A causa da dívida

A esquerda, da extremista à do PS, vocifera que devemos ser solidários com a Grécia, alegando a favor do argumento, a protecção dos mais pobres. No entano, o apoio aos mais desfavorecidos nunca esteve em causa. Em causa está apenas o subsídio a um modo de desenvolvimento que, endividando o Estado, dá milhões aos interesses instalados. Um modo de vida que não é, não pode ser, compatível com um Estado de Direito, a democracia e o respeito pelas liberdades. O problema é, aliás, parecido com o que sucedeu com o PS e com o beneplácito da restante esquerda, em Portugal: Em nome da solidariedade, em nome dos mais pobres, entregaram o Estado aos grandes grupos económicos que durante demasiado tempo foram donos disto tudo.

Soberania orçamental

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Soberania orçamental

O drama vivido na Grécia é o resultado final das contas públicas deficitárias; um sinal, aviso, para o que pode acontecer a Portugal, caso os orçamentos de Estado não se equilibrem e não se tornem excedentários. Na verdade, não há melhor segurança, melhor forma de garantir a soberania, que ter as contas em dia. Que no fim de cada ano sobeje parte do dinheiro que o Estado recebeu como receita.

Este ponto é da máxima importância porque, apesar do que sucedeu nos últimos quatro anos, os défices persistem e nenhum partido político assume a necessidade imperativa dos excedentes orçamentais. O primeiro-ministro referiu-o numa entrevista há mais de um ano mas, fora isso, pouco mais se ouviu.

A maior obrigação que uma moeda como o euro implica é a não existência de défices públicos. Uma moeda forte por si só pouco vale se acompanhada de uma dívida elevada. Algo que levou demasiado tempo a ser compreendido. Um presidente, Jorge Sampaio, chegou mesmo a afirmar haver vida além do orçamento. Vêmo-la hoje em Atenas e chama-se miséria. Por muito que se queira crer, o falhanço do equilíbrio das contas do Estado não se deve a uma excessiva falta de coragem em reduzir a sua intervenção e despesa, mas a uma ideologia que impediu, impede ainda, essa mesma mudança.

Este foi um problema que a dita ideologia, o socialismo presente em todos os partidos, não quis resolver. O fim dos défices das contas públicas significa cortes na despesa e uma verdadeira revisão mental do que deve ser o papel do Estado. É aqui que a situação se torna delicada. É que, com a introdução do euro, a defesa da integração europeia já não significa apenas fundos comunitários. A adesão de Portugal ao euro pressupôs que o país se tinha desenvolvido e que não estava na Europa apenas para receber. Uma moeda forte é exigente e a melhoria de vida que esta permite tem custos.

Tão assim é que, com a moeda única, qualquer medida tomada por um governo, promessa feita por partido político, que implique aumento da despesa, obrigará ao corte no correspondente valor de outro serviço prestado pelo Estado. Um socialista, de qualquer partido, dirá não ser assim, pois, caso a economia cresça, sobe a receita fiscal e há margem para aumento da despesa.

Este raciocínio peca em três pontos: em primeiro lugar, é difícil que haja crescimento com um Estado doente. Em segundo, uma subida da receita fiscal em virtude do crescimento económico não acautela o país, nem as pessoas, para o caso de uma recessão ou de um crescimento menor que o esperado. E por fim, esperar que a despesa seja compensada pela receita é pôr nos cidadãos, que nos dizem ser soberanos, o ónus do pagamento dos encargos financeiros que uma mera ideologia comporta. Ora, a liberdade, a par da soberania, por muito que nos queiram fazer crer o contrário, começa por ser orçamental.

Os gregos ainda confiam no Syriza?

Esta notícia chamou-me a atenção também quando diz que, após a anunciado o referendo os gregos “(…) foram para a rua, não para protestar, mas para levantar dinheiro nas caixas multibanco.”

Ora, haverá maior protesto que o levantamento em massa do dinheiro depositado nos bancos? Haverá maior sinal de desconfiança política que sair de casa e ir a uma caixa multibanco levantar o pouco que ainda se tem?

 

 

Como se promove o crescimento demográfico

De acordo com esta notícia da BBC News, a população no Reino Unido aumentou perto meio milhão entre meados de 2013 e meados de 2014. Um ano.

Sobre este assunto tive oportunidade de escrever para o Jornal ‘i’ em Setembro de 2013, antes destes resultados se terem produzidos, pois o crescimento populacional no Reino Unido não é de hoje. Tal como não se deve unicamente à imigração, com os nascimentos a superarem em muito os óbitos.

O crescimento democgráfico promove-se não se querendo promovê-lo. Ele sucede quando o país é saudável e a economia não está atrofiada por teorias que torcem as liberdades.

Por cá, onde nos deparamos com uma experiência contrária, dever-se-ia pensar um bocadinho que fosse nisto.

(post corrigido).

 

 

 

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no Jornal ‘i’.

Vigilância

Cinco meses depois de ter formado governo, o Syriza cedeu à realidade. Na verdade, o plano que Alexis Tsipras apresentou no início da semana equivale a cerca de 75% do exigido pelos países e instituições que têm ajudado a Grécia.

Desta maratona negocial somos forçados a tirar três conclusões: a primeira é relativa à solidariedade europeia. Se esta existe, foi vista durante este período. Não só a Grécia tem recebido milhares de milhões de euros para se manter a funcionar, como a paciência dos líderes europeus, com Schäuble e Merkel à cabeça, resistiu às variadas tentativas do Syriza de fugir à questão essencial.

Esta é a segunda conclusão a tirar: a Grécia não está preparada para uma moeda exigente como o euro, mas o custo da sua saída é demasiado elevado. Assim, a solução é manter os gregos na moeda única à custa de reformas que não ponham em causa essa mesma moeda e a unidade europeia, ameaçada que está por partidos radicais, de extrema-direita ou de extrema-esquerda, como o Syriza.

A terceira conclusão é que o problema não termina aqui. Além de apresentar medidas, o Syriza terá de as aplicar, o que não será fácil. Tsipras e Varoufakis prometeram precisamente o contrário do que vão apresentar em Atenas. Veremos como reagirão os eleitores. É que a partir de agora, e depois de cinco meses a destruir o que fora conseguido com muito esforço, a troika, os credores, quem empresta dinheiro, o que lhes quiserem chamar, vai exigir uma vigilância das reformas ainda mais apertada.

Socialismo e rigor orçamental

Será o socialismo compatível com o rigor orçamental a que o euro obriga? Os meus comentários ontem na Edição das 12 do Económico TV.

O que quer a esquerda?

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

O que quer a esquerda?

Ouvir alguém de esquerda a discutir a crise do euro e as políticas a serem implementadas é kafkiano. Vejamos: à falta de verbas que sustentem a Segurança Social, a esquerda responde com mais emprego. Emprego que se cria com investimento. Como é que se investe? Com dinheiro do Estado. Como é que o Estado recebe dinheiro?Aqui a resposta já é mais vaga porque não interessa reconhecer que com mais impostos e mais dívida, o que equivale a ainda mais impostos no futuro.

Quando falta dinheiro nos cofres do Estado, a esquerda defende a necessidade do investimento e a criação de emprego. No entanto, quando se passa ao caso concreto a conversa já é outra. Veja-se a privatização da TAP: não só se trata de investimento estrangeiro, com a vantagem natural de entrar dinheiro no país, como qualquer alternativa à seguida seria pior para o Estado e para os contribuintes. Na verdade, a recapitalização da empresa, além de difícil devido às limitações impostas por Bruxelas, obrigaria a um aumento dos impostos ou a um corte de outras despesas, como seja na saúde e outras prestações sociais.

Mas há mais. Temos também o turismo. Este sector bateu todos os recordes de receitas e de números de visitantes. No entanto, o que por aí se ouve é que há turistas a mais, que estes sujam as ruas, fazem barulho e determinam o tipo de comércio. Como se este fosse algo mais que o local de trabalho que cada comerciante cria para si. A situação é de tal forma caricata que até o Município de Lisboa, além de criar novas taxas para incentivar o turismo que está em alta sem a sua ajuda, pune comerciantes na Baixa cujas lojas têm sucesso com os turistas.

É aqui que sou forçado a concluir que a esquerda não pode ser assim tão kafkiana. Tem de haver algo mais. A impunidade ideológica de que tem beneficiado não lhe permite tamanho desaforo. E esse algo mais que a esquerda tem é uma visão de sociedade e de Portugal que raramente é discutida: um país onde as pessoas trabalham para o Estado; não apenas como funcionários públicos, mas no sentido de que trabalham com vista a angariar receitas para o Estado. Os cidadãos como formigas que amealham, não para si, mas para um poder público que zela por todos.

É isto que explica as taxas, os impostos, a desvalorização do equilíbrio das contas públicas, o desprezo pelo sucesso, a irritação perante o lucro. Na verdade, como pode alguém ousar ter um ganho que vá além do interesse nacional? Interesse este que mais não será que determinado por quem zela por todos; por um poder dirigente que não se harmoniza com a liberdade de agir. Isto é o que a esquerda quer. A direita, explicando que deseja precisamente o contrário, facilmente vencerá as eleições.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no Jornal ‘i’ é um intervalo.

Olhar para cima

Quem por estes dias olhe o céu para noroeste à hora em que o Sol se põe verá muito facilmente Júpiter e Vénus. Este um ponto mais brilhante que aquele apenas devido à menor distância a que se encontra de nós. O fenómeno, que se estende noite dentro, sucede desde meados de Maio e em Lisboa, cujas luzes pouco mais deixam ver, ganha um contorno especial: dois pontos luminosos espetados no céu negro, mostram-nos que há mais do que existe neste planeta.

A visão é tão espantosa que, para quem olhe para os planetas quando o Sol se põe, consegue ter uma belíssima ideia de como a imagem seria se a visse longe de nós, ou seja, do espaço: uma enorme bola de fogo a dominar a cena, Vénus ligeiramente à esquerda, com a Terra muito azul um pouco mais atrás e, lá muito ao longe, Júpiter. A Lua seria sem dúvida aquela bola branca perto da Terra.

Atarefados com a natural rotina da vida, embrulhados nas questiúnculas políticas que inundam os jornais e as televisões, nos tomam por tolos e nos falam de assuntos desenxabidos e maçadores, é bom, de vez em quando, quando o céu limpo nos permite, olhar para cima e, mesmo que não vejamos estrelas, depararmos a olho nu com planetas que nunca imaginaríamos encontrar juntos.

Há muitas formas de fugirmos, não digo da rotina, que acaba por ser indispensável, mas da uniformização da maneira de pensar o que se passa no país. À vezes sabe bem espairecer. Como por estes dias tenho olhado para cima, decidi aproveitar criando um pequeno intervalo na maçada da política.

A fantasia socialista

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

A fantasia socialista

A história que o PS nos vai contar até à eleições é a seguinte: nos países, como os EUA, em que o governo federal tem estimulado a procura, a crise passou e a economia está em recuperação. Já na Europa onde, sob as rédeas da Alemanha, se tentam refrear os gastos públicos, sofre-se com os efeitos que se conhecem. O objectivo é criar a ideia de que é a teimosia ideológica de alguns governos que prolonga a crise e que esta se resolve com compromisso político. Ora, a história cai bem no ouvido, mas é falsa.

Tomemos como exemplos o caso da Segurança Social e as dificuldades da TAP. Ambos, de acordo com o PS, se ultrapassam bastando para tal um compromisso político nesse sentido. À pergunta de onde vem o dinheiro, a resposta é evasiva: diz-se que este existe, que está é nas mãos erradas, o que se resolve com diálogo e decisão política. Acrescenta-se ainda, e de forma a dar força ao argumento, que os salários pagos pela TAP, tal como o pagamento integral das pensões, produzirão mais procura, logo mais emprego, crescimento económico e, fechando o círculo, mais dinheiro para pagar salários e pensões. Uma vez mais: bonito, mas falso.

Qualquer crédito dado a uma empresa equivale a dívida. É dinheiro que alguém vai querer de volta. A não ser que o PS tencione fazer transferências a fundo perdido. Só que se o fizer será à custa dos contribuintes; ou seja, transferindo a dívida dessas instituições e empresas para os cidadãos que pagam impostos; para a classe média que qualquer socialista que se preze dirá ser a base de uma economia saudável.

A falsidade do argumento torna-se mais grave quando se sabe que a economia dos EUA está à beira da recessão, ao contrário do que acontece com países sujeitos às políticas de austeridade, como Portugal, onde a economia cresce acima da média da zona euro. Outro aviso chega-nos da China que muitos julgam ser o novo paraíso liberal. Pequim está a braços com uma dívida colossal que só não rebenta e destrói o sistema bancário porque o poder central, que num regime liberal teria pouco poder, não deixa.

É transferindo dinheiro para os maiores bancos nacionais, continuando a encher a bolha que deturpa o mercado e que quando rebentar não deixará pedra sobre pedra, que Pequim impede que estes colapsem. No fundo, com um compromisso político semelhante ao que o PS parece propor para Portugal. Uma coisa é certa: qualquer governo, politicamente comprometido em fazê-lo, pode manter as empresas que quiser. Por alguma razão, nos países onde tal se faz os cidadãos são mais pobres. O discurso socialista tem tantos buracos que, se não tivermos cuidado, afundará o país com ele.

No Fio da Navalha

O meu artigo no Jornal ‘i’ de hoje.

Não há milagres

Em Abril último escrevi neste espaço que a subida do dólar se devia à bolha especulativa que a administração Obama e a Reserva Federal têm criado para fazer crescer a economia a todo o custo. Ao contrário do que a narrativa dominante nos diz, e de que António Costa e Sampaio da Nóvoa se aproveitam para tirar créditos políticos, os grandes beneficiados da política monetária americana não é a economia, não são as pessoas, mas Wall Street e a especulação financeira.

Para alguns, isto pode ser espantoso, mas para outros é natural: há anos que o socialismo e as políticas estatais de impulso económico dependem da dívida e da especulação. Não há novidade nenhuma neste ponto. O que é novidade é que a realidade está a ser cada vez mais difícil de mascarar e de esconder.

Na verdade, os dados que chegam dos EUA não são animadores e a luz da recuperação ainda não surgiu ao fundo do túnel: a produção industrial está em queda, a economia está à beira da recessão e a inflação começou a espreitar. Um barril de pólvora prontinho a rebentar quando Barack Obama deixar a Casa Branca.

A crise económica que vivemos não se ultrapassa dando dinheiro às pessoas para consumirem. Até porque não há forma de saber antecipadamente como é que esse dinheiro vai ser utilizado. Não há soluções matemáticas nem caminhos fáceis. Apenas com muito esforço, poupança e investimento privado direccionado à melhoria dos produtos e redução dos custos de produção se chega lá.

Desemprego e Grécia

O objectivo de um governo não é criar emprego, mas ter contas públicas que não assustem quem investe e trabalha. – Os meus comentários hoje no Económico TV.

O perigo chinês

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O último número da revista Foreign Affairs foca-se na China. Um dos artigos, cuja leitura aconselho fortemente, debruça-se sobre o perigo da dívida chinesa.

A China é uma ameaça não porque pode vir a ser poderosa, mas porque vai colapsar. Os efeitos do seu colapso serão trágicos para todos: chineses, povos asiáticos, europeus, norte-americanos e demais povos da Terra. O poderio militar, as ilhas de areia que estão a construir no Mar da China, serão de temer porque o colapso económico pode ser o o motivo para o descontrolo chinês e o início de hostilidades, habituais quando é preciso contentar a população.

O que se vive na China não é liberalismo; é socialismo. Aquilo que se assiste não são políticas liberais, mas socialistas: é crescimento à custa da procura, do consumo, que é conseguido com mais e mais endividamento.

A China não tem vindo a enriquecer, mas a endividar-se. As histórias do mundo actual não são muito diferentes umas das outras.

No Fio da Navalha

O meu artigo no jornal i de hoje.

A gaffe da verdade

Maria Luís Albuquerque defendeu a necessidade de reduzir as pensões para garantir a sustentabilidade da Segurança Social. Foi criticada pela maioria da classe política e da imprensa, que não teve dificuldades em concluir que se tratava de uma “gaffe” da ministra das Finanças, ainda por cima em período pré-eleitoral.

Para colmatar os danos, o ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, Pedro Mota Soares, chegou mesmo a avançar que um corte de pensões só poderia ser feito com um amplo consenso político. Em linguagem política, qualquer menção a consenso é já de si uma forma de dizer que a decisão não é para agora ou será mesmo nunca.

Ora, eu prefiro alguém que cometa a “gaffe” de falar verdade, ou seja, de dizer que a Segurança Social, tal como está, não é sustentável e que tem de se encontrar uma solução para o problema, ao discurso profissionalmente limpo de quem sabe o que não deve deixar transparecer, principalmente antes das eleições.

A descredibilização dos partidos de que tanto se fala não resulta das “gaffes” que um ou outro político profere. Só não se engana quem não faz. A descredibilização advém do discurso redondo que ignora factos, esconde soluções à espera de milagres que não acontecem e, mais tarde, depois das eleições, obriga a que se tomem medidas impopulares. Enquanto se entender como “gaffe” o falar a verdade, não há maneira de o eleitorado deixar de se sentir defraudado depois de votar.

Os oportunistas

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Os oportunistas

Antes que continue a leitura deste artigo gostaria de informar o leitor das minhas reservas quanto ao actual rumo da União Europeia (UE). A minha análise assenta numa crítica à transformação do projecto europeu num monstro burocrático e planificador em vez de um mercado único, sem fronteiras e liberalizado, que permita aos cidadãos dos Estados-Membros trocarem livremente os seus produtos e serviços. A UE, procurando regulamentar a todo o custo os negócios e sendo dependente de uma estrutura política centralizada, tornou-se inimiga do comércio e colocou entraves ao crescimento económico, dando azo a um elevado nível de desemprego que atinge o continente.

Esta é, em linhas gerais, a crítica que também os britânicos dirigem a Bruxelas e que forçou David Cameron a encetar negociações para reformar União e a referendar a continuação do Reino Unido naquela estrutura. No entanto, nos últimos anos foi surgindo outro tipo de crítica às instituições europeias acusando-as de falta de solidariedade. Durante anos, Portugal aceitou sem pestanejar as directivas vindas de Bruxelas. Se analisarmos as vantagens de outrora e os defeitos de hoje, mais parece que a Europa solidária se reduzia ao envio de dinheiro que ajudava a fechar os olhos. É preciso não esquecer que os fundos vinham de Bruxelas para que a classe política os distribuísse, concedendo a esta um espaço de manobra ímpar. Sabíamos à época, como sabemos ainda melhor agora, que não da melhor forma: a par dos interesses que se tinham de preencher, o próprio conceito de estímulo económico subjacente aos subsídios europeus não ajudou.

Quando de Bruxelas passaram a vir medidas impopulares, acompanhadas de uma ‘troika’ que tutelava a aplicação das mesmas e o pagamento das contas, parte do país passou a olhar a Europa de lado. É muito interessante este ponto porque revela o que se tem entendido por solidariedade europeia. Houve um momento, durante o processo de integração, em que o fito da comunidade deixou de ser o da criação de um espaço comunitário, de entendimento pacífico entre os povos, para ser um meio de mero envio e recepção de fundos em troca de soberania nacional.

Pela parte que me toca gostaria que Portugal e a Europa fossem mais que a simplificação oportunista com que alguns pretendem governar. O centralismo político converteu a outrora comunidade num lugar asfixiante porque a boa vontade individual dos homens, que compram e vendem, foi trocada por um conceito de solidariedade que, dizendo-se colectiva, não existe. Olhar para o projecto europeu de uma forma séria e ambiciosa não é fácil. Na verdade, haverá algo mais ambicioso que a construção de um espaço de trocas comerciais, de liberdade, e de reduzida intromissão política?

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no jornal ‘i’.

A doença europeia

Depois da sua vitória eleitoral, David Cameron pretende cumprir o prometido e permitir que os britânicos referendem a continuidade do Reino Unido na União Europeia. Os alarmes soaram em Bruxelas, já a braços com a possível saída da Grécia da zona euro, ao mesmo tempo que se deseja que o referendo britânico, com uma vitória do “não”, ponha um ponto final na indecisão e insatisfação britânica.

Numa entrevista esta semana ao “Guardian”, Graeme MacDonald, chefe-executivo da JCB, uma multinacional britânica que é a terceira maior fabricante mundial de equipamentos para construção, defendeu a saída do Reino Unido da União Europeia, se Cameron falhar a negociação para reduzir a burocracia europeia que prejudica as empresas britânicas.

Admitindo ser, por vezes, mais fácil vender para a América do Norte do que dentro da própria Europa, MacDonald bate num ponto essencial: a União Europeia foi criada para derrubar barreiras, não para as erguer. E o que se passa é que o projecto europeu, tendo sido mais político que económico, tem ido ao desencontro do seu objectivo inicial, que é a criação de um mercado comum, logo aberto.

Claro que os riscos são imensos. Mas estes não advêm apenas de uma possível saída do Reino Unido, mas da dificuldade que é reformar a União. A teia burocrática é de tal forma gigantesca e contorcida que uma diferença natural entre os povos facilmente se torna uma disparidade crónica entre os Estados.

No Fio da Navalha

O meu artigo de ontem no jornal ‘i’.

Perdoar não é esquecer

No passado domingo, Raúl Castro foi recebido pelo Papa Francisco. O encontro é de saudar, pois o Papa preside a uma igreja que tem como uma das suas principais mensagens a não exclusão do próximo. Se um Papa deve ter missão política, deve ser precisamente essa: a de estabelecer pontes, entendimentos.

Mas há algo no encontro com o Papa que me fez impressão e que foi a imagem de homem bom e complacente que Raúl Castro quis passar. E, como todos os ditadores e homens brutais, fê-lo com um certo atrevimento.

Primeiro quando, a seguir ao encontro, Castro disse que, se o Papa continuasse assim, ele voltaria à igreja e a rezar. Di–lo como se fosse o Papa que tivesse de mudar; di-lo como se fosse o Papa a ter de o aceitar. Di-lo não percebendo, ou fazendo de conta que não percebe, que o Papa, mais que pretender que ele volte a rezar, quer é que ele deixe o povo cubano ser livre.

O outro atrevimento raia a hipocrisia dos homens maus. Tratou-se da entrega ao Papa de um quadro de um artista cubano com uma grande cruz, feita com vários barcos, e uma criança a rezar diante dela. De acordo com o artista, que também esteve presente no encontro, a intenção foi aludir à tragédia dos milhares que sofrem no Mediterrâneo para chegar à Europa. Uma oferta destas, vinda do líder de um regime que forçou milhares a atravessar um oceano pejado de tubarões para chegar à América, é, no mínimo, ofensiva. Podemos perdoar, mas o sofrimento das vítimas não nos deixa esquecer.

Os adivinhos

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Os adivinhos

Em 1972, René Goscinny e Albert Uderzo publicaram o álbum de Astérix, ‘O Adivinho’. A história começa quando, durante uma tempestade que se abate sobre a aldeia dos gauleses, chega um homem, um adivinho, que ganha a confiança dos aldeões com os seus agradáveis presságios. Quando lemos a história sorrimos perante a inocência da maioria e compreendemos as suspeitas de Astérix.

Ora, o que sucede é que nem sempre estamos a ler os acontecimentos de cima. Pelo contrário, estamos tão embrenhados nos problemas, tão necessitados de soluções, que nos tornamos aldeões nas mãos de adivinhos. Vem isto a propósito do programa económico do PS e do pedido do PSD para que as medidas socialistas sejam analisadas por entidades independentes dos partidos. Embora seja interessante imaginar uma dúzia de técnicos debruçados sobre projecções de números e de estatísticas sobre as quais delinearão, ao milímetro, medidas político-económicas, fico assustado quando vejo programas de governo feitos ao detalhe. Na verdade, senti temor perante o plano Centeno que prevê decisões, para quatro anos, a partir de meras adivinhações.

Este tem sido um dos vícios da democracia: exige-se tanta transparência que se espera que os políticos apresentem programas tão detalhados que se tornam impossíveis de cumprir. Uma impossibilidade que leva a que os governos sejam depois acusados de ilegitimidade e de governarem contra o mandato do povo que votou em algo irrealizável.

O problema deriva da maioria parecer ter esquecido que não vive numa democracia directa, mas numa democracia representativa. A diferença não é de pormenor, mas essencial, pois que, nesta, os eleitores elegem quem os represente durante 4 anos, ou seja, em seu nome, legisle e governe. Só depois, e então sim, se sujeita ao escrutínio do povo. Claro que há limites. É para isso que servem o Parlamento, o Tribunal Constitucional, demais instituições e até os jornalistas.

Não é sério apresentar programas de governação que especifiquem pormenorizadamente decisões para quatro anos, porque estas dependem de circunstâncias totalmente fora do controle dos governos. Ora, esta exigência que os próprios políticos fomentam por forma a apontar falhas no adversário, está a minar o debate democrático. Obriga a que se discutam medidas que não se tomarão em vez de se debaterem linhas mestras, gerais, mas essenciais, que determinarão o rumo de um governo e sobre o qual é possível conversar e cuja concretização, de um modo global, se espera conseguir.

A democracia é isto: a apresentação de ideias muitas delas totalmente opostas mas que, baseando-se em dados reais, se adaptam às circunstâncias que mudam e permitem um diálogo, uma base de entendimento necessário à manutenção dos governos durante os seus mandatos. É aqui que deixamos de discutir vírgulas e percentagens, para começarmos a falar de formas do Estado permitir, ou não impossibilitar, a melhoria de vida das pessoas.

No Fio da Navalha

A vitória incompleta

O meu artigo no ‘i’ de hoje.

Faz hoje 70 anos que a Alemanha nazi assinou a sua rendição, que se tornou efectiva no dia seguinte. Oito de Maio é considerado, no Ocidente, o Dia da Vitória, pois, para os soviéticos, essa data foi sendo celebrada, devido à diferença horária, a 9 de Maio.

No entanto, e apesar do grande alívio que representou a capitulação de Berlim, a Europa não se libertou, nessa altura, do jugo das ideologias totalitárias. Se, a oeste, os países europeus recuperaram ou estabeleceram as suas liberdades, não só a nível político e económico, mas também individual, de pensamento e do rumo a dar à sua vida, no leste, a verdade seria outra.

A divisão que se seguiria, o novo conflito a ser travado não significou apenas a condenação de milhões de pessoas a uma vida sem a liberdade mais básica, que é a de poder escolher onde viver, o que fazer, o que dizer e o que pensar. O direito de poder viver com o fruto do seu trabalho. O comunismo, como uma das ideologias mais sanguinárias da história, sobreviveu à II Guerra Mundial porque esta não foi travada para o derrotar.

O comunismo continuou, nos países do leste europeu e noutras partes do mundo, a despedaçar a vida de milhões de pessoas. Até entre aqueles que a este escaparam, muitos não evitaram os seus ditames, vendo-se intelectualmente envolvidos num raciocínio social e económico contra o qual, ainda hoje, longe que vão os tempos das ditaduras, tolhe o entendimento de tantos que, em nome dos mais desfavorecidos, defendem políticas que os prejudicam.

Eleições, TAP & Grécia

Como é habitual à terça-feira, estive com o Marco Capitão Ferreira a debater os temas em cima da mesa, desta vez a data das eleições, a TAP e a Grécia.

No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no ‘i’, sobre gerações, avós e netos.Gerações

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Estou a ler “Les souvenirs” de David Foenkinos, o autor de “La délicatesse”. Sendo Foenkinos da minha geração, há algo que me toca neste seu livro que nos descreve as recordações que o narrador tem dos seus avós.

Quando fica viúva, os filhos convencem a mãe a ir para um lar. É aqui que o neto, moído com sentimentos de culpa, a visita sempre que pode. E o que mais o fere emocionalmente é a avó, querendo protegê-lo, garantir-lhe que tudo vai bem quando ele sabe que não é verdade.

Para quem não o conhece, Foenkinos consegue, com poucas palavras, descrever uma imagem como se fosse uma fotografia. Fá-lo quando nos conta como a avó, na II Guerra Mundial, deixou a escola que os pais não podiam mais pagar e os colegas ficaram junto ao portão, para se despedirem dela. Uma imagem que a velha senhora, então menina, guardou consigo como um retrato dos amigos, mas onde já não estava.

É numa das visitas ao lar, enquanto passeiam pelos seus corredores com vários quadros de gosto duvidoso pendurados nas paredes, que reparam num com uma vaca. Sendo o mais feio de todos, fá-los rir. E quando nada têm para dizer, quando ele sente que a ela lhe custa fazer a representação a que se habituou, é esse o quadro que vão ver. Olhando-o, falam e riem como se não estivessem naquele sítio, mas em casa. Tendo sido ela, conta-nos ele, que lhe transmitiu o sentido estético, foi perante a falta deste que encontraram a forma de viver o que não queriam.