O Insurgente

Fevereiro 6, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Cultura,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política — André Abrantes Amaral @ 09:42

O meu artigo para o jornal i de sábado que, a partir deste fim de semana, passa a ser semanal.

Sopa de letras

Quem estuda a língua, estuda a sua evolução; não a muda. Se o português é uma língua viva, não precisa ser mudada por decreto

It’s a beautiful thing, the destruction of words.
1984, George Orwell

Vasco Graça Moura ordenou a não aplicação, no CCB, das regras do Acordo Ortográfico que desde do início do ano passaram a ser aplicadas nos documentos do Estado. De 2009, ano em que o acordo entrou em vigor, até 2015, foi-nos dado um tempo de adaptação às novas regras. Regras difíceis para quem sempre procurou não dar pontapés na gramática. Custosas de compreender para quem procura ler o que está escrito. Porque o problema do acordo é precisamente esse: mudar a nossa forma de escrever e, se lermos convenientemente, de falar. Uma das várias alterações será a eliminação das consoantes mudas, mesmo quando estas servem para abrir a vogal anterior. Veja-se a título de exemplo, as palavras como projecto, exacto, acção e directo, que lemos acentuando as vogais que antecedem a consoante muda. Com as novas regras, deveremos lê-las como projeto, exato, direto e ação, assim mesmo como lhe sai da primeira vez que as vê, que é a natural, sem acentuar as vogais ‘e’ e ‘a’. Muda a forma como fala, não muda? Ou não mudará se contornar as regras básicas do português para fingir que tudo está igual.

É este o grande senão do acordo ortográfico. Mudar ao mesmo tempo que faz de conta que fica na mesma. Ao contrário do que se passou com a eliminação do ‘ph’ que já se lia com o som da letra ‘f’, em que adequámos a forma de escrever ao modo de falar, vamos agora a mudar a forma de falar porque estamos a alterar o modo de escrever. Enquanto na reforma ortográfica de 1911, as alterações visaram adequar a escrita à fala, à rua, que, com o tempo e o uso, tinha simplificado a língua, o que se pretende hoje é forçar uma facilitação decidida por decreto. Por isso, em 1911, os dígrafos de origem grega foram substituídos por grafemas simples: ‘th’ e ‘ph’ passaram a ‘f’; ‘rh’, foi substituído por ‘r’, ou ‘rr’, conforme os casos. Não houve uma mudança, mas uma adaptação da teoria à prática. Ao que se falava na rua.

Precisamente o contrário do que se quer com o acordo ortográfico que é decretar a rua a seguir os gabinetes. Ora, que mais não é uma língua que muda por decreto, que uma língua morta?

Syme era um inteligente funcionário do Ministério da Verdade que, no célebre ‘1984’ de George Orwell,  trabalhava no aperfeiçoamento do dicionário da nova língua conhecida por Newspeak. Syme não compreendia porque existiam tantas palavras com significados semelhantes. Não percebia a razão de ser dos sinónimos. Para ele, estes serviam apenas para criar confusão, permitir, através de palavras de significado semelhante, dizer coisas diferentes. O que em qualquer língua é a sua riqueza, para ele não tinha razão de ser. Pelo contrário, era algo que impedia o entendimento entre os cidadãos. Podia criar dúvidas que, para alguém que via a língua como uma mera soma de palavras, era desnecessário e até perigoso. Por isso, deliciava-se em destruir palavras. Em reduzi-las ao ponto de para cada facto, objecto, sentimento, haver apenas uma possível. A eficiência na sua máxima expressão e Syme era eficiente.

Qual a razão de ser do acordo ortográfico? Dizem os seus defensores que é para facilitar o comércio com o Brasil, ou aproveitar a influência que este vai ter no mundo. Eficiência. A sempre velha eficiência, não ao ponto de eliminar palavras, mas as destruir, eliminado letras. Apagando as suas especificidades. Os seus vários significados que estão na posse de quem gosta da língua e a aprende e a usa em todo o seu potencial. O objectivo do acordo é esse: não tendo a língua segredos, não haja quem os descubra. Todos a falar e a escrever o mesmo. O gosto pelo poder que dá obrigar, em poucos anos, o que só se consegue em séculos: mudar o modo como os outros se expressam. Falam e escrevem. Comunicam. Um poder imenso na mão de técnicos que encaram a língua como um sopa de letras e não parte da nossa vida. Técnicos de uma língua morta, mas que não é a nossa.

Fevereiro 3, 2012

República vs Monarquia

Filed under: Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:21

Não me parece que seja a mudança do presidente pela do rei que resolva os problemas do país, tal como não foi a troca do rei pelo presidente que os solucionou há cem anos. De qualquer forma, o debate continua e é salutar.

Fevereiro 2, 2012

Formigas

Filed under: Comentário,Internacional,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 15:19

“(…) à long terme la croissance d’un pays est déterminée par trois facteurs: la croissance de la population active, le progrès technique et l’augmentation du stock de capital.”

Lemos esta entrevista no Le Figaro e, se os problemas do Japão de hoje, forem nossos amanhã, vamos ter de ser formigas durante muitos anos. Poupar e ter filhos. Amealhar e multiplicar. A solução é fácil e, bem vistas as coisas, nem é muito cara.

Janeiro 30, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Economia,Insurgentes nos media,Política,Política Fiscal,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:33

O meu artigo para o jornal i deste sábado.

Caro senhor primeiro-ministro

É preciso reduzir depressa a despesa pública, para pôr fim à política de austeridade

Quando venceu as eleições, em Junho passado, as expectativas não eram muito altas, tão grandes eram os desafios. Independentemente disso, acreditei e votei em si. Depois de tanta mentira rebuscada, estava disposto a acreditar em alguém que não escondesse a verdade. E a verdade é dura, como o senhor primeiro-ministro já deve ter percebido. Não me arrependi. E é precisamente por não me ter arrependido que lhe dirijo esta crónica.

Quero recordar-lhe os perigos que corremos caso o seu governo falhe. O desastre que será não reduzirmos a despesa do Estado e regressarmos às políticas que nos trouxeram até aqui. As políticas que implicam cobrar impostos altos à população com vista a satisfazer os interesses privados de alguns. De poderosos com fácil acesso ao poder que nos querem convencer serem no nosso proveito os seus projectos privados. Passarem por público um interesse que mais não é que corporativo. Se estes são os riscos do seu falhanço, o que podemos conseguir com o seu sucesso?

Antes de mais nada, um país de cidadãos livres. Onde a liberdade não se reduza a votar, mas se estenda à vida do dia–a-dia. Livres de darem o destino que queiram ao dinheiro que ganham com o seu trabalho. De investir, poupar, gastar, comprar e vender, sem que isso implique um motivo para terceiros, através do poder estatal, se imiscuírem. Um Estado livre das chantagens corporativas. Um país livre do estrangulamento legal que essas chantagens implicam. Um Estado presente em nome de todos e não de alguns. Um país onde as pessoas percam o vício de esperar do Estado aquilo que apenas podem conseguir por elas próprias. Onde a educação seja um direito, mas acima de tudo um dever. Um dever que cada cidadão tem de seguir e assumir. Essa é a única forma de os jovens não serem encaminhados para cursos que tanto jeito dão aos que conseguiram a licença para os ministrar. Um país onde haja menos empresas públicas e menos empresas a viver com o beneplácito do Estado. Empresas que, desvirtuando as regras dos mercados, que são as do cidadão comum, impedem que os produtos se vendam a preços mais baixos e competitivos. Um país onde o sucesso já não seja conseguir um emprego para a vida, mas ter um trabalho que seja uma mais–valia para os outros. Precisamos que o Estado gaste menos e isso implica uma forte redução da sua actividade. Só isso permite que a despesa pública baixe para níveis que possibilitem descer os impostos. Porque apenas a redução dos impostos fará a economia voltar a crescer. Criarmos mais postos de trabalho. Vivermos melhor e não ter de haver tantos a ir embora.

Se não conseguir esta mudança, o senhor falhou. E o senhor não pode falhar, porque, se isso acontecer, a alternativa da oposição é mais despesa pública e mais impostos. Mais pobreza. Porque não pode falhar, o senhor não pode perder mais tempo. Tem de cortar seriamente na despesa do Estado. Tem de fechar departamentos, direcções-gerais e regionais, gabinetes, comissões de estudo e de análise. Tem de pôr um ponto final em muitas das funções do Estado. Vai ter de despedir funcionários públicos, porque em 2013 já não lhes poderá dizer que não paga os subsídios de férias e de Natal. Fazê-lo não seria justo para os muitos que trabalham no sector público e que são precisos. Vai ter de privatizar escolas, para que o Estado possa reabrir as que fechou no Interior. São medidas duras e o senhor terá de ser duro. Não vai ser fácil, mas ninguém lhe pediu que fosse primeiro-ministro. Foi o senhor que quis este trabalho. É o senhor que terá de o levar a cabo. Vai ter de tomar estas medidas, pois, caso contrário, os sacrifícios que os portugueses estão a fazer serão inúteis. Uma mera perda de tempo. E, senhor primeiro-ministro, nós estamos fartos de perder o tempo das nossas vidas à volta desta história da dívida pública.

Austeridade, recessão e CGTP no Combate de Blogs

Filed under: Comentário,Economia,Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:30

  O Combate de Blogs deste sábado, com Marta Rebelo e o jornalista Filipe Caetano, sobre a austeridade e as suas implicações na economia, pode ser visto aqui.

Janeiro 20, 2012

O milagre chinês

Filed under: Comentário,Internacional,Nanny State Watch,Política — André Abrantes Amaral @ 17:46

Um excelente vídeo que ilustra bem o que tentei explicar no meu artigo para o jornal i sobre a verdadeira situação na China.

Janeiro 16, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:45

O meu artigo deste sábado no jornal i.

Pare, escute e olhe

As críticas à ida de Soares dos Santos para a Holanda, só beneficia os culpados da triste situação em que nos encontramos.

A sociedade Fernando Soares dos Santos, detentora da maioria do capital da Jerónimo Martins, decidiu mudar a sede social para a Holanda. De acordo com Alexandre Soares dos Santos, esta decisão deveu-se à instabilidade fiscal em Portugal e às boas condições que a Holanda oferece às empresas. A quem investe, monta um negócio e cria postos de trabalho. Algo a que, descobrimos nos últimos dias, a Holanda dá imenso valor. Algo que, atentas as críticas de tantos comentadores e os boicotes tentados ao Pingo Doce, me leva a concluir que não prezamos muito.

Nos últimos 25 anos, o estado português sobreviveu à custa de um aumento gradual dos impostos e de um endividamento ao exterior que, para ser pago, nos levou às medidas de austeridade que conhecemos. Foram muitos os avisos de que quanto mais o estado exige a quem trabalha, menor é a vontade de trabalhar. É a velha máxima de quanto maior a tributação, menor é a competitividade. Infelizmente nenhum governante se preocupou com esta situação, ou alterou a forma como geria os interesses do país. Porquê? Porque acreditavam no que faziam. Melhor: porque faziam aquilo em que queriam acreditar. Porque queriam que o Estado fosse o motor da economia e que quanto mais este investisse e regulasse a actividade económica, melhor. Melhor para o país, já vimos que não. Mas melhor para o conceito de vida política que impregna o íntimo dos nossos governantes. Os convence do direito de, conquistado o poder político, terem acesso ao poder económico. Distribuir benesses, repartir favores. Serem influentes, não à custa do que conseguiram com o trabalho, mas do dinheiro que cobram aos cidadãos.

O ruído à volta da decisão de Alexandre Soares dos Santos tem sido muito aproveitado pelos políticos de esquerda. Depois de tanta asneira cometida que nos obriga passar pelas dificuldades que conhecemos hoje, não há nada como atirar poeira para cima dos outros. E é aqui que precisamos ter cuidado. Que devemos parar, escutar e olhar com atenção para o que se passa. Para o porquê das coisas. A crítica à mudança da sede de uma sociedade, perfeitamente legal e que já aceitaríamos de bom grado se nos beneficiasse, é irracional e susceptível de ser conduzida por interesses que não nos dizem respeito. Por motivos que apenas interessam a quem tanto nos prejudicou nos últimos anos. Vivemos tempos difíceis com o desemprego, os salários em atraso e as poupanças a serem destruídas. Tempos que vão agudizar ódios e ressentimentos; sentimentos propícios para discursos oportunistas e demagógicos. Próprios de quem instiga a inveja e a animosidade, como forma de justificar o seu discurso ultrapassado e estatizante.

Os políticos que criticam Soares dos Santos são os que andaram de mãos dadas com empresários, orgulhosos por os terem a investir em Portugal. São os que criticam a escolha de Catroga para a EDP, mas esquecem que a única forma de isso não acontecer é o estado sair por completo das empresas. Agora, em que a forma de cativar investimento é reduzindo o poder do estado, estes políticos estão assustados. Assustam-se porque receiam perder influência sobre os escolhidos. Porque a alternativa que sugerem, de impedir decisões como as da deslocação da sede de uma sociedade para o estrangeiro, implica o estabelecimento de um estado policial onde tudo é proibido, desde que não seja em prol do estado. Do poder político, mascarado de patriotismo. Ou já nos esquecemos como nasce o nacionalismo bacoco? Assim, antes de reagirmos a quente, precisamos pensar muito bem nos motivos de quem nos atira poeira para os olhos. Por que o fazem e com que objectivos. Temos de ser mais cuidadosos na análise da informação que nos chega. Na verdade, além de pagarmos impostos, também servimos para pensar.

Janeiro 13, 2012

O sucesso de Ron Paul

Filed under: Comentário,Internacional,Política — André Abrantes Amaral @ 12:05

A leitura deste artigo de Charles Krauthammer sobre os excelentes resultados de Ron Paul nas primárias republicanas, é da máxima importância para se perceber a mudança que está a ocorrer no GOP.

Paul está a cativar o eleitorado mais conservador, juntando-o aos libertários. O que vai sair disto daqui a 10/15 anos, pode ser muito benéfico para todos.

Janeiro 12, 2012

Espantoso

Filed under: Blogosfera,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 14:19

A questão neste ‘post’ é  saber como é que alguém compreende um argumento, se nem se dá ao trabalho de acertar no nome de quem o escreveu.

Janeiro 9, 2012

China (2)

Filed under: Comentário,Internacional — André Abrantes Amaral @ 12:07

No seguimento deste meu artigo para o i, a somar aos que referi neste ‘post’, aqui vai outro aviso sobre o que se passa na China. Não ponham muita fé nos chineses que ainda se vira o feitiço contra o feiticeiro.

Janeiro 4, 2012

China

Filed under: Comentário,Internacional — André Abrantes Amaral @ 17:26

No seguimento deste meu texto sobre a China, aproveito para juntar alguns outros artigos sobre o mesmo tema e o difícil ano que 2012 vai ser para o regime chinês.

China’s New Leaders Get in Line.

China’s Shaky Economic Foundation.

The Coming Collapse of China: 2012 Edition, por Gordon Chang.

Is China Ready for 2012?

Janeiro 3, 2012

O Ouriço

Filed under: Blogosfera — André Abrantes Amaral @ 09:42

O novo ano inicia-se com o surgimento de um novo blogue no qual participam, entre outros, João Gomes de Almeida. A não perder.

Janeiro 2, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:45

O meu artigo para o jornal i deste sábado.

A bolha chinesa

Em 2012, podemos assistir ao início do fim do milagre chinês.

Há um ano, Robert Kaplan, jornalista norte-americano e assessor do Departamento de Defesa dos EUA, publicou ‘Monsoon’ (Random House). Um livro sobre os equilíbrios estratégicos no Oceano Índico e o futuro do poderio norte-americano naquela região. Para Kaplan, as águas que outrora Afonso de Albuquerque quase conseguiu dominar, voltam a ser vitais porque banham uma série de países que fazem fronteira com a China. Um país com um regime que, se em 1989 tremeu quando estudantes fizeram frente a uns tanques, se está agora a tornar numa potência mundial. Compra empresas pelo mundo fora, dívida pública europeia e, claro está, armas.

Não há norte-americano que não se preocupe com o investimento chinês nas forças armadas. Se há países que com dimensão são por natureza potências mundiais, a China é um deles. No mundo globalizado em que vivemos, onde os negócios estão interligados, numa comunhão que integra já não apenas a Europa, EUA e o Canadá, mas todas as regiões do globo, a dimensão da China conta. Conta ao ponto de um problema chinês ser também um problema nosso. E a China, ao contrário do que muitos possam supor, tem demasiados problemas.

Gordon G. Chang é um advogado chinês, há décadas a viver nos EUA, que tem alertado para o iminente colapso da China. No seu livro, ‘The Coming Collapse of China’, editado em 2001, Chang prevê que os 4 grandes bancos chineses, todos eles propriedade do estado e endividados até à medula por satisfazerem os interesses privados da elite comunista, podem ser os grandes causadores da catástrofe que se adivinha naquele país. Não se trata apenas da corrupção, inevitável quanto mais o estado intervém na economia, mas dos variadíssimos projectos megalómanos que estão ser levados a cabo na China, sem qualquer retorno. Cidades desertas que custaram balúrdios. Construções totalmente inúteis, que nunca serão pagas, nem cujas perdas serão contabilizadas, pois onde não há escrutínio, tudo se apaga ao ponto de nunca ter existido. Conforme nos explica Chang, cerca de 2 a 3 por cento do crescimento económico chinês é excesso de produção. Produtos que jamais serão consumidos, de que nada servem, mas que consomem recursos, dinheiro, tempo e energias que seriam melhor aplicados noutras actividades. Excessos que pressionam o surgimento da inflação. Gastos supérfluos que estão a criar muitas bolhas, cujo rebentamento terá um impacto talvez maior que aquele que nos atinge neste momento.

Os comunistas em Pequim têm um medo de morte de perder o poder. Por isso, além de incitarem o sentimento nacionalista, tudo controlam, ignorando as correcções que, em qualquer sociedade onde o estado pouco intervenha, são feitas através de um diálogo diário e silencioso, entre consumidores e produtores. Como reconhecer o erro é, naquele regime doentio, meio caminho andado para ser posto em causa, o partido comunista chinês joga tudo por tudo numa fuga para a frente. O tal passo em frente em direcção ao precipício. Não há falências, porque é mais fácil ignorar as regras de contabilidade. Mais fácil, mas mais doloroso. Para a China e para nós.

Termina hoje o ano em que o Ocidente pôs as mãos na consciência e se deu conta de quanto custa a interferência dos estados nas decisões económicas das pessoas. O ano em que contabilizámos o dinheiro que se gastou e a riqueza que não se produziu, porque os decisores políticos planearam como a vida na Europa devia ser orientada. No ano novo é tempo de recearmos o que vai acontecer na China, fruto desses mesmos erros, mas numa escala maior. O regime chinês tem um dilema: para sobreviver precisa de estabilidade que depende de um forte crescimento económico que, por ser artificial, gera instabilidade. Em 2012, a China pode complicar mais com os seus problemas que com a sua força. A história não acabou em 1989, nem em 2008. Na verdade, ainda tem muitas reviravoltas para dar.

Dezembro 19, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 10:34

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A ferida da Europa

A Europa liquidou-se quando matou a diversidade e destruiu a sua riqueza interior. Para este mal, não há euro que lhe valha.

A vida não reflectida, não é digna de ser vivida.

George Steiner

Até à segunda guerra mundial, existiam na Europa estados com muitos povos, e povos que se distribuíam por muitos estados. A Europa tinha, acima de tudo, cidadãos que se misturavam, mudavam de uns países para os outros e não se agarravam a qualquer deles. Eram judeus, ciganos, húngaros, checos, polacos, bascos, povos que pertenciam a algo mais profundo que o poder político e militar. Claro que hoje há quem saia do seu país e vá para outro. Mas é do seu país que sai e não de um local onde vive. Se antes as pessoas estavam, à superfície, politicamente unidas pelo poder do rei, existia também, como que de uma forma subterrânea, uma ligação cultural e espiritual com as que viviam em estados diferentes. Em Portugal, um dos Estados-nação mais antigos do mundo, temos dificuldade em perceber o fenómeno. Mas ele existe e marcou a Europa durante séculos.

Em 2004, George Steiner, também ele um judeu, nascido em Paris, filho de pais austríacos e a viver no Reino Unido, proferiu uma palestra sobre a Europa (A Ideia de Europa – Gradiva). Nesta sua intervenção, Steiner (um dos últimos europeus vivos), procurou definir a Europa através do café, como local conspirativo, de convívio e conversa que só existe neste continente; da paisagem demasiado humana que permite atravessar o continente sem dificuldades de maior e dos nomes que damos às ruas e às praças, em memória do passado. Referiu também a herança de Atenas e Jerusalém que permitiu aos europeus não apenas descobrir, mas questionar. De como o diálogo com o Deus Judaico, conduziu os europeus à ideia de consciência social e de justiça, como sendo algo mais valioso que o orgulho e a honra. A arte, a arquitectura, a filosofia, a literatura, a música europeias tem disto tudo um pouco. A busca do belo, da harmonia a partir da audácia que tudo questiona, que nada encara como perene. A consciência de que a sua própria existência tem um fim, é, aliás, o último axioma que Steiner utiliza para definir a Europa.

Foi esta diversidade que desapareceu no século XX. Foi um processo longo e lento, talvez começado quando Napoleão uniu os franceses à volta do Estado e os europeus contra os franceses. A partir daí, a história europeia é mais sobre estados que sobre povos. Um processo que culmina na Segunda Grande Guerra, com o extermínio dos judeus e o fim da diversidade. Do espírito de comunhão que nos unia a todos. Com as duas grandes guerras, a Europa não perdeu apenas os impérios, mas a sua força interior. A diversidade que a unia. A capacidade de conseguir ser uma casa para tantos. A riqueza espiritual que nos obrigou a reflectir, a questionar, a descobrir novos conceitos, sistemas políticos, filosofias que mudaram a vida. Se antes existiam monarcas com laços familiares, a par do espírito comum que unia os europeus, restam hoje, políticos de topo que procuram juntar cidadãos que pouco têm a ver uns com os outros. E fazem-no da única forma que conhecem: através de uma união política que enfrente os desafios que vêm de fora. A Europa já não desafia o desconhecido, mas segue os que copiaram o que ela inventou.  Esta ferida europeia é mais grave que a do euro e não se resolve numa cimeira.

Voltando a Steiner, o que ele nos propõe é o regresso ao espírito que outrora fez a Europa. Perante os desafios do fanatismo islâmico, do autoritarismo chinês, poderá a Europa apontar soluções? Poderão aqui surgir as respostas para os problemas que nos afectam no início deste século? Hoje, que só se fala de invenções técnicas, esquecemos a mudança que as correntes filosóficas trouxeram ao mundo, permitindo aos homens darem um salto gigantesco no caminho do desenvolvimento humano. Quem sabe, não pode novamente ser esse o papel da Europa. Um espaço de liberdade, de livre circulação de pessoas, bens e serviços; de bem estar, mas também de utilização da herança cultural como modo de contestar o que existe. De reflectir, tornando-nos a todos, dignos de viver.

Dezembro 18, 2011

Melhores Blogues 2011

Filed under: Blogosfera — André Abrantes Amaral @ 20:05

O Insurgente foi novamente nomeado para a votação online dos melhores blogues em 2011, do programa televisivo, Combate de Blogs, do jornalista Filipe Caetano, para as categorias de Melhor Blogue de Direita e de Melhor Blogue Colectivo.

Apesar de ter sido um dos membros do júri que escolheu os nomeados, não estive, naturalmente, entre os que nomearam o Insurgente.

A votação já começou e corre até ao dia 6 de Janeiro. Assim, e se está a ler O Insurgente, não se esqueça de votar de forma conveniente.

Dezembro 14, 2011

A Inglaterra

Filed under: Comentário,Internacional,Política,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 16:17

A decisão de Cameron vetar a alteração dos tratados europeus terá sido difícil e trará sérios problemas para o Reino Unido. O isolamento britânico vai deixar mossas, até porque o Reino Unido já não é o principal aliado de Washington. Pior ainda: sem o império, a própria existência do Reino Unido, como já tive oportunidade de mencionar aquando das eleições escocesas em 2007, pode deixar de fazer sentido quando a Escócia perceber que o acesso aos mercados internacionais, que procurou em 1707 quando se ‘juntou’ à Inglaterra, será mais fácil dentro da União Europeia, que no próprio Reino Unido.

Os riscos são muitos, pelo que se torna fácil criticar a decisão de Cameron que, aliás, tem muitos críticos no seio do seu próprio país. Sucede que, como já referiu Vasco Pulido Valente, o Parlamento britânico nunca aceitaria submeter-se aos ditames de Berlim, de Paris e da eurocracia não eleita de Bruxelas. Não o fez no passado, não o fará agora. Por muitos que sejam os riscos e as dificuldades. Por muitas que sejam as críticas e apreensões dentro da própria sociedade britânica, elas sempre existiram em situações como a presente. A democracia, a verdadeira democracia parlamentar, quando não é apenas uma palavra, mas um modo de vida, vale por isso e muito mais.

Da mesma forma, Cameron protegeu a praça financeira que é Londres, como no passado a Inglaterra defendeu os seus comerciantes. O poderio inglês, e depois britânico, cresceu com o liberalismo económico que nasceu entre os negociantes e os lojistas. Foram eles que exigiram um Parlamento que os protegesse contra o poder absoluto do rei e o despotismo das potências continentais. Olhando para o passado, facilmente se compreende a decisão de Cameron. E quem não tirar ilações do passado, condenando sem perceber a razão de fundo do governo britânico, acaba por, não querendo ouvir a história, cometer os erros que a história ditou.

Dezembro 5, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 16:13

O meu artigo no jornal i deste sábado.

É o fim do mundo como nós o conhecemos

Se o mundo em que nascemos está a acabar, o que decidirmos e fizermos agora vai definir o que deixaremos aos nossos filhos.

No início do século XX, a vida na Europa era um mar de rosas. Ou assim as pessoas na época julgavam, esquecendo os avisos de perigo que se iam repetindo. O equilíbrio de poder europeu perdera elasticidade e a genialidade de Bismarck não era para todos. Até o naufrágio do Titanic, em 1912, foi um aviso: as máquinas não só eram vencíveis, como se podiam virar contra o homem. E assim foi, dois anos depois, quando milhões correram eufóricos em direcção a uma guerra que, cedo se percebeu, não iria ser como as demais. O século XIX, a ingenuidade e candura daqueles tempos terminaram de repente. Há quem diga que a Europa também. E quem observe as fotografias dos soldados naquela primeira grande guerra, o que vê é o olhar da incredulidade. Como foi possível que o progresso os tivessem conduzido até ali?

Não estamos à beira de uma guerra, mas próximos de uma mudança igualmente abrupta. A vida segura e previsível que tivemos até aqui acabou. O conceito de emprego estável e certo não será para nós. O ensino pago por todos e gratuito para quem dele aufere vai deixar de ser possível. Até aquela ideia de que o Ocidente é o centro do mundo pode passar à história, com esta a ser escrita por potências emergentes como China e Índia. O que até há pouquíssimo tempo era inimaginável será amanhã provável. São mudanças que vão ocorrer, não porque queiramos, mas porque têm de acontecer. Por mera necessidade. Foi a necessidade que criou o Estado social, quando as famílias, que tinham muitos filhos, além de sobreviver passaram a exigir melhores condições de vida. É outra vez a necessidade, porque vivemos mais anos e há menos crianças, que porá ponto final no Estado que toma conta de todos. É a necessidade de enfrentar a concorrência vinda de outros continentes que nos está a obrigar a mudar. A ceder às exigências de outros povos e credos. Vivemos tempos interessantes em que o desconhecido se apresenta aos nossos olhos e vemos o equilíbrio que conhecíamos tão bem desmoronar-se. As fundações nas quais os nossos pais (e falo para os leitores de todas as idades) alicerçaram as suas vidas não servirão mais para nós. E daqui a muitos anos, os nossos bisnetos olharão para estes tempos como nós encaramos a linha de fronteira que foi o princípio da I Grande Guerra. O tempo do fim de um século e o início de outro.

Como vai ser o século XXI, ninguém sabe. Mas sabemos os riscos que corremos. Todas as mudanças abruptas trazem insegurança e esta leva à exigência de ordem que, a maioria das vezes, pressupõe restrição das liberdades. Mário Soares, numa entrevista a este jornal, chegou a referir que os Estados soberanos estão a ser substituídos pelos mercados. Sucede que, devido à sua falência financeira, mais Estado implica uma forte desvalorização da moeda e inflação. Ora, se foi a inflação que acabou com as democracias nos anos 30, a proposta de Mário Soares é perigosa. Veja-se a desconfiança que já mina a Europa, como se no Norte todos fossem excelentes trabalhadores e, no Sul, preguiçosos. Estamos a esquecer as particularidades de cada indivíduo e a generalizar conceitos e características, alargando-os a cada povo. Tal como aconteceu no passado. Como vamos evitar a repetição da História? Como vamos lidar com os mais pobres quando o Estado social acabar?

Para que nos sintamos bem com o que vamos deixar, cada um de nós terá de assumir a responsabilidade pelo que faz. Se o Estado não pode, fá-lo-emos nós. Os governos devem trabalhar, quanto antes, com as inúmeras organizações de solidariedade, religiosas e laicas, para que estas alarguem o seu campo de acção. Para que grupos criem mais escolas e um espírito de pertença substitua o de colectividade. Menos Estado não é o caos, mas pode ser mais justiça. Porque se estamos a assistir ao fim de um mundo, presenciamos também o nascimento de outro. O nosso.

Novembro 22, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:06

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

O canto da sereia

Através do investimento público, o Estado privilegia uns em detrimento de outros, algo indesejável num Estado de Direito.

No meio da convulsão que vivemos há meses, em que assistimos impávidos, mas nem sempre serenos, à derrocada do projecto de construção europeia, chega-nos aos ouvidos o canto da sereia. Diz-nos este, numa primeira estrofe, que as políticas de austeridade seguidas pelos Estados são más e recessivas. Destroem postos de trabalhos, fontes de rendimento, conduzindo muitos à ruína e ao desespero. E depois de nos apontar a catástrofe, indica-nos a solução que está em fabricar dinheiro, imprimir moeda para que os Estados possam continuar a investir, substituindo o investimento privado que se está a retrair. Se a primeira parte deste canto é parcialmente verdadeira, já a segunda é falsa e perigosa. Comecemos por esta.

Os benefícios do investimento do Estado na economia é dos maiores mitos de que há memória. Se é indispensável que o Estado leve a cabo certas funções, ele já se torna corrosivo quando se alarga a outras. Não só porque condiciona o comportamento das pessoas, como sucedeu com a bolha imobiliária, fruto de uma lei do arrendamento penalizadora dos proprietários e de benefícios fiscais resultantes do crédito à habitação, mas também, ao necessitar de financiamento para esses mesmos investimentos, concorre com os privados na sua obtenção, dificultando-lhes o acesso ao crédito. Não deixa de ser irónico que uma política que visa incentivar a economia, acabe por dificultar o acesso dos privados ao dinheiro e, consequentemente, a criação de postos de trabalho. Mas o pior de tudo é a conluio entre Estado e empresários que resulta deste tipo de investimento. Para o Estado investir são precisos empresários que façam o trabalho contratado e estes serão, necessariamente, os mais bem relacionados com o governo. Uma fotografia ao lado de um político pode valer ouro porque, mais importante que ser empreendedor, é conhecer os meandros do poder. Algo perverso, não apenas para a economia, mas também para a democracia e o conceito de Estado de Direito que queremos que prevaleça apesar dos tempos difíceis.

É natural que os cortes nas despesas que os governos estão a impor aos Estados, sejam negativos para as pessoas. Vivemos numa sociedade dependente do Estado onde poucos são os que conseguem ir longe se não forem coniventes com a administração pública. Até mesmo quem sempre lutou para ser independente do Estado, não trabalhando para ele, é prejudicado com os cortes na despesa pública, pois o seu trabalho depende do bem estar da economia e esta encontra-se condicionada pelas políticas seguidas no Terreiro do Paço.

Os problemas que atravessamos não resultam apenas da dívida, mas da falta de crescimento económico. Se o país que queremos tem de ser menos dependente do Estado é preciso, não que o Estado faça, mas que deixe fazer. Que se liberalize a actividade económica, para que os privados trabalhem sem a intromissão sufocante do poder político. É necessário que o governo facilite a vida das pessoas. Não de algumas, mas de todas. Um modo de o conseguir é através da liberalização da lei do arrendamento que permite a milhares de jovens iniciar a sua vida adulta, sem que tal implique uma dívida de 40 anos. A milhares de pessoas mudar de emprego e de cidade sem ter esperar por quem compre as suas casas. Uma nova lei do arrendamento, juntamente com a liberalização do mercado do trabalho, será uma fonte de financiamento da economia sem os juros cobrados no exterior e os custos inerentes ao investimento público. É uma das muitas medidas com que o governo deve avançar o mais rapidamente possível. O importante é que nunca repitamos o erro de favorecer empresários politicamente bem relacionados, como sucede com o investimento público. Em vez de estarmos sempre a ouvir que os políticos confiam na capacidade de sacrifício dos Portugueses, é altura de o governo aceitar que as pessoas sabem melhor que ninguém o que precisam para si, permitindo-lhes exercer os seus direitos sem condicionalismos de qualquer espécie.

Novembro 21, 2011

A nova eternidade

Filed under: Comentário — André Abrantes Amaral @ 16:08

Com a detenção de Duarte Lima, falou-se do filho, de 26 anos e estudante. 26 anos. E estudante. Só estudante, sem mais nada. O que faz? Estudo. Não faço mais nada. Sendo uma moda que pegou, perguntou-me até quando os estudantes quererão ser só estudantes?

Novembro 16, 2011

700 mil desempregados

Filed under: Comentário,Portugal — André Abrantes Amaral @ 16:15

Já são mais que os funcionários públicos.

Novembro 14, 2011

Combate de Blogs

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,Portugal,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 10:06

A minha participação no Combate de Blogs (TVI24), deste sábado com Rodrigo Moita de Deus, Rui Pedro Esteves e José Castro Caldas, sobre o orçamento de estado e a demissão de Berlusconi.

Novembro 11, 2011

11/11

Filed under: Internacional — André Abrantes Amaral @ 15:34

Não consegui ‘postar’ às 11 horas. Mas fica a intenção.

Novembro 7, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Livros,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 11:04

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A Vitória dos Buddenbrooks

A Alemanha que venceu a Europa não foi a das armas, mas a dos comerciantes que Thomas Mann descreveu no seu livro Os Buddenbrooks.

Se ainda não o fez, o leitor devia ler Anna Karenina de Lev Tolstoi (Relógio d’Água), e Os Buddenbrooks de Thomas Mann (D. Quixote). Os dois romances retratam bem a vida, em pleno século XIX, de duas realidades europeias distintas. A Rússia e a cidade livre de Lubeck, esta antes e após a sua integração no Império Alemão em 1871. O que encontramos nestes romances, a vida das personagens neles descritas, os seus sonhos, ambições, desejos, frustrações e sucessos, medos, angustias, derrotas e vitórias, as casas onde vivem, o modo como lidam com os seus iguais, com os criados e os camponeses, dizem muito do que foram uns e outros. Bastante do que é, hoje ainda, um país como a Rússia e outro, como a Alemanha.

Enquanto no romance de Mann os Buddenbrooks detinham um negócio de importação e exportação que procuravam passar aos seus descendentes, permitindo-lhes a continuação de uma fonte de rendimento que os sustentasse e os fizesse ser uma mais valia na cidade onde viviam, na obra de Tolstoi a realidade é outra. Neste, ou são altos funcionários do Estado, ou nobres de antiga linhagem, os que constituem a elite política e intelectual. Apenas um, Koysta Levin, representa a falta que Tolstói tanto lamentava entre as elites russas: o gosto pelo trabalho com vista a ajudar os mais desfavorecidos, fazendo o que é justo. O que faltou em Tolstoi, como aliás em Dostoiévski, foi nunca ter conseguido juntar o gosto pelo lucro e pela realização pessoal, à solidariedade. Reconhecer a necessidade de ajudar os outros como sendo o resultado inato do sucesso, fruto desse mesmo trabalho. Para Tolstoi, um benemérito tinha de ser um santo. Um místico. Um homem sem falhas. Talvez por isso, o homem bom que era Levin fosse agricultor, mas nunca um comerciante. Já os Buddenbrooks são demasiado homens para serem santos. Veja-se o exemplo de Johann Buddenbrook que apenas porque quer levar o sogro para casa, conversa com os revoltosos de 1848 e os convence a desmobilizar. Ajuda-os. Resolve o problema que afecta a cidade, não por ser um super-homem, mas como homem simples que é e que procura o bem estar da sua família.

O tempo foi aumentando esta confusão entre benemérito e santo. Só quem se supera, consegue visar o lucro ao mesmo tempo que  procura o bem. Por termos caído nessa crença do homem perfeito, grandioso e inexistente, substituímos os homens normais por instituições longínquas. A crise de hoje, é também de confiança. De suspeita perante Merkel e Sarkozy que não se portam como esperamos se comportem os líderes: de modo magnânimo e capazes de resolver, de um dia para o outro, todos os problemas, quanto mais não seja pela sua simples presença. E também porque deixámos de acreditar que com esforço, pessoas normais conseguem grande feitos, fomos vivendo numa sociedade como a descrita por Tolstoi, na qual as elites nada produzem, vivendo tranquilo quem alinha com o Estado e se encosta a ele. Tal qual os endinheirados em Anna Karenina que pouco mais fazem que não seja preencher papelada e gerir comissões. Elites que discriminam os fracos pelas suas origens, ao contrário dos comerciantes de Lubeck que apenas desprezam quem não trabalha. São elites como as descritas por Tolstoi, que alinharam com os erros que nos conduziram até aqui, as que estão hoje a ser postas em causa.

A linhagem dos Buddenbrooks acaba por desaparecer, mas a sua ética, o seu espírito, que era o espírito capitalista daquelas cidades livres e mercantis, que Max Weber tão bem explicou, continuou noutras famílias. Continua hoje, por muito que nos doa admiti-lo, nas economias nórdicas e holandesa que pouco sofrem com a crise mundial que vivemos. O trabalho e o esforço compensam. O lema dos Buddenbrooks, “Nunca fazer negócios durante o dia que te tirem o sono durante a noite”, retrata como o valor dado ao trabalho, obriga à honestidade e como dessa honestidade, surge a consciência social. Como vamos ter de mudar e estar mais atentos aos Buddenbrooks.

Novembro 2, 2011

Onde tudo se vai decidir

Filed under: Livros — André Abrantes Amaral @ 17:31

Afonso de Albuquerque tinha razão em querer este Oceano.

Outubro 31, 2011

Media

Filed under: Comentário,Media — André Abrantes Amaral @ 11:17

Eduardo Pitta chama aqui a atenção para a quebra nas vendas dos jornais, recordando-se do tempo em que se compravam três por dia. Era verdade. Mas não nos deixemos iludir: a compra de menos jornais em papel, não significa menos leitura e menos interesse. Este é, presentemente, um erro comum. Se hoje não se compram três jornais todos os dias, lêem-se vários, diversos e muitos mais sites na internet, todos os dias. A mudança na forma como procuramos a informação, não significa falta de atenção ou de sentido crítico.

Outubro 24, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:53

O meu artigo para o i deste fim de semana.

Outubro Quente

Nada é inevitável se não nos for cortado o dom da liberdade e do direito de sermos individualmente responsáveis pelas nossas escolhas

No início do século XVII, os Invernos europeus foram exageradamente frios. Choveu, nevou abundantemente e até o Tamisa gelou. As colheitas foram fracas e, com a fome, foram vários os avisos de fim do mundo. Entretanto, de medo em medo, os dias, semanas, meses e anos foram passando e, porque a vida continuou, a temperatura voltou a subir e as colheitas a ser colhidas. Daí em diante, e em vez do fim do mundo, assistimos a uma notável melhoria nas condições da vida humana.

As altas temperaturas de Outubro convidam a devaneios parecidos, alimentados pela crença cega num aquecimento global como sendo o preço a pagar pelo pecado de o homem ferir a Terra. Esta inevitabilidade, a ideia de uma força superior que determina o comportamento humano e dita as suas consequências, e que Isaiah Berlin revelou ter passado para as mãos de um deus não religioso, já serviu para sustentar as maiores atrocidades do século XX e diz-nos agora que o planeta não aguenta que continuemos como até aqui. A evoluirmos e a vivermos melhor. Depois dos comunismos e dos fascismos não terem conseguido estancar a força criadora do homem, diminuindo-lhe a liberdade, a tese da inevitabilidade histórica volta em força para nos tolher a responsabilidade pelos nossos actos e nos dizer como temos de nos comportar. Não deixa de ser relevante como muitos dos crentes na teoria das alterações climáticas, seja pelo aquecimento global ou por via de uma nova idade do gelo, que chegou a ser prevista no início deste ano, tendem a minimizar a responsabilidade individual, transferindo a causa para forças impessoais, como as potências poluidoras e as grandes empresas. Qualquer coisa, menos nós. A catástrofe é tão inevitável que pouco mais podemos fazer que não seja exigir medidas aos verdadeiros culpados, deixando de fora a nossa capacidade para, enquanto seres livres e individualmente responsáveis, descobrirmos uma solução inovadora. Por isso são tantos os que se preocupam com as alterações das temperaturas, mas incapazes de desligar o interruptor quando saem da sala.

Também neste mês de Outubro, o governo revelou o fim do subsídio de férias e de Natal para muitos funcionários públicos. Fê-lo para evitar o colapso do que resta da credibilidade do Estado, enquanto entidade omnipotente que emprega e não deixa cair os seus. Mesmo sabendo que devia despedir 50 a 100 mil funcionários, Vítor Gaspar prefere não o fazer. O custo de despedir é tão grande que mais vale continuar no erro que corrigi-lo. Quando algo de semelhante sucede numa empresa privada, esta entra em processo de falência. Com o Estado parece ser diferente, até porque foi nisto que o socialismo o tornou: um local de onde não se pode ser despedido nem despromovido, onde se está protegido por uma teia de leis cuja mudança traria consequências tão letais que o melhor é nada fazer.

Sucede que, não se cortando o mal pela raiz, só se vai acentuar a falta de dinheiro do Estado. A tal ponto que não creio que o pagamento dos subsídios de férias e de Natal sejam retomados. Junte-se esta sentença à obrigatória redução do número dos que trabalham no sector público e é fácil imaginar a revolução nas mentalidades a que teremos de assistir para sairmos desta situação. Aquele emprego seguro que era para a vida acabou. Desta crise só se sai mudando a forma de pensar. Um Estado impessoal vai deixar de tomar conta de todos e nós passaremos a contar uns com os outros. A recessão vai ser forte, mas o resultado não é necessariamente pior. Conscientes das nossas responsabilidades, livres da inevitabilidade estatal, encontraremos soluções. Podemos aceitar que a sociedade não é o Estado e o desenvolvimento não se centra nele. Que nada se determina e tudo se reinventa. Tanto na Terra como na despesa.

Outubro 18, 2011

Ninguém fica para trás.

Filed under: Comentário,Internacional — André Abrantes Amaral @ 10:37

A libertação de Gilad Shalit, conseguida com a troca de mais de mil prisioneiros e após cinco anos de esforços imensos, mostra para que serve o Estado de Israel. Os seus críticos podem não concordar mas, depois do que sucedeu na II Grande Guerra, ninguém fica para trás. A história, ali, não se repete.

Outubro 11, 2011

Mitt Romney

Filed under: Comentário,Internacional,Política — André Abrantes Amaral @ 17:08

Para memória futura: este é o único candidato do GOP que pode derrotar Obama.

Outubro 10, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:53

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana, sobre a importância de impostos regionais e municipais na descentralização dos país.

Como acabar com os caciques

Os dirigentes locais e regionais apresentam obra aos seus eleitores, entregando a factura aos que, habitando noutro local, não podem votar contra eles.

Realizam-se este fim de semana eleições na Madeira, depois da descoberta de mais um buraco orçamental. Tal como no continente, a Madeira desenvolveu-se com obras públicas, gastando mais do que produzia, endividando-se e empurrando os problemas para a frente, ou seja, para os que viessem a seguir. Mesmo que vença as eleições, Jardim está definitivamente remetido ao passado. Resta-nos, pois, escolher como evitar os mesmos erros no futuro.

O problema da Região Autónoma da Madeira é muito semelhante ao dos municípios portugueses, onde confundimos descentralização política com mera transferência de competências pertencentes ao poder central, sem a correspondente atribuição de meios que sustentem o exercício desse poder. Sem capacidade para financiarem os seus projectos, os políticos regionais e municipais limitam-se a pedir fundos a Lisboa, alegando chavões como a insularidade e a interioridade. Fazendo uso da sua influência no interior das máquinas partidárias, os melhores neste género de política lá vão conseguindo o que pretendem. Desta forma, apresentam obra aos seus eleitores, enquanto entregam a factura aos que, habitando fora do seu feudo eleitoral, não os podem punir politicamente. Consciente ou inconscientemente, os Portugueses alinharam neste sistema vicioso, onde se chulam uns aos outros, ganhando quem tem o autarca ou líder regional mais esperto. Este tem sido o erro. Como o corrigir?

A principal maneira passa por deixar de encarar a descentralização como a mera existência de mais um patamar do poder político. Descentralizar, aproximar o poder dos cidadãos, implica também a criação de uma relação directa entre eleitos e eleitores. E isso só se consegue com impostos regionais e municipais, criados, liquidados e cobrados pelos poder regional e autárquico. Só se obtém se, por cada obra que o poder local ou regional levar a cabo, houver um imposto, lançado por esse mesmo poder e pago por quem habita nesse município ou região que beneficia dessa obra. Só se alcança se quem recebe também paga, para que saiba o custo do que foi feito e avalie a sua oportunidade nas urnas, elegendo ou castigando o seu autarca ou líder regional. Não havendo uma relação directa entre o dinheiro que é pago em impostos e o que é gasto pelo poder regional ou autárquico, os contribuintes nunca poderão exigir contas àqueles que elegeram. A impunidade será, como tem sido, total e só me espanto como não surgiram ainda mais Jardins e Loureiros em Portugal.

Estamos a assistimos ao surgir de uma nova percepção do que é o Estado. Naturalmente que ainda não sabemos o que vai sair desta enorme convulsão. Se viveremos numa sociedade mais regularizada, ou se num mundo que se apoie mais na liberdade e responsabilidade dos cidadãos. Para os que preferem a segunda hipótese, torna-se indispensável um maior controle dos eleitores sobre os governantes. Não podem existir zonas nebulosas onde o dinheiro público, cobrado pelo Estado às pessoas, seja gasto sem que a sua devida utilização não seja fiscalizada pelos cidadãos, através da sua arma política mais eficaz que é o voto. A célebre frase, ‘no taxation without representation’ quer dizer isso mesmo: se pago, tenho de ter uma palavra a dizer. Ora, é precisamente esse direito que é negado quando o Estado transfere fundos de todos para uma região, financiando obras duvidosas de políticos ambiciosos que pretendem agradar os seus eleitores, sem lhes apresentarem a factura que é paga por quem não pode votar contra eles. Veja-se como este sistema, não só conduziu à irresponsabilidade de quem governa, que mais não são que caciques que dependem do conluio com Lisboa, mas também, quando ouvimos Jardim a falar dos cubanos do continente e as autoridades em Lisboa com comentários pejorativos sobre a Madeira, prejudicou o próprio conceito de solidariedade que a descentralização visava. Apenas com regras claras de financiamento, com o poder central a intervir em situações concretas, que se amplia a descentralização que tantos querem.

Outubro 3, 2011

Quando a responsabilidade é um rótulo

Filed under: Economia,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:47

A troca de ‘posts’ entre o Manuel Castelo-Branco, o Blasfémias e o Tomás Belchior sobre a privatização da RTP, chamou-me a atenção para o perigo de classificar como fundamentalista a posição de quem discute connosco. Este truque, que não passa de uma suposição de alguém, não é nem um argumento, nem um facto. Limita-se a um palpite, tão válido quanto a opinião que quem a emite tem sobre os riscos para a privatização da RTP. Um truque que implica um esforço suplementar da parte de todos os que não aceitam condicionar o seu pensamento com o que deve ou não deve ser, o que possa ser classificado de responsável e aceitável por alguns em nome de todos, ou até com o que está ou deixe de estar na moda.

Na verdade, foi este género de ‘responsabilidade’ que nos levou a adiar medidas que a troika impôs poucas semanas depois de analisar as contas públicas do Estado. É esta ‘responsabilidade’ que, por não passar de um rótulo, leva tantos políticos a mudar de opinião em tão pouco tempo, apresentando hoje, com a mesma convicção de sempre, factos que ontem eram totalmente contrários. Foi esta ‘responsabilidade’ que nos forçou a um pensamento único (que só doidos questionavam), impedindo os benefícios resultantes da salutar troca de argumentos tão necessária para, uma vez por outra e sempre antes do desastre, se irem corrigindo os erros.

Setembro 29, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Educação,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 14:07

O meu artigo para o jornal i desta semana.

Direito de escolha

Na busca cega da igualdade, o Estado diferencia alunos e promove mais desigualdade. Onde está a justiça social?

Estamos em Setembro e chegámos ao início das aulas. Desta vez a novidade está no êxodo dos alunos das escolas privadas para a públicas. A crise, a que se juntou a forte subida dos impostos para salvar a falência do Estado, obrigou os pais, que se sacrificavam para ter os filhos no ensino privado, a desistirem de escolher o tipo de educação que queriam para eles. Veja-se o contra-senso: o Estado que está falido, cobra impostos que dificultam a vida aos que não querem ser um peso na sua estrutura. Penaliza os que assumiram como custo seu a educação dos filhos, não onerando, dessa forma, os seus concidadãos. Em vez de incentivar quem não pretende ser uma sobrecarga desnecessária para os outros, o Estado penaliza-os. Infelizmente, esta não é a única incongruência na política educativa que há anos nos prossegue. (mais…)

Setembro 20, 2011

O que vamos fazer com as Regiões Autónomas?

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 14:18

Além da irresponsabilidade política que grassa na Madeira, existe um problema na maioria das vezes esquecido: a impossibilidade de quem paga as obras na Madeira não poder castigar os governantes daquela ilha. Se parte das receitas da Região Autónoma advêm de transferências do governo central, quem paga não bufa. Lembram-se daquele princípio básico para qualquer sociedade democrática? No taxation without representation. Em Portugal, e no que diz respeito à Madeira e ao financiamento das autarquias locais, não existe.

É importante que nos demos conta do seguinte: esta crise não põem apenas em causa o euro e, com ele, a União Europeia. Questiona a própria organização do Estado português. Atenção que não sou contra a existência de Regiões Autónomas. Apenas entendo que a auto-suficiência financeira é obrigatória para que haja verdadeira autonomia política. Se não percebermos isto, não me admira que ainda venhamos a discutir o fim das Regiões Autónomas.

Setembro 19, 2011

Descentralizem a responsabilidade, sff

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:32

Só se espanta com o que Alberto João Jardim disse de ter ocultado parte da dívida da Madeira por legítima defesa, quem quer. O que o líder madeirense fez foi ter mais lata que todos os políticos regionais e municipais, dizendo-nos na cara aquilo que todos pensam e fazem: gastar o máximo possível para satisfazer o seu eleitorado.

O problema das regiões autónomas, em muito semelhante ao das autarquias e das regiões administrativas que felizmente não se criaram, é que a sua autonomia política não tem correspondência financeira. Enquanto as receitas de uma região autónoma não se limitarem aos impostos cobrados aos que nelas vivem, não descentralizamos a responsabilidade política. Podemos falar de solidariedade nacional, de que queremos ajudar as ilhas para que estas não percam habitantes. Podemos. Mas essa escolha, de transferirmos dinheiro dos cofres do Estado central para os poderes regionais, tem como custo a proliferação de políticos populistas e demagogos como Jardim. Políticos que tudo farão para sacar o máximo aos contribuintes do resto do país para, dessa forma, financiar os que podem votar neles.

Setembro 14, 2011

A crise da imprensa escrita

Filed under: Comentário,Media — André Abrantes Amaral @ 11:50

A imprensa escrita está em crise perdendo leitores quase todos os meses. É uma quebra nas vendas que afecta a publicidade e, na opinião de alguns, a qualidade dos jornais. Não creio, no entanto, que a redução do número de exemplares vendidos se traduza num desinteresse pela informação, menos ainda que seja a causa para a má qualidade dos jornais portugueses. Conforme tive oportunidade de referir em Abril do ano passado, um dos motivos para a quebra nas vendas das edições em papel dos jornais  prende-se com o acesso gratuito à informação via internet, que se torna ainda mais fácil com o surgimento dos tablets. Este meio permite a quem quer que seja saber o quiser sobre o que se passa em qualquer ponto do mundo. Sendo a informação internacional quase inexistente na imprensa portuguesa e estando a nacional reduzida às tricas político-partidárias, julgo que esta ‘fuga’ para a internet é facilmente explicada. Mas não chega para perceber a crise. Na verdade, são cada vez mais os que trocam a compra de jornais portugueses por publicações internacionais especializadas, das relações internacionais à literatura, passando pela biologia ou a história, de acordo com os seus interesses e gostos. Assim sendo, as más vendas da imprensa escrita não se podem dever apenas à informação online, mas a um desfasamento com o que os seus leitores procuram. Os jornais portugueses perdem-se no meio de demasiada informação política e corriqueira, esquecendo por completo a grande reportagem e a publicação de artigos mais cuidados e longos. Não deixa de ser curioso como a grande reportagem passou para os telejornais que deviam ser pequenos blocos de informação. Estando a génese da crise no desinteresse dos leitores, que para informação corriqueira a encontram de borla nos sites desses mesmos jornais, pelas notícias publicadas, uma das possíveis soluções parece-me ser o surgimento de novas publicações, mais especializadas, de menor tiragem e projecção, e com custos sempre controlados. Uma descida nas vendas não significa que os potenciais compradores viraram estúpidos. Apenas que procuram outro tipo de produto. Saber qual é, parece-me ser parte da função de quem trabalha na imprensa escrita.

Setembro 12, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,Religião — André Abrantes Amaral @ 09:43

O meu artigo para o jornal i deste sábado.

O primeiro pilar da liberdade

É a dignidade que advém de um elevado código ético e moral que nos leva à necessidade de fiscalizar o Estado.

If men were angels, no government would be necessary. If angels were to govern men, neither external nor internal controls on government would be necessary. James Madison, The Federalist No. 51, 6 Fevereiro 1788.

Desde aquela manhã de Setembro que sentimos que algo de sagrado e conquistado com sacrifício nos foge. Tanto o Setembro de 2001 como o de 2008 trouxeram mais desconfiança e menos liberdade. O medo e a inveja, as armas dos poderes autoritários, vieram novamente ao de cima clamando por justiça. Qual pode ser a resposta à ameaça a que assistimos contra a liberdade?

Eu arriscaria a consciência. A liberdade de consciência que supera as visões mais limitadas da política, os pequenos egoísmos que nos conduzem a vitórias ridículas. Aquilo que nos permite viver de acordo com os princípios que queremos rejam a vida em comunidade. É a percepção da liberdade individual que nos faz exigir respeito pelas nossas escolhas e nos obriga a respeitar as opções dos outros. Foi sempre isto que fez o homem lutar contra os poderes opressores e vencê-los: a certeza de que estavam do lado certo e as injustiças não se podiam perpetuar. E é a percepção de que essa consciência se funda em algo maior, divino, independentemente da religião que o explica, da forma de Deus que concebemos, que foi dando sentido à necessidade de lutar pelo que é justo.
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Setembro 6, 2011

O que há de errado na China? (2)

Filed under: Comentário,Internacional — André Abrantes Amaral @ 10:17

Devido à expulsão de alguns académicos norte-americanos das universidades chinesas, uma vez mais o Ocidente debate a melhor forma de reagir, desta vez sem perder a autonomia e liberdades académicas. A resposta de Gordon Chang é peremptória quando nos diz que nada há a esperar da China. Como todas as sociedade totalitárias, que colocam a política à frente da economia, a China tem pouco para oferecer que não seja uma fachada. Sem liberdade, não há universidades, nem economia, nem riqueza, nem desenvolvimento. Aqueles que ainda acreditam ser a China a nova potência económica do século XXI, revitalizando a crença dogmática na economia planificada, podem tirar o cavalinho da chuva. Poderemos vir a lidar com uma China militarmente poderosa, mas nunca economicamente pujante, na medida em que o motor do ‘milagre chinês’ que são os milhões de chineses que trabalham, não vai aceitar a ditadura no momento em que já tiver pão para comer.

Agosto 30, 2011

Política e economia

Filed under: Comentário,Economia,Política,Portugal,Religião — André Abrantes Amaral @ 11:48

Em meados deste mês, o Padre Vítor Melícias, repetindo o teor desta entrevista, lamentou na RTP que a economia domine a política. Concluía ainda ser preciso pôr termo à ambição desmedida pelo lucro, objectivo que só seria alcançado quando a política se impusesse à economia. Victor Melícias cai num erro socialista muito comum, que pressupõe a política, enquanto actividade ligada ao Estado, como sendo intrinsecamente bondosa e benéfica, ao contrário da actuação individual que peca por egoísta e sem escrúpulos. É um erro comum que mais me espanta por vir de um católico. Na verdade, a virtude não se encontra na política, mas na ética de cada um. A visão política da sociedade pode ser tão desonesta e ambiciosa quanto a económica, como se viu nas inúmeras aventuras empresariais do Estado que, por má gestão e irresponsabilidade, resultaram em prejuízos avultados para os cidadãos e na insolvência do próprio Estado.

As faltas humanas são, como o nome indica, do homem. Individuais. Só cada ser humano as pode ultrapassar e compensar. E é nisso que a religião, qualquer religião como a católica, tem um papel fundamental: mostrar e fundamentar esse caminho. Tão assim é que nenhuma sociedade consegue ser livre se não for religiosa. Se a maioria dos seus cidadãos não buscar na religião o sentido último de uma ética que o suporte a si e aos outros.

Agosto 29, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Economia,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:41

O meu artigo para o jornal I deste Sábado.

O Estado Opressivo

O Estado social acabou no dia em que decidiu ser empresário e capitalista; deixando de ser solidário, perdeu legitimidade.

É costume ouvirmos dizer que é preciso salvar o Estado social. Sendo este o apoio aos mais pobres, quem não está de acordo? Sucede que o Estado que se pretende salvar, há muito tempo que não tem por principal função ajudar os mais necessitados. O Estado que conhecemos tem empresas, faz negócios, vende produtos, educa e trata da saúde dos cidadãos, faz estradas, recolhe o lixo, vende e distribui electricidade, entrega correspondência, exerce actividade bancária,  especula na bolsa, é o maior proprietário de imóveis do país, transmite programas de televisão, subsidia clubes de futebol, organiza torneios desportivos, paga o estudo a jovens que vão de carro para a faculdade, da mesma forma que lhes paga viagens de férias. O Estado, que nos querem fazer crer ser social, até estações de comboio, aeroportos e uma companhia de aviação tem. É muito interessante ver como, para um socialista, um cidadão isolado é naturalmente mau, egoísta e um  empresário ganancioso, mas quando no poder se transforma num homem solidário e de boa vontade.

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Agosto 24, 2011

There is only taxpayers money

Filed under: Comentário,Nanny State Watch,Política — André Abrantes Amaral @ 14:56

 

Um discurso a ouvir vezes e vezes sem conta até percebermos bem porque estamos mais pobres.

Agosto 22, 2011

O Mar

Filed under: Livros — André Abrantes Amaral @ 11:25

 

 

 

(…)

“nós não vimos a DonaLibânia chorar com o susto e mesmo assim ter ido preparar chá com restos do bolo de banana que foi servido na varanda da AvóDezanove a todos que quiseram mas especialmente aos que ajudaram a apagar o fogo, nós não vimos porque estávamos longe, do outro lado da bomba de gasolina, do outro lado do largo, depois da areia, depois da cerca das obras, depois dos pontos cardeais que tínhamos inventado, nós estávamos lá, a tirar a roupa, a rir, a gritar pelo EspumaDoMar que não veio, a preparar os corpos para mergulhar, as bocas para sorrirem e as gargantas para gritar, como fazíamos às vezes, debaixo de água, a rir de contentes, nessas vozes molhadas de gritos nenhuns e brincadeira inventada e descoberta à toa, até um dia alguém ter dito que esses eram ‘gritos azuis’

e assim de corpos nus a sentir um pequeno vento, a olhar os papagaios que sobrevoam o nosso largo da PraiaDoBispo, eu, a Charlita e o Pi, (…) saltámos as conchas e os buracos dos caranguejos que fugiram assustados connosco em busca de sentir a água salgada nos nossos corpos ansiosos da espuma branca no mar escuro àquela hora de festas e risos, nós estávamos lá, em busca da zona um pouco mais funda onde os nossos corpos podiam dançar devagarinho com o ar nos pulmões a ser poupado para os nossos gritos, e eu lembrei dos mais-velhos, de tantos mais-velhos que eu já tinha conhecido e não sabem às vezes acreditar nos segredos simples das crianças, (…).”

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