Carlos Costa, Banco de Portugal e Redução das Pensões

Os meus comentários na Edição das 12 do Económico TV sobre a recondução de Carlos Costa no Banco de Portugal e os cortes nas pensões.

Os oportunistas

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Os oportunistas

Antes que continue a leitura deste artigo gostaria de informar o leitor das minhas reservas quanto ao actual rumo da União Europeia (UE). A minha análise assenta numa crítica à transformação do projecto europeu num monstro burocrático e planificador em vez de um mercado único, sem fronteiras e liberalizado, que permita aos cidadãos dos Estados-Membros trocarem livremente os seus produtos e serviços. A UE, procurando regulamentar a todo o custo os negócios e sendo dependente de uma estrutura política centralizada, tornou-se inimiga do comércio e colocou entraves ao crescimento económico, dando azo a um elevado nível de desemprego que atinge o continente.

Esta é, em linhas gerais, a crítica que também os britânicos dirigem a Bruxelas e que forçou David Cameron a encetar negociações para reformar União e a referendar a continuação do Reino Unido naquela estrutura. No entanto, nos últimos anos foi surgindo outro tipo de crítica às instituições europeias acusando-as de falta de solidariedade. Durante anos, Portugal aceitou sem pestanejar as directivas vindas de Bruxelas. Se analisarmos as vantagens de outrora e os defeitos de hoje, mais parece que a Europa solidária se reduzia ao envio de dinheiro que ajudava a fechar os olhos. É preciso não esquecer que os fundos vinham de Bruxelas para que a classe política os distribuísse, concedendo a esta um espaço de manobra ímpar. Sabíamos à época, como sabemos ainda melhor agora, que não da melhor forma: a par dos interesses que se tinham de preencher, o próprio conceito de estímulo económico subjacente aos subsídios europeus não ajudou.

Quando de Bruxelas passaram a vir medidas impopulares, acompanhadas de uma ‘troika’ que tutelava a aplicação das mesmas e o pagamento das contas, parte do país passou a olhar a Europa de lado. É muito interessante este ponto porque revela o que se tem entendido por solidariedade europeia. Houve um momento, durante o processo de integração, em que o fito da comunidade deixou de ser o da criação de um espaço comunitário, de entendimento pacífico entre os povos, para ser um meio de mero envio e recepção de fundos em troca de soberania nacional.

Pela parte que me toca gostaria que Portugal e a Europa fossem mais que a simplificação oportunista com que alguns pretendem governar. O centralismo político converteu a outrora comunidade num lugar asfixiante porque a boa vontade individual dos homens, que compram e vendem, foi trocada por um conceito de solidariedade que, dizendo-se colectiva, não existe. Olhar para o projecto europeu de uma forma séria e ambiciosa não é fácil. Na verdade, haverá algo mais ambicioso que a construção de um espaço de trocas comerciais, de liberdade, e de reduzida intromissão política?

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no jornal ‘i’.

A doença europeia

Depois da sua vitória eleitoral, David Cameron pretende cumprir o prometido e permitir que os britânicos referendem a continuidade do Reino Unido na União Europeia. Os alarmes soaram em Bruxelas, já a braços com a possível saída da Grécia da zona euro, ao mesmo tempo que se deseja que o referendo britânico, com uma vitória do “não”, ponha um ponto final na indecisão e insatisfação britânica.

Numa entrevista esta semana ao “Guardian”, Graeme MacDonald, chefe-executivo da JCB, uma multinacional britânica que é a terceira maior fabricante mundial de equipamentos para construção, defendeu a saída do Reino Unido da União Europeia, se Cameron falhar a negociação para reduzir a burocracia europeia que prejudica as empresas britânicas.

Admitindo ser, por vezes, mais fácil vender para a América do Norte do que dentro da própria Europa, MacDonald bate num ponto essencial: a União Europeia foi criada para derrubar barreiras, não para as erguer. E o que se passa é que o projecto europeu, tendo sido mais político que económico, tem ido ao desencontro do seu objectivo inicial, que é a criação de um mercado comum, logo aberto.

Claro que os riscos são imensos. Mas estes não advêm apenas de uma possível saída do Reino Unido, mas da dificuldade que é reformar a União. A teia burocrática é de tal forma gigantesca e contorcida que uma diferença natural entre os povos facilmente se torna uma disparidade crónica entre os Estados.

No Fio da Navalha

O meu artigo de ontem no jornal ‘i’.

Perdoar não é esquecer

No passado domingo, Raúl Castro foi recebido pelo Papa Francisco. O encontro é de saudar, pois o Papa preside a uma igreja que tem como uma das suas principais mensagens a não exclusão do próximo. Se um Papa deve ter missão política, deve ser precisamente essa: a de estabelecer pontes, entendimentos.

Mas há algo no encontro com o Papa que me fez impressão e que foi a imagem de homem bom e complacente que Raúl Castro quis passar. E, como todos os ditadores e homens brutais, fê-lo com um certo atrevimento.

Primeiro quando, a seguir ao encontro, Castro disse que, se o Papa continuasse assim, ele voltaria à igreja e a rezar. Di–lo como se fosse o Papa que tivesse de mudar; di-lo como se fosse o Papa a ter de o aceitar. Di-lo não percebendo, ou fazendo de conta que não percebe, que o Papa, mais que pretender que ele volte a rezar, quer é que ele deixe o povo cubano ser livre.

O outro atrevimento raia a hipocrisia dos homens maus. Tratou-se da entrega ao Papa de um quadro de um artista cubano com uma grande cruz, feita com vários barcos, e uma criança a rezar diante dela. De acordo com o artista, que também esteve presente no encontro, a intenção foi aludir à tragédia dos milhares que sofrem no Mediterrâneo para chegar à Europa. Uma oferta destas, vinda do líder de um regime que forçou milhares a atravessar um oceano pejado de tubarões para chegar à América, é, no mínimo, ofensiva. Podemos perdoar, mas o sofrimento das vítimas não nos deixa esquecer.

Os adivinhos

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Os adivinhos

Em 1972, René Goscinny e Albert Uderzo publicaram o álbum de Astérix, ‘O Adivinho’. A história começa quando, durante uma tempestade que se abate sobre a aldeia dos gauleses, chega um homem, um adivinho, que ganha a confiança dos aldeões com os seus agradáveis presságios. Quando lemos a história sorrimos perante a inocência da maioria e compreendemos as suspeitas de Astérix.

Ora, o que sucede é que nem sempre estamos a ler os acontecimentos de cima. Pelo contrário, estamos tão embrenhados nos problemas, tão necessitados de soluções, que nos tornamos aldeões nas mãos de adivinhos. Vem isto a propósito do programa económico do PS e do pedido do PSD para que as medidas socialistas sejam analisadas por entidades independentes dos partidos. Embora seja interessante imaginar uma dúzia de técnicos debruçados sobre projecções de números e de estatísticas sobre as quais delinearão, ao milímetro, medidas político-económicas, fico assustado quando vejo programas de governo feitos ao detalhe. Na verdade, senti temor perante o plano Centeno que prevê decisões, para quatro anos, a partir de meras adivinhações.

Este tem sido um dos vícios da democracia: exige-se tanta transparência que se espera que os políticos apresentem programas tão detalhados que se tornam impossíveis de cumprir. Uma impossibilidade que leva a que os governos sejam depois acusados de ilegitimidade e de governarem contra o mandato do povo que votou em algo irrealizável.

O problema deriva da maioria parecer ter esquecido que não vive numa democracia directa, mas numa democracia representativa. A diferença não é de pormenor, mas essencial, pois que, nesta, os eleitores elegem quem os represente durante 4 anos, ou seja, em seu nome, legisle e governe. Só depois, e então sim, se sujeita ao escrutínio do povo. Claro que há limites. É para isso que servem o Parlamento, o Tribunal Constitucional, demais instituições e até os jornalistas.

Não é sério apresentar programas de governação que especifiquem pormenorizadamente decisões para quatro anos, porque estas dependem de circunstâncias totalmente fora do controle dos governos. Ora, esta exigência que os próprios políticos fomentam por forma a apontar falhas no adversário, está a minar o debate democrático. Obriga a que se discutam medidas que não se tomarão em vez de se debaterem linhas mestras, gerais, mas essenciais, que determinarão o rumo de um governo e sobre o qual é possível conversar e cuja concretização, de um modo global, se espera conseguir.

A democracia é isto: a apresentação de ideias muitas delas totalmente opostas mas que, baseando-se em dados reais, se adaptam às circunstâncias que mudam e permitem um diálogo, uma base de entendimento necessário à manutenção dos governos durante os seus mandatos. É aqui que deixamos de discutir vírgulas e percentagens, para começarmos a falar de formas do Estado permitir, ou não impossibilitar, a melhoria de vida das pessoas.

No Fio da Navalha

A vitória incompleta

O meu artigo no ‘i’ de hoje.

Faz hoje 70 anos que a Alemanha nazi assinou a sua rendição, que se tornou efectiva no dia seguinte. Oito de Maio é considerado, no Ocidente, o Dia da Vitória, pois, para os soviéticos, essa data foi sendo celebrada, devido à diferença horária, a 9 de Maio.

No entanto, e apesar do grande alívio que representou a capitulação de Berlim, a Europa não se libertou, nessa altura, do jugo das ideologias totalitárias. Se, a oeste, os países europeus recuperaram ou estabeleceram as suas liberdades, não só a nível político e económico, mas também individual, de pensamento e do rumo a dar à sua vida, no leste, a verdade seria outra.

A divisão que se seguiria, o novo conflito a ser travado não significou apenas a condenação de milhões de pessoas a uma vida sem a liberdade mais básica, que é a de poder escolher onde viver, o que fazer, o que dizer e o que pensar. O direito de poder viver com o fruto do seu trabalho. O comunismo, como uma das ideologias mais sanguinárias da história, sobreviveu à II Guerra Mundial porque esta não foi travada para o derrotar.

O comunismo continuou, nos países do leste europeu e noutras partes do mundo, a despedaçar a vida de milhões de pessoas. Até entre aqueles que a este escaparam, muitos não evitaram os seus ditames, vendo-se intelectualmente envolvidos num raciocínio social e económico contra o qual, ainda hoje, longe que vão os tempos das ditaduras, tolhe o entendimento de tantos que, em nome dos mais desfavorecidos, defendem políticas que os prejudicam.

Eleições, TAP & Grécia

Como é habitual à terça-feira, estive com o Marco Capitão Ferreira a debater os temas em cima da mesa, desta vez a data das eleições, a TAP e a Grécia.

No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no ‘i’, sobre gerações, avós e netos.Gerações

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Estou a ler “Les souvenirs” de David Foenkinos, o autor de “La délicatesse”. Sendo Foenkinos da minha geração, há algo que me toca neste seu livro que nos descreve as recordações que o narrador tem dos seus avós.

Quando fica viúva, os filhos convencem a mãe a ir para um lar. É aqui que o neto, moído com sentimentos de culpa, a visita sempre que pode. E o que mais o fere emocionalmente é a avó, querendo protegê-lo, garantir-lhe que tudo vai bem quando ele sabe que não é verdade.

Para quem não o conhece, Foenkinos consegue, com poucas palavras, descrever uma imagem como se fosse uma fotografia. Fá-lo quando nos conta como a avó, na II Guerra Mundial, deixou a escola que os pais não podiam mais pagar e os colegas ficaram junto ao portão, para se despedirem dela. Uma imagem que a velha senhora, então menina, guardou consigo como um retrato dos amigos, mas onde já não estava.

É numa das visitas ao lar, enquanto passeiam pelos seus corredores com vários quadros de gosto duvidoso pendurados nas paredes, que reparam num com uma vaca. Sendo o mais feio de todos, fá-los rir. E quando nada têm para dizer, quando ele sente que a ela lhe custa fazer a representação a que se habituou, é esse o quadro que vão ver. Olhando-o, falam e riem como se não estivessem naquele sítio, mas em casa. Tendo sido ela, conta-nos ele, que lhe transmitiu o sentido estético, foi perante a falta deste que encontraram a forma de viver o que não queriam.

Baralhar e dar de novo

O Luís Naves comentou as minhas considerações sobre o esgotamento do regime confundindo-as com o 25 de Abril. A contrário do que sugere o Luís, não escrevi que o 25 de Abril não serviu para nada. O que disse foi que os objectivos do 25 de Abril se esgotaram 12 anos depois, em 1986. Porquê? Simplesmente porque o regime saído de 1974 não foi capaz de evoluir. Claro que se vive melhor. Aliás, só não se viveria melhor se o país tivesse caído nas mãos do partido comunista. Uma verdade tão óbvia como a dos dados estatísticos que nos mostram os índices do crescimento económico durante a década de 60 e início dos anos 70.

Claro que não há presos políticos e cada um é livre de dar a sua opinião. Mas se a grande maioria pensar da mesma maneira isso não basta. E o Luís deve conhecer os malefícios do politicamente correcto que, aliás, utiliza no seu texto. Quando digo que não há debate, o Luís comprova-o, dirigindo a conversa para outro assunto, o 25 de Abril, e não o tema que referi, ou seja, a pouca evolução política do regime e das suas elites desde 1974.

Há um outro ponto, demasiado duro para que muitos o olhem de frente e antes prefiram baralhar e dar de novo: a melhoria de vida que se conseguiu nos últimos 40 anos, que foi impressionante e de saudar, não tendo sido acompanhada por um crescimento económico capaz de a financiar por muito mais tempo, forçou este governo, como forçará os próximos, a medidas que limitarão essa mesma qualidade de vida.

Confundir quem chama a atenção para isto com alguém que não valoriza nada é baralhar e dar de novo. Não é debater, porque não leva a lado nenhum. Pode tranquilizar a consciência por uns momentos, mas não muda nada.

40 anos depois

Faz hoje 40 anos que em Portugal tiveram lugar as primeiras eleições livres. Foi mais um dos passos na consolidação do actual regime que, podemos arriscar dizê-lo, se esgotou em 1986. Meros doze anos depois. Esta conclusão começa com uma pergunta: para que serviu o 25 de Abril? A resposta cinge-se aos habituais ‘Descolonizar, Democratizar e Desenvolver’. Ora, a descolonização foi feita, a democracia implementada e as bases do desenvolvimento escolhido, estabelecidas na adesão de Portugal à CEE, em 1986.

A partir daqui o regime deixou de dar respostas. Estagnado, foi como que vivendo com os créditos inicialmente conseguidos e que não foram sendo actualizados. Daí que, do auge no final dos anos 80 até à decadência, de início lenta, depois cada vez mais acelerada, a que agora assistimos, foi um passo. Uma vida para muitos. Como é que foi possível? Vamos por partes.

Descolonizou-se. Mas fez-se algo para que o país se aproximasse das suas ex-colónias? Existe alguma relação especial com os denominados PALOP? Pouca, muito pouca. E a que subsiste, baseada na iniciativa de mais de cem mil portugueses que encontraram trabalho em Angola, é contrariada pela incapacidade do Estado, deste regime, feita a descolonização, ter um relacionamento equilibrado com esses países.

Democratizou-se. Sucede que apenas no sentido em que votamos em listas de deputados feitas por partidos políticos. Acaso se aperfeiçoou a democracia, com uma ligação directa entre os eleitores e os seus deputados através dos círculos uninominais? Procedeu-se à descentralização democrática das autarquias. Mas nunca se ponderou a descentralização fiscal de modo a que as receitas dos municípios decorressem dos impostos cobrados localmente e não vindos de Lisboa. Quarenta anos depois, a democracia deste regime já não responde às necessidades das pessoas em nome de quem foi implantada.

Desenvolveu-se. Mas à custa de uma dívida que pôs em causa esse mesmo desenvolvimento. Foi algo que, contrariamente ao que se disse, era tudo menos sustentável. Porque não se manteve, caiu como um baralho de cartas. Também aqui, o modelo seguido está desadaptado da realidade e, este é o ponto essencial, o regime não dá respostas e as poucas que ainda vão sendo apresentadas são liminarmente recusadas.

Não há debate político. Presos ao politicamente correcto da esquerda que se arroga senhora do país há 40 anos, e de uma direita político-partidária que a ela intelectualmente se vergou, o regime estagnou porque não há debate. Não há troca de ideias; não há discussão pura e dura; franca, sincera. Na defesa cega da sua posição, a esquerda prefere baralhar para dar de novo, esquivando-se ao debate. O preço está na democracia parca que temos e no desenvolvimento sem bases que hipotecou o futuro de todos. De quase todos: muitos foram embora, respirar melhores ares.

Neo-socialismo

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Neo-socialismo

O PS apresentou esta semana o seu programa económico para a próxima legislatura. Este visa dinamizar a economia através da procura com medidas como a descida do TSU dos trabalhadores e o estímulo dado às actividades que o modelo keynesiano considera de efeito multiplicador mais rápido, como a restauração e a construção. Bem esmiuçadas, as medidas não são novas e a filosofia subjacente é idêntica à seguida pelos últimos governos socialistas.

O programa do PS parte do princípio que o dinheiro para pagar o Estado e os interesses que à volta deste se reuniram não é do povo. A intervenção da ‘troika’, se teve algo de proveitoso, foi a percepção de que o dinheiro é das pessoas e que o Estado não pode existir à custa da antecipação do rendimento dos cidadãos. Infelizmente, a crise tem tantas variantes que não se resolve com a mera percepção desta realidade.

Que a despesa pública não deve ser superior à receita é algo que finalmente se compreende. É por isso que, apesar do actual nível de impostos, os partidos do governo até podem ganhar as eleições. Na verdade, sendo difícil descer a despesa há quem prefira pagar. É claro que impostos elevados destroem o crescimento. Os impostos são a transferência do dinheiro de uma parte da população para outra e, principalmente quando atinge os níveis actuais, desencoraja quem os paga de produzir e de criar empregos.

Para colmatar esta realidade, e porque não é fácil ganhar eleições com sacrifícios, o PS promete incentivar a procura. Ora, como o Estado não tem dinheiro e as projecções de crescimento são meras manifestações de vontade, a esperança socialista depende do BCE aumentar a base monetária. A ideia é tirar o dinheiro da poupança e gastá-lo. Sucede que, como o problema é a falta de capital, o que não é equivalente a pouco dinheiro, esta política monetária irá apenas aumentar a procura de capital ao mesmo tempo que se reduz a sua oferta, ou seja, a poupança.

Com esta distorção, aumento artificial da procura de capital e redução da sua oferta, a forma de compensar tal falta será através da actividade especulativa. Algo que já aconteceu no passado com os resultados que conhecemos e que irá suceder novamente. É assim que ouvimos incoerências como as daqueles que entendem que o problema da economia é a descapitalização das empresas ao mesmo tempo que defendem políticas conducentes à redução do capital.

E vejamos ainda este aspecto tão interessante: são precisamente os que entendem que é preciso proteger as pessoas, e os Estados, do mundo financeiro que defendem políticas que levam à especulação como forma de se encontrar capital capaz de dar resposta ao incremento da procura que agrada aos grandes grupos económicos. A este fenómeno chama-se neo-socialismo.

No Fio da Navalha

O meu artigo no ‘i’.

A TAP

O governo está a tentar novamente vender a TAP. Como seria de esperar são muitos os problemas num processo que dura há anos. Se por um lado estão os trabalhadores, entre eles os pilotos, que querem deter entre 10 % a 20% da companhia, por outro deparamo-nos com os potenciais compradores que, quando se detêm sobre o que se passa na empresa, repensam a sua estratégia e mostram-se reticentes na sua aquisição.

Há dias foi anunciado o fecho das contas de 2014 que se saldaram num prejuízo de mais de 80 milhões de euros. No seu todo o Grupo TAP tem uma dívida de mais de mil milhões de euros. Ora, estes resultados surgem num momento em que o preço do petróleo está baixo e já não explica prejuízos anteriores, como os de 2008 em que o preço do crude atingiu valores recorde.

Quando se compra uma empresa, se herda um bem, ou se recebe o quer que seja, importa ter em conta não só o activo mas também o passivo. E o que se passa com a TAP é que o passivo, que não é apenas a dívida da empresa, mas também as obrigações e limitações a que o interesse político a sujeitou, supera muito o seu activo.

O problema da TAP já não é a mera perda de valor, mas o não valer quase nada. Pode ser chocante para muitos, mas uma empresa não se avalia pela emoção, menos ainda quando aqueles que com ela se comovem não gastariam nela um euro que fosse. É, aliás, por isso que são contra a sua privatização. Querem uma empresa, mas o povo que pague por ela.

A careca socialista

No passado dia 16 de Janeiro escrevi um artigo para o Diário Económico no qual referi que o PS “se prepara para defender o conceito de Estado empreendedor” (último parágrafo). Na altura referi que se trataria de “uma alteração de nomenclatura para empresas públicas e a desvalorização da ideia de poupança”.

João Galamba escreve hoje, 3 meses depois, um artigo no Expresso com o título Estado empreendedor. Nada disto é por acaso, pois basta estar atento aos sinais do PS para perceber que fintas vão utilizar para chegar ao mesmo fim: investimento público decidido pelo poder político que, prisioneiro dos interesses financeiros e económicos, os favorece em detrimento da população. Investimento público à custa de dívida paga por impostos que mais não são que a transferência do que cada um de nós ganha para as mãos dos poucos com acesso ao poder.

É preciso estar muito atento a tentativas com esta de João Galamba. Estas vão-se repetir naquilo que não passa de um esforço de explicar, por outras palavras e outros floreados, que o caminho seguido pelo PS nos últimos anos, e que obrigou Sócrates a pedir a intervenção da troika em Portugal, e a consequente instauração da austeridade, é o único que os socialistas conhecem.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

A esquerda que não existe

O interesse que a candidatura de Sampaio da Nóvoa à Presidência, contrariamente à de Henrique Neto, despertou entre a esquerda tem uma relevância que vai muito além de se saber se pode ou não ser vencedora.

O que mais ressalta da mensagem de Sampaio da Nóvoa é a proliferação de lugares- -comuns que a esvazia de qualquer conteúdo, tornando-a aceitável para uma grande parte do público que a escuta. À semelhança do que sucedeu com Manuel Alegre, parte da esquerda satisfaz-se com frases feitas que não têm qualquer aplicação prática.

O fenómeno explica-se porque o modelo de desenvolvimento com que a esquerda pretende vencer eleições tem um custo que nem o Estado nem os seus credores estão em condições de pagar. É assim que o regresso a uma realidade em que os cidadãos possam suportar as políticas de esquerda pressupõe austeridade. Precisamente aquilo contra que Sampaio da Nóvoa se insurge.

Porque fala de uma realidade impraticável, ou passada, consoante se prefira, Sampaio da Nóvoa utiliza uma linguagem o mais abstracta possível. Não é apenas um modo de agradar sem se comprometer. É também uma forma de alheamento a que parte da esquerda se junta de bom grado. Esta maneira de se opor sem que concretize permite que a esquerda subsista. Mas é um durar que não passa de manifestação verbal porque, no concreto, esta esquerda decidiu não existir.

Franco Atirador 7

Estive em mais um Franco Atirador, um programa semanal de debate sobre a actualidade política e social portuguesa, moderado por Joana Amaral Dias e Nuno Ramos Almeida.

Deputados

Porque é que a qualidade dos deputados decaiu? O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Deputados

A 7 de Maio próximo o Reino Unido vai a eleições. O comentador político Danny Kruger considera-as as mais entusiasmantes e, ao mesmo tempo, aborrecidas das que se recorda. Entusiasmantes, porque tudo pode acontecer; aborrecidas, porque a diferença entre os partidos é de pormenor. Tal como cá, o debate político, atenuadas as diferenças entre os maiores partidos, resume-se a insultos, truques de retórica e a questões menores.

Julia Langdon é uma jornalista britânica que tem escrito sobre política desde 1971. Em Fevereiro deste ano apresentou um estudo, cujo conteúdo divulgou no The Guardian, sobre o quanto a Câmara dos Comuns mudou desde o ano em que começou a trabalhar e o presente. E o que Julia nos conta é que o actual Parlamento é o menos representativo desde que foi atribuído o direito de voto às mulheres. Enquanto, em 1971, os deputados eram advogados, professores, mineiros, engenheiros, ou seja, das mais diversas profissões, actualmente proliferam os políticos de carreira, pessoas com cursos superiores, mas que cresceram dentro dos respectivos partidos e, a maioria deles, sem nunca ter exercido uma profissão fora da política.

É assim que dentro dos partidos com assento no Parlamento desapareceu a diversidade social, cultural, educacional e profissional. Dizem todos o mesmo, porque são todos o mesmo e querem todos ser a mesma coisa, ou seja, membros do governo. Fechados na redoma em que se criaram, limitam-se aos insultos, aos truques de retórica e às questões menores. Não representando o povo, porque não o entendem, não discutem os seus problemas, mas as questiúnculas menores que a ninguém interessa e que não colocam em causa a essência que os mantém à tona.

O problema britânico é, como se vê, semelhante ao português e não se resolve facilmente. As razões nos trouxeram a esta realidade são inúmeras. Julia Langdon refere os baixos salários dos deputados britânicos que empurram os mais esforçados e inteligentes para profissões onde se ganha bem melhor. Em Portugal o vencimento é uma questão, mas não a principal, tal como não é a única no Reino Unido.

A razão para a pouca representatividade dos deputados está na irrelevância actual do Parlamento. Tanto no Reino Unido, como em Portugal, o poder passou do legislativo para o executivo. É no Governo, e não na Assembleia, que se tomam decisões. Os deputados não decidem, pelo que não debatem verdadeiramente; porque não são ouvidos, já nem sequer escrutinam o governo. Ser deputado já não é uma vocação, uma aspiração, mas um lugar que se ocupa à espera de melhor oportunidade.

A expansão do Estado levou a uma impaciência no agir que não dá espaço a que se debata. A força do Parlamento, que passa pela contenção do poder político, é apenas mais uma vítima do fim do conceito do poder limitado como algo benéfico para os cidadãos. Muito pouco mudará enquanto não surgirem deputados com vontade de inverter a presente situação.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

O dólar

O “Público” noticiou no sábado passado que a retoma dos EUA e a subida do dólar geravam riscos para as economias emergentes. Horas depois, o “Los Angeles Times” informava que a subida da moeda norte-americana podia adiar a decisão da Reserva Federal dos EUA (FED), vulgo banco central, de subir as taxas de juro, o que a acontecer poria em causa a subida do dólar.

O erro na análise do “Público” parte de uma premissa que a maioria está a ignorar: a economia norte-americana não está a recuperar; está apenas a viver os efeitos de uma bolha que a administração Obama e o FED criaram. Se antes medidas idênticas originavam taxas de crescimento avassaladoras e agora meramente ridículas, é algo que a maioria não quer ver, porque prefere o conforto de sentir que tudo está bem e resolvido.

Mas não está. A crise veio para ficar e não é passageira, porque assenta num crescimento económico conseguido durante anos à custa do endividamento. Enquanto o endividamento não terminar, ou for fortemente reduzido, a crise continua e qualquer pequeno sinal em sentido contrário será uma ilusão criada por ilusionistas.

Foi por este motivo que o dólar subiu e, ao contrário do que seria de esperar, caso a sua subida assentasse na saúde da economia norte-americana, o FED não sobe as taxas de juros. Não sobe porque não pode; não pode porque se o fizer a ilusão criada desvanece-se. Dito de outra forma: a economia deixa de criar empregos porque os que cria se baseiam na desvalorização da moeda, não na criação de riqueza.

No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no ‘i’, sobre o meu encontro com Agostilho da Silva e, de certa forma, com tudo a ver com a Páscoa.

Agostinho da Silva

Há alguns anos, andava eu pelo 10.o ano, entrevistei o professor Agostinho da Silva para a cadeira de Jornalismo. A minha mãe, que dava consultas perto do Príncipe Real e o via, antes de começar a trabalhar, quase todas as manhãs no café, pediu-lhe o número de telefone para que o seu filho o contactasse. Assim fiz e assim aconteceu um encontro que guardarei comigo para sempre.

Falámos da liberdade, que para Agostinho da Silva era a libertação do homem de si mesmo, e da natureza muito própria do português, indispensável para o zénite de uma vida pessoalmente realizada. Num ponto de vista mais terreno, salientaria a actualidade do que disse sobre o endividamento e os problemas que daí adviriam quando se descobrisse que não haveria modo de o pagar.

Passam, no início deste mês, 21 anos sobre o falecimento de Agostinho da Silva, um homem que, para a maioria dos que se recordam dele, não passou de um velhote simpático com barbas brancas que dizia coisas engraçadas mas irrealizáveis. Ou antes, difíceis, por opostas ao facilitismo que é, não direi desistir porque há quem não tenha sequer tentado, não impor a si mesmo a magnitude da sua essência.

Às tantas disse ele: “O que é preciso é não enjoar a bordo, até porque o balanço do navio vai ser uma coisa linda! E como é que nos aguentamos? Disse bem. Se perguntamos a um marinheiro, o marinheiro diz: ‘A única maneira é olhar para o horizonte.’ Então teremos de ter um horizonte em terra. Qual pode ser? O ideal que tivermos em vida. E assim nos mantemos.”

Revolução francesa

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Revolução francesa

A França tem sido muito criticada pela sua imobilidade económica e política. É muito comum dizer-se que os franceses estagnaram perante os desafios que os assolam há vários anos. Paralisados, entorpecidos com a crueldade de um mundo que não se revê neles, os franceses enfiaram a cabeça na areia e ignoram o que se passa à sua volta, mesmo quando dentro das suas fronteiras. Mas isso já não é verdade.

Pelo menos desde há uns tempos a esta parte, a França está a reagir. E o rumo dessa reacção tem tanto de interessante quanto de relevante para o debate político português. Na verdade, a cultura política do nosso actual regime, e da geração que o moldou à sua imagem e semelhança, deve muito da sua essência à experiência, percepção e modo de pensar francês.

São vários os exemplos dessa mudança, desde as continuadas provocações de Éric Zemmour que culminaram com a publicação, em 2014, do seu último livro, Le Suicide français, no qual o autor culpa a geração de 68 pelo declínio do Estado francês e pelos problemas sociais, e raciais, que assolam aquele país. Mas também o filósofo Alain Finkielkraut com as suas críticas ao relativismo, ao progressismo e, novamente, ao Maio de 68.

A revista Le Point, cujos editoriais do seu director Franz-Olivier Giesbert têm um forte pendor liberal, fez há semanas primeira página deste assunto. Não se limitou a referenciar os líderes mais mediáticos deste fenómeno, mas apresentou outras individualidades que fazem a nova geração, bem como outras tendências dentro do, podemos defini-lo assim, movimento. Porque é disso que se trata: de uma verdadeira deslocação do discurso político francês para a direita.

Os partidos de direita, neste caso a UMP e o UDI, este fundado há pouco mais de dois anos por Jean-Louis Borloo, ainda não encontraram a melhor forma de integrar no seu discurso político o novo pensamento da direita. Mas será uma questão de tempo. O certo é que a força motora do debate político francês já não se joga à esquerda. A França do Maio de 68 acabou.

Não se espere, no entanto, grande originalidade. Afinal, trata-se da França especialista em revoluções que, sabemos também por experiência própria, mudam pouca coisa ou quase nada. Tirando alguns sector mais liberais, os intelectuais franceses que estão a levantar a voz em nome da direita, apelam ao conceito de um Estado forte que se imponha a todos.

As consequências em Portugal são evidentes, pois muito brevemente a esquerda portuguesa ficará politicamente órfã. Talvez por isso, o que se passa em Paris não seja notícia em Lisboa, o que revela o quanto esta nova realidade afectará o nosso regime. Aliás, se há político francês que interessa seguir é Manuel Valls. É que, ou o PS de António Costa deriva à esquerda, ou o líder do PSF é um bom prenúncio das escolhas ingratas que terão de ser tomadas no Largo do Rato.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje ‘i’.

A defesa da Europa

Foi há poucos dias, e perante a Comissão Europeia, que Manuel Valls apelou a que os 28 países da União Europeia (UE) se unissem e comparticipassem no custo da luta contra o terrorismo. Perante o esforço que o governo francês para fazer frente a esta ameaça, o primeiro–ministro francês chegou mesmo a dizer que “l’armée européenne existe, c’est la France”.

Quem diria. Quem diria há 15 anos que ouviríamos a França falar deste modo, chamando atenção para a necessidade de a Europa financiar a sua defesa. Na verdade, não é só o terrorismo que a ameaça. Os EUA têm outros desafios na Ásia e no Pacífico e a Rússia está novamente a levantar um muro que a separa do velho continente.

Sem esquecermos a Grécia, que, saindo do euro, cairá num limbo para o qual arrastará aquela zona do Mediterrâneo e afastará a Turquia do Ocidente. Não é por acaso que Obama se preocupa com a situação grega e apela a que a UE reconsidere  a cobrança da dívida daquele país.

Aquilo que os europeus estão a começar a perceber é que o guarda-chuva norte-americano já não é suficiente. A Europa precisa de fazer por si. O que cria um desafio militar acrescido, pois implica um aumento da despesa pública, precisamente quando a maioria dos estados europeus estão fortemente endividados. Como é que países com já tão pouca margem de manobra vão financiar o tão necessário armamento, aumentando o orçamento no sector da defesa? Como é que uma Europa atulhada em despesa investe na defesa?

No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no ‘i’ é sobre o dia do pai.

Dia do Pai

Na edição do seu 90.o aniversário, a revista “The New Yorker” publicou um pequeno artigo sobre duas crianças, uma de seis e outra de dez anos, que foram vistas a andar sozinhas no estado do Maryland. Várias pessoas ficaram alarmadas e chamaram a polícia. Esta levou-as para casa, onde repreenderam o pai, Alexander Meitiv, físico no National Institutes of Health, com sede naquele Estado.

Os pais das crianças, que fazem parte de um movimento chamado Free Range Kids (FRK), sabiam que os filhos vinham nesse dia a pé para casa, seguindo um percurso anteriormente feito com eles. O FRK considera que os pais actuais estão sujeitos a uma cultura do medo histérica que vê um raptor em cada esquina. Assim, as crianças devem aprender a ser responsáveis, independentes e a crescer em liberdade. Apesar disso, a agência governamental Child Protective Services (CPS) considerou os pais responsáveis de negligência infundada. É preciso um certo esforço para perceber o que significa, porque o objectivo é precisamente ser indecifrável.

Com seis anos eu comecei por comprar o pão e fazer pequenas compras no supermercado perto de casa. Levava dinheiro, pagava e trazia o troco. Graças aos meus pais, que não quiseram ter a preguiça de me proteger em demasia, fui educado a ser responsável, conhecendo os riscos. A paranóia de agora, fomentada por entidades públicas, que impede os pais de educarem os seu filhos como desejam, evidencia o risco em que se encontra a liberdade fundamental de ser pai e que não se corrige num dia.

Exigência

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Exigência

Em 1918, Thomas Mann publicou as “Considerações de um Apolítico”. Trata-se de uma apologia da Alemanha de Guilherme II, contra a França, o Reino Unido e os EUA. Contra o Ocidente, a democracia, o liberalismo económico e político. Mann definiu-se nesta obra como apolítico porque não apreciava a política. Não só a política partidária, mas tudo o que esta significava de discussão, de debate, de liberdade, porque em detrimento da ordem, da incerteza; em prejuízo da estabilidade e da previsibilidade.

Quando o escreveu, Thomas Mann era um homem literariamente instruído e já tinha publicado ‘Buddenbrooks’ e ‘Morte em Veneza’. No entanto, quanto à política e no que dizia respeito à economia não se tinha cultivado. Não sabia, nem queria saber. Foi por isso que se definiu como apolítico: alguém sem ideias políticas. E foi também por essa razão que ao longo da sua vida contradisse o que defendeu em 1918. Thomas Mann não era mal-intencionado. Pura e simplesmente, não sabia. Quis-se alhear da realidade até perceber, para o que precisou de uma guerra mundial, o perigo de ser apolítico. O perigo de entregar o poder do conhecimento a outros.

Praticamente 100 anos passaram das considerações apolíticas de Mann, mas os riscos, embora não tão graves, têm a mesma génese. Da mesma forma que Mann beneficiou da paz que o liberalismo permitiu à Europa no século XIX, também a maioria de nós adormeceu pensando que a história tinha terminado. No entanto, durante esse mesmo período, a história desenrolou-se e caiu-nos em cima.

E aquilo com que nos deparamos agora é que enquanto a maioria, à semelhança de Mann, esteve adormecida e imersa nas suas vidas, os dirigentes políticos, beneficiando desse torpor e indiferença, seguiram, tal como há um século, políticas que à primeira vista eram inofensivas, mas que quando continuadas durante anos puseram em causa o equilíbrio alcançado.

Chegámos assim a um despertar do eleitorado que foi apanhado de surpresa. Um eleitorado que, por se ter desinteressado das questões políticas durante anos, vai cometer erros. Como Mann. Mas que também vai evoluir; vai-se instruir e irá exigir políticos com um discurso que vá além do mero amealhar de receitas para serem distribuídas de acordo com critérios tantas vezes subjectivos e que encaram o Estado como um conjunto de lugares a serem ocupados.

É frequente referir-se que o eleitorado já não se revê nos partidos. Ora, e contrariamente ao que se diz, tal não sucede por falta de interesse, mas precisamente porque os cidadãos agora querem saber. Exigem. E sejamos muito directos neste ponto: o eleitorado está à procura de novas soluções; de novos caminhos que estão a ser esboçados fora da classe política. Esteja, pois, esta atenta para se actualizar e ir ao encontro de um eleitorado que já não é mais apolítico, mas começou a exigir.