No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

O observador

Outro dia ouvi alguém dizer de outrem que de andar tão direito mais parecia um emproado. Achei piada ao comentário ouvido de passagem mas que me reteve a atenção. Na verdade, vivemos num mundo em que a imagem conta e a primeira impressão, dizem-nos, premeia-nos ou castiga-nos para sempre.

O engraçado é que o dito emproado deve ter-se esforçado. Talvez o seu esforço tenha valido a pena com outras pessoas que não aquela, para outros que viram nele confiança e não vaidade. Mas o que interessa aqui é que a imagem é fruto de múltiplos pequenos sinais, por vezes não mais que meras impressões, que se destacam logo de imediato ou ficam no nosso inconsciente e só se revelam mais tarde. É algo que não  controlamos porque depende, por vezes, mais da personalidade dos outros, das suas experiências, sucessos e frustrações que de qualquer outra coisa.

Temos os emproados; os de nariz empinado; os que nos olham nos olhos como para provar que não têm medo e até os que baixam o olhar; os que falam pelos cotovelos e os que se calam; os gabarolas e os falso modestos; os que só aceitam ser fotografados de um lado; os que forçam convites e os que se fazem caros, mas aceitam logo.

Com o desenrolar do tempo vamos aprendendo coisas destas. Se formos bons observadores, para o que só precisamos de estar atentos, há pequenos sinais, gestos, olhares, palavras, respostas, perguntas, que nos dizem mais sobre alguém que mil imagens. Não há que enganar, nem modo de sermos enganados.

Franco Atirador

Fui gentilmente convidado pelo Nuno Ramos de Almeida para participar no programa de estreia do Franco Atirador, uma iniciativa do Nuno e da Joana Amaral Dias.

Votos de bom sucesso neste desafio, é o que lhes desejo. Já politicamente falando, o Nuno conhece o que penso das suas ideias, conforme se depreende neste vídeo.

A perfeição socialista

Sobre o seu caso com a Segurança Social, Passos Coelho disse não ser um homem perfeito. Como todos nós, aliás. Somos imperfeitos. Nada mais natural. Só que o problema é precisamente esse. Numa sociedade socialista, em que o Estado precisa desesperadamente do nosso dinheiro, depende inteiramente do nosso esforço, em que a burocracia impera e o sistema tributário e contributivo é conscientemente complexo, precisamos ser perfeitos para não termos falhas a apontar.

O socialismo pressupõe o homem perfeito; o cidadão perfeito. Naturalmente, um primeiro-ministro perfeito. Caso contrário, como pode ele exigir sacrifícios se não é perfeito? Como pode permitir que o Estado puna cidadãos, cuja imperfeição não serve de desculpa, se ele próprio não é perfeito?

Este é um dos dilemas do socialismo: a imperfeição natural do homem que não se coaduna com a perfeição exigida. Não se complementa com a complexidade legislativa que nos exige que sejamos exemplares, mas nos torna a todos censuráveis e passíveis de sermos punidos à mais pequena falha.

Até quando?

Esta notícia é demasiado importante para que passe em branco. Esta mostra-nos que os privados fizeram o que foi indispensável fazer nestes quatro últimos anos e que, quando comparado com o esforço das pessoas, das famílias e das pequenas e médias empresas, o Estado ficou aquém do que teria de fazer para que o país saísse definitivamente da crise.

Mas mais grave ainda que os parcos resultados do Estado (principalmente quando comparados com os dos privados) é o estes terem acontecido por força e teimosia de um governo que teve de batalhar contra tudo e contra todos. E é precisamente aqui que está o ponto: qual é a representatividade dos partidos políticos, e das personalidades políticas, de esquerda que não permitem, que não aceitam sequer discutir, que o Estado faça aquilo que os cidadãos se viram dispostos a ter de fazer para levar por diante a suas vidas?

Até quando a maioria dos cidadãos está disposta a sacrificar-se desta maneira para que tudo fique na mesma e os mesmos ditem as suas sentenças sobre os que está certo o que está errado?

O euro

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

O euro

No meio da guerra monetária que desde 2010 assola o mundo, a maioria assusta-se quando a sua moeda se valoriza face às restantes. Pelo menos é assim que o tema é noticiado, quando se referem os riscos e os problemas para a exportação que uma moeda mais forte comporta.

Visto desta perspectiva nem se percebe porque é que a Europa criou uma moeda única e porque razão Portugal quis aderir ao euro. Bem sei que agora que a Europa exige mais rigor e envia menos fundos, muitos duvidam, mas o certo é que uma moeda forte tem vantagens.

Entre muitas, elas são fundamentalmente cinco: controle da inflação, que prejudica os mais pobres e os mais poupados; ajuda a alguns exportadores, que importam mais barato produtos que manufacturam e depois exportam; criação de condições para que as empresas adquiram outras de países com moedas mais fracas; possibilidade dos governos se financiarem com taxas mais baixas e, enriquecimento dos cidadãos do Estado com moeda forte comparativamente aos de outros países.

É verdade que uma moeda fortemente valorizada encarece os produtos. Mas também não é mentira que se uma empresa exporta mais caro, precisa de vender menos quantidades para atingir as margens de lucro de que necessita, principalmente se, como referido, o que vende é o resultado da transformação de produtos que importou mais barato. Ou seja, é com uma moeda forte que se consegue uma política de desenvolvimento com salários altos. O euro é o nosso melhor instrumento para que se evitem as políticas baseadas nos salários baixos, na desvalorização da moeda e, consequentemente, do trabalho.

Dito desta forma, não se percebe porquê tanta celeuma com o euro. Ora, o problema não está na moeda forte, mas no que é preciso fazer para que as suas vantagens se concretizem. E para que tiremos vantagens de uma moeda forte são precisas, essencialmente, três ferramentas: poupança, capital e contas públicas equilibradas.

E agora percebemos o porquê do dilema com a moeda forte. É que o desenvolvimento de um país baseado na poupança, na acumulação do capital e na contenção do poder político é algo que o socialismo não comporta. Na verdade, o socialismo depende do consumo, do endividamento e de uma forte intervenção estatal não compatível com contas públicas equilibradas. É por este motivo que a esquerda deposita tanta esperança no Syriza. É esta a nova forma de olhar a Europa que o PS pede todos os dias.

Há quem conclua que quem está a mais no euro é a Alemanha. Pode ser. Mas se a Alemanha sair do euro, o euro deixa de ser a moeda forte que conhecemos. E deixando de o ser, o modelo de desenvolvimento sustentável, porque sem endividamento, e de salários altos, deixa de ser possível. Possível fica o que sempre tivemos: um poder político activo, agressivo, reivindicativo e que exige o fim daquilo que fomenta: a pobreza e a dependência externa.

A pergunta

Em 1980 Reagan venceu Carter perguntando aos eleitores se estavam melhor que há 4 anos. Postas as coisas nesses termos, os norte-americanos rapidamente concluíram que não e mudaram de administração.

António Costa, que quer ser primeiro-ministro no lugar de Passos Coelho, já respondeu à mesma pergunta.

 

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

O sonho

Com o lançamento de um novo romance, Miguel Real concedeu uma entrevista ao “Público” na qual afirmou que “Portugal desenvolveu um imenso sentimento de medo em relação ao futuro”. Para aquele professor de Filosofia, o país terá deixado “de sonhar e de criar utopias”.

Durante várias décadas o país sonhou a utopia de que se podia desenvolver sem se preocupar com o futuro. Ora a despreocupação, ou a negligência, conforme o ponto de vista, não é igual a não ter medo. É falta de cuidado, imprudência, inconsciência. Quer queiramos quer não, o que o país teve, se é que é possível colectivizar desta forma milhões de individualidades, foi falta de cuidado.

Bem sei que é aborrecido falar de assuntos comezinhos como este. Mas, se a arte de sonhar está em não deixar de ter os pés bem assentes na terra, não podemos perder a consciência de que a presente crise resulta da acumulação de dívida, da inconsciência com que se encarou o futuro.

Até porque há sempre espaço para sonhar. Eu, por exemplo, gostaria de viver num país cujo Estado não estivesse endividado e não precisasse de ajuda externa para levar a cabo as suas funções essenciais. Que, com as contas públicas equilibradas, tirasse partido de uma moeda forte, que é o melhor instrumento para um desenvolvimento com salários altos. Um país onde o poder político fosse contido e as pessoas livres do fardo que são as frases feitas como as proferidas por Miguel Real, que, ao mesmo tempo que nos falam do futuro, nos tiram os meios de o encarar.

Estratégias

O amigos do Syriza encaram o acordo de sexta-feira como uma oportunidade do governo grego decidir sozinho as medidas a aplicar para ultrapassar a crise. Enganam-se. No ponto em que a Grécia se encontra (e aqui Portugal não difere dela) só há três opções: retomar as políticas de investimento público e estímulo económico, continuar a austeridade sobre as pessoas, com os cortes nos salários e nas pensões, e reformar o estado.

O Syriza escolheu a terceira. E vão-se ver gregos com ela. É que se cortar salários e pensões era uma forma atenuada da austeridade, reformar o estado, pressupõe cortar funções e despedir pessoas. É mil vezes mais difícil e doloroso. Por isso mesmo, o governo português não seguiu essa via e a oposição só a menciona como algo hipotético quando não sabe o que dizer sobre redução da despesa.

Não julgo, no entanto, que Tsipras e Varoufakis não saibam disto. Sabem. Simplesmente, querem ganhar tempo para o seu objectivo, que me parece cada vez mais claro, é a saída da Grécia do euro, mas de forma a que não sejam responsabilizados e por isso forçados a deixar o governo.

A maior preocupação do Syriza neste momento parece ser o gerir politicamente a saída do euro. Manter o poder após se ter ido contra o programa eleitoral que passava por continuar na moeda única. Mais que defraudar o eleitorado, o Syriza precisa passar a mensagem que os gregos não foram enganados, mas que os alemães (e a Europa) é que se mostraram inflexíveis.

O meu artigo ontem no ‘i’. Por cada ingénuo que acredita no socialismo, há um cínico que disso tira vantagem.

Vaidade, virtude e política

Durante muitos anos, os Estados viveram com défices. Acumularam dívida. Foram antecipando o rendimento que esperavam receber no futuro. Claro que, para quem governou nesses tempos, os défices não significavam viver acima das possibilidades, endividar o país, mas investimento. Os Estados eram deficitários porque investiam para que se obtivesse um retorno mais tarde.

Desta maneira não se estaria a pôr em causa as gerações futuras, mas a proporcionar- -lhes um mundo melhor. Naturalmente que é preciso ser-se muito ingénuo, ou cínico, para se acreditar em algo deste género, mas foi o que o país considerou correcto durante mais de 30 anos.

O que está exposto em cima é o socialismo. Melhor: a forma como o socialismo justifica o seu financiamento. Não tenho quaisquer dúvidas de que muitos socialistas, ingenuamente, acreditaram que estavam a desenvolver o país, a criar condições para que, no futuro, se vivesse melhor.

Mas, por cada ingénuo que acredita, há um cínico que tira vantagem. Que percebeu que o modelo não funciona, que o Estado não investe, mas gasta. Que o Estado se deve limitar a assegurar a protecção das liberdades e a justiça, e não enredar-se numa política de negócios que o fragiliza e exige, depois, que as pessoas paguem a conta. A contenção política não deve dar espaço à vaidade, mas à virtude. Virtude, ética e política: algo que a Grécia Antiga ensinou, mas que até a moderna esqueceu.

Soberania

O meu artigo no Diário Económico de hoje sobre a Grécia e a soberania.

Soberania

Um dos cavalos-de-batalha do governo grego é de que a Grécia não pode continuar a ser humilhada; que a Grécia deve recuperar a sua soberania e, pondo de parte as exigências da troika e da União Europeia, agir de acordo com a vontade da maioria dos eleitores gregos. Podemos dizer que a humilhação é a Grécia ter chegado ao ponto em que se encontra. Podemos argumentar o que quisermos, mas águas passadas não movem moinhos e o que agora interessa é discutir o que temos em cima da mesa, ou seja, no que consiste a soberania.

Para Salazar esta significava estar orgulhosamente só. Um entendimento de que o governo grego parece comungar. Claro que a Grécia tem um o plano B que inclui a Rússia e a China. Mas também não deixa de ser claro, a quem se dê ao cuidado de dar uma vista de olhos ao que se passa por esse mundo fora, que andar de braço dado com Moscovo e Pequim não é agradável. Atenas pode querer reinventar a Europa como inventou o Ocidente, mas não será, com certeza, virando as costas a Estados democráticos e abraçando autocracias e ditaduras comunistas.

No mundo de hoje soberania não significa necessariamente possuir forças militares que possam esmagar países vizinhos; nem deter empresas públicas, ou uma forte influência sobre empresas privadas, que dominem ou tenham uma palavra a dizer sobre como funcionam os mercados. Num mundo global, soberania começa, porque estamos a falar de Estados, por ter contas públicas sem défices, de preferência excedentárias. Começa, porque esse é o ponto de partida; excedentárias, não com vista a um Estado independente do financiamento externo, mas porque cria condições para que haja verdadeiro crescimento económico. Verdadeiro, porque não baseado na antecipação de rendimentos futuros e à custa das gerações seguintes.

É com orçamentos equilibrados e não deficitários que se descem os impostos; que há estabilidade e justiça fiscal que cativa o investimento estrangeiro que interessa e não o dos que compram a saldo; se poupa e junta capital, ao invés de se incrementar o consumo como base de um crescimento que mais não é que uma bolha especulativa, porque não real.

É com orçamentos não deficitários, e com poupança, que se tira partido de uma moeda forte como o euro. Como os alemães o fazem sem medo da deflação, sem medo da concorrência, sem medo da abertura das fronteiras; sem medo de outra coisa que não seja a existência de parceiros que não percebem que vivem num mundo global. Soberania pressupõe um Estado previsível, politicamente contido pelo Parlamento em nome do povo. Em nome de um poder político forte, porque influente; respeitado, porque credível. Soberania implica abertura ao exterior porque há confiança e meios para tirar partido da globalização. Significa não confundir os interesses de um país com os de uma facção ideológica que domina o Estado.

No Fio da Navalha

O meu artigo no ‘i’ de hoje.

O falhanço

O jornal i está a lançar, na sua edição de fim-de-semana, pequenos livros sobre as guerras e campanhas militares da história de Portugal, que vão da fundação da nacionalidade à última manifestação monárquica contra a República. Um desses volumes é sobre a crise de 1383-85 e Aljubarrota.

Há dez anos fui aluno, no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, da cadeira de Construção Europeia do professor Ernâni Lopes. Numa das aulas, Ernâni Lopes sugeriu-nos que comparássemos o período que ia de 1385 a 1415, os 30 anos que medeiam entre Aljubarrota e a conquista de Ceuta, com o tempo entre 1975 e 2005.

E o que víamos era uma diferença abissal. Se, tanto em 1385 como em 1975, o país assistiu a um corte geracional na liderança do país, o resultado, 30 anos depois, não podia ser mais diferente. Em 1415, Portugal, que tinha estado em risco de perder a independência, iniciava a sua expansão marítima. Em 2005, o país que tinha abraçado a democracia e a Europa, sentia-se defraudado e perdido.

Passaram dez anos e o problema agravou-se. Não se esperam grandes feitos. Apenas que depois de tantos falhanços as pessoas se interroguem, tenham a coragem de se interrogar, e pensem se o projecto de ‘abrir um caminho para uma sociedade socialista’, que ainda consta do preâmbulo da Constituição e alimenta grupos que pressionam o Estado para que lhes alimente os anseios com fundos e facilidades, é a direcção a seguir.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’, é sobre o o que Rui Tavares nos diz do novo ministro das finanças grego.

Alienação ou calculismo?

Rui Tavares escreveu, há dias, uma crónica para o “Público” intitulada ‘Ouçam este homem’. O homem é Yanis Varoufakis, o novo ministro das finanças grego que, de forma unilateral, já avisou que a Grécia não fala com a troika que paga o funcionamento do Estado grego.

Além de académico, Varoufakis é um político radical com ideias radicais que, se aplicadas, não só tiram a Grécia da moeda única, como atiram os gregos para uma crise que facilmente passará de económica para política e humanitária.

Com o seu comportamento, Varoufakis não está à procura de soluções que não esqueçam os pontos de vistas dos restantes países europeus. Com a aparente alienação típica de um utopista, propõe que os europeus esqueçam a dívida e, em vez de emprestar, dêem dinheiro aos gregos. A alienação é aparente porque Varoufakis parece exigir o que sabe não ser possível, forçando os líderes europeus a fazer aquilo que pretende mas de que não quer ser o responsável, ou seja, a saída da Grécia do euro.

Rui Tavares descreve-o como ‘um dos poucos economistas a não encarar esta crise como um mero economista.’ Dito desta forma, parece um elogio. Mas se imaginarmos Rui Tavares a consultar um médico, um dos poucos que não o tratasse como um médico, e a história já seria outra. Ou até um colunista político que não analisasse esta crise como um político, mas como uma pessoa. Independentemente de tudo isso, se Varoufakis é um não-economista, de que vale puxar os galões da sua carreira académica?

Inflação

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Inflação

“A Economia numa lição” foi escrito por Henry Hazlitt em 1946. O livro não é grande, tem uma linguagem acessível e existe uma edição em português lançado pela editora Actual. A obra é importante e meio caminho andado para, de forma consciente, não se ficar amarrado às narrativas dominantes que atrofiam o debate e conduzem o país numa via que, por não ter sido devidamente discutida, se comprova mais tarde ser desastrosa.

Perante o receio de que a economia não cresça com uma inflação inferior a 2% ao ano, é quase unânime a necessidade desta ser estimulada. Para tal, a solução que tem
vingado nos EUA, e agora na Europa, é o de aumentar a despesa pública sem se subir os impostos. Como? Muito simplesmente através da compra pelos bancos centrais de dívida pública. O conceito é brilhante pois não tem custos para os políticos em exercício, já que os cidadãos não ligam directamente a inflação aos governos, como o fazem com o aumento dos impostos.

No entanto, o preço, quer político quer económico, existe. É que, além de ser negativo para a economia que os governantes tenham rédea livre para gastar, é ainda mais perigoso, para as democracias, que os governos se possam expandir livremente, pois que, não havendo nada que os ligue aos resultados negativos das suas medidas, o escrutínio normal em qualquer democracia desaparece.

Mas há mais: como lembra Hazllit, riqueza não é igual a dinheiro. O excesso deste significa inflação, um imposto que prejudica mais os pobres que os ricos e que fomenta a desigualdade. A desigualdade que servirá depois de pretexto para o discurso populista, outro perigo para as democracias, que já grassa na Europa e que vive da ignorância e do desespero.

Estamos num campo em que vertente política e económica andam lado a lado. Vezes sem conta ouvimos dizer que a descida dos preços adia o consumo. Ora, esta conclusão esquece que as pessoas não deixam de adquirir aquilo de que precisam e, mesmo que o façam, que estão a poupar; estão a criar capital que não fica debaixo do colchão, mas é investido. A diferença é que esse investimento será feito pelos cidadãos, no pleno uso das suas liberdades individuais, e não pelos governos. Algo que pode ser um problema para algumas pessoas, mas não para todas.

Desde a semana passada que todos os principais bancos centrais estão a comprar dívida pública. Os resultados nos EUA, no Reino Unido e no Japão não são animadores. A política monetária tem os dias contados, mas só dentro de alguns anos é que os dirigentes políticos estarão preparados para enfrentar esta nova realidade. Entretanto, a inflação não só nos coloca à mercê do Estado, como enriquece a banca e os mercados financeiros que, curiosamente, os adeptos da política adoptada pelo BCE, tanto criticam. Porque será?

Europa, Rússia e Grécia

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 O editor de economia da BBC News, Robert Peston, disse-o no início de Janeiro: o maior risco do euro em 2015 é político e não económico. Economicamente falando, a Europa está mais bem reparada que há 5 anos para a saída da Grécia do euro. O problema são as consequências políticas dessa saída. Peston referiu-se aos outros partidos radicais, de esquerda e de direita, que grassam pela Europa e são contra a União Europeia e, naturalmente, o euro. Não mencionou a entrada da Rússia no jogo.

Mas bem vistas as coisas, ela é natural. Se a UE mete o dedo na Ucrânia, zona de influência russa, Putin faz o mesmo na Grécia, zona de influência europeia. Se não esquecermos que a Grécia se encontra por baixo dos Balcãs, é rival da Turquia, e está em pleno Mediterrâneo, onde a Rússia quis meter o pé desde sempre, tudo se torna ainda mais claro.

Tsipras aproximou-se da Rússia, precisamente porque o braço-de-ferro é político. Ele até pode ceder na sua aproximação à Rússia, mas em troca de uma cedência europeia em matéria económica, como seja a renegociação da dívida grega. Quem pensava que a subida ao poder dos extremistas do Syriza e dos Gregos Independentes só afectaria a moeda única, tem de repensar as suas conclusões.

A dívida pública grega pode tornar-se o palco da luta por um novo equilíbrio europeu.

No Fio da Navalha

O meu artigo desta semana no ‘i’ é sobre a regionalização defendida, desta vez, pelo presidente da Câmara de Braga, Ricardo Rio.

A regionalização

O presidente da Câmara de Braga, Ricardo Rio, que assina uma das colunas na página do lado, defendeu neste jornal a regionalização. Referindo-se aos instintos centralistas que é preciso combater, e no meio de outras considerações, como a afirmação da identidade de uma região, o texto acaba por ser a repetição de um discurso que tem pouco de inovador.

Não me oponho à regionalização se esta também for fiscal. Quer isto dizer o quê? Muito simplesmente que as regiões devem ser financiadas pelos impostos que cobram aos seus habitantes. Caso contrário, a regionalização não passa de uma presunção. Presume-se que se descentralizam funções, mas estas continuam a ser financiadas por Lisboa, mantendo-se dependentes do poder central.

Uma regionalização verdadeira não é apenas de poderes, mas de responsabilidades. E a principal responsabilidade de um político que faz obra é a apresentação de um plano de pagamentos. Como se paga o que se construiu? A questão não é pertinente apenas devido aos problemas que todos conhecemos, mas indispensável para o bom funcionamento democrático.

É que, se as medidas de um dirigente regional não forem pagas por quem vive na sua região, a factura será transferida para os que estão fora do seu círculo eleitoral, e não podem votar contra ele. A regionalização pode proporcionar um Estado mais barato e eficiente se houver verdadeiro escrutínio. Quem paga deve ter uma palavra a dizer. Os tempos são outros e a regionalização, a ser feita,

A justiça, a solidariedade e a ajuda à Grécia

Os apoiantes do Syriza, que vão do Bloco de Esquerda à Frente Nacional, mencionam muito a necessidade de se encontrar uma solução justa para a Grécia. Sejamos francos num ponto: qualquer solução que passe por a Grécia não pagar o que pediu emprestado para se desenvolver, mas que foi para os bolsos errados, não é justo. Pode ser uma decisão solidária; pode ser caridade; pode ser uma forma de dar esperança aos gregos, mas não é justiça.

A Europa pode ajudar, uma vez mais, a Grécia. Pode haver, até, muito boa vontade da parte dos credores, mas não haverá justiça.

A amizade nem sempre é justa; a solidariedade nem sempre é justa; a boa vontade nem sempre é justiça.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

A Grécia está tramada

A Grécia vai ter eleições legislativas neste domingo, mas a Europa já não sustém a respiração por isso. É que, ao contrário do que aconteceu no passado, desta vez o trabalho de casa foi feito e o risco de saída da moeda única por parte da Grécia é menor.

Nos últimos anos, enquanto os gregos foram fazendo pequenos, embora dolorosos, ajustes nas contas do Estado, o financiamento vindo da troika serviu para comprar tempo e proteger os credores não institucionais da Grécia. Se antes seriam os bancos a perder com o incumprimento grego, agora o prejuízo já será suportado por instituições como o Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira, o BCE e o FMI, que detêm cerca de 3/4 da dívida pública grega.

Há risco, mas o efeito dominó está controlado. Falando mal e depressa, a Europa tramou a Grécia. No fundo, e se tivermos em conta a forma como a Grécia falseou as contas públicas, podemos dizer que lhe pagou na mesma moeda. Agora os gregos estão em maus lençóis. Por muito que o líder do Syriza, Alexis Tsipras, ameace, o certo é que os países nórdicos, com a Alemanha à cabeça, já não se assustam.

É que os gregos não têm grande alternativa: ou perdem ficando no euro, com a política de austeridade em cima, ou perdem muito mais, saindo da moeda única e sofrendo com uma drástica desvalorização da moeda nacional, uma inflação galopante e a pobreza repentina de milhões de pessoas. Se houver sensatez, e tanto se tem ouvido dizer que ela paira no Syriza, a vitória deste vai mudar pouca coisa.

Alemanha vs. Grécia – Modelos de desenvolvimento

Outra nota à análise de ontem de Miguel Sousa Tavares (MST) na SIC, desta vez sobre as eleições gregas, a austeridade e a Alemanha. MST comparou, não foi o primeiro a fazê-lo, a dívida da Grécia à da Alemanha no final da segunda guerra mundial, como pretexto para a necessidade de a Europa ser mais complacente com os gregos.

Dito assim parece lógico. Mas não é. Entre os dois casos há uma diferença abissal. A dívida alemã foi fruto das guerras que marcaram a primeira metade do século XX. Já a dívida grega é fruto do modelo de desenvolvimento da Grécia. A dívida alemã foi paga porque a Alemanha se desenvolveu. A dívida na Grécia foi contraída porque a Grécia se desenvolveu.

Ou seja, há algo de errado no modelo de desenvolvimento grego que não havia no alemão. É isto que tem de ser analisado e corrigido. É isto que deve ser exigido aos gregos e não aos alemães.

Charlie Hebdo, liberdade de expressão e de indignação

Miguel Sousa Tavares disse ontem, no seu habitual comentário das segundas-feiras na SIC, que o Charlie Hebdo caricatura a religião e que isso é uma outra forma de fanatismo, fanatismo ateu, que ele, apesar de ateu, não subscreve.

Não sou ateu. No entanto, não posso deixar de realçar o seguinte:

O Charlie Hebdo não foi atacado por caricaturar a religião, mas o fanatismo religioso. E mesmo que fosse a religião o alvo, a questão em cima da mesa é a mesma: liberdade de expressão. Qualquer pessoa é livre de ridicularizar o que quer que seja. Pode não ser responsável? Pode. Podemos nos indignar? Podemos. Mas cabe-nos passar por cima. Ser adulto é, em parte, isso mesmo: ter consciência de que o nosso valor está acima de qualquer crítica estúpida.

À espera da direita

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

À espera da direita

Os partidos do Governo estão num dilema: como ganhar as eleições prometendo maior carga fiscal e cortes nos salários e nas pensões? É que se pensarmos bem, o ano político será marcado pelo confronto entre os partidos mais à direita, que defenderão as políticas seguidas desta legislatura, e os partidos da oposição, a quem bastará discordar deste rumo.

Assim, a não ser que a maioria do eleitorado se mostre altruísta, o mais provável é que os socialistas possam vir a vencer as legislativas deste ano.
É de crer que o PS quebre as promessas eleitorais e siga o rumo de Bruxelas, mesmo que este seja corrigido com uma eventual cedência à Grécia. O possível constrangimento que António Costa possa sentir não compensará o incómodo dos partidos do actual Governo, pois perder por uma causa sem futuro não agrada a ninguém. É que o beco sem saída em que PSD e CDS se meteram deve-se à falta de visão governativa da direita.

Contar-se-ão pelos dedos de uma mão os militantes destes dois partidos que questionem o papel do Estado como essencial para o crescimento económico. A grande maioria crê que ao Estado e, naturalmente, aos seus governantes, ou seja, a eles próprios, cabe a implementação de políticas sem as quais não há crescimento económico, baixa do desemprego, e menos ainda bem-estar social. Prisioneiros desta convicção ideológica chamada socialismo, a direita nacional não só não tem sido verdadeira alternativa no governo, como pagará caro por tentar equilibrar as contas públicas dum Estado nada habituado a ser devidamente fiscalizado.

Talvez por isso mesmo, desde Sá Carneiro que nenhum político da direita venceu um acto eleitoral, mas beneficiou da derrota do adversário. Foi assim com Cavaco, em 1985 contra o Bloco Central, nas suas reeleições quando havia dinheiro para distribuir e com Durão e Passos Coelho. Sem programa alternativo, a direita não vence, nem governa. Espera. Umas vezes no governo, outras na oposição.

A verdade é que a saída deste dilema não é fácil. Pressupõe uma mudança de mentalidades que se espera morosa. Se o PS se prepara para defender o conceito de Estado empreendedor, uma alteração de nomenclatura para empresas públicas, e a desvalorização da ideia de poupança, caberá à direita percorrer o caminho inverso: a defesa das liberdades individuais, da propriedade privada, da poupança como garante último da liberdade de cada um; a confiança na solidariedade espontânea que existe entre os portugueses, enquanto pessoas que são. Uma direita que limite o poder, entre eles o estatal, escrutinando-o através da descentralização fiscal e da introdução dos círculos uninominais. Acima de tudo, precisamos de uma direita que acredite nos cidadãos, que os leve a acreditar neles, na sua capacidade de gerar riqueza, e não se reduza à contabilidade do estado.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’. Onde se fala de Houellebecq, Zemmour, do regresso dos franceses ao campo e de como a França se está a ver grega para lidar com a imigração.

França

O meu artigo na semana passada versava sobre a imigração e foi enviado à redacção deste jornal ao mesmo tempo que os irmãos Kouachi atacavam a redacção do “Charlie Hebdo”, assassinando 12 pessoas. Apesar de tudo, o tema não podia ser mais pertinente. A imigração, na Europa, e naturalmente em França, vai estar no topo da agenda de 2015.

Disse-o Franz-Olivier Giesbert quando escreveu na “Le Point” sobre o novo romance de Michel Houellebecq, “Soumission”. Ou até Éric Zemmour, no seu ensaio ‘Le suicide français’, saído em Outubro último e que aponta o dedo ao declínio do Estado francês, de que o autor considera como principal responsável a geração saída do Maio de 68. Zemmour lamenta que o Estado não consiga já controlar quem entra no território francês.

Contrariamente ao que defendi há oito dias, Éric Zemmour opõe-se à imigração e às suas consequências, diz ele, nefastas para a entidade francesa. Quem esteja atento ao que se passa em França sabe que o regresso dos franceses ao campo está em voga e há quem veja nisso uma vontade de regresso às origens, à identidade do país.

Não retiro uma linha do que escrevi sobre as vantagens da imigração. Saliento apenas que as surpreendentes e magníficas manifestações no Domingo apelando ao pluralismo dentro da unidade, salientando o que de melhor há na imigração, estão, infelizmente, fortemente minadas por sentimentos que, longe da emoção, podem fazer-se valer. A realidade é muito mais complexa do que a aparência e a França não é excepção.

Religião, liberdade individual e responsabilidade

Concordo com Miguel Esteves Cardoso neste seu artigo no Público. Acrescento apenas que o pecado, qualquer pecado como a blasfémia, fica com quem o praticou, com quem a proferiu. O pecado, a blasfémia, é entre Deus e quem peca, entre Deus e quem blasfema. Se há algo que a tradição judaico-cristão trouxe (e julgo que o islamismo também) é a relação pessoal com Deus. A individualidade dessa relação. A relação entre Deus e cada pessoa e entre cada pessoa e Deus. Os outros nada têm com isso.

O cristianismo (que naturalmente conheço melhor) quando surge não é apenas uma forma de chegar a Deus. É também uma resistência à massificação, à colectivização da relação com Deus. Torna-nos responsáveis pelos actos que praticamos. É por isso que os cartoons do Charlie Hedbo não são ofensivos para ninguém. Se ofendem alguém será apenas quem os desenha e na medida em que estes se sentem ofendidos pelo que fazem. É assim que a religião, a verdadeira religião, não existe, não pressupõe outra coisa que não seja a liberdade, sem a qual não há responsabilidade.