No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no jornal ‘i’.

A soberania, segundo a esquerda

Desde que este PS chegou ao governo, com o apoio dos comunistas e dos bloquistas, que as taxas de juro, que o Estado português paga pelo dinheiro que pede emprestado para funcionar, têm estado a subir.

O que está a segurar o país é o BCE que está a comprar  dívida pública portuguesa. Caso não o fizesse, os juros subiriam numa espiral forçando António Costa e Mário Centeno a repetir o gesto de Sócrates e Teixeira dos Santos e pedir nova intervenção da troika.

No entanto, até a compra de dívida pública por parte do BCE não é certa. Ou melhor: não depende apenas da boa vontade daquele banco central. Existem regras: uma das condições é que as agências de rating considerem que não haja risco no investimento em dívida pública portuguesa. Ora, neste momento, apenas uma dessas agências assim o entende: a DBRS. Traduzindo por miúdos, caso esta agência aumente a nota de risco dada a Portugal, baixando o rating, o Estado deixa de ter acesso à ajuda do BCE. Lembra-se do que está escrito no final do primeiro parágrafo?

Pois é. A maioria das pessoas pode ainda não se ter apercebido, mas estamos por um fio. Dependemos de uma agência de rating sediada no Canadá. Esta é a noção que a esquerda tem de soberania: bater o pé e cair redondo no chão. Mas o mais impressionante não é isso. O que mais impressiona é ver a esquerda a falar de soberania, ao mesmo tempo que nos deixa nas mãos duma instituição que até há pouco tempo a maioria de nós não tinha ouvido falar.

Orgulhosamente sós

O meu artigo hoje no Diário Económico.

Orgulhosamente sós

Qual é o maior problema da economia portuguesa? O endividamento excessivo. Do Estado, que gasta mais do que recebe; e dos privados, estimulados que foram a gastar o que não tinham para que a economia crescesse mais depressa do que o Estado se endividava.

Pelo que se percebeu da sua prestação no debate quinzenal no Parlamento sobre o Orçamento, António Costa gosta de torrentes. Ora, e aproveitando a imagem de Costa, o endividamento excessivo é como uma torrente de água retida por um muro; um muro construído pela ‘troika’ que impede o colapso do Estado.

A esquerda quer que Costa bata o pé em Bruxelas. À mera referência de que o dinheiro que nos sustenta não é nosso, a esquerda estrebucha, indigna-se. Abre a boca, mas tapa os olhos e os ouvidos. Recusa ver a realidade, tal como Salazar fez com a guerra colonial e a necessidade de democratizar o regime. E, tal como o velho ditador, a velha esquerda acusa o estrangeiro. Para Salazar, o demónio era os EUA e as liberdades do Ocidente. Para o PS de Costa, com o PCP e o BE a dar-lhe força, os mercados, a Europa, os alemães e, porque é preciso um bode expiatório mais concreto, a Sra. Merkel.

40 anos depois voltamos a ser governados por políticos retrógrados. Por um governo que visa à força, contra a torrente de água que nos ameaça, manter o país à margem do que se passa no exterior. A ilusão de se governar um país alheado do mundo real, alheado da vida além fronteiras, do que de bom e de mau pode vir lá de fora, não é caso único em Portugal. A China vive também o custo que é o despertar para essa realidade. Perante as quedas bolsistas no início do ano, as grandes empresas estatais chinesas, mandatadas por Pequim, tentaram suster a torrente. Não conseguiram. Os factos têm mais força e o rio que os transporta impõe-se, a bem ou a mal.

Como se impõe quando os governos cegam com a ideologia e as ambições pessoais dos seus líderes. Mas o problema não é apenas o governo viver uma fantasia. Tal como a questão com Salazar não era só a sua discrepância com o exterior, mas essencialmente o sofrimento que impunha ao país. Como no passado, também agora estamos perante uma estratégia que nos prejudica.

Convençamo-nos do seguinte: com dívida não há investimento produtivo; não há capital, porque o que amealhamos serve para pagar o que devemos. Isto é uma luta tão importante como a de há 40 anos: com dívida não há liberdade. Não somos livres dos poderes corporativistas que dominam o Estado e beneficiam da lógica do endividamento nem dos discursos nacionalistas que se alimentam da pobreza que criam e de que nos libertámos há 40 anos, mas que a esquerda extremada está a ressuscitar.

Como se escreve uma boa crónica

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Não é frequente ler-se uma boa crónica. Menos ainda uma excelente. Tive essa sorte no número de Dezembro da revista ‘The Oldie’, num artigo de William Cook sobre a sua viagem a Dresden, na Alemanha. Ou melhor: sobre as suas muitas viagens àquela cidade descaracterizada pelos bombardeamentos aliados na Segunda Guerra Mundial e após 40 anos de ditadura comunista.

Cook intitula a sua crónica de ‘Dresden’s miracle rebirth’. Ele começa-nos por contar que o seu pai nasceu naquela cidade durante a guerra e sobreviveu aos bombardeamentos de 1945. A primeira vez que Cook conheceu Dresden foi em 1995 e viu uma cidade cheia de 50 anos feridas. No entanto, foi regressando ao longo dos anos e sempre que o fazia encontrava-a melhor. Mais animada, mais arrumada, mais organizada, desenvolvida. Um sítio onde o bem-estar e a melhoria do nível de vida se sentia (e se sente) ao virar de cada esquina. A partir daqui, Cook guia-nos pelas principais atracções da cidade. Algo que faz muito rapidamente até porque o artigo não é longo, duas páginas apenas, ainda por cima com uma enorme fotografia da Frauenkirche de Dresden numa, e um anúncio à The Oldie Travel Insurance, na outra.

É a partir de certa altura, já perto do fim, quando Cook nos conta que no decorrer da sua última viagem decide visitar a casa onde o pai nasceu que a crónica atinge o seu auge. Ele esclarece-nos que, como a casa fica nos arredores, não foi atingida pelas bombas e ainda existe. Depois de convencer os seus actuais donos a entrar, dirigiu-se e deixou-se estar por uns momentos no quarto onde o pai nasceu e a avô assistia aos bombardeamentos pela janela. Ela fê-lo até ao dia em que apanhou o último comboio para Hamburgo antes da chegada do Exército Vermelho. Nessa outra cidade alemã, a avó partiu para Inglaterra onde viveu, o pai de Cook cresceu, mais tarde conheceu a mãe deste e ele depois nasceu. E é quando o cronista nos conta isto, ao mesmo tempo que contempla o quarto da avô e pensa na sorte que teve em existir e ser feliz, que nos tira o tapete do pés e nos faz perceber que está a compreender porque razão se encontra ligado a Dresden e a tem visitado tantas vezes durante tantos anos. É que, ao mesmo tempo que escreve, e se assim não é assim o parece, Cook compreende que, tal como aquela cidade, também a sua família, a sua avô, o seu pai e ele próprio renasceram. Naquele quarto, sobreviveu-se; noutro país, na Inglaterra, a vida surgiu novamente e seguiu o seu rumo até chegar aquele momento em que Cook e Dresden se encontram e se revelam no destino comum que os une.

É nesta altura, bem no fim da crónica, na última linha, que percebemos que o que acabámos de ler, apesar de inserido na rubrica de viagens, depois de um artigo sobre uma estância de esqui e antes doutro sobre uma viagem ao Japão, que não estivemos a ler um texto sobre um destino turístico, mas uma viagem pessoal, interior, de um homem e de uma cidade. Sabemos que fomos enganados e ficamos agradecidos por isso. Porque são partidas deste género que fazem uma boa crónica, que causam uma surpresa que vale a compra de uma revista.

O futuro do PS

António Costa quer prefere discutir o futuro. É mais fácil, porque vago. Mas já que ele tem essa preferência, seria interessante saber o que pensa Costa sobre o futuro que deixa ao PS quando a bancarrota do Estado derrubar este governo.

No Fio da Navalha

O meu artigo no jornal ‘i’.

O cerco aperta-se

É já para a semana que têm lugar os caucuses do Iowa, dando-se assim ao tiro de partida no processo de escolha do próximo presidente dos EUA. E a coisa está feia tanto do lado Democrata como do Republicano. Se entre os primeiros, Hillary Clinton está novamente a ser surpreendida por um outsider, desta vez de nome Bernie Sanders, já os segundos começaram a fazer contas e a pensar como minimizar o impacto negativo que a nomeação de Donald Trump trará ao partido.

O que está a causar divisões. A conservadora National Review fez sair uma edição muito crítica de Donald Trump (não deixa de ser curioso que sejam os conservadores os mais avessos ao fenómeno Trump), comparando-o a um ditador sul-americano liberto das amarras que são as ideias conservadoras que tornam sensato qualquer pessoa que, com humildade, reconheça os seus limites. O problema entre os republicanos é que quase todos odeiam Ted Cruz, o melhor posicionado para destronar Trump.

A somar a esta confusão, Bernie Sanders pode, caso ganhe como previsto no New Hampshire, vir a ser o candidato dos Democratas à presidência. Sanders é um socialista, dos verdadeiros, e um confronto eleitoral deste com Trump não deixaria de ser inquietante. São dois demagogos que rejeitam a ideia do governo limitado que deu origem aos EUA e, em nome de paixões políticas de cariz mediático, querem impor a sua visão de sociedade aos outros. Tal como na Europa, com Tsipras, Jeremy Corbyn, Marine Le Pen,  Pablo Iglesias e António Costa, a demagogia aperta o cerco nos EUA.

Moody’s, o eterno défice e presidenciais

Como tem sido habitual à terça-feira, vou estar hoje pelas 12.10, no Económico TV. Os temas desta semana são a Moody’s e o OE 2016, o défice de 2015 e ainda os resultados das presidenciais.

Primavera Marcelista

Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito presidente da República sem que tenha dito uma palavra sobre os desafios do país. Apesar de compreender a sua estratégia, esta demonstra por A+B que a direita portuguesa ainda pede permissão para falar. É assim porque não há ainda um discurso programático de direita que deixe para trás a confronto tradicional direita/esquerda, em que esta defende os pobres e aquela os ricos. Ainda não consegue sustentar um programa político no qual o rigor das contas públicas significa mais liberdade, mais riqueza para todos e maior capacidade do Estado exercer as suas funções essenciais.

Mas esta eleição não foi sobre isso. Não foi sobre a direita. Foi sobre Marcelo. E pelo que conhecemos dele, sabemos estar talhado para o cargo. Conforme referiu José Miguel Júdice a semana passada no jornal i, Marcelo conhece todos os intervenientes com quem falará abertamente. Também sairá à rua que cativará sem grandes dificuldades. Tal como Soares, o seu poder de influência advirá daí. Da sua popularidade. Com essa força, esse à-vontade, Marcelo presidirá à República como um príncipe.

Caso nenhum partido obtenha maioria absoluta no Parlamento, Marcelo conseguirá o que Soares, por culpa de Cavaco, almejou sem sucesso. A vida tem destas ironias a que acresce a maior de todas com o decadente regime pós-25 de Abril a viver a sua Primavera Marcelista.

Em 2016 a vergonha é de esquerda

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Em 2016 a vergonha é de esquerda

Marcelo Rebelo de Sousa quer ser presidente da República com os votos da direita, mas fingindo-se de esquerda. Espera ganhar contrariando o que aconteceu nas autárquicas de 1989 quando, afirmando-se de direita, perdeu para o esquerdista Jorge Sampaio.

A derrota serviu-lhe de lição e há erros que não quererá repetir. Mas será um erro um político dizer-se de direita? Será que 2016 é igual a 1989? Ou será que, no tempo que medeia entre uma eleição e outra, a falência do modelo de desenvolvimento seguido pelo regime serviu para que aprendêssemos alguma coisa?

Em 1989 a direita tinha vergonha por não ter sido activa na oposição ao Estado Novo. Além disso, a social-democracia impunha o Estado como coadjutor do desenvolvimento do país e poucos se importavam com os défices das contas públicas e as consequências que adviriam do endividamento do Estado. Ora, a realidade em 2016 é muito diferente. Não só o socialismo pôs em causa a sustentabilidade financeira do Estado, como qualquer culpa que a direita pudesse sentir anteriormente não existe agora.

Em 2016, a maioria dos eleitores de direita nasceu perto ou depois do 25 de Abril. A minha geração não tem qualquer complexo de inferioridade por ser de direita. Da minha parte afirmo e repito as vezes que forem precisas: não peço desculpa por ser de direita, por acreditar no mercado livre, por considerar que o intervencionismo e dirigismo económico do Estado é nocivo para as pessoas e que a defesa das liberdades individuais passa pelo fortalecimento dos laços que esses mesmos indivíduos vão estabelecendo uns com os outros, seja através da família ou das relações profissionais, de amizade, associativas e até mesmo de vizinhança. Não me constrange defender que a luta pela liberdade passa por um maior controlo e fiscalização do exercício do poder público.

Essencialmente, não tenho de pedir autorização a cúmplices de regimes comunistas, nem a quem já levou o Estado à bancarrota e se prepara para repetir a façanha, para dizer ou escrever o que penso. Na verdade, nunca fiz o que Marcelo faz em 2016. Porque das duas, uma: ou Marcelo tem medo de dizer o que pensa ou não pensa nada. Não tem programa. Qualquer uma das possibilidades é impensável nos dias que correm; inadmissível para um eleitorado que os acontecimentos dos últimos anos deveria ter tornado exigente.

Marcelo até pode ganhar à primeira volta. O problema vem depois. Embaraçado na teia que ele próprio armou, Marcelo ver-se-á preso pelo que não disse, porque nada se espera dele que não seja silêncio. A estratégia pode ser boa para ganhar a presidência, mas é má para exercê-la. Principalmente, quando, e ao contrário do que por aí se diz, o próximo Presidente vier a ter um importante papel nos equilíbrios políticos que se vão criar daqui por diante.

Hoje na Edição das 12 do ETV

Como habitualmente à terça-feira estarei presente, hoje pelas 12.10, no Económico TV. Os temas desta semana serão as subvenções dos políticos e a desconfiança dos investidores em relação a Portugal.

No Fio da Navalha

O meu artigo no jornal ‘i’ de hoje.

A cumplicidade que nos inqueta

Em Outubro do ano passado, quatro proprietários de uma editora e livraria em Hong Kong desapareceram. O alarme foi lançado pelo dono que restava, um senhor chamado Paul Lee. Restava, porque também ele desapareceu no início deste ano. O caso é estranho, mas há luzes que o explicam.

É que a editora, Mighty Current, de que Paul Lee e os restantes desaparecidos são proprietários tem vendido livros sobre as atividades menos legais dos principais dirigentes chineses. O lançamento de uma obra sobre a vida privada do presidente Xi Jinping terá mesmo sido a gota de água que as autoridades comunistas, que como sabemos não toleram a corrupção, não puderam deixar passar.

Dias depois do desaparecimento de Paul Lee, a sua mulher recebeu uma carta, aparentemente escrita pelo próprio, na qual assumia ter saído livremente de Hong Kong para colaborar com as autoridades chinesas em assuntos urgentes. Terminava dizendo que tudo estava bem com ele ao mesmo tempo que pedia que continuassem a gerir bem a editora e a loja.

A ironia é deliciosa, não fosse tudo verdadeiro e aterrador. Mas esta história tem algo que nos toca a nós, portugueses. É que em 2013, Jerónimo de Sousa foi com o PCP numa visita oficial à China, no seguimento da qual, e de acordo com entrevista do líder do PCP ao jornal “Avante!”, as autoridades chinesas “reafirmaram-nos a determinação do PCC em persistir com firmeza no caminho da construção do socialismo”. Ora, se o socialismo é aterrador, o silêncio perante estas cumplicidades é, no mínimo, inquietante.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no jornal ‘i’.

“The Oldie” e a crise na imprensa

“The Oldie” é uma revista mensal inglesa que se considera a mais original do país. A pretensão não é para menos, não fosse dirigida ao público mais velho, o que explica o seu nome. A revista, fundada em 1992, tem uma circulação mensal de cerca de 45 mil exemplares, próxima do “Guardian Weekly” e da “Spectator” e maior que a da centrista e aborrecida “Prospect”

Lembrei-me da “The Oldie” devido à crise na imprensa que marcou o ano de 2015 e vai estar presente todos os dias deste novo ano. É que “The Oldie”, além do público-alvo que é a terceira idade, consegue ainda vender a leitores com idades a partir dos 20, 30 anos. Como? Simplesmente porque não tem medo de ser original. Está bem escrita; escrita com cuidado, mas sem que os artigos sejam excessivamente longos, até porque a boa imprensa escrita é concisa o suficiente para informar sem que a sua leitura se torne penosa.

Tem artigos sobre política, economia, cinema, exposições, restaurantes e viagens. Tem ainda colunistas experientes que nos contam histórias por eles vividas, fazendo-o da forma mais maravilhosa que podemos imaginar, tornando-nos leitores ávidos de algo que, no fim de contas, apenas tem de extraordinário o estar divinamente bem escrito.

A lição que se tira da “The Oldie” é que o público, inundado de informação diária debitada online, precisa de tempo para ler. Para ter consigo algo que o ajude a assentar as ideias. Até porque a imprensa escrita não é apenas informação. É, antes de mais, a melhor forma de fazer pensar quem a lê.

A nacionalização dos interesses

O meu artigo de hoje no Diário Económico é uma resposta ao de João Galamba anteontem no Expresso sobre o Novo Banco.

A nacionalização dos interesses

Num artigo publicado esta semana no site do Jornal Expresso, João Galamba defende a nacionalização do Novo Banco. Entendendo que a socialização dos custos dos bancos nunca pode ser eliminada, Galamba conclui que a privatização dos ganhos não pode ser um dogma.

Para o deputado do PS, um banco público apresenta vantagens perante o privado porque naquele tanto as perdas como os ganhos são públicos. Ora, vamos lá então ver se vale a pena ser accionista forçado de um banco público: a Caixa Geral de Depósitos recebeu do Estado 900 milhões de euros que ainda não devolveu. Ao que se diz, precisa de mais 400 milhões. Em 2014, teve um prejuízo de 348 milhões de euros; em 2013, de 578 milhões; em 2012, de 395 milhões; em 2011, de 411 milhões. Pouca coisa quando o banco é público.

Mas a história não se fica por aqui: em 2010, quando a CGD também cometia os erros dos bancos privados, o banco público teve um lucro de 250 milhões. Em 2009 registou um lucro de 469 milhões, que se traduziu numa quebra de 46% relativamente a 2008. Ou seja, a CGD, o banco público – tal como os banco privados -, teve lucros na época de ouro, quando o dinheiro era barato e corria a rodos e a fiscalização fechava os olhos. No que é que o comportamento da CGD foi melhor que o dos bancos privados?

Galamba resolve este pequeno grande problema com uma frase: “No caso de bancos públicos, como a Caixa Geral de Depósitos, a socialização das perdas foi precedida por uma socialização dos ganhos, pelo que o problema não se coloca.” Já ouvi esta frase vinda de outro socialista pelo que deduzo que seja uma posição concertada dentro do Partido Socialista. É claro que não interessa a João Galamba que, na CGD, a socialização dos ganhos e dos custos seja forçada.

Não interessa que esses ganhos, que se dizem públicos, sejam utilizados pelo poder político, por pessoas como João Galamba e demais membros da direcção do PS para satisfazer interesses do Estado, que nem sempre são os das pessoas, dos accionistas forçados da CGD. Não interessa porque um banco público serve para muito mais que isso. Serve, e é aqui que está o ponto, como instrumento de manipulação do mercado, de intervenção nas empresas – como sucedeu na PT, na ZON, na Cimpor, na Galp e no BCP. Um banco público serve, entre muitos outros instrumentos utilizados pelo poder político, para encaminhar o país pela via de um desenvolvimento baseado na contracção de dívida. No que à CGD diz respeito, o que está em causa, além da socialização dos ganhos ou das perdas, são os interesses.

No Fio da Navalha

O meu artigo no jornal ‘i’ de ontem.

Estado de corrupção

O milionário chinês e presidente do grupo do Fosun, Guo Guangchang, foi detido na semana passada. Os motivos, ao princípio desconhecidos, estarão relacionados com a corrupção que as autoridades chinesas, perante os maus resultados da economia, decidiram combater.

O problema é que na China comunista, porque o mercado está fortemente dominado pelo Estado, os empresários têm de fazer negócios com gestores públicos que, com um peso político suficiente, assegurem as licenças emitidas pelas autoridades e até mesmo o necessário financiamento dos bancos, nos quais o Estado também tem um forte peso.

Numa economia totalmente desvirtuada como é a chinesa é quase impossível fazer negócios sem se ser corrupto. O sistema é tolerado enquanto funciona, ou seja, enquanto os bolsos de todos se vão enchendo e a economia apresenta resultados que não obrigam a que se procure um bode expiatório.

O que acontece quando os vícios que desacreditam todo um sistema vêm à tona e a economia começa a dar de si. Nesse momento, os governos assustam-se e, para sobreviver, trocam os resultados económicos pelos políticos: combate à corrupção, detenções, ou que seja mais apropriado para restabelecer aquilo a que eufemisticamente se chama de confiança. A forte ligação do Estado ao grandes grupos económicos é a forma que o socialismo tem encontrado para sobreviver, como se vê bem na China, mas também, embora noutra escala, em Portugal com o BES e outros casos similares.

O país das oportunidades perdidas

O meu artigo hoje no Diário Económico.

O país das oportunidades perdidas

De repente parece que tudo corre bem. O PS voltou ao Governo e já há dinheiro para, na função pública, repor salários, descongelar carreiras e reduzir o horário de trabalho. A esquerda encontrou ainda uma folga para eliminar a sobretaxa de IRS. Mas não nos preocupemos em demasia. Na verdade, e contrariamente ao que sucedeu com o anterior governo, que malvadamente impôs a austeridade, a despesa pública está controlada porque o PS, apesar de ter levado o Estado à bancarrota, anda de boca cheia com a palavra rigor.

Não é segredo nenhum que a estratégia do PS assenta na expectativa do BCE continuar a comprar dívida pública, mantendo baixo os juros que são o preço dessa dívida. Também não é preciso ser um entendido para perceber que este é um bom momento para continuar a baixar a dívida do Estado. E fazê-lo, não apenas esperando que o PIB cresça, porque quando diminuir é a desgraça, mas baixando efectivamente os gastos para que o Estado possa reduzir a carga fiscal e cumprir a suas verdadeiras funções sociais.

Infelizmente, não é isto que vai acontecer. Tal como nos governos de Guterres e de Sócrates, a oportunidade será perdida. O PS está no poder para agradar a sua e a base eleitoral do BE e do PCP que querem aumentos de salários. É por isso que Centeno cedeu e cortou no investimento público que o seu programa macro-económico previa, para pagar a reposição dos salários e as outras benesses referidas em cima.

A esquerda, sabemos pelos jornais e televisões, anda eufórica. Nunca pensou ter tanta sorte: governar precisamente quando o BCE mudou de estratégia. Só que, à semelhança de Guterres e de Sócrates, também Costa se prepara para usar esta folga artificial, desta vez vinda do BCE e do baixo preço do petróleo, em prol dos interesses corporativos que dominam o país. Nem interessa que já reste pouco; tão pouco que o investimento público teve de ficar na gaveta. Isso são pormenores que não devem estragar a euforia.

Uma euforia de pouquíssima duração; de momento, para ser mais preciso. Porque as medidas do BCE não durarão para sempre. Estas acabarão quando a inflação (que vai comer o aumento dos salários) e o investimento (que este Governo cancelou para pagar os ditos salários) voltarem na Europa para os níveis pretendidos. Nessa altura, pouco interessará que tenhamos perdido a oportunidade. Pouco importará que o país esteja preso por interesses que cativam o Governo. Pouco interessará que não tenhamos a aprendido a lição. Nessa altura, este Governo já não será governo e a euforia virará indignação. Como já aconteceu: num ciclo que só terá fim quando as pessoas se deixarem iludir pelos ilusionistas profissionais que andam por aí.

E agora Catarina? (ou sobre o oportunismo)

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O eurodeputado socialista Francisco Assis criticou esta sexta-feira o Governo português e a presidência da Assembleia da República por não terem recebido o dissidente político cubano Guillermo Fariñas, acusando-os de cedência a pressões diplomáticas de Cuba.

No Fio da Navalha

O meu artigo no jornal ‘i’ de hoje.

O clima e o medo

As alterações climáticas têm sido apontadas como um dos maiores riscos para o futuro da humanidade. Algo para que é preciso alertar as populações de forma a que alterem os seus comportamentos, sob pena do planeta Terra ser destruído.

Não tendo habilitações para discutir o fenómeno detenho apenas o conhecimento dos vários acontecimentos históricos, acessíveis a quem os queira conhecer, e que nos contam que o clima, ao contrário de permanente, tem mudado ao longo dos séculos. Só no último milénio, quer o arrefecimento, quer o aquecimento global da Terra, coincidiram com a Peste Negra, a expansão portuguesa, o Renascimento e outros fenómenos. Isto, apenas na Europa, onde períodos de seca foram seguidos doutros chuvosos.

Também não vou questionar a intervenção do homem. Desconheço, como a maioria de nós o desconhece e, sejamos sinceros, as últimas polémicas sobre a actuação de certos investigadores nesta matéria, torna a sua imparcialidade duvidosa. Cinjo-me apenas aos fins visados com a forma como a questão tem sido colocada: o que pretendem os governos quando alertam para o fim do mundo, como fizeram em Paris?

Antes de mais, incutir o receio perante o desconhecido; o medo do futuro. Porque será esse  temor, essa apreensão, que lhes colocará mais poder na mãos. No passado, as massas queimavam pessoas acusadas de bruxaria. Agora, pretende-se que deleguem nos governos a decisão do tempo que as torneiras podem estar ligadas. Porque o medo, o medo suporta tudo.

Pessoas e contribuintes

O meu artigo hoje no Diário Económico.

Pessoas e contribuintes

O governo PS pretende que sejam aprovados uma série de diplomas para que certas pessoas tenham mais dinheiro na carteira. Entre estes temos a redução da sobretaxa em sede de IRS para os rendimentos auferidos em 2016, a eliminação dos cortes salariais aplicados à Função Pública e a redução das taxas da Contribuição Extraordinária de Solidariedade, até à sua eliminação em 2017.

Um socialista que se preze justifica estas medidas com o discurso da justiça: é justo que as pessoas recebam o que é seu. Certo. Sucede que, para que o Governo PS faça a boa figura de parecer que dá às pessoas aquilo que é delas precisa, primeiro, de tirar aquilo que é delas. Confuso? Nem por isso. O dinheiro que o Governo vai distribuir não é do Governo. É dos contribuintes. Pior: nem sequer existe nos cofres do Estado. Isso significa que, ao distribuir mais, o governo terá de tirar mais. Distribuir a quem? Às pessoas, ou como a esquerda agora gosta de dizer, às famílias. Tirar a quem? Aos contribuintes. A distinção entre pessoas e contribuintes é importante porque diz-nos muito sobre a forma como o socialismo vê uns e outros, e a utilidade que uns e outros têm para o PS.

Não é difícil concluir que as pessoas beneficiadas pelas medidas do PS são eleitores preferenciais do Partido Socialista. E esta constatação, somada à forma dúbia como o PS chegou ao poder, à estratégia de constituição de um governo de combate que aguente os embates até que os efeitos das suas políticas cheguem aos bolsos dos seus eleitores, faz-nos perceber como é que Costa conta obter a legitimidade que não conseguiu nas urnas.

A própria composição do governo torna evidente esse objectivo. Um conjunto de fiéis vindos do aparelho do PS e com fortes ligações ao primeiro-ministro. Este é o governo mais conservador de que há memória em Portugal. Um governo-cacique que visa manter as vantagens de um eleitorado próprio aguardando que este depois faça a sua parte.

Uma coisa é certa: os impostos pagos pelos contribuintes vão aumentar porque será preciso que alguém pague o aumento da despesa; que alguém dê o dinheiro às ditas pessoas. A única dúvida está em saber se o dinheiro que Costa vai dar a essas pessoas vem directamente da subida dos impostos, dos bolsos dos contribuintes, ou se o PS aproveita o compasso de espera de ir aos mercados e adia o aumento dos impostos para mais tarde, de preferência quando outro governo for forçado a tirar os rendimentos às tais pessoas.

É por isto que a ilegitimidade política e a falta de dimensão moral deste governo PS não se cingem à forma como Costa chegou a primeiro-ministro. Estes são apenas um sinal do que será a sua actuação governamental. Este Governo, do mesmo modo que desprezou o voto de mais de dois milhões de votantes, distingue muito bem o eleitor certo, a pessoa, do errado, o contribuinte.

Quando os heróis envelhecem bem

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Foram as aventuras de Alix, as histórias e os desenhos de Jacques Martin, que despertaram em mim o gosto pelo Império Romano. A busca das legiões perdidas, o drama do último espartano, a trama do príncipe do Nilo e o espectro de Cartago fizeram-me querer saber mais sobre a República e o império, os senadores e os generais, a vida diária em Roma, as revoltas, as guerras e a destruição da Cartago, a morte de Crasso em Carras, a de César nos degraus do senado e a de Bruto em Filipos; a complexidade dos feitos de Augusto e a personalidade de Tibério. Para quem goste, e dada a sua dimensão temporal, a história de Roma parece não ter fim.

Vem isto a propósito do lançamento do 4.º álbum da série Alix Senator, escrita por Valérie Mangin e desenhada por Thierry Demarez. Valérie, formada em História e nascida nos anos 70, tem a idade certa para ter sido marcada pela obra de Jacques Martin. É o que ela nos conta nesta entrevista concedida em 2012, aquando da publicação do primeiro álbum cujo argumento escreveu, e que repete aqui, há um ano, com a saída do terceiro, marcado pelas tramas dos corredores da política romana.

O Alix criado por Valérie e Thierry já não o jovem franco e puramente idealista imaginado por Martin. Está mais velho, tem à volta de 50 anos, e é senador no tempo de Augusto. Endurecido, não é mais o intrépido que conhecemos, embora continue a preferir combater um mal concreto que lutar por um bem desconhecido. E age, não mais da forma espontânea e resoluta como fazia no passado, mas de modo ponderado, com cuidado e prudência. Conhece as regras da cidade e do império e comporta-se de acordo com estas. Envelheceu. O esforço não podia ser mais bem conseguido. É que tornar velho um herói que é a imagem da juventude, em corpo e em espírito, não é só desenhar-lhe rugas e pintar-lhe cabelos brancos. É aplacá-lo com os golpes do tempo, as desilusões e as tristezas. Obriga a embaciar as cores vivas do desenho de Martin. A confirmação do feito, que está muito bem feito, e isto será apenas para quem goste muito de BD, o que sei não ser o caso da larga maioria dos insurgentes e eleitores deste blogue, passa obrigatoriamente por conhecer o Alix jovem (por sinal Par-delà le Styx, saiu no princípio deste mês e já está junto dos mais de 500 álbuns que fazem a colecção lá em casa) e comprar e compará-lo com os álbuns do Alix já adulto e senador. Acreditem: não se vão arrepender.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no jornal ‘i’.

Governar à PS

António Costa lá conseguiu ser primeiro-ministro; não por via do voto, mas dos apoios obtidos nas sedes dos partidos de que, de ora em diante, o governo PS depende. Esta foi a estratégia de Costa desde que, através de manobras astutas, sagazmente tornou a derrota em vitória. Agora é meia bola e força e ver o que acontece.

Até porque os trabalhos de Costa serão difíceis. Não só o governo que chefia se encontra política e eticamente debilitado, como os acordos, que os socialistas, separadamente, assinaram com o PCP e o BE, dificultam o arranjo das maiorias parlamentares indispensáveis para que o governo ultrapasse a via-sacra que será de ora em diante a aprovação de qualquer diploma legislativo.

Acrescente-se o equilíbrio das contas públicas, necessário para o investimento privado que paga o acréscimo de despesa pública com que o PS se comprometeu. É certo que as projecções do PS são animadoras, algo já de si estranho se tivermos em consideração que se baseiam nos resultados conseguidos por um governo cujos efeitos a esquerda quer reverter. Mas por ora fiquemos por aqui e tentemos apenas perceber como as contas de Centeno encaixam no novo programa.

E encaixam, porque foram fabricadas com vista a um projecto político. Mudando este, alteram-se as contas para que tudo bata certo. É fácil: afinal não passam de números. Os avisos estão à vista e só não vê quem está demasiado obrigado para tal. Infelizmente, sendo as contas forjadas, certo, certo é que o país cá estará para as pagar.

A nomeação de Costa

Os meus comentários ontem no ETV em directo com a notícia da nomeação de Costa como primeiro-ministro. As contas de Centeno, feitas para um projecto político que passava pela vitória eleitoral do PS, foram alteradas para se adaptarem ao novo cenário.

Podemos dizer que este é um governo a martelo.

 

Responder à ilegitimidade

O meu artigo para Diário Económico de hoje.

Responder à ilegitimidade

Cavaco Silva não deve dar posse a António Costa como primeiro-ministro. São várias as razões e vamos analisá-las uma por uma. Em primeiro lugar, e nas actuais circunstâncias, um governo PS não será um governo política e eticamente legítimo.

Dir-se-á que há deputados suficientes no Parlamento para deixar passar o seu programa de governo. Pode ser. Mas além de terem sido esses mesmos deputados a derrubar um governo escolhido pela maioria do eleitorado, o Presidente da República, além dos poderes constitucionais, foi eleito num sufrágio directo e universal que venceu com mais de 50% dos votos. Sendo a legitimidade política do actual Presidente da República superior à de um possível governo PS saído do quadro das últimas eleições, Cavaco Silva não se deve sentir limitado na sua decisão.

Em segundo lugar, aquando da sua declaração ao país a 6 de Outubro, Cavaco Silva estabeleceu que um futuro governo tinha de dar garantias de estabilidade. Traduzido por miúdos, durar uma legislatura de quatro anos. Ora, os acordos que o PS assinou à porta fechada com o BE, o PCP e os Verdes, não dão essa garantia. Não só são vazios, como as diferenças fulcrais entre o programa eleitoral do PS e os do PCP e do BE exigiriam um cuidado acrescido no sentido de mostrar ao país que o entendimento era verdadeiro e tinha futuro.

Em terceiro lugar, e numa perspectiva económica, o programa que a Comissão Nacional do PS aprovou, à porta fechada, além de contrário àquele que apresentou ao eleitorado, ou põe em causa a continuidade de Portugal no euro, ou obrigará a medidas de austeridade ainda mais duras no futuro. A situação das contas públicas é ainda muito complicada e a dívida pública, apesar de ter descido entre 2014 e 2015, só continuará a ser reduzida por via de cortes na despesa. Apenas o rigor orçamental permitirá que haja mais investimento e uma futura redução dos impostos de forma a que as pessoas fiquem com o rendimento que, por ser fruto do seu trabalho, lhes pertence.

É assim que um futuro governo PS com o apoio do PCP e do BE não dá quaisquer garantias de estabilidade. Nem política, nem económica. Por carecer de legitimidade ética e política será um governo ferido de morte logo de início. Por não se basear num compromisso sério e mútuo entre os seus apoiantes, não garante a durabilidade necessária para as reformas necessárias com vista ao equilíbrio das contas públicas e melhoria de vida dos portugueses. Por conter medidas que visam gastar o que o país não dispõe comprometem o futuro, sujeitando o país a repetir os sacrifícios dos últimos quatro anos. Por todas estas razões, por ter a legitimidade de ter sido eleito para as funções que exerce e sempre ter defendido governos estáveis e duradouros, Cavaco Silva não deve dar posse a António Costa como primeiro-ministro.