem). A ser verdadeira, não me parece que esta hipótese seja mais abonatória de Cavaco. Entre um presidente com mau julgamento, e um presidente com bom julgamento mas disposto a sacrificar o país em benefício dos seus interesses pessoais, não vejo grande diferença. Seja qual for o verdadeiro “primeiro” Cavaco, não faz antever nada de bom vindo do “segundo”.

Janeiro 19, 2011

PortSoc

Filed under: Comentário,Economia,Media,Política,Portugal — Bruno Alves @ 21:39

(publicado também aqui)

Ouvi há pouco, no telejornal da RTP, a notícia (chamemos-lhe assim) de que “a economia portuguesa desacelerou”. Achei graça à formulação da coisa. Aliás, nos últimos tempos, em Portugal, temos assistido ao aparecimento no discurso político de alguns termos e expressões que se distinguem pela fascinante capacidade de adocicar o significado do que se pretende dizer. Veja-se como se diz que “a economia desacelerou” (em vez de se dizer que, para todos os efeitos práticos, está mais que parada há já vários anos), como “o Primeiro-Ministro” incorre sistematicamente em “inverdades” (em vez de se dizer que o homem mentiu, que é aquilo que ele faz descaradamente), ou as tomadas de conhecimento “não oficiais” que parecem abundar em São Bento (e presumo que em outros locais). E não deixa de ser curioso como este parece ser um fenómeno particularmente “socrático”, como estas expressões ganharam uso após a chegada de Sócrates e seus afilhados (sim, a ideia é chamar “Padrinho” a Sócrates) ao poder. Não me parece que tenha sido coincidência.

Dezembro 10, 2010

Lisboa, 10-16 de Abril de 2011- IAPSS ACGA

Filed under: Agenda,Diversos — Bruno Alves @ 19:39

Nos dias 10 a 16 de Abril, terá lugar em Lisboa a Academic Conference and General Assembly of the International Association for Political Science Students (14ª edição). A organização deste evento está nas mãos dos meus amigos Pedro Costa e Michelle D’Souza, que me pediram (ou melhor, me obrigaram a fazer sob ameaça de severas represálias caso não o fizesse) para aqui divulgar a coisa a eventuais interessados. Aparentemente, todos os anos a International Association for Political Science Students realiza a sua Conferência Académica e Assembleia Geral, e graças aos esforços e ambições megalómanas do Pedro e da Michelle, a deste ano terá lugar em Lisboa, dedicada ao tema “World Leadership” (ou seja, suficientemente vago para que toda a gente possa falar do que muito bem quiser). Para além das actividades da conferência propriamente dita, esta gente arranjou passeios e festas para entreter os participantes. No site da conferência, os eventuais interessados poderão encontrar toda a informação acerca da dita, e os contactos dos organizadores para que possam ver esclarecidas quaisquer eventuais dúvidas, e claro, o formulário de inscrição. Se o caro leitor estiver interessado, peço-lhe que não hesite em inscrever-se (terá até dia 25 de Janeiro para o fazer, mas quanto mais cedo melhor), quanto mais não seja por solidariedade com estes meus dois pobres amigos: gente que passa horas a trabalhar na organização disto (e ainda mais horas a fingir que trabalham), e que para piorar as coisas, têm de me aturar no pouco tempo livre que têm. Nem que seja só por esta última razão, estas pessoas merecem que o seu esforço seja compensado por um número infindável de inscritos.

Novembro 30, 2010

Obsessões

Filed under: Comentário,Economia,Política,Portugal — Bruno Alves @ 22:06

Segundo José Sócrates, a situação económica de Portugal é uma mera “obsessão dos jornalistas”. Talvez seja, mas não vejo grande mal nisso. Aliás, até me pareceria bastante positivo que o Primeiro-Ministro a partilhasse. No entanto, é compreensível que assim não aconteça: obsessões, cada um tem as suas (eu, por exemplo, sou especialmente parcial em relação a rapariguinhas em idade quase ilegal), e a de Sócrates por negar a realidade assume proporções tais que lhe é impossível ter mais alguma.

Novembro 17, 2010

Dúvida

Filed under: Agenda,Comentário,Diversos,Política,Portugal — Bruno Alves @ 23:05

Nos próximos dias, deverei estar pelos lados da Cimeira da NATO, a ouvir discursos propangadísticos de “especialistas”, políticos e de José Sócrates (que pertence a uma categoria à parte). Confesso que não sei o que temer mais: se a eventual violência dos “manifestantes”, se a confusão logística da organização. Pior que estas duas ameaças, só mesmo o facto de ter que ouvir José Sócrates in loco, uma experiência pela qual nunca passei, e que francamente dispensaria de bom grado.

Novembro 3, 2010

Tarde demais

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 23:17

(publicado também aqui)

Cavaco Silva, no Facebook e no Twitter (há que ser “moderno”, ao que parece), terá dito que via com “muita apreensão” aquele que considera ser o “desprestígio da classe política” e a “impaciência” com que “os cidadãos assistem a alguns debates”. É natural que o presidente esteja apreensivo, até porque se prepara para concorrer a uma reeleição, e dado que é um membro da dita “classe política” deve recear que a tal “impaciência” dos eleitores se alargue à sua excelsa pessoa. Talvez por isso tenha também dito que, como Presidente da República, “não pode contribuir para o espectáculo público de cinismo e agressividade”. É uma preocupação louvável, mas que vem tarde demais. Depois de anos e anos em que Cavaco conviveu com este Governo, com mentiras constantes por parte do Primeiro-Ministro, confusões diversas em que este se deixou cair, e a infelizmente não tão ocasional acção de difusa legalidade promovida pelo “engenheiro” Sócrates, sem nunca ter tomado a posição (radical e arriscada, mas necessária) que poderia ter tomado (acabar com o festival socrático), o “cinismo” é algo que o Presidente nunca deixou de alimentar, e a “agressividade” algo a que grande parte do país gostaria de recorrer se tivesse dois minutos a sós numa sala escura (ou bem iluminada, não sou esquisito) com o Primeiro-Ministro.

Outubro 28, 2010

Os limites do Governo

Filed under: Comentário,Economia,Política,Teoria — Bruno Alves @ 23:19

(publicado também aqui)

Há poucas coisas acerca das quais os políticos gostem de falar mais do que “o crescimento” (excepto deles próprios, claro, que é sempre o seu assunto preferido, e sempre sem razão para tal). É comum (e cada vez mais penoso) ouvir um governante ou aspirante a governante dizer que “é preciso crescer” (infelizmente, é um conselho que ninguém lhes deu quando ainda iam a tempo de evitar que alguns deles desenvolvessem as respectivas personalidades), e discorrerem longamente acerca de como essa será a prioridade da sua acção política. É um propósito louvável, mas francamente dispensável. Como escreve aqui Iain Martin, “what government can do successfully in terms of taking action in this area is actually very limited. Of course it should endeavour to try and avoid blowing up the economy, unleashing inflation or encouraging insane behaviour by promising to have abolished the economic cycle (boom’n’bust). But that’s about it.Politicians don’t like being told that there’s not much for them to do other than to find ways in which they can stand aside. It suggests they are not in control. Most love forming committees and working groups which pledge action and on the growth-front come up with economic plans so laboriously constructed and complex that market conditions have usually changed by the moment of implementation. Growth will come as it always does from the unleashing of “animal spirits.” The PM can use the “bully-pulpit” of his position to evangelise for enterprise and he can clear away some regulation – or the bits of it that are not now the preserve of the EU. He can alter the tax regime. Beyond that, he’s in the hands of others.” O primeiro político que disser que é incapaz de pôr o país a crescer, o primeiro político que disser que o futuro do país não depende da sua boa vontade, e muito menos de ele “acreditar” num “futuro melhor”, terá o meu voto.

Outubro 19, 2010

“Apoios”

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 22:25

O PSD está neste momento reunido para decidir se irá ou não aprovar o orçamento de Estado apresentado pelo Governo ao Parlamento. Segundo a comunicação social, que aparentemente sabe os resultados da reunião antes mesmo de esta ter terminado (sempre um excelente indicador acerca da independência de espírito dos participantes na dita), o partido laranja irá apresentar uma série de condições que o PS terá de satisfazer para que o Orçamento possa ser viabilizado. Uma dessas condições impostas pelo PSD está a da inclusão de uma série de “apoios às empresas”. Ou seja: o PSD de Passos Coelho, supostamente preocupado com a excessiva despesa pública, quer que o Orçamento “apoie” as empresas, através da despesa pública. O dr. Passos Coelho, pelos vistos, não consegue meter naquela cabecinha manipulada por Ângelo Correia que as empresas que precisam de “apoio” são as que não o merecem, e que as que o merecem não precisam de apoio, precisam que não lhes ponham obstáculos à frente. Tal como não percebe que para “apoiar” as empresas que precisam de “apoio”, está necessariamente a colocar obstáculos às que dispensam o tal “apoio”. Entre os “apoios” que o eng. Sócrates oferece, e os que o dr. Passos Coelho exige, uma série de gente acabará desamparada para alimentar estes “estímulos” que os responsáveis políticos gostam de distribuir.

Setembro 3, 2010

Disponível para ceder

Filed under: Colunas,Comentário,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 18:20

Há dias, o Público informava os potenciais interessados (presumo que um escasso número de pessoas) de que o dr. Passos Coelho estava disponível para fazer algumas “cedências” ao Governo na negociação do Orçamento de Estado. Não surpreende. Quantas vezes, desde que Passos Coelho chegou à liderança do PSD, é que o partido laranja “ameaçou” o PS de que iria derrubar o Governo? E quantas vezes é que realmente fez alguma coisa nesse sentido, ou obteve alguma cedência da parte do PS para o evitar? Desde que passou a ser “líder” da “oposição”, o dr. Passos Coelho só não tem mostrado disponibilidade para manter a palavra. Cedências, por outro lado, nem sequer é preciso pedir-lhe. Segundo o Público (e a propaganda “passista”), o líder do PSD fá-lo em nome do “interesse do país”. Na realidade, Passos Coelho fá-lo em nome de uma curiosa “estratégia” que pretende ao mesmo tempo mostrar que o PSD é “diferente” (através dos “ultimatos” e “ameaças” de derrube que faz a Sócrates) mas ao mesmo tempo “responsável” e “dialogante” (com as tais “cedências”). Para seu azar, e principalmente, para azar dos portugueses, a única coisa que consegue é manter o Governo no poder, e o país no lamaçal em que (mal) vai sobrevivendo.

Julho 23, 2010

Quanto menos dinheiro passar pelo Estado, melhor

Filed under: Colunas,Comentário,Economia,Política,Portugal,Semana Política,Teoria — Bruno Alves @ 17:38

Há dias, o dr. Silva Pereira disse que, com a sua proposta de revisão constitucional, o PSD estava a abrir uma “polémica artificial”. Por muito estranho que possa parecer (e por muito que me incomode), parece-me que o dr. Silva Pereira tem razão. Como o João Luís Pinto e a Maria João Marques têm procurado demonstrar, não só esta revisão terá poucas hipóteses de vir a ser posta em prática, como o espírito reformador de Passos Coelho que ela supostamente evidenciaria parece ser ilusório: estas propostas apenas viriam mudar alguma coisa para ficar tudo na mesma (ou pior).

Claro que, com o seu apreço pela berraria e a irrelevância, o PS não deixará, como não tem deixado, de contribuir para alimentar a tal “polémica artificial” que o PSD terá iniciado. Mas, apesar de artificial, a polémica tem os seus méritos: por entre os berros contra o “neoliberalismo” e a “injustiça social”, lá se vai ouvindo uma discussão, que há muito deveria estar a ser feita, acerca de como serviços como o da Saúde devem ser prestados e financiados.

Dos críticos da proposta do PSD que a levam a sério, vendo nela a ameaça do espectro neoliberal, argumenta-se que a “privatização da saúde” obrigaria uma série de pessoas que, até aqui, usufruem de serviços de saúde gratuitos, a passarem a pagar por eles, o que teria apenas a consequência de as empobrecer.

Ora, para muitas dessas pessoas (as que pagam impostos sobre os seus rendimentos), esses serviços não são gratuitos, antes pelo contrário: eles são pagos indirectamente através dos impostos que o Estado cobra e depois distribui de acordo com os seus critérios. Ao obrigar as pessoas a pagarem pelos serviços de saúde que usassem, e desde que introduzisse um corte nos impostos proporcional à diminuição de custos que o novo modelo de financiamento implicaria, o Estado estaria apenas a eliminar um intermediário: em vez do dinheiro que as pessoas atiram para o sistema ser entregue ao Estado (através dos impostos por este cobrados) e depois voltar às mesmas pessoas (no momento em que estes usam serviços como o da Saúde), seriam as pessoas, que usam esses serviços, a colocarem esse dinheiro directamente nos serviços a que recorressem.

Mas, pergunta o caro leitor: se, no modelo actual, o dinheiro que as pessoas entregam nos impostos acaba por, de forma indirectamente, regerssar a essas mesmas pessoas, que diferença fará se elas deixarem de o pagar em impostos e o pagarem como um preço pelos serviços que usam? Se os impostos já funcionam como preços indirectamente cobrados, onde estaria a diferença?

A diferença estaria na eficiência com que esse dinheiro é distribuído. Num modelo de financiamento da saúde que usa os impostos como preço indirectamente cobrado, o dinheiro é distribuído de acordo com os critérios dos políticos e funcionários que administram o sistema, e não de acordo com as necessidades das pessoas que recorrem a esses serviços. Se as pessoas pagarem directamente por esses serviços, esses terão de responder às suas necessidades, regulando a sua oferta de acordo com a procura dos pacientes, em vez dos objectivos traçados pelos políticos e burocratas.

Num modelo em que o dinheiro passa pelo Estado antes de voltar aos contribuintes, os serviços são maus, pois o “cliente” é o Estado que financia o hospital, e não o doente que a ele recorre; aqueles com mais posses, com maiores rendimentos, podem recorrer ao privado, mas como têm de pagar impostos na mesma, o facto de haver menos procura dos hospitais públicos (esses tais “ricos” que “vão ao privado”) não afecta o seu financiamento, o que faz com que eles não sintam a necessidade de adequar a sua “oferta” à procura realmente existente. Assim, nos hospitais públicos, há desperdício de dinheiro em algumas àreas, enquanto outras são obrigadas a realizar cortes significativos. A qualidade do serviço não melhora, mas como a sobrevivência do serviço não depende da qualidade deste, mas dos humores do Ministro da Saúde, também não há incentivo para este melhorar. Esqueça, caro leitor, a “artificialidade” da polémica constitucional de Passos Coelho: olhe para o SNS português, e facilmente perceberá como quanto menos dinheiro passar pelo Estado, e for directamente distribuído por si, melhor será. Para todos.

Julho 12, 2010

The Real São Bento

Filed under: Colunas,Comentário,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 19:32

A vida política portuguesa anda estranha. Todos os dias, as figuras mais ou menos destacadas do PS e do PSD oferecem ao país uma versão portuguesa (e apesar de tudo, ligeiramente menos degradante) de um reality-show da MTV: zangam-se em frente às câmeras de televisão, para depois acabarem o dia aos abraços (qualquer pessoa que tenha tido a infelicidade de ver programas como Laguna Beach ou The Hills consegue ver a semelhança).

Quase todos os dias, o dr. Passos Coelho levanta-se do colo de Ângelo Correia e ataca toda e qualquer medida do Governo. De seguida, o “engenheiro” José Sócrates sai do caixão e, no seu melhor Armani, vem queixar-se da “irresponsabilidade do PSD” (no dia em que o Armani tenha sido particularmente bem engomado, ele até se entusiasma e fala “da direita” para juntar o dr. Portas à festa). Inevitavelmente, seguem-se-lhe o dr. Silva Pereira, sempre pronto a carregar a àgua do chefe, e, se as circunstâncias assim o exigirem, o dr. Santos Silva, uma espécie de Brother Mouzone do PS. Para acabar a festa, o PSD chama os seus especialistas em fingir oposição (e ninguém o faz tão bem como Miguel Relvas) para mostrarem a sua indignação e como o país não consegue viver com mais um único dia de Sócrates no poder. Com um cenário destes, seriam de esperar moções de censura diárias, visitas de emergência a Belém (onde impávido e sereno, Cavaco Silva preside às cerimónias fúnebres do país) e pancadaria no Parlamento.

No entanto, nada disso acontece. Pelo contrário, todas as medidas anunciadas pelo Governo, que Passos Coelho e restantes focas amestradas atacam vigorosamente no início da semana, chegam a sexta (ou Sábado, para melhor passarem despercebidas) aprovadas pelos dois partidos, que entretanto se parecem ter escapulido como adolescentes ardendo por um coito furtivo. Tal como normalmente acontece com esses adolescentes, a coisa não acaba bem (embora, em vez da criancinha que fará as alegrias desses adolescentes, o destino mais provável seja o empobrecimento dos portugueses). É claro que Sócrates e Passos Coelho até se podem sair bem com a brincadeira: Sócrates consegue (atacando o PSD) alegrar (no pun intended) o bom povo socialista, e ao mesmo tempo (assegurando o apoio do PSD para as suas medidas) prolongar a morte lenta que tem sido este Governo; Passos Coelho talvez consiga (atacando o PS) convencer alguns de que é “diferente” dos socialistas, e (apoiando o PS) mostrar o quão é “responsável”.

Restam dois problemas: em primeiro lugar, não podem ser os dois bem sucedidos ao mesmo tempo. Inevitavelmente, um deles acabará mal, e a seu tempo (que poderá ser longo, é certo), o outro não escapará a um destino semelhante. Em segundo lugar, acabarão por nos arrastar todos com eles. A violência da retórica com que se agridem, por um lado, e a manifesta hipocrisia com que actuam, por outro, não resulta noutra coisa que não no aumento da repulsa dos eleitores pela política e pelo “regime”. Com o espectáculo que nos andam a oferecer, PS e PSD não se limitam a estragar o seu futuro (por muito que demorem a fazê-lo): ao chafurdarem na lama, arrastam para ela a democracia portuguesa e as condições de vida dos portugueses. Nada que os preocupe.

Julho 6, 2010

Uma questão de palavras

Filed under: Colunas,Comentário,Livros,Política,Portugal,Semana Política,Teoria — Bruno Alves @ 18:58

Na sua última edição, a The Economist publicou um artigo argumentando que “fairness” é “uma má ideia”. No editorial, pode ler-se que, ao usar o argumento de que os cortes que tem promovido são “duros” mas “justos”, a coligação que governa o Reino Unido comete um grande erro. Segundo a revista, a palavra “fair” é demasiado vaga (“to one lot of people, fairness means establishing the same rules for everybody, playing by them, and letting the best man win and the winner take all. To another, it means making sure that everybody gets equal shares”), devendo ser preterido em prol de palavras que “dizem o que querem dizer”. No blog Tory Diary, Tim Montgomerie critica o argumento da The Economist, perguntando “why should Labour have all the best words?“:

“It’s fair enough for The Economist and the IEA to have their intellectual arguments but politicians need to live in the real world. Defining ourselves against social justice (as some Tory MPs have advised) or fairness is electorally stupid. Conservatives need to dominate the whole political stage and that means breaking Labour’s monopoly in certain policy areas – and also defining ourselves on new ways. Defending capitalism/ conservatism as efficient and empowering only persuades so many. Making the case that capitalism/ conservatism is also fair and socially just seems like common sense to me.”

Montgomerie, parece-me, tem toda a razão. Não é que a Economist esteja errada ao dizer que o termo “fairness” (como o termo português “justiça”) é demasiado vaga, que tem dois sentidos incompatíveis um com um outro, e que um desses sentidos (o de que “justiça” é haver pouca desigualdade) nada tem de justo. Mas argumentar que os políticos que queiram promover reformas liberais ou liberalizantes devem abdicar de usar palavras como “fairness” ou justiça demonstra uma profunda incompreensão acerca, não tanto de como a política, o jogo político, funciona, mas acerca de como o cérebro humano (dos eleitores) funciona.

Políticos e seus conselheiros tendem a ver o eleitorado como um corpo definido de opiniões: algumas pessoas inclinam-se para a “esquerda”, algumas para a “direita”, e depois há um número grande de eleitores “moderados”, que se situam no “centro” do espectro político. Cometem o erro de verem estes eleitores “centristas” como pessoas com opiniões políticas claramente definidas, embora “moderadas”. Pensam que os eleitores “centristas” estão tão certos das suas opiniões como os eleitores de “direita” e de “esquerda”, e que a única diferença entre estes diferentes tipos de eleitores é a de que os “centristas”, sendo menos “extremistas”, são “captáveis”, podem ser “ganhos” se os políticos forem ao encontro dos seus desejos e lhes oferecerem um conjunto de políticas que as sondagens lhes dizem que eles querem.

O problema está em que os eleitores “centristas” não são uma espécie de versão “intermédia” dos seus concidadãos mais “extremistas”: eles são realmente diferentes. Ao contrário destes últimos, os eleitores “centristas” não têm opiniões políticas firmemente definidas: no seu livro The Political Brain, Drew Westen mostra como os eleitores alinhados interpretam toda e qual informação à luz das suas crenças já definidas (mesmo que sejam contraditórias), e como os eleitores “voláteis” mudam a sua escolha política, não porque estejam “no meio” do espectro político e os partidos ajustem as suas políticas às suas preferências medianas, mas antes porque, não tendo um corpo rígido de convicções políticas, orientam as suas opções eleitorais de acordo com outros critérios, como a sua simpatia pelos líderes partidários, a percepção que têm da competência destes últimos, da sua honestidade, ou apenas e só porque acham que o “novo chefe” é “diferente” do “velho”.

As coisas tornam-se ainda mais complicadas pelo facto de esses eleitores volatéis nem sequer saberem o que querem: Malcom Gladwell conta a história de Howard Moskowitz, um psicofísico americano (ou seja, uma pessoa que estuda as respostas sensoriais a estímulos físicos) descobriu que o recurso a focus groups na indústria alimentar, em que as pessoas eram questionadas acerca de, por exemplo, qual o tipo de molho de tomate que preferiam, era contraproducente, pois as pessoas não sabiam dizer o que queriam antes de o provarem. Isto não acontece apenas na indústria alimentar: num dos seus livros, Gladwell mostra como uma boa razão para os homens não saberem o que as mulheres querem é que elas próprias também não sabem: Sheena Iyengar e Raymond Fisman, dois professores da Universidade de Columbia, nos EUA, realizaram um estudo acerca de como as descrições de mulheres acerca daquilo que procuravam num homem (ou seja, aquilo que elas pensam que procuram) não correspondia às características reais dos homens que “escolhiam”. E diversos estudos sobre comportamento eleitoral mostram como os eleitores exibem uma “polifasia cognitiva” ou seja, a capacidade de terem duas opiniões contraditórias entre si, sem terem noção disso.

Isto não quer dizer que as sondagens e os focus groups sejam irrelevantes. Apenas que o seu propósito deve ser outro que não o de escolher quais as políticas a apresentar ao eleitorado. E aqui voltamos ao argumento da The Economist: como demonstra o especialista em sondagens Frank Luntz, algumas palavras provocam respostas mais positivas e outras palavras respostas mais negativas, e a única forma de saber quais usar será testando-as. Se o “cérebro político” dos eleitores “voláteis” responde positivamente a palavras como “fairness” ou “justiça”, não faz sentido que os políticos não usem essas palavras. Políticos que queiram promover reformas liberais não devem abdicar de tais palavras só porque elas têm sido associadas a políticas “socialistas”. Antes devem procurar associá-las às suas ideias, fazendo as pessoas perceber que nada há de “fair” ou “justo” naquilo que os socialistas defendem. O uso de tais palvras não significa (ou não deve significar) que os políticos abandonem as suas convicções. Apenas deve ser o resultado de uma tentativa de tornar as suas ideias mais apelativas ao volátil cérebro político dos eleitores.

Julho 1, 2010

Será a NATO o remédio para as nossas dores de cabeça?

Há um episódio da série televisiva House em que a equipa médica de House está a tratar uma paciente com abulia, ou seja, incapaz de tomar uma qualquer decisão. Após várias tentativas de diagnóstico, chegam à conclusão de que ela sofre de um cancro, e iniciam-lhe o tratamento por radiação. Para seu azar, e especialmente, para azar dela, o diagnóstico estava errado: ela tivera uma simples infecção, em princípio relativamente inofensiva; mas a radioterapia, baseada num diagnóstico errado, destruiu-lhe o sistema imunitário. Ao errarem o diagnóstico, e ao prescreverem o tratamento errado, os médicos da equipa de House condenaram a sua paciente à morte.

A NATO, cujo Secretário-geral Anders Fogh Rasmussen amanhã visita o Instituto de Estudos Políticos da UCP para uma conferência, talvez tivesse algo a aprender com este episódio de House. Pois tal como um médico precisa de identificar correctamente a doença que aflige o seu paciente, para lhe receitar os remédios mais adequados a combatê-la, também uma organização que, como a NATO, diz ser “baseada nos valores comuns da democracia, direitos humanos e estado de direito” e que se propõe (no irritante linguajar burocrático típico destas organizações) “ajudar a construir uma permanente comunidade transatlântica de valores e interesses partilhados” , tem de, antes de poder cumprir esse papel eficazmente, identificar as ameaças a esses “valores e interesses partilhados”.
(mais…)

Junho 4, 2010

O problema de Cavaco

Filed under: Colunas,Comentário,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 17:46

Como o país não tem problemas sérios com que se preocupar (o Primeiro-Ministro, esse símbolo da honestidade e franqueza, garante que Portugal está melhor preparado que qualquer outro para enfrentar a crise, e a sua palavra, claro, é o suficiente para acreditar que é verdade), a “inteligência” pátria dedica-se com particular sofreguidão a discutir as presidenciais. À “esquerda”, a novela em torno de Alegre, as birras de Soares, e as intenções mais ou menos escondidas de Sócrates têm animado os espíritos dos jornalistas, sempre arrebatados por este género de folhetins. Não querendo ficar para trás, a “direita” tratou de arranjar a sua própria polémica.

Tudo começou quando o Presidente decidiu não vetar a nova lei do “casamento gay”, ao mesmo tempo que anunciava não concordar com a lei. Os católicos logo se sentiram traídos pelo Presidente e, sentindo o cheiro a sangue, o dr. Santana Lopes regressou das catacumbas onde pacificamente jazia para dizer que seria necessário haver uma “alternativa” a Cavaco (o próprio “Pedro”, presume-se, estará disposto a fazer o sacríficio). E até o dr. Paulo Portas, sempre desejoso de se armar em “maquiavélico”, veio dizer que gostaria de apoiar Bagão Félix (para quem não conheça, um senhor que se destaca por ser adepto do Benfica). Incomodado (compreensivelmente) pelo espectáculo, Marques Mendes veio dizer que as declarações destes dois rapazes não passavam de disparates.

Marques Mendes, em parte, tem razão. Mas não por, como o ex-líder laranja pretende, Cavaco merecer ser defendido. Apenas porque criticar Cavaco Silva por causa do “casamento gay” mostra bem a falta de consciência da grave situação política que o país enfrenta e das responsabilidades de Cavaco Silva no agravamento da dita.

Nos últimos anos, a democracia portuguesa transformou-se num autêntico lamaçal. O uso despudorado da mentira por parte do Governo, a constante quebra de promessas eleitorais, a gestão irresponsável da coisa pública, os sucessivos casos em que a excelsa figura do Primeiro-Ministro se viu envolvida, tudo foi contribuindo para o aumento da desconfiança (para não dizer do nojo) que os portugueses sentem em relação, não apenas ao Governo, mas a todos os políticos. E a tudo isto o senhor Presidente da República foi assistindo, quase impávido e sereno, alertando por vezes contra este ou aquele excesso, mas sempre vindo dar a mão ao Governo quando este precisava, com medo que a “instabilidade” agravasse a situação.

Cavaco Silva não percebeu que a “estabilidade” deste Governo é a doença de que Portugal padece. Não percebeu que deixar as coisas continuarem como normalmente significa deixar o país apodrecer ainda mais. Como os leitores mais antigos e mais atentos saberão, sou tudo menos um defensor de um “presidencialismo”, e acho que o cargo de Presidente, pela sua natureza, dificilmente pode ser mais que irrelevante ou nocivo para o país. Mas, dada a situação do país, acho também que já há muito Cavaco deveria ter demitido o Governo, explicando que por muitos riscos que uma tal opção implique, o Presidente não poderia assistir passivamente a comportamentos que degradam a nossa democracia, e consequentemente, tornam cada vez mais difícil a realização das reformas de que o país precisa para sair do poço em que caíu.

Cavaco não o fez. Se o caso do “casamento gay” importa para alguma coisa, é apenas por mostrar que o próprio Cavaco reconhece a sua própria impotência para zelar por aquilo que considera importante. A “direita”, quer por estar genuinamente preocupada com as consequências da lei (os católicos) ou por se excitar com a oportunidade de armar confusão (Santana, Portas e os demais), apenas mostra a sua reconhecida estupidez, ao não perceber que o erro de Cavaco está em ter presidido à degradação do clima político de Portugal. Este sim, é o verdadeiro problema de Cavaco. E do país.

Maio 19, 2010

Ficar à espera da bola não chega

Filed under: Colunas,Comentário,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 17:05

Certamente animado pelas imagens de confrontos nas ruas das cidades gregas, o Partido Comunista Português decidiu apresentar uma moção de censura ao Governo de José Sócrates. O Bloco de Esquerda, ultimamente muito incomodado com o “governo bicéfalo” (a mim parece-me mais acéfalo, mas talvez esteja enganado) dos “tangos” de Sócrates e Passos Coelho, já anunciou que apoiaria a iniciativa (como agora se diz). Já o CDS e o PSD preferem abster-se, condenando assim à partida a moção comunista.

Procurando justificar a posição laranja, Miguel Relvas, esse símbolo da dignidade e firmeza políticas, veio dizer que o PSD continuaria “a manter a censura ao Governo naquilo que ele merece, mas, enquanto se justificar, vamos continuar a exigir que o Governo governe e que assuma as suas responsabilidades, desde logo, a de retirar Portugal e os portugueses da situação em que os colocou”. É uma justificação que explica muito do pensamento (chamemos-lhe assim, hoje sinto-me generoso) da actual direcção do PSD, e faz temer que ela não vá muito longe, arrastando consigo o país.

O que Relvas, com a sofisticação intelectual que lhe é conhecida, está a dizer com “exigir que o Governo governe e que assuma as suas responsabilidades, desde logo, a de retirar Portugal e os portugueses da situação em que os colocou”, é que acha que, já que o PS fez asneira e governou mal, agora deve ser o PS a executar as medidas impopulares que a asneira anterior implica que sejam agora tomadas. É esta a “estratégia” delineada pelas cabeças em torno de Passos Coelho: já que o PS seguiu uma política de terra queimada, deixá-lo a tentar apagar o fogo, e quando forem apanhados por ele, chegar ao terreno já livre e, qual “especulador sem escrúpulos”, lucrar com ele. O PSD espera que seja o PS a sofrer as consequências de tomar medidas impopulares, facilitando o acesso ao poder, que consideram estar ainda demasiado longe nas actuais circunstâncias. Note-se, em primeiro lugar, como esta gente está disposta a deixar alegremente a situação política do país degradar-se, desde que isso facilite o seu acesso ao poder daqui a uns tempos. É sempre bom saber a qualidade dos “estadistas” que querem “mudar” o país. Em segundo lugar, tenho sérias dúvidas que o “desgaste” do PS seja suficiente para lançar o poder no colo do PSD, como imagina a liderança laranja.

Essa ideia de que o “cansaço” dos portugueses com Sócrates faz com que o PSD apenas precise de ficar sentado e esperar que “as coisas sigam o seu rumo” há muito que se instalou no PSD. No Congresso de Mafra, foi essa ideia que fez inúmeros oradores afirmarem que o partido estava a eleger “o próximo Primeiro-Ministro de Portugal”. Como fora essa ideia a levar os críticos de Manuela Ferreira Leite a dizerem que perante um Governo tão fragilizado por “casos” e desgastado pela “crise”, só mesmo a suposta inabilidade de Ferreira Leite pode explicar a sobrevivência do regime socrático. Mas, como já várias vezes escrevi, quanto mais apodrecido o Governo estiver, mais difícil será pô-lo no lixo.

Em primeiro lugar, porque nem a total describilização é suficiente para o Primeiro-Ministro deixar de se agarrar ao poder como eu gostaria de me agarrar a uma adolescente de qualidade estética superlativa. Como toda a sua história de vida demonstra, o cheiro de matéria fecal manifestamente não incomoda José Sócrates, que, como o outro senhor de The Wire prefere “to live in shit than to be seen to work a shovel”. Por muito que o seu regime apodreça, Sócrates nunca abdicará livremente do trono que ocupa, e de lá só poderá ser arrancado “à bomba”. “Bomba” essa que o Presidente da República, um senhor reconhecidamente pacífico, não quer largar, e longe vai o tempo (esperemos nós) em que os militares se entregavam a essas actividades. A única “bomba” que poderá ser usada será a dos eleitores nas urnas, mas temo que, quanto mais necessária ela se torne, menor seja a probabilidade deles estarem dispostos ao trabalho de a lançar.

Já antes das eleições de Setembro passado o escrevi: é precisamente o facto de vivermos num clima de “fim de regime” do PS que tornará as coisas mais difíceis para o PSD. Em primeiro lugar, a violência e degradação do debate “excita” os “fiéis”, que por muito desagradados que possam estar com Sócrates, não gostam de ver “um dos seus” ser atacado por “eles”. A podridão do regime fidelizará o PS, que tenderá, até à última hora, a proteger Sócrates como se de uma criança indefesa se tratasse (depois da última hora, a canção será outra).

Em segundo lugar, a demagogia reinante favorece os partidos de protesto, mas pequenos, o que estranhamente, acaba por favorecer o PS. O ódio a Sócrates não se traduz forçosamente no voto no PSD, podendo mais facilmente deslocar-se para o CDS ou até para o BE, partidos dados à berraria que faz o gosto do povo. É difícil a um partido que quer ser governo fazer oposição num ambiente político degradado, porque aquilo que pode motivar a conquista de votos (essa mesma degradação do regime do momento) é também aquilo que faz com que as pessoas tenham uma maior predisposição para votar em quem faz barulho, só por fazerem barulho. A degradação do Governo do PS acaba por retirar votos, não apenas ao PS, mas também ao PSD.

Até porque a podridão do Governo, arrastando consigo a desconfiança dos eleitores, traz também uma desconfiança não apenas em relação ao Governo, mas em relação à alternativa. Um Governo que mente, que manipula, que esconde e que parece corromper e estar corrompido, faz com que os eleitores, muito sabiamente, desconfiem de todo e qualquer político que lhes peça a sua confiança. Porquê confiar “nestes”, só porque nos dizem que vão ser diferentes? Os “outros” disseram “o mesmo”, e “foi o que se viu”. A desconfiança dos eleitores em relação a este Governo transforma-se, muito rapidamente, numa descrença na palavra de toda a classe política. Quanto pior o PS for, quanto mais degradado o Governo estiver, mais agreste será o clima político para aqueles que queiram promover uma alteração do estado das coisas (deixemos de lado a “mudança” obâmica, ela própria um produto e causa da podridão). Quanto menos as pessoas acreditarem no PS, menos acreditarão na possibilidade de “os outros” serem diferentes.

Os actuais responsáveis do PSD estão a seguir uma estratégia comum a alguns treinadores de futebol: tendo um ponta-de-lança alto e forte na equipa, deixam-no plantado junto à defensiva contrária, para que quando a equipa recuperar a bola, apanharem o adversário quando a sua defesa está desprotegida. O problema está em que jogar dessa forma implica o risco de, por se ter menos um jogador envolvido em tarefas defensivas (ou, no caso do PSD, por não fazer oposição e preferir queimar o PS lentamente), não ser capaz de recuperar a bola e portanto não ter oportunidades de atacar a baliza contrária. Não espero grandes tratados filosóficos de Relvas e companhia, mas um mínimo de bom senso permitir-lhes-ia perceber que, ao PSD, ficar plantado na àrea à espera da bola talvez não seja suficiente, e que ao fazê-lo o partido laranja talvez se arrisque a ser apanhado em fora-de-jogo. Mas, como já se viu, bom senso não é um bem em excesso por aqueles lados.

Maio 13, 2010

Escrito a 30 de Março de 2008

Filed under: Comentário,Economia,Política,Portugal — Bruno Alves @ 22:10

Na sua ânsia de assegurar uma vitória eleitoral nas legislativas do próximo ano, o PS pode ter cavado o buraco em que acabará por ser enterrado. Se dúvidas houvesse de que o Governo norteia a sua acção única e exclusivamente pelo horizonte dessas mesmas eleições, o anúncio de uma descida de 1% do IVA para daqui a uns meses vem certamente dissipá-las. Depois de o Governo (e o sempre prestável Vitor Constâncio) repetir incessantemente que uma descida de impostos na actual situação das finanças públicas seria uma “irresponsabilidade”, Sócrates vem fazer aquilo que condenou. A razão, claro, é a campanha eleitoral que Sócrates tem vindo a conduzir desde o dia em que foi eleito. O anúncio desta descida para daqui a vários meses permite ao Primeiro-Ministro viver durante um largo período a “fazer render o peixe” deste anúncio, até ao dia em que uma qualquer outra medida propagandística seja lançada nas televisões. E é precisamente isso, uma medida propagandística, que a descida do IVA representa: sem ter a despesa pública controlada, a descida do IVA é precisamente aquilo que Vitor Constâncio disse que era, uma “irresponsabilidade”.

Em segundo lugar, é praticamente insignificante. O que o país precisa não é de um retoque na imensa carga fiscal que alimenta um gigantesco monstro de desperdício estatal, mas sim de uma reavaliação do que é que deve caber ao Estado, e qual a carga fiscal necessária para financiar essas áreas de intervenção estatal, tendo sempre em conta que o actual modelo do “Estado Social” está falido a longo prazo e condena os portugueses ao empobrecimento relativo. Anunciar pequenas descidas do IVA e falar do “fim da crise orçamental” é atirar areia para os olhos dos portugueses, para em 2009 eles votarem sem olharem para o que estão a fazer.

Infelizmente para Sócrates, um eventual sucesso desta sua jogada fará com que ele se arrisque a ser quem ficará com a batata quente nas mãos. Sem ter a despesa controlada, e diminuindo a receita cobrada, o défice poderá vir a aumentar. Em ano eleitoral, esse será um factor de somenos importância para o PS. Mas caso obtenha um segundo mandato, será Sócrates quem terá a responsabilidade de resolver o problema. Por muito que o dr. soares ache que Sócrates é o “anti-Guterres”, o actual primeiro-Ministro repete o erro do seu velho mestre socialista: usa o seu primeiro mandato para executar uma política eleitoralista que lhe garanta um segundo, e neste, vê-se a braços com a necessidade de tapar o buraco que ele próprio cria. A Sócrates, restarão então dois caminhos: ou corta a despesa (e desilude as suas clientelas), ou aumenta os impostos, provocando o descontentamento dos eleitores, e sem poder recorrer à desculpa da “herança”, pois Sócrates apenas herdará aquilo que ele próprio quiser deixar. Guterres resolveu o seu dilema demitindo-se a meio da noite. E os portugueses, por sua vez, ficaram a pagar a conta. Seja qual for a forma que Sócrates encontrará para escapar à alhada em que se meteu esta semana, uma coisa é certa: os portugueses lá acabarão mais uma vez por ficar a pagar a conta.

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