No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no jornal ‘i’.

A diplomacia económica

Com a polémica instalada à volta do ex-presidente brasileiro Lula da Silva, e da eventual utilização da sua influência a favor de certos negócios, voltou-se falar do conceito de diplomacia económica. Este tem sido, nos últimos anos, apresentado como um novo modelo de actuação dos Estados a favor das empresas nacionais. No entanto, nas últimas semanas, embaixadores, políticos, jornalistas e até empresários começaram a questionar se será bem assim.

A ideia de favorecer empresas nacionais parece simpática, mas apresenta alguns problemas. O primeiro, e o mais óbvio, é que o auxílio a certas empresas para fazerem negócios no estrangeiro, para internacionalizarem a sua carteira de clientes, dificulta ou impede outras, sem o mesmo acesso à diplomacia económica do Estado, de entrar nesses mesmos mercados. Naturalmente, e porque nunca vemos os negócios que não foram feitos, mas os fechados, somos forçados a encarar o conceito de diplomacia económica como positivo e sem custos. Mas estes existem, e um olhar mais atento e isento à realidade leva-nos a conclusões diferentes.

A outra questão, de certa forma ligada à primeira e que parece só agora ter agora sido vislumbrada, traduz-se na fronteira muito ténue entre apresentar certas empresas a um outro país e favorecê-las. Quando todos os dias se ouvem críticas à promiscuidade existente entre a política e os negócios, seria interessante encarar-se essa confusão como inerente a mais um conceito de ingerência dos Estados num mundo onde não deviam entrar.

No Fio da Navalha

O meu artigo no jornal ‘i’ de hoje.

A globalização é tramada

Quando Alexis Tsipras assinou o acordo com os credores, e se percebeu que o Syriza tinha traído o povo grego prometendo-lhe o que não era possível cumprir, foi manifesto o sentimento de revolta. Por cá, como é frequente entre a extrema-esquerda, a rebelião fez-se contra os credores, com a Alemanha à cabeça. Reconhecer o erro seria repensar a vida e isso não é possível entre crentes crédulos. Punir terceiros é mais fácil.

Mas até aqui o tiro falhou o alvo. Entre as várias propostas que ouvi, até por gente dita ilustre, constava o boicote aos produtos alemães: deixemos de comprar BMW, Mercedes e outros bens mais modestos e os alemães vergam-se perante nós. Sucede que há um problema. Aliás, dois.

Primeiro, é difícil obrigar 10 milhões de pessoas a não comprar produtos alemães. Mas, e em segundo, o pior é que estes não existem. Na era em que vivemos há algo que nos protege a todos dos déspotas de sofá: chama-se globalização. Devido a ela, os ditos produtos alemães são fabricados no mundo inteiro; até em Portugal, como se passa na Autoeuropa.

Comprar marcas alemãs é comprar produtos feitos em Portugal e noutros sítios. Donde, não os comprar será punir, não só os alemães, mas os portugueses e todos os outros que fabricam esses produtos. É destruir, nesses países, postos de trabalho, salários, modos de vida que existem porque os alemães, esses exploradores que poupam e investem, criaram empregos. A esquerda odeia impossíveis. Acontece que os encontramos quando não existe aquilo de que se fala.

A esquerda nacionalista

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

A esquerda nacionalista

Ganhar eleições com a promessa de distribuição de dinheiro é fácil. Ora, se há regra que o euro impõe, para que seja forte e cumpra a sua função estabilizadora, é que os orçamentos de Estado sejam equilibrados. Nos últimos quatro anos o país, fruto da intervenção da troika e da crise grega, percebeu esta premissa. Ora, tendo o Estado português sido governado como um colector de fundos a serem distribuídos de acordo com critérios políticos e para pagar uma parte da população dependente do poder, um orçamento sem défice obriga ao rigor que advém de libertar o Estado dos grupos de interesses que deste se alimentam.

Há já vários anos que o país sente na pele o custo dos défices públicos. No entanto, e de acordo com o que li nos últimos dias, quem se atrever a desafiar esta delapidação do património público em nome de interesses particulares é apelidado de nazi. Já não fascista, talvez porque a Alemanha esteja agora no centro da resolução da crise dos défices e nazi seja um insulto mais contundente.

No meio da injúria disparatada é de notar uma notável ironia. Para tal convido o leitor a que feche os olhos quando ouvir um comentador de esquerda falar. Feche os olhos e saboreie, ou assuste-se, conforme o caso: parece Salazar, não parece? O orgulhosamente sós está lá, quando a Grécia luta sozinha contra a Europa e quando nos dizem que urge que Portugal faça o mesmo; o provincianismo de Santa Comba está lá, na crítica desajuizada à Alemanha, na história cuja ignorância se utiliza para validar uma ideologia política que faliu Estados mas que aponta a culpa a quem empresta dinheiro para pagar as contas. Está ali quando ouvimos o ódio aos povos que geriram com cuidado o dinheiro que entregaram aos seus Estados.

Também gostava que Portugal não precisasse de fazer parte do euro. Que tivesse tido a capacidade de seguir o aviso que Margaret Thatcher fez ao Reino Unido: aderir ao euro é entregar a soberania à Europa que será depois exercida pelos mais fortes. Mas para que não fizéssemos parte do euro teríamos de ter um escudo forte, que nos protegesse da inflação, que só foi efectivamente controlada depois da criação do Instituto Monetário Europeu.

O problema é que esse escudo forte nunca existiu; e pelo que vemos da maioria da classe política, dificilmente existirá. Uma moeda forte, uma moeda que nos dê soberania, obriga a contenção nos gastos; algo muito difícil quando grande parte da população depende economicamente do Estado, impedindo a sua reforma. Requer que se proteja o interesse público dos diversos grupos que subsistem porque alimentados pelo Estado. Acima de tudo que os políticos governem o Estado e não interesses ou pessoas. Tal não sendo possível, que venha o euro, a contenção orçamental e a liberdade que daí advém.

Haja vergonha

Equiparar os horrores vividos nos países invadidos pelos nazis, vividos pelos homens e mulheres perseguidos e mortos pelo nazismo, à crise que os cidadãos gregos vivem hoje, mas que criaram e consentiram nos anos anteriores, não é um ultraje. É um ataque vil e cobarde à memória.

Mas pior que isso é sabermos que essa crítica não se funda em razões humanitárias. Os que comparam Schäuble a Hitler, fazem-no, não em nome da solidariedade, mas de uma ideologia que necessita do dinheiro que o Estado tira aos cidadãos; da necessidade de continuarem a viver num país em que o Estado distribui o dinheiro do povo.

A vergonha podia ter limites. Mas o desespero pelo fim do acesso aos dinheiros públicos, não ajuda.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no Jornal ‘i’.

O risco da Grécia no euro

É com frequência que se mencionam os riscos da saída da Grécia da zona euro. Já quanto ao que pode suceder caso a Europa aceite as exigências de Atenas e a Grécia se mantenha na moeda única, é raro ouvir-se o quer que seja.

Ora, os riscos de a Grécia impor as suas reivindicações e se manter no euro são enormes: em primeiro lugar, e numa perspectiva meramente económica, a cedência da Europa às pretensões gregas, com perdão da dívida, seja total ou até mesmo parcial, e financiamento da economia sem controlo das contas públicas, implica uma forte desvalorização do euro. Melhor: resulta no fim do euro tal como o conhecemos.

A serem seguidas as reivindicações gregas, a moeda única deixará de ser um instrumento de estabilidade cambial, financeira e de preços para se transformar num meio, nas mãos dos políticos, de financiarem políticas públicas despesistas e que vão ao encontro dos interesses económicos que sobrevivem porque associados ao Estado.

Mas haverá também o risco político, que é o possível desmembramento da União Europeia. A cedência à Grécia levará a que outros países, entre os quais Portugal, Espanha, Itália e França, exijam regras orçamentalmente menos difíceis, mesmo que à custa da moeda única; mas também que os países do Báltico, que se sacrificaram para aderir ao euro, e até a Alemanha e outros, considerem que já não vale a pena fazer parte de um projecto, de uma Europa, com uma moeda feita à imagem da Grécia.

O colapso chinês chegou?

Se há colunista que devemos ler quando se fala da China, ele é Gordon G. Chang, cujo livro já tive oportunidade de referir há mais de 5 anos.

Como muito oportunamente escreveu Miguel Monjardino na facebook, a crise chinesa vai marcar o debate ideológico, não só porque as razões da crise serão discutidas à exaustão, mas também porque o modelo de desenvolvimento chinês, centralizador e com o Estado como motor económico, baseado na dívida, emissão de moeda e criação de liquidez para satisfazer o que for preciso, está neste preciso momento, a chocar contra a parede.

A causa da dívida

A esquerda, da extremista à do PS, vocifera que devemos ser solidários com a Grécia, alegando a favor do argumento, a protecção dos mais pobres. No entano, o apoio aos mais desfavorecidos nunca esteve em causa. Em causa está apenas o subsídio a um modo de desenvolvimento que, endividando o Estado, dá milhões aos interesses instalados. Um modo de vida que não é, não pode ser, compatível com um Estado de Direito, a democracia e o respeito pelas liberdades. O problema é, aliás, parecido com o que sucedeu com o PS e com o beneplácito da restante esquerda, em Portugal: Em nome da solidariedade, em nome dos mais pobres, entregaram o Estado aos grandes grupos económicos que durante demasiado tempo foram donos disto tudo.

Soberania orçamental

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Soberania orçamental

O drama vivido na Grécia é o resultado final das contas públicas deficitárias; um sinal, aviso, para o que pode acontecer a Portugal, caso os orçamentos de Estado não se equilibrem e não se tornem excedentários. Na verdade, não há melhor segurança, melhor forma de garantir a soberania, que ter as contas em dia. Que no fim de cada ano sobeje parte do dinheiro que o Estado recebeu como receita.

Este ponto é da máxima importância porque, apesar do que sucedeu nos últimos quatro anos, os défices persistem e nenhum partido político assume a necessidade imperativa dos excedentes orçamentais. O primeiro-ministro referiu-o numa entrevista há mais de um ano mas, fora isso, pouco mais se ouviu.

A maior obrigação que uma moeda como o euro implica é a não existência de défices públicos. Uma moeda forte por si só pouco vale se acompanhada de uma dívida elevada. Algo que levou demasiado tempo a ser compreendido. Um presidente, Jorge Sampaio, chegou mesmo a afirmar haver vida além do orçamento. Vêmo-la hoje em Atenas e chama-se miséria. Por muito que se queira crer, o falhanço do equilíbrio das contas do Estado não se deve a uma excessiva falta de coragem em reduzir a sua intervenção e despesa, mas a uma ideologia que impediu, impede ainda, essa mesma mudança.

Este foi um problema que a dita ideologia, o socialismo presente em todos os partidos, não quis resolver. O fim dos défices das contas públicas significa cortes na despesa e uma verdadeira revisão mental do que deve ser o papel do Estado. É aqui que a situação se torna delicada. É que, com a introdução do euro, a defesa da integração europeia já não significa apenas fundos comunitários. A adesão de Portugal ao euro pressupôs que o país se tinha desenvolvido e que não estava na Europa apenas para receber. Uma moeda forte é exigente e a melhoria de vida que esta permite tem custos.

Tão assim é que, com a moeda única, qualquer medida tomada por um governo, promessa feita por partido político, que implique aumento da despesa, obrigará ao corte no correspondente valor de outro serviço prestado pelo Estado. Um socialista, de qualquer partido, dirá não ser assim, pois, caso a economia cresça, sobe a receita fiscal e há margem para aumento da despesa.

Este raciocínio peca em três pontos: em primeiro lugar, é difícil que haja crescimento com um Estado doente. Em segundo, uma subida da receita fiscal em virtude do crescimento económico não acautela o país, nem as pessoas, para o caso de uma recessão ou de um crescimento menor que o esperado. E por fim, esperar que a despesa seja compensada pela receita é pôr nos cidadãos, que nos dizem ser soberanos, o ónus do pagamento dos encargos financeiros que uma mera ideologia comporta. Ora, a liberdade, a par da soberania, por muito que nos queiram fazer crer o contrário, começa por ser orçamental.

Os gregos ainda confiam no Syriza?

Esta notícia chamou-me a atenção também quando diz que, após a anunciado o referendo os gregos “(…) foram para a rua, não para protestar, mas para levantar dinheiro nas caixas multibanco.”

Ora, haverá maior protesto que o levantamento em massa do dinheiro depositado nos bancos? Haverá maior sinal de desconfiança política que sair de casa e ir a uma caixa multibanco levantar o pouco que ainda se tem?

 

 

Como se promove o crescimento demográfico

De acordo com esta notícia da BBC News, a população no Reino Unido aumentou perto meio milhão entre meados de 2013 e meados de 2014. Um ano.

Sobre este assunto tive oportunidade de escrever para o Jornal ‘i’ em Setembro de 2013, antes destes resultados se terem produzidos, pois o crescimento populacional no Reino Unido não é de hoje. Tal como não se deve unicamente à imigração, com os nascimentos a superarem em muito os óbitos.

O crescimento democgráfico promove-se não se querendo promovê-lo. Ele sucede quando o país é saudável e a economia não está atrofiada por teorias que torcem as liberdades.

Por cá, onde nos deparamos com uma experiência contrária, dever-se-ia pensar um bocadinho que fosse nisto.

(post corrigido).

 

 

 

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no Jornal ‘i’.

Vigilância

Cinco meses depois de ter formado governo, o Syriza cedeu à realidade. Na verdade, o plano que Alexis Tsipras apresentou no início da semana equivale a cerca de 75% do exigido pelos países e instituições que têm ajudado a Grécia.

Desta maratona negocial somos forçados a tirar três conclusões: a primeira é relativa à solidariedade europeia. Se esta existe, foi vista durante este período. Não só a Grécia tem recebido milhares de milhões de euros para se manter a funcionar, como a paciência dos líderes europeus, com Schäuble e Merkel à cabeça, resistiu às variadas tentativas do Syriza de fugir à questão essencial.

Esta é a segunda conclusão a tirar: a Grécia não está preparada para uma moeda exigente como o euro, mas o custo da sua saída é demasiado elevado. Assim, a solução é manter os gregos na moeda única à custa de reformas que não ponham em causa essa mesma moeda e a unidade europeia, ameaçada que está por partidos radicais, de extrema-direita ou de extrema-esquerda, como o Syriza.

A terceira conclusão é que o problema não termina aqui. Além de apresentar medidas, o Syriza terá de as aplicar, o que não será fácil. Tsipras e Varoufakis prometeram precisamente o contrário do que vão apresentar em Atenas. Veremos como reagirão os eleitores. É que a partir de agora, e depois de cinco meses a destruir o que fora conseguido com muito esforço, a troika, os credores, quem empresta dinheiro, o que lhes quiserem chamar, vai exigir uma vigilância das reformas ainda mais apertada.

Socialismo e rigor orçamental

Será o socialismo compatível com o rigor orçamental a que o euro obriga? Os meus comentários ontem na Edição das 12 do Económico TV.

O que quer a esquerda?

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

O que quer a esquerda?

Ouvir alguém de esquerda a discutir a crise do euro e as políticas a serem implementadas é kafkiano. Vejamos: à falta de verbas que sustentem a Segurança Social, a esquerda responde com mais emprego. Emprego que se cria com investimento. Como é que se investe? Com dinheiro do Estado. Como é que o Estado recebe dinheiro?Aqui a resposta já é mais vaga porque não interessa reconhecer que com mais impostos e mais dívida, o que equivale a ainda mais impostos no futuro.

Quando falta dinheiro nos cofres do Estado, a esquerda defende a necessidade do investimento e a criação de emprego. No entanto, quando se passa ao caso concreto a conversa já é outra. Veja-se a privatização da TAP: não só se trata de investimento estrangeiro, com a vantagem natural de entrar dinheiro no país, como qualquer alternativa à seguida seria pior para o Estado e para os contribuintes. Na verdade, a recapitalização da empresa, além de difícil devido às limitações impostas por Bruxelas, obrigaria a um aumento dos impostos ou a um corte de outras despesas, como seja na saúde e outras prestações sociais.

Mas há mais. Temos também o turismo. Este sector bateu todos os recordes de receitas e de números de visitantes. No entanto, o que por aí se ouve é que há turistas a mais, que estes sujam as ruas, fazem barulho e determinam o tipo de comércio. Como se este fosse algo mais que o local de trabalho que cada comerciante cria para si. A situação é de tal forma caricata que até o Município de Lisboa, além de criar novas taxas para incentivar o turismo que está em alta sem a sua ajuda, pune comerciantes na Baixa cujas lojas têm sucesso com os turistas.

É aqui que sou forçado a concluir que a esquerda não pode ser assim tão kafkiana. Tem de haver algo mais. A impunidade ideológica de que tem beneficiado não lhe permite tamanho desaforo. E esse algo mais que a esquerda tem é uma visão de sociedade e de Portugal que raramente é discutida: um país onde as pessoas trabalham para o Estado; não apenas como funcionários públicos, mas no sentido de que trabalham com vista a angariar receitas para o Estado. Os cidadãos como formigas que amealham, não para si, mas para um poder público que zela por todos.

É isto que explica as taxas, os impostos, a desvalorização do equilíbrio das contas públicas, o desprezo pelo sucesso, a irritação perante o lucro. Na verdade, como pode alguém ousar ter um ganho que vá além do interesse nacional? Interesse este que mais não será que determinado por quem zela por todos; por um poder dirigente que não se harmoniza com a liberdade de agir. Isto é o que a esquerda quer. A direita, explicando que deseja precisamente o contrário, facilmente vencerá as eleições.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no Jornal ‘i’ é um intervalo.

Olhar para cima

Quem por estes dias olhe o céu para noroeste à hora em que o Sol se põe verá muito facilmente Júpiter e Vénus. Este um ponto mais brilhante que aquele apenas devido à menor distância a que se encontra de nós. O fenómeno, que se estende noite dentro, sucede desde meados de Maio e em Lisboa, cujas luzes pouco mais deixam ver, ganha um contorno especial: dois pontos luminosos espetados no céu negro, mostram-nos que há mais do que existe neste planeta.

A visão é tão espantosa que, para quem olhe para os planetas quando o Sol se põe, consegue ter uma belíssima ideia de como a imagem seria se a visse longe de nós, ou seja, do espaço: uma enorme bola de fogo a dominar a cena, Vénus ligeiramente à esquerda, com a Terra muito azul um pouco mais atrás e, lá muito ao longe, Júpiter. A Lua seria sem dúvida aquela bola branca perto da Terra.

Atarefados com a natural rotina da vida, embrulhados nas questiúnculas políticas que inundam os jornais e as televisões, nos tomam por tolos e nos falam de assuntos desenxabidos e maçadores, é bom, de vez em quando, quando o céu limpo nos permite, olhar para cima e, mesmo que não vejamos estrelas, depararmos a olho nu com planetas que nunca imaginaríamos encontrar juntos.

Há muitas formas de fugirmos, não digo da rotina, que acaba por ser indispensável, mas da uniformização da maneira de pensar o que se passa no país. À vezes sabe bem espairecer. Como por estes dias tenho olhado para cima, decidi aproveitar criando um pequeno intervalo na maçada da política.

A fantasia socialista

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

A fantasia socialista

A história que o PS nos vai contar até à eleições é a seguinte: nos países, como os EUA, em que o governo federal tem estimulado a procura, a crise passou e a economia está em recuperação. Já na Europa onde, sob as rédeas da Alemanha, se tentam refrear os gastos públicos, sofre-se com os efeitos que se conhecem. O objectivo é criar a ideia de que é a teimosia ideológica de alguns governos que prolonga a crise e que esta se resolve com compromisso político. Ora, a história cai bem no ouvido, mas é falsa.

Tomemos como exemplos o caso da Segurança Social e as dificuldades da TAP. Ambos, de acordo com o PS, se ultrapassam bastando para tal um compromisso político nesse sentido. À pergunta de onde vem o dinheiro, a resposta é evasiva: diz-se que este existe, que está é nas mãos erradas, o que se resolve com diálogo e decisão política. Acrescenta-se ainda, e de forma a dar força ao argumento, que os salários pagos pela TAP, tal como o pagamento integral das pensões, produzirão mais procura, logo mais emprego, crescimento económico e, fechando o círculo, mais dinheiro para pagar salários e pensões. Uma vez mais: bonito, mas falso.

Qualquer crédito dado a uma empresa equivale a dívida. É dinheiro que alguém vai querer de volta. A não ser que o PS tencione fazer transferências a fundo perdido. Só que se o fizer será à custa dos contribuintes; ou seja, transferindo a dívida dessas instituições e empresas para os cidadãos que pagam impostos; para a classe média que qualquer socialista que se preze dirá ser a base de uma economia saudável.

A falsidade do argumento torna-se mais grave quando se sabe que a economia dos EUA está à beira da recessão, ao contrário do que acontece com países sujeitos às políticas de austeridade, como Portugal, onde a economia cresce acima da média da zona euro. Outro aviso chega-nos da China que muitos julgam ser o novo paraíso liberal. Pequim está a braços com uma dívida colossal que só não rebenta e destrói o sistema bancário porque o poder central, que num regime liberal teria pouco poder, não deixa.

É transferindo dinheiro para os maiores bancos nacionais, continuando a encher a bolha que deturpa o mercado e que quando rebentar não deixará pedra sobre pedra, que Pequim impede que estes colapsem. No fundo, com um compromisso político semelhante ao que o PS parece propor para Portugal. Uma coisa é certa: qualquer governo, politicamente comprometido em fazê-lo, pode manter as empresas que quiser. Por alguma razão, nos países onde tal se faz os cidadãos são mais pobres. O discurso socialista tem tantos buracos que, se não tivermos cuidado, afundará o país com ele.

No Fio da Navalha

O meu artigo no Jornal ‘i’ de hoje.

Não há milagres

Em Abril último escrevi neste espaço que a subida do dólar se devia à bolha especulativa que a administração Obama e a Reserva Federal têm criado para fazer crescer a economia a todo o custo. Ao contrário do que a narrativa dominante nos diz, e de que António Costa e Sampaio da Nóvoa se aproveitam para tirar créditos políticos, os grandes beneficiados da política monetária americana não é a economia, não são as pessoas, mas Wall Street e a especulação financeira.

Para alguns, isto pode ser espantoso, mas para outros é natural: há anos que o socialismo e as políticas estatais de impulso económico dependem da dívida e da especulação. Não há novidade nenhuma neste ponto. O que é novidade é que a realidade está a ser cada vez mais difícil de mascarar e de esconder.

Na verdade, os dados que chegam dos EUA não são animadores e a luz da recuperação ainda não surgiu ao fundo do túnel: a produção industrial está em queda, a economia está à beira da recessão e a inflação começou a espreitar. Um barril de pólvora prontinho a rebentar quando Barack Obama deixar a Casa Branca.

A crise económica que vivemos não se ultrapassa dando dinheiro às pessoas para consumirem. Até porque não há forma de saber antecipadamente como é que esse dinheiro vai ser utilizado. Não há soluções matemáticas nem caminhos fáceis. Apenas com muito esforço, poupança e investimento privado direccionado à melhoria dos produtos e redução dos custos de produção se chega lá.

Desemprego e Grécia

O objectivo de um governo não é criar emprego, mas ter contas públicas que não assustem quem investe e trabalha. – Os meus comentários hoje no Económico TV.

O perigo chinês

MJ_Cover2

O último número da revista Foreign Affairs foca-se na China. Um dos artigos, cuja leitura aconselho fortemente, debruça-se sobre o perigo da dívida chinesa.

A China é uma ameaça não porque pode vir a ser poderosa, mas porque vai colapsar. Os efeitos do seu colapso serão trágicos para todos: chineses, povos asiáticos, europeus, norte-americanos e demais povos da Terra. O poderio militar, as ilhas de areia que estão a construir no Mar da China, serão de temer porque o colapso económico pode ser o o motivo para o descontrolo chinês e o início de hostilidades, habituais quando é preciso contentar a população.

O que se vive na China não é liberalismo; é socialismo. Aquilo que se assiste não são políticas liberais, mas socialistas: é crescimento à custa da procura, do consumo, que é conseguido com mais e mais endividamento.

A China não tem vindo a enriquecer, mas a endividar-se. As histórias do mundo actual não são muito diferentes umas das outras.

No Fio da Navalha

O meu artigo no jornal i de hoje.

A gaffe da verdade

Maria Luís Albuquerque defendeu a necessidade de reduzir as pensões para garantir a sustentabilidade da Segurança Social. Foi criticada pela maioria da classe política e da imprensa, que não teve dificuldades em concluir que se tratava de uma “gaffe” da ministra das Finanças, ainda por cima em período pré-eleitoral.

Para colmatar os danos, o ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, Pedro Mota Soares, chegou mesmo a avançar que um corte de pensões só poderia ser feito com um amplo consenso político. Em linguagem política, qualquer menção a consenso é já de si uma forma de dizer que a decisão não é para agora ou será mesmo nunca.

Ora, eu prefiro alguém que cometa a “gaffe” de falar verdade, ou seja, de dizer que a Segurança Social, tal como está, não é sustentável e que tem de se encontrar uma solução para o problema, ao discurso profissionalmente limpo de quem sabe o que não deve deixar transparecer, principalmente antes das eleições.

A descredibilização dos partidos de que tanto se fala não resulta das “gaffes” que um ou outro político profere. Só não se engana quem não faz. A descredibilização advém do discurso redondo que ignora factos, esconde soluções à espera de milagres que não acontecem e, mais tarde, depois das eleições, obriga a que se tomem medidas impopulares. Enquanto se entender como “gaffe” o falar a verdade, não há maneira de o eleitorado deixar de se sentir defraudado depois de votar.