Um enorme trinta-e-um

European-union-sfSpanEsta manhã, as classes falatórias do continente europeu acordaram em polvorosa com a notícia da vitória do Syriza. Dos que exultam com o resultado aos que nele vêem um Apocalipse, todos atribuíram um enorme significado à coisa. Era escusado: a vitória do Syriza é tão irrelevante como o seria a sua derrota. Infelizmente, os problemas que a crise grega implica para a Grécia e para a Europa precedem a eleição de ontem, e sobreviver-lhe-iam independentemente de qual fosse o vencedor. A subida do Syriza ao poder apenas precipita a sua confrontação.

Em 2010, o conhecido jornalista americano Michael Lewis viajou para a Grécia para escrever um artigo sobre a crise do país. Publicado na Vanity Fair e incluído no seu livro Boomerang, e o retrato que faz é aterrador. Uma Grécia que, anos 80 e 90, sofria taxas de juro sobre os seus títulos de dívida pública 10% mais altas que as alemãs, viu na adesão à moeda única uma forma de ser tratada “como um país totalmente funcional do Norte da Europa”. O problema, explica Lewis, é que estava longe de o ser, dado os seus défices monstruosos e a inflação indomada da sua antiga moeda nacional, e só mesmo as mágicas artes da manipulação das contas (com a prestimosa ajuda da Goldman Sachs e o fechar de olhos do resto da “Europa”: Lewis cita um economista grego que, em 1998, notava como as contas oficiais gregas deixavam de fora metade da sua dívida real) permitiram que a Grécia aderisse ao euro desde o seu início. Uma vez conseguido este objectivo, o país pôde então “adquirir para a sua dívida uma garantia implícita da Europa (leia-se da Alemanha)”, permitindo aos gregos contrair empréstimos a taxas semelhantes às dos alemães.

Não foi só o “povo grego” a aproveitar a oportunidade: os bancos gregos, diz Lewis, emprestaram cerca de 30 mil milhões de euros ao Estado (a juntar a todos os outros que este último pediu emprestado a muitas outras entidades), que prontamente os atirou ao lixo: entre 2000 e 2010, os salários do sector público (excluindo subornos que pediam aos incautos que a eles recorrem) duplicaram; a companhia de caminhos de ferro tinha uma despesa sete vezes menor que as suas despesas; o seu sistema educativo, apesar de ser um dos piores da Europa, tinha quatro vezes mais professores por aluno que um dos melhores, o finlandês; empregos que fossem classificados como “trabalho árduo” tinham como idade de reforma 55 anos para os homens e 50 para as mulheres, e incluíam profissões como radialistas ou músicos; o pagamento de impostos era uma actividade praticamente facultativa: os médicos, uma profissão onde escasseiam os necessitados e paupérrimos, eram conhecidos por declararem rendimentos inferiores aos necessários para se pagar imposto; e a explosão do défice em 2009, por exemplo, era explicada a Lewis pelo então Ministro das Finanças como uma consequência de ter sido um ano eleitoral, e que como tal os funcionários do fisco local tinham recebido ordens para não serem especialmente rigorosos na cobrança fiscal. E claro, a massagem das contas públicas continuava, com, por exemplo, o montante real dos gastos do Estado com o sistema público de pensões a ser mais de três vezes superior ao declarado às instituições europeias. Como seria de esperar, nada disto teve um happy ending.

Quando o Pasok chegou ao poder, substituindo a Nova Democracia, teve de admitir que o buraco orçamental era muito maior do que era até reconhecido, e que a Grécia teria de pedir o resgaste à troika do FMI, BCE e UE. Como diz Lewis, a “Europa concordou em gastar milhões de dólares para resgatar a Grécia. Em contrapartida, a Grécia comprometeu-se a dar uma volta à quase totalidade da sua economia.” Mas como até a mais distraída das leituras de uma das recentes avaliações da execução do programa grego mostra, a promessa ficou longe de ser cumprida: “a Grécia”, diz o FMI, “tem continuado a fazer progressos significativos no reequilíbrio da sua economia. Mas tem ficado para trás na execução de reformas indutoras da produtividade”, para o que contribuiu a resistência de “interesses instalados”. O “ajustamento” terá sido efectuado “através de canais recessivos (compressão de despesa e salários reais), em vez de ganhos de produtividade”, e objectivos como os das privatizações, reformas no mercado laboral, e da própria contenção da dívida ficaram muito aquém do exigido e prometido. Por alguma razão, no mês passado, a EU teve de prolongar o programa de empréstimos à Grécia por mais dois meses, dados os receios de que tudo estivesse à beira de ruir.

É verdade que, o ano passado, a Grécia conseguiu um excedente orçamental. Mas feito “à bruta” (veja-se, por exemplo, os cortes nas pensões, feitos não de forma gradual mas de uma assentada), o “ajustamento” grego não podia deixar de ter tido consequências gravíssimas para a população. Desde o elevado desemprego jovem, passando pelos funcionários públicos despedidos, pelas pessoas que não conseguem contrair empréstimos e por isso têm de fechar os seus pequenos negócios, por quem não deixou de ter dinheiro para pagar as escolas dos filhos, até quem deixou de ter dinheiro para pagar o suborno aos médicos para que os seus velhos sejam tratados num hospital, uma enorme fatia da população grega viu, de um dia para o outro, a sua vida piorar significativamente, e com poucas perspectivas de alguma vez vir a melhorar. E escusado será dizer que, embora mais “austeritário”, o Estado grego não ficou por isso menos corrupto: a máquina fiscal que outrora servia acima de tudo para cobrar subornos a quem não queria pagar impostos comporta-se agora de forma autoritário para cobrá-los mesmo a quem não os deve.

Perante isto, não é de espantar que um partido como o Syriza tenha conseguido ganhar as eleições. Para quem viva num país que passou pelo acima descrito, o voto em quem promete querer a “reestruturação da dívida” (com perdão de parte dela) e a manutenção da Grécia no seio quente e fofo da moeda única, o aumento do “investimento público” em cerca de 4 mil milhões de euros e a descida de impostos, surge naturalmente como algo atractivo, se bem que apenas da mesma forma (e com as mesmas consequências) que o canto da sereias era atractivo para os marinheiros companheiros de um mítico habitante daquelas terras.

Aliás, não tem faltado quem diga que esta vitória do Syriza é uma prova de como a “austeridade” da “sra. Merkel” (uma oportunista política de importância menor elevada a ideóloga firme e toda-poderosa pela simplicidade mental dos críticos) tem como único resultado a ascensão das forças políticas radicais. Deixando de lado o problema do raciocínio de se identificar os “radicais” como um mal mas achar-se que a forma de os combater é precisamente adoptando a sua agenda, esta é uma tese que peca pela incapacidade de compreender a natureza do berbicacho que defrontamos. Pois não é só na Grécia que os “radicais” e os “extremos” conquistam um lugar nos voláteis corações dos eleitores, e em alguns desses outros locais, não é a austeridade que os anima, mas precisamente o que entendem ser um excesso de “generosidade” para com os que se queixam dela: se na Grécia a vitória do Syriza talvez se deva à forma como Merkel, a Finlândia e a Holanda fizeram a “Europa” lidar com a crise, na Alemanha, Finlândia e Holanda, a ascensão de partidos radicais “nacionalistas” não se deve de forma alguma à ideia de que os “povos do sul” estão a ser autoritariamente condenados à pobreza pelo “fundamentalismo austeritário” dos “países do norte”, mas à percepção de que alemães, finlandeses e holandeses estão a pagar a “preguiça” e a “boa vida” dos “laxistas” do “Mediterrâneo”.

Pouco interessa qual dos lados tem razão, quanto mais não seja porque o mais provável é que ambos estejam igualmente longe da verdade. O que interessa é que os lados existem, e colocam um enorme problema à União Europeia, problema esse que decorre da forma como os seus arranjos políticos e económicos foram desenhados. O “anti-austeritarismo” grego ou espanhol e o nacionalismo “anti-dependentes” da Alemanha ou da Finlândia, apesar das suas muitas diferenças, têm no euro uma origem comum: a adopção de uma mesma moeda por países com condições e características políticas, sociais e económicas tão diferentes como a Grécia (ou Portugal) e a Alemanha (ou a Finlândia), fez com que a dada altura fosse inevitável que as necessidades de países com problemas orçamentais se tornassem incompatíveis com a credibilidade da moeda, a necessidade de restrições orçamentais nesses países com a possibilidade de terem algum crescimento económico, e a eventual conveniência de transferências monetárias dos mais ricos para os mais pobres com o apoio eleitoral aos partidos de governo nesses países mais ricos. Os arranjos políticos e económicos da União Europeia produziram não só um conflito de interesses de duas democracias, uma incompatibilidade entre vontades igualmente legítimas das respectivas maiorias eleitorais de cada um dos regimes democráticos integrantes da UE, como assegurou também que ninguém fica contente com o resultado: dependendo da proveniência, ora se protesta a falta de “solidariedade” de uns, ou o estar-se a pagar a “preguiça” e o “despesismo” dos outros.

Na Grécia, considera-se que a dívida actualmente contraída pelo Estado é insustentável, ou no mínimo incompatível com os “direitos humanos do povo grego”. E embora haja quem diga que a dívida grega até é mais sustentável que a de outros países, a verdade é que a necessidade de obter excedentes orçamentais primários de 4,5% do PIB em 2016 parecem, dado o estado do país, ser incompatíveis com a possibilidade dos gregos levarem uma vida minimamente decente. Nesse sentido, uma “reestruturação” da dívida talvez fosse útil (embora se argumente que as taxas de juro gregas são já tão baixas que tal medida não serviria de muito). O problema está em que uma “reestruturação” não se faz unilateralmente, e os credores da Grécia só a aceitariam se tivessem um mínimo de confiança (que obviamente não têm) de que o país aproveitaria esse alívio para fazer as reformas que em tempos de dificuldade não conseguiam fazer, em vez de o usar para regressar aos “bons velhos tempos” descritos por Michael Lewis. De forma unilateral, a única coisa que a Grécia pode fazer é declarar uma bancarrota, uma opção que, embora permitindo o regresso à sua extinta moeda nacional e o recurso à sua impressão em massa para aumentar salários e despesa, teria como consequência real uma outra “austeridade”, porventura ainda mais violenta: com a inflação, o aumento nominal dos salários corresponderia muito provavelmente a uma descida real do seu valor, e a uma degradação das condições de vida dos que ainda tivessem emprego, para não falar dos que entretanto se juntariam à longa fila de desempregados, após o fecho de mais não sei quantos negócios, levados na corrente. A Grécia substituiria a “austeridade” da “sra. Merkel” e imposta pelo estrangeiro por uma “austeridade” interna do “sr. Tsipras”, e dificilmente ficaria melhor com a troca.

Deve ser por isto que muita gente fora da Grécia viu com bons olhos uma vitória do Syriza: a desgraça que se abateria lá pelos lados helénicos serviria de exemplo para quem, por aqui e por ali, vá tendo veleidades “anti-austeritárias”. O problema está em que a desgraça não se cingiria à Grécia, alastrando-se em maior ou menor grau por toda a União. Parece ser verdade que o sistema financeiro europeu está muito menos exposto à dívida grega, e que portanto uma eventual bancarrota causaria teoricamente menos danos agora do que teria provocado em 2010. Mas convém não esquecer que, a partir do momento em que a Grécia reintroduzisse uma moeda própria, os gregos que ainda tivessem euros na sua mão teriam de os trocar, colocando no mercado uma inundação de euros para venda que conduziriam a uma sua desvalorização. A simples saída de um país da moeda única colocaria em dúvida a credibilidade desta última, quanto mais não seja porque haveria sempre a possibilidade de as coisas até correram bem e do seu exemplo ser posteriormente seguido por outros países. E claro, uma saída grega do euro implicaria perdas de montantes relativamente avultadas nos cofres dos países da União: a Alemanha, obviamente, seria quem teria mais a perder. Mas até o nosso país se arriscaria a perder 1,1 mil milhões de euros com a brincadeira. E há quem receie que os fundos de resgate não têm dinheiro suficiente para lidar com uma crise que eventualmente se abatesse sobre a Espanha ou a Itália em consequência do que resultasse de uma saída grega.

Por outro lado, se a Alemanha e restante União Europeia acabarem por ir ao encontro das pretensões de Tsipras, a incerteza e o perigo não seriam menores. O resultado imediato seria o de incentivar os restantes países em dificuldades (não só Portugal, não só a Espanha, mas também a Itália e acima de tudo a França) a pedirem igual ou semelhante benevolência. A credibilidade do euro, que sofreria logo com o perdão ou simples reestruturação da dívida grega (a moeda passaria a estar associada, não à política ortodoxa de Frankfurt, mas às práticas orçamentais criativas de Atenas), ficaria pelas ruas da amargura com a mera possibilidade de semelhantes perdões e reestruturações se estenderem ao resto do continente, e de que as reformas que não foram feitas deixassem de ser vistas como necessárias. A perda de valor do euro afectaria não só os salários e poupanças dos gregos, mas também o valor dos rendimentos dos cidadãos dos outros países da zona euro, implicando uma degradação das suas condições de vida. E perante as dificuldades estruturais das suas economias e a relutância em realizar as reformas que poderiam ajudar a colmatá-las, as expectativas de que pudessem melhorar seriam tão escassas como os empregos que sobreviveriam à tempestade.

Aconteça o que acontecer com o Syriza, aconteça o que acontecer no país que agora irá governar em coligação com os nacionalistas-populistas-justicialistas dos dissidentes da Nova Democracia, nem a Grécia nem o resto da Europa se verão livres de dificuldades nos tempos que se avizinham. Nem a Grécia nem a Europa evitarão uma qualquer forma de “austeridade”. Nem os problemas relacionados com a forma como a Grécia tem sido governada desaparecem, nem os problemas inerentes ao desenho dos arranjos políticos da “Europa” deixarão de existir.

Temos, por isso, um enorme trinta-e-um em mãos. Como saíremos dele?

Mal.

Atenas e Berlim

António Costa, líder do PS, diz, a propósito da vitória do Syriza, que “cada povo deve ser livre de fazer as suas próprias escolhas”. E tem toda a razão. O povo grego pode escolher não se sujeitar às exigências da Alemanha, da Finlândia, e dos restantes países mais “austeritários”. E os eleitores alemães, finlandeses e dos outros países mais “austeritários” têm todo o direito de escolher não pagar aos gregos os custos das escolhas que estes últimos fazem. O que está em causa no conflito entre Atenas e Berlim não é um confronto entre “democracia” e “autoritarismo”. É, isso sim, um conflito de interesses de duas democracias, uma incompatibilidade entre duas vontades igualmente legítimas das respectivas maiorias eleitorais de cada um destes dois regimes democráticos. Por isso é que o problema é grave e complicado de resolver, independentemente dos méritos ou deméritos das duas posições.

Leopardos e camaleões

O dr. Paulo Portas, interrompendo as prolongadas férias que de há uns anos para cá anda a gozar a expensas do Orçamento Geral do Estado, escreveu um artigo no Observador sobre Winston Churchill. O texto, com o estilo retórico habitual na personagem (fazendo com que só os mais pacientes o consigam ler na íntegra), “argumenta” (tanto quanto o uso da palavra se pode aplicar a Portas) que “Churchill talvez não sobrevivesse aos tempos e aos modos da política contemporânea”. Por uma vez na vida, concordo com Portas: também eu temo que políticos como Churchill talvez não fossem bem sucedidos na política tal como ela hoje se pratica. Afinal, na política moderna proliferam e prosperam políticos precisamente da estirpe do dr. Portas, para infelicidade e desgraça de todos nós. Embora no seu caso concreto talvez isso esteja perto de deixar de ser verdade.

Dias de reflexão

Portugal tem um “dia de reflexão” nas vésperas das eleições. A Grécia tem um “dia de reflexão” nas vésperas das eleições. O desgraçado estado a que ambos estes países (cada um à sua maneira e grau) chegaram é prova mais do que suficiente que o tal “dia” não serve de muito.

Insistindo na asneira

Bergoglio Jorge Bergoglio, o responsável máximo da Igreja Católica conhecido por “Francisco”, veio “clarificar” as suas declarações, feitas após os ataques terroristas em Paris, de que se chamassem um nome feio à sua mãe, ele daria um murro na cara ao autor dos insultos, declarações essas que foram interpretadas como uma justificação dos ditos ataques terroristas. Bergoglio, a bordo do avião que o levou das Filipinas a Roma, garantiu que não, que se tratavam apenas de uma “abordagem humana” à questão. E acrescentou que “em teoria podemos dizer que uma reacção violenta a uma provocação ou ofensa é uma coisa má”, que “em teoria podemos dizer que temos liberdade de expressão”, mas que na realidade “somos humanos”, e que também “há a prudência, uma virtude da coexistência humana”. Ou seja, depois de ter reagido aos ataques terroristas preferindo dar ênfase, não aos ataques, mas à questão da suposta ofensa das caricaturas do desengraçado jornal francês onde trabalhavam os assassinados, Bergoglio pretende vir “clarificar” essa reacção inicial insistindo na asneira, colocando a agressão à “coexistência humana” na falta de “prudência” dos assassinados, e não nos assassinos. Algo que diz tudo acerca de um senhor com quem muita gente parece simpatizar, talvez por prestarem mais atenção ao ar simpático do senhor do que ao conteúdo – arrisco dizer – malévolo do que por vezes diz.

O problema

A triste saga da (demorada) privatização da TAP mostra bem qual é o problema da existência de empresas detidas pelo Estado. Tudo – até a sua privatização – está acima de tudo sujeito a critérios políticos do detentor do poder, e aos interesses dos grupos de pressão que a ele têm acesso, em detrimento de tudo o resto.

“Basta um mau encontro”

No telejornal da RTP, o enviado especial António Esteves Martins discursava a partir de Paris acerca dos ataques terroristas na capital francesa quando, a dada altura, começou a dizer como nos bairros de onde eram originários estes terroristas viviam também muitos “jovens portugueses”, e que “basta um mau encontro” para que se “convertam” ao “fundamentalismo terrorista”. Estas palavras (cujo sentido irei distorcer mas que garanto terem sido exactamente assim enunciadas) fizeram-me pensar. Realmente, a vida burguesa dos arredores lisboetas deve ser mesmo muito diferente da dos bairros sociais parisienses. Nestes meus anos de existência terrena, tive já muitos encontros (ou, para ser mais preciso, alguns encontros) e uma parte deles (a grande maioria), foram aquilo que qualquer pessoa que valorize a verdade classificaria de maus – para a pobre rapariga que, por azar ou falta de sensatez, acedeu ao meu convite para ceder a sua companhia em cada particular ocasião. No entanto, nunca me “converti” ao que quer que fosse – exceptuando talvez ao desespero existencial – muito menos ao fundamentalismo terrorista. Aliás, se alguém ganhou ressentimento contra a sociedade ocidental liberal foi o – diminuto – número de membros da metade feminina da espécie que passou pela terrível experiência de ser cortejada pela minha pessoa, capaz de provocar até na mais adorável das almas (caso de uma ou duas das vítimas) um incontrolável desejo de vingança contra um mundo que permite que jovens inocentes sejam sujeitas a tal brutalidade. Talvez fosse isso que Esteves Martins queria dizer: uma jovem portuguesa residente num banlieue tem um “date” com um qualquer “irmão Kouachi”, e de tão negativa é a experiência, fica logo pronta para partir para a Síria ou o Iraque para combater com o “Estado Islâmico”. Assim, parecem ter razão aqueles que consideram que o fim do terrorismo só será conseguido com o fim das frustrações amorosas de grande parte da população. Ou seja, é algo muito pouco provável.

O filósofo Larry David sobre o drama existencial da selecção sexual

O filósofo Larry David sobre o drama existencial da selecção sexual

“Heroes, just for one day”

João Marques de Almeida, um conhecido colunista que até escreve bons artigos quando os seus argumentos são “inspirados” por terceiros, escreve hoje no Observador um texto sobre os atentados de Paris, em que diz que “certamente que David Bowie não escreveu “Heroes” a pensar nos soldados jihadistas, mas a letra aplica-se a esses “heróis por um dia””. Diz Marques de Almeida que “como se viu nos últimos dias, os jihadistas conseguem derrotar todos, um país, a Europa, o mundo livre, durante um dia. Seguramente que se sentem como reis quando matam indiscriminadamente e semeiam o terror. E morrem como “heróis” para muitos que sonham um dia morrer como eles. Bin Laden e aqueles que atacaram os Estados Unidos no dia 11 de Setembro de 2001 foram os “heróis” de quem matou, anos depois, em Madrid e em Londres. E os terroristas de 2004 e de 2005 terão sido os “heróis” dos irmãos Kouachi. E vão surgir mais “heróis”.”

Marques de Almeida conhece a letra da canção, e o verso (que cita) “we can beat them just for one day, we can be heroes.” Mas, pelos vistos, não sabe o seu significado, e por isso não percebe que nem deixando a palavra “heróis” entre aspas, não atribuindo assim real heroicidade aos sujeitos, se pode aplicar a letra da canção aos terroristas (não estou acusar Marques de Almeida de considerar os terroristas como heróis, estou a acusá-lo de fazer um mau paralelo). Produzida em 1977, “Heroes” conta a história de um casal (que mais tarde se veio a saber ser o produtor de Bowie, Tony Visconti, e a – à altura – sua amante, a cantora Antonia Mass) que se encontra e se beija junto ao Muro do Berlim, desafiando as armas que, disparando sob as suas cabeças mas que, para sua sorte, falham o alvo (“And the guns shot above our heads (over our heads)“) e que por isso, são heróis por um dia. Mesmo descontando as intenções originais de Bowie, e dando liberdade para as mais rocambolescas interpretações e comparações, é absurdo dizer que “a letra” se aplica aos “soldados jihadistas”. A letra de “Heroes” nunca se pode aplicar às pessoas que têm as armas na mão e que disparam na direcção das cabeças de inocentes. A aplicar-se a alguém, a letra de “Heroes” aplica-se a pessoas como Yohan Cohen, o jovem de 22 anos feito refém no supermercado parisiense, que morreu a tentar salvar a vida de uma criança de três anos da ameaça do terrorista Amedy Coulibaly. A aplicar-se a alguém, a letra aplica-se a pessoas como Yoav Hattab, Philippe Braham e Francois-Michel Saada, as outras vítimas do “soldado jihadista”. A aplicar-se a alguém, a letra de “Heroes” aplica-se a Lassana Bathily, um empregado do mesmo supermercado, que ajudou a proteger a vida dos reféns sobreviventes. E aplicar-se-ia também a Clarissa Jean-Philippe, a polícia morta em Montrouge, ou a Ahmed Merabet, o polícia muçulmano morto em Paris. Quase todos (à excepção de Bathily) pessoas que não tiveram a mesma sorte do par romântico de Bowie, e que acabaram mesmo por morrer. “The shame”, diz Bowie, “was on the other side”. E por isso mesmo, a letra da sua canção nunca se poderá aplicar a quem está do lado onde está a vergonha. Algo que Marques de Almeida deveria ter percebido antes de escrever o seu artigo.

A “nossa sociedade ocidental, céptica, individualista” merece ser defendida

No site da Rádio Renascença, Graça Franco, por entre algumas considerações sensatas embora banais, afirma que “no ataque ao “Hebdo” não está apenas o ódio e a vingança de pretensos ofendidos. Está uma barbárie que progride na exclusão social das nossas periferias. Está o vazio que a nossa sociedade ocidental, céptica, individualista, pretensamente modernaça nos seus sem-valores, sem nada para oferecer a uma geração perdida no vazio e na ignorância alimentada de “reality shows” e pouco mais espelhada numa pobreza intelectual confrangedora.” Por muito que se possa compreender as razões do lamento da dra. Franco e até a sua preocupação com os “sem-valores” das nossas sociedades “modernaças”, é difícil de concordar com a afirmação. Graça Franco tem razão ao alertar para a “exclusão social” das “periferias” de cidades como Paris: como disse na ETV , há, em cidades como a capital francesa, bairros que quase funcionam como estados-pária, onde as autoridades dos países onde se situam mal conseguem entrar e as comunidades neles residentes vivem sob o jugo de grupos fundamentalistas radicais, cheios de vontade de negar direitos às suas mulheres e de doutrinar jovens rapazes para irem combater contra os infiéis, seja onde for. Mas, ao contrário do que a dra. Graça Franco parece argumentar, esses jovens não são como os jovens que são educados no “vazio” e na “ignorância alimentada a reality shows”. São jovens educados, por esses mesmos fundamentalistas religiosos a que esses bairros estão entregues (fora do alcance do Estado ou de líderes religiosos mais sensatos), a odiarem esse carácter “modernaço” das nossas sociedades, a odiarem o tal “vazio” que identificam num modo de vida em que as adolescentes podem andar de mini-saia, fazer sexo com quem muito bem entendem (e não fazer com quem não querem), em que qualquer um é livre de, se quiser, ingerir bebidas alcoólicas, ver pornografia, não acreditar em Deus ou acreditar mas dar-lhe pouca importância, e até mesmo ver a Casa dos Segredos com a maior das atenções, por muito “confrangedora” que a “pobreza intelectual” que a dra. Graça Franco associa ao programa seja. Podemos, e em certo sentido devemos, encontrar muitos problemas nas nossas sociedades, e criticá-los com a veemência que entendermos necessária. Mas nos ataques terroristas destes últimos dias – e dos últimos anos – não está o “vazio”, o “cepticismo” e o “individualismo”. Está, isso sim, um ódio visceral a tudo isto. A Casa dos Segredos não é o problema. O problema está em haver gente que odeia um modo de vida em que ver algo como a Casa dos Segredos é um direito. Um modo de vida e uma série de direitos que merecem ser defendidos.

À atenção da dra. Ana Gomes

We must stop blaming ourselves for Islamist terror, um artigo de Padraig Reidy no Telegraph:

We’d forgot about Charlie Hebdo. In 2011, the satirical magazine, firmly rooted in the anti-clericalism of the French left, was firebombed after it published an edition poking fun at Islam: “100 lashes if you don’t die of laughter”, read the cover.

At the time, unthinkable in the light of today’s attack on Charlie’s office, there was “debate” over whether the magazine’s cartoonists and editors had “gone too far”.

Bruce Crumley, a correspondent for Time, rushed to condemn not the bombers, but the scribblers.

“Not only are such Islamophobic antics [as publishing cartoons] futile and childish,” he wrote, “but they also openly beg for the very violent responses from extremists their authors claim to proudly defy in the name of common good. What common good is served by creating more division and anger, and by tempting belligerent reaction?”

He went on: “Do you still think the price you paid for printing an offensive, shameful, and singularly humor-deficient parody on the logic of ‘because we can’ was so worthwhile? If so, good luck with those charcoal drawings your pages will now be featuring.”

Others sought to contextualise the attacks against the backdrop of alienation felt by many French Muslims.

Underlying all this was a persistent assumption. Islamist attacks are only ever reactions, only ever brought about by provocation from the West. All the way back to the Ayatollah Khomeini’s contract on the head of Salman Rushdie in 1989, we have accepted the idea that it is up to authors, artists and cartoonists to justify themselves in the face of threats and real violence.

Rushdie himself even apologised for his supposed “insult” to Islam, in fear for his life.

If the rise of Isil has taught the world one thing, it is that the provocation is beside the point. Jihadists kill because that is what they do. It does not matter if you are a French cartoonist or a Yezidi child, or an aid worker or journalist: if you are not one of the chosen few, you are fair game. Provocation is merely an excuse used by bullies to justify their actions, while ensuring the world bows to their will.

A arte perdida de falar sem dizer nada

A Grécia prepara-se para ter eleições legislativas a 25 de Janeiro, e ninguém com responsabilidades (ou sem elas) na “Europa” consegue evitar dizer o que pensa acerca do assunto. O Governo alemão, dizem as más línguas e o Der Spiegel, fez saber que, se os gregos quiserem sair do euro, são livres de o fazer. O tom ameaçador da declaração não é uma coincidência. Uma senhora da Comissão Europeia, por sua vez, diz que a adesão da Grécia ao euro é “irrevogável”, e ao contrário do dr. Portas, fala a sério. E até o dr. Durão, despido de funções europeias e de vergonha no rosto (mas, felizmente, não de roupas), veio avisar os gregos de que caso não cumpram os seus compromissos, os seus parceiros europeus poderão “perder a paciência”. Não é preciso ser um génio para compreender que qualquer político de nacionalidade não-grega deveria, até ao dia das eleições e se questionado acerca delas, responder simplesmente “até dia 25 não vou comentar esse assunto para não interferir no processo eleitoral, e a partir daí logo veremos o que acontece”. Infelizmente, também não é preciso ser sensato para se ter cargos importantes na política europeia, como os casos acima referidos demonstram à saciedade. Gente geralmente dada, a propósito dos mais variados temas, a falar sem dizer nada, sente-se agora compelida a dizer tudo o que lhe vai na alma acerca da Grécia e da sua governação. Talvez por ser uma questão que lhes toca particularmente o coração. Pena que não tivessem demonstrado o mesmo fervor pelos assuntos desse país nos anos em que alegremente os seus governantes aldrabavam as contas públicas, mantendo o inacreditável estado de coisas que vigorava por aqueles lados e abrindo as portas ao descalabro presente. Nessa altura, a “Europa” fechava os olhos e deixava o fogo começar a arder, como se daí não viesse qualquer perigo. Agora, prefere deitar achas para a fogueira. Não foi uma melhoria.

O “preso político” José Sócrates

José Manuel Fernandes no Observador:

O que este “preso político” nos conta agora é que está a ser perseguido porque as autoridades judiciais não acham normal que um seu amigo de mais de 40 anos tenha acumulado tantos milhões apesar de não se perceber como; que não acham natural que esse amigo lhe tenha emprestado, sem recibo ou qualquer documento ou registo, centenas de milhares de euros para despesas correntes, dívida que certamente pagará apesar de ele, José Sócrates, garantir que não tem fortuna; que não acham normal que as transações entre estes dois velhos amigos tivessem tomado por regra a forma de notas dentro de um envelope (as malas de dinheiro são um exagero, meu deus!), apesar de no país, no século XXI, mesmo os remediados dos remediados utilizarem cheques, cartões e transferências bancárias (o primeiro-ministro do “choque tecnológico” é afinal um conservador que prefere guardar o dinheiro no colchão); que também não acham normal que um empresário com negócios banais em Portugal tenha oportunamente decidido realizar um investimento num andar “a precisar de obras” em Paris, mesmo a tempo de o emprestar ao amigo que, parece, estava com “algumas dificuldades de liquidez”; e por aí adiante.

Leitura complementar: De quem falamos quando falamos de José Sócrates

Uma “disposição” tão “inequívoca” como a “decisão irrevogável” foi irrevogável

O presidente do CDS, Paulo Portas, transmitiu hoje, na sua mensagem de “Ano Bom”, a sua disposição “inequívoca e empenhada” para renovar a maioria PSD/CDS.

“A minha disposição para vencer o combate de 2015 e renovar a maioria é inequívoca e empenhada. Faremos, no CDS, o nosso trabalho de casa, abrindo o partido e investindo em ideias e soluções para um país que, no próximo mandato, felizmente, já não será governado em estado de excepção”, refere o político.

Nuvens negras

À excepção de António Costa, uns quantos oportunistas, e talvez um ou outro louco, não deve haver português que gostasse de estar no lugar de Pedro Passos Coelho. Até os mais ferozes críticos da política do seu governo reconhecerão que mesmo partindo para a empreitada com as melhores das intenções, ser Primeiro-Ministro deste país nas circunstâncias em que Passos foi incumbido de nos pastorear seria sempre uma muito pouco invejável tarefa: da gravidade do problema financeiro deixado pelo “engenheiro” José Sócrates e a urgência de o controlar, até aos obstáculos erigidos pelos inúmeros grupos de interesse sempre prontos a se oporem a toda e qualquer ameaça ao que outrora conquistaram, passando pela notória incapacidade ou falta de vontade dos mais variados membros Executivo para fazerem uma reforma que fosse mais que mera propaganda, tudo conspirava para que a vida do ocupante do Palácio de S. Bento no período legislativo de 2011-2015 fosse complicada.

Perante este deprimente quadro de dificuldades e complicações, não é de espantar que o Primeiro-Ministro se agarre aos mais insignificantes detalhes e os transforme em inigualáveis feitos de grandeza e heroicidade. E assim foi na passada quinta-feira, quando o Espírito do Passos Coelho Futuro (o da campanha eleitoral) resolveu assombrar os jantares natalícios dos seus conterrâneos com uma curta mensagem de Natal.

“Fechámos o programa de auxílio externo com uma saída limpa, sem precisar de assistência adicional”, regozijou-se o Primeiro-Ministro, esquecendo convenientemente não só que a troika desaconselhou essa “saída limpa”, como também que, no final, Portugal optou por não concluir o programa de assistência, prescindido da última tranche nele prevista após a declaração de inconstitucionalidade de algumas medidas necessárias à obtenção de objectivos orçamentais exigidos para o seu pagamento. Passos Coelho, no entanto, assegurou que a conclusão deste programa “não foi uma conquista insignificante”, e “ficará por muitos anos na nossa história”: “depois de tremendas dificuldades a que fomos sujeitos”, insiste, o país “reconquistou” a sua “autonomia”, e tem “em marcha um processo sólido de recuperação”, uma “nova fase” de “crescimento”, “aumento do emprego e de recuperação dos rendimentos das famílias”. “Podemos”, afirma Passos, “sentir cada vez mais confiança no futuro”.

Como seria de esperar, não faltou quem logo viesse acusar o líder do Governo de discursar sobre um país existente apenas na sua fértil imaginação. Poucos repararam como, a par deste exagero dos méritos dos seus trabalhos, o discurso de Passos Coelho acabava também por ser uma admissão do seu falhanço. Uma admissão involuntária, é certo, mas uma admissão na mesma: ao falar da carga de impostos e do “alívio fiscal” que supostamente “os portugueses” vão sentir, o Primeiro-Ministro disse também que “não podemos ir tão longe como gostaríamos”. Infelizmente, o Primeiro-Ministro não se alongou, mas é óbvio para qualquer um que, se o Governo não pode promover um “alívio” fiscal tão extenso como “gostaria”, é porque isso implicaria uma explosão dos valores do défice que minaria a credibilidade do Governo e deixaria o país numa muito frágil situação nos “mercados” de dívida pública. Como é também óbvio para qualquer um que essa explosão do défice que resultaria de uma hipotética descida dos impostos só aconteceria porque houve uma bem real relutância ou falta de habilidade para cortar a despesa do Estado em quantidade suficiente para tornar mais leve a carga fiscal que os portugueses são forçados a suportar. Sem querer, Passos Coelho diz a quem quiser perceber que os anos da sua governação foram uma perda de tempo.

O Primeiro-Ministro, manifestamente, integra o grupo das pessoas que não querem perceber o que quer que seja. Falou, à primeira vista sensatamente, das muitas “incertezas no plano externo” que “comportam riscos para os quais devemos procurar estar preparados”. Mas logo afirmou que “este será o primeiro Natal desde há muitos anos em que os Portugueses não terão a acumulação de nuvens negras no seu horizonte”, uma afirmação só por si suficiente para tornar clara a magnitude da incompreensão do mundo por parte do homem à frente dos nossos destinos. A crise dos preços do petróleo bem pode ter levado muitos espíritos menos sensatos a sentirem um grande alívio com o aparente enfraquecimento de uma Rússia que parecia cada vez mais perigosa. O problema está em que o comportamento agressivo da Rússia sempre se deveu precisamente à percepção que o regime putiniano tem da fraqueza do país (e do seu controlo sobre ele): a circunstância do regime ser (como escreveu Fraser Nelson) “uma gigantesca empresa energética com um exército” pode ter enriquecido os seus corruptos líderes, mas também os fragiliza, à medida que um mercado menos favorável lhes diminui a riqueza, e uma economia atrofiada se arrisca a retirar-lhes o apoio popular. Com tropelias na vizinhança, Putin une os russos em torno do líder que os “protege” de um “Ocidente moralmente decadente”. E se perder o controlo do poder, quem o vier a substituir será provavelmente ainda pior. Quanto maiores forem os problemas da Rússia, mais agressiva tenderá a ser, com todos os problemas que isso acarreta.

Ao mesmo tempo, mais perto de nós (em todos os sentidos), a Grécia caminha para um acto eleitoral que pode deixar o poder no colo do Syriza, e com isso fazer regressar a crise da moeda única europeia. Alguns optimistas julgam talvez que à beira do precipício, a Alemanha se convenceria finalmente a abrir os cordões à bolsa para evitar o descalabro. Ignoram que essa opção, podendo talvez salvar a economia europeia, corre também o risco de conduzir à desintegração da União: ao implicar, através da desvalorização da moeda que essa política de menor “austeridade” acarretaria, uma perda do valor dos salários e poupanças dos cidadãos dos países com finanças públicas (relativamente) saudáveis, esse esforço só seria aceite por países como a Alemanha se tiverem meios de impor aos outros medidas orçamentais restritivas. O resultado não se faria esperar (até porque já por aí anda): os “ajudados” queixar-se-iam de serem cidadãos de segunda, e os restantes do despesismo dos anteriores, concordando apenas no desprezo pelo arranjo e na ânsia pela sua extinção.

Mas nem é preciso olhar para os céus estrangeiros para ver as “nuvens negras” que, ao contrário do que julga Passos Coelho, ameaçadoramente pairam sobre Portugal. Basta olhar para o nosso. Por muitos bons indicadores que possam ser encontrados para vislumbrar uma luz ao fundo do túnel em que temos caminhado, eles são meramente conjunturais. São sucessos de curto prazo. Tudo o que é estrutural e de longo prazo na nossa economia continua sem ser reformado: a carga fiscal continua demasiado elevada para que a economia a possa suportar sem ser estrangulada, mas ao mesmo continua a ser insuficiente para cobrir todas as despesas que o Estado tem de fazer, despesas essas que em grande medida o eleitorado não está disposto a dispensar; a Segurança Social continua a ser um esquema Ponzi insustentável pelo qual todos somos vigarizados por obrigação legal imposta pelo Estado; a Justiça, para além dos casos mediáticos, continua a ser um caos lento e injusto; e o país continua a estar muito dependente do favor de quem lhe vai emprestando dinheiro, sem no entanto lhes oferecer algo que impeça que, uma vez desfavorável a conjuntura, de novo todos receiem a nossa capacidade de cumprir as nossas obrigações; acima de tudo, paira sobre as nossas cabeças a muito escura “nuvem” da degradação das condições políticas para se fazerem essas reformas no futuro, a principal e mais negativa consequência do falhanço governativo de Passos: ao criar um enorme descontentamento com a “austeridade” sem ter feito nada que a fizesse valer a pena, o Governo torna simultaneamente mais necessárias e menos apetecíveis novas medidas de consequências muito difíceis para a vida dos portugueses.

É por isso que, ao contrário do que António Costa diz desejar, o “ano novo” estará longe de trazer consigo “vida nova”. O calendário indicará certamente o início de mais um ciclo de 365 dias, mas como qualquer elemento da espécie humana acaba por descobrir mais tarde ou mais cedo na vida, o passado demora a passar. Continua connosco mesmo quando julgamos que o deixámos para trás. E tal como Passos teve de lidar com a “herança” de Sócrates, também Costa terá de suportar o peso da de Passos. O “ano” poderá ser novo, mas infelizmente – para o líder do PS, e acima de tudo, para todos os portugueses – as tropelias de Sócrates e o fracasso de Passos continuarão aí, já velhinhos mas bem vivos a pairar sobre nós, e a “vida”, não será nova, mas pior. “Vem aí uma tempestade”, disse há uns anos uma senhora integrante de uma fantasia hollywoodesca de qualidade apreciável. Pelos vistos, nem Passos Coelho nem António Costa julgam que a profecia se aplique ao cantinho onde tanto eles como nós tivemos o azar de ser trazidos a este mundo. Não demorará muito para que um e outro descubram que estão enganados. Pena que todo um país tenha que os acompanhar na valente molha que se abaterá sobre nós.

Assembleia Geral

Como habitual às sextas-feiras, estive a semana passada no Assembleia Geral a falar sobre a TAP.

http://rd3.videos.sapo.pt/playhtml?file=http://rd3.videos.sapo.pt/u00mJnt9z3obymTwb9vl/mov/1

Ao contrário do que é costume, estive também na edição de ontem do programa, desta vez a falar sobre a credibilidade de Portugal no estrangeiro e o futuro do país.

http://rd3.videos.sapo.pt/playhtml?file=http://rd3.videos.sapo.pt/MC2taanvHWeF9LIdGDOT/mov/1

Rui Tavares, a zebra e a búfaga, e as portas escancaradas

Rui Tavares, um candidato a apêndice de António Costa tido por “intelectual” em virtude de ter o seu nome na lista de contactos de muita gente, escreve hoje um artigo no Público acerca de Carlos Abreu Amorim e das críticas à declaração deste último afirmando que deixara de “ser liberal”. Escreve Tavares que “todas” as “reacções” dos “ex-correligionários de Abreu Amorim” ignoraram o “diagnóstico” que ele fizera acerca do liberalismo e dos seus problemas, sendo antes “ao estilo de A Queda de um Anjo – o idealista ingénuo que chegou ao Parlamento e se deixou conspurcar pela baixa política”. “O problema”, acrescenta Tavares, “é que com a crise financeira e a rédea solta que foi dada à banca para as suas depredações”, teve lugar “um assalto” cujas “vítimas”, assegura, “fomos todos nós”. E se “a casa roubada, trancas à porta” deveria ser, diz Tavares, a máxima que todos devíamos seguir, “nos quadrantes liberais” a “regra”, garante, “parece ser ‘a casa roubada, porta escancarada”. Tavares julga talvez dizer algo de profundo acerca da crise que atravessamos e da natureza dos problemas que a originaram com esta prosa. Infelizmente, ela apenas demonstra que Tavares não compreende nem Abreu Amorim, nem a crise que supostamente motivou a sua conversão ideológica.

Comecemos pelo deputado do PSD, deixando as coisas importantes para depois. Ao contrário do que Rui Tavares parece pensar, ninguém achou que Abreu Amorim fosse um ingénuo que se deixou desvirtuar pelas tentações da política. Há muitos anos que muitos dos tais “ex-correligionários” (uma noção ela própria absurda, só possível a quem não sabe o que está a dizer ou falte vergonha) criticavam ferozmente Abreu Amorim por ser um oportunista sem princípios e sempre à caça de quem lhe desse destaque. Uns começaram a criticá-lo quando passou dos encómios a Manuel Monteiro para brutais ataques ao seu anterior ídolo; outros quando esqueceu o seu vigoroso anticlericalismo para fazer entusiasmados passeios a Fátima em tempo de campanha; outros quando passou de admirador de Rui Rio a seu adversário incondicional; e outros ainda quando passou a frequentar as caixas de comentários dos blogues a elogiar os seus próprios textos assinando com um nome de senhora. Mas há mais ou menos tempo que toda a gente que conheça o percurso do ex-candidato à Câmara de Gaia sabe bem que ele é tudo menos um anjo. Falando por mim, o que critiquei ontem nas declarações de Abreu Amorim foi, não uma suposta ingenuidade que há muito sei ser inexistente numa figura onde só há espaço para a hipocrisia, mas a pobreza da sua explicação para a suposta mudança de opinião.

O que nos leva à crise e às explicações que Abreu Amorim e Tavares dão para ela. Tavares cita o deputado laranja quando este afirma que “em 2007 nos EUA e aqui, houve uma margem de liberdade dada aos agentes económicos, sobretudo financeiros, que eles não mereciam” e da qual, acrescenta, “não estavam à altura”. É aliás por concordar que Tavares propõe as tais “trancas” nas figurativas “portas” do sistema económico. O que Tavares pelos vistos não percebe é que o problema das “portas escancaradas” de 2007 não estava numa mítica ausência do Estado, mas precisamente na fácil circulação da sala dos interesses económicos para a sala do poder político feita através da sempre bem aberta porta da intervenção estatal e da partilha de interesses entre quem tem o poder político e quem tem acesso a ele.

Ao contrário do que argumenta aquilo a que por preguiça ou ignorância chamamos de “esquerda”, o “poder político” não está “dominado” pelo “poder económico”; e ao contrário do que aquilo a que por preguiça ou ignorância chamamos de “direita” assegura, o “poder económico” não está “controlado” pelo “poder político”; na realidade, um e outro convivem e dependem um do outro, numa relação simbiótica como a da zebra e da búfaga: os interesses económicos que conseguem passar pela “porta” dos gabinetes políticos aceitam e incentivam a complexa regulação elaborada pelo poder político, quanto mais não seja porque os protege de concorrência; o poder político aceita que estes se comportem de forma irresponsável porque esse mesmo comportamento lhe permite, durante algum, beneficiar de condições extremamente favoráveis à realização de propaganda e distribuição de benefícios pelas clientelas; o poder político recebe desses interesses dinheiro e apoio para certos “projectos” tidos como “estratégicos” mas meramente propagandísticos, e em troca, aqueles últimos recebem condições extremamente favoráveis para a realização de uma série de negócios que muitos lucros lhes trazem.

Rui Tavares diz querer pôr “trancas à porta” do sistema. Não percebe, talvez porque no Bairro Alto não se aprenda muito sobre estas questões, que ao acrescentar mais Estado ao problema, apenas “escancara” ainda mais as ditas “portas”. O que os liberais – grupo do qual se pode excluir o Governo, diga-se de passagem – e outros que com eles concordam neste ponto – o meu caso – pretendem é precisamente fechar as portas que unem os interesses de quem detém o poder político e os que vivem no seu dorso, colocando cada uma das partes no seu devido lugar, e separando-as efectiva e definitivamente. Ao querer acrescentar mais Estado, Rui Tavares não conseguirá, ao contrário do que julga, eliminar o mercado e o que de pior ele possa ter: apenas substituirá o mercado da livre interacção dos indivíduos pelo obscuro mercado da influência política e da troca de favores.

E já que gastei algum tempo a explicar coisas óbvias a alguém que passa por pessoa inteligente, acrescento uma outra coisa para ilustração de Rui Tavares: o seu artigo no Público inicia-se com uma pretensa citação de Irving Kristol, em que este teria dito que “um conservador é um liberal que foi assaltado”. Ora, o que Kristol escreveu foi que “um neoconservador” – e não simplesmente “um conservador” – “é um liberal” – no sentido americano do termo, ou seja, alguém a quem nós chamaríamos “de esquerda”- “assaltado pela realidade” – e não simplesmente “assaltado”. Se Tavares quer armar-se em esperto e manter a capa de político culto que gosta de ostentar, talvez devesse ter algum cuidado em verificar o que está a citar. Talvez possa ligar a algum dos seus múltiplos contactos. É possível que algum deles tenha lido mesmo aquilo que Tavares gosta de fazer crer que conhece, e o possa elucidar.

Um “processo longo” de “evolução ideológica”

Carlos "Two Face" Amorim"

Carlos “Two Face” Abreu Amorim

Na sua página no Facebook, o deputado Carlos Abreu Amorim comenta a entrevista em que diz ter deixado de ser liberal. Diz o ex-aguadeiro-de-Manuel-Monteiro-tornado-aguadeiro-de-Passos-Coelho que a sua “evolução ideológica não aconteceu no último mês”, tendo ao invés sido “um processo longo que ganhou forma com as causas da crise financeira internacional de 2007 e que se acentuou com as PPP indígenas e o modo como se deram as quedas de bancos em Portugal”. Ou seja, Abreu Amorim passou a acreditar nas virtudes da intervenção estatal na economia por causa de uma crise em que a intervenção estatal – através dos famosos Freddie Mac e Fannie Mae – ajudou a criar uma bolha no mercado imobiliário nos EUA, bolha essa que depois rebentou com as conhecidas consequências; passou a acreditar nas virtudes da intervenção estatal depois das quedas de bancos portugueses que haviam prosperado durante anos graças à privilegiada relação que mantinham com um poder político sempre ávido de dinheiro para propaganda e disposto aos mais variados favores em troca de uma ajudinha nesse excelso propósito; e passou a acreditar nas virtudes da intervenção estatal ao observar as PPP, um caso paradigmático de como um Estado de dimensão gigantesca age em conluio com os interesses económicos com melhor acesso ao pouco livre mercado da influência política para lucro mútuo das duas partes e prejuízo de todas as outras pessoas. Ou seja, talvez todos aqueles que hoje criticaram Abreu Amorim estejam errados ao insinuarem ou dizerem que ele não passa de um oportunista sempre disposto a “engraxar” quem lhe der um lugar de algum destaque. Talvez Abreu Amorim seja apenas alguém que sofre de uma grande falta de perspicácia. O que, a avaliar pelo historial de “figuras” políticas a que se foi atrelando ao longo da sua gloriosa carreira, não custa a acreditar.

Cuba e os Estados Unidos

Agora que os Estados Unidos reataram as suas relações diplomáticas com a ditadura cubana, vale a pena ler o excelente artigo que o grande ensaísta americano John Jeremiah Sullivan publicou em 2012, sobre uma viagem à ilha com a sua mulher, para lá visitar a família dela:

The cook at the omelet station, when he asked where I was from and I told him, put up his fists like a boxer, as if we were about to have it out, then started laughing. He told me that he had family in the United States, in Florida. That’s what everyone says. You can’t understand the transnationally dysfunctional, mutually implicated relationship between Cuba and Miami, that defies all embargoes and policies of “definitive abandonment,” until you realize that the line often cuts through families, almost always, in fact. People make all sorts of inner adjustments. I told the man I hated the embargo (the blockade, as they call it) and thought it was stupid, which was both true and what he wanted to hear. He gave me a manly clap-grasp. I didn’t go on and say, of course, that I disliked the embargo most because it, more than anything, has kept the Castros in power for half a century, given them a ready-made Goliath for their David. Thanks to the embargo, when the Castros rail against us as an imperialist enemy, they aren’t really lying. We have in effect declared ourselves the enemy of the Cuban people and done it under the banner of their freedom, hitting Cuba in a way that, after all, makes only the people suffer, and far from punishing those in power, rewards them and buttresses their story. As for the argument that to deal with tyrants would render our foreign policy incoherent, we deal with worse every day — we’ve armed worse — and in countries that don’t have a deeply intimate history with ours, going back centuries. All this because a relatively small but highly mobilized exile community holds sway in a state that has the power to elect presidents. There was no way to gauge how much of this the man would agree with. We left it at mutually thinking the embargo sucked.

(…)On the way back to the hotel, Manuel asked what I did. When I told him I was a reporter, he said: “You’d hate it here. There is no freedom of expression here.”

He launched into a tirade against the regime. “It is basically a prison,” he said. “Everyone is afraid.”

The things he said, which I had heard many times before — that you can go to prison for nothing, that there’s no opportunity, that people are terrified to speak out — are the reason I can never quite get with my leftie-most friends on Cuba, when they want to make excuses for the regime. It’s simply a fact that nearly every Cuban I’ve ever come to know beyond a passing acquaintance, everyone not involved with the party, will turn to you at some point and say something along the lines of, “It is a prison here.” I just heard it from one of the men who worked for Erik, back in the hometown. I remarked to him that storefronts on the streets looked a little bit better, more freshly painted. It was a shallow, small-talky observation.

“No,” he said, turning his head and exhaling smoke.

“You mean things haven’t improved?” I said.

“There is no future,” he said. “We are lost.”

(…)There was a time Mariana took me to Cuba, and we went to a town called Remedios, in the central part of the island. (…)At a certain moment, a woman appeared in the passageway that led from the front room into the main part of the house, a woman with rolls of fat on her limbs, like a baby, and skin covered in moles. She walked on crutches with braces on her knees. She had a beautiful natural Afro with a scarf tied around it. She was simply a visually magnificent human being. She told us the prices of her works, and we bought a little chicken carving. She said almost nothing otherwise — she had difficulty speaking — but when we stood up to leave, she lifted a hand and spoke, or rather delivered, this sentence. It was evidently the message among all others that she deemed most essential for U.S. visitors. “I know that at present there are great differences between our peoples,” she said, “but in the future all will be well, because we are all the sons and daughters of Abraham Lincoln.”

Uma triste campanha

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Há dias, o Governo anunciou que não voltará a prolongar a redução de 50% do pagamento do trabalho em feriados e horas extra. A organização corporativa que defende os interesses dos donos de algumas empresas e a organização corporativa ligada ao PCP que zela pelos interesses dos trabalhadores nela inscritos dividiram-se quanto aos méritos da decisão. Mas méritos ou deméritos desta ou outra medida serão algo que ficará ausente do debate partidário, pois nenhuma será discutida pelas agremiações concorrentes em função de outra coisa que não a sua coreografia para a longa e triste campanha eleitoral que nos atormentará.

Já se percebeu que os meses que nos separam das eleições legislativas serão tudo menos edificantes. Falando de “caravelas”, “mexilhão” ou “donos disto”, Governo e oposição degladiam-se ferozmente, esforçando-se por se suplantarem no que à falta de seriedade diz respeito. E a tendência é para a coisa piorar: PSD e CDS precisam de dar uns rebuçados a um eleitorado cansado de austeridade e simultaneamente convencê-lo de que o “despesismo” do “punho erguido” será uma desgraça. O PS argumentará que “uma desgraça” foi o estado em que o Governo deixou Portugal, procurando que esse refrão não convença os eleitores de que a situação do país impedirá o PS de melhorar as suas vidas. Por outras palavras, PSD e CDS terão de mostrar que governaram bem, mas não “demasiado bem” ao ponto de tudo estar resolvido e ser seguro devolver S. Bento ao PS, e o PS precisa de mostrar que a crise continua, mas é possível voltar a viver como se ela nunca tivesse ocorrido. Ninguém de bom senso acreditará em qualquer um deles, claro, e o resultado será o “parlamento pendurado” que por aí se antecipa. Quanto aos problemas que realmente afectam os portugueses, nada será dito ou feito. Nada, também, que nos deva surpreender.

“Esquerda” e “Direita” não querem dizer nada

Há uns meses, a Universidade de Verão do PSD resolveu chamar esses dois grandes intelectuais (particularmente versados no tema “como ter uma lista de contactos extensa e prestável”) que são Miguel Poiares Maduro e Rui Tavares para discutirem a “actualidade” da distinção entre “a Esquerda” e “a Direita”: Maduro, num argumento típico de um oportunista, dizia que as diferenças entre uma e outra se tinham esbatido. Rui Tavares, como seria de esperar de alguém habituado a fechar os olhos e o pensamento a tudo o que seja complicação, achava que a distinção fazia todo o sentido. Nenhum deles dizia aquilo que qualquer pessoa com dois dedos na testa percebe: o problema do uso dos termos “esquerda” e “direita” não está em não existirem diferenças, está em esses termos não serem capazes de as traduzir. Felizmente, há quem consiga ver o que Tavares e Maduro não conseguem, como James Kirkup num interessante artigo no Daily Telegraph sobre a imigração e o “Transatlantic Trade and Investment Partnership”:

“The London Mayor’s latest foray into the politics of immigration are just the latest evidence of something that’s increasingly clear about British politics: the terms “Right” and “Left” are becoming meaningless. After all, if those labels were useful, they’d tell us how people who carry them would think about particular subjects. Left-wingers, for instance, would be hostile to free markets and big business, while Right-wingers would embrace them. It’s a nice, clean theory, but the reality is much messier. (…)

Boris is hardly alone in his argument that the free movement of people across borders enriches us. While Ukip, the Conservative leadership and at least some of the Labour Party talk up their willingness to restrict immigration, a curious band of political actors is putting the contrary view.

Among the most enthusiastic supporters of a more liberal approach to immigration are the Institute of Directors and the Adam Smith Institute, generally perceived as bastions of the free-market Right. Vince Cable, regarded by some of his (mistaken) critics as an old-school socialist, is on the pro-immigration list too. So is being liberal on immigration a Right-wing thing, or a Left-wing one? Or could it just be that the terms don’t really mean very much any more? There’s another test of the old way of understanding politics currently underway, a fascinating experiment being conducted in the wonderfully boring world of international trade policy.

The Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP) is a trade deal that might – but probably won’t — be signed by the end of this year. Depending on who you talk to, it will either make us all a little bit richer and the world a tiny bit safer, or it will enslave us and our democratic governments beneath the yoke of multinational dominance. For some, the sort of people who support TTIP, our best interests lie in opening up our markets, our society and yes, perhaps even our public services, to the world. Who cares where your shoes or sandwiches come from, as long as they’re as cheap and as good as can be? Does it really matter if the nurse who gives you your flu jab carries a foreign passport or a British one? And if that same nurse is employed directly for NHS or for a company that is largely owned by US private equity investors and which has signed a legal contract to treat NHS patients in exchange for public sector? Isn’t the quality of the care you receive the only measure that counts here, distantly followed by the cost? This aspect of the TTIP row is really just part of a wider debate about the nature of public services — how open should they be to non-State organisations?

Ukip and the Labour Party have raised significant objections to TTIP, especially around corporate interests in the health sector. Among its defenders are most Conservatives, lots of Liberal Democrats (especially Mr Cable) and, most passionately of the lot, that man Boris again. Mr Johnson has gently described TTIP objectors as numbskulls, and argued persuasively that Churchill would have backed it, if only to tie Europe and the US together in an age when the US is looking more towards the Pacific than the Atlantic. Perhaps appropriately for the mayor of a truly global city, Mr Johnson is arguably the leading voice for open politics in Britain today.

So keep watching TTIP. Dry and dusty it may be, but the way our politicians deal with it will tell you much more about them than any label putting them on some meaningless left-right spectrum.

Forget Left and Right. The real political division of the 21st Century is the same as it was in the 19th. Should we be open or closed?”

“Sampaio da Nóvoa vai pensar o país durante 2015″

Sampaio da Nóvoa vai pensar o país durante 2015, diz o Observador. O país, por sua vez, não vai pensar nem um minuto que seja no dr. Sampaio da Nóvoa (ou “da Névoa”, como dizia uma jornalista da SIC Notícias no Congresso do PS), seja em 2015 seja em 2016.

The Dirk Diggler Story

O novo filme de Paul Thomas Anderson, Inherent Vice, está prestes a estrear nos EUA (não faço ideia de quando chegará ao nosso país). O site americano Grantland (cuja leitura e acompanhamento fiel não posso recomendar o suficiente) dedica a semana à carreira de Anderson, e hoje publica uma “história oral” sobre o filme Boogie Nights (o “pun”, julgo, é mais que “intended”). A meio do artigo, está um link para um vídeo de pouco mais de 30 minutos no Youtube, em toda a glória do VHS, intitulado “The Dirk Diggler Story”: um filme amador, realizado por Anderson em 1988´(aos 17 anos), que é uma primeira versão do que anos mais tarde viria a ser Boogie Nights.

Assembleia Geral

No Assembleia Geral da ETV da passada sexta-feira, falei sobre “a falta de consenso político no IRS”, e a forma como o “posicionamento” dos partidos em relação a esta questão mostra como estão mais preocupados em agradar aos eleitores do que em melhorar as suas condições de vida.

http://rd3.videos.sapo.pt/playhtml?file=http://rd3.videos.sapo.pt/ac9nhezBlL3DEHn2FOPk/mov/1

O mexilhão, o polvo e o caviar (2)

A propósito da já celebre declaração do Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho acerca de como “o mexilhão” não foi tão sacrificado com a crise, e que os que têm mais pagaram “muito mais”, o Carlos citou aqui uns dados da OCDE, demonstrando como a desigualdade diminuiu em Portugal nestes últimos anos, e concluiu que “que esta realidade aborrece muitos que dizem querer defender o mexilhão, quando o que querem proteger é o polvo. Ou, na melhor das hipóteses, o seu próprio direito ao caviar”. Não contesto a validade dos dados da OCDE (quanto mais não seja porque não tenho competência para o fazer), nem critico o Carlos por criticar quem quer “proteger o polvo” sob o manto da defesa “do mexilhão” ou do seu “direito ao caviar”. Mas há um aspecto que tanto o post do Carlos como (e isso é muito mais grave) a afirmação de Passos ignoram: que podendo ser verdade que em termos absolutos “quem tem mais pagou mais”, a crise e muitas das medidas deste Governo e do anterior causaram um impacto muito mais grave nos que têm menos. A forma como “o polvo” que nem eu nem o Carlos queremos defender agiu fez com que parte do “mexilhão” tenha sofrido mais do que os que comem “caviar”, por muito mais que estes tenham pago. Quem perdeu o emprego porque, por exemplo, o restaurante onde trabalhava fechou por ter perdido condições para continuar a funcionar, não por uma “destruição criativa” do mercado mas por um “(un)intelligent design” do Criador de Impostos através da subida do IVA sofreu um impacto maior e porventura mais duradouro nas suas vidas; as pessoas cujo pequeno estabelecimento comercial teve de fechar (só na pequena terra onde vivo ocorrem-me logo dois, e é possível que tenham sido mais)devido aos custos impostos pela obrigatoriedade de adoptar as máquinas de registo das facturas (e suas vergonhosamente constantes actualizações, porque o fisco precisa de actualizar regularmente a entrada de novo dinheiro nos seus cofres) viram a sua vida ser bem mais dificultada; as pessoas que todos os dias são atormentadas pelos abusos da Autoridade Tributária, que lhes exige em tom ameaçador pagamentos de impostos e multas que elas não devem, só porque há uma enorme necessidade de alimentar “o polvo” para diminuir o défice sem cortar nos seus tentáculos vêem a sua vida cada vez mais complicada; isto para não falar de toda a classe média que vê a sua carga fiscal aumentar cada vez mais enquanto o “polvo” não deixa de distribuir benesses fiscais com o propósito de “atrair investimento” que pelos vistos não seria viável sem que lhe fosse “inventado” uma espécie de “Portugal fictício” com condições que não se aplicam ao resto da sociedade. O Carlos pode ter razão ao apontar uma certa falta de rigor aos críticos da afirmação de Passos Coelho. Mas essa mesma declaração pecava por uma grande falta de noção da realidade da vida de muitos dos portugueses que fazem parte do tal “mexilhão”. Compreendo que o Primeiro-Ministro já esteja a pensar nas eleições, mas viver num bunker não costuma dar bom resultado, nem para a vida de quem vota nem para a de quem anda à caça dos votos.

Poder ao povo

(artigo publicado no Diário Económico de hoje)

“Every year is the same”, dizia uma canção dos The Who, quase como se fossem observadores atentos do debate sobre Educação em Portugal: todos os anos, mal saem os “rankings” das escolas, logo uma multidão se entrega à discussão acerca de se a “Escola Pública” (sempre com maiúsculas) é ou não inferior ao ensino privado. É um pouco como debater o sexo dos anjos, já que estas coisas não existem: não há uma “Escola Pública” mas muitas escolas públicas diferentes, umas melhores e outras piores que algumas escolas privadas, nem um “ensino privado”, mas muitas escolas privadas, umas melhores e outras piores que algumas escolas estatais. O problema do ensino público não está em quem é o “dono” das suas escolas, mas em não ser dado aos portugueses poder para premiar as boas e penalizar as más.

Hoje, é o Estado que distribui os recursos pelas várias escolas a seu cargo. Estas, em vez de responderem às necessidades dos seus “clientes” (os pais dos alunos), respondem às do seu “patrão” (o Ministério). E a desigualdade social que a mítica “Escola Pública” pretende anular é perpetuada: os pais mais ricos podem colocar os filhos nas melhores escolas privadas ou em “explicações” que colmatem as insuficiências do seu ensino, enquanto os mais pobres são forçados a manter os rebentos na escola problemática em que andam, sem que, em casa, tenham meios para complementar o ensino deficiente que recebem. As más escolas não são penalizadas, os bons professores não são premiados, e os alunos com problemas ficam sem forma de os ultrapassar.

A solução passa, como a “esquerda” gostava de dizer mas não de fazer, e a “direita” nunca foi capaz de perceber, por dar “poder ao povo”: se o Estado deixasse de financiar directamente as suas escolas (que, como as privadas, teriam de cobrar uma propina), e em alternativa desse a todo e cada pai sem rendimentos suficientes os meios para os seus filhos acederem à escola que preferissem (privada ou detida pelo Estado), nenhuma escola que não fosse reconhecida como boa por um número suficiente de pais poderia continuar a operar, e os mais pobres teriam forma de sair da armadilha em que nascem. Talvez no ano seguinte a conversa fosse outra.

O Zelig da política portuguesa continua a fazer das suas

António Costa, Wikipédia.

António Costa, Wikipédia.

Tiago Barbosa Ribeiro, um militante do PS que o recentemente ostracizado Francisco Assis descreveu como “um jovem dirigente socialista portuense destinado a exercer a muito curto prazo altíssimas responsabilidades no plano local”, manifestou hoje o seu regozijo com “o rumo traçado” por António Costa para o PS. Segundo Barbosa Ribeiro, “as suas escolhas, em especial as do Secretariado Nacional, garantem que não nos desviaremos um milímetro” do tal rumo. Tenho notado o grande entusiasmo de todos aqueles que sonham com um PS frentista, ansioso por se coligar com tudo o que seja partido de política demagógica e anti-moeda única apesar de tal coligação ser incompatível com o programa e o “ADN” do PS. Tenho, no entanto, de avisar essas pessoas de que se arriscam a ter uma grande desilusão. E nem vale a pena citar Hollande, basta ver o que disse o próprio António Costa no mesmo discurso que tanto os excitou. Ao contrário do que a sempre preguiçosa comunicação social portuguesa relatou, Costa não disse exactamente que não faria nenhuma coligação com “a direita”. O que disse foi que não faria coligações com quem “defenda esta política” (a que tem sido seguida pelo Governo), uma formulação suficientemente vaga para que, caso o PSD ou CDS aceitem, daqui a uns meses, apoiar políticas diferentes (mesmo que só superficialmente) ele possa dizer que, precisamente, “sempre disse que o problema não é de nomes”. Como sempre, o Zelig da política portuguesa diz e faz aquilo que permite – e com o oportunista intuito de permitir – que cada um veja nele aquilo que quer ver. Quem queira ver nele o “socialismo do punho erguido” é presenteado com umas quantas frases que sugerem que será feita a sua vontade. Quem vê nele um sucessor do socratismo olha para o Secretariado e vê uma série de caras anteriormente vistas a fechar os olhos a tudo o que veio associado à carreira do mais recente habitante de Évora. E quem espere um António Costa “responsável” e que governe “ao centro” pode sempre escudar-se na margem de manobra que o homem criou para si com as suas cuidadosas formulações verbais. Numa altura em que o país precisa de políticos que digam claramente o que entendem ser preciso fazer, Costa prefere actuar como uma espécie de camaleão político, que adopta a forma de quem quer que esteja a olhar para ele. Nada que espante, tendo em conta o seu passado.