
Em Novembro passado, não resisti a ir ao Monumental para ver antecipadamente The Master, o novo filme de Paul Thomas Anderson que estreia hoje nas salas de cinema portuguesas. O filme estreara em Setembro nos EUA, e o Festival de Cinema de Lisboa e Estoril iria fazer uma exibição do filme. As centenas de pessoas que, tal como eu, não conseguiram esperar pela estreia normal do filme não deveriam saber muito bem o que esperar. Quando o filme acabou, imagino que também não soubessem muito bem o que tinham acabado de ver.
Quando, há uns anos, vi There Will Be Blood, o filme anterior de Anderson, também não soube bem o que pensar. Dos seus anteriores filmes, coisas como Hard Eight ou Magnolia faziam crer que Anderson era uma espécie de fruto de um caso amoroso entre Robert Altman e Martin Scorsese; Boogie Nights era uma mistura de GoodFellas com Spinal Tap. Punch Drunk Love já era algo vindo de outro planeta, mas o estilo era o mesmo. There Will Be Blood não – parecia ser algo realizado por Kubrick, com planos longuíssimos mas sem o movimento constante que os filmes anteriores exibiam. Era brilhante, sim, mas não aquilo a que eu estava habituado.
Tal como com There Will Be Blood, o amor ilícito que deu à luz The Master foi o de Kubrick e Terrence Malick em vez do de Altman e Scorsese. Mas sendo o segundo filme que Anderson faz nesse estilo, desta vez não foi isso que me deixou “desorientado”. Desta vez, foi outra coisa: se uma pessoa for rapaz (ou rapariga) de certa predisposição mental e emocional, The Master esmurra-nos a cara sem piedade com tanto brilhantismo que é impossível perceber exactamente o que acabou de acontecer.
O filme (de longe o melhor de 2012 – dos que vi, Django Unchained e Moonrise Kingdom são também brilhantes, mas The Master está para além da capacidade de descrição da linguagem humana) centra-se na relação entre um veterano da Marinha americana na II Guerra (Joaquin Phoenix) e o líder de uma seita religiosa (Philip Seymour Hoffman) que o “acolhe”. Nas duas horas que se seguem, Phoenix e Hoffman entretêm-se a tentar mostrar-nos quem é o melhor actor, e fica provado à saciedade que é impossível escolher: há uma cena numa cela de uma prisão que, quando os Oscars se aproximarem e as hipóteses de Hoffman e Phoenix receberem a estatueta forem discutidas, toda a gente mencionará como prova da qualidade sobre-humana das duas interpretações, mas honestamente qualquer outra poderia servir de exemplo. E depois há Amy Adams, que até a ser execrável e assustadora consegue ser adorável: sempre que aparece, Adams puxa tudo na sua direcção e (em alguns casos literalmente) agarra o que vier com as duas mãos, só largando quando quer e depois do trabalho estar feito.
Anderson dá espaço e tempo para estes três brilharem: a câmara fica neles enquanto for preciso. Mas ao contrário de There Will Be Blood, não é quase estática. O uso do “slow-motion” que enchia Hard Eight, Boogie Nights ou Magnolia está de volta, como se Anderson quisesse combinar as duas fases da sua carreira num só filme. The Master é, no fundo, o filme mais Paul Thomas Anderson –como adjectivo- que Paul Thomas Anderson já fez (tal como Django Unchained é o filme mais Quentin Tarantino que Tarantino já fez): pode não ser o seu melhor filme (e eu acho que talvez seja), mas é sem dúvida aquele em que o seu estilo está mais amadurecido, em que tudo aquilo que ele já fez se junta num só filme. Se Anderson não quiser (e eu espero que queira), não precisa de fazer mais filmes – tudo o que havia para fazer, fez com The Master.
E fê-lo de forma ainda mais conseguida do que havia feito até aqui: nenhum dos travelling shots scorsesianos que celebrizaram Anderson é tão deslumbrante como um em que Phoenix foge por uma plantação agrícola ao nascer do sol; nenhuma das sequências em “slow-motion” dos filmes anteriores é tão encantatória como a de uma festa em que Hoffman é o convidado de honra; e se as personagens de Mark Whalberg ou Julianne Moore em Boogie Nights, ou qualquer uma em Magnólia, arrasavam o bem-estar emocional de qualquer um, em The Master basta olhar para a cara perturbadoramente alterada de Joaquin Phoenix para questionarmos a nossa própria sanidade mental.
Tudo isto salta para a nossa frente quando se vê o filme. Violentamente: o filme é um assalto de brilhantismo e é impossível acabar de o ver sem se ficar impressionado (nem que seja a detestar o filme, o que vai acontecer a muitos dos que o virem). O que parece ser difícil é perceber o que tudo aquilo quer dizer, qual o significado de todas as coisas que nos são atiradas à cara durante mais de duas horas. Lembro-me que, quando o fui ver, nem consegui dormir de tanto que fiquei a pensar no que acabara de ver. Sem chegar a grandes conclusões. Talvez o filme não tenha significado, talvez não queira dizer nada: talvez seja só um olhar sobre a vida daquelas três pessoas, uma “experiência” – nada mais que um conjunto de “estados de espírito” filmados para os reproduzir em quem estiver a ver. À medida que a insónia dessa noite se prolongava, comecei a achar que não, que o filme tinha um significado, que bastava pensar nos outros filmes de Anderson para perceber qual era (quem não os conheça vai ficar um pouco perdido). Mas honestamente, isso é pouco importante. Tal como é pouco importante saber se o filme é bom ou mau, um exercício pretensioso ou uma obra-prima, uma “seca” descomunal ou um filme brilhante – The Master é, acima de tudo, uma coisa única, diferente de qualquer outra que se possa ver nas salas de cinema. Nem que fosse só por isso (e eu acho que é por bastante mais) vale a pena ser visto.