Roma

Antes da limpeza imposta pelo inquisitorial Pio V, o deboche reinava nos aposentos clericais de Roma. De acordo com o crítico literário e escritor Giuseppe Prezzolini (1882-1982), a Roma dos séculos XV e XVI era uma cidade de pederastas, rufias, glutões, santos e falsários, e nem os papas e os cardeais, rodeados de filhos e concubinas, escapavam ao regabofe. Júlio III fazia-se servir todos os dias um peru recheado e bolachas de Gaeta, que se diz serem afrodisíacas. Paulo II não passava sem as gambas e os enchidos de porco, e adorava melões; tanto que, numa noite, enfardou dois, inteiros, e no dia seguinte morreu de uma apoplexia (dizem as más-línguas que por ocasião do treco se deleitava em actos íntimos com um pajem). E o próprio Pio V, tão pio, não dispensava, de quando em vez e entre fogueiras, umas bolachinhas com caviar negro de Alexandria. Os latinos inventaram a Igreja Católica Apostólica Romana, e não o contrário. É tão evidente que a lógica e a História nem precisam de ser convocadas para o confirmar.

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Cartas para Moscovo

Alexander Rodchenko, pintor, fotógrafo, desenhador e activista da causa bolchevique, chegou a Paris no dia 23 de Março de 1925. Ficou três meses. Viajou para montar algumas das exposições e pavilhões preparados pela União Soviética para a exposição de Artes Decorativas e Industriais Modernas. Aproveitando o embalo, tentou estabelecer contactos com a comunidade artística e na bagagem levava quase trezentas obras suas. Visitou Léger, mas com Picasso ficou-se pelas intenções. Mergulhou no Sena, viu os Dez Mandamentos de DeMille, foi ao circo, bebeu Chablis. E escreveu quase diariamente a Varvara Stepánova, amante e futura mulher.

Nas cartas, Rodchenko descreve um Ocidente decadente e compara-o com a grandeza da pátria em construção. E fala das compras que fez no dia anterior. Critica o consumismo e o capitalismo de uma sociedade tecnológica. E conta que comprou duas camisolas, uma máquina fotográfica e um tripé. Espanta-se, porque ali “todos trabalham e as coisas correm bem”, para logo redimir-se “para quê?”, “onde querem chegar?”. E vão mais duas câmaras e quinze rolos de película. Deixa-se deslumbrar pela oferta e pelos preços de Paris mas logo encontra na mulher-objecto e no bidet motivos para soltar a verve revolucionária. E troca a vestimenta operária pelo fato que comprou de manhã. Volta à carga contra o capitalismo mas é com insucesso que tenta refrear o impulso gastador (“aqui há milhões de coisas, apetece comprar tudo”) e esconder o fascínio pelo esplendor técnico que o rodeia nos dias parisienses. E compra um casaco de peles para Stepánova.

No dia 18 de Junho de 1925, depois de longas negociações com a alfândega e com as autoridades da URSS, deixa Paris, carregado com: várias máquinas fotográficas e respectivos acessórios, máquinas de filmar, roupa, muita roupa, para ele e para a mulher, perfumes, cachimbos, um gramofone e discos. Ao subir para o comboio ainda deve ter soltado mentalmente mais dois ou três impropérios contra o capitalismo. Mas a natureza humana é traidora, inimiga do proletariado e a primeira obreira da contra-revolução. Depois de Paris, o empenho de Rodchenko na invenção do homem novo nunca mais foi o mesmo.

Janáček

Estou a pensar na última década da sua vida: o seu país independente, a sua música finalmente aplaudida, ele próprio amado por uma mulher jovem; as suas obras tornam-se cada vez mais audaciosas, livres, alegres. Velhice picassiana. No Verão de 1928, a bem-amada na companhia dos filhos vai vê-lo à sua casinha de campo. Os filhos perdem-se na floresta, ele vai à procura deles, corre por todos os lados, apanha calor e frio, fica com uma pneumonia, é levado para o hospital e, alguns dias mais tarde, morre.

Milan Kundera, Os Testamentos Traídos

e assim vai o mundo

Snowden, o homem do momento, anda em em trânsito entre a Rússia, Cuba e Equador, lugares pouco recomendáveis para jornalistas ou mesmo para quem gosta de dizer o que lhe vai na alma. A definir todos os seus cuidadosos passos está Baltasar Garzón, célebre juiz que, recorde-se, foi suspenso das suas funções por ter ordenado escutas ilegais às conversas entre um grupo de suspeitos em prisão preventiva e os seus advogados. Snowden, parece, está em luta pela liberdade de expressão e pelo direito à privacidade.

Liberal, também.

O fascismo mussoliniano, o original, o genuíno, ao qual se convencionou chamar “direita”, era profundamente revolucionário e aspirava a virar a sociedade italiana do avesso. Até os hábitos alimentares dos italianos, magnífica herança de uma cultura gastronómica secular e moldada por meio mundo, foram um alvo a abater pelos sequazes do duce. Tudo em nome da ordem e da hierarquia. Tradição? Só quando servia os interesses do grupelho emergente.

A ezker abertzalea (esquerda nacionalista radical basca), ninho da ETA, carrega hoje o facho ateado por Sabino Arana, carlista, fundador do nacionalismo basco, autor de lendárias frases étnico-nacionalistas (acho que é assim que se diz na linguagem politicamente correcta do movimento anti politicamente correcto) sobre os castelhanos: Gran número de ellos parece testimonio irrecusable de la teoría de Darwin, pues mas que hombres semejan simios poco menos bestias que el gorila: no busquéis en sus rostros la expresión de la inteligencia humana ni de virtud alguna; su mirada solo revela idiotismo y brutalidad; La fisonomía del bizkaino es inteligente y noble; la del español inexpresiva y adusta. El bizkaino es nervudo y ágil; el español es flojo y torpe.

A História normalmente é ingrata com esquematizações, certezas absolutas e toques de bandeira anti-dissidência. Por isso, estou com o Miguel. Liberal, sim. De direita? Talvez.

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a Pequena Galeria abre ao público na quinta-feira dia 21 de Março com a exposição Salão #1 (Inauguração) apresentando obras de Ágata Xavier, António Almeida, António Júlio Duarte, Augusto Cabrita, Carlos M. Fernandes, Carlos Oliveira Cruz, Céu Guarda, Filipe Casaca, Guilherme Godinho, Jordi Burch, José Cabral, José M. Rodrigues, Mário Cravo Neto, entre outros.

a Pequena Galeria é um projecto colectivo que ocupa um pequeno espaço de exposição, informação e comercialização de arte, tendo a fotografia como interesse preponderante. Pretende ser um lugar diferente, à procura de novas fórmulas de produção e distribuição, atento às actuais condições do mercado e decidido a promover o coleccionismo.
Os seus fundadores – Carlos M. Fernandes, Guilherme Godinho, Carlos Oliveira Cruz, Alexandre Pomar, Bernardo Trindade, Luís Trindade e Ágata Xavier – associam diversas experiências e relações com a arte e a fotografia, nos campos da criação, da crítica e investigação, da edição e também nas áreas do comércio livreiro e da realização de leilões.

O nome que escolhemos recorda a história e a ambição de The Little Galleries of the Photo-Secession, a galeria fundada em 24 de Novembro de 1905 por Alfred Stieglitz e Edward Steichen.

A inauguração decorre nos dias 21 (18-21h.), 22 (18-24h.) e 23 (16-21h.) de Março.

Horário da galeria (a partir de dia 27 de Março):
Quarta – Sexta: 18:00 – 20:00
Sab: 16:00 – 20:00

Brandos costumes

Portugal, diz o povo, é um país de brandos costumes e aí está o Francisco José Viegas a reforçar a tese. Perante o assalto implacável e contínuo de um Estado policial, o ex- da Cultura ainda tem a delicadeza de “pedir”. Pois eu penso que, quando a violência do Estado ultrapassa todos limites aceites pelos mais latos conceitos de sociedade livre, a violência reactiva é legítima e não há que pedir nada a ninguém.

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A Arma de Chekhov

O Princípio da Arma de Chekhov diz que uma espingarda que aparece pendurada na parede durante o primeiro acto de uma peça de teatro deve ser usada até ao final dessa mesma peça. Em Straw Dogs (1971) Sam Peckinpah não nos mostra uma escopeta nem uma pistola, mas uma trampa para caçadores furtivos que é armada e colocada sobre a lareira de uma casa rural durante a primeira cena de (falhada) confrontação. E ali fica, em tensão. Sabemos que vai ser usada e que vai ser usada para matar. Basta esperar que os outros pontos de pressão cedam. (E que bem desenha Peckinpah este jogo cinematográfico, a arquitectura da tensão, o equilíbrio nervoso destinado a romper-se, os instintos primitivos a desfazerem a máscara humana, a ambiguidade do jogo sexual.) Temos então um homem, aparentemente pacífico, culto, que se instala com os livros e a mulher numa aldeia inglesa, e temos os habitantes dessa aldeia, sem verniz de civilização, reprimidos e violentos. O convívio, sabemo-lo desde o início, é impossível. Porque sim. Porque há mundos que não se misturam. E no final, previsível mas eloquente, o homem tranquilo explode numa orgia de violência catártica. A armadilha sobre a lareira é disparada e desfaz a cabeça de um dos agressores. Uma pessoa tem os seus limites e não há capa de civilização que resista ao cerco dos bárbaros.

Itália, 1930

Itália, 28 de Dezembro de 1930. Filippo Marinetti publica na Gazetta del Popolo de Turim o Manifesto da Cozinha Futurista. O documento pretendia ser um repositório de receitas vanguardistas, à laia de guia para o homem novo futurista. Mas o alvo do manifesto era a pasta, pilar da gastronomia italiana: riscar a pasta do mapa culinário era o objectivo principal de Marinetti, escudado por Mussolini e pelo Estado fascista. Vinha tudo embrulhado no sonho de uma sociedade moderna, regida pelos padrões (gastronómicos e não só) do norte civilizado, contra os glutões comedores de massa (A pasta opõe-se ao espírito desperto, à alma apaixonada, generosa e intuitiva dos napolitanos, dizia o manifesto a páginas tantas). No entanto, pretextos e cauções intelectuais à parte, o motivo para a cruzada contra o esparguete e os talharins foi o trigo. A ascensão do fascismo e a rotura de algumas relações diplomáticas suspendeu grande parte da importação de trigo duro e a Itália não o produzia em quantidades suficientes para alimentar uma dieta baseada na pasta. A fome ameaçou o povo e o orgulho prepotente do Duce. E então começaram as campanhas e os manifestos.

Portugal, 28 de Dezembro de 2012. Um secretário de Estado diz, sem um traço de vergonha na cara, que é fundamental controlar os hábitos privados dos portugueses e que essa será a grande missão do Ministério da Saúde no ano que agora começa. Comida e vícios estarão assim sob a estrita vigilância dos queridos líderes. A razão é prosaica (e pelo menos não se esconde por detrás de manifestos intelectuais): salvar o Serviço Nacional de Saúde. Dois países, dois séculos, as mesmas personagens.

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O país no Youtube

Depois das figuras do “engenheiro” a vender computadores e a falar um “idioma” vagamente aparentada com o castelhano dos subúrbios de Jaén, depois do vídeo para finlandês ver, depois das cartas patéticas endereçadas ao primeiro-ministro e ao presidente por cidadãos egocêntricos e infantis, depois de tantos e tantos episódios de luso-piroseira pensei que podia ver, sem medo, o vídeo de que tanto falam. Estava enganado. E agora vou à farmácia comprar Xanax.

A força do destino

A Bélgica nasceu depois de uma récita de La muette de Portici e a Itália foi inventada ao ritmo das obras de Verdi. Duvido que a ópera venha ter o mesmo papel neste período de redefinição de fronteiras que se avizinha (a Escócia, a Bélgica outra vez, a Espanha, e sabe-se lá que mais), mas foi no Liceo de Barcelona, na passada segunda-feira, que senti pela primeira vez a presença daquilo que chamam Catalunha, ou nação catalã. Enquanto o castelhano continua a ser a língua franca nas ruas de Barcelona, enquanto o flamenco continua ser utilizado como chamariz para os turistas (sempre com a Carmen Amaya e o Sorromostro como alegação final), enquanto se picam callos, bravas e cecina nas tabernas do Gótico e do Born, enquanto isso, ali, entre as elites, onde corre o puro (?) sangue catalão, a semente da revolução há muito que floresceu. O traço sardónico foi dado pelas bandeiras de Espanha e Itália, desfraldadas e agitadas no final do terceiro acto de “La Forza del Destino” de Verdi. Mas a cereja veio da Suécia e foi hoje posta no topo do bolo.

(Quanto à qualidade da récita, este é um bom resumo: quando começou o quarto acto eu já estava no Cal Pepe a comer pescaíto frito e a admirar a coreografia dos sete camareros que se moviam por trás do balcão. Foi a produção de abertura de temporada, note-se. A decadência dos grandes teatros ibéricos, causada pela falta de dinheiro mas também pela inépcia dos directores, é já um facto inquestionável (São Carlos, Real, Liceo). Deve ser a força do destino. A Europa como a conhecemos nasceu nas casas de ópera e agora morre nas casas de ópera. O cenário é trágico, divertido, perigoso. Mas justo.)

O gene

Concorde-se ou não, é sempre com agrado e interesse que se lêem as observações do Pedro Arroja sobre o espaço cultural em que estamos inseridos, em contraponto (e em confronto) com outras culturas próximas. Mas continuo a achar que em tal análise das culturas católicas falta um factor essencial: o factor (ou herança) árabe. Não tenho qualquer evidência científica para apresentar em defesa desta tese. É apenas uma convicção que foi crescendo a partir de alguns factos circunstanciais (para além da História): ser nativo de um país do sul da Europa, viver há anos na cidade que foi o último reduto árabe da península ibérica e ter um conhecimento razoável do Mediterrâneo latino e eslavo (e algumas experiências do outro lado do lago). Vale o que vale. Mas vale o suficiente para estar convencido de que vamos continuar a disparar ao lado do tema central enquanto insistirmos em ignorar este termo da equação. Para que serve acertar no alvo? Talvez para nada. Ou talvez para se chegar à conclusão definitiva de que o “projecto europeu”, tal como tem sido desenhado nas últimas duas décadas, está condenado ao fracasso, e que esse fracasso pode condenar-nos ao jugo da tirania. É que o pilar onde se sustenta o paleio unionista — a matriz cristã da Europa — é uma farsa, e não é porque uns são protestantes e outros católicos. A clivagem é mais profunda.

Ao sul (4)

Arquestrato de Siracusa (século IV a.C), siciliano de origem grega, pioneiro da gastronomia e da crítica gastronómica, não gostava do excesso de ingredientes na comida. Preferia uma cozinha sem condimentos supérfluos, sem molhos, sem gorduras. Deixou um recado,

Importuno y demasiado

es para mi el aderezo

de mucho queso, mucho aceite y mucho sebo

como si a gatos se pusiera mesa,

e a gastronomia siciliana, atenta, manteve-se fiel aos seus ensinamentos: os ingredientes justos, a simplicidade, a gordura (azeite, quase sempre) no seu ponto correcto, o protagonismo dos produtos da terra e do mar, frescos, deliciosos, deslumbrantes, no mercado e na mesa. Uma cozinha superlativa, das melhores que encontramos neste mundo vasto e sortido. Uma cozinha que foi acumulando saberes e sabores de colonizadores, conquistadores e conquistados, desde os sículos, sicanos e elímios, primeiros habitantes da ilha, até aos espanhóis, que levaram o Novo Mundo para a Sicília (a América da Antiguidade, como tão bem a definiu Lampedusa), passando por gregos, romanos, normandos e, principalmente, pelos árabes, que deixaram a marca mais forte, não só na comida, mas também no sangue, nos costumes e no estilo de vida urbano dos sicilianos. É por isso que os anúncios do fim da História étnico são sempre tão divertidos.

Ao sul (3)

O transporte por camioneta na Sicília funciona surpreendentemente bem. Vou da Catânia a Taormina, de Taormina a Messina, de Messina a Palermo, depois para Sciacca, regresso a Palermo, e outra vez para a Catânia. Não há um único atraso e os preços são justos. Cada trajecto é explorado por uma empresa diferente.

Os comboios são da responsabilidade da Ferrovie dello Stato Italiane  (a única excepção é uma linha que dá a volta ao Etna). Não uso. Na preparação da viagem leio sempre o mesmo comentário: as ligações ferroviárias não são fiáveis e são mais caras do que as viagens em camioneta (exemplo: Catânia-Palermo, 15 euros em camioneta, 25 no comboio inter-cidades). Em Espanha sigo a mesma política: só vou pela Renfe, empresa pública que gere a rede de comboios, quando não tenho outra opção (usei os comboios duas vezes em Espanha e, numa delas, um atraso épico quase me custava um voo).

Entretanto, em Lisboa, uma senhora, que dizem ser ministra mas que numa sociedade livre não estaria nem no refugo da hierarquia governativa, afirma, sem se rir, que “está por provar que o sector privado, ao contrário do que se diz muitas vezes, tenha maior eficiência que o sector público“. É isso mesmo.

Ao sul (2)

N’O Leopardo, a páginas tantas, Lampedusa descreve o príncipe de Salina, Don Fabrizio, como um homem, aos olhos de Don Calogero, com “uma certa energia propensa à abstracção, uma predisposição para moldar a sua vida com o que dele saísse e não com o que podia arrancar aos outros”. Em contraste, Don Calogero, o príncipe da nova ordem, recém-chegado aos prazeres da riqueza material, é desenhado como um ser emocional, rude, e talhado por centenas de gerações de comerciantes mediterrânicos. Na Palermo de 1860 confrontavam-se as duas Europas e a de Calogero já levava vantagem sobre um Leopardo resignado. Nesta ilha euro-africana açoitada pelo sol e adubada pelo Etna, onde o sangue árabe corre nas veias dos seus lânguidos habitantes — sangue herdado dos sarracenos que, privados do poder com a chegada dos Normandos, fizeram governos-sombra e chamaram manfa à Sicília perdida (manfa, lugar de exílio, possível embrião de uma famosa e sinistra palavra siciliana) —, não podia haver outro vencedor. Para selar a vitória, Calogero deu filha e generoso dote, aprendeu a comportar-se à mesa, e entrou no clube em declínio. Mas agora o espelho grotesco de Don Fabrizio, arruinado, pede esmola ao Leopardo. Ou exige, mesmo. Seria melhor que seguisse o exemplo do seu santo homónimo, padroeiro de Agrigento, que viveu numa gruta, alimentando-se exclusivamente do leite dos veados selvagens do Monte Cronio.

Ao sul

Chamam-lhe o celeiro de Itália. A terra, vulcânica e generosa, oferece um extenso catálogo de produtos agrícolas, desde os mui celebrados citrinos, produto base da agricultura da Sicília (62% da produção italiana está na Sicília), aos pistácios, usados, como um toque de graça oriental, na assombrosa gastronomia siciliana. O mar, não tendo a riqueza do Atlântico, também não é avaro. O clima só peca por ser excessivamente quente no Verão e o turismo responde em massa a um sol ubíquo que convida à indolência. Então, por que razão é a Sicília tão pobre? Não vou avançar sentenças finais. Mas os 26000 guardas-florestais, número lançado recentemente pelo NY Times, talvez sejam um princípio de explicação plausível, tal como os jardineiros sem jardim da Grécia e todos os empregos nacionalizados de Portugal e de Espanha que mais tarde ou mais cedo serão alvo da atenção internacional. E se este exército de guardas já parece absurdo para uma ilha do tamanho do Alentejo, com mais surpresa o vemos se conhecermos a paisagem da ilha. Goethe já o havia notado há cerca de 230 anos, quando cruzou o território, desde Palermo até Messina, e quem chega à Catânia num avião pode confirmar (pelo menos no lado oriental da ilha): grande parte da Sicília foi desflorestada para a agricultura. Se um cenário com 26000 guardas-florestais é trágico, um cenário com 26000 guardas-florestais e sem árvores já é do domínio da comédia. Juntemos-lhe um universo mediterrânico a apontar o dedo e a responsabilizar Merkel, o neoliberalismo, e o conde Drácula pela decadência da sua dolce vita, e temos aquilo a que se chama uma bela palhaçada.

Uma sociedade pacífica, solidária, ecológica, reciclável e sustentável*

(…) La discusión que sigue tras el silencio -ha durado cinco segundos de reloj- es estupenda. Tengo la transcripción literal, pero la soslayo por larga. Resumiré consignando que una madre sugiere comprar espaditas de plástico en el chino de la esquina, pero otras se oponen. «No, que luego se pegan con ellas», dice una. «Hagámoslas entonces de cartón -responde otra-, en plan atrezzo». Pero surgen discrepancias. «Me niego a que los niños vayan armados», dice alguien. Un padre allí presente propone recortar pistolas de cartulina y que las lleven en la faja, pero otro se manifiesta en contra de cualquier arma de fuego, real o figurada. «De todas formas -interviene una madre-, un pirata sin espada no es un pirata». Otro silencio perplejo. Al fin, un padre sugiere que en vez de espadas los niños lleven catalejos. Podrían hacerse con tubos de papel higiénico, propone. «Entonces los niños irán disfrazados de marinos, no de piratas», apunta alguien. «O de astrónomos», tercia otro padre, guasón, al que dos o tres miran mal y alguien llama fascista por lo bajini. (…)

Arturo Pérez-Reverte

*Tradução: uma sociedade “amariconada”.

Quem manda?

“Mas afinal quem manda em Portugal?, o poder ou a justiça?”. Ouvi esta frase agora mesmo, num noticiário da televisão portuguesa. O autor é um “histórico socialista” (vénia), e o seu nome Souto de Moura, se a memória de curto prazo não me atraiçoa. O “histórico” proferiu estas lindas palavras numa manifestação contra uma decisão de um tribunal que desautoriza a sentença autoritária, sem barra, apoiada, parece, pelo mesmo Souto de Moura, que proíbe as corridas de touros em Viana do Castelo desde há alguns anos. No entanto, independentemente do contexto, este “quem manda” do sr. Moura é o retrato de um regime. Um regime incompatível com o conceito de liberdade e sufocado por uma linhagem de auto-proclamados e medíocres “chefes”.

Origens de uma cultura moribunda (1)

No dia 14 de Junho de 827 os árabes desembarcam em Mazara del Vallo e ocuparam a Sicília. Palermo foi declarada zona franca e ali se estabeleceu o emir. Em 1060 os normandos invadiram a ilha, entraram em Palermo e desafiaram o domínio árabe, que viria a cair definitivamente em 1072. Depois? Depois foi como Jakob Job descreve em Sicile, um elegante foto-livro e guia turístico-cultural, publicado em 1971 pelas Editions Silva Zurich: Encore de nous jours, Palerme est une ville de caractére arabo-normand; même ses plus beaux bâtiments baroques ne parviennent pas à chasser cette impression. La cathédrale, le palais royal, San Giovanni degli Eremiti, la Martorana, San Catalado, quelques villes arabes devant la ville component le visage de cette dérniere.

Europa

– Sim – disse Gertrude. – A sua mãe converteu-se ao catolicismo e casou-se na Europa.
– Estou a ver que sabe alguma coisa – disse o jovem. – Ela casou-se e morreu. A família do meu tio não gostou do homem com quem ela casou; chamavam-lhe estrangeiro, mas não era estrangeiro. O meu pobre pai nasceu na Sicília, mas os pais dele eram americanos.
– Na Sicília? – murmurou Gertrude.
– É verdade – retorquiu Felix Young – que passaram a vida na Europa. Mas eram patriotas sinceros. Tal como nós.
– Portanto o primo é siciliano – disse Gertrude.
– Siciliano, não! Vejamos. Eu nasci num lugarzinho – um lindo lugarzinho – em França. E a minha irmã nasceu em Viena.
– Então é francês – disse Gertrude.
– Longe vá o agouro! – exclamou o jovem.
Os olhos de Gertrude quase não o largavam.
Felix desatou de novo a rir. – Mas se lhe agrada, não me importo de ser francês.
– Mas em parte é estrangeiro – disse Gertrude.
– Sim, em parte, sou; julgo que sou. Mas em que consiste essa parte? Creio que nunca tivemos oportunidade de resolver a questão. Deve saber que há gente assim. Gente que não podia dizer nada de concreto acerca de qual é o seu país, a sua religião ou a sua profissão.

Henry James, Os Europeus

Exílio e morte

Reconheçam: é difícil viver com gente capaz de vos mandar para o exílio e para a morte, é difícil torná-los nossos íntimos, é difícil amá-los.

Milan Kundera, A Brincadeira

A despersonalização é o primeiro golpe infligido pelo comunismo a uma população imprevidente. Começa aí, na identidade individual, nos laços sociais e naturais, na solidariedade voluntária e na própria condição humana. São esses os alvos aos quais os comunistas apontam como se de barro moldável se tratasse.  Logo descobrem que é pedra maciça, mas já não interessa: picam e picam até não sobrar mais do que a poeira e os escombros humanos, e os fantasmas que deambulam por cidades pós-apocalípticas com medo, raiva e angústia. E é quando os homens se metamorfoseiam em animais perigosos, quando vivem num clima de guerra permanente, seja surdo ou aberto, seja literalmente sangrento ou apenas psicologicamente devastador, é nessa altura, dizia, que o comunismo e outras doutrinas totalitárias atingem o seu esplendor, o acme ilusório que anuncia já o estertor e as ruínas. Sánchez Gordillo, impotente com a sua insignificante Marinaleda, anda há trinta anos a minar uma sociedade e a semear a sua utopia totalitarista pelos campos da Andaluzia, usando a força e a intimidação como armas “políticas”. Se for tratado com a condescendência que na Europa é reservada para estes pulhas com máscara de patusco, vai conseguir.

Aqui somos todos assim

Sicília, Abril de 1787. Johann W. Goethe estava numa rua central de Palermo (imunda, coberta de lixo), falando com um lojista da cidade, quando viu dois homens bem vestidos, com bandejas de prata na mão, pedindo dinheiro a quem passava. Intrigado com a cena que decorria sob o seu olhar de estrangeiro, Goethe perguntou ao comerciante pelo seu significado. O homem respondeu-lhe apontando para uma figura vestida como um cortesão que caminhava atrás dos dois criados com um porte digno e tranquilo. É o príncipe de Palagónia, disse, e está aqui, como em outras ocasiões, a pedir dinheiro ao povo para o resgate de sicilianos que foram capturados e feitos escravos pelos berberes. Goethe, que três dias antes havia visitado a villa Palagónia, mostrou-se perplexo. Como é que alguém que gastou uma fortuna nas loucuras grotescas da villa se atrevia agora a mendigar para sustentar aquela que devia ser uma função primária dos senhores da ilha!? Aqui somos todos assim, disse resignado o comerciante de Palermo, pagamos as nossas loucuras, mas as nossas “virtudes” têm que ser os outros a custear.

Somos todos assim, nesta faixa soalheira. De Lisboa a Atenas, passando por uma Sicília que, em 2012, está a beira do colapso. E andamos pela rua com pose de cortesão, armados com uma putativa superioridade moral que nos permite pedir dinheiro descaradamente como se a ele tivéssemos direito por decreto divino. Tudo isto depois de gastar quantidades obscenas de euros nos vícios privados de alguns e nas obras palagónicas para “todos”.

Palermices de Verão

Na hora da morte de Chavela Vargas o Público oferece-nos um texto superficial e mal-amanhado. No meio de algumas banalidades copiadas dos comunicados de imprensa ou do El País (fonte favorita do novo Público progressista), a autora da “notícia” diz-nos que Vargas foi amiga de Federíco García Lorca, poeta andaluz morto em 1936, quando a cantora ainda era uma desconhecida com 17 anos que saltava da Costa Rica para o México em busca de dignidade e de uma vida melhor. O jornal há muito que se deixou levar por uma dinâmica confrangedora e estes detalhes já não surpreendem. Mas os patrões ainda vão a tempo de salvar o investimento. Comecem por contratar jornalistas, por exemplo. Ou, pelo menos, pessoas que se interessem minimamente pelos assuntos que relatam.

Degradante

Não sei o que é pior, se é a pelintrice recorrente de quem devia estar ao serviço dos cidadãos e não a tomá-los por parvos, se é a sabujice de quem põe a coluna vertebral no prego para defender o que é indefensável. Mas de uma coisa tenho quase a certeza: este número de cabaré decadente vai acabar muito mal.

Ensino inferior

Num ambiente dominado por um monopólio público, aquilo que se convencionou chamar privado só pode aparecer na forma de parasitismo. Como num sistema ecológico, esse parasitismo pode evoluir para o comensalismo ou mesmo para o mutualismo. É então que temos os exames por fax, as licenciaturas em serviço expresso e demais trocas entre parasita e hospedeiro.

Fazer

Enquanto uns se queixam e choram, enquanto outros, em jeito de claque, garantem que não pode haver criação artística sem a intervenção do Estado, enquanto isso,  há quem trabalhe. Onze dias de rodagem, um orçamento “ridículo” e facilmente recuperável e uma distribuição que rompe com os esquemas tradicionais. Ah, e também ganha prémios em festivais.

Já agora, e a propósito, vale a pena ler este texto do Alexandre Pomar: contra-manifesto.

…grande parte dos manifestos que por aí circulam, e também das considerações autorais sobre o panorama cultural, são enganadores ou fraudulentos ao angariarem os seus apoiantes e admiradores através de uma ilusória promessa de destinos artísticos para todos graças à subsidiação universal

Ponto crítico

Imaginemos uma praia. Sentados numa toalha, ao sol, agarramos com a manápula um punhado de areia e, lentamente, como se de uma ampulheta se tratasse, deixamos cair essa areia sobre um mesmo ponto da toalha. Uma pilha de areia forma-se e cresce. No início, não vamos notar muita actividade na superfície, mas, à medida que a inclinação do monte aumenta, começamos a ver deslizamentos locais de areia que, por vezes, deixam de ser locais e propagam-se globalmente. Há avalanchas pequenas e avalanchas catastróficas. Há de todos os tamanhos. E se a nossa pilha de areia fosse um modelo ideal teríamos uma distribuição da intensidade de avalanchas de  acordo com a frequência semelhante à observada quando medimos a intensidade e a frequência de terramotos numa determinada área geográfica ou a quantidade de cidades com determinado número de habitantes. Chama-se a essa distribuição uma lei de potências.

Por que razão há esta distribuição de eventos, sem nenhum padrão dimensional típico e a acontecer em todas as escalas, na nossa pilha de areia e em muitos outros fenómenos naturais (e sociais)? Porque o sistema (auto)organiza-se num estado crítico, no qual qualquer perturbação pode ter consequências de amplitude imprevisível. E sublinhemos: imprevisível.

Este é um dos dois conceitos-chave para uma teoria dos sistemas complexos. O outro, não só é tão obscuro para o cidadão comum como o conceito de auto-organização crítica, como também tem muito má imprensa. Falamos de emergência. É a mão invisível de Adam Smith. É a cataláxia de Hayek. São os bichos-papões de uma sociedade que não entende nem quer entender os fenómenos que a rodeiam ou nos quais essa mesma sociedade está envolvida.

Enquanto estes conceitos não forem bem compreendidos e aceites pela maioria das pessoas vamos ter que enfrentar dois problemas calamitosos. Em primeiro lugar, viveremos como semiescravos, à mercê do Estado e daquilo que o Estado entende fazer com o dinheiro dos cidadãos, porque os governantes (e a maioria das pessoas) acreditam que pode prever as consequências globais das suas acções locais. Acções que, quase se sempre, se resumem a gastar, ainda que falaciosamente disfarçadas com aquilo que se convencionou designar como “estimular”.

Em segundo lugar, sofreremos muito mais com as inevitáveis hecatombes económicas porque os governos acham que podem construir diques de contenção para evitar avalanchas de areia de dimensões catastróficas. Não podem. Só podem prolongar a agonia, sacrificando, no processo, as vidas e os sonhos de algumas pessoas em favor dos caprichos e dos “direitos adquiridos” de outras.

Quando percebermos estes dois conceitos seremos um pouco mais livres. E saberemos também que o vendedor de sonhos que ali está, que nos acena com estímulos económicos salvadores, ou é um mentiroso ou é um homem muito ingénuo.