O Insurgente

Maio 16, 2012

Selecção Individual, Selecção de Grupo e Liberalismo Clássico

Filed under: Comentário,Cultura,Diversos,Livros,Teoria — Filipe Faria @ 15:34

O reputado biólogo e fundador da sociobiologia E. O. Wilson acabou de lançar o seu mais recente livro intitulado “The Social Conquest of Earth”. O livro está a ser recebido com sentimentos díspares junto da academia e a principal razão para esse efeito é que Wilson, uma das grandes referências no campo da biologia, abandonou o paradigma que desde os anos 60 tem vindo a dominar o campo da biologia evolutiva: o paradigma da selecção individual. Desta forma, Wilson é mais um grande nome da disciplina a abraçar a força evolutiva da selecção de grupo como modelo explicativo do comportamento humano. Wilson não inventou a roda, limitou-se a reverter às ideias iniciais de Charles Darwin, que deixou escrito que a evolução se dava ao nível dos grupos, ou mais especificamente, ao nível de tribos mais fortes e adaptadas que suplantam tribos menos adaptadas.

 “A tribe including many members who, from possessing in a high degree the spirit of patriotism, fidelity, obedience, courage, and sympathy, were always ready to aid one another, and to sacrifice themselves for the common good, would be victorious over most other tribes; and this would be natural selection. At all times throughout the world tribes have supplanted other tribes.” Darwin, em “The Descent of Man”

Nos anos 60 o paradigma mudou a favor da pura selecção individual (preconizada por autores como Richard Dawkins e o seu “Gene Egoísta”), esta postula que a selecção natural dos mais adaptados é feita apenas ao nível do indivíduo porque os seus genes são “egoístas” e como tal irão colocar-se sempre a si mesmos à frente dos interesses de qualquer grupo.

Este paradigma individualista influenciou as ciências sociais, que viram na selecção individual a confirmação do liberalismo, um mundo onde só existem indivíduos soberanos, genericamente auto-interessados e racionais, e onde não há lugar para grupos como unidades orgânicas.

Porém, sem negarem a força da selecção individual, cada vez mais autores a favor da selecção de grupo (mais especificamente da selecção multi-nível) estão a argumentar que nas situações onde a sobrevivência de um indivíduo depende do modelo organizativo da tribo, o interesse do indivíduo passa a estar alinhado com o da tribo, gerando o fenómeno da selecção de grupo. Por outras palavras, devido à possível ameaça de um grupo sobre outro, o grupo mais coeso, mais bem organizado, com mais altruístas e mais etnocêntrico irá prevalecer sobre o vencido em caso de disputa social ou territorial e irá passar os seus genes às próximas gerações. Em suma, podemos estar a assistir ao fim do paradigma analítico estritamente individualista que dominou a segunda metade do século XX.

Wilson foi muito claro quando escreveu que o legado genético dos humanos é o etnocentrismo e a propensão para pertencer a grupos e, se preciso, para lutar por eles.

“People are prone to ethnocentrism. It is an uncomfortable fact that even when given a guilt-free choice, individuals prefer the company of others of the same race, nation, clan, and religion. They trust them more, relax with them better in business and social events, and prefer them more often than not as marriage partners.” E. O. Wilson

As repercussões na filosofia política fizeram-se sentir no imediato. Os partidários do igualitarismo desgostam da destruição do mito universalista que está presente nesta real dinâmica de altruísmo (“in-group”) e antagonismo (“out-group”), mas não desgostam da ideia subjacente de que afinal o “bem do grupo/colectivo” existe.  Já muitos liberais clássicos/libertários desgostam de praticamente tudo. A sua pré-disposição ideológica para ver apenas indivíduos e não grupos, etnias, nações ou colectivos leva a que muitos ignorem as evidências empíricas que os antropólogos e historiadores nos relevam: que o legado genético da humanidade é a história de tribos étnicas contra outras tribos étnicas, de grupos contra grupos. O maior receio deste liberais é que a aceitação da selecção de grupo signifique a aceitação do socialismo ou de outras formas estatizantes de colectivismo.

Curiosamente, F. A. Hayek, uma das grandes referências liberais clássicas contemporâneas, foi dos primeiros a abraçar a selecção de grupo ao aplicar o processo evolutivo à análise social. Na altura foi inclusivamente acusado por outros académicos liberais de estar a “trair” a lógica do individualismo metodológico e até dos princípios liberais. Porém, já depois de uma longa carreira, em “Law, Legistation and Liberty” e em “Fatal Conceit”,  Hayek não hesitou em aplicar a selecção de grupo biológica às normas sociais. O académico austríaco postulou que os grupos com as normas sociais mais eficientes seriam materialmente mais prósperos, aumentariam comparativamente a sua reprodução populacional e conquistariam outros grupos que detenham normas sociais menos eficazes. Para Hayek é irrelevante se essa conquista se dava pela via da guerra ou da colonização migratória, o importante para ele é a percepção de que os grupos com normas sociais que favorecessem a prática mercantil, propriedade privada e cumprimento de contratos estariam na posição de vanguarda (e.g. a expansão dos europeus pelos continentes do mundo e conquista de novo território).

Por conseguinte, Hayek percebeu que a aceitação da selecção de grupo não teria necessariamente de negar o liberalismo clássico, apenas teria de o enquadrar num cenário realista que esteja de acordo com o legado evolutivo humano. Caso contrário, esta filosofia política poderia passar a ser um castelo construído no ar, baseada em indivíduos genericamente atomizados que não existem. O próprio Hayek não concordaria com o sentido literal da famosa frase de Margaret Thatcher “não existe tal coisa como sociedade, apenas indivíduos e famílias” pois tal sugere a inexistência de uma sociedade como força bio-cultural adaptativa.

Desta forma, e observando a actual mudança de paradigma em curso, torna-se importante salientar que F. A. Hayek demonstrou uma capacidade intelectual notável ao abraçar a selecção de grupo numa fase (70’s e 80’s) em que a selecção individual era o paradigma evolutivo em voga, contrariando as expectativas de todos os que seguiam o seu trabalho académico; especialmente no mundo liberal clássico onde o conceito de grupo era e é anátema para muitos. Isto demonstra a razão porque Hayek é possivelmente o pensador liberal clássico contemporâneo com mais reconhecimento no mundo académico: ao contrário do que costuma ser alegado, a razão não está simplesmente no facto de Hayek ser um liberal moderado que pode ser facilmente absorvido pelo status quo, mas sim porque, apesar de erros possíveis que possa ter cometido, era um pensador com flexibilidade intelectual suficiente para perceber muitos dos principais problemas que existem no seu campo político-filosófico.

O inevitável retorno da selecção de grupo promete mudanças consideráveis no pensamento filosófico do futuro. Ademais, em Harvard, quando E. O. Wilson ficou a saber que John Rawls não tinha qualquer conhecimento de sociobiologia, Wilson respondeu: “o tempo em que os filósofos não sabem nada de sociobiologia irá acabar”.

F. A. Hayek, naturalmente, esteve à frente desse tempo.

PS: Os biólogos como E. O. Wilson que estão a trazer de volta esta perspectiva de grupo renegada no pós-guerra, fazem-no numa altura especialmente relevante para a Europa: depois de 60 anos de engenharias sociais ao nível da U.E., onde se promoveu a destruição das identidades nacionais e do conceito de “nação” pela via das fronteiras abertas e do multiculturalismo (para abrir alas ao homem universal e atomizado sob a égide de um super-Estado), a verdadeira face da natureza humana irá erguer a sua cabeça, com consequências (im)previsíveis.

 

Leitura complementar: E.O. Wilson: “Why do Humans Need Tribes?”

Maio 14, 2012

Presidente Vaclav Klaus: O que fazer à Europa? (2)

Filed under: União Europeia,Videos — Filipe Faria @ 11:24

Depois de ter publicado (por escrito) partes do discurso Londrino de Vaclav Klaus em 03/05/2012 , aqui fica o vídeo com esse mesmo discurso.

Os interessados no evento completo organizado pelo grupo Bruges (com sessão de perguntas e respostas) podem vê-lo na integra aqui. 

Maio 5, 2012

Presidente Vaclav Klaus: O que fazer à Europa?

Filed under: Política,Política Fiscal,Política Monetária,União Europeia — Filipe Faria @ 00:14

Ontem tive o privilégio de assistir à conferência do Presidente Vaclav Klaus organizada pelo Grupo Bruges, assim como de o conhecer pessoalmente. Sem dúvida, é um dos últimos políticos com personalidade em grande destaque na Europa. Tal como ele disse no seu discurso, todas estas recomendações anti-federalistas são urgentes para o continente europeu, e, com um sorriso provocador nos lábios, sugeriu que exactamente o mesmo também se aplica aos Estados Unidos.

“Let me suggest the main components of such a change. First, we must get rid of the unproductive and paternalistic social market economy. Second, we should accept that economic adjustment processes take time and that impatient politicians and governments usually make things worse. Third, we should start making comprehensive reductions of government expenditures and forget flirting with solutions based on tax increases.

We should also stop the constantly expanding green legislation. The Greens must be prevented from taking over much of our economy under the banner of such flawed ideas as the global warming doctrine. And we should get rid of the centralisation, harmonisation and standardisation of the European continent and start decentralising, deregulating and desubsidising our society and economy. It should be made possible for countries that are the victims of the European Monetary Union to leave it and return to their own monetary arrangements. And we should forget such plans as a European fiscal union, not to mention anti-democratic ambitions to politically unify Europe. We should return to democracy, which can exist only at the level of nation-states, not at the level of the whole continent.” Vaclav Klaus (03/05/2012)

Abril 30, 2012

Quem Tem Mais Fobia da Ciência? A Direita (religiosa) ou a Esquerda?

Filed under: Diversos,Livros,Teoria,Videos — Filipe Faria @ 11:34

Nesta entrevista, o sociobiólogo David Sloan Wilson (autor de obras como “Darwin’s Cathedral” ou “Unto Others”) entrevista o psicólogo social  Jonathan Haidt (autor de obras como “The Righteous Mind: Why Good People Are Divided By Politics and Religion“) e discutem as posições anti ciência vindas da direita religiosa (e.g. criacionista) e da esquerda. Apesar de a direita religiosa ser promovida na imprensa como a principal facção anti-ciência, Jonathan revela que na realidade, e apesar de se apresentar sempre como “open minded”,  a esquerda apresenta iguais níveis de antagonismo. À direita o dogma é conhecido: se a ciência revela dados diferentes do que está escrito na bíblia, (i.e. a idade do planeta), nega-se imediatamente. À esquerda, porque o seu dogma religioso é a igualdade,  quando a ciência revela diferenças inatas entre sexos, populações ou diferenças hereditárias ao nível do QI, esta é a primeira a acusar a ciência de falsidade.
Ademais, eles discutem igualmente o papel da “revisão de pares” na academia e o que acontece a estes “checks and balances” quando em determinados campos das ciências sociais (como a psicologia social) quase 100% dos pares são de esquerda.

Abril 23, 2012

The Rise of Nationalism

Filed under: Internacional,Teoria,União Europeia — Filipe Faria @ 21:29

The depressing rise of English nationalism makes me miss good old-fashioned British patriotism: by Ed West

“Another recent tradition we’ve come to love is Labour politicians saying we should “reclaim” our flag from the far Right. This began with the debate over the Union Jack during the late 1980s, when people on the Left began lamenting that the flag had connotations of fascism and racism and that it should be detoxified. (…)

The problem with “reclaiming” the national flag is that those making the argument don’t actually know what patriotism is. When politicians talk about Britishness or Englishness they usually talk about values; David Cameron did so at his Munich speech last year when he defined Britishness as a devotion to “equal rights regardless of race, sex or sexuality … It says to its citizens, this is what defines us as a society: to belong here is to believe in these things”; Gordon Brown has spoken about “fairness” and “tolerance”, as if other countries define themselves by their unfairness and intolerance. That is not patriotism, that’s a sort of fluffy universalism which by its very nature becomes intolerant; after all, what if a British person doesn’t define themselves by equal rights as it is currently understood? What if they just want to be left alone in their shed?

The modern Left doesn’t get patriotism because patriotism has to be exclusive, and involve parochial altruism – caring more about people like yourself. This tendency is innate in all of us, but the followers of current ideological fads are convinced it can somehow be eliminated, despite all available evidence to the contrary. (…)

Being English doesn’t mean conforming to a world-view set by a few people living in an arc from Shepherd’s Bush to Haringey; it just means being English, whether by blood or adoption (although the extent to which any nationality can be elective is limited). (…)

For 300-odd years English and British have been psychologically interchangeable in English people’s minds, largely because there has never been a need for a separate English identity. However, a combination of factors have recently altered this: unfairly slanted devolution settlements, an unpopular professional political class, mass immigration, and the question of Europe. And Englishness is a reaction to British identity becoming too “inclusive” and, therefore, meaningless (which is why whites apply the label far more often than minorities). (…)

you can see the same thing happening in England, where the new ruling class despise English patriotism and feel attached instead to Brussels, Geneva and the brotherhood of (rich and powerful) man. (…)

And this debate will lead nowhere while people continue to talk about a patriotism based on values rather than belonging. “

Abril 7, 2012

E.O. Wilson: “Why do Humans Need Tribes?”

Filed under: Teoria — Filipe Faria @ 20:50
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Why Humans, Like Ants, Need a Tribe: the new article by the great Harvard’s sociobiologist E.O. Wilson

“Have you ever wondered why, in the ongoing presidential campaign, we so strongly hear the pipes calling us to arms? Why the religious among us bristle at any challenge to the creation story they believe? Or even why team sports evoke such intense loyalty, joy, and despair?

The answer is that everyone, no exception, must have a tribe, an alliance with which to jockey for power and territory, to demonize the enemy, to organize rallies and raise flags. (…)

The drive to join (a tribe) is deeply ingrained, a result of a complicated evolution that has led our species to a condition that biologists call eusociality. “Eu-,” of course, is a prefix meaning pleasant or good: euphony is something that sounds wonderful; eugenics is the attempt to improve the gene pool. And the eusocial group contains multiple generations whose members perform altruistic acts, sometimes against their own personal interests, to benefit their group. Eusociality is an outgrowth of a new way of understanding evolution, which blends traditionally popular individual selection (based on individuals competing against each other) with group selection (based on competition among groups). Individual selection tends to favor selfish behavior. Group selection favors altruistic behavior and is responsible for the origin of the most advanced level of social behavior, that attained by ants, bees, termites—and humans. (…)

Today, the social world of each modern human is not a single tribe but rather a system of interlocking tribes, among which it is often difficult to find a single compass. People savor the company of like-minded friends, and they yearn to be in one of the best—a combat Marine regiment, perhaps, an elite college, the executive committee of a company, a religious sect, a fraternity, a garden club—any collectivity that can be compared favorably with other, competing groups of the same category. (…)

The elementary drive to form and take deep pleasure from in-group membership easily translates at a higher level into tribalism. People are prone to ethnocentrism. It is an uncomfortable fact that even when given a guilt-free choice, individuals prefer the company of others of the same race, nation, clan, and religion. They trust them more, relax with them better in business and social events, and prefer them more often than not as marriage partners. They are quicker to anger at evidence that an out-group is behaving unfairly or receiving undeserved rewards. And they grow hostile to any out-group encroaching upon the territory or resources of their in-group. When in experiments black and white Americans were flashed pictures of the other race, their amygdalas, the brain’s center of fear and anger, were activated so quickly and subtly that the centers of the brain were unaware of the response. (…)

Civilization appears to be the ultimate redeeming product of competition between groups. Because of it, we struggle on behalf of good and against evil, and reward generosity, compassion, and altruism while punishing or downplaying selfishness. But if group conflict created the best in us, it also created the deadliest. As humans, this is our greatest, and worst, genetic inheritance.”

Abril 1, 2012

Noruega: O Paradoxo da Igualdade dos Sexos

Filed under: Cultura,Double standards,Educação,Teoria,Videos — Filipe Faria @ 02:21

A Noruega é considerada o país modelo da igualdade. Mas, tal como em qualquer outro país do mundo,  também lá as distribuições profissionais entre homens e mulheres são desiguais. A brigada académica dos estudos de género e feminismos apressa-se a explicar que a culpa é da educação e dos valores “conservadores” da sociedade e que são estes que precisam de ser combatidos. Para elucidar a questão, neste documentário, um jornalista norueguês foi falar com cientistas sociais e naturais que lidam com as diferenças biológicas entre sexos e recolheu provas dessas diferenças. Confrontados com as mesmas, os académicos feministas negaram-nas, mantendo que os seres humanos são tábuas rasas. Com que base? Quando o jornalista pergunta uma académica feminista qual é a sua base científica para negar que existam diferenças comportamentais biológicas entre homens e mulheres, ela responde: ”digamos que tenho uma base teórica”. Ou seja, por outras palavras, ela leu Marcuse, Adorno e todos os derivados da Escola de Frankfurt e ficou convencida. Assim se conclui novamente que, independentemente dos factos, o igualitarismo radical ideológico predominante na academia ocidental não precisa da ciência nem da realidade, nem, em última instância, do bom senso.

Leitura complementar: A Tábua Rasa, a Escola de Frankfurt e a “Broken Britain”

Visionamento complementar: Steven Pinker on Egalitarianism

Março 29, 2012

Anthony de Jasay: What is the Liberal Stand on Immigration?

Filed under: Política,Teoria — Filipe Faria @ 03:39
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Immigration: What is the liberal stand? : By Anthony de Jasay

Classical liberals have a bad conscience about immigration controls, let alone severe ones. The liberal mind has always disliked frontiers and regards the free movement of people, no less than those of goods, as an obvious imperative of liberty. At the same time, it also considers private property as inviolable, immune to both the demands of the ‘public interest’ (as expressed in the idea of the ‘eminent domain’) and of the rival claims of ‘human rights’ (satisfied by redistributing income to the poor who have these rights). Private property naturally also implies privacy and exclusivity of the home.

One strand of libertarian doctrine holds that it is precisely private property that should serve as the sole control mechanism of immigration. Immigrants should be entirely free to cross the frontier—indeed, there should be no frontier. Once in the country, they should be free to move around and settle in it as if it were no man’s land, as long as they do not trespass on any part of it that is someone’s land, someone’s house, someone’s property of any sort. They can establish themselves and find a living by contracting to work for wages and to find a roof by paying rent. In all material aspects of life, they could find what they need by agreements with owners and also by turning themselves into owners. Owners, in turn, would not object to seeing immigrants get what they had contracted for.

A very different stand can, however, be defended on no less pure liberal grounds. For it is quite consistent with the dictates of liberty and the concept of property they imply, that the country is not a no man’s land at all, but the extension of a home. Privacy and the right to exclude strangers from it is only a little less obviously an attribute of it than it is of one’s house. Its infrastructure, its amenities, its public order have been built up by generations of its inhabitants. These things have value that belongs to their builders and the builders’ heirs, and the latter are arguably at liberty to share or not to share them with immigrants who, in their countries of origin, do not have as good infrastructure, amenities and public order. Those who claim that in the name of liberty they must let any and all would-be immigrants take a share are, then, not liberals but socialists professing share-and-share alike egalitarianism on an international scale.”

Leitura complementar: A Filosofia Libertária e a Falácia das Fronteiras Abertas

 

Março 25, 2012

A Tábua Rasa, a Escola de Frankfurt e a “Broken Britain”

Filed under: Diversos,Livros,Política,Teoria — Filipe Faria @ 19:39
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Em resposta ao meu texto “Democracia, “Common Law” e Broken Britain” onde abordo o declínio acentuado das tradições britânicas, o Samuel de Paiva Pires escreveu um texto onde tenta explicar com eloquência o ataque contemporâneo à tradição recorrendo a Roger Scruton e John Gray e aos abusos do racionalismo. Adicionalmente, nesse texto deixa-me a seguinte pergunta:

Que papel teve o pensamento da Escola de Frankfurt nesta destruição da “Britishness”?

Naturalmente que a actual situação de perda de identidade britânica pela via da imigração (não-europeia) em massa tem mais do que uma causa e não podem todas ser reduzidas a uma corrente de pensamento produzida por intelectuais. Para além do poder destas ideias no poder político, entre outros factores contextuais, juntam-se os lobbies pró-imigração de grupos de minorias étnicas, de activistas humanitários, de instituições supranacionais como o Concelho da Europa ou a ONU e de grandes empresas interessadas em mão de obra barata ou em mercados internos alargados para os seus produtos (e.g. sector da construção imobiliária).

Porém, sem a força das ideias por trás deste processo, nunca se teria chegado a um ponto onde muitas das principais cidades inglesas terão uma minoria de britânicos nativos num curto espaço de tempo. Mas que ideias foram estas?

As mais importantes foram a crença na tábua rasa e os postulados da Escola de Frankfurt.

A Tábua Rasa

A crença na tábua rasa (a ideia de que os seres humanos não têm cruciais pré-disposições comportamentais de origem genética) começou-se a desenvolver na ciência contemporânea com autores como Franz Boas, um judeu alemão que foi para os EUA e que por volta dos anos (19)20 fundou a escola de antropologia na academia americana com mais impacto até aos dias hoje. Franz Boas dedicou a sua vida académica a tentar mostrar que não existiam quaisquer diferenças inatas entre populações e grupos humanos e que as diferenças observáveis eram puramente culturais, esteve ligado a movimentos de extrema esquerda e sempre combateu a ideia de “evolução por meios de selecção natural” como explicação para essas diferenças, temendo que elas fossem usadas para fins políticos (como veio a acontecer na Alemanha). Os seus estudos postulavam que tribos primitivas de Samoa tinham muito para ensinar aos ocidentais (que na altura se julgavam civilizacionalmente superiores), dando assim o pontapé de saída para o relativismo cultural pós-moderno que equipara as obras de Beethoven a estátuas de barro de tribos da Samoa. As bases teóricas para uma nova fundação de um igualitarismo radical estavam assim formadas.

Este pensamento  atingiu um dos seu pontos altos com o precursor do Behaviorismo John B. Watson, académico que proferiu a famosa frase onde afirmava que seria capaz de transformar qualquer criança no que quer que fosse (médico, bombeiro, professor, mendigo, etc…) para mostrar como a educação ou socialização era praticamente tudo o que definia o ser humano e não as suas pré-disposições genéticas.

A crença na tábua rasa alastrou-se a todas as disciplinas das ciências sociais e, com algumas excepções, perdura até hoje. O principal impulsionador desta crença é a ideia reconfortante de que é possível melhorar a natureza do homem e assim transformá-lo em algo novo, algo que o socialismo latente na academia via como vital para os seus ideais.

Com a segunda guerra mundial  e com o uso erróneo das ideias evolucionistas pelos nacionais socialistas, estas foram praticamente ignoradas na academia, ficando até hoje remetidas quase exclusivamente para as ciências naturais, nomeadamente a Biologia.

A Escola de Frankfurt

A Escola de Frankfurt foi uma escola de pensamento baseada num instituto criado na Alemanha em 1923, constituído por marxistas judeus que visavam aprofundar o marxismo académico. Entre estes, os nomes com mais proeminência foram Herbert Marcuse, Theodore Adorno, Max Horkheimer e Walter Benjamin. No início, o instituto dedicava-se essencialmente a estudos económicos clássicos marxistas, mas rapidamente virou o seu foco para a cultura. Antes desta viragem, já outros marxistas como Antonio Gramsci e György Lukács tinham notado que apesar da primeira Guerra mundial, o proletariado não se tinha revoltado na Europa e que a razão para tal estava nos valores culturais do ocidente. Com base no conceito de “ideologia” de Karl Marx, eles consideravam que os valores e instituições culturais do ocidente eram resultado de propaganda capitalista destinada a cegar o povo e manter o poder da burguesia (i.e. do grande capital). Lukacs chegou mesmo a perguntar “quem é que nos salva da cultura ocidental?”.

Os académicos da Escola de Frankfurt viram a 2ª Guerra mundial acontecer e chegaram à mesma conclusão; isto é, perguntaram-se como foi possível que o proletariado se tenha entregue ao fascismo e nacionalismo em vez de se rebelar contra o capitalismo? A resposta foi a mesma: eram a cultura e os valores ocidentais que estavam no caminho da revolução comunista. Como tal, lançaram-se numa carreira cujo fim último seria derrubar as instituições culturais do ocidente.

A “arma” intelectual que criaram denominou-se “teoria crítica”. O seu objectivo era em linhas gerais criticar, colocar em questão todas as instituições da civilização ocidental: a família, o papel das mulheres e dos homens em sociedade, os valores cristãos, os conceitos de beleza, etc…

Estes académicos fugiram de Hitler a caminho dos EUA, onde continuaram o seu trabalho, e encontraram por lá aquilo que consideravam ser uma cultura fascista burguesa que reprimia os indivíduos. Recorrendo à psicanálise de Freud, Marcuse usou o conceito de “repressão sexual” para mostrar como os americanos eram controlados pelos detentores do capital via uma doutrina burguesa de repressão sexual e família. Sem surpresa, Marcuse tornou-se no “poster boy” intelectual dos movimentos “paz e amor livre” da “new left” dos anos 60.

Ao aperceberem-se que a classe trabalhadora nunca se iria rebelar e estava satisfeita com o sistema capitalista, o alvo a atingir mudou. Era preciso gerar novos indignados para gerar revolução, e foi neste ponto que o foco se virou para as minorias raciais oprimidas, homossexuais e as mulheres. Marcuse foi muito claro quando revelou que se as mulheres se rebelassem, grande parte do trabalho teria sido feito, pois com mais de 50% da população “em libertação do machismo” seria possível mudar com certeza os valores ocidentais. Assim, boa parte da sua esperança estava no feminismo.

A forma de promover esta revolução baseou-se no aprofundamento da tábua rasa; ou seja, no veicular a ideia de que todas as diferenças entre os vários grupos humanos são “construções sociais” e que devem ser combatidas. Não há raça, não há mulheres nem homens, não há homossexuais ou heterossexuais, o que há são imposições e doutrinações burguesas que fazem com que os indivíduos tenham os comportamentos que têm em sociedade. Nada é natural e inato, tudo é produto da cultura que, no seu entender, tinha de ser mudada para libertar todas essas pessoas das construções sociais para onde foram remetidos.

Com isto desenvolveu-se o relativismo e o pós modernismo, pois nada tem assim um valor objectivo nem qualquer função, e todas as culturas são boas e más ao mesmo tempo. Qualquer juízo de valor é uma forma de intolerância.

Marcuse definiu em particular aquilo que veio a marcar o zeitgeist (espírito dos tempos) até aos dias de hoje quando escreveu que a verdadeira tolerância implica intolerância contra qualquer discurso de direita que se baseie em salientar as diferenças de uma cultura sobre outra, de uma etnia sobre outra, de o mérito de uma pessoa sobre outra, de um sexo sobre outro, etc… Isto transformou-se no que hoje chamamos de doutrina do politicamente correcto ou, como também é conhecida, marxismo cultural. Desta forma, qualquer debate que envolva uma das partes a alegar que existem desigualdades inatas e naturais entre seres humanos é imediatamente encerrado. Em discurso político, não existe liberdade de expressão para quem não acreditar na tábua rasa.

Broken Britain

Esta filosofia acabou por dominar a academia do mundo anglo-saxónico e dos países do norte/centro da Europa. Quando o genial precursor da sociobiologia (agora mais conhecida como psicologia evolutiva) Edward O. Wilson  lançou nos anos 70  a disciplina que estuda as diferenças no comportamento humano à luz da evolução genética e cultural, este foi atacado por grande parte da academia e inclusivamente ,numa conferência, terminou literalmente com um balde de água na cabeça, presente de um grupo anti-racista da new-left americana. Wilson, claro, não incitou qualquer forma de ódio racial, mas o simples facto de ter lançado uma disciplina que rejeita a tábua rasa foi o suficiente para ser atacado pelo “establishment” inquinado à esquerda.

Apesar de este hostil ambiente académico nas ciências sociais permanecer, geneticistas, biólogos, psicólogos evolutivos não têm dúvidas de que existem profundas diferenças entre humanos de natureza inata e evolutiva, que não têm origens na cultura ou na socialização, seja ela burguesa ou de qualquer outro cariz. Porém, são os cientistas sociais que lançam as ideias “políticas” para a sociedade, onde são depois promovidas por jornalistas (“second hand dealers of  ideas”) e políticos (“second hand followers of ideas”), e estes académicos são ainda os herdeiros da escola de Frankfurt, ocupados com estudos de género, estudos africanos, estudos multiculturais, estudos de desenvolvimento, estudos feministas, entre outros. Por outras palavras, estudos marxistas aplicados à cultura, numa era em que quase ninguém acredita no marxismo económico.

Foi neste ambiente intelectual dos últimos 70 anos que se desenvolveu a progressiva perda de identidade britânica, assim como a respectiva balcanização cultural e étnica da Grã Bretanha. Imbuídos nesta nova cultura de rejeição dos valores tradicionais ocidentais, os políticos britânicos promoveram a imigração em massa não-europeia alegando que todas as culturas devem ser encaradas como iguais e que, tal como Marcuse deixou escrito,  tudo o que é necessário é tolerância para com elas e intolerância para com os que se opõem a esta destruição cultural. Para o combate a quem se opunha a este processo estavam (e estão) reservados epítetos de fascista, extremista, racista e a imposição de quotas e multas. Em suma, autoritarismo “anti-direita”. Assim, a direita  política main-stream transformou-se em esquerda, incapaz de contrariar este novo ambiente intelectual e social. Tal como Andrew Neather (o conselheiro de Tony Blair) relevou, a esquerda quis esfregar o nariz da direita na “diversidade”.

Na realidade, como é facilmente observável, diferentes grupos de pessoas geram culturas diferentes e geralmente  de socialização incompatível no mesmo espaço geográfico. Ignorando esta evidência, mergulhados no espírito da tábua rasa, economistas  e demais cientistas sociais continuam a temer o decrescer da população nativa e a incentivar mais imigração para aumentar a extensão do mercado (como postulava Adam Smith) e assim manter o crescimento económico (da mesma forma que temem a deflação monetária). Porém, em sociedade partidas culturalmente, com baixos níveis de confiança e ressentimento entre grupos étnicos, o mercado será sempre primeiro a sofrer e o autoritarismo a recrudescer.

Olhando para o Reino Unido, mas igualmente para outros países europeus, ficamos com poucas dúvidas sobre o sucesso que este grupo de académicos de Frankfurt teve na destruição das instituições culturais ocidentais e, em termos gerais,  na progressiva destruição de uma civilização.

Março 20, 2012

Democracia, “Common Law” e a “Broken Britain”

Filed under: Internacional,Justiça,Livros,Religião,Teoria — Filipe Faria @ 16:32

O meu caro amigo e colega Samuel escreveu um texto onde procurou clarificar que não há apenas um liberalismo monolítico mas sim vários, e fê-lo com a sua eleição pessoal e apologia do modelo liberal clássico de F.A. Hayek.

Apesar de considerar Hayek um autor extremamente interessante e multifacetado (que tal como eu se dedicou ao estudo da evolução, psicologia e economia), nunca me poderia considerar Hayekiano como o Samuel o fez. Havendo muitas razões para tal, irei agora apenas debruçar-me sobre um ponto que considero importante no seu pensamento: o governo limitado democraticamente e a “Common Law”.

O Samuel descreveu a posição Hayekiana neste campo da seguinte forma:

“Hayek insere-se numa linha de pensamento que perspectiva a democracia como um método que se preocupa essencialmente em limitar o poder de quem governa, o que é uma concepção característica da teoria e prática da democracia de origem anglo-saxónica, por oposição à concepção de origem francesa e continental que vê a democracia assente em princípios como o bem comum e a vontade geral. (…) As leis, se partirmos do jusnaturalismo, não emanam no Estado, e no sistema de direito anglo-saxónico são descobertas através de um processo análogo ao do mercado, por tentativa e erro.”

De facto, Hayek considerava a democracia ilimitada como uma das piores formas de governo (a tirania da maioria); porém, a forma como defende a democracia como meio de limitar o governo e como aliado do liberalismo é igualmente questionável, principalmente na sua consistência epistemológica. Todas as democracias (liberais) representativas ocidentais são constitucionalmente limitadas e, no entanto,  poucas ou nenhumas conseguem limitar o governo de forma substancial. A questão torna-se mais grave quando observamos a “teoria e prática” do mundo anglo saxónico. Para onde nos levou a tal “common law” britânica baseada na tradição em que Hayek se baseia para suportar a sua ideia? Levou-nos para um país (Reino Unido) que em muitos sentidos está infinitamente pior que Portugal. Economicamente, tal como escreveu Niall Ferguson, o RU está numa situação tão má ou pior que os PIIGS (“outpigging the piigs”), revelando que o BIS projecta uma dívida pública para 2040 de valores entre os 300 e os 500% do PIB. (dívida necessária para suportar o indomável Estado Social). Isto é tudo menos uma governação limitada pela democracia e apoiada pela tradição. A vitalidade financeira da City e o facto de estarem fora do euro compram algum tempo, mas a médio/longo prazo este é um caminho insustentável.

Em termos culturais a questão é muito pior, os últimos 60 anos foram um ataque à tradição cultural britânica, e esta está em muitos sentidos praticamente morta. A imigração em massa promovida pelos partidos políticos desde 1945 alterou a cultura britânica de forma irreparável. Em Londres, já só se encontram (segundo dados oficiais) cerca de 50% de nativos britânicos (“white british”) e, pelo resto do país, em muitas outras cidades britânicas como Birmingham ou Leicester estes passarão igualmente a ser minorias nas suas localidades. Com a natalidade e imigração do seu lado, os imigrantes de matrizes essencialmente não-europeias que os vão substituir terminarão com o que resta da cultura britânica dentro de vários anos. Por outras palavras, a ilha será apenas geograficamente europeia com um extenso povo não-europeu e balcanizado. Os próprios britânicos começam a fugir das cidades para viverem no campo ou a saírem do país de todo por já não sentirem que as cidades têm uma cultura que lhes é familiar, tal como o Morrissey (vocalista dos The Smiths) ou John Cleese (Monty Phyton) disseram e fizeram. Ademais, a tradição da liberdade de expressão começa a diminuir progressivamente, com as multas, penas de prisão e penas diversas para todos os que se queixam do processo de integração multicultural forçada. Por conseguinte, a curto prazo, a forma de manter de pé uma sociedade culturalmente partida (a célebre “Broken Britain”) é através da crescente subsidiação dos inadaptados e através do autoritarismo; que hoje em dia se manifesta na imposição de leis anti-racistas/anti-xenófobas que afectam todo o discurso humano e dão enorme poder a burocratas que fiscalizam desde crianças a pais, até jogadores de futebol. Ademais, o governo tenta actualmente proibir o uso de símbolos cristãos no emprego (como a cruz ao pescoço) para remover os restos identitários da nação. Conhecendo bem a realidade de ambos os países, neste momento arrisco dizer que Portugal usufrui de uma maior liberdade de expressão.

Sem surpresas, a independência escocesa em curso vem no seguimento deste processo de perda identitária.

Para quem (como eu) estudou ciência política/direito e teve de recitar (como gospel) a diferença entre a tradição legal britânica de “common law” (feita de baixo para cima) e a continental francesa (de cima para baixo), vale a pena constatar que na prática a diferença sob processo democrático representativo é quase nula. Ou seja, vale a pena tirar a cabeça de alguns livros de teoria política clássicos e olhar para a realidade actual, pensando o fenómeno político através de outras lentes metodológicas.

Desta forma, o que pretendo mostrar é que não é a democracia ou a “common law” de origem britânica que limitam o governo tal como Hayek postula, mas sim as pessoas que limitam os efeitos negativos da democracia e do governo através da sua proximidade ao governo, seja qual for a forma deste governo.  O pequeno e descentralizado Liechtenstein é dos poucos países europeus onde o governo está limitado (apesar de ser uma monarquia quase absoluta) e na Suíça a democracia directa nunca limitaria o governo como o faz se não fosse o elevado grau de descentralização cantonal. Claramente, é sim a variável da descentralização e governo local que é relevante nesta questão e não a democracia. A democracia (liberal) de larga de escala nunca limitará absolutamente nada; tal como postula a teoria da escolha pública, ela será invariavelmente capturada pelos grupos de interesse que concentrarão os benefícios em si mesmos e dispersarão os custos sobre a extensiva população desorganizada e racionalmente ignorante sobre política.

O Reino Unido que o diga…

Março 16, 2012

The “Ever Closer (European) Union”

Filed under: Teoria,União Europeia — Filipe Faria @ 16:52
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“All that rubbish of small states still existing in Europe must be liquidated as fast as possible. The aim of our struggle must be to create a unified Europe: the Germans alone can really organize Europe.” – Adolf Hitler

Taken from the diary of Joseph Goebbels: May 8, 1943.

Março 6, 2012

O Marxismo Cultural Feminista de Bruxelas

Filed under: Teoria,União Europeia,Videos — Filipe Faria @ 18:43

“A Comissária de Justiça, Viviane Reding, vai anunciar hoje os primeiros passos para uma legislação a nível europeu, um ano após ter ameaçado avançar com medidas mais duras se nenhum progresso fosse alcançado para promover a igualdade de géneros no mundo dos negócios.”

“Não sou uma fanática por quotas… mas gosto dos resultados que as quotas trazem”, disse Reding.

O Marxismo Cultural Feminista de Bruxelas – Por Daniela Silva

“Mais uma vez assistimos à omnisciente União Europeia a velar pelo equilíbrio das nossas sociedades, cheias de tendências obstinadas, que carecem de um tutor. Se já é banal assistirmos às regulamentações caricatas diariamente, desta vez elas trazem consigo os laivos do feminismo sedento de tratamento preferencial; referimos-mos assim às quotas por género. Sendo uma das bandeiras sobejamente conhecidas nos últimos anos, sob alçada de recomendações internacionais, revela-se agora na União Europeia a ambição de punir empresas que não promovam mais mulheres nos cargos de administração de empresas.

A ideia de que é necessário procurar uma proporcionalidade estatística como ponto de equilíbrio é negar que existem desigualdades em consequência de diferentes características pessoais e de desempenho e pretende, somente, usar o discurso igualitário para fazer avançar legislação favorável, envolta na típica justificação de complexidade social que só a burocracia do Estado pode vencer. Numa sociedade livre, cabe ao proprietário escolher contratações e demissões, no sentido que potencie mais a sua vantagem competitiva no mercado, enquanto o pretensioso discurso oficial do “longo caminho a percorrer” incorre somente em desperdícios ao tentar aplicar receitas contra a divisão do trabalho e diversidade voluntária. As quotas por género, ao ignorarem indivíduos e circunstâncias concretas, no tempo e no espaço, soam como reparações de guerra que o sexo oposto parece estar obrigado perpetuamente a pagar.”

Leitura complementar: “Será que o Marxismo Falhou de Facto?”

Março 5, 2012

Alexandra Swann: One More Reason to “Love” the UKIP

“The European Union is crumbling around us, thank god (…) so the UKIP doesn’t (only) stand for UK’s independence from Europe; it stands for independence from the massive nanny state, independence from political correctness, independence from our monstrous tax burden, it stands for the independence of the individual.” Alexandra Swann

Fevereiro 27, 2012

Sobre Margaret Thatcher: O Positivo e o Negativo (2)

Filed under: Política,Política Fiscal,Política Monetária,União Europeia — Filipe Faria @ 18:52

Nos comentários ao post que contém a análise de Murray Rothbard ao governo de Margaret Thatcher, o Miguel Botelho Moniz alerta para o facto de Rothbard estar enganado quando diz que no seu período de governo a despesa estatal aumentou em percentagem do PIB. Segundo o primeiro gráfico é possível verificar que em termos nominais a despesa esteve de facto ligeiramente a subir, mas isto deve-se ao crescimento económico e ao processo inflacionário.

Já em termos percentuais em relação ao PIB, como se pode ver no segundo gráfico, torna-se claro que durante o período “Thatcherite” (1979-90) a despesa estatal baixou consideravelmente. Desta forma, a não ser que ele tivesse tido acesso a dados consideravelmente diferentes destes, Rothbard errou neste ponto.

Margaret Thatcher diminuiu consideravelmente os gastos do Estado em percentagem do PIB.

Sobre Margaret Thatcher: O Positivo e o Negativo

Filed under: Política,Política Monetária,União Europeia,Videos — Filipe Faria @ 15:23

Adeus à Dama de Ferro: Por Murray Rothbard

Positivo: A oposição ao projecto europeu (União Europeia), a retórica liberal e as privatizações em massa

Negativo: Política monetária inflacionista e aumento da despesa estatal (“ A porcentagem de gastos e de receitas tributárias em relação ao PIB aumentou durante seu regime, e a inflação monetária nunca foi contida.”)

Sobre Thatcher e a União Europeia, Rothbard deixou escrito:

“há uma área da macroeconomia da qual certamente temos de lamentar a saída de Thatcher: ela era a única voz contra a criação de um Banco Central Europeu emitindo uma nova e única moeda europeia. (…) a essência da nova Europa não será sua área de livre comércio, mas sim uma monstruosa nova burocracia estatal, sediada em Estrasburgo e Bruxelas, a qual irá controlar, regular e “igualar” as alíquotas de impostos em todos os países, coercivamente impondo a elevação dos impostos naqueles países que possuem uma carga tributária mais baixa. E o pior aspecto desta Europa unificada é exatamente aquela área na qual Madame Thatcher centrou sua artilharia: a moeda e o sistema bancário.  Embora os monetaristas estejam completamente errados em preferir uma Europa (ou um mundo) guiada por diferentes tipos de dinheiro de papel fragmentados em nível nacional em vez de um padrão-ouro internacional, eles estão corretos em alertar sobre os perigos deste novo esquema.  Pois o problema é que a nova moeda, obviamente, não será o ouro — que é uma moeda produzida no mercado e pelo mercado —, mas sim uma única moeda de papel, fiduciária e de curso forçado.  De modo que o resultado deste esquema neokeynesiano será um dinheiro fiduciário inerentemente inflacionista, cuja emissão será controlada monopolisticamente pelo Banco Central Europeu — isto é, por um novo governo regional.

Este arranjo, por sua vez, facilitar ainda mais para que os Bancos Centrais dos EUA, da Grã-Bretanha e do Japão colaborem e atuem coordenadamente com o novo Banco Central Europeu, e assim conduzam o mundo rapidamente para aquele velho sonho de Keynes: um Banco Central Mundial emitindo uma única moeda de papel, de aceitação obrigatória para todos os países.  E assim estaremos definitivamente sem ter para onde fugir, com o dinheiro e a macroeconomia mundial estando totalmente à mercê de uma inflação em escala mundial, controlada centralmente por iluminados e autoproclamados mestres keynesianos.

É de se lamentar que Margaret Thatcher não tenha sabido articular sua oposição à nova ordem monetária europeia em tais termos.”

 

Fevereiro 22, 2012

Godfrey Bloom: primeiro estranha-se, depois entranha-se

Filed under: União Europeia,Videos — Filipe Faria @ 00:08

No seguimento do post do André Azevedo Alves que mostra que a esquerda começa a simpatizar com a retórica  eurocéptica (e libertária) de Nigel Farage do UKIP, deixo aqui outra sugestão igualmente  relevante que merece ser descoberta pela esquerda: Godfrey Bloom (igualmente do UKIP e igualmente libertário). A falta de estilo combinada com uma honestidade própria de quem parece já não ter nada a perder faz com que as intervenções de Bloom sejam das mais interessantes do parlamento europeu e da europa política em geral.  (mais…)

Fevereiro 18, 2012

Direita, Esquerda e QI

Filed under: Comentário,Política,Teoria — Filipe Faria @ 13:50
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Segundo o psicólogo evolutivo Satoshi Kanazawa da London School of Economics, os conservadores são em média menos inteligentes que os sociais democratas (liberals). Os conservadores são aqui definidos como aqueles que desejam impostos baixos e que preferem praticar caridade de forma voluntária no sentido de escolher pessoalmente os recipientes das ajudas. Normalmente estes recipientes são pessoas geneticamente próximas (família, comunidade, raça, etc…). Por outro lado, os sociais democratas (liberals) são aqueles que estão dispostos a redistribuir riqueza via Estado para ajudar também outros que estão geneticamente distantes. Nas palavras de Kanazawa, a ideologia destes define-se “as the genuine concern for the welfare of genetically unrelated others and the willingness to contribute larger proportions of private resources for the welfare of such others.

O estudo de QI revelado por Kanazawa mostra que os conservadores têm em média QIs mais baixos do que os seus antagonistas ideológicos de esquerda. A reacção mais comum dos que se dizem de direita é atacarem imediatamente a validade dos testes de QI. Contudo, isto é apenas a saída mais fácil para uma questão que é muito mais relevante do que parece.

Os testes de QI, apesar de muito criticados (na maioria dos casos por razões ideológicas), não só são abundantes e executados por milhares de cientistas, mas também revelam resultados consistentes ao longo do tempo. A maior dessas consistências é a forte correlação positiva que existe entre QI e sucesso económico-social, tanto nos indivíduos individualmente considerados, como em grupos geograficamente localizados. Isto não significa que estes testes que medem G (General Intelligence) sejam perfeitos na sua capacidade de medição, significa sim que apresentam uma capacidade de previsão fortíssima.

Neste caso, Kanazawa não revela o primeiro estudo que aponta para este resultado, vários outros já apontam neste sentido. Como tal, em vez de atacar cegamente os resultados, parece-me mais lógico tentar perceber porque é que existe esta forte correlação entre altos QIs e o apoiar de políticas estatais ditas de esquerda, principalmente perante a evidência do predomínio do pensamento igualitário nas instituições das elites.

Do ponto de vista evolutivo, no sentido da perpetuação genética,  é bastante mais racional praticar caridade com aqueles que nos são geneticamente próximos (e que como tal partilham mais genes) do que com aqueles que não o são, tal como postula a teoria sociobiológica da Inclusive Fitness. Esta atitude deveria ser suficiente para colocar os conservadores como aqueles que merecem o epíteto de inteligentes; mas o contrário parece ser o que a realidade actual nos revela. Segundo a minha análise, tal deve-se a 2 razões:

A primeira razão passa pelo facto de que as pessoas mais inteligentes têm uma capacidade para o raciocínio abstracto que os leva a acreditar que existem soluções desenhadas racionalmente que podem mudar o mundo via planeamento central. Muitas dessas soluções desenhadas por eles mesmos. Aquilo que F.A. Hayek chamou de “arrogância fatal” (The Fatal Conceit).

A segunda razão prende-se com o facto de estas pessoas de QI mais elevado considerarem que vão ser elas, directamente ou indirectamente, a controlar o processo estatal, seja no governo, ou em instituições públicas ou em fortes grupos de interesse. Tal confere-lhes, como é claro, inúmeros benefícios pessoais, o que acentua o papel do auto-interesse, que em boa parte dos casos termina em alocação de recursos privilegiados aos seus “geneticamente próximos”. Isto é, o objectivo é  tendencialmente o mesmo, mas a estratégia para o atingir é mais “sofisticada” do que a dos conservadores.  Não é assim de surpreender que os estudos mostrem que a academia, a imprensa,  os cargos públicos e outras posições de destaque estejam compostos na sua maioria por sociais democratas (liberals).

Visto que conceitos de direita e esquerda são veículos em permanente mutação, a crescente atracção intelectual pelo funcionamento, não só mercado, mas também da acção humana, poderá dentro de algum tempo alterar estas distribuições consideravelmente. Porém, dados os incentivos e vantagens que o Estado dá às elites cognitivas, não é lógico pensar que a atracção das mesmas pelo Estado irá mudar de forma drástica. Pelo menos não no actual contexto. Por fim, como curiosidade, é importante referir que apesar destes estudos contemporâneos mostrarem que em média, as pessoas de esquerda têm um QI mais elevado do que as de direita, a associação internacional Mensa, que aceita apenas elementos com QI que estão entre os melhores 2% da população, é constituída essencialmente por libertários.

Mensans tend to be a refreshingly and disproportionately independent, free-thinking, (lower-case) libertarian-leaning bunch. This group is intended as a relatively nonpartisan forum for the intelligent, reasoned discussion of liberty-related issues, and how to pursue an environment of philosophically honest and consistent, practical limited government, individual liberty and personal responsibility.”

Fevereiro 15, 2012

“Italy is where this will all end”

Filed under: União Europeia,Videos — Filipe Faria @ 20:05

Fevereiro 8, 2012

O Princípio da Secessão Como Valor Liberal

Filed under: Política,Teoria,União Europeia — Filipe Faria @ 19:57

Há algumas semanas atrás tive o privilégio de estar presente na Universidade Queen Mary em Londres onde decorreu uma palestra/tertúlia para cerca de 15 pessoas com o eurodeputado britânico Daniel Hannan. Hannan dispensa grandes apresentações; é uma das vozes britânicas mais activas a favor do fim da União Europeia, especialmente como projecto federal, e um reputado defensor de princípios do liberalismo clássico.

Um dos argumentos mais importantes que Hannan dá contra o actual processo de centralização europeu em curso é o facto de a Europa ter desenvolvido a sua civilização e atingido prosperidade precisamente porque era um território descentralizado, com inúmero Estados independentes e sob o efeito da competição fiscal. Para consubstanciar este argumento, ele constantemente enfatiza as vantagens dos países pequenos (Liechtenstein, Singapura, Hong Kong, Suíça) e de como estes são em média mais ricos, prósperos e livres do que países vastos onde o Estado controla uma grande população e território.

Ele não só está coberto de razão, mas tem também o mérito de ser dos poucos políticos europeus a enfatizar esse facto numa era em que a maior parte dos políticos deixa-se seduzir pelos salários e carreiras eurocratas; significando na prática que apoiam a destruição das independências das nações, assim como a construção de um super Leviatã europeu cuja palavra de ordem provém da (agora modernizada) doutrina socialista: “harmonização”.

Hannan é igualmente um grande defensor da democracia directa onde a descentralização, o localismo e o referendo são princípios fundamentais. Conhecendo a sua posição a favor de uma Europa descentralizada, perguntei-lhe publicamente se advoga o mesmo princípio secessionista para os Estados dos EUA que usa para os da UE. Ademais, afirmei com veemência que os 50 Estados americanos estariam muito melhor sendo autónomos do que obedecendo a um Estado federal. Adicionalmente, perguntei-lhe se, segundo a mesma lógica, ele apoia a independência da Escócia.

Sentindo-se algo desconfortável em relação ao tema, respondeu-me que, ao contrário do caso da União Europeia, não acha bem que no caso dos EUA se tente “partir” um país que o é de forma legítima pois tem o apoio do povo. No caso Escocês, disse que não apoia a independência da Escócia essencialmente porque não acredita que o povo escocês queira ser independente e considera que os escoceses iriam provavelmente votar contra a sua própria independência no referendo que se avizinha.

Não sei se estas posições se devem a um sentimentalismo anglo saxónico que gosta de percepcionar o Reino Unido e os EUA como unos ou se advêm do facto de Hannan, apesar de ser um dos poucos políticos academicamente bem informados,  ser, afinal de contas, um político de um partido de forte tradição unionista (o partido conservador).  Seja qual for a razão, apesar de regularmente admirar o seu trabalho, não posso deixar de apontar aquilo que considero ser alguma falta de consistência nesta atitude dicotómica (UE vs EUA/RU).

A independência da Escócia seria extremamente benéfica para a causa liberal que Hannan defende: com esta secessão a Escócia transformar-se-ia num competidor fiscal e deixaria de viver de subsídios Londrinos, acabando assim com a ilusão socialista escocesa actual de que o dinheiro cai do céu. Ademais, a competição fiscal escocesa iria igualmente obrigar o Estado Inglês a competir fiscalmente sendo obrigado a descer as actuais cargas fiscais.

O mesmo se pode dizer para a independência dos inúmeros Estados dos EUA. Porém, os defensores da manutenção do Estado federal americano alegam que já existe actualmente competição fiscal nos EUA e como tal vale a pena mantê-lo; mas tal é um abuso de linguagem. O Estado federal americano consome quase 70% da receita fiscal americana. Alegar que apenas cerca 30% de competição fiscal interna é verdadeira competição fiscal parece-me claramente um insulto para o conceito.

Naturalmente, quanto eu retorqui com o anterior argumento, Hannan revelou que não concorda que os governos centrais, quer no RU, quer nos EUA, tenham tanto poder, devendo estes entregar total autonomia às regiões e localidades mas mantendo a função da defesa e política externa em si mesmo.

Contudo, considero que tal é manifestamente uma impossibilidade: quando existe um Estado poderoso, centralizado, com vasto território/população e distante dos cidadãos, a tendência natural será para maximizar a concentração de poder. Tal observa-se no proto-Estado burocrático que é a UE e igualmente nos EUA, onde nem uma constituição marcadamente liberal clássica conseguiu limitar e impedir o crescimento totalitário do Estado central. Desta forma, os constrangimentos ao poder dos Estados devem advir essencialmente de 2 fontes: da proximidade dos cidadãos ao centro de poder e da competição fiscal entre Estados. Só as secessões colocam um fim ao processo de centralização e acumulação de poder, tal como se verificou com os países da ex-União Soviética.

Talvez essa não seja vontade de Hannan, mas existe uma forte possibilidade de os escoceses se tornarem independentes em breve via referendo (ou não fosse o partido independentista que está em maioria no parlamento escocês); considero igualmente que os EUA terão muitas dificuldades no futuro em evitar movimentos secessionistas numa sociedade progressivamente multi-étnica onde, segundo os índices de fecundidade e imigração, os construtores daquele modelo político (os euro-americanos) passarão a ser uma minoria populacional. Estes movimento tornar-se-ão evidentes aquando a falência em curso do actual Estado “welfare-warfare” americano. Afinal de contas, o etno-nacionalismo está por trás da dissolução de todos os impérios centralizadores que conhecemos até hoje, desde o império Romano ao Otomano.

A contar de 1914 até ao presente, passámos de 62 para 193 Estados soberanos. Estamos aparentemente no bom caminho; porém,  em todas as épocas existem forças centralizadoras e descentralizadoras. A promoção do princípio da secessão como valor liberal é assim de vital importância para as segundas e, consequentemente, para o liberalismo como ideal, seja na Europa, no Reino Unido ou nos Estados Unidos da America.

Visionamento complementar: Ron Paul e as vantagens da secessão

Janeiro 26, 2012

Será que o Marxismo Falhou de Facto?

Filed under: Cultura,Teoria — Filipe Faria @ 19:37
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Na última semana veio a público no Reino Unido a notícia de que um casal ideologicamente progressista ocultou o sexo do seu filho para o poder educar como sexualmente neutro. Aos 5 anos de idade, os pais finalmente revelaram à sociedade que a criança era de facto um rapaz e que até hoje o tinham tratado como se não tivesse sexo, vestindo-o alternadamente como rapariga e como rapaz, entre outras coisas. A mensagem que eles quiseram passar à sociedade é simples: o género sexual é uma construção social e não biológica.

Para muitos este episódio parece uma piada; mas é apenas a hipérbole de algo mais profundo: na realidade esconde uma ideologia base que tem suportado muitas das reivindicações políticas: a crença na tábua rasa. Esta crença baseia-se na ideia de que os seres humanos são essencialmente produtos da socialização/educação e que não têm instintos, capacidades ou predisposições comportamentais inatas.

Apesar dos desenvolvimentos no campo da genética comportamental ou da psicologia evolutiva revelarem cada vez mais o contrário, isto é, que somos em larga medida produto da nossa biologia, o pensamento popular dominante ocidental assenta na falácia da tábua rasa. Mas porquê? A resposta é que, em termos culturais, o marxismo foi um vencedor.

Devido aos maus incentivos económicos que postula, o marxismo económico rapidamente se revelou caótico e incompatível com tendências básicas da natureza humana. Porém, o igualitarismo radical que Marx postulou perdura em termos culturais e tornou-se vitorioso. Esse igualitarismo baseia-se na falácia da tábua rasa; ou seja,  na crença rousseauniana do bom selvagem sem predisposições inatas que é posteriormente corrompido pela sociedade e torna-se mau, ou na tábua rasa lockeana que vê igualmente a mente à nascença como estando a zero, isto é,  desprovida de informação comportamental inata. Sob esta luz, é precisamente porque o homem é uma tábua rasa que os comunistas podem construir, através de engenharia social, o novo ser humano “socialista” do futuro.

Em boa parte, esta actual supremacia do marxismo cultural tem a sua origem nos departamentos universitários de humanidades e ciências sociais, onde imperam os estudos feministas, de género, de desenvolvimento, de cultura, pós modernistas, entre outros. Estas elites cognitivas lançam memes constantes para moldar a opinião popular e aconselham regularmente políticas públicas. Mas vão mais longe, montam igualmente uma polícia do pensamento (também apelidada de “politicamente correcto”) que está sempre pronta a atacar com processos legais e descrédito intelectual sempre que alguém conclui que existem profundas diferenças comportamentais inatas entre grupos de seres humanos, ou entre indivíduos em termos gerais.

Para além de advogarem a redistribuição de riqueza, estas pessoas são as que estão por trás dos grupos de pressão que advogam mais educação (pública, claro) para resolver qualquer problema social através do modelar/doutrinar do homem, ou por trás dos defensores das quotas na sociedade, porque claro, segundo dizem, quaisquer diferenças sociais são sempre o produto de discriminação e não resultado das características únicas de cada indivíduo ou dos vários grupos sociais. São igualmente as mesmas por trás da promoção do multiculturalismo e da integração forçada que está a ser efectuada contra a vontade dos indígenas das nações europeias.  Advogam amnistias, não só para imigrantes ilegais, mas também para criminosos com base na ideia de que com forte (re)educação e apoio estatal se escreve algo completamente diferente nas alegadas “tábuas rasas” destes indivíduos; ideia, aliás, satirizada brilhantemente por Stanley Kubrick na sua “Laranja Mecânica”.

Contudo, alguns teóricos políticos igualitaristas concedem que existem diferenças de capacidade inatas entre indivíduos (e.g. John Rawls, Ronald Dworkin…). Assim, como igualitaristas da sorte (luck egalitarians), defendem que a sociedade deve funcionar de modo a mitigar ou mesmo anular essas diferenças que seriam resultado natural das nossas desigualdades genéticas. Paradoxalmente, apesar de rejeitarem a falácia da tábua rasa acabam por a reforçar, pois acreditam que cada indivíduo pode agir contra os seus próprios interesses e pré-disposições numa base regular, de forma a atingir um ideal igualitário. Esquecem-se que os humanos têm uma autonomia reprodutiva descentralizada e não funcionam como formigas estéreis cuja única forma de replicação genética é trabalhar em prol da mãe reprodutora; ou tal como o sociobiólogo E.O. Wilson disse: “Karl Marx estava correcto, o socialismo funciona, mas ele aplicou-o à espécie errada” (“Karl Marx was right, socialism works, it is just that he had the wrong species”).

O marxismo económico falhou num relativo curto espaço de tempo, como não podia deixar de ser, e este marxismo cultural com base na tábua rasa irá falhar da mesma forma, mas calculo que irá levar bastante mais tempo até que se perceba que ele está por trás da maior parte dos erros a que assistimos politicamente.

Em relação ao rapaz de 5 anos que finalmente se pode revelar como tal: parabéns rapaz, se quiseres, já podes tirar o tutu.

Visionamento recomendado: Steven Pinker: The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature

Janeiro 24, 2012

O Referendo de Adesão à União Europeia na Croácia

Filed under: União Europeia — Filipe Faria @ 09:32

Sensivelmente 28% da população Croata votou a favor da adesão à União Europeia e tal foi suficiente para entregar a soberania do país aos eurocratas. Mas o que realmente se passou? Cada um que julgue por si:

“Fully aware that the Croatian People do not want to give up their hard earned independence, the ruling elites changed the Croatian Constitution prior to the EU referendum to eliminate the rule which invalidated any referendum unless 50 percent participation was achieved.
Prior to the EU referendum, the Croatian people were subjected to a massive North Korea-style pro–EU propaganda campaign, which relentlessly extolled the benefits and virtues of membership, and denigrated any attempts to say otherwise.
The Government spent huge amounts of public funds to pay for a massive YES campaign, whilst denying any funding to the NO case. In addition, the European Commision ran its own very expensive YES campaign. State enterprises and corporations were also enlisted. State Television aired pro-EU adverts for free or at discounted rates, Croatia Post home delivered more than 2 million government leaflets for free, and the City of Zagreb provided free EU advertising on its trams.
The Austrian, German and Government-owned electronic and print media ( ie all the media in Croatia) blatantly supported the YES case and made sure that the YES campaign was the only campaign.
The Catholic Church hierarchy, lavishly funded by the State, also openly supported the YES case and seemed unconcerned that there was no democratic public debate and no visible NO case.
Just days before the referendum, Foreign minister Vesna Pusić shamelessly threatened Croatia’s 1.2 million pensioners that they would lose their pensions if they voted against EU membership. The Zvijezda voting station in Zagreb, which covers several retirement homes with about 1100 pensioners, reported an 80 percent vote in favour of EU membership.”

Janeiro 17, 2012

A Filosofia Libertária e a Falácia das Fronteiras Abertas

Filed under: Política,Teoria — Filipe Faria @ 15:30

Os libertários contemporâneos concordam em premissas básicas como o livre mercado, a propriedade privada e o princípio do voluntarismo; porém, em poucos assuntos discordam com tanta veemência como o fazem na questão da imigração. Devem ou não os libertários advogar fronteiras abertas?

Entre os libertários que argumentam contra esta ideia de fronteiras abertas (pelo menos enquanto o Estado Social existir) constam Murray Rothbard, Ron Paul, Milton Friedman, Hans-Hermann Hoppe, Stephan Kinsella, Lew Rockwell, Scott M. Rosen, o ex-candidato à presidência do partido libertário americano John Hospers, entre muitos outros. Do lado contrário, a favor das mesmas, entre  igualmente muitos, temos autores como Walter Block e praticamente todos (senão mesmo todos) os libertários ligados ao instituto CATO.

Na realidade, este debate parece uma falsa questão, mas não é. Parece uma falsa questão porque ambas as partes concordam que o Estado não devia ter o poder para excluir pessoas do território e ambas gostariam de chegar a um ponto onde todo o território estaria privatizado, permitindo aos indivíduos usarem os seus direitos de propriedade para escolherem quem desejam integrar na sua comunidade. Onde eles de facto discordam é no que fazer nas actuais circunstâncias onde existe uma vasta propriedade pública e um Estado Social. Os primeiros dizem que, nestas condições, fronteiras abertas são imorais porque forçam os nativos residentes a pagarem pela integração de outros que geralmente nem são desejados; já os segundos dizem que se devem eliminar totalmente os controlos de fronteiras pois o Estado não tem o direito de excluir seja quem for do território.

Para inferir ideias para o actual contexto real, é importante gerar uma experiência de pensamento no sentido de reflectir sobre como se processaria o fenómeno migratório numa sociedade totalmente privatizada onde não há fronteiras estatais. Ao contrário do mundo indiscriminável (quase) perfeito que os libertários “fronteiras abertas” advogam, um cenário em que os indivíduos possuem plenos direitos de propriedade será um cenário onde as pessoas os irão usar como mecanismo para integrar ou excluir terceiros; por outras palavras, irão discriminar de forma a viverem rodeados do tipo de pessoas que preferirem, usando o direito natural de associação para o efeito. É essa a real noção de direitos de propriedade: a capacidade para discriminar, associar, acolher ou excluir outros nas nossas propriedades.  A imigração não passaria a ser “livre” no sentido em que o único critério de integração passaria por um preço de mercado, mas sim por cumprir requisitos que os proprietários iriam criar para definirem a qualidade da sua vizinhança mediante as suas preferências.

O erro que os proponentes das fronteiras abertas normalmente cometem é o de confluir a desejável ausência de fronteiras nessa sociedade “nirvanesca” totalmente privatizada com as fronteiras abertas de Estados que possuem um sistema de providência e vasta propriedade estatal. No actual contexto em que vivemos, fronteiras abertas não seria mais do que integração forçada, no sentido em que obriga os contribuintes nativos de cada país a pagar (via Estado providência) pela integração de pessoas que os primeiros não escolheram, não seleccionaram, nem têm formas eficazes de filtrar. Porque neste contexto, estando desprotegidos, os nativos não têm o mecanismo de selecção e discriminação dos plenos direitos de propriedade, essencialmente devido a leis anti-discriminação e ao Estado providência que força, a título de exemplo, um contribuinte a financiar casas sociais para imigrantes na sua vizinhança contra a sua vontade.

Ademais, porque as populações são na sua esmagadora maioria contra imigração em massa (basta verificar que nenhum partido, por mais progressista que seja, concorre com um programa de fronteiras abertas se quiser vencer eleições nacionais), a actual imigração em número inimagináveis que se verifica na Europa e EUA é resultado em larga medida de rent-seeking; ou seja, as principais empresas capturam o processo político através de lobbies constantes no sentido de adquirir mão de obra barata. Se essas mesmas empresas tivessem que pagar todos os custos de vida dessa mão de obra barata num país desenvolvido, esta última deixaria de ser barata e perderia o interesse. O que estas empresas essencialmente fazem é adquirirem empregados baratos apenas porque todos os outros custos (educação, habitação, saúde, etc…) recaem sobre o contribuinte nativo.

Qualquer economista sabe que, pelo menos até se acabar o financiamento, quando se subsidia algo vamos ter mais desse mesmo algo. Em concomitância, quando se subsidia a imigração, ela cresce exponencialmente; e cresce à custa de um contribuinte impotente perante esta integração forçada.

Muitos dos defensores das fronteiras abertas estão conscientes desta imoralidade que se atravessa nas suas reivindicações morais. Mas como não querem esperar pela devolução de mecanismos de selecção aos indivíduos, muitos alegam  que abrir completamente as fronteiras no imediato é a melhor forma de fazer com que o Estado providência impluda, visto que a invasão de imigrantes do terceiro mundo colocaria pressões no sistema que levaria a esse resultado. Contudo, depois desse colapso, o que se seguiria não seria o mundo maravilhoso libertário, mas sim guerras civis entre os mais variados grupos étnicos que lutariam pelos despojos políticos; por outras palavras, seguir-se-ia a balcanização (que na realidade está já a acontecer na Europa, mas isto será um tema para outro texto). Este é um preço demasiado elevado a pagar pelo fim do Estado social, principalmente quando este está já a colapsar lentamente mesmo sem as actuais fronteiras (totalmente) abertas.

A crítica por parte dos defensores das fronteiras abertas que no meu entender tem mais força é a de que o Estado não consegue emular os direitos de propriedade quando selecciona imigrantes. O argumento “enquanto existe Estado, mais vale que se comporte como um dono privado”é de facto complexo e difícil de justificar. Mas considero que tal prende-se com uma questão de perspectiva: não me parece que essa seja a melhor forma de colocar a questão; faz bastante mais sentido dizer que recursos que estão sujeitos a uma autoridade e são usados por utilizadores, como a propriedade “pública”, não deixam de precisar de regras que viabilizem a sua utilização e impeçam uma “tragédia dos comuns”, tal como precisariam se a propriedade fosse privada e aberta ao público. Emulação eficiente do mercado, claro, não existe, é por isso que se advoga a privatização, mas tal não elimina a premissa anterior (i.e. necessidade de regras).

Desta forma, a solução passa por aperfeiçoar esse sistema, melhorando-o no sentido de se ganhar qualidade em grau e não por mandar a água fora com o bebé. Não sendo um sistema perfeito de direitos de propriedade, o sistema suíço de imigração, por exemplo, é francamente superior em grau a quase todos os outros onde os burocratas imperam: as leis de imigração helvéticas são feitas descentralizadamente ao nível dos cantões e através da democracia directa os cidadãos podem seleccionar o tipo de imigração que pretendem assim como excluir a que não pretendem. Existe deste modo um mecanismo de selecção que na prática não existe noutras sociedades.

Para o liberalismo, nas actuais circunstâncias, o que faz sentido é advogar descentralização de poder/secessão e não fronteiras abertas.

Em suma, o direito à associação voluntária entre adultos é parte fundamental do sistema de direitos de propriedade; isto é, o direito de escolher o tipo de pessoas com quem desejamos viver, e tal implica discriminação, pois qualquer escolha é um acto de discriminação (prefiro A a B, logo discrimino). Numa era onde o espírito dos tempos é fundamentalmente igualitário, esta é uma lógica que é esquecida, até mesmo em campos filosóficos onde não se esperaria que tal acontecesse.

Janeiro 10, 2012

Mark Pennington: O governo ou as pessoas, quem deve escolher?

Filed under: Teoria,Videos — Filipe Faria @ 21:41

Janeiro 8, 2012

Philipp Bagus on Possible Ways to Leave the Euro

Filed under: Teoria,União Europeia,Videos — Filipe Faria @ 23:31

Philipp Bagus Essay: Practical Steps to Withdraw From Euro

Janeiro 5, 2012

Daniel Hannan: “The Collapse of the Euro will be the Beginning of the Solution”

Filed under: União Europeia,Videos — Filipe Faria @ 18:25

Janeiro 3, 2012

Indignados “Apoiam” Bruxelas

Filed under: Comentário,Economia,Política Fiscal,Portugal,União Europeia — Filipe Faria @ 17:55

A Jerónimo Martins muda-se para a Holanda para usufruir de uma carga fiscal mais favorável e logo se fazem ouvir os indignados que se mostram contra a ideia de competição fiscal entre diferentes jurisdições. Por outro lado, entre aqueles que apoiam, e bem,  esta fuga ao sufoco fiscal, ouço igualmente dizer que tais fugas benéficas se devem à livre circulação de capitais promovida pela União Europeia e até ao nosso “querido euro”. Paradoxalmente, os verdadeiros europeistas são os primeiros.

Se é verdade que a União Europeia promove a livre circulação de capitais como forma de retirar poder aos Estados membros para os concentrar em si mesmo (como bloco proteccionista que é), não é menos verdade que o objectivo eurocrata, apoiado pelos grandes países de carga fiscal elevada, é o de promover a harmonização fiscal, ou seja, promover a cartelização de cargas fiscais semelhantes em todos os Estados membros.  Tal tem como objectivo, claro está, impedir a fuga de capitais de países fiscalmente inóspitos para outros mais amigáveis. Desta forma, por um lado a União Europeia promove a livre circulação de capitais, mas por outro destrói o principal incentivo para que essa circulação de capitais se dê: a competição fiscal. Por outras palavras, oferece um carro mas bloqueia o acesso aos combustíveis.

Ironicamente, como o fim da competição fiscal é um dos grandes objectivos da União Europeia, os nossos indignados não podiam ser mais europeistas.

Leitura complementar: Europa: A Força Civilizacional da Competição Fiscal

Dezembro 31, 2011

Das Frases Marcantes do Ano…

Nas frases mais marcantes de 2011 consta a seguinte frase:

“Sem euro a Europa deixa de existir no panorama internacional.” - Teixeira dos Santos

Eu quero aqui deixar a minha contribuição para as frases mais marcantes do ano:

“Sem o Teixeira dos Santos e demais elites de poder nacionais dos últimos anos Portugal poderia passar a existir no panorama internacional.” - Filipe Faria

Bom ano novo a todos.

 

Dezembro 29, 2011

Isn’t the ECB less prone to debt monetization than the other central banks? NO

Filed under: Política Monetária,União Europeia — Filipe Faria @ 04:03

Detlev Schlichter, autor do muito recomendável livro “Paper Money Colapse”, responde neste artigo aos que alegam (erroneamente) que o euro, apesar de todas tragédias que trouxe, deve ser conservado porque o Banco Central Europeu é um banco central mais “responsável” na impressão monetária do que outros.

“Isn’t the ECB more conservative, more Bundesbank-like, and thus less prone to debt monetization than the other central banks? Is there not some real effort being made in Europe to sort out the fiscal problems? – No. Most of it is simply theatre that has no or little implication for the final outcome. Let me explain.

Like the other major central banks around the world, the ECB played its role in setting the world up for the credit bust by providing the cheap credit for the preceding credit boom. The ECB’s balance sheet – or rather the consolidated statement of the Eurosystem as it is correctly termed – started out at less than €690 billion in 1999. On the eve of the present credit crunch, in the summer of 2007, the balance sheet had reached a size of €1.2 trillion. In fact, over this period the ECB’s balance sheet had grown faster than that of the Fed. Like all other central banks, the ECB has, since the crisis began, become the lender-of-last resort to ever more banks and also to state institutions. At the end of 2011, the ECB’s balance sheet will be more than €2.4 trillion – its largest size ever, and also more than 20% larger than at the start of the year!”

Dezembro 22, 2011

A Ética do “Default”

Filed under: Internacional,Política,Portugal,Teoria,União Europeia — Filipe Faria @ 21:45

O default português, ou a renegociação da dívida pública portuguesa (como é eufemisticamente referido), não é mais do que o parcial ou total cancelamento do pagamento por parte do devedor, neste caso, por parte do Estado.

Sobre o assunto, as opiniões dividem-se:  a esquerda, da radical até a alguns elementos do Partido Socialista, não tem qualquer problema em defender que a insustentabilidade da dívida é razão mais que suficiente para se cancelar o pagamento da mesma. À direita, a questão parece assumir contornos de honra, e é defendido exaustivamente que quando um contrato é assinado, ambas as partes devem cumprir; como tal, o Estado português deve cumprir com a sua obrigação de pagar na íntegra aos seus credores.

É certo que as intenções da esquerda quando toma esta posição não são recomendáveis, porque a ideia subjacente é a de que o Estado deve poder gastar tudo o que pode sem ter de responder perante ninguém. Porém, tal como um relógio digital parado (de 0 a 24), a esquerda acerta na hora uma vez por dia. É a direita que está profundamente errada na defesa ética do pagamento da dívida pública.

Usando uma abordagem comparativa clássica da teoria da escolha pública, comparar contratos entre indivíduos no mercado com contratos feitos com o Estado não tem de todo a mesma equivalência moral. Quando um investidor investe numa empresa, sabe à partida que corre riscos pois essa empresa pode falir a qualquer momento, o que faz com que o investimento feito possa não lhe ser restituído; ou seja, quando se investe numa empresa, não só é possível como é recomendável que se possa de facto perder dinheiro; tal mantém um saudável peso e contrapeso nos maus investimentos, permitindo assim que as empresas que falham em servir o consumidor possam falir e permitir igualmente que o mercado consiga alocar recursos de forma mais eficiente.

Em contraste, investir em títulos do tesouro é visto como um investimento seguro, pois segundo é dito entre a vox populi: “o Estado paga sempre”, mesmo quando se atrasa. A razão para tal é simples: em teoria, tendo o monopólio da violência legal, o Estado pode sempre expropriar mais rendimentos à população para pagar as suas dívidas. Desta forma, a expectativa de que “o Estado paga sempre” é baseada na imoralidade de que expropriações adicionais poderão ser feitas para o efeito. Teoricamente, o Estado nunca teria de entrar em default desde que existam cidadãos para produzirem o suficiente e uma impressora monetária para imprimir o dinheiro necessário. Porém, na prática isto é impossível; para pagarem níveis insustentáveis de dívida pública, o nível elevadíssimo de tributação necessária equivaleria a um escravizar da população que trabalharia essencialmente para pagar essa dívida. Quem conhece a curva de Laffer sabe que a partir de um certo nível de carga tributária os indivíduos deixam de produzir ou recorrem a uma primitiva troca directa de produtos (barter). Em suma, na prática, os Estados têm de entrar em default para evitar a completa desordem, não só económica, mas social; e tal, ao contrário do que a direita apregoa, é um imperativo moral.

É claro que muitos na direita não têm uma abordagem baseada na “honra do bom pagador”; numa lógica consequencialista, simplesmente alegam que é preciso pagar para se continuar a receber o dinheiro da UE e eventualmente fazer algumas reformas liberais. Esta posição é simplesmente insustentável pelos números; tal como o economista britânico Ambrose Evans-Pritchard escreveu, querer pagar uma dívida pública de 104% do PIB (e a subir a cada ano) através da deflação (ou 350% do PIB se lhe juntarmos a dívida privada) é suicídio matemático. Adicionalmente, nenhumas reformas significativas serão feitas enquanto o financiamento continuar a vir de fora; restará apenas o sufoco fiscal e a destruição económica. Tal como a Islândia que agora cresce economicamente ao triplo da média europeia, só através de um default e do cortar da dependência financeira de Bruxelas saindo do euro será possível efectuar as reformas necessárias; reformas que na altura serão obrigatórias pois os investidores certamente não irão certamente emprestar dinheiro ao Estado português até que este ganhe a sua confiança. Ademais, é curioso verificar como a esquerda já “roubou” o caso islandês para provar a sua causa, quando a direita o devia estar a promover de igual forma.

Em conclusão, a direita está errada na sua defesa moral do pagamento do Estado porque confunde a moralidade de trocas voluntárias entre indivíduos no mercado com trocas que só em aparência são voluntárias no âmbito do Estado. Na realidade, apesar do contrato entre investidor e Estado ser aparentemente bilateral, o Estado tem o poder coercivo de escravizar terceiros para manter esse contrato. Tal acto nunca poderá respeitar preceitos de moralidade. Quem investe no Estado deve correr riscos tal como em qualquer outro investimento no mercado, e se a direita aprecia realmente orçamentos equilibrados, não há nada como responsabilizar os seus financiadores para impedir que o Estado se endivide exponencialmente.

Lamento informar que a esquerda não está sempre errada.

Dezembro 21, 2011

Hans-Hermann Hoppe: Elites de Poder, o Futuro do Estado Providência e Multiculturalismo

Dezembro 9, 2011

Rothbard on the European Union – in 1989

Filed under: União Europeia,Videos — Filipe Faria @ 03:23

“Having only one (european) central bank is much worse than having 7 or 8 (european) central banks” – Murray Rothbard

Novembro 29, 2011

You and Whose Army?

Filed under: Internacional,União Europeia,Videos — Filipe Faria @ 01:44

“Berlim só salva o euro depois de mandar nas contas dos Estados”

 

Novembro 27, 2011

Europa: A Força Civilizacional da Competição Fiscal

Filed under: Diversos,Economia,Teoria,União Europeia — Filipe Faria @ 02:02

Na semana passada, decorreu em Leuven a grande conferência libertária/liberal clássica ao nível europeu organizada pelos “European Students for Liberty”. Tive assim a oportunidade de estar presente num evento com europeus de inúmeros países que foi marcado pelos desenvolvimentos actuais na Europa, nomeadamente o actual processo de centralização ou descentralização da União Europeia.

Se no passado alguns liberais clássicos ficaram deslumbrados com a ideia do mercado único (que não é o mesmo que livre mercado) e com a livre movimentação de bens e capitais em território continental, esta conferência revelou que já poucos ou nenhuns apoiam esse sonho pela via do projecto europeu de Monnet. Muito pelo contrário, formas de escapar ao euro e como descentralizar a Europa foram os temas dominantes durante os 3 dias do evento, assim como a evidente indignação perante os planos eurocratas que lidam com os cidadãos europeus como se estes tivessem adquirido um estatuto inefável de escravatura fiscal.

Vários conferencistas presentes, como o suíço Pierre Bessard (membro do Liberales Institut em Zurique) ou o eslovaco Radovan Durana (Institute of Economic and Social Studies) enfatizaram o desafio central para os europeus nos próximos tempos: a promoção da competição fiscal e descentralização jurisdicional na Europa.

Desde a sua criação que a UE tem na palavra “harmonização” o seu mote institucional, ignorando que, tal como na essência igualitária do socialismo, harmonização forçada leva invariavelmente à antítese de harmonia, ou seja, à desordem social.

Agora, na sua luta desesperada para salvar o euro, Angela Merkel revela abertamente qual o caminho a seguir: “O primeiro passo a adoptar é uma união fiscal , seguida pela harmonização das políticas dos países do euro”. Contudo, ninguém que conheça os objectivos institucionais da UE (que pretende ser um Estado federal) fica surpreendido com tais propostas, principalmente porque estas têm desde há muito tentado acabar com uma das mais eficazes garantias das liberdades individuais: a competição fiscal.

Em 2003 a UE começou a emitir directivas que visam acabar com “práticas fiscais injuriosas” no seu território, o que significa que os países europeus com cargas fiscais mais elevadas pretendem poder taxar os seus cidadãos independentemente da jurisdição do banco onde estes possam colocar os seus rendimentos. Em 2005 entrou em vigor a obrigação dos Estados membros de entregarem informação sobre transferências bancárias de diferentes Estados. Como consequência, os países que não aceitaram estas medidas (como Luxemburgo e Áustria) são forçados a pagar um imposto aos outros países sobre transferências bancárias. O mesmo processo está a ser “vendido” através de chantagem diplomática  e ameaça de sanções financeiras a países pequenos e de carga fiscal baixa fora da UE, como Andorra, Liechtenstein ou Suíça. Adicionalmente, o conselho europeu planeia em 2015 combater a evasão fiscal e reforçar esta troca de informação obrigatória, estendendo o processo a rendimentos de trabalho, dividendos, ganhos de capital, royalties, pensões, etc…

A OCDE (instituição financiada em boa parte por governos com cargas fiscais elevadas como Alemanha ou França) lidera a luta aos paraísos fiscais que, no fundo, não são mais do que todos os países que não nivelem a sua carga fiscal por cima. Sem surpresa, a UE, assim como o G20, é composta por um cartel de governos que procuram o fim da competição fiscal entre jurisdições. Estes países alegam constantemente que se juntam em cimeiras para promover a competitividade e o comércio, mas fazem precisamente o contrário no que diz respeito a si mesmos, tentando bloquear a competição fiscal e a saída de capitais dos seus territórios fiscalmente inóspitos. Claro que os agentes políticos em causa justificam-se constantemente com motivos nobres como “a receita fiscal é necessária para combater a crise” ou “com a evasão fiscal não é possível suportar a educação ou a saúde”, mas todas estas justificações são normativas e traduzem-se apenas numa justificação do seu próprio poder.

O argumento mais usado por este cartel governamental é o famoso “race to the bottom”, que significa que se existir competição fiscal entre inúmeras jurisdições a tentarem atrair investimento externo, todos os países terminam com impostos baixos. A parte mais interessante deste argumento é que os políticos que o proferem consideram que tal tem um carácter negativo, mesmo que os contribuintes não os acompanhem neste devaneio normativo. Na realidade, apesar da instituição travar uma luta contra paraísos fiscais,  os economistas da OCDE concluem que há uma forte correlação entre crescimento económico e impostos baixos; o que dá um carácter “ligeiramente” esquizofrénico à instituição.

Desde sempre que os teóricos políticos tentaram encontrar métodos de limitar a tirania governamental. Desde as constituições até ao processo democrático. Porém, em grandes jurisdições, creio que todos eles estão condenados ao fracasso devido à enorme distância existente entre os indivíduos e o centro de poder. Apenas a descentralização política, jurisdicional e fiscal permite que os indivíduos tenham alternativas e possam escapar à predação fiscal de Estados anormalmente coercivos. Esta é, de facto,  a melhor forma de limitar o governo; pois tal priva o governo de auto-suficiência, o que impede proteccionismos de durarem no tempo e a abertura comercial torna-se a única alternativa viável.

A Europa precisa de voltar para a situação que a tornou próspera em relação ao resto mundo: uma região sem comando central, amplamente descentralizada, com uma forte competição fiscal onde os cidadãos votam com os pés e levam os seus rendimentos consigo punindo governos intrusivos. Uma situação onde, para usar uma expressão Hayekiana, haja lugar para a evolução pela via experimentação.

A conferência dos “European Students for Liberty” foi o perfeito exemplo da força histórica deste especial continente. Pessoas de múltiplas nacionalidades europeias juntaram-se em nome da liberdade para contestar a harmonização, burocratização, autoritarismo e centralização política da União Europeia. Em concomitância, quanto mais vou conhecendo europeus mais claro se torna que a diversidade e a independência são valores chave por trás desta fascinante civilização. Definitivamente, a Europa é uma ideia que vale a pena defender.

Novembro 17, 2011

The Puppet Governments

Filed under: Diversos,União Europeia — Filipe Faria @ 00:50

Novembro 14, 2011

Let’s stop this façade of democracy

Filed under: Internacional,Política Monetária,União Europeia,Videos — Filipe Faria @ 20:04

Novembro 4, 2011

Lew Rockwell on Russia Today talking about the Euro

Filed under: Ludwig von Mises,União Europeia,Videos — Filipe Faria @ 01:40

Novembro 2, 2011

Surpresa: A Grécia Ainda é um País Soberano

Filed under: União Europeia — Filipe Faria @ 02:56

Confesso que não esperava esta opção do primeiro ministro grego de pedir um referendo sobre a ajuda financeira da UE, perguntando à população se querem aceitar as condições do resgate ou não. Há bastante tempo que vislumbro o fim do euro, embora não há tanto tempo como Milton Friedman, que o vislumbrou logo desde a sua criação, alegando que o projecto da moeda única não iria sobreviver à primeira crise económica. Porém, apesar eu de não contar com este passo, este projecto falhado de base, produto de construção artificial e não de ordem natural, economicamente inviável, teria de partir por algum lado. Não esperava que fosse a democracia directa a parti-lo, mas é possível que seja precisamente por aí que tal irá acontecer.

As elites eurocratas e demais comentadores eurófilos estão indignados: “como é possível que o PM grego tenha colocado um assunto tão importante à mercê da população?” dizem eles. Esta pergunta sustenta-se pela sua crença de que a Grécia já não é um país soberano em que os seus cidadãos tomam as decisões que quiserem, mas sim que a Grécia é já um protectorado da UE e que se tem de comportar como tal para não colocar em perigo o projecto de Jean Monnet e companhia.

Para disfarçarem esta ideia subjacente, tentam convencer o mundo de que a ajuda financeira é de facto uma ajuda que irá evitar uma catástrofe. Contudo, já não conseguem enganar os próprios gregos. Desde que a troika entrou na Grécia a dívida pública grega não pára de subir, para o próximo ano espera-se que atinja os 180% do PIB. Não deixa de ser irónico que a ajuda da UE para combater o excesso de dívida se traduza em ainda mais dívida. Contudo, o novo pacote da UE promete um perdão que irá reduzir a dívida pública dos gregos para o valor igualmente insustentável de 120% em 2020. Isto claro, depois de 9 anos de depressão económica, impostos punitivos e desemprego em potência, e obviamente, se tudo correr conforme o plano eurocrata. Em troca deste plano tão promissor de “perdão”, Bruxelas pede total controlo sobre o país por um tempo tão indeterminado que pode ir de 9 anos até ad aeternum. Isto não é uma ajuda, é uma ostensiva ocupação política de um país.

O PM Papandreou pediu um referendo que no fundo é um referendo à soberania grega. Não acredito nem por um momento que fosse essa a sua real vontade, mas qualquer um de nós na sua posição, a sofrer a pressão da oposição política e de uma população enraivecida com a austeridade imposta, sentir-se-ia com a corda no pescoço ao ponto de ceder. Contudo, o seu “coração” estará com os eurocratas. Por outro lado, as sondagens reveladas mostram que apenas 12.6% da população considera que as “ajudas” da UE são positivas, o que indica que, salvo uma manobra de propaganda gigante, a rejeição das “ajudas” financeiras será uma realidade. Ao rejeitarem as ajudas, os gregos entram em default e certamente sairão do euro para poderem emitir moeda que lhes permita pagar as despesas correntes.

A propaganda eurófila para convencer os gregos a aceitar o pacote de ajuda irá passar pela ideia de que sendo ambas as opções desagradáveis (default/austeridade vs default/saída do euro) a primeira é mais simpática pois terá todo o apoio da UE. Isto apenas mostra a natureza da UE, pois se fosse uma instituição realmente “solidária” e não apenas preocupada em centralizar o seu poder, perceberia que os gregos não podem continuar nesta situação até ao infinito e apoiaria ambas as soluções mediante a vontade grega resultante do referendo. Isto implica apoiar igualmente a saída da Grécia do euro (e segundo os tratados também da UE) dando-lhes condições que minorassem os custos de transição, nomeadamente a manutenção de acordos de livre comércio na UE e apoio negocial para que o default não fosse desordenado.

O caso da Islândia em 2008 também teve os seus catastrofistas que queriam a todo o custo que se salvasse os bancos e se cumprisse o pagamento da dívida ameaçando com um possível apocalipse caso o país não o fizesse. Não convencida pelas ameaças, a população votou a favor do default e sofreu na transição: o PIB caiu 40% e a sua moeda desvalorizou consideravelmente. Porém, recuperaram rapidamente: voltaram ao crescimento económico de 2% ao ano; têm agora um desemprego que ronda os 5% (contra a Grécia com 16%) e, surpresa das surpresas para um país acabado de sair de um default, o custo das obrigações islandesas a longo prazo é de 8%, ou seja, abaixo de países que teoricamente ainda são cumpridores como Portugal ou Grécia.

Não há saída indolor deste processo de dívida indomável; os custos do processo são incalculáveis. Dizer que esta ou aquela solução terá maiores ou menores custos é sempre um exercício especulativo (que normalmente revela o grau de eurofilia do especulador). Contudo, o que não é especulativo é que ao dizerem que não neste referendo os gregos podem recuperar a liberdade para organizarem (ou desorganizarem) a sua casa como querem, sem imposição externa e sem depender de fundos de contribuintes de países terceiros. Se os gregos querem contrair dívida, fugir aos impostos ou comprar carros de luxo a rodos é algo que a eles lhes diz respeito, desde que internalizem as consequências. É esse o preço da responsabilidade que é indissociável da liberdade.

Com o anúncio do referendo, o euro caiu a pique contra o dólar, as taxas de juro das obrigações italianas subiram e o preço do ouro disparou. Este cenário irá piorar à medida que os investidores perceberem que não é possível salvar tantos países em dificuldades e que os países afinal podem de facto sair do euro.

David Hume escreveu que tudo o que os políticos têm para governar é o poder de convencimento sobre o público. A UE nunca o teve, o actual governo grego já o perdeu, e, ou muito me engano, ou este sentimento popular grego espalhar-se-á em breve aos restantes povos europeus. É uma questão de tempo…

Outubro 29, 2011

Britain’s Trillion Pound Horror Story

Filed under: Internacional,Videos — Filipe Faria @ 16:17

Tal como Portugal, o Reino Unido foi esmagado pela social democracia, políticos, grupos de interesse e “rent-seekers”.  Porém, ainda mantém uma sociedade civil capaz de produzir excelentes documentários como este a denunciar a situação. A não perder.

Outubro 27, 2011

All that you did yesterday was a rearrangement of the deck chairs on the Titanic

Filed under: União Europeia — Filipe Faria @ 22:16

Speaking today in the European Parliament, Jan Zahradil MEP, European Conservatives and Reformists group chairman said:

“bad things that came out of the summit: a vast amount of both private and public funds will be poured into the debt bail out. Other debts will simply be written off and a bond union will be created. We are at the beginning of massive fiscal transfers that we have never seen before in our history. This is an unprecedented step in the history of the EU.

It creates an enormous burden for the EU economy – the loss of economic growth, the loss of international competitiveness; this is what is to be expected.

But the consequences will not just be economic. What is worse, the political and social fallout of the Eurozone rescue will have a side effect on other viable and real added value strategies and proposals – such as the completion of the Single Market.

Today we have a deal on the Euro that will benefit its 17 members – but I stress only temporarily. In the long run, this is neither sustainable nor defensible.

We should also allow the non-Eurozone members – such as my country the Czech Republic – to decide again whether they wish to enter. We signed up to a monetary union, not a transfer union or a bond union in our accession treaty. This is the major reason why the Czech Prime minister wishes to call the referendum on this matter. I fully support him.

We have come up with costly and temporary solutions. Sorry, Mr. President, there is no reason for optimism. Not at all. All that you did yesterday was a rearrangement of the deck chairs on the Titanic.

Outubro 24, 2011

O Desespero das Elites Eurocratas

Filed under: União Europeia — Filipe Faria @ 18:41

À medida que o navio do sonho federalista se vai afundando, as elites eurocratas vão mostrando sinais evidentes de autoritarismo que advém da impotência perante a dimensão do problema que eles próprios criaram. Desta vez foi Sarkozy que perante a iminência não só do falhanço do euro, mas também da economia francesa (que será arrastada em breve para o precipício da perda de crédito no mercado), abertamente insultou David Cameron; proferindo que Cameron devia estar calado em relação a assuntos do euro visto que, se detesta a moeda única, não deve pronunciar-se nas questões da zona euro. Segundo o The Guardian, foram estas a palavras do presidente francês:

«You have lost a good opportunity to shut up. We are sick of you criticising us and telling us what to do. You say you hate the euro and now you want to interfere in our meetings»

É já patente o desespero nas palavras de Sarkozy. Mas Cameron não está menos desesperado. O PM inglês teme que se não participar nas discussões sobre o futuro da zona euro não irá conseguir parar os desejos da França e Alemanha de imporem regulações e novos impostos sobre o sector financeiro europeu, sabendo que as principais receitas para a UE viriam da cidade de Londres (o maior centro financeiro da Europa), prejudicando directamente o Reino Unido. Porém, os problemas de Cameron não param aqui; em Londres, ele enfrenta pressões populares e partidárias (especialmente dentro do seu partido) para que um referendo seja lançado no Reino Unido, um referendo que irá permitir à população pronunciar-se sobre a saída da UE. Conhecendo o ódio generalizado à UE por terras britânicas, o resultado mais que provável seria a saída do projecto europeu. Mesmo não querendo um referendo por razões estratégicas, Cameron terá muitas dificuldades em suster a pressão de um eleitorado que espera que os políticos representem as suas preferências.

Contudo, o principal sinal vem do estereótipo eurocrata que Herman Von Rompuy representa. O presidente do conselho europeu é constantemente acusado de ser uma figura sinistra, não eleita democraticamente e que personifica a autocracia que este projecto europeu é na sua essência. Apesar de verdadeiras, estas acusações sempre foram obviamente negadas pelas elites, mas perante a iminência do fim do euro, o desespero toma o controlo e a natureza autoritária dos eurocratas torna-se evidente em todas as declarações. Perante a oposição popular generalizada aos resgates (bailouts) a bancos e medidas de austeridade que significam na sua base sufoco fiscal e destruição económica, Von Rompuy diz que é preciso continuar nesta linha e que mais passos são necessários. Mas diz mais, diz que apesar de estas medidas serem impopulares, ele agradece a todos os políticos pela sua coragem política.

”Some of those steps were and are unpopular; be it measures taken in your countries or our joint decisions taken here as a Union,” he said. “I thank you for your political courage, often underestimated.” Herman Von Rompuy

Ora, coragem é coisa que não abunda entre políticos main-stream; o que Von Rompuy quer dizer é que políticos que tenham atitudes autocráticas devem ser louvados. Revelando com isto a mundividência política da eurocracia.

O desespero obriga a alguma sinceridade, e à medida que este projecto europeu se aproximar do fim, mais sinceridade e mais autocracia teremos. As animosidades entre países irão crescer, os ódios pessoais serão revelados e as culpas serão “disparadas” em todas as direcções. Se os políticos de facto representassem os cidadãos, o projecto do euro terminaria agora e a preparação para uma nova fase pós-euro (com a recuperação das soberanias dos Estados nações) estaria em curso. Como a representação política ao nível da UE é uma fábula de manuais de ciência política, vamos continuar a assistir a um agravar do problema que irá implodir quando a magnitude do mesmo for o dobro ou o triplo do que é agora.

O euro já falhou economicamente e sobrevive devido à vontade política; quando é que a moeda única irá colapsar é impossível de aferir, mas o desespero revelado pelas elites eurocratas sugere que não deverá ser num futuro muito distante.

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