Imaginemos uma praia. Sentados numa toalha, ao sol, agarramos com a manápula um punhado de areia e, lentamente, como se de uma ampulheta se tratasse, deixamos cair essa areia sobre um mesmo ponto da toalha. Uma pilha de areia forma-se e cresce. No início, não vamos notar muita actividade na superfície, mas, à medida que a inclinação do monte aumenta, começamos a ver deslizamentos locais de areia que, por vezes, deixam de ser locais e propagam-se globalmente. Há avalanchas pequenas e avalanchas catastróficas. Há de todos os tamanhos. E se a nossa pilha de areia fosse um modelo ideal teríamos uma distribuição da intensidade de avalanchas de acordo com a frequência semelhante à observada quando medimos a intensidade e a frequência de terramotos numa determinada área geográfica ou a quantidade de cidades com determinado número de habitantes. Chama-se a essa distribuição uma lei de potências.
Por que razão há esta distribuição de eventos, sem nenhum padrão dimensional típico e a acontecer em todas as escalas, na nossa pilha de areia e em muitos outros fenómenos naturais (e sociais)? Porque o sistema (auto)organiza-se num estado crítico, no qual qualquer perturbação pode ter consequências de amplitude imprevisível. E sublinhemos: imprevisível.
Este é um dos dois conceitos-chave para uma teoria dos sistemas complexos. O outro, não só é tão obscuro para o cidadão comum como o conceito de auto-organização crítica, como também tem muito má imprensa. Falamos de emergência. É a mão invisível de Adam Smith. É a cataláxia de Hayek. São os bichos-papões de uma sociedade que não entende nem quer entender os fenómenos que a rodeiam ou nos quais essa mesma sociedade está envolvida.
Enquanto estes conceitos não forem bem compreendidos e aceites pela maioria das pessoas vamos ter que enfrentar dois problemas calamitosos. Em primeiro lugar, viveremos como semiescravos, à mercê do Estado e daquilo que o Estado entende fazer com o dinheiro dos cidadãos, porque os governantes (e a maioria das pessoas) acreditam que pode prever as consequências globais das suas acções locais. Acções que, quase se sempre, se resumem a gastar, ainda que falaciosamente disfarçadas com aquilo que se convencionou designar como “estimular”.
Em segundo lugar, sofreremos muito mais com as inevitáveis hecatombes económicas porque os governos acham que podem construir diques de contenção para evitar avalanchas de areia de dimensões catastróficas. Não podem. Só podem prolongar a agonia, sacrificando, no processo, as vidas e os sonhos de algumas pessoas em favor dos caprichos e dos “direitos adquiridos” de outras.
Quando percebermos estes dois conceitos seremos um pouco mais livres. E saberemos também que o vendedor de sonhos que ali está, que nos acena com estímulos económicos salvadores, ou é um mentiroso ou é um homem muito ingénuo.