Li com atenção a entrevista do Ministro do Trabalho ao jornal Público de hoje. Infelizmente, por distracção pus o jornal no lixo e o que aqui vai é de memória. Ficaram-me duas ou três notas.
Uma pessoa que conheço, economista, trabalhou alguns anos numa empresa do PSI20. Há algum tempo aceitou uma proposta melhor e mudou para outra. Dois dias depois de lá estar recebeu outra proposta irrecusável, de uma terceira, e mudou de novo.
O Ministro diz que na questão do emprego a parte mais fraca é o trabalhador. Que não é uma questão ideológica, é um facto que o empregador é a parte mais forte no contrato. Ora bem sendo que é verdade na maior parte (?) dos casos, também o é que um trabalhador hoje não é o operário do Séc XIX. No tipo de economia que existe ou em que nos estamos a transformar (baseada em serviços ou indústria de que incorpora alta tecnologia), a maior parte dos postos de trabalho que se criam ajudam a fortalecer o poder negocial dos trabalhadores. E nos casos em que a especialização não é complicada (comércio, restauração, etc) é a concorrência e a necessidade de não perder tempo que leva os empregadores a querer evitar a rotação excessiva de pessoal (com efeitos nos contratos a prazo) e a manter os melhores elementos que vão aparecendo*.
As prateleiras das livrarias estão cheias de livros sobre o capital humano, sobre a importância das pessoas nas organizações, sobre case studies como a Gore, a Google, a Microsoft, a Martifer, etc. Não faria mal ao Ministro deixar de imaginar fresas, limadores e charruas e passar a pensar em capital humano.
Infelizmente ainda há quem, como o secretário geral da UGT elogie o trabalhador português porque ele “aprende fazendo”. Sei o que isso é porque aprendi a gerir gerindo e sei que é a receita para o desastre. No caso dos “trabalhadores” é precisamente isso que pode condená-los: aprender a fazer fazendo significa que não se sabe fazer mais nada a não ser o que sempre se fez.
O Ministro disse ainda qualquer coisa como “o contrato a prazo pode ser uma boa opção a curto prazo mas não creio que o seja a longo prazo”, “ as empresas não podem…” isto ou aquilo e devem “aqueloutro”, etc.
A questão é só esta e é, sim senhor, ideológica: este Ministro e quase todos os outros julgam que sabem mais sobre como são e como devem ser geridas as empresas. O que é engraçado é que nunca criam uma. Não pagam um salário, não investem numa máquina, não avalizam um empréstimo, não põem nada no fio da navalha. Nada. Nem o nome. Usam o “pull” da vida política para se elevarem a cargos empresariais. Ayn Rand chamava-lhes pull-peddlers.
Acerca dos contratos a termo dizia que no curto prazo podem ter resultados na cotação das empresas na bolsa, mas a longo prazo não acrescentam riqueza, etc, etc. Uma coisa que gostaria que me explicassem é onde ficam as PMEs que são 400 mil e são responsáveis por 50% do emprego. Também têm valorização das acções cotadas? Ou é o Ministro que se limita a ser imbecil quando fala de leis que têm que ser cumpridas por todos como se só se aplicassem a alguns?
Quando na entrevista o Ministro deu a Suécia como exemplo, o entrevistador perguntou-lhe se queria “…importar empregadores da Suécia?” Porquê empregadores? Porque não trabalhadores? Porque não um povo inteiro? E entrevistadores já agora. Pelos vistos o problema em Portugal são os empregadores. Têm uma solução simples: desfaçam-se deles. Fechem-lhes as empresas, acabem-lhes com a raça. Com certeza tanto os trabalhadores como o Ministro como o entrevistador ficariam bem melhor. Sem trabalho, mas satisfeitinhos.
Para acabar, há uma coisa que nos entrava o progresso e a criação de riqueza e que, enquanto a geração no poder não bater as botas, não se resolve: não existe um antagonismo empregador/trabalhador. Esse antagonismo só aproveita aos órfão do marxismo que necessitam da pobreza, da luta de classes e do misticismo da teleologia historicista para manter o controlo sobre o resto da sociedade. Empregador e trabalhador são a fonte da criação de riqueza e um não existe sem o outro, por isso, toda esta treta dos códigos do trabalho neo-liberais e idiotices afins só servem para empatar. A liberdade contratual é o único Código do Trabalho justo.