Segundo Walter Starkie, hispanista e viajante irlandês em terras espanholas, Marcos de Obregón terá dito que comer a costa de otra persona engorda demasiado, porque se come sin temor ni preocupación. Estava certo, o escudeiro Obregón, alter-ego de Vicente Espinel. Veja-se o Estado português, por exemplo. Comeu à custa dos contribuintes, engordou, engordou, e transformou-se num monstro obeso e ameaçador. E a obesidade mórbida não se resolve com mezinhas. Só uma dieta rigorosa pode atacar o problema. Resta saber se o actual governo é capaz de o fazer sem compaixão pelo monstro e por quem não sabe viver fora da sua sombra. Infelizmente, pelo andar da procissão, achamos que ainda não vai ser desta. Pouca coragem, uma ideologia de matriz socialista, e uma população amedrontada por décadas de doutrinação, que chora e berra quando suspeita de um desvio da rota de colisão, são os ingredientes certos para o desastre. Depois queixem-se quando isto explodir.
Fevereiro 9, 2012
Condenado
Última hora. O Supremo Tribunal considera que o juiz-estrela Baltasar Garzón é culpado de um delito de prevaricação, e condena-o a 11 anos de inabilitação (um golpe de misericórdia numa carreira já moribunda). Não, não foi pelo episódio dos crimes do franquismo, esse ainda está a ser discutido nas salas do tribunal. Foi por outro assunto, bem diferente, e agora vamos ver como é que a comunicação social portuguesa vai explicar isto.
Fevereiro 8, 2012
Nenhum imbecil analfabeto
(…) La lengua española. desde Homero, Séneca o Ben Cuzmán, hasta Cela y Delibes, pasando por Berceo, Cervantes, Quevedo o Valle-Inclán, no es algo que se improvise o se cambie en cuatro años, sino un largo proceso cultural cuajado durante siglos, donde ningún imbécil analfabeto – o analfabeta – tiene nada que decir al hilo de intereses políticos coyunturales. (…)
Arturo Pérez-Reverte, Cuando Éramos Honrados Mercenarios
Serve para a língua espanhola e para outras.
Fevereiro 7, 2012
Volta para casa da mamã
Era previsível. O Primeiro-Ministro atreveu-se a dizer que há muita pieguice em Portugal, e logo alguns portugueses fizeram questão de dar-lhe razão: levantaram-se amuados e agora é vê-los por aí a fazer beicinho. O que é risível neste capítulo — mais um — da choradeira nacional, são as tentativas, dos luso-calimeros, de prolongar as suas dores e angústias a todos os portugueses, insistindo numa putativa generalização por parte do Primeiro-Ministro, sem perceberem que a generalização está na reacção. Não, meus meninos, as palavras de Passos Coelho não foram dirigidas a todos os cidadãos. Foram mesmo só para quem enfia a carapuça.
Fevereiro 6, 2012
O progressismo como fonte inesgotável de divertimento
(…) «Los poderes públicos de Andalucía, en coordinación y colaboración con las entidades locales en el territorio andaluz, tendrán en cuenta la perspectiva de género en el diseño de las ciudades, en las políticas urbanas y en la definición y ejecución de los planteamientos urbanísticos».
(…) ¿Cómo se tiene en cuenta la perspectiva de género en el diseño de las ciudades y políticas urbanas? ¿Consultando los arquitectos a las asociaciones radicales feministas antes de trazar calles y plazas, para que les den permiso? ¿Procurando que los pasos de cebra no favorezcan a presuntos maltratadores? ¿Disponiendo aceras paritarias, unas para hombres y otras para mujeres, u obligando a circular por cada vía urbana al mismo número de ellos y ellas? ¿Rebautizando calles para que por cada nombre masculino haya uno femenino? ¿Patrullando con guardias y guardios que, cuando sean policía montada, cabalguen indiscriminadamente caballos machos y yeguas? ¿Procurando que entre los cartones y sacos de dormir que adornan los soportales de la Plaza Mayor de Madrid para deleite de turistas, haya el mismo número de mendigos y mendigas? ¿Que por cada grupo de mariachis, jazz band de ex bolcheviques, o rumano que hace música con vasos de agua, actúe una violinista búlgara, una orquesta de nigerianas o un grupo de mejicanas cantando Allá en el rancho grande? ¿Que cada perroflauta lleve el mismo número de perros que de perras, de flautas que de flautos? ¿Que en los parques juegue por decreto municipal la misma cuota de niños y niñas, y se mantengan turnos rigurosos para columpios y toboganes, con agentes que sancionen a padres y madres, abuelos y abuelas, que incumplan? ¿Que en cada zona de prostitución haya el mismo número de putas que de chaperos? ¿Que nos vayamos todos juntos y juntas a tomar por saco? (…)
Arturo Pérez-Reverte, aqui
Janeiro 31, 2012
Ide estimular para a estrada
Lemos, ouvimos, e não acreditamos. Continua o berreiro do keynesianismo do século XXI. Mais intervenção do Estado, mais “estímulos” à economia, mais investimento público. Mais aeroportos de Beja, supomos. Ou seja, mais daquilo que levou Portugal – e meia Europa – a um buraco do qual vai demorar muito tempo a sair. Os rapazitos do punho cerrado continuam a gritar por mais! Como se fôssemos todos idiotas. Como se fôssemos uma fonte de dinheiro inesgotável para as suas fantasias. Temos uma notícia de última hora: não somos. Nem idiotas, nem uma fonte de dinheiro para as aventuras socialistas. Por isso sugiro que solicitem uma contribuição voluntária aos militantes do partido. Para estimular a economia. Para fazer obras, necessárias ou desnecessárias, nas sedes, pagar anúncios de meia hora em todos os canais de televisão (pode até ser para defender o neo-keynesianismo, afinal a liberdade de expressão é um conceito lato, abrange todos os disparates e até a defesa do roubo institucionalizado), construir um heliporto no Rato, comprar um carregamento de canetas e blocos de notas para os próximos congressos, ou um cabaz de Natal para cada português, ou um carro para cada português, ou o raio que os parta. O que quiserem. É à vontade do freguês, desde que ponham o dinheiro onde põem a boca. Não há contribuições voluntárias? Cobrem á força: o dízimo, ou a expulsão do partido. Se sabem fazê-lo a todos os portugueses, com certeza que não se vão atrapalhar a cobrar o imposto keynesiano aos seguidores de tão solidária ideologia. E ficamos todos mais felizes. Claro que não deixarão de ser uns bandoleiros de estrada que, no fundo, só buscam, no fim do arco-íris, o seu pote de ouro (uma ponte ou um aeroporto costumam garantir boas carreiras pós-política). Quem nasce leitão morre marrano. Mas assim, os krugmanzinhos da metrópole, na falta de uma guerra nuclear ou de uma invasão de extraterrestres, já podem brincar aos “estímulos” sem meter a mão no bolso do próximo.
Janeiro 29, 2012
Recomenda-se magnésio
A jornalista que escreve esta notícia parece estar muito atenta ao que se passa em Madrid mas “esquece-se” de referir o processo no qual Garzón já está a ser julgado – possível violação da confidencialidade da relação advogado-cliente –, e a trama pela qual vai ser julgado em breve, aquela que pode pôr em causa a sua reputação, mesmo entre aqueles que ainda idolatram o vaidoso herói: favores ao Banco Santander depois desta instituição, de acordo com a acusação, ter financiado o seu período sabático em Nova Iorque. Enfim, não é nada a que já não nos tenhamos habituado com o Público desde há algum tempo, quando o “jornal de referência” começou a sua queda vertiginosa no sentido da mediocridade.
Nota: dizem-me que a RTP, ao noticiar a mui progressista manifestação de Madrid, também se esqueceu de metade da história. É o “serviço público”, meus senhores.
Janeiro 27, 2012
Mozart, 256 anos
Esteve apenas 35 anos entre nós e deixou-nos um mundo diferente. Foi Mozart, Rex tremendæ maiestatis.
Janeiro 24, 2012
Levantar a feira e deixar as sobras
As recentes declarações do presidente Cavaco Silva, como se não fossem já suficientemente ridículas, deram ensejo a uma euforia nas fileiras das causas monárquicas, que parecem ter avaliado a triste figura do chefe de Estado como o impulso necessário a uma discussão sobre a natureza do regime (uma discussão legítima e que deve ter lugar numa sociedade aberta, mas quiçá com outros pretextos, menos mesquinhos e menos simplistas) e o ponto de viragem na opinião pública sobre a melhor estrutura política para Portugal. Em Espanha, por motivo de um escândalo financeiro que corrói as entranhas da Casa Real, há um burburinho parecido mas apontado ao outro flanco, e há já quem esfregue as mãos de contentamento com a perspectiva de ver o país metamorfoseado numa república federal. Mudar, mudar e mudar, sem olhar para os mecanismos fundamentais do regime, sem questionar os alicerces que favorecem a emergência dos parasitas do sistema; é este o desporto favorito da Península. Uma mudança fátua, claro, como tudo o que nasce de clubismos. Nestas guerrinhas pós-ideológicas só importa a genealogia de quem beijamos a mão. E um povo habituado a dobrar a espinha vai passar a vida de joelhos, seja diante de um presidente ou de um rei. Não admira que estejamos em estado catatónico.
Janeiro 20, 2012
Bom para os ursos
Num par de dias, descubro que há uns “artistas” portugueses que querem cobrar uma comissão por cada disco que eu compro para guardar o meu trabalho, e que o presidente da república que me emite o passaporte acha muito bem ser uma das excepções à regra que deixou funcionários públicos e pensionistas sem duas pagas. E acha bem porque, diz o “artista”, 1300 euros não suficientes “para pagar as despesas”. Agora, se me dão licença, vou ali tentar hibernar. Durante umas décadas. Acordem-me quando o ar estiver mais respirável.
Janeiro 18, 2012
Povo de parvos costumes
Com Portugal na bancarrota e sem sinais claros de mudanças no sentido da liberdade e responsabilidade individuais, há cidadãos que se entretêm a pedir embalagens de açúcar mais pequenas. (Isto depois de, há alguns dias, ter sido noticiado que a petição para a abolição das touradas liderava a lista de petições públicas.) Resistimos a generalizar e a dizer que os portugueses merecem todos os males que lhes caíram no lombo; o país é um circo de feminazis, higieno-fascistas e ecologistas-da-natureza-de-peluche, mas nem todos se identificam com estas cruzadas pela moral e bons costumes. No entanto, não resistimos a deixar uma mensagem a estes cidadãos tão empenhados em civilizar-nos: metam-se nas vossas vidas! Está bem?
Janeiro 7, 2012
Memória
Nas lendárias e agrestes terras de Castela, entre os pastores, havia (ou há) o hábito de gravar a história de uma família num cajado de madeira. Passo a explicar. Primeiro, o pastor cinzela o seu nome no cajado, e logo os nomes dos seus pais. Quando se casa, depois de um ancestral ritual de cortejo no qual o bastão é o actor principal, ajunta o nome da mulher e dos pais desta. Os filhos, quando chegam a este mundo, também têm um lugar reservado no bastão, e, quando crescem, aprendem as letras de um alfabeto talhado na mesma madeira pelo pastor. Hoje, já não se escreve em papel, muito menos na madeira, quase eterna. Há cada vez mais informação virtual, e, por isso, invisível e efémera; evapora-se como a feromona de uma colónia de formigas em decadência. Quando perdermos o rasto dos nossos antepassados, rasto deixado num cajado, numa biblioteca, ou numa simples mensagem num postal, perdemos a memória. E, como dizia Luís Buñuel, ainda que num contexto mais personalizado: Viver sem memória, não é vida. (…) a nossa memória é a nossa coerência, a nossa razão, o nosso sentir, até as nossas acções. Sem memória não somos nada.
colecção privada
Janeiro 2, 2012
1492
Hoje, em Granada, celebra-se a tomada da cidade pelos Reis Católicos: no dia 2 de Janeiro de 1492, Boabdil, o sultão, entregou a Alhambra a Fernando e Isabel e partiu. Diz a lenda que o último Nasrid da Andaluzia, na sua fuga rumo ao Sul, parou por uns momentos numa colina, olhou para trás, para o reino perdido, e chorou. A mãe, implacável, disse-lhe: agora choras como uma mulher sobre aquilo que não pudeste defender como um homem. (Presume-se que a brigada do politicamente correcto perdoa esta blasfémia multiculturalista.)
Passaram mais de quinhentos anos desde esse “suspiro do mouro”. Houve um breve período de exílio nas Alpujarras, mas logo os Reis Católicos trataram de terminar o processo de expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica. Ficaram os genes e os hábitos, factores pouco receptivos a limpezas étnicas. E passaram os tais quinhentos anos. Parece muito tempo, mas na realidade, é um instante. O legado mourisco continua bem vivo na Andaluzia Oriental: na gastronomia, no idioma, nos costumes e até na religião. E como a Andaluzia é uma caricatura da cultura latina, um esboço simplificado de traços exagerados, quem quiser perceber essa mesma cultura tem que olhar com muita atenção para este pedaço de terra encravado entre a Europa e África. Quem o fizer vai perceber que os conceitos de “catolicismo” ou “europeu”, isolados, não têm lugar aqui, são apenas atalhos escuros e sinuosos para um conhecimento deturpado do Mediterrâneo Norte. A Andaluzia, e, consequentemente, a cultura latina, só são compreensíveis quando se introduz o al-andalus na equação. Sem juízos de valor.
Dezembro 28, 2011
Violência linguística
A nova ministra espanhola da Saúde atreveu-se a violar as normas do neo-castelhano, uma das mais divertidas heranças dos anos Zapatero, e a carga da brigada progressista não se fez esperar: querem obrigar a ministra a escrever cem vezes, no quadro, “violência machista”. Agora resta saber se, quando um casal de lésbicas embarca num desses festivais de bofetadas e outras agressões que termina invariavelmente na esquadra e no hospital, utilizamos o termo “violência feminista”, ou se podemos usar o menos neutral “violência feminazi”.
Dezembro 22, 2011
Um país de meninos (2)
A culpa, segundo Milan Kundera, é de Homero, quando glorificou a nostalgia por meio de uma coroa de louros e estipulou assim uma hierarquia moral dos sentimentos. Isto é, Ulisses preferiu voltar ao conhecido (Ítaca, Penélope) e deixar a exploração apaixonada do desconhecido (Calipso). E assim nasce uma cultura mediterrânica colada à terra: partir com a volta em aberto é apenas o último recurso de um desesperado. Chora-se a distância do pastel de nata e do pastel de bacalhau, do sol e do mar. E a terra, a família ou os filhos servem de escusa, ou mesmo argumento de autoridade, para a imobilidade e passividade (como na patética e arrogante carta ao Primeiro-Ministro que anda por aí, na qual se pede que todos paguem as opções pessoais de alguns, como se estas opções fossem inerentemente acertadas, uma “estrada real” que leva à glória e aos “direitos adquiridos). Os filhos, coitadinhos, não podem ser afastados dos seus amigos, das suas raízes, da sua escola, e se calhar o melhor é procurar já uma casinha para o petiz, no mesmo bairro e, de preferência, no mesmo prédio dos papás, não vá ele um dia sentir a falta do calor das coisas familiares. É um cenário muito ternurento, sem dúvida. Mas há um problema. A tragédia, para toda esta gente, é que o mundo não pára e ao nível das sociedades e das culturas também há uma co-evolução darwinista e um efeito Rainha Vermelha. E uma cultura, ou se adapta, ou morre. Por muito que gritem e esperneiem os meninos mimados.
Dezembro 21, 2011
Dezembro 18, 2011
Um país de meninos
O Primeiro-Ministro, respondendo a uma pergunta de um jornalista, disse aquilo que é evidente para qualquer pessoa com mais do que uma sinapse funcional e sem sintomas do sindroma mui latino “nascer, viver e morrer no mesmo bairro”: que, num mercado a definhar, a maioria dos candidatos a professor só pode emigrar ou mudar de negócio. As reacções, são as habituais: gritos, olhos esbugalhados e mãos nos cabelos. Enfim, birrinhas de crianças histéricas e mimadas. Meio Portugal é um bando de meninos e meninas que não quer (e não sabe) sair do regaço da mãe.
Dezembro 12, 2011
Licença para dançar
Numa carta de 27 de Dezembro de 1873, Lewis Carroll, em resposta a Gaynor Simpson, que o inquiria sobre os seus dotes de bailarino, escreveu:
As to dancing, my dear, I never dance, unless I am allowed to do it in my own peculiar way. There is no use trying to describe it: it has to be seen to be believed.
Não sabemos se o senhor Nunes, director da ASAE e uma das personagens mais ridículas (ainda que perigosas) do regime, dança ou não. Mas passamos a saber que os outros só podem dançar ao sabor dos seus caprichos e de acordo com a sua peculiar maneira.
Dezembro 9, 2011
O Leopardo
Quando vim para Granada pensei que ia ouvir Flamenco em cada esquina. Enganei-me. No princípio andava pela cidade em busca dos sinais de uma buleria ou de um fandango, do som de um cajón ou do timbre de uma dessas guitarras que são feitas por mãos vagarosas na Cuesta de Gomérez, entre a Plaza Nueva e a Alhambra. Não encontrei. É preciso estar com muita atenção, ou então ir aos limites clássicos e perenes da cidade, ao lendário Sacromonte. Mas mesmo assim, mesmo no bairro mais cigano de Granada, casa de algumas das mais ilustres famílias do Flamenco andaluz, há que fintar as camionetas de turistas e os rebanhos de japoneses levados pelo pastor. As novas gerações não sabem o que é o Flamenco, nem querem saber. Preferem pastilhas, cocaína e ruído. Vão ao sabor da horda. Julgam-se hedonistas e únicos, individualistas, mas não são mais do que uma parte suprível de um horrendo organismo sem cabeça.
Quem for a Lisboa a pensar que vai ouvir Fado em cada esquina engana-se. O verdadeiro, aquele que cheira a vinho e tabaco, que corta como uma navalha da Lisboa desaparecida, está escondido, bem escondido, para que a “modernidade” não o esmague definitivamente. É um ritual para mestres e iniciados. Sobra o Fado limpinho, lamechas, amálias de quinta categoria que cantam para turistas apressados. As novas gerações passam ao lado do Fado. Preferem pastilhas, cocaína e ruído…
Quem vai a New Orleans a pensar que vai escutar Dixieland em cada esquina…acerta. A cidade vive do jazz, respira jazz, transpira jazz. E não apenas no bairro francês, para turista ver. Entremos no temível Tremé e ouçamos as multitudinárias bandas de metais, o Tio Lionel ou, se tivermos sorte, Kermitt Ruffins. Entremos numa dança de segunda linha (second line dancing), de Carnaval, de uma simples festa, ou de um dos funerais atípicos de New Orleans, e sigamos pelas ruas até à exaustão. Sim, New Orleans é música, a sua música, a que nasceu no delta do Mississipi e nos bayous. Diz-se, no entanto, que os americanos são ignorantes, que não têm cultura, que destroem tudo aquilo em que tocam, e que não sabem qual é a capital da Estónia. Os europeus, esses, julgam-se os guardiões da cultura ocidental, o acme da civilização. Talvez porque têm muitas comissões e comités-de-defesa-de e organismos-para-a-promoção-de. Ou talvez porque se revêem na imagem daquela senhora de pele branca como uma máscara fúnebre, carrilhos ligeiramente rosados que não disfarçam a palidez, espartilho a esconder carnes frouxas e uma peruca poeirenta a cobrir a cabeleira escassa, que demora mais tempo a vestir-se do que tarda o Anel de Wagner, e que vai para o teatro com binóculos atrevidos, mais preocupada com o que se passa nos camarotes do lado do que com o palco. A senhora morreu e ainda ninguém a avisou.
Dezembro 7, 2011
Notícias do socialismo em Portugal
A semana política, em Portugal, tem sido divertida, sim senhor. Tivemos o meta-socialismo do líder da oposição, as trapalhadas e a desonestidade (crónica) de um deputado busca-vida, e agora, como uma cereja no topo do bolo, as confissões de um “engenheiro” em Paris, já conhecido como o caloteiro da Sorbonne. Fica o aviso: eles andam aí, à espera de melhor sangue para fincar o dente. Que é como quem diz, à espera de uma época de bonança para recomeçar o regabofe socialista. (Suspeito que, com o estrago que fizeram da última vez, vão ter que esperar mais tempo do que o habitual. Tenham paciência. Ou vergonha.)
Dezembro 1, 2011
Notícias do circo luso
O sistema de justiça português é uma palhaçada e todos os que contribuíram e contribuem para a situação miserável em que se encontra uma das funções essenciais do Estado (mínimo ou máximo) deviam cobrir a cara de vergonha. Este é o principal cancro do regime, e os seus agentes são as primeiras células malignas que devem ser extirpadas. Enquanto isso não acontecer, Portugal será um país intrinsecamente liberticida e pobre.
Novembro 28, 2011
Genocídio perroflauta
(…) El caso es que esos inquilinos por la kara estaban instalados en la antaño gongorina y ahora ruinosa morada, gozando de pleno derecho las innumerables facilidades que la Justicia española en general y el Ayuntamiento de Madrid en particular prestan a esta suerte de bonitas iniciativas populares. Pero siempre hay un pelo en la sopa. En ésas, algún propietario desesperado, impaciente, y si rascamos un poco seguro que fascista, racista, machista, violento, homófobo y misógino - etiquetas que en España suelen atribuirse en bloque a cualquiera que no se baje los calzones y ofrezca el ojete sin rechistar – debió decidir que aquella situación la solucionaba él a título personal, por el artículo catorce. Así que cuatro individuos fornidos tiraron la puerta, cogieron a los okupas en brazos y los sacaron a la calle. Acto reprobable, éste, que acogiéndome a la retórica al uso me apresuro a calificar -conste en acta para que no haya dudas sobre mi punto de vista ético- de terrorismo urbano. Incluso de genocidio perroflauta. (…)
Arturo Pérez-Reverte, Okupando a Góngora
Bater no fundo
A poucos dias da despedida, a doutrina progressista do PSOE de Zapatero e o delírio das feminazis do presidente ainda conseguem atingir níveis estratosféricos na escala do ridículo. Agora inventaram um selo de garantia para o cinema que atesta o cumprimento de todas as normas definidas pela ideologia do género. Enfim, tudo isto já só nos faz rir. E, quando um devaneio ideológico diverte mais do que indigna, sabemos que a sua morte está ao virar da esquina.
Novembro 24, 2011
Os bárbaros
Ontem de manhã abri a janela do quarto e ali estava ela outra vez, a Catedral-Mesquita de Córdova, debruçado sobre o Guadalquivir, e debaixo de um manto cerúleo de Novembro. Sob a ponte romana, que une a praça da catedral ao Campo de la Verdad, passam, desde há dois mil anos, as águas do Grande Rio, indiferentes aos traços genéticos dos patronos da cidade. O templo, esse, já conta com uns veneráveis mil e trezentos anos e foi testemunha do período de ouro, entre os séculos X e XII, quando Córdova, estimulada por um milhão de habitantes e pelo engenho dos polimatas árabes e judeus, era o centro do mundo.
Em jeito de despedida, fiquei alguns momentos a contemplar a catedral. E não pude deixar de pensar que vivemos tempos ridículos (e perigosos). Ali ao fundo, pelas portas que dão acesso ao Pátio das Laranjas, entram homens, mulheres e transexuais, cristãos, muçulmanos e ateus, brancos, negros e azuis. Nas ruas que ladeiam a catedral e que logo se estendem pela judería, circulam livremente cidadãos de todo o mundo, turistas, nativos ou imigrantes, com liberdade de culto e de conduta. Das portas dos restaurantes escapa-se o aroma oriental a cravinho e açafrão do rabo de touro cordovês, e, lá dentro, nas mesas, o tom rosáceo do salmorejo denuncia a maior oferta do Novo Mundo à cozinha europeia, o tomate. No entanto, do norte e do sul, chegam os gritos de intolerância, verberando uma imaginária tirania castelhana ou um sectarismo ocidental e cristão. Chamam-nos reaccionários, enquanto cobrem as suas mulheres com panos sombrios e proíbem a entradas de jogadores estrangeiros nos seus clubes de futebol. O intolerante é esquizofrénico e vê (o seu próprio) fanatismo em cada gesto do Outro.
Canção do dia
Hi and howdy doody.
I’m a union man
You can call me Rudy.
Any of you boys not paid up on your cards?
You know I’m pleased to meet ya
Been tryin all day to reach ya
The union’s here to help everyone of you rock ‘n’ roll stars.
Hahahaha!
Novembro 20, 2011
Eleições em Espanha (5)
O UPyD consegue o seu grupo parlamentar. Óptimo. Com uma segunda linha do parlamento espanhol dominada por comunistas, nacionalistas e terroristas, esta é uma das melhores notícias da noite.
P.S. Afinal, parece que o UPyD, com um milhão e cento e cinquenta mil votos, não vai conseguir o grupo parlamentar. Ficará a “décimas” de cumprir o segundo requisito. Coisas da lei eleitoral espanhola, que se ajoelha perante os nacionalismos (o Amaiur com pouco mais de 300 mil votos e o PNV também com 300 mil conseguem grupo próprio).
Eleições em Espanha (4)
Com 95% dos votos contados, o PP tem 186 deputados e o PSOE 110. Os populares chegam aos dez milhões de votos e a diferença entre os dois maiores partidos supera as previsões lançadas no inicio da noite. Já está, parece que não há mais história. Acabou a festa. A festa socialista. Agora é preciso limpar a imundície deixada pelos foliões e arranjar os estragos. E pagar a conta, claro. Há que deixar tudo em condições, porque daqui a uma, duas ou três legislaturas os pândegos podem voltar, e, quando isso acontecer, querem ter a casa limpinha e arrumada para recomeçar a farra. E aqui estaremos, à vossa disposição, meus senhores. Ass: os contribuintes.
Eleições em Espanha (3)
O PSOE perde em todas as regiões de Espanha. Por província, sobrevive apenas em Sevilha e Barcelona.
Eleições em Espanha (2)
A esquerda radical pode ter ganho dez deputados, de um total de 350, aos quais se pode juntar a meia dúzia de uma coligação regional e terrorista. 16 em 350. Suspeito que vamos ouvir muitas vezes a tese de que os indignaditos e a verdadeira esquerda tiveram uma grande vitória nas eleições espanholas. Se perdessem menos tempo com “acampadas” e assembleias, e se se dedicassem a estudar, talvez aprendessem a fazer contas.
Eleições em Espanha
As primeiras sondagens dão a maioria absoluta ao PP, como se esperava, e confirmam a derrocada do PSOE. IU e UPyD sobem. Amaiur entra no parlamento.
Eterno retorno
Hoje, em Espanha, numa Espanha pobre, destroçada e deprimida, termina a 827ª experiência socialista e despedimo-nos do 1293º herói da esquerda. Começa a ser cansativo. E sai caro.
Novembro 19, 2011
Schubert (31.01.1797 – 19.11.1828)
Um lied (com Fischer-Dieskau, pois claro, mas também podia ser com Thomas Hampson). Ou o espantoso, na sua modernidade, Quarteto para Cordas n.15. Ou os Impromptus. Ou a Incompleta. Hoje é dia de ouvir Franz Schubert. Trinta e um anos de vida que deixaram uma marca eterna.
Novembro 17, 2011
Paris, 1918-2011
Na passada sexta-feira acordei numa Paris calma e silenciosa. A república descansava, em homenagem ao armistício de Compiègne: 11 de Novembro de 1918, o dia da paz, ou o dia que marca o principio da pausa entre os dois capítulos de uma Grande Guerra, ou o dia da humilhação germânica. É como preferirem. A data pode assinalar também o início de um século XX que ainda não percebemos se termina agora ou se está prestes a repetir-se. Quase cem anos depois, a notícia do momento, desse 11 de Novembro de 2011, era a iminente demissão de Berlusconi e a substituição do seu governo por uma trupe da confiança do Império. Primeiro a Grécia, agora a Itália. Adiante. Despachados o jornal, o café e o croissant, desci para o 2er Arr. e para as Grands Boulevards.
Cercado por um frio implacável e, paradoxalmente, acolhedor, atravessei a Poissoniére e segui pela rua de Montmartre no sentido do Sena. Passei pelo famoso número 146, onde uma placa de mármore com letras douradas nos avisa: ici le 31 Juillet 1914 Jean Jaurés fut assassiné. Jaurés, socialista, foi assassinado pelo nacionalista Raoul Villain, o qual foi morto pelos republicanos espanhóis em 1936. A intolerância europeia resumida em tragédias individuais.
Continuei até Les Halles, e aí virei para o Marais. Atravessei o bairro, descansei na tranquilidade e nos bancos do pátio da Bibliothèque Historique de la Ville de Paris (os livros parecem afugentar as multidões), continuei até à Praça da Bastilha e desci a Bvd. Henri IV. Cruzei as ilhas e cheguei finalmente ao meu destino: a Igreja de St. Julián, o Pobre, assentada, discreta e solidamente, na praça René Viviani.
Novembro 16, 2011
Sobre as ruínas socialistas (e sob a ameaça totalitarista)
Ontem à tarde, em Madrid, os espanhóis que passavam pelo CaixaForum contemplavam o magnífico La Grèce sur les Ruines de Missolonghi, de Eugène Delacroix, aparentemente alheados da sua própria derrocada. As eleições do próximo domingo chegam demasiado tarde. E o projecto totalitarista da União Europeia, que já saiu da toca, pouco se importa com estes trâmites das suas províncias.
Eugène Delacroix, La Grèce sur les Ruines de Missolonghi, 1826
Novembro 7, 2011
Aviso à atenção das feminazis portuguesas
Aunque resulte inconcebible, un 28% de los universitarios españoles sigue recurriendo a conductas sexualmente coercitivas, como la de ‘invitar a unas copas’, para conseguir mantener relaciones sexuales con sus compañeras, según desvela un nuevo estudio. (…)
(…) los investigadores (…) “señalan la necesidad urgente de trabajar desde etapas evolutivas tempranas la educación afectivo-sexual, que erradique creencias estereotipadas vinculadas con la ideología machista”.
Aqui.
Se faltarem ideias “fracturantes”, aqui está uma: ilegalizar os convites para beber um copo.
O osso
As reacções às opiniões de deputados e ministro sobre o estado da Educação só vêm confirmar o que já se suspeitava: o país é refém de uma cultura que não suporta a mudança, muito menos quando lhe cheira a perda de protagonismo e poder, a emagrecimento do Estado ou a reestruturação de recursos. É uma cultura corporativista, dominada por cobardes acomodados aos direitos adquiridos, por homens e mulheres de cativeiro que, quando ameaçados com o mundo real, se agarram com unhas e dentes aos cantos da jaula. Com a via da privatização massiva totalmente interdita (o maior sacrilégio num país latino), só há uma solução para este marasmo, na Educação e noutros serviços: varrer tudo e começar de novo, dando, desta vez, liberdade às escolas para escolher os professores (e aos alunos para escolher as escolas, já agora). Esta medida teria ainda a vantagem de distinguir, sem avaliações internas ou externas, os bons dos maus professores. Os maus seriam identificados pelo elevado grau de histerismo. Porque o medo é a condição natural dos ineptos.
Novembro 6, 2011
Eleições em Espanha
Faltam duas semanas para as eleições e tudo aponta para uma derrocada inédita do PSOE e para uma maioria absoluta do PP. Não são novidades. Os socialistas espanhóis preparam-se para este cenário há meses. Com Rubalcaba na liderança, esperava-se, e espera-se, uma mistura de manobras sujas e trapalhadas na pré-campanha e campanha eleitorais do PSOE. E é isso mesmo que estamos a ter.
Primeiro, foi o infame comunicado da ETA, que tresanda a arranjinho e embuste: declaramos a trégua definitiva, mas não tiramos os barretes ao estilo Klu Klux Klan nem entregamos as armas. (As lágrimas no comício do PSOE, derramadas pelo comunicado da ETA e pelo “fim” do terrorismo, foram confrangedoras e insultantes). Agora, desesperado, Rubalcaba recorre às velhas glórias do partido, com Felipe González à cabeça do pelotão. Isso mesmo, González, o pai da crise económica dos 1990s, do terrorismo de Estado e de uma mancheia de escândalos e casos de corrupção. Manobras sujas e trapalhadas, como fora “prometido”. É Rubalcaba, senhoras e senhores, também conhecido como o Rasputín da Moncloa. Um patético e desajeitado Rasputín que teve um papel central nos governos que deixaram Espanha de joelhos, e que agora, também de joelhos e com as mãos enlaçadas em posição de súplica, pede o perdão e o voto dos eleitores, com uma ladainha que oscila entre a canção do bandido e o tango do arrependido. Pouco sucesso terá, num país finalmente cansado da trágica gestão socialista.



