Faz Sentido ser de Direita, mas não Liberal

483807_434310486657935_1488587293_nDepois de escrever o meu texto sobre o declínio da direita, o Rui Albuquerque escreveu um texto com uma posição contrária aos meus argumentos, apesar de não me mencionar no seu texto. Depois de ler o texto em questão optei por fazer alguns comentários que me parecem vitais em temas de filosofia política.

O Rui parece determinado em provar que o liberalismo clássico é uma ideologia de direita. Vale a pena lembrar que no meu texto eu não disse que este não era visto como de direita no actual momento. Perante a total rendição da direita ao liberalismo, o liberalismo clássico apresenta-se como uma forma menos igualitária do que o vigente liberalismo social. Mas, por todas as razões que expliquei no meu texto, é uma teoria com fortes elementos igualitários, anti-tradicionalistas e universalistas, que a afastam da direita tradicional. Uma coisa é certa, um liberal clássico no século XIX era de esquerda de caras. Foi a vitória da esquerda actual que os colocou na alegada “direita” sem que eles saíssem do mesmo lugar.

Seja como for, há pontos na argumentação do Rui que violam as bases consensuais da teoria política. O Rui alega que o que caracteriza a direita é o individualismo (por oposição ao que eu escrevi: que a direita é tradicionalmente anti-individualista, familista e tribal). Diz também que o indivíduo visto como parte de um colectivo é uma posição de esquerda. Nas palavras do Rui:

“Enquanto que a direita vê nele o indivíduo, a esquerda tem-no como cidadão. Nesta perspectiva, o homem é, para a direita, por si mesmo, sujeito e objecto de direitos face ao poder político, enquanto que, para a esquerda, ele existe essencialmente na sua relação com a coisa pública”

Obviamente, é possível subverter as bases da teoria política para colocar o liberalismo na direita, mas basta abrir uma enciclopédia para encontrar a definição básica de conservadorismo. Da Encyclopedia Brittanica:

“Conservatism, political doctrine that emphasizes the value of traditional institutions and practices.

Conservatism is a preference for the historically inherited rather than the abstract and ideal. This preference has traditionally rested on an organic conception of society -that is, on the belief that society is not merely a loose collection of individuals but a living organism comprising closely connected, interdependent members.”

O conservadorismo é tribal e comunitário, considera as tradições locais e particulares acima do indivíduo. E, claro, a não ser que achemos que o conservadorismo é de esquerda, a lógica “a direita vê o indivíduo antes do colectivo” não é válida.

O Rui escreve que “para a esquerda o homem nunca é, por si só, suficiente”. Podemos aceitar perfeitamente esta definição. Porém, à direita, aquilo que a esquerda pode chamar de cidadão, a direita tradicional chama de “pertença” (membership). Como diria Roger Scruton, que talvez, quem sabe, seja um “colectivista de esquerda”, todos nós precisamos de pertencer a um grupo para nos identificarmos e lutarmos juntos por objectivos; que a felicidade passa por essa submersão do eu num colectivo maior que nós.

Assim, é muito claro que a direita tradicional também não vê o homem como suficiente por si só. E nem precisamos de recorrer a teorias Hobbesianas para o verificar.

Depois há a questão da dominação e alteração do social pela via do poder. O Rui escreve:

“A esquerda entende que o “mundo” pode ser transformado por golpes de vontade e é o resultado de forças inteligentes e direccionadas.”

Aqui eu tendo a concordar parcialmente. A esquerda tende a preferir a ruptura porque num mundo onde a igualdade é uma utopia, é sempre preciso mudar algo mais. Onde eu discordo é que esta seja a única a agir com via a transformar o social. Todos os governos, da esquerda à direita, tentam gerir a sociedade no seu sentido, usando retórica, propaganda, valores ou espiritualidade. As elites, para o bem ou para o mal, lideram e modelam as massas. Mas mais, o mundo pode facto ser transformado com golpes de vontade das elites. Se à esquerda temos exemplos como a Escola de Frankfurt, à direita temos os conservadores/nacionalistas judeus que visualizaram e criaram um etno-Estado para o seu povo. Nietzsche, que é insuspeito de ser de esquerda, sabia bem que o mundo é transformado por “golpes de vontade” (the will to power) dos homens com grandes capacidades.

Por fim, o Rui escreve que a direita existe quando existem direitos negativos (universais e igualitários, suponho) protegidos por uma constituição liberal. Nas palavras dele:

“Os direitos naturais do indivíduo à liberdade e à propriedade, isto é, os direitos negativos sobre os quais o estado não poderá nunca dispor, reconhecidos por via da Constituição ou de outros instrumentos normativos que o protejam perante o poder público, é marca da direita.”

Com isto, (e em forma de caricatura) somos obrigados a concluir que a civilização ocidental viveu em esquerdismo durante milénios até que o constitucionalismo liberal foi inventado pelos pensadores do iluminismo. Os gregos clássicos, que na sua polis tinham um noção política tribal, distinguindo perfeitamente os cidadãos dos escravos, eram portanto esquerdistas. Esquerdistas estes que continuaram pelas monarquias divinas durante séculos até que se inventou o constitucionalismo liberal. É caso para dizer que a civilização ocidental foi inventada e vivida pela esquerda; isto claro, se aceitarmos que a marca da direita são direitos naturais à liberdade e propriedade pela via constitucional.

A meu ver, a distinção que ofereci de direita e esquerda no meu texto anterior continua a ser a distinção fundamental desta divisão. Tenho agora o prazer único de me citar; escrevi:

“Se há algo que difere a esquerda da direita é a perspectiva moral com que encaram a igualdade e a desigualdade. Enquanto que a esquerda faz do igualitarismo um deus intocável, um bem moral último, a direita vê a desigualdade humana como natural e respeitante da ordem humana e daí deriva a sua força moral positiva. Por outras palavras, a direita idealiza a qualidade (que implica desigualdade) e a esquerda idealiza a igualdade.”

Se a direita idealiza a qualidade, essa qualidade significa hierarquia; não só entre indivíduos, mas igualmente entre grupos.

Isto tudo, claro, para dizer que o que define a direita não poderá ser o seu individualismo moral e muito menos o liberalismo constitucional.

Leitura complementar: Roger Scruton: How to be a Non-Liberal, Anti-Socialist Conservative.

PS: Percebo que a minha posição seja anátema para muitos neste blogue, porém, eu sou da opinião de que quando algo não está a funcionar é preciso mudar e perceber as “causas da doença”. É assim que se vencem determinadas lutas e é a obrigação daqueles que percebem os problemas articulá-los perante a sua comunidade. Sei também que as comunidades sobrevivem à volta de certos axiomas e que se tornam colectivamente antagonistas quando esses axiomas são questionados. Se for esse o caso, então a parte mais fraca é o dissidente e não a comunidade. Isto é algo que temos de aceitar como uma evidência humana. Por isso, novas comunidades se formam.

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A “Direita”: Causas do Declínio.

Greek 1Muitos que se dizem de direita queixam-se de que esta não tem representação no mainstream político e comunicacional. Tudo é de esquerda agora, variando apenas na intensidade do igualitarismo apregoado. Porém, o termo “direita” é usado em todo o lado e temos a sensação de que ela existe e que se move. Ela tem representantes na televisão a verbalizar coisas supostamente de direita; e mais, alegadamente há gente de direita a escrever na imprensa e em blogues. Na realidade, com as devidas excepções, não há direita no discurso mainstream político e tal explica-se com uma das mais ferozes críticas à postura conservadora: que esta se limita a conservar as revoluções dos outros (i.e. da esquerda).

Se há algo que difere a esquerda da direita é a perspectiva moral com que encaram a igualdade e a desigualdade. Enquanto que a esquerda faz do igualitarismo um deus intocável, um bem moral último, a direita vê a desigualdade humana como natural e respeitante da ordem humana e daí deriva a sua força moral positiva. Por outras palavras, a direita idealiza a qualidade (que implica desigualdade) e a esquerda idealiza a igualdade. Desta forma, talvez fosse mais correcto usar os termos “vertical (hierarquia) vs horizontal (igualdade)” em vez do clássico “direita vs esquerda” que saiu do parlamento francês durante a revolução francesa.

O problema daquilo que passa por direita hoje em dia é ter absorvido muitos dos valores das revoluções igualitárias do passado e defendê-los como se fossem seus. Muitos destes valores poderiam ser discutidos, mas para este artigo interessam particularmente 3: liberalismo, materialismo e racionalismo.

Liberalismo

O liberalismo fez-se contra a tradição, contra a autoridade religiosa, contra a aristocracia, ou seja, fez-se contra a ordem hierárquica natural que se tinha desenvolvido na Europa durante milénios. Fez-se a favor do indivíduo e da igualdade e liberdade do Homem. Do ponto de vista moral, o liberal considera que todos os homens são formalmente iguais e que no indivíduo e só nele reside a soberania última. Daí a crença liberal em “direitos”, sejam eles “humanos”, de propriedade ou de libertação. Esta foi uma revolução igualitária contra a autoridade da tradição e que a direita tentou combater desde sempre. Em Inglaterra, os liberais estavam à esquerda do parlamento e passaram o século XIX a lutarem contra a ordem tradicional hierárquica.

Hoje em dia, perante o esmagador triunfo do liberalismo no ocidente do pós guerra, a direita cedeu e abraçou o liberalismo. Regra geral, acredita em “direitos humanos”, no mercado, no universalismo do Homem, no secularismo de Estado, na democracia liberal, etc… Por outras palavras, acredita em todas as revoluções feitas pela esquerda igualitária e agora convence-se que estas são as suas causas.

Isto advém em grande parte da aversão patológica que a direita geralmente tem a ideias abstractas. O “direitista” médio diz-se um homem pragmático, desprovido de grandes utopias loucas, que gere o que a vida apresenta, mas sem saber tornou-se num escravo das ideias igualitárias; pior, convenceu-se que estas ideias são suas, mesmo que muitas vezes sinta que elas não funcionam, ele acha que elas são moralmente boas.

Ao abraçar o liberalismo a direita ignorou a sua posição tradicional anti-individualista baseada na família, nação, tradição, sangue, autoridade, hierarquia e espiritualidade. Aliás, tirando os mais eruditos, os “direitistas” médios não fazem ideia do que é a direita tradicional e acham que ser de direita é defender o indivíduo até ao infinito. Não é surpreendente que a esquerda tenha uma vida tão fácil e que mantenha a sua hegemonia, mesmo quando o seu modelo social igualitário vai colapsando a olhos vistos. Assim, perante a progressiva derrota da direita não é de admirar que o liberalismo clássico, outrora uma ideologia de esquerda, seja agora o último refúgio da direita que não tem coragem ou engenho para sair do actual paradigma; desta forma,  a luta ideológica fica limitada a 2 liberalismos: o clássico (de inspiração Lockeana) e o social de pendor ainda mais igualitário (de J. S. Mill a John Rawls).

Materialismo/Economicismo

Existe a ideia de que foi Marx quem nos trouxe o materialismo (histórico), onde o fenómeno social é explicado segundo as condições materiais existentes. Porém, tal como em tudo o resto, Marx limitou-se a seguir a lógica do liberalismo clássico que colocou o foco da moralidade no material quando fez da propriedade sinónimo de liberdade individual. A partir daí os “direitos” ganharam uma componente material.

Hoje em dia tudo é explicado em termos materiais: quanto cresceu o PIB? Qual a dívida pública? A política X cria ou não mais riqueza material? Outras considerações à “direita”, especialmente de índole cultural e particular, praticamente desapareceram do discurso político, permitindo à esquerda basear todo o seu discurso na igualdade material (i.e. justiça social). Isto baseia-se na assumpção de que se o problema do crescimento económico for resolvido, tudo está resolvido. Porém, o que vemos no mundo é a conquista demográfica de povos com culturas pouco materialistas, com práticas nada liberais e com mercados muito menos desenvolvidos; e como se costuma dizer: a demografia é destino. A resposta aqui está na cultura e no seu impacto. Nisto a “direita” calou-se, ou quando fala é para criticar práticas anti-liberais de outros povos (e.g. muçulmanos). Mais uma vez, a melhor defesa das revoluções igualitárias e anti-tradicionais vem da actual “direita”.

Racionalismo

A direita sempre foi céptica em relação ao racionalismo. Sempre assumiu que os homens são competitivos, instintivos e vítimas de paixões. Reagiu negativamente contra o iluminismo alegando que a crença na razão é simplesmente isso: uma crença infundada.

Porém, hoje a direita entregou-se de corpo e alma ao racionalismo, esquecendo a velha máxima de David Hume que a “Razão é a escrava das paixões”. Isto é particularmente evidente quando tenta convencer racionalmente as massas de que o que é preciso são “contas em dia”, “austeridade”, “procura e oferta” e mercado (mais ou menos) livre. Como a direita já devia saber, os seres humanos sentem primeiro e pensam depois (quando pensam). A “direita” postula que é preciso austeridade e continhas no sítio, mas como perdeu o lado do discurso que permitia ser convincente e persuasiva (a nação, Portugal, a cultura, a “raça” portuguesa), tornou-se na coisa menos apelativa de sempre … não admira que o povo seja todo de esquerda. Ao ignorar o tribalismo natural e o emocionalismo humano a direita entregou as cartas todas à esquerda. Ficando apenas com reivindicações de baixos impostos, mercado globalista e austeridade sem ter valores colectivos para oferecer. Isto, claro está, é a melhor receita para derrotas infinitas, quer na frente económica, quer na frente cultural.

Em suma, não se combate a esquerda do século XXI com ideologias de esquerda do século XIX.

Poderá José Sócrates ser Nietzscheano?

Para reabilitar a sua imagem pública, eis que depois do seu exílio em França o ex-primeiro ministro José Sócrates volta ao comentário político sob a indignação de muitos, especialmente daqueles que se dizem de direita. Ao ler o pequeno texto do André (Azevedo Alves) a sugerir que José Sócrates se transformou numa manipuladora personagem Nietzscheana que reavalia todos os valores, não pude deixar de pensar: poderá José Sócrates ser Nietzscheano em algum sentido?

À primeira vista, ao comparar a filosofia de Nietzsche com alguém como José Sócrates o veredicto é simples: praticamente tudo o que o autor alemão defende é contrário ao que José Sócrates representa. Senão vejamos: Nietzsche rejeita o igualitarismo moral e biológico, a moralidade de escravo (anti-excelência), o socialismo (que é moralidade de escravo sem Deus), o liberalismo (igualitarismo dos “cobardes”), o governo das massas (e.g. democracia) e o universalismo da moralidade. Tudo isto, podemos dizer, são valores que José Sócrates não só representa como fez deles a sua carreira.

Por outro lado, podemos argumentar que José Sócrates é apenas um produto do tempo em que vive, onde praticamente tudo o que Nietzsche rejeitava é hoje a norma (daí que o filósofo em causa tenha previsto a decadência niilista do ocidente). E é aqui que, no meu entender, a comparação do André se torna pertinente, pois apesar de Sócrates representar o oposto do que Nietzsche defendia, ele pode perfeitamente estar a usar o zeitgeist (espírito dos tempos) para atingir o poder, ou seja, a usar a célebre “vontade de poder” Nietzscheana. Por outras palavras, José Sócrates nega a realidade e tenta vender uma nova realidade sobre o que aconteceu durante o período em que foi primeiro ministro. Isto, claro, para se manter no poder político.  Assim, o real torna-se difuso, confuso e ambíguo, e o ex-primeiro ministro ganha um novo fôlego político através do relativizar da realidade. Se o conseguir, talvez seja um dos “homens superiores” Nietzscheanos. Será?

O homem superior, para Nietzsche, é aquele capaz de afirmar a vida e reavaliar (ou transmutar) os seus valores para sair da moralidade de rebanho e atingir os seus objectivos, sendo esses objectivos a superioridade e a excelência humana.

Aqui torna-se importante questionar se o que Sócrates está a reavaliar são os valores ou a realidade. Podemos admitir que ambos estão interligados, mas são conceitos distintos. Pessoalmente, parece-me que é a leitura da realidade que Sócrates está a tentar mudar e não tanto os valores. Ele continuará a representar a moralidade de escravo que Nietzsche abomina (i.e. o igualitarismo e a promoção da mediocridade de massas).

Podemos complicar a questão ao perguntarmos se Sócrates realmente acredita nesta moralidade que apregoa diariamente. Ao contrário dos mais fervorosos defensores do “egoísmo” da escolha racional, a resposta aqui, parece-me que é positiva. A esmagadora maioria dos políticos acredita ou acaba a acreditar no que diz e auto-motiva-se com esse motor psicológico. Talvez sofram do que Marx apelidou de “falsa consciência” e no fundo estejam mesmo só a procurar o seu interesse, mas na sua mente consideram que o seu auto-interesse está confluído com o do povo.  José Sócrates não será excepção.

Porém, Nietzsche sempre foi um pensador complexo e imprevisível  que surpreendia com a sua subtileza. Por exemplo, Nietzsche considerava Jesus um desses homens superiores que foi capaz de transmutar os seus valores (tal como os da sua época) e revolucionar criativamente o mundo à sua volta.  Mas, tal como nós já desconfiávamos, José Sócrates não é Jesus, e como tal, provavelmente não iria ser poupado pelo pensador alemão. Porquê?

As características que Nietzsche revelou como intrínsecas aos homens superiores são a capacidade para afirmar a sua vontade através da imposição da vontade (pela via bélica se for necessário) e a capacidade para criar construtivamente, ser original e virtuoso sem nunca ceder à moralidade que favorece a mediocridade e a vida fácil dos que não sabem ou conseguem mais. Em suma, o homem superior é um aristocrata no mais profundo sentido clássico do termo.

Certamente, este “homem Nietzscheano” precisa de saber adaptar-se ao contexto, coisa que Sócrates sempre fez maravilhosamente. Contudo, tal não se torna suficiente, pois a adaptação a um contexto medíocre para manutenção desse mesmo contexto é o oposto da superioridade; estando mais próximo do oportunismo. José Sócrates nunca revelou qualquer capacidade para criar ou alterar o trágico rumo europeísta, igualitário e de endividamento que herdou dos anteriores governos da 3ª República. Chegou a primeiro ministro e limitou-se a levar o país e o actual regime para a sua consequência lógica: a bancarrota moral e financeira. Não criou, não mudou, não inovou e não repensou, limitou-se a aproveitar o espírito dos tempos para viver em facilitismo político. Desta forma, o Über nunca esteve ao alcance deste homem.

A Ideia da “União” Europeia: Kant vs Nietzsche

Por norma, os intelectuais contemporâneos do ocidente gostam da União Europeia e há razões fortes para isso. Com o insucesso do marxismo económico (que foi substituído pelo sucesso do freudo-marxismo) e com o antagonismo compulsivo ao nacionalismo que decorreu da infelicidade das 2 guerras mundiais, o liberalismo foi a ideologia vencedora e hegemónica do pós guerra. Este liberalismo, claro, coloca a tónica no valor da igualdade como valor essencial para suportar a liberdade individual, daí ser apelidado de liberalismo social ou igualitário, sendo o liberalismo clássico/libertário apenas uma voz minoritária e crítica do que devia ser o liberalismo (questão que não vou agora discutir). Assim, quem conhece os meandros universitários e intelectuais sabe que a maioria se revê no paradigma liberal (normalmente de carácter igualitário) e mesmo os simpatizantes do marxismo já se sentem confortáveis no liberalismo igualitário, visto que este absorve muitas das ideias radicais de Marx.

I. Kant

A União Europeia é um projecto feito neste espírito liberal individualista, onde os colectivos identitários que denominamos de nações devem ser diluídos em troca de uma “pacífica” colecção de indivíduos sob o mesmo Estado federal. Esta é uma visão influenciada pela moralidade universal Kantiana, ou seja, pelo imperativo categórico de que devemos tratar igualmente todos os indivíduos (independentemente da origem) como se quiséssemos que tal tratamento se tornasse uma norma universal. A paz eterna de Kant baseia-se nesta moralidade, que é a base filosófica do pacifismo da União Europeia. Por outras palavras, só acabando com o particularismo filosófico (i.e. o “nós” vs “eles” identitário) será possível atingir o almejado modelo Eurocrata. Ao optar pelo universalismo, a União Europeia almeja ser, como diria Hans-Hermann Hoppe, apenas um passo para um futuro governo mundial. Assim, esta União Europeia não é “de facto” Europeia porque não tenciona representar Europeus; tenciona sim representar os valores da universalidade Kantiana, a humanidade, o liberalismo e os direitos do Homem promovidos pela revolução francesa.

Dado o hegemónico clima intelectual igualitário, individualista e universalista da actualidade ocidental, não é difícil de perceber o porquê de existir tanta simpatia pela União Europeia entre intelectuais; ao ponto de alguns chegarem a trocar o antigo “socialismo ou morte” pelo novo “federalismo europeu ou morte”.

F. Nietzsche

Porém, se este modelo de União Europeia tem por base a moralidade Kantiana,  há entre os colossos da filosofia ocidental outras ideias de “União” Europeia que seriam anátema para os actuais euro-federalistas. Estou a referir-me ao Pan-europeísmo de Nietzsche.

Apesar de o seu nome ter sido usado com esse fim, Nietzsche era contra o nacionalismo de pequena escala e escreveu ostensivamente contra o nacionalismo alemão. Ele considerava que os nacionalismos intra-europeus destruíam a vitalidade europeia e como tal defendia o pan-europeísmo. Era assim um europeísta convicto, um patriota europeu, um “civilizacionista” ocidental que defendeu intransigentemente o conceito de “bom europeu”.

No entanto, o que separa a UE de Nietzsche da actual UE Kantiana é a moralidade subjacente. Toda a filosofia Nietzscheana está baseada na desigualdade natural entre os homens; e “afirmar a vida” significa abraçar essa desigualdade através uma moralidade positiva e aceitar o desafio da superação humana.  Isto, claro, implica a rejeição absoluta de valores igualitários como os “direitos do Homem”, a democracia liberal, tal como as quotas niveladoras ou a redistribuição compulsiva, entre outros conceitos centrais para a actual UE. Para ele, todas estas expressões são apenas variações da mesma moralidade de escravo; onde os homens fisiologicamente e culturalmente com mais valor são puxados para a mediocridade pelas massas, provocando o declínio progressivo da civilização ocidental.

Segundo este pensador alemão, qualquer grande civilização ou império só se sustenta se o governo for de carácter aristocrático e resistir a tentações igualitárias como o liberalismo, socialismo ou a democracia; isto implica uma vontade de poder e autoridade por parte dos homens de valor (“aristos”), assim como o respeito pela tradição hierárquica geracional.

O próprio objectivo desta União Europeia teria de representar a “vontade de poder” do “Homem Europeu”, presente na apreciação que Nietzsche tinha de Napoleão quando escreveu que o líder francês era uma força de génio com capacidade de levar a Europa a uma união política e económica que poderia “dominar o mundo”.

Poucas dúvidas restam que entre estas 2 visões de União Europeia foi a Kantiana que venceu. Porém, ao abraçar o universalismo como credo político, o actual projecto federalista desafiou a identidade europeia e o seu particularismo; por outras palavras, desafiou a ideia tradicionalista de sangue e civilização. Com isto, conseguiu diminuir a força e o potencial de acção colectiva interno das nações europeias. Contudo, se o filósofo Roger Scruton estiver correcto (como eu penso que está) quando escreve que todas as sociedades políticas dependem do sentimento de pertença, a actual UE de carácter universalista e individualista é um projecto falhado à partida.

No século XIX, Nietzsche previu que antes de a Europa estar verdadeiramente unida, iríamos passar por uma fase intensa de guerras, democratização, igualitarismo e crise moral, o que de facto se passou e se está a passar. Ironicamente, com ou sem intenção, esta União Europeia Kantiana arrisca-se a unir os europeus, que nunca estariam tão próximos como começam a estar perante este “ataque” às suas tradições e identidades; em última instância, poderão inclusive chegar ao ponto (impensável em condições normais) de se identificarem como Europeus contra este inimigo comum. Se tal acontecer, o actual universalismo Kantiano será provavelmente substituído por um europeísmo mais Nietzscheano e veremos uma “vontade de poder” assumida.

Nessa altura, as ideias hegemónicas serão outras… e os intelectuais médios também.

Sobre as Contas Politicamente Incorrectas de Ricardo Arroja

Quando, em plena capital londrina, o Ricardo me falou das ideias que ele tinha veiculado no seu novo livro “As Contas Politicamente Incorrectas da Economia Portuguesa”, percebi que a sua abordagem económica era distinta. Agora que o li, não tenho dúvidas: este é um livro muito recomendável, mesmo aos que acham que já conhecem bem a situação económica portuguesa.

Claro que um céptico dirá que eu teria necessariamente de dizer bem deste livro, visto ser amigo do autor. Por certo, uma acusação justa. Porém, neste caso, a minha impressão não seria diferente se não o conhecesse. Deixem-me apresentar as razões.

Há pelo menos 2 fortes razões veiculadas neste livro que justificam o seu título e a sua relevância, pois estas chocam frontalmente contra o que os donos da 3ª República veiculam há quase 40 anos em defesa do seu regime. A primeira razão apresentada é que a economia portuguesa do período do Estado novo era comparativamente superior à do actual período democrático. A segunda razão é que a União Europeia e o mercado único foram, nas palavras do Ricardo “uma prenda envenenada” para Portugal. Ambas estas ideias são anátemas para o actual regime. Durante décadas, os portugueses foram “educados” na ideia de que tudo é melhor em democracia e de que a União Europeia é o presente e o futuro que nos levará ao nirvana da prosperidade e modernidade.

Para consubstanciar estas ideias, o Ricardo oferece inúmeros dados “politicamente incorrectos”. Vejamos alguns em relação ao Estado Novo vs Democracia:

“No índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas, que mede a qualidade de vida dos países em 2011, figurávamos no 41.º lugar. Em 1975, um ano depois de Abril de 1974, estávamos em 24.º” (p. 30).

Politicamente incorrecto? Sim; mas apenas para quem não tem tomado atenção aos números da economia portuguesa. Continuemos:

“ O Estado Novo foi um período de enorme convergência para os padrões de vida de uma Europa mais rica, tendo o PIB per capita português passado de 30% da Europa rica em 1930 para mais de 50% imediatamente antes do 25 de Abril. Desde então, no espaço de outros 40 anos, a convergência não foi além de 10 pontos percentuais, de 50% para 60% do norte da Europa. E desde 2000 tem sido até uma história de divergência económica, ao ponto de hoje estarmos pouco melhor que em 1974” (p. 150).

Este período de divergência com a Europa coincide, claro está, com a entrada de Portugal no euro; e sobre a União europeia em geral o Ricardo tem muito a dizer, principalmente sobre a forma como o mercado único e as políticas de Bruxelas foram determinantes na destruição do nosso tecido produtivo, quer no sector da industria, como nos sectores das pescas e agricultura. Como resultado, diz-nos o Ricardo:

“O défice na balança de bens é esclarecedor: entre 1996 e 2008, ano em que se atingiu um défice recorde de  (…) cerca de 14% do PIB, a diferença entre importações e exportações aumentou 200%” (p. 35).

A destruição produtiva destes campos é tão pronunciada que, no sector das pescas, Portugal importa agora 60% do seu pescado, sendo um país com o mar à sua frente. Parece que até a República Checa, sem tradição piscatória, consegue produzir 3 vezes mais que nós. Com as limitações de produção impostas por Bruxelas, os resultados na agricultura são semelhantes.

Já os efeitos da aventura “Europeísta” na indústria portuguesa foi igual: A indústria emprega hoje menos de 15% da população activa quando em 1970 representava mais de 30%. Ademais, na década do euro, a desindustrialização acentuou-se, tendo o emprego na indústria diminuido ao ritmo de 2.7% ao ano (p. 49).

Resumindo, Portugal tem hoje um sector produtivo debilitado que não consegue servir as ambições dos portugueses. Para compensar esta falta de produção, Portugal endividou-se tanto ao nível privado como ao nível público, respondendo aos incentivos perversos do crédito barato e fundos europeus com que a União Europeia seduziu o país. Assim, terminámos endividados e governados pelo exterior.

Juntamente com o período de Marques de Pombal, o Estado novo foi dos períodos onde as contas nacionais estiveram em ordem e a economia teve boas prestações. Períodos não-democráticos com certeza. O que nos leva a considerar que as pressões democráticas das massas contribuíram consideravelmente para o actual descalabro. Porém, o Ricardo não advoga o fim das liberdades políticas, apesar de não desenvolver soluções políticas para este problema.

Já no campo económico, há soluções apresentadas. O Ricardo considera que Portugal tem de reaver os seus instrumentos de soberania para poder defender a economia nacional (tal como aconteceu nos períodos áureos supracitados). Nomeadamente, que são precisas medidas de protecção de determinados sectores nacionais em competição no comércio internacional, visto que este último tem-se mostrado destruidor da nossa actividade produtiva. No campo monetário, advoga que é necessária uma desvalorização a curto prazo para restabelecer o investimento nacional e relançar a economia, apesar de, a longo prazo, uma moeda forte ser um objectivo primordial.

Isto, podemos dizer, implica em larga medida a saída do euro e do mercado único, ou pelo menos implica a renegociação de medidas que tragam de volta determinados instrumentos de soberania.

Independentemente do que se possa pensar em relação às propostas apresentadas neste livro, há uma viragem importante em relação ao pensamento universalista e globalista que a esmagadora maioria das análises económicas das últimas décadas nos trouxeram. O foco de preferência altruísta do Ricardo não é o mundo, ou a Europa, mas sim os portugueses. O objectivo não é que todos fiquem melhor, mas que os portugueses fiquem melhor. Tal como o filósofo Michael Sandel argumenta, nós como indivíduos com identidade temos legitimidade moral de dar  preferência à nossa comunidade, aos que nos estão directamente relacionados.

Este livro aponta para a tradição como o melhor indicador das soluções para os problemas actuais. A tradição de sucesso portuguesa, é-nos dito, passa por uma abertura gradual ao comércio internacional, mas sempre com as protecções necessárias que garantem a coesão e sustentabilidade produtiva nacional.

Os teóricos económicos irão discordar ou concordar com tais soluções, mas o que este livro nos relembra é que a política faz-se de escolhas e prioridades; ou seja, depois da febre internacionalista do pós-guerra, está na hora de voltar a moralidade política para a nação.

Em direcção ao oriente

A ideia é sobejamente conhecida e desenvolvida por inúmeros teóricos políticos: o ocidente está em decadência e a civilização de referência irá passar a estar na Ásia. Mais especificamente, este farol civilizacional será produzido pelos asiáticos de leste (i.e. chineses, coreanos, japoneses).

Sobre a decadência do ocidente, já conhecemos as razões tradicionalmente apresentadas. Apaixonado pela igualdade e pelo individualismo universal, o homem ocidental continua a fabricar o seu próprio inferno de Dante. Sem conseguir enfrentar as causas do declínio, o ocidente vai-se debatendo com a insustentabilidade dos seus modelos de providência social, com o relativamente baixo crescimento económico, com a incapacidade de se perpetuar em termos populacionais (i.e. de existir no futuro), com o falhanço do multiculturalismo, com projectos burocráticos europeus desastrosos (i.e. União Europeia), com os EUA a darem os primeiros sinais de desagregação civilizacional, etc… Em suma, o ocidente parece ter ficado preso no seu niilismo igualitário, pelo menos desde que a revolução francesa “implantou” o liberalismo contra a tradição e ordem.

Porém, que razões temos nós para pensar que a civilização de referência do futuro será a asiática?

A resposta tradicional é a do espírito dos tempos, isto é, materialista e de carácter económico. Os tigres asiáticos (Hong Kong, Singapura, Taiwan, Coreia do Sul) há muito que deslumbram os economistas com os seus índices de crescimento económico explosivos e prosperidade inigualável. O Japão, apesar dos altos e baixos, continua a ser uma referência mundial e a China, com os problemas inerentes a um país com dimensões continentais, vai-se revelando uma potência económica muito distinta dos demais BRICS. Sem surpresa, inúmeros prognósticos económicos prevêem que a economia chinesa irá ultrapassar todas a outras no mundo dentro de algumas décadas.

Outra análise importante é aquela que vem do campo das ciências comportamentais. Há muito que os estudos cognitivos revelam consistentemente que as populações dos asiáticos de leste são as que apresentam o QI médio mais elevado no globo; apresentando em média mais 5 pontos de QI do que as populações nativas europeias e sendo ultrapassados apenas por esse grupo minoritário que são os judeus Ashkenazi (que são o grupo étnico com resultados mais elevados ao nível do QI).

Mesmo quem nunca perdeu tempo a analisar estes resultados no campo das ciências cognitivas já desconfiava que algo de semelhante se estivesse a passar; afinal de contas, basta passear pelos departamentos académicos das universidades de topo no mundo ocidental nos campos das ciências naturais, engenharias, etc… para perceber que os asiáticos de leste compõem uma percentagem desproporcionalmente grande dessas comunidades académicas. Isto é particularmente evidente nos EUA, Canadá, Austrália ou no Reino Unido. Eu próprio já tive a oportunidade de o confirmar pessoalmente em Cambridge, no Imperial College London e noutras universidades britânicas.

Assim, perante a evidência de que o QI está fortemente correlacionado com prosperidade económica (com a excepção de casos como a Coreia do Norte onde o regime político não permite a criação de riqueza), está montado o cenário para a aceitação do futuro domínio civilizacional da Ásia oriental.

Contudo, uma das críticas mais prementes a esta ideia de que a tocha da civilização irá passar do ocidente para a Ásia é a de que, apesar do seu índice médio de inteligência ser ligeiramente mais elevado do que nas populações ocidentais, os asiáticos parecem ser menos criativos e menos inovadores (condição relevante para a expansão civilizacional e material). Afinal de contas, nos últimos séculos, foi o ocidente que gerou praticamente todas as inovações relevantes e os asiáticos simplesmente foram eficientes da sua produção e reprodução. A explicação tradicional do porquê de tal fenómeno prende-se com a cultura de obediência asiática (e não de irreverência) e com os sistemas políticos com base na autoridade. Tal, é nos dito, impede que os asiáticos atinjam o seu potencial criativo. No entanto, esta resposta é apenas a explicação de parte do enigma. Os geneticistas Harpending e Cochran sugerem que a possível resposta para este fenómeno está no facto de um determinado gene associado à impulsividade estar praticamente ausente nas populações orientais. Isto, tal como nos é sugerido, é o resultado da selecção natural evolutiva num ambiente onde as normas sociais são implacáveis na punição de transgressores da autoridade. Um país enorme como a China não se sustentaria durante séculos sem o enorme grau de homogeneidade que possui e principalmente sem esta tendência natural para a aceitação de autoridade.

De qualquer forma, a ideia de que os orientais não são inovadores não é totalmente corroborada pela história. Não só inúmeras inovações vieram do oriente no passado, como o próprio Adam Smith escreveu que o mercado na China era na altura muito mais evoluído e eficiente do que na Europa.

Mas mais importante do que todas estas análises é o impacto cultural que um domínio oriental teria no mundo. Com base na cultura social e política oriental, é fácil de inferir que o seu modelo do futuro assenta em 3 bases: 1) Autoridade/tradição, 2) Economia de mercado 3) Etnocentrismo.

O filósofo marxista Slavoj Zizek já identificou o sucesso deste modelo de uma forma bem mais sagaz do que a generalidade dos analistas capitalistas ocidentais. Para ele, a actual crise económica que se vive no ocidente, que leva tantos a culparem o mercado pelo que se passa, não irá significar o fim do mercado. O mercado gera demasiada riqueza para ser abandonado. Irá significar sim o fim da democracia liberal e dos valores liberais de igualdade e liberdade individual que a sustentam.

Zizek não deixa de ter razão, na prática, a democracia liberal faz-se contra o mercado e não a favor deste. Por outras palavras, em vez de serem 2 faces da mesma moeda como muitos liberais julgaram (haaa Fukuyama!), são processos antitéticos que criam forças em sentidos contrários.  A democracia liberal, ao tentar satisfazer os valores centrais do liberalismo que domina o ocidente, acaba por afectar a exequibilidade do liberalismo clássico de moralidade proprietária; de igual forma, as pressões igualitárias das massas, juntamente com as pseudo-elites eleitas à sua semelhança, transforma o liberalismo clássico no liberalismo social Ralwsiano dominante. Este último é já uma forma autoritária e estatizante do liberalismo em agonia, ao ponto de, para manter a liberdade e igualdade do “Homem”, precisar de restringir a liberdade de expressão com “hate speech laws” ou redistribuir mais de 50% do PIB dos países.

Por outro lado, no Oriente, o liberalismo é rejeitado. Nem o maoísmo conseguiu quebrar a lógica do etnocentrismo, respeito pela tradição, identidade e autoridade. São estes os famosos “valores asiáticos” que representam cerca de 1/3 da população mundial e que no caso chinês representam uma união política e identitária sem paralelo.

Como escreveu Roger Scruton, é impossível pensar em “nós” sem nos separarmos do “eles”. Se se verificar  o domínio oriental no globo, isto significará a ascensão do poder desta moralidade tradicional no mundo e o fim do liberalismo como referência mundialista que hoje em dia é imposta pelos EUA. O fundador de Singapura e famoso líder Lee Kuan Yew foi muito claro sobre o futuro do oriente quando proferiu: “os asiáticos não têm dúvidas  de que uma sociedade comunitária onde os interesses da comunidade precedem o interesse do indivíduo serve-os melhor do que o individualismo da América”.

Concluindo, a economia de mercado não está em perigo, mas o mesmo não se pode dizer do liberalismo e dos seus valores. Estes irão ter uma forte competição de valores muito distintos vindos do oriente. Contudo, a curto prazo, o ocidente ficará preso nos conflitos que preparou para si mesmo e nas utopias que teima em não largar … isto, claro, até que o céu lhe caia em cima.

Visionamento recomendado: “Understanding the rise of China”

Obama: “A Mudança Em Que Podemos Acreditar”

O melhor que pode acontecer hoje é a vitória de Barack Obama. Não que vá fazer uma diferença substancial em termos de políticas internas ou externas, mas porque em política o simbolismo é de enorme importância. Considero que os EUA estão em progressivo declínio, isto é, estão a entrar no “verão indiano” da sua existência como projecto e ideal social. Os americanos, um produto de europeus que se juntaram e formaram um ideal noutra terra foi sustentado devido às suas características intrínsecas como povo com um desígnio de construção. Esse desígnio teve tanto sucesso que os levou a pensar que eram os valores e não as pessoas específicas que criaram esse mesmo sucesso. Assim, tornaram-se o polícia militar e ideológico do mundo, e ao mesmo tempo declararam-se universalistas internamente. Disseram que a América não era mais um projecto de um determinado povo (europeu), era sim um projecto universal, para todos, individualista e sem barreiras. Os efeitos fizeram-se sentir na demografia: nos anos 60 os euro-americanos eram mais de 90 porcento da população; agora são apenas 60 e pouco % da população e estima-se que serão uma minoria populacional em breve. OS EUA estão mais divididos e segregados que nunca e os milagres dos valores americanos que fizeram o sucesso americano já não conseguem colar estas novas pessoas com afiliações tão díspares. Esta lógica, diz-nos a história, irá terminar com a fragmentação etno-cultural da America em regiões, e com isto virá o fim da ideia de “América excepcional” que todos nós conhecemos.

Como europeu que observa um projecto falhado e irrecuperável, considero que esta fragmentação deve vir preferencialmente antes do que depois. O simbolismo de um não-europeu no poder poderá ser a melhor forma de acelerar o processo.

O Adeus ao Liberalismo?

Nas últimas semanas, dois eventos profundamente relacionados ocorreram no continente europeu: A União Europeia ganhou o prémio Nobel da paz e um grupo de jovens franceses lançou uma declaração de guerra ao actual sistema político que se difundiu pela internet e chegou a todo o mundo.

Para mostrar o quão “inclusiva” e “tolerante” é, a comissão europeia tem em exposição uma campanha promocional. O lema é “Europe for All” (Europa para todos). Esta consiste de um poster onde se pode ver todas as religiões do mundo juntas numa grande estrela, assim como todas as ideologias. Bem, todas as ideologias não; apesar de a UE ser constantemente acusada de ser uma nova URSS em potência, o Marxismo não envergonha a eurocracia; muito pelo contrário, o comunismo até teve lugar de destaque ficando no topo da estrela; contudo, nenhum símbolo nacionalista/independentista teve direito a constar no poster (muito menos o do famigerado alemão dos anos 30/40).  É fácil de perceber porquê, o slogan “Europa para todos” é a antítese dos slogans nacionalistas que seleccionam como alvo do seu altruísmo um povo específico. “Portugal para os portugueses”, ou “País Basco para os bascos” ou, neste caso, “Europa para os europeus”, seria um clássico slogan nacionalista.

Porém, como eu escrevi há algum tempo, a União Europeia está empenhada em centralizar o poder através do enfraquecimento das nações, promovendo a inclusão dos povos do mundo inteiro na Europa de forma a quebrar as afiliações identitárias das nações. Desta forma, o que a UE quer veicular com este poster é simples: a Europa não é para europeus, não é para indivíduos com identidades tradicionalmente europeias; é sim um território para todos, sem identidade ancestral, atomizada e burocratizada. Por outras palavras, a Europa deixa de ser uma civilização e uma colecção de nações para passar a ser um sítio para onde simplesmente se vai.

O facto de a União Europeia aceitar o comunismo como legítimo mas rejeitar o nacionalismo advém da ideologia liberal universalista que persegue. O nacionalismo não é universalista, pois vê o seu povo como uma família e, como tal, prioritário em relação aos demais. Na sua essência, o comunismo é internacionalista (“trabalhadores do mundo unam-se” disse Marx) e desta forma encaixa na mundividência eurocrata. Ademais, assim como o comunismo, a União Europeia também considera que é preciso partir alguns “ovos” para atingir o seu ideal universal.

Devia ser óbvio para qualquer um: desde o pós guerra que a única ideologia vigente nas elites políticas ocidentais (liberais e progressivas) é o anti-tradicionalismo/nacionalismo. “Extrema”, “radical” são apenas alguns dos epítetos com que as posições mais tradicionalistas são brindadas pelo establishment. É isso que os une. Mais até, precisam desse fantasma para se legitimarem. E mais uma vez este poster mostra-o, excluindo-o das posições “aceitáveis”. Quem não ama a humanidade como todo mas sim os seus em particular não merece crédito político e talvez nem mereça andar por cá, parecem sugerir.

Este universalismo, claro, é a conclusão lógica da vitória do liberalismo saído da revolução francesa, onde a igualdade e a liberdade tornaram-se sinónimo de universalidade e da família do “Homem”. Os grupos tornaram-se “construções sociais” e o individualismo universal tornou-se soberano; é esta a lógica liberal subjacente, reforçada pelo construtivismo e pela revolução cultural gramsciana.

Contudo, na mesma altura em que a União Europeia ganha o Nobel da paz, um grupo de jovens franceses declara guerra contra a filosofia universalista da União Europeia e, especificamente, das elites francesas. O vídeo em si (que vale a pena ver antes de continuar a ler o resto deste texto) contém os preceitos filosóficos que almejam: a defesa da autoridade, da hierarquia, da tradição, do saber clássico, da ancestralidade genealógica, da tribo, do território, da nação, etc… revelando que não acreditam já no preceito liberal de que a humanidade é a nossa família e de que o mundo é a nossa vila.

Mais do que lançarem uma guerra às elites, esta “geração identitária” declarou guerra ao liberalismo, ou seja, declarou guerra ao paradigma liberal que vingou depois da revolução francesa. No fundo, declararam guerra à França e à influência que a França teve sobre o resto do mundo ocidental. Estão em guerra com os erros do passado.

Isto não devia surpreender ninguém. Quer vejamos a questão por uma perspectiva histórica de conflitos identitários no mundo, ou quer vejamos a questão por uma perspectiva evolutiva (inclusive fitness, selecção de grupo, etc…), conhecemos a tendência para os humanos formarem grupos identitários de forma a defenderem os seus.

A utopia liberal do individualismo soberano sempre foi precisamente isso… uma utopia. E os seus efeitos estão-se a fazer sentir cada vez mais à medida que, um pouco por todo o mundo ocidental, a insatisfação, a instabilidade a divisão social aumentam. Parafraseando Roger Scruton, toda a gente possui um sentimento de pertença, de querer pertencer; de sacrificar o eu pelo grupo.

Certamente que o liberalismo sofreu metamorfoses nos seus valores durante o tempo, passando de um liberalismo mais clássico onde a igualdade era formal e a liberdade era negativa (livre de constrangimentos de outros) para o liberalismo social que hoje domina e que é baseado na igualdade de resultados e na liberdade positiva (livre para atingir tudo o que se quer porque se tem meios para tal).

É ainda importante lembrar que o liberalismo começou como uma filosofia interna, destinado ao Homem europeu, como forma de garantir liberdades sociais internas (o próprio John Stuart Mill escreveu que outros povos teriam de ser tratados de formas distintas), mas rapidamente evoluiu para a sua conclusão lógica, isto é, para o individualismo universal.

É igualmente relevante apontar que o dito liberalismo económico não significa o abraçar dos valores liberais, tal como muitos países asiáticos mostram. Países como a Coreia do Sul, Japão, China, entre outros abraçaram economias de mercado mantendo visões tradicionalistas e preservacionistas de si mesmos.

Por fim, os tempos de crise em que vivemos e os 2 eventos mencionados neste texto apontam para uma crise do liberalismo universalista. Isto não tem de ser fatal, durante os últimos 200 anos o liberalismo passou por muitas crises e ainda está em vigor, estando até cada vez mais radical nos seus fundamentos. Sem surpresa, este precisa de se radicalizar para sobreviver (como mostra o poster da União Europeia). Mas pode também ser o canto do cisne e este poderá ser o princípio do paradigma pós-liberal.

Localismo, Tradição e Democracia

Este é um texto que tinha prometido ao Ricardo (Arroja) e que visa analisar os efeitos do localismo por comparação ao conceito democrático. O Ricardo escreveu há pouco tempo um artigo onde analisa a história económica portuguesa recente e chegou à conclusão que existiram períodos onde Portugal conseguiu ter as contas em dia; desses períodos, destaca Salazar e Marquês de Pombal. Em comum, escreveu o Ricardo, está o facto de ambos terem centralizado a “vida financeira do Estado”.  O seu pai, o Pedro Arroja, complementou o texto do Ricardo escrevendo que é necessário ter em consideração as tradições dos povos para se perceber o que funciona ou não; e no caso português, o que funcionou foi a centralização.

Neste ponto da importância da tradição eu concordo com o Pedro Arroja, que aliás, considero um dos escritores mais interessantes da blogosfera (e que tal como eu foi dos primeiros a advogar a saída de Portugal do euro). De facto, sem se perceber as tradições das comunidades não é possível encontrar soluções eficientes para a organização política.

O Ricardo tem objectivamente razão nos dados que apresenta. Mas isto leva a questões mais profundas. Neste caso específico, foi a centralização financeira que deu resultado no passado ou foi a centralização financeira juntamente com a ausência de democracia? Será que ter centralização financeira juntamente com democracia gerará bons resultados? O Ricardo escreveu que perdeu a fé na democracia representativa. Sei igualmente que o Ricardo já apresentou várias vezes a democracia directa como uma hipotética forma de resolver vários dos problemas que a actual democracia liberal representativa portuguesa apresenta.

Perante este cenário o que seria lógico seria talvez advogar a centralização financeira do país ao mesmo tempo que se advogava mais democracia directa e alguma descentralização administrativa. Neste cenário entra a questão da tradição. Se, como foi alegado, Portugal não tem tradição de localismo (que implica descentralização fiscal) também é verdade que não tem tradição de democracia directa. Um crítico desta solução facilmente apontaria para a Califórnia falida onde há elementos de democracia directa num Estado unitário mas onde as pessoas votam “irracionalmente” a favor de um maior Estado providência e a favor de menos impostos. Decididamente, parece que a democracia directa não é um remédio para todos os males. Não é difícil de imaginar que algo semelhante fosse acontecer em Portugal.

Mas claro, há sempre o caso Suíço, onde a “democracia directa” parece funcionar, limitando o socialismo descontrolado e gerando prosperidade. Porém, a democracia directa gera os resultados conhecidos porque opera numa lógica de descentralização fiscal e governativa (localismo). Os cantões Suíços são largamente auto-financiados com a tributação a ser feita a 3 níveis: federal, cantonal e comunitário. O governo central (federal), por exemplo, só cobra cerca de 11.5% em impostos directos sobre o vencimento e boa parte dos impostos pertencem aos cantões e comunidades. A competição fiscal e governamental é real.

Assim, a explicação para este fenómeno parece evidente: quando as pessoas votam em comunidades pequenas elas estão em larga medida a votar sobre a sua propriedade e o seu estilo de vida, visto que o espaço para a redistribuição a larga escala fica severamente limitado. Quando se vota num grande bolo e em rendimentos de pessoas que nunca vimos, a tendência para aproveitar a situação de forma a obter dividendos via redistribuição aumenta consideravelmente. Havendo uma radical autonomia fiscal e administrativa, os suíços votam muitas vezes num sentido que mantém o país economicamente liberal.

Tal faz sentido de um ponto de vista dedutivo, mas mais uma vez a tradição tem um papel fundamental. Já desde os tempos em que a Suíça inspirava Rousseau que os suíços funcionavam numa base comunitária e com índices de cooperação elevados.

Porém, em relação ao caso nacional, há algo que me parece mais importante do que a tradição portuguesa de centralizar as finanças para obter bons resultados, que é o facto de Portugal ter a tradição quase karmica de terminar em entropia económica e política quando opta pela via democrática, como o exemplificam a primeira e a actual república. Seria a democracia directa uma solução?

O que me parece importante de salientar é que não há modelos universais que sirvam a todos os povos, o que provavelmente implica que a democracia (independentemente do tipo de democracia) não é um sistema viável para todas as populações do mundo. Cada povo tem o seu temperamento, capacidades e tendências médias que geram tradições e normas sociais que não podem ser ignoradas na altura de se escolher um sistema político. Perante esta desigualdade natural humana, na realidade, há tradições e normas sociais (de moralidade) que não são compatíveis com a democracia (e.g. autoridade natural colocada permanentemente num representante grupal/tribal).

Até a própria democracia representativa liberal, que eu considero um mau sistema de governação, revela resultados diferentes mediante os povos em causa. Apesar de revelar em média uma tendência para o socialismo de mercado, as democracias representativas liberais mostram-se financeiramente insustentáveis em países como os EUA ou Portugal, mas relativamente sustentáveis em países escandinavos. Os povos e a sua natureza fazem a diferença até quando lhes é aplicado um sistema político de baixa qualidade.

Portugal é um país de matriz europeia, como tal, não me parece absurdo alegar que transpor o sistema político suíço para Portugal teria efeitos positivos, principalmente em relação ao actual sistema. Contudo, se não existe esta tradição, pode ser uma tentativa infrutífera. Mas mais importante é perceber que democracia directa acoplada a uma centralização financeira não faria sentido nem do ponto de vista da tradição nacional (que não lidou com democracia directa) nem do ponto de vista da dedução (votar sobre a propriedade de outros a uma larga escala terminará possivelmente como a Califórnia).

Seguir a lógica da tradição identificada pelo Ricardo implicaria possivelmente centralizar as finanças e limitar a democracia. Implicaria optar por exemplo por uma democracia aristotélica onde o governo seria uma mistura de elitismo aristocrático com diálogo democrático com o resto do país através dos seus representantes.

Como é sabido, no actual espírito dos tempos isto é quase impensável de propor porque o significado de democracia foi alterado desde a Grécia antiga até hoje. A democracia deixou de ser um sistema de governo apenas para ser um sistema de valores do Liberalismo: igualdade individual (1 pessoa 1 voto/universalidade) e liberdade (de participação política independente da condição). A evidente existência de desigualdade de virtude é assim moralmente condenada.

Como tal, independentemente do sistema que instrumentalmente  se possa escolher, torna-se importante perceber com que tipo de valores queremos lidar e se os valores que se espalharam no pós revolução francesa são os melhores. Porque dentro destes valores, os sistemas políticos terão resultados semelhantes. Talvez, mas apenas talvez, Portugal nunca conseguiu adaptar as suas normas sociais aos valores do Liberalismo. Se assim for, é altura de iniciar um processo Nietzscheano de transmutação de valores que se adeqúem à tradição portuguesa…

Portugal em Revisão no Daily Telegraph

Patience Snaps in Portugal: by Ambrose Evans-Pritchard

“Portugal cannot recover under the policies in place. The government is asphyxiating the Portuguese economy for no useful purpose. It is pain without gain.
While mass default within European Monetary Union is theoretically possible, the country would do better to leave monetary union and restore global competitiveness at a stroke. There is nothing to be gained from dragging out the agony. (…)

Professor Milton Friedman warned against the destructive effects of European Monetary Union from the beginning. He would be horrified by the collapse of the money supply across Southern Europe and Ireland. It was after all Friedman’s theories on the monetary causes of the Great Depression that made him famous.
His advice to Portugal would be immediate withdrawal from the Maquina Infernal of European Monetary Union, and the immediate retrieval of Portugal’s sovereign policy instruments. (…)

Sadly, there seems to be almost nobody in public life in Portugal willing to tell the people that membership of the euro is the elemental cause of their current suffering. They need a Friedmanite in tooth and claw to consummate their revolution.”

Da dissidência…

À medida que a situação em Portugal se vai agravando, mais as emoções tomam controlo em detrimento da lógica. Quem segue as opiniões em blogues, facebook  e imprensa, já percebeu que há genericamente 2 facções:

1)   A facção anti-austeridade/anti-troika/pró-default que é normalmente tomada por pessoas com pendor ideológico de esquerda, geralmente desinformadas em relação à situação política e que se querem livrar da austeridade pela via milagreira.

2)   A facção pró-manifesto da troika, a favor do pagamento integral da dívida pública e a favor de um corte radical na despesa do Estado para que ganhemos a confiança dos investidores e possamos “regressar” aos mercados (de endividamento). Esta posição é vista como de direita.

Agora que os protestos e manifestações anti-troika estão a aumentar e irão continuar a aumentar, a tendência é para a facção pró-troika não só reforçar a sua defesa como também para aceitar acriticamente a sua própria posição apenas por oposição. Conhecendo a tendência humana tribal, isto não é surpreendente. O que me parece claro é que ambos os lados têm fragilidades argumentativas notórias.

A posição anti-troika é acusada de ser irresponsável e incoerente. Ou seja, querer que o Estado continue a gastar até ao infinito verbas que não tem e que já não consegue pedir emprestado é claramente surreal. Ademais, o facto de os mesmos que têm esta posição terem passado as últimas décadas a pedir mais despesa pública (e consequentemente mais endividamento) faz com que, agora que querem repudiar a dívida contraída, pareçam simples caloteiros irresponsáveis. Em suma, parece que ainda não saíram da infância cognitiva.

Porém, os que defendem a troika como forma de reduzir a despesa têm igualmente telhados de vidros. Alegam que a troika é necessária porque caso contrário o Estado entraria em bancarrota e deixaria de ter dinheiro para pagar os seus deveres. Isto, claro, não é verdade, ou pelo menos não é a verdade completa. O que aconteceria é que o Estado, não tendo já possibilidades de se endividar, repudiaria a dívida ou grande parte dela e para tal teria de sair do euro, desvalorizando a moeda como forma de pagar os seus encargos remanescentes.  Não me parece que quem quer reduzir a despesa deva estar preocupado com esta solução, principalmente quando boa parte da despesa do Estado se prende com pagamentos de juros da dívida pública e a sua amortização.

Parece-me assim que a preocupação prende-se com a desvalorização da moeda. Contudo, pelo menos de um ponto de vista ético, não há uma grande diferença entre a desvalorização do escudo ou a actual desvalorização do euro pelo Banco Central Europeu. Sendo a principal diferença que quando o euro desvaloriza o custo recai sobre todos os países da zona euro (principalmente sobre os países responsáveis que não precisam de inflação) e no caso do escudo os custos seriam internalizados pela nação portuguesa. Por outras palavras, quem prefere a inevitável desvalorização do euro à do escudo o que está a defender é que os outros devem pagar as nossas contas ad aeternum. Esta realidade deveria afastar todos os que prezam valores como a responsabilidade, independência e autonomia.

Os que defendem a troika embarcaram nesta ilusão colectiva que perde o seu tempo a discutir se vamos ter um défice anual de 5.5% ou de 6.5%. Isto claro, ignora que mesmo que fossem aprovados limites ao défice, dificilmente iríamos ter superavits. Nunca tivemos um único superavit desde o 25 de Abril; como tal, o que é que faz os defensores da troika pensar que se no melhor dos cenários voltarmos aos mercados de endividamento (apenas porque o BCE compra a nossa dívida com dinheiro europeu), começamos a ter superavits para reduzir uma dívida pública que já ronda os 110% do PIB? Isto é tão provável como amanhã eu ganhar a lotaria; principalmente depois da década perdida do euro, onde Portugal apenas conseguiu um crescimento económico anémico e onde a generalidade da riqueza que atingiu deveu-se ao endividamento. Mesmo este governo que é obrigado a cortar na despesa, não sabe como nem onde cortar, preferindo a asfixia fiscal; e enquanto houver dinheiro da troika, continuará a não saber.

Outra dissonância argumentativa que se encontra nos defensores da troika e do pagamento integral da dívida é que muitos deles dizem-se eurocépticos ou contra a centralização europeia. Porém, ao defenderem a permanência no euro (que é um instrumento de centralização política), ao defenderem a entrega dos comandos do país ao supranacionalismo por um período que pode, em teoria, demorar décadas infindáveis, estão a aprovar de forma latente essa mesma centralização e formação do super Estado europeu. Assim, consciente ou não, a defesa do euro e da troika é uma forma encapotada de apoio à centralização de Bruxelas. Ao menos os euro-entusiastas assumidos como Paulo Rangel são coerentes quando defendem a troika.

Ademais, apesar dos comprovados maus resultados, alegar que podemos continuar no euro e que basta sacudirmos o socialismo do país para sermos tão produtivos como outros países europeus é um perfeito desconhecimento do impacto das culturas nacionais na economia. Quem tem experiência de morar na Alemanha ou Inglaterra sabe que Portugal não é mais socialista que o país médio europeu (cujos Estados gastam todos certa de 50% do PIB). Alguém acredita que se Portugal tivesse um governo composto por alemães tornar-se-ia tão produtivo como a Alemanha? Claro que não; mas isso não é necessariamente mau, porque as culturas, identidades e nações não se medem pelo número do PIB anual. O valor de algo não começa nem acaba no materialismo; e o bem estar que sentimos numa cultura e num determinado estilo de vida colectivo não se mede simplesmente em números.

Qual é o valor da autonomia de uma nação? Por quanto é que se vende a entidades externas? “O valor está na cabeça dos indivíduos” dizem os economistas da escola austríaca; e é por isso que os argumentos que lemos regularmente contra o reaver da autonomia portuguesa (e.g. se sairmos do euro o PIB decresce por “insira o número do modelo XPTO” e desvalorizaria por “insira o número do modelo XPTO2”) não respondem nunca à questão: por quanto se vende a autonomia nacional?

Tal como inúmeros economistas internacionais e nacionais revelam, a saída do euro e consequente desvalorização dependerá do grau de repudiação de dívida e dos acordos conseguidos. Apesar de existirem sempre riscos políticos , não tem de ser qualquer catástrofe e é certamente melhor do que escravizar a população durante os próximos 20 anos para pagar uma dívida impagável ou esperar que os alemães e demais europeus paguem essa dívida em troca de nos tornarmos uma colónia desprovida de valor identitário intrínseco. Tal como defendi há algum tempo no meu texto “A Ética do Default”, não considero que exista qualquer ética nesta austeridade forçada da população perante a actual dívida pública.

Desta forma, a minha posição é de dissidência perante estas duas posições dominantes no debate político actual. Esta posição poderá ser definida tal como Daniel Hannan a definiu: “Default, decouple and devalue (renegociação de dívida, saída do euro e inevitável desvalorização).

Como a possibilidade do regresso ao padrão ouro é para já uma utopia política, Portugal precisa de uma moeda própria no mercado de câmbio capaz de representar a sua produção. Só assim, e não no euro desajustado, a nação poderá ultrapassar os actuais problemas respeitando a sua autonomia e cultura.

A saída da actual situação problemática envolve assim soluções que são defendidas à direita (redução da despesa) mas também algumas que são defendidas à esquerda (“default”). Ademais, o argumento de que basta desvalorizar o escudo para não fazer reformas não está correcto, pois havendo competição de câmbio monetário ninguém o pode fazer unilateralmente e sem quaisquer reformas sem destruir a sua economia. A diferença é que as reformas podem-se fazer sem choques sociais tremendos e acima de tudo podem-se fazer com crescimento económico (coisa que não existe na actual situação).

Não espero que amanhã aqueles que andam a defender a troika e o governo passem a defender a minha posição de dissidência, mas considero que a prazo esta posição se tornará inevitável e terá cada vez mais apoiantes. Até lá, pregarei com pouca, mas em boa companhia…

A União Europeia e o Fantasma da Guerra

Desde os seu primórdios ideológicos que a União Europeia teve como motivo principal acabar com a guerra. Fez-se com o espectro da guerra e diz viver para acabar com ela. Paradoxalmente, precisa deste mesmo espectro para sobreviver da mesma forma que Woody Allen parece precisar de Nova Iorque para fazer filmes memoráveis (ok, admito que o “Match Point” Londrino andou muito perto da excelência Nova Iorquina).

Tal como Robert Higgs mostrou no seu livro “Crisis and Leviathan”, o crescimento do poder do Estado e respectivas centralizações fazem-se sempre através da crise. Por outras palavras, o Estado não deixa uma boa crise passar sem se expandir e centralizar.  Se tal não acontecer, desperdiçou uma boa oportunidade para o fazer, pois o desespero costuma convencer as pessoas a aceitarem o que nunca aceitariam em condições normais. Para os que almejam os Estados Unidos da Europa, esta crise é mais uma oportunidade para atingir o federalismo europeu e retirar de vez o que resta das soberanias nacionais.

Assim, para se legitimarem, eurocratas e eurófilos agitam o fantasma da guerra. De Durão Barroso a Herman Van Rompuy, o grito é por demais conhecido: “se não acabarmos de vez com as independências nacionais vamos ter guerra entre nações”.

Na mais recente edição da universidade de verão do PSD, o euro-entusiasta Paulo Rangel lançou de novo o repto, dizendo que só o federalismo irá salvar a Europa da guerra. Contudo, como me parece que a universidade do PSD não tem grande reputação intelectual, talvez seja importante ir buscar alguns dados académicos para se perceber se a solução eurocrata para terminar com a guerra faz sentido ou não.

Os eurófilos alegam que a guerra termina se juntarmos todos os povos europeus sob o mesmo Estado e que, se estes últimos puderem independentemente usar as suas afiliações étnicas para defenderem os seus interesses, terminaremos todos em guerras entre Estados nação. Esta é uma ideia sedutora que em última instância nos levaria ao governo mundial para garantir a paz eterna kantiana; esse sonho universalista.

Contudo, os dados históricos mais recentes revelam exactamente o contrário. Citando do livro “Politics in a Changing World” dos cientistas políticos Marcus E. Ethridge e Howard Handelman (tradução minha):

“Se olharmos para os últimos 60 anos desde o fim da segunda Guerra mundial, as mais frequentes arenas para conflitos violentos não foram guerras entre Estados soberanos, mas sim lutas internas devido a razões tribais, culturais, religiosas, e outras razões de carácter étnico. De acordo com uma estimativa recente, “sensivelmente dois terços de todos os conflitos armados no mundo incluem componentes de antagonismo étnico”. De facto, os conflitos étnicos têm quatro vezes mais probabilidades de se efectivarem do que os conflitos entre Estados soberanos. Estimativas do número de mortos são sempre difíceis de fazer de forma absoluta, mas de acordo com o reputado estudo dos cientistas políticos David Laitin e James Fearon “desde o fim da segunda guerra mundial, 16.5 milhões de pessoas morreram em conflitos internos de carácter essencialmente étnico, comparados com 3.3 milhões em guerras entre Estados soberanos”. Outras estimativas de conflitos étnicos colocam os números de mortos nos 20 milhões ou mais”.

É fácil de perceber que a solução que os eurófilos defendem está refutada pela observação histórica; isto é, a criação de um Estado que abranja diferentes grupos étnicos não é garantia de paz; muito pelo contrário, os Estados soberanos que representam nações parecem ter um registo mais pacífico. Isto claro, não quer dizer que as guerras entre Estados nação (que por norma também representam um grupo etno-cultural) não possam ser destruidoras e atingir altos níveis de mortalidade, mas alegar que basta colocar todos os grupos dentro do mesmo Estado para evitar a guerra é, do ponto de vista histórico, uma perfeita demagogia sem qualquer sentido.

No meu mais recente texto para o jornal “Diário Económico” defendi que o projecto federal europeu tem mais potencial para criar guerra interna do que para evitar qualquer conflito bélico. E a eurocracia tem “trabalhado” intensamente no sentido de gerar antagonismos: a criação de um euro falhado, uma PAC que destrói boa parte da produção interna, a promoção de imigração em massa vinda de fora de Europa para enfraquecer as coesões etno-culturais das nações, redistribuição em cada vez maior escala que cria ressentimentos financeiros, etc…

As fronteiras não existem historicamente por acaso, elas existem porque foram estabelecidas (de forma mais ou menos justa) para evitar que diferentes grupos com afiliações diferentes entrem em contacto antagónico no mesmo território. A União Europeia, como projecto de engenharia social que é, rompe com o senso comum e com as tradições milenares cujos fundamentos tentam ser ignorados; ou seja, ignora que tal como os direitos de propriedade bem definidos, as boas fronteiras têm um maior potencial para gerar bons vizinhos do que as más fronteiras ou do que a ausência delas.

A Política do Inatismo

The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion” é o mais recente livro do psicólogo social e evolutivo Jonathan Haidt. A premissa do livro é simples: através de uma perspectiva evolutiva, Haidt mostra através de inúmeros dados que as nossas escolhas políticas (socialista, conservador, liberal) são influenciadas decisivamente por características biológicas inatas. Isto claro, não significa que é a nossa pré-disposição natural que define em absoluto as nossas escolhas ideológicas; significa sim que, num dado contexto, perante a exposição a determinadas ideologias/mundividências, a nossa escolha será instintivamente passional e apenas racionalizada à posteriori.

Os indivíduos sentem os fenómenos de forma diferente. Uma pessoa que sente uma insuportável dor ao ver imagens de fome noutras partes do mundo tem mais probabilidades de escolher uma ideologia igualitária do que alguém que aceita o facto como natural e prefere antes agir localmente nos problemas da sua vida, família ou comunidade.

Haidt identificou algumas das tendências psicológicas centrais nos chamados “progressistas de esquerda”: entre outras, a abertura à experiência (amor por coisas desconhecidas, subversão do tradicional) e a fixação no valor da igualdade (uma aversão à hierarquia a que chamam de justiça social). Já nos conservadores e tradicionalistas ele identificou que o espírito tribal era assumido, isto é, que existia uma clara assunção do conceito de “nós” vs “eles” (família, genealogia, comunidade, nação), que a hierarquia era aceite como natural, inevitável e benéfica, e que o respeito pela autoridade do grupo era valorizado.

Naturalmente, as tendências que a esquerda apresenta são inversamente proporcionais às de direita, e tal deriva da forma como as pessoas “sentem” o mundo.

Ademais, Haidt revelou que os liberais clássicos/libertários estão muito mais próximos da esquerda do que da direita em termos sociais. Em boa parte isto advém do facto de verem o indivíduo como soberano e não como parte de um grupo, tal como a direita vê.  Neste ponto as questões tornam-se confusas; então não é a esquerda que é suposto ser colectivista? Não necessariamente. A chamada esquerda liberal (new left) renega a existência de grupos porque paradoxalmente o seu grande cavalo de batalha são os chamados “grupos de vitimização” (mulheres, outras etnias, homossexuais, etc) e o objectivo final é o fim das diferenças entre grupos. Por outras palavras, o objectivo é a individualização igualitária, a atomização, o “todos iguais na diferença” e essa individualização terá de ser garantida pelo Estado (liberdade positiva).

Outra razão pela qual Haidt coloca os liberais clássicos/libertários na esquerda é que estes tendem a ser mais racionalistas e mais despegados de instintos tribais. Porém, acrescenta que eles tendem a votar na mesma linha dos conservadores porque ambos consideram que o Estado Social que a esquerda promove tem efeitos destrutivos. Para os libertários o Estado Social é destrutivo da liberdade individual e para conservadores/tradicionalistas é destrutivo de uma ordem comunitária tradicional e meritocrática.

No entanto, há uma razão bastante mais forte para colocar os liberais clássicos na direita: não estão enamorados pela igualdade. Independentemente dos seus benefícios, o resultado do mercado livre significará sempre desigualdade como reflexo das diferentes habilidades inatas humanas. Apesar de tudo, é possível argumentar que eles estão enamorados pela igualdade de direitos (propriedade, liberdade, etc) e este foco nos “direitos”, apesar de diferentes, é uma das bandeiras da esquerda. Sem “direitos” a esquerda não sobrevive ideologicamente. Já a direita tradicional baseia-se no que é melhor para o grupo, e o que é melhor para o grupo é a hierarquia natural, o respeito pelas normas sociais e não uma lógica de direitos. Na lógica de Edmund Burke ou de Oswald Spengler, a ordem hierárquica demorou séculos, talvez milénios, a ser formada pelo acomodar das diferentes habilidades humanas numa sociedade; qualquer revolução institucional de massas apenas traz o caos inutilmente, pois o processo começa de novo, provavelmente para se chegar ao mesmo ponto.

Desta forma, os liberais clássicos/libertários parecem operar na terra de ninguém no que diz respeito ao espectro político esquerda/direita.

Sendo estes arquétipos ideológicos imperfeitos quando praticados, cada um preenche as suas reivindicações puxando mais para a direita ou para esquerda em assuntos particulares. No caso dos liberais clássicos, há quem termine mais à direita e quem termine mais à esquerda. Os individualistas extremos estarão socialmente mais à esquerda, mas aqueles que, tal como F.A. Hayek, abraçaram a selecção de grupo, estarão mais à direita. Aliás, o facto de Hayek rejeitar “direitos” e basear-se em normas sociais e na selecção de grupo (onde tribos competem com tribos) ajudou em grande parte à sua receptividade pela direita.

Hayek, tal como E.O. Wilson, Charles Darwin, Elinor Ostrom e o próprio Jonathan Haidt, perceberam que a essência grupal dos seres humanos é um produto da evolução que nos faz competir não só dentro dos grupos mas principalmente entre grupos. Se existir liberdade, existirá competição grupal; e para que essa competição seja eficaz, todos os grupos se focam na punição dos “cheaters” ou “free riders”.

Sendo os mais honestos em relação a esta lógica grupal, o foco na coesão de grupo por parte de conservadores/tradicionalistas está por demais evidente na sua condenação moral de actos que vão contra essa coesão do colectivo como unidade adaptativa; entre muitos outros, é bem conhecida a contestação a actos de egoísmo puro (receber sem dar), anti-comunitarismo, práticas homossexuais, miscigenação, atitudes anti-família, atitudes anti-autoridade natural, etc…

Curiosamente, a esquerda progressiva rejeita a lógica grupal do “nós” contra “eles” (“in-group/out-group”) mas na prática são tão tribais como os demais humanos. Tal como Charles Murray documentou no seu último livro “Coming Apart”, apesar de toda a sua retórica de inclusão, os progressistas de esquerda vivem em famílias tradicionais, rodeados de pessoas tal como eles e em antagonismo constante contra o grupo da “direita”. Haidt explica o facto com a tendência humana para “sacralizar” valores de forma a unir o  seu “grupo” contra o outro “grupo”. No caso da new left “frankfurtiana” a sacralização fez-se à volta dos supracitados “grupos de vitimização” que tinham de ser protegidos do homem ocidental e à direita a sacralização é feita abertamente à volta do seu próprio grupo.

Por fim, Haidt escreveu que foi um homem de esquerda durante boa parte da sua vida mas que por ser por natureza politicamente incorrecto nunca se sentiu totalmente “em casa”. Hoje diz-se centrista, mas não se coibiu de revelar que depois de todos os estudos que fez, não tem dúvidas de que os valores conservadores/tradicionalistas estão muito mais próximos da natureza humana do que todos os outros.

Leitura complementar: Selecção individual, selecção de grupo e liberalismo clássico

“O Homem Pode Fazer o que Quer, Mas Não Pode Querer o que Quer”

O meu último texto sobre os usos e abusos da falácia naturalista deu origem a uma crítica vinda do outro lado do atlântico escrita por Joel Pinheiro. Em suma, nessa crítica, o autor diz-se partidário da falácia naturalista e, concomitantemente, dá os argumentos “standard” a seu favor, criticando a minha posição naturalista.

Talvez por já os conhecer bem, muitos dos argumentos a favor da falácia naturalista já tinham sido antecipados no meu texto inicial, pelo que considero que muitas das críticas de Pinheiro estavam respondidas.

Tal como eu escrevi no meu texto original, a base da argumentação dos proponentes da falácia naturalista é uma profunda crença no valor da igualdade. Como tal, estabeleceram para si mesmo que os humanos são iguais e colocaram o ónus da prova nos que alegam que somos naturalmente e inatamente desiguais.

Curiosamente, a posição deles é a posição do mainstream político e do zeitgeist mediático, presente na força autoritária anti-conhecimento e anti-científica que é o politicamente correcto (PC). Contudo, a tradição popular há muito que sabe que os seres humanos são desiguais e é senso comum que assim seja. Desde sempre que as pessoas disseram e souberam que o X é mais inteligente que Y ou que W é mais forte e bonito que Z, independentemente do contexto.

Como a posição normal é assumir que os humanos são naturalmente desiguais, o ónus da prova devia recair sobre os igualitários que propõem que somos todos iguais ou que somos tábuas rasas prontas a serem moldadas pela educação (nurture). O grande mérito do PC (com origem nos académicos da Escola de Frankfurt) foi ter conseguido transformar a sua assumpção igualitária irrealista na posição standard e deixar o ónus da prova para os outros que discordam. Por outras palavras, os igualitaristas alegam “eu acredito que o Homem é igual, agora prova lá que não é”.

Os cientistas foram assim à procura dessas provas (pelo menos os que não foram despedidos pelo PC por trazerem notícias desagradáveis). Elas chegaram em abundância e continuam todos os dias a chegar à medida que os estudos de genética comportamental vão evoluindo. Os estudos “standard” são os que avaliam gémeos idênticos (partilham 100% do ADN) criados em ambientes distintos e os resultados são conhecidos: tal como Steven Pinker mostrou através de inúmeros estudos, os gémeos idênticos educados em ambientes diferentes são muito mais parecidos uns com os outros em QI (cerca de 80% de hereditariedade genética) , personalidade, interesses e aspecto físico do que as pessoas educadas no mesmo contexto que estejam genealogicamente menos relacionadas. Ou seja, gémeos idênticos criados em ambientes distintos são mais iguais entre si do que pessoas geneticamente menos relacionadas criadas no mesmo ambiente.

Acumularam-se as evidências: surgiram as evidências X, a Y, a Z, entre muitas outras,  mas para os que pediam “provas” nada irá ser suficiente. O “pedir provas”, descobre-se agora, era apenas um truque de retórica. Mesmo quando o ADN puder ser sequenciado na perfeição já identificando os genes e mecanismos que contribuem para as capacidades cognitivas ou capacidades de qualquer outro tipo, a opinião destes dificilmente irá mudar. Esta frase de Joel Pinheiro representa na perfeição a sua geração igualitária:

“Aliás, é gritante a ingenuidade com que Faria aceita resultados altamente polêmicos sobre o comportamento humano, baseado em alguns estudos estatísticos.”

Na realidade, os resultados não são nada polémicos. Há imenso tempo que a comunidade científica envolvida nos estudos aceita que estes resultados são consistentes ao longo do tempo. Claro, a opinião da geração educada no igualitarismo militante dificilmente irá mudar, mas tal como disse Jonathan Haidt a David Sloan Wilson: “apesar de esta geração ter dificuldade em reconhecer a abundância de provas, as próximas gerações já irão olhar para os dados de forma mais desapaixonada reconhecendo-os como naturais e até banais”.

É óbvio que em última instância os igualitários irão apontar para o céu dizendo que a moralidade, como ética superior, não deve contemplar, nem levar em consideração a desigualdade e instintos naturais. Contudo, ignoram que até o nosso desejo pela racionalidade ética é uma pulsão biológica. Tal como Arthur Schopenhauer escreveu: “O homem pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”.

Mostrar uma natural preferência pela família e nação implica excluir boa parte da humanidade do nosso altruísmo preferencial, que é algo que os igualitários desdenham; e assim percebemos o fascínio contemporâneo do igualitarismo pelo homem universal, transnacional, da espécie humana. Mas não param aí, como a desigualdade natural não deve contar para estabelecer a moral, continuam a estender a sua moralidade igualitária aos animais e os seus direitos, ao planeta (medo do aquecimento global) e em última instância ao universo e alienígenas caso eles surjam.

Há igualmente algo de relevante a dizer do ponto de vista político. Joel Pinheiro diz que já participou brevemente no “O Insurgente”, pelo que é razoável especular que não se considera de esquerda. Contudo, se fosse de esquerda, o seu discurso tinha sido exactamente igual. Mesmo a parte onde se opõe à engenharia social seria corroborada pela esquerda (que nunca define o que faz como “engenharia social”).

Isto explica como a direita foi totalmente aniquilada pelo pensamento de esquerda (nomeadamente da new left). A vitória do pensamento igualitário de esquerda foi tão pronunciado que mesmo a direita não consegue fugir desse paradigma. Sem surpresas, por ter de jogar dentro das regras que a esquerda definiu e impôs, por ter de argumentar dentro de uma moldura (framework) igualitária, a direita está sempre a perder campo político porque não tem a força da coerência e persuasão; e perde de tal forma que se transforma em esquerda; tal como é possível de aferir pelo texto do Joel Pinheiro.

Ademais, Pinheiro acusa-me de ser complacente para com o “mau”. O que para além de ser uma acusação injusta, não é igualmente correcta. O que eu considero é que o desejável se faz dentro da realidade, a partir da realidade, principalmente porque tudo o que é supostamente bom pode ter implicações negativas e vice versa.

Friedrich Nietzsche, com quem terminei o meu último texto, escreveu que o “super-homem” (Übermensch) se fazia a partir do homem biológico, ou seja, a partir do corpo; como tal, qualquer melhoria humana terá de passar pelo próprio corpo, nunca passará por ignorá-lo.

Por fim,  pelo menos eu e o Joel Pinheiro concordamos em algo, o cancelar de algumas limitações do homem passarão certamente pela evolução da tecnologia genética; o que não implica que neste campo o igualitarismo ético tenha de ser necessariamente aplicado.

Porém, no mundo onde habitamos, sem essas tecnologias futuristas e independentemente da moralidade igualitária, a desigualdade natural é destino.

Os Usos e Abusos da Falácia Naturalista

Quantas vezes não vemos as pessoas rejeitarem à priori estudos, descobertas bio-sociais ou relatos históricos incómodos sobre a natureza humana simplesmente alegando que : “lá porque é assim não significa que tem de ser, podemos mudar se quisermos” ou “estudos há muitos, por isso não vou perder o meu tempo a olhar para esse em particular”.

Para um naturalista como eu que tende a estudar a natureza humana recorrendo à observação das capacidades, tendências e limites do ser humano como parte de um ecossistema em evolução, presenciar este tipo de reacções tornou-se já num lugar comum do meu quotidiano.

Os discordantes que estão academicamente mais informados sabem sempre o que dizer cada vez que um naturalista (sociobiólogo, psicólogo evolutivo, antropólogo, etc…) apresenta evidências desagradáveis sobre a natureza humana: “não podemos cair na falácia naturalista”, ou seja, dizem que não podemos cair na ideia de que lá porque algo é naturalmente assim, tal significa que tenha de ser aceite como regra. Os que não conhecem o conceito dizem exactamente o mesmo, apenas não reconhecem que estão a usar o argumento da falácia naturalista.

Isto, claro, é uma forma de negação dos factos para dar lugar ao sonho, à utopia confortante e, em última instância, à engenharia social.

A falácia naturalista advém do problema “ser-dever ser” (is-ought) que David Hume levantou, e concluiu que mesmo que algo seja factualmente natural não significa que daí se retire qualquer noção moral de bom ou mau. A partir daí, o filósofo George Edward Moore desenvolveu o conceito de falácia naturalista, que postula que o valor moral de algo não é definido pelo que é natural. O exemplo mais marcante usado por ele será porventura a alegação de que a direcção da evolução biológica não é moralmente boa apenas porque é a naturalidade da nossa existência.

A falácia naturalista tem alguma razão, mas em última instância é um argumento estéril. Importa assim perceber esta falácia em termos de organização política e de políticas públicas.

Quem está familiarizado com a sociobiologia e estudos no campo da biologia/genética/psicologia evolutiva, conhece já muitos dos resultados sólidos e consistentes que se acumularam ao longo dos anos: entre eles, que os seres humanos, individualmente e em grupo, variam consideravelmente ao nível do quociente de inteligência (QI), que o QI é, como os temperamentos e traços físicos, essencialmente  hereditário, que o QI é dos mais fortes, senão o mais forte determinante do sucesso económico-social, que os seres humanos, tal como outros animais, são tribais, etnocêntricos, discriminatórios e nepotistas, que este etnocentrismo/nepotismo tem sido confirmado empiricamente sem grandes excepções e explicado em termos evolutivos como a defesa daqueles que partilham mais genes connosco de forma a propagá-los (Inclusive fitness), entre muitos outros resultados incómodos que poderiam ser referidos.

Em termos políticos, ninguém quer abraçar estas evidências e por isso o recorrer à falácia naturalista torna-se num refúgio lógico.  À esquerda, usa-se a falácia naturalista como uma forma de reforço da tábua rasa, isto é, diz-se que estas evidências estão todas erradas ou que são insuficientes, que os seres humanos são todos basicamente iguais e formados pela educação e que “não há nada para ver aqui” e que no caso de serem verdade, a moralidade igualitária deve prevalecer sobre as evidências. Já no campo liberal optimista, a negação (quando não se baseia totalmente na tábua rasa Lockeana) passa por acreditar no poder da “cultura” e do slogan “não há tribos, nem colectivos,  nem forças étnicas, só há o José, a Maria e o Manuel” e se ensinarmos isto às pessoas, se mudarmos a cultura, o mercado resolve os problemas. Neste caso, só os elementos mais cépticos, conservadores e tradicionalistas aceitam que qualquer sistema ou organização política tem de contar com estas tendências humanas naturais, independentemente dos sonhos dos que preferem jogar a carta da falácia naturalista. Políticas públicas que visam coordenar humanos que não existem na prática estão condenadas a falhar.

O erro cometido pelos que depositam uma fé infindável na cultura é considerarem que a cultura não é já de si bio-cultural. Quando dizem “sim, os humanos podem ser assim mas é possível civilizá-los” (i.e. apagar ou esconder essas tendências), estão a apelar para um desligar entre o biológico e o cultural, ou seja, para a divisão Cartesiana do corpo e mente, esquecendo-se que a razão é também um produto biológico, (e.g. se o cérebro se danificar fisicamente o mesmo acontece com a “razão”) tal como António Damásio apontou no livro “O Erro de Descartes”.

Na realidade, se não quisermos viver totalmente isolados, o nosso ambiente é essencialmente formado pelos genes e tendências comportamentais dos outros que nos rodeiam.  É precisamente por isso que se diz que quando queremos comprar casa os 3 critérios devem ser “localização, localização, localização”. Desta forma, a questão “podemos ser quem já não somos de base?” torna-se pertinente quando se trata de avaliar a fé na cultura redentora.

Uma cultura só pode conter elementos que a biologia permita. Por exemplo, nenhuma norma social que implique dar 50 piruetas no ar em vez de dar um aperto de mão irá surgir numa cultura, simplesmente porque os humanos não estão preparados biologicamente para tal. Este é um exemplo hiperbólico, mas o mesmo é válido para os que depositam a fé na educação e consequente desaparecimento dessas tendências naturais observadas através do uso da razão e de uma moralidade racionalmente desenhada.

Dito isto, dentro das possibilidades bio-culturais, a cultura e as normas sociais produzidas na mesma podem ter efeitos que em termos funcionalistas podem ajudar ou prejudicar uma sociedade, e até uma civilização. Por outras palavras, um determinado grupo civilizacional pode extinguir-se devido a práticas culturais mal-adaptativas (alguém lembre o ocidente desta verdade).

Assim, o argumento da falácia naturalista tornou-se no melhor amigo do zeitgeist das massas, igualitário e politicamente correcto em que vivemos. Um contexto onde a ideologia da igualdade se sobrepõe  à realidade, à ciência, ao conhecimento e inclusivamente ao senso comum.

A falácia naturalista tornou-se sinónimo de “eu irei ignorar qualquer evidência que me revelem para que a realidade não se entreponha entre mim e a minha moralidade igualitária pré-estabelecida”. Parafraseando Friedrich Nietzsche:

“A doutrina da igualdade! Não há nada mais venenoso pois parece que é pregado pela justiça ela mesma, quando na realidade representa o fim da justiça. “Igual ao igual, desigual ao desigual” este é um verdadeiro princípio de justiça, e o seu corolário é: “Nunca se tente transformar em igual o que é desigual”.  -  Nietzsche (em O Crepúsculo dos Ídolos)

O “Fim das Nações” Sai à Rua

Há algumas semanas escrevi um artigo onde abordava o fenómeno contemporâneo a que chamei de “ideologia anti-nação”. Resumidamente, escrevi que esta ideologia se traduzia pelo amor de grande parte das elites europeias pelo supranacionalismo e que este, para ser exequível, implica a destruição do sentimento popular de nação que impede a centralização política ao nível da União Europeia ou até, em última instância e num cenário futurista, ao nível da ONU. Como instrumentos económicos de centralização (e.g. o euro) prejudicam economicamente mas não alteram o sentimento nacional do grupo, o método usado para atingir este fim foi a imigração em massa: trazendo milhões de migrantes não-europeus para a Europa dá-se passos largos para o fim das nações europeias actuais. E é isto que tem sido feito desde o pós guerra, período em que as elites pensantes “decidiram” que as nações são hediondas e perigosas e que são para abolir se possível.

Na altura, alguns comentários interrogavam se este fenómeno que descrevi é uma ideologia ou uma conspiração. Na realidade, não acredito que uma conspiração a um nível tão elevado se pudesse sustentar tanto tempo devido a problemas evidentes de acção colectiva; como tal, a cola que vai sustentando este processo é de carácter ideológico. No entanto, isto não significa que os interesses individuais dentro desta moldura ideológica não sejam um forte motor motivacional para se jogar o jogo.

Ademais, aquilo que antes era uma evidência factual mas que raramente era verbalizado por agentes políticos foi agora colocado em público: Peter Sutherland, responsável da ONU por questões migratórias, disse abertamente que as nações europeias ainda sentem um sentimento de pertença aos seus, que ainda possuem considerável homogeneidade nacional, que ainda se sentem diferentes em relação a outros povos e que se a União Europeia quiser sobreviver terá de fazer o melhor que puder para acabar com essa homogeneidade pela via da imigração em massa. Ele dá o exemplo do Reino Unido como estando na vanguarda desse processo. E as estatísticas reveladas recentemente por um investigador do King’s College London confirmam-no:

Professor Hamnett says: “London as a whole now has an ethnic minority dominated secondary school system, akin to that of many large US cities, and the figure reaches 67 per cent in inner London. “This is also true of a small number of other towns and cities with large ethnic minorities, notably Slough (64 per cent), Leicester (58 per cent), Birmingham (52 per cent) and Luton (51 per cent). Manchester and ­Bradford are not far behind with 43 per cent.”

Como é óbvio, Peter Sutherland está a prescrever uma receita para o futuro da União Europeia sabendo que esta tem sido já perseguida desde o pós-guerra. Sutherland não é uma pessoa qualquer, tem já um currículo invejável constituído por prémios e posições profissionais de topo. Para além da sua actual posição na ONU, é também “chairman” da London School of Economics, já foi comissário europeu e director da “Organização Mundial de Comércio”, ocupou posições milionárias em algumas das maiores empresas do mundo como a BP ou a Goldman Sachs e pertence ao famigerado grupo Bilderberg.

Este é um senhor que representa a sua classe e pretende uma União Europeia como Estado “gestor” e “educativo” em todo o seu esplendor, mas claro, onde não irão viver muitos europeus. Por outras palavras, ao querer que a União Europeia acabe com a Portugalidade, com a “Englishness” e com as demais identidades nacionais, o que é pretendido é uma Europa cujo território não é nada mais do que um conjunto de indivíduos atomizados e sem ligações familiares/comunitárias que olharão para o grande Estado europeu como gestor das suas vidas. Estado este que Sutherland magnifica com o epíteto “o projecto mais nobre dos últimos 1000 anos”.

As elites que Sutherland tão bem representa estão equivocadas. A união imperialista que tanto ambicionam é uma utopia. Tal como eu deixei escrito no meu artigo, devido ao tribalismo e nepotismo inatos no ser humano, o que eles vão conseguir com esta engenharia social motivada por um sentido de construção imperialista é uma redefinição das nações europeias, com todos os custos que irão advir dos conflitos territoriais e civis.

Agora que as intenções destas elites são mais claras do que nunca (principalmente para quem ainda não tinha prestado atenção), resta esperar que o euro e este destrutivo projecto europeu sejam colocados rapidamente na prateleira histórica antes que os problemas em curso se acumulem de forma irreversível.

 

Leitura complementar: O Fim das Nações?

O Adeus a Elinor Ostrom e Algumas Reflexões Sobre o seu Legado

Morreu Elinor Ostrom. Ainda há umas semanas atrás tive a oportunidade de a ver ao vivo em Londres numa conferência do Institute of Economic Affairs e ela já me parecia algo debilitada, apesar de manter uma vitalidade intelectual notável até ao fim. O André Azevedo Alves escreveu um texto (aqui) que é  um excelente resumo da importância de Elinor para o pensamento político e que merece ser lido para se perceber o trabalho dela. Gostava no entanto de fazer algumas observações em relação ao legado da vencedora do prémio Nóbel da economia.

Elinor revelou-nos que a melhor forma de lidar com problemas de uso de recursos comuns é deixar as comunidades, os grupos humanos, encontrarem a melhor forma de resolução dos problemas de externalidades e da tragédia dos comuns através das normas sociais específicas de cada contexto. Isto é, ela demonstrou que não existem soluções normativas universais que se apliquem a todos os contextos. Cada grupo humano tem as suas especificidades comportamentais e interage num espaço geográfico distinto, o que leva a diferentes soluções para cada caso. Isto leva naturalmente a que ela tenha advogado uma descentralização policêntrica onde cada grupo humano tem a capacidade de criar naturalmente as suas normas, tal como David Hume propôs no seu “Tratado da Natureza Humana”.

Contudo, o que me parece realmente importante no trabalho de Ostrom é que ela obrigou muitos liberais a repensarem o significado das suas reivindicações. Ao revelar que a liberdade está na autonomia dos grupos para criarem as próprias regras, mesmo que estas não passem pela propriedade privada ou pelo mercado, ela deu a entender que os grupos geograficamente localizados actuam como unidades orgânicas com regras comunitárias que impedem o egoísmo de se alastrar de forma prejudicial ao grupo (resolvendo assim a tragédia dos comuns). Tal como notou o biólogo evolutivo David Sloan Wilson, famoso pela sua concepção de selecção multi-nível que inclui a selecção de grupo,  esta foi a forma “natural” com que os humanos evoluíram em tribos, e por isso não é surpreendente que esta forma de organização grupal seja a que está mais de acordo com as pré-disposições humanas.

Assim, Ostrom mostrou que o mercado é apenas parte das escolhas que os indivíduos fazem para se auto-organizarem; tal como Hayek revelou, são as normas sociais criadas por determinados grupos que impelem os indivíduos dentro deles a agirem de determinada forma, mas mais por imitação do que por decisões racionais e autónomas.

Em termos metafísicos, o que se pode retirar do trabalho de Elinor Ostrom é que uma possível liberdade passa essencialmente pela descentralização e autonomia grupal, mas dentro desse grupo, as normas poderão variar tanto como indo de um sistema puramente de mercado e propriedade privada como para um sistema mais igualitário/redistributivo ou para um sistema hierárquico. Desta forma, por tentativa e erro, cada grupo define as suas normas e a competição inter-grupal e intra-grupal define a evolução humana.

Elinor Ostrom estará certamente entre os melhores economistas e cientistas políticos contemporâneos. Como tal, o seu trabalho será sempre lembrado.

 

Leitura complementar: Selecção Individual, Selecção de Grupo e Liberalismo Clássico

O Fim das Nações?

O ex director da organização de saúde da ONU Brock Adams alegadamente proferiu uma das frases mais emblemáticas dos nossos tempos:

“Para atingir o governo mundial, é necessário remover das mentes dos homens o seu individualismo, a lealdade à família, tradições, nacionalismo patriota e dogmas religiosos”.

À primeira vista parece uma frase carregada de radicalismo que não merece demasiada atenção, mas o facto é desde o fim da segunda guerra mundial que as elites do mundo ocidental estão empenhadas em promover o fim destes supostos “vícios” da mente popular. Não é preciso procurar muito para verificar que o discurso “educativo” governamental europeu equipara o tradicional amor pela nação a uma forma de xenofobia perigosa e equipara o apego às tradições locais a uma espécie de negação anacrónica (e até patológica) da modernidade globalizada.

No ocidente, desde o pós-guerra que as nações passaram a ser vistas como perigosas, como entidades nocivas ao ser humano e que como tal precisam de ser diluídas, contidas ou, preferencialmente, abolidas. Nasceu assim a ideologia anti-nação, tal como o amor das elites pelo supranacionalismo, onde se destaca, naturalmente, o nascimento do projecto da União Europeia.

Como resultado, para estas elites, avançar para um governo europeu de um momento para o outro seria impossível devido à existência destes “vícios da mente” que ditam inexoravelmente que as pessoas se preocupam mais com os que pertencem ao seu grupo (nação ou família) do que com os que não pertencem, e como tal prezam a sua independência. Perante este obstáculo, as elites europeias optaram por uma integração opaca e à revelia dos povos, baseando-se no excelso modelo económico do futuro (o euro, o mercado único, harmonização legal e fiscal, eurobonds, etc…). Porém, como todas em todas as centralizações de poder, a competição económica jurisdicional perde-se e o relativo declínio económico torna-se um destino fatal. Contudo, não serão os actuais problemas económicos que destruirão as nações; os ex-países da União Soviética também passaram pelo declínio material comunista e conseguiram refazer a sua vida aderindo à economia de mercado e mantendo intacto o seu espírito nacional.

Não, dificilmente será pela via económica que as nações serão abolidas; o segredo para tal está, obviamente, na política de imigração que o supranacionalismo impunha. Este baseia-se numa ideia simples amplamente documentada por historiadores: se os nativos deixarem de ser as únicas vozes dentro das nações, estas perderão a sua força como entidades políticas e sociais. Inicialmente, a abolição de fronteiras foi feita entre os países da União Europeia, mas rapidamente se constatou que a migração permanente entre países europeus foi quase insignificante (tirando os casos mais recentes de países como a Roménia). As diferenças económicas entre países europeus não eram tão grandes ao ponto de desafiar em massa o apego dos europeus a viver nas suas nações. Perante este “fracasso”, avançou-se paralelamente com o plano B, imigração não-europeia; e esta estratégia, devido às diferenças económicas entre a Europa e os países de origem dos imigrantes, foi extremamente bem sucedida (principalmente para partidos de esquerda, que assim ganharam eleitorado).

Programas de refugiados, justificações de que os países precisam de imigração em massa para ter crescimento económico, a defesa da sustentação da segurança social pública, alegações de dívidas morais para com outros povos … todas as justificações serviram o propósito. Como consequência, países como o Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Suécia, estão agora todos com grupos de imigrantes com números elevados que em vários casos chegam a rondar os 20% da população.

Chegados a este ponto, torna-se relevante questionar o que são nações e se estas podem de facto ser abolidas.

Uma nação é tipicamente definida como um grupo territorialmente circunscrito cujos elementos estão ligados por tradições, genealogia, valores, cultura, língua, religião e normas sociais. Naturalmente, uma nação nem sempre corresponde a um Estado soberano e muitas vezes existe apesar dessa falta de independência, mas é lógico que quando sentem a sua identidade em causa essa necessidade torna-se premente (e.g. País Basco, Catalunha, Escócia). Outra noção mais alargada de nação não implica um território específico mas apenas uma ligação familiar/cultural dispersa geograficamente, tal como era o caso dos judeus antes da formação do Estado de Israel.

De uma perspectiva evolutiva, o espírito de nação pode ser explicado com a formulação canónica da “Inclusive fitness” do biólogo William Hamilton, que postula que os indivíduos estarão sempre mais dispostos a sacrificar-se por outros indivíduos que estejam genealogicamente próximos do que por indivíduos que estão distantes; algo óbvio em relação a familiares, mas igualmente relevante para o espírito de nação como família alargada, em que o altruísmo devotado ao “in-group” (nação) é totalmente diferente do que é devotado ao “out-group” (os outros).

De facto, ao olhar-se para as chinatowns espalhadas pelo mundo ou para outras comunidades, rapidamente percebemos que os indivíduos por norma trazem “a nação” com eles, especialmente quando há uma diferença acentuada entre a nação receptora e a nação “exportadora”.

Assim sendo, é possível abolir as nações?

É possível que se consiga abolir uma ou duas ou 10 nações em concreto, mas dificilmente será possível abolir o conceito de nação como entidade real e orgânica. Dadas as tendências comportamentais humanas, as tentativas actuais de criar o homem universal sob o mesmo Estado estão muito provavelmente condenadas ao fracasso e não vão fazer mais do que baralhar os mapas das nações, com prováveis conflitos territoriais pelo meio.

O prémio Nobel e economista Thomas Schelling demonstrou no seu modelo de segregação que basta que os indivíduos tenham uma leve preferência pelos “seus” para que o mapa se transforme por completo levando a uma completa segregação territorial. Isto não é surpresa para ninguém, mas as elites ocidentais, munidos dos seus pensadores racionalistas, declararam guerra à tradição, para que no fim de todas as crispações entre grupos se volte a uma situação de independência grupal. É por isto que o problema da União Europeia (e dos EUA) está muito para além do Euro e das questões económicas. É sim um problema de conceptualização utópica da essência humana e de ignorância propositada sobre a história dos grupos na natureza.

Sem surpresa, os países orientais como o Japão ou a China não aderiram a estas ideologias anti-tradição e anti-nação; tal irá fazer com que não só possam manter as suas identidades, mas também com que consigam evitar todos os problemas que a ruinosa tentativa de criar novas identidades por decreto irá trazer.

Por conseguinte, o actual racionalismo anti-nação é possivelmente o maior inimigo das liberdades que o mundo ocidental enfrenta, mas este racionalismo enfrenta necessariamente um inimigo ainda maior: a nação.

 

Leitura complementar: Selecção individual, Selecção de Grupo e Liberalismo Clássico

Selecção Individual, Selecção de Grupo e Liberalismo Clássico

O reputado biólogo e fundador da sociobiologia E. O. Wilson acabou de lançar o seu mais recente livro intitulado “The Social Conquest of Earth”. O livro está a ser recebido com sentimentos díspares junto da academia e a principal razão para esse efeito é que Wilson, uma das grandes referências no campo da biologia, abandonou o paradigma que desde os anos 60 tem vindo a dominar o campo da biologia evolutiva: o paradigma da selecção individual. Desta forma, Wilson é mais um grande nome da disciplina a abraçar a força evolutiva da selecção de grupo como modelo explicativo do comportamento humano. Wilson não inventou a roda, limitou-se a reverter às ideias iniciais de Charles Darwin, que deixou escrito que a evolução se dava ao nível dos grupos, ou mais especificamente, ao nível de tribos mais fortes e adaptadas que suplantam tribos menos adaptadas.

 “A tribe including many members who, from possessing in a high degree the spirit of patriotism, fidelity, obedience, courage, and sympathy, were always ready to aid one another, and to sacrifice themselves for the common good, would be victorious over most other tribes; and this would be natural selection. At all times throughout the world tribes have supplanted other tribes.” Darwin, em “The Descent of Man”

Nos anos 60 o paradigma mudou a favor da pura selecção individual (preconizada por autores como Richard Dawkins e o seu “Gene Egoísta”), esta postula que a selecção natural dos mais adaptados é feita apenas ao nível do indivíduo porque os seus genes são “egoístas” e como tal irão colocar-se sempre a si mesmos à frente dos interesses de qualquer grupo.

Este paradigma individualista influenciou as ciências sociais, que viram na selecção individual a confirmação do liberalismo, um mundo onde só existem indivíduos soberanos, genericamente auto-interessados e racionais, e onde não há lugar para grupos como unidades orgânicas.

Porém, sem negarem a força da selecção individual, cada vez mais autores a favor da selecção de grupo (mais especificamente da selecção multi-nível) estão a argumentar que nas situações onde a sobrevivência de um indivíduo depende do modelo organizativo da tribo, o interesse do indivíduo passa a estar alinhado com o da tribo, gerando o fenómeno da selecção de grupo. Por outras palavras, devido à possível ameaça de um grupo sobre outro, o grupo mais coeso, mais bem organizado, com mais altruístas e mais etnocêntrico irá prevalecer sobre o vencido em caso de disputa social ou territorial e irá passar os seus genes às próximas gerações. Em suma, podemos estar a assistir ao fim do paradigma analítico estritamente individualista que dominou a segunda metade do século XX.

Wilson foi muito claro quando escreveu que o legado genético dos humanos é o etnocentrismo e a propensão para pertencer a grupos e, se preciso, para lutar por eles.

“People are prone to ethnocentrism. It is an uncomfortable fact that even when given a guilt-free choice, individuals prefer the company of others of the same race, nation, clan, and religion. They trust them more, relax with them better in business and social events, and prefer them more often than not as marriage partners.” E. O. Wilson

As repercussões na filosofia política fizeram-se sentir no imediato. Os partidários do igualitarismo desgostam da destruição do mito universalista que está presente nesta real dinâmica de altruísmo (“in-group”) e antagonismo (“out-group”), mas não desgostam da ideia subjacente de que afinal o “bem do grupo/colectivo” existe.  Já muitos liberais clássicos/libertários desgostam de praticamente tudo. A sua pré-disposição ideológica para ver apenas indivíduos e não grupos, etnias, nações ou colectivos leva a que muitos ignorem as evidências empíricas que os antropólogos e historiadores nos relevam: que o legado genético da humanidade é a história de tribos étnicas contra outras tribos étnicas, de grupos contra grupos. O maior receio deste liberais é que a aceitação da selecção de grupo signifique a aceitação do socialismo ou de outras formas estatizantes de colectivismo.

Curiosamente, F. A. Hayek, uma das grandes referências liberais clássicas contemporâneas, foi dos primeiros a abraçar a selecção de grupo ao aplicar o processo evolutivo à análise social. Na altura foi inclusivamente acusado por outros académicos liberais de estar a “trair” a lógica do individualismo metodológico e até dos princípios liberais. Porém, já depois de uma longa carreira, em “Law, Legistation and Liberty” e em “Fatal Conceit”,  Hayek não hesitou em aplicar a selecção de grupo biológica às normas sociais. O académico austríaco postulou que os grupos com as normas sociais mais eficientes seriam materialmente mais prósperos, aumentariam comparativamente a sua reprodução populacional e conquistariam outros grupos que detenham normas sociais menos eficazes. Para Hayek é irrelevante se essa conquista se dava pela via da guerra ou da colonização migratória, o importante para ele é a percepção de que os grupos com normas sociais que favorecessem a prática mercantil, propriedade privada e cumprimento de contratos estariam na posição de vanguarda (e.g. a expansão dos europeus pelos continentes do mundo e conquista de novo território).

Por conseguinte, Hayek percebeu que a aceitação da selecção de grupo não teria necessariamente de negar o liberalismo clássico, apenas teria de o enquadrar num cenário realista que esteja de acordo com o legado evolutivo humano. Caso contrário, esta filosofia política poderia passar a ser um castelo construído no ar, baseada em indivíduos genericamente atomizados que não existem. O próprio Hayek não concordaria com o sentido literal da famosa frase de Margaret Thatcher “não existe tal coisa como sociedade, apenas indivíduos e famílias” pois tal sugere a inexistência de uma sociedade como força bio-cultural adaptativa.

Desta forma, e observando a actual mudança de paradigma em curso, torna-se importante salientar que F. A. Hayek demonstrou uma capacidade intelectual notável ao abraçar a selecção de grupo numa fase (70’s e 80’s) em que a selecção individual era o paradigma evolutivo em voga, contrariando as expectativas de todos os que seguiam o seu trabalho académico; especialmente no mundo liberal clássico onde o conceito de grupo era e é anátema para muitos. Isto demonstra a razão porque Hayek é possivelmente o pensador liberal clássico contemporâneo com mais reconhecimento no mundo académico: ao contrário do que costuma ser alegado, a razão não está simplesmente no facto de Hayek ser um liberal moderado que pode ser facilmente absorvido pelo status quo, mas sim porque, apesar de erros possíveis que possa ter cometido, era um pensador com flexibilidade intelectual suficiente para perceber muitos dos principais problemas que existem no seu campo político-filosófico.

O inevitável retorno da selecção de grupo promete mudanças consideráveis no pensamento filosófico do futuro. Ademais, em Harvard, quando E. O. Wilson ficou a saber que John Rawls não tinha qualquer conhecimento de sociobiologia, Wilson respondeu: “o tempo em que os filósofos não sabem nada de sociobiologia irá acabar”.

F. A. Hayek, naturalmente, esteve à frente desse tempo.

PS: Os biólogos como E. O. Wilson que estão a trazer de volta esta perspectiva de grupo renegada no pós-guerra, fazem-no numa altura especialmente relevante para a Europa: depois de 60 anos de engenharias sociais ao nível da U.E., onde se promoveu a destruição das identidades nacionais e do conceito de “nação” pela via das fronteiras abertas e do multiculturalismo (para abrir alas ao homem universal e atomizado sob a égide de um super-Estado), a verdadeira face da natureza humana irá erguer a sua cabeça, com consequências (im)previsíveis.

 

Leitura complementar: E.O. Wilson: “Why do Humans Need Tribes?”

Presidente Vaclav Klaus: O que fazer à Europa?

Ontem tive o privilégio de assistir à conferência do Presidente Vaclav Klaus organizada pelo Grupo Bruges, assim como de o conhecer pessoalmente. Sem dúvida, é um dos últimos políticos com personalidade em grande destaque na Europa. Tal como ele disse no seu discurso, todas estas recomendações anti-federalistas são urgentes para o continente europeu, e, com um sorriso provocador nos lábios, sugeriu que exactamente o mesmo também se aplica aos Estados Unidos.

“Let me suggest the main components of such a change. First, we must get rid of the unproductive and paternalistic social market economy. Second, we should accept that economic adjustment processes take time and that impatient politicians and governments usually make things worse. Third, we should start making comprehensive reductions of government expenditures and forget flirting with solutions based on tax increases.

We should also stop the constantly expanding green legislation. The Greens must be prevented from taking over much of our economy under the banner of such flawed ideas as the global warming doctrine. And we should get rid of the centralisation, harmonisation and standardisation of the European continent and start decentralising, deregulating and desubsidising our society and economy. It should be made possible for countries that are the victims of the European Monetary Union to leave it and return to their own monetary arrangements. And we should forget such plans as a European fiscal union, not to mention anti-democratic ambitions to politically unify Europe. We should return to democracy, which can exist only at the level of nation-states, not at the level of the whole continent.” Vaclav Klaus (03/05/2012)

Quem Tem Mais Fobia da Ciência? A Direita (religiosa) ou a Esquerda?

Nesta entrevista, o sociobiólogo David Sloan Wilson (autor de obras como “Darwin’s Cathedral” ou “Unto Others”) entrevista o psicólogo social  Jonathan Haidt (autor de obras como “The Righteous Mind: Why Good People Are Divided By Politics and Religion“) e discutem as posições anti ciência vindas da direita religiosa (e.g. criacionista) e da esquerda. Apesar de a direita religiosa ser promovida na imprensa como a principal facção anti-ciência, Jonathan revela que na realidade, e apesar de se apresentar sempre como “open minded”,  a esquerda apresenta iguais níveis de antagonismo. À direita o dogma é conhecido: se a ciência revela dados diferentes do que está escrito na bíblia, (i.e. a idade do planeta), nega-se imediatamente. À esquerda, porque o seu dogma religioso é a igualdade,  quando a ciência revela diferenças inatas entre sexos, populações ou diferenças hereditárias ao nível do QI, esta é a primeira a acusar a ciência de falsidade.
Ademais, eles discutem igualmente o papel da “revisão de pares” na academia e o que acontece a estes “checks and balances” quando em determinados campos das ciências sociais (como a psicologia social) quase 100% dos pares são de esquerda.

The Rise of Nationalism

The depressing rise of English nationalism makes me miss good old-fashioned British patriotism: by Ed West

“Another recent tradition we’ve come to love is Labour politicians saying we should “reclaim” our flag from the far Right. This began with the debate over the Union Jack during the late 1980s, when people on the Left began lamenting that the flag had connotations of fascism and racism and that it should be detoxified. (…)

The problem with “reclaiming” the national flag is that those making the argument don’t actually know what patriotism is. When politicians talk about Britishness or Englishness they usually talk about values; David Cameron did so at his Munich speech last year when he defined Britishness as a devotion to “equal rights regardless of race, sex or sexuality … It says to its citizens, this is what defines us as a society: to belong here is to believe in these things”; Gordon Brown has spoken about “fairness” and “tolerance”, as if other countries define themselves by their unfairness and intolerance. That is not patriotism, that’s a sort of fluffy universalism which by its very nature becomes intolerant; after all, what if a British person doesn’t define themselves by equal rights as it is currently understood? What if they just want to be left alone in their shed?

The modern Left doesn’t get patriotism because patriotism has to be exclusive, and involve parochial altruism – caring more about people like yourself. This tendency is innate in all of us, but the followers of current ideological fads are convinced it can somehow be eliminated, despite all available evidence to the contrary. (…)

Being English doesn’t mean conforming to a world-view set by a few people living in an arc from Shepherd’s Bush to Haringey; it just means being English, whether by blood or adoption (although the extent to which any nationality can be elective is limited). (…)

For 300-odd years English and British have been psychologically interchangeable in English people’s minds, largely because there has never been a need for a separate English identity. However, a combination of factors have recently altered this: unfairly slanted devolution settlements, an unpopular professional political class, mass immigration, and the question of Europe. And Englishness is a reaction to British identity becoming too “inclusive” and, therefore, meaningless (which is why whites apply the label far more often than minorities). (…)

you can see the same thing happening in England, where the new ruling class despise English patriotism and feel attached instead to Brussels, Geneva and the brotherhood of (rich and powerful) man. (…)

And this debate will lead nowhere while people continue to talk about a patriotism based on values rather than belonging. “

E.O. Wilson: “Why do Humans Need Tribes?”

Why Humans, Like Ants, Need a Tribe: the new article by the great Harvard’s sociobiologist E.O. Wilson

“Have you ever wondered why, in the ongoing presidential campaign, we so strongly hear the pipes calling us to arms? Why the religious among us bristle at any challenge to the creation story they believe? Or even why team sports evoke such intense loyalty, joy, and despair?

The answer is that everyone, no exception, must have a tribe, an alliance with which to jockey for power and territory, to demonize the enemy, to organize rallies and raise flags. (…)

The drive to join (a tribe) is deeply ingrained, a result of a complicated evolution that has led our species to a condition that biologists call eusociality. “Eu-,” of course, is a prefix meaning pleasant or good: euphony is something that sounds wonderful; eugenics is the attempt to improve the gene pool. And the eusocial group contains multiple generations whose members perform altruistic acts, sometimes against their own personal interests, to benefit their group. Eusociality is an outgrowth of a new way of understanding evolution, which blends traditionally popular individual selection (based on individuals competing against each other) with group selection (based on competition among groups). Individual selection tends to favor selfish behavior. Group selection favors altruistic behavior and is responsible for the origin of the most advanced level of social behavior, that attained by ants, bees, termites—and humans. (…)

Today, the social world of each modern human is not a single tribe but rather a system of interlocking tribes, among which it is often difficult to find a single compass. People savor the company of like-minded friends, and they yearn to be in one of the best—a combat Marine regiment, perhaps, an elite college, the executive committee of a company, a religious sect, a fraternity, a garden club—any collectivity that can be compared favorably with other, competing groups of the same category. (…)

The elementary drive to form and take deep pleasure from in-group membership easily translates at a higher level into tribalism. People are prone to ethnocentrism. It is an uncomfortable fact that even when given a guilt-free choice, individuals prefer the company of others of the same race, nation, clan, and religion. They trust them more, relax with them better in business and social events, and prefer them more often than not as marriage partners. They are quicker to anger at evidence that an out-group is behaving unfairly or receiving undeserved rewards. And they grow hostile to any out-group encroaching upon the territory or resources of their in-group. When in experiments black and white Americans were flashed pictures of the other race, their amygdalas, the brain’s center of fear and anger, were activated so quickly and subtly that the centers of the brain were unaware of the response. (…)

Civilization appears to be the ultimate redeeming product of competition between groups. Because of it, we struggle on behalf of good and against evil, and reward generosity, compassion, and altruism while punishing or downplaying selfishness. But if group conflict created the best in us, it also created the deadliest. As humans, this is our greatest, and worst, genetic inheritance.”

Noruega: O Paradoxo da Igualdade dos Sexos

A Noruega é considerada o país modelo da igualdade. Mas, tal como em qualquer outro país do mundo,  também lá as distribuições profissionais entre homens e mulheres são desiguais. A brigada académica dos estudos de género e feminismos apressa-se a explicar que a culpa é da educação e dos valores “conservadores” da sociedade e que são estes que precisam de ser combatidos. Para elucidar a questão, neste documentário, um jornalista norueguês foi falar com cientistas sociais e naturais que lidam com as diferenças biológicas entre sexos e recolheu provas dessas diferenças. Confrontados com as mesmas, os académicos feministas negaram-nas, mantendo que os seres humanos são tábuas rasas. Com que base? Quando o jornalista pergunta uma académica feminista qual é a sua base científica para negar que existam diferenças comportamentais biológicas entre homens e mulheres, ela responde: “digamos que tenho uma base teórica”. Ou seja, por outras palavras, ela leu Marcuse, Adorno e todos os derivados da Escola de Frankfurt e ficou convencida. Assim se conclui novamente que, independentemente dos factos, o igualitarismo radical ideológico predominante na academia ocidental não precisa da ciência nem da realidade, nem, em última instância, do bom senso.

Leitura complementar: A Tábua Rasa, a Escola de Frankfurt e a “Broken Britain”

Visionamento complementar: Steven Pinker on Egalitarianism

Anthony de Jasay: What is the Liberal Stand on Immigration?

Immigration: What is the liberal stand? : By Anthony de Jasay

Classical liberals have a bad conscience about immigration controls, let alone severe ones. The liberal mind has always disliked frontiers and regards the free movement of people, no less than those of goods, as an obvious imperative of liberty. At the same time, it also considers private property as inviolable, immune to both the demands of the ‘public interest’ (as expressed in the idea of the ‘eminent domain’) and of the rival claims of ‘human rights’ (satisfied by redistributing income to the poor who have these rights). Private property naturally also implies privacy and exclusivity of the home.

One strand of libertarian doctrine holds that it is precisely private property that should serve as the sole control mechanism of immigration. Immigrants should be entirely free to cross the frontier—indeed, there should be no frontier. Once in the country, they should be free to move around and settle in it as if it were no man’s land, as long as they do not trespass on any part of it that is someone’s land, someone’s house, someone’s property of any sort. They can establish themselves and find a living by contracting to work for wages and to find a roof by paying rent. In all material aspects of life, they could find what they need by agreements with owners and also by turning themselves into owners. Owners, in turn, would not object to seeing immigrants get what they had contracted for.

A very different stand can, however, be defended on no less pure liberal grounds. For it is quite consistent with the dictates of liberty and the concept of property they imply, that the country is not a no man’s land at all, but the extension of a home. Privacy and the right to exclude strangers from it is only a little less obviously an attribute of it than it is of one’s house. Its infrastructure, its amenities, its public order have been built up by generations of its inhabitants. These things have value that belongs to their builders and the builders’ heirs, and the latter are arguably at liberty to share or not to share them with immigrants who, in their countries of origin, do not have as good infrastructure, amenities and public order. Those who claim that in the name of liberty they must let any and all would-be immigrants take a share are, then, not liberals but socialists professing share-and-share alike egalitarianism on an international scale.”

Leitura complementar: A Filosofia Libertária e a Falácia das Fronteiras Abertas

 

A Tábua Rasa, a Escola de Frankfurt e a “Broken Britain”

Em resposta ao meu texto “Democracia, “Common Law” e Broken Britain” onde abordo o declínio acentuado das tradições britânicas, o Samuel de Paiva Pires escreveu um texto onde tenta explicar com eloquência o ataque contemporâneo à tradição recorrendo a Roger Scruton e John Gray e aos abusos do racionalismo. Adicionalmente, nesse texto deixa-me a seguinte pergunta:

Que papel teve o pensamento da Escola de Frankfurt nesta destruição da “Britishness”?

Naturalmente que a actual situação de perda de identidade britânica pela via da imigração (não-europeia) em massa tem mais do que uma causa e não podem todas ser reduzidas a uma corrente de pensamento produzida por intelectuais. Para além do poder destas ideias no poder político, entre outros factores contextuais, juntam-se os lobbies pró-imigração de grupos de minorias étnicas, de activistas humanitários, de instituições supranacionais como o Concelho da Europa ou a ONU e de grandes empresas interessadas em mão de obra barata ou em mercados internos alargados para os seus produtos (e.g. sector da construção imobiliária).

Porém, sem a força das ideias por trás deste processo, nunca se teria chegado a um ponto onde muitas das principais cidades inglesas terão uma minoria de britânicos nativos num curto espaço de tempo. Mas que ideias foram estas?

As mais importantes foram a crença na tábua rasa e os postulados da Escola de Frankfurt.

A Tábua Rasa

A crença na tábua rasa (a ideia de que os seres humanos não têm cruciais pré-disposições comportamentais de origem genética) começou-se a desenvolver na ciência contemporânea com autores como Franz Boas, um judeu alemão que foi para os EUA e que por volta dos anos (19)20 fundou a escola de antropologia na academia americana com mais impacto até aos dias hoje. Franz Boas dedicou a sua vida académica a tentar mostrar que não existiam quaisquer diferenças inatas entre populações e grupos humanos e que as diferenças observáveis eram puramente culturais, esteve ligado a movimentos de extrema esquerda e sempre combateu a ideia de “evolução por meios de selecção natural” como explicação para essas diferenças, temendo que elas fossem usadas para fins políticos (como veio a acontecer na Alemanha). Os seus estudos postulavam que tribos primitivas de Samoa tinham muito para ensinar aos ocidentais (que na altura se julgavam civilizacionalmente superiores), dando assim o pontapé de saída para o relativismo cultural pós-moderno que equipara as obras de Beethoven a estátuas de barro de tribos da Samoa. As bases teóricas para uma nova fundação de um igualitarismo radical estavam assim formadas.

Este pensamento  atingiu um dos seu pontos altos com o precursor do Behaviorismo John B. Watson, académico que proferiu a famosa frase onde afirmava que seria capaz de transformar qualquer criança no que quer que fosse (médico, bombeiro, professor, mendigo, etc…) para mostrar como a educação ou socialização era praticamente tudo o que definia o ser humano e não as suas pré-disposições genéticas.

A crença na tábua rasa alastrou-se a todas as disciplinas das ciências sociais e, com algumas excepções, perdura até hoje. O principal impulsionador desta crença é a ideia reconfortante de que é possível melhorar a natureza do homem e assim transformá-lo em algo novo, algo que o socialismo latente na academia via como vital para os seus ideais.

Com a segunda guerra mundial  e com o uso erróneo das ideias evolucionistas pelos nacionais socialistas, estas foram praticamente ignoradas na academia, ficando até hoje remetidas quase exclusivamente para as ciências naturais, nomeadamente a Biologia.

A Escola de Frankfurt

A Escola de Frankfurt foi uma escola de pensamento baseada num instituto criado na Alemanha em 1923, constituído por marxistas judeus que visavam aprofundar o marxismo académico. Entre estes, os nomes com mais proeminência foram Herbert Marcuse, Theodore Adorno, Max Horkheimer e Walter Benjamin. No início, o instituto dedicava-se essencialmente a estudos económicos clássicos marxistas, mas rapidamente virou o seu foco para a cultura. Antes desta viragem, já outros marxistas como Antonio Gramsci e György Lukács tinham notado que apesar da primeira Guerra mundial, o proletariado não se tinha revoltado na Europa e que a razão para tal estava nos valores culturais do ocidente. Com base no conceito de “ideologia” de Karl Marx, eles consideravam que os valores e instituições culturais do ocidente eram resultado de propaganda capitalista destinada a cegar o povo e manter o poder da burguesia (i.e. do grande capital). Lukacs chegou mesmo a perguntar “quem é que nos salva da cultura ocidental?”.

Os académicos da Escola de Frankfurt viram a 2ª Guerra mundial acontecer e chegaram à mesma conclusão; isto é, perguntaram-se como foi possível que o proletariado se tenha entregue ao fascismo e nacionalismo em vez de se rebelar contra o capitalismo? A resposta foi a mesma: eram a cultura e os valores ocidentais que estavam no caminho da revolução comunista. Como tal, lançaram-se numa carreira cujo fim último seria derrubar as instituições culturais do ocidente.

A “arma” intelectual que criaram denominou-se “teoria crítica”. O seu objectivo era em linhas gerais criticar, colocar em questão todas as instituições da civilização ocidental: a família, o papel das mulheres e dos homens em sociedade, os valores cristãos, os conceitos de beleza, etc…

Estes académicos fugiram de Hitler a caminho dos EUA, onde continuaram o seu trabalho, e encontraram por lá aquilo que consideravam ser uma cultura fascista burguesa que reprimia os indivíduos. Recorrendo à psicanálise de Freud, Marcuse usou o conceito de “repressão sexual” para mostrar como os americanos eram controlados pelos detentores do capital via uma doutrina burguesa de repressão sexual e família. Sem surpresa, Marcuse tornou-se no “poster boy” intelectual dos movimentos “paz e amor livre” da “new left” dos anos 60.

Ao aperceberem-se que a classe trabalhadora nunca se iria rebelar e estava satisfeita com o sistema capitalista, o alvo a atingir mudou. Era preciso gerar novos indignados para gerar revolução, e foi neste ponto que o foco se virou para as minorias raciais oprimidas, homossexuais e as mulheres. Marcuse foi muito claro quando revelou que se as mulheres se rebelassem, grande parte do trabalho teria sido feito, pois com mais de 50% da população “em libertação do machismo” seria possível mudar com certeza os valores ocidentais. Assim, boa parte da sua esperança estava no feminismo.

A forma de promover esta revolução baseou-se no aprofundamento da tábua rasa; ou seja, no veicular a ideia de que todas as diferenças entre os vários grupos humanos são “construções sociais” e que devem ser combatidas. Não há raça, não há mulheres nem homens, não há homossexuais ou heterossexuais, o que há são imposições e doutrinações burguesas que fazem com que os indivíduos tenham os comportamentos que têm em sociedade. Nada é natural e inato, tudo é produto da cultura que, no seu entender, tinha de ser mudada para libertar todas essas pessoas das construções sociais para onde foram remetidos.

Com isto desenvolveu-se o relativismo e o pós modernismo, pois nada tem assim um valor objectivo nem qualquer função, e todas as culturas são boas e más ao mesmo tempo. Qualquer juízo de valor é uma forma de intolerância.

Marcuse definiu em particular aquilo que veio a marcar o zeitgeist (espírito dos tempos) até aos dias de hoje quando escreveu que a verdadeira tolerância implica intolerância contra qualquer discurso de direita que se baseie em salientar as diferenças de uma cultura sobre outra, de uma etnia sobre outra, de o mérito de uma pessoa sobre outra, de um sexo sobre outro, etc… Isto transformou-se no que hoje chamamos de doutrina do politicamente correcto ou, como também é conhecida, marxismo cultural. Desta forma, qualquer debate que envolva uma das partes a alegar que existem desigualdades inatas e naturais entre seres humanos é imediatamente encerrado. Em discurso político, não existe liberdade de expressão para quem não acreditar na tábua rasa.

Broken Britain

Esta filosofia acabou por dominar a academia do mundo anglo-saxónico e dos países do norte/centro da Europa. Quando o genial precursor da sociobiologia (agora mais conhecida como psicologia evolutiva) Edward O. Wilson  lançou nos anos 70  a disciplina que estuda as diferenças no comportamento humano à luz da evolução genética e cultural, este foi atacado por grande parte da academia e inclusivamente ,numa conferência, terminou literalmente com um balde de água na cabeça, presente de um grupo anti-racista da new-left americana. Wilson, claro, não incitou qualquer forma de ódio racial, mas o simples facto de ter lançado uma disciplina que rejeita a tábua rasa foi o suficiente para ser atacado pelo “establishment” inquinado à esquerda.

Apesar de este hostil ambiente académico nas ciências sociais permanecer, geneticistas, biólogos, psicólogos evolutivos não têm dúvidas de que existem profundas diferenças entre humanos de natureza inata e evolutiva, que não têm origens na cultura ou na socialização, seja ela burguesa ou de qualquer outro cariz. Porém, são os cientistas sociais que lançam as ideias “políticas” para a sociedade, onde são depois promovidas por jornalistas (“second hand dealers of  ideas”) e políticos (“second hand followers of ideas”), e estes académicos são ainda os herdeiros da escola de Frankfurt, ocupados com estudos de género, estudos africanos, estudos multiculturais, estudos de desenvolvimento, estudos feministas, entre outros. Por outras palavras, estudos marxistas aplicados à cultura, numa era em que quase ninguém acredita no marxismo económico.

Foi neste ambiente intelectual dos últimos 70 anos que se desenvolveu a progressiva perda de identidade britânica, assim como a respectiva balcanização cultural e étnica da Grã Bretanha. Imbuídos nesta nova cultura de rejeição dos valores tradicionais ocidentais, os políticos britânicos promoveram a imigração em massa não-europeia alegando que todas as culturas devem ser encaradas como iguais e que, tal como Marcuse deixou escrito,  tudo o que é necessário é tolerância para com elas e intolerância para com os que se opõem a esta destruição cultural. Para o combate a quem se opunha a este processo estavam (e estão) reservados epítetos de fascista, extremista, racista e a imposição de quotas e multas. Em suma, autoritarismo “anti-direita”. Assim, a direita  política main-stream transformou-se em esquerda, incapaz de contrariar este novo ambiente intelectual e social. Tal como Andrew Neather (o conselheiro de Tony Blair) relevou, a esquerda quis esfregar o nariz da direita na “diversidade”.

Na realidade, como é facilmente observável, diferentes grupos de pessoas geram culturas diferentes e geralmente  de socialização incompatível no mesmo espaço geográfico. Ignorando esta evidência, mergulhados no espírito da tábua rasa, economistas  e demais cientistas sociais continuam a temer o decrescer da população nativa e a incentivar mais imigração para aumentar a extensão do mercado (como postulava Adam Smith) e assim manter o crescimento económico (da mesma forma que temem a deflação monetária). Porém, em sociedade partidas culturalmente, com baixos níveis de confiança e ressentimento entre grupos étnicos, o mercado será sempre primeiro a sofrer e o autoritarismo a recrudescer.

Olhando para o Reino Unido, mas igualmente para outros países europeus, ficamos com poucas dúvidas sobre o sucesso que este grupo de académicos de Frankfurt teve na destruição das instituições culturais ocidentais e, em termos gerais,  na progressiva destruição de uma civilização.