O Insurgente

Maio 21, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Política,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 10:23

Foto Lusa

O meu artigo para o i deste sábado.

A força da Irracionalidade

Perante o desastre, a irracionalidade dos homens levará à desagregação da Europa ou à sua unificação numa entidade ainda mais artificial e explosiva.

Se a eleição de François Hollande para o Eliseu teve algum efeito, foi a convicção de que a crise se resolve com um pouco de boa vontade. Que se não formos tão austeros, tão exigentes, se facilitarmos um bocadinho, o problema desaparece. Os adeptos desta teoria partem do pressuposto que a crise se acentuou com a quebra da despesa dos estados, como se ela não fosse fruto da dívida pública que estrangula as economias. Vêem a Europa como um projecto que prometia uma sociedade justa, sem diferenças para atenuar, sem necessidades por satisfazer, a cair que nem um baralho de cartas, devido aos efeitos nefastos da globalização que os actuais dirigentes europeus, por não serem do calibre de Mitterrand, Delors e de Monnet, não conseguem controlar. A vontade de que tudo volte ao que era, está na génese da irracionalidade com que se analisa as causas da crise e se procuram soluções. Ou talvez seja pior ainda. Talvez a irracionalidade não seja de agora, mas de quando se acreditou piamente numa instituição supranacional, não eleita, com o fito de criar, de cima para baixo, uma união política que fizesse frente aos EUA.

O projecto europeu, que se iniciou para evitar que a Alemanha controlasse o carvão e o aço e mais tarde se estendeu à liberalização dos mercados, acabou por dar lugar a uma entidade política acima dos estados. A par disso, a crença na capacidade dos estados criarem e distribuírem riqueza, explica a existência de autênticos monstros que consomem os esforços dos cidadãos. Actualmente, não há parte da nossa vida em que o Estado não esteja presente como receptor de receitas. A irracionalidade também deu nisto: os governos, porque se considera que criam riqueza, precisam das receitas dos privados para produzir riqueza. Daí o aumento contínuo da carga fiscal, mesmo quando a economia crescia; daí os défices públicos que já existiam muito antes da crise de hoje. A mesma irracionalidade que permitiu que o dinheiro fosse mais barato que o valor de mercado, que levou os políticos a condicionar os bancos a emprestar dinheiro aos cidadãos, não para produzirem mas para gastarem e os convenceu a comprarem casa em vez de a arrendar, é a mesma que se prepara para agir nos meses mais próximos e hipotecar o que resta das nossas vidas.

Nos últimos meses os europeus tentaram ser racionais e assustaram-se. Intimidaram-se com a dimensão do desastre, decidiram fechar novamente os olhos e estão prontos a saltar de cabeça. A França tem a sua economia estagnada e uma dívida fortíssima, pelo que um braço-de-ferro com a Alemanha de Merkel será complicado. Sucede que, para muita boa gente o dinheiro vale o que os governos quiserem que ele valha. Não é difícil que os estados se continuem a endividar se o dinheiro valer menos e, dessa forma, também a dívida. A acontecer, não será a primeira vez que a um estado deixa de pagar o que deve. A pouca força negocial de Hollande pode fazê-lo procurar o apoio na instabilidade social que faz os mercados ameaçar o euro. É a mesma estratégia utilizada pela extrema-esquerda grega: se não for como queremos será o caos. Algo que pode forçar Merkel a ceder em troca de um reforço das instituições europeias, de uma união fiscal e política que abafe de vez a soberania dos países. A loucura a gerar loucura. Sem que demos conta, ficamos pobres e vemos a liberalização do mercado europeu a acabar num super estado centralista, acima da nossa capacidade de compreensão.

A partir daqui tudo é possível: um federalismo asfixiante ou uma desagregação da Europa que leve ao proteccionismo dos Estados. São meras suposições, dir-me-ão. Mas a irracionalidade não me deixa alternativa. É ela que explica o porquê das guerras que liquidaram a velha Europa. A que convence alguns que seja com mais dívida que saímos da crise da dívida. A que nos permite antever o que pode acontecer. Porque quando todos os cuidados são poucos, a irracionalidade dos homens é a primeira coisa a temer.

Maio 17, 2012

A cultura ignorante

Filed under: Comentário,Cultura — André Abrantes Amaral @ 11:01

Há dias, alguns cineastas portugueses protestaram na escadaria do Parlamento e enviaram um ultimato ao governo, exigindo meios financeiros para continuarem a trabalhar. Ao que parece o cinema português precisa do dinheiro dos contribuintes para não morrer. Se para qualquer pessoa sensata um cinema sem público já está morto, para estes ‘cineastas’ não é assim. Para eles, a existência de pessoas interessadas em ver os seus filmes, em apreciar o seu esforço e compreender o seu trabalho, não é importante. Pelo contrário: de acordo com Miguel Gomes, realizador e um dos dinamizadores do protesto, o financiamento do Estado será essencial para que possam criar em total liberdade. Novamente, e com uma afirmação que contraria a experiência histórica vivida por qualquer pessoa que tenha dependido do Estado, seria de esperar o desejo de outra solução. Que nos dissessem que ficar dependente do poder político fosse tudo menos ser livre. Que aguardar que burocratas decidam, conforme a sua livre vontade, sujeita que está a pressões políticas pouco dadas a sensibilidades culturais, da capacidade criativa de alguém, não fosse uma liberdade total. Que se sentissem livres por terem conseguido cativar e cultivar um público e não serem do agrado do poder. Que fossem contrapoder. Que conquistassem um público que se esforçasse por os compreender ao mesmo tempo que fosse exigente para com eles. Que os obrigassem a inovar e a não estarem à porta de um gabinete ministerial a pedir esmola. Ao que parece os nossos cineastas têm outra opinião.

Surgiu a ideia, vai-se lá saber de onde, que um, como agora se denomina, agente cultural, está acima dos meros mortais. Não por ser alguém que cria, porque um cientista num laboratório e um investigador numa universidade também o fazem, mas por ser alguém que está acima das preocupações humanas mais comuns. Ser alguém que se entrega a algo abstracto, que não se pode medir e avaliar. Uma pessoa e uma obra fora do alcance do nosso discernimento e da nossa crítica. Alguém que trabalha não para um público, mas para si mesmo. Para a sua última satisfação. Quando um cientista descobre algo, um arquitecto desenha um projecto com formas revolucionárias, um empresário inventa uma nova forma de fazer negócio e criar emprego, ele sujeita-se à resposta do público e à adesão dos consumidores. E quando esta é positiva, o trabalho que foi feito, as horas, dias e anos para atingir aquele ponto sublime que é a descoberta ou a criação de algo, ganha sentido. Há um diálogo entre quem faz e quem recebe. Há reciprocidade. Um benefício mútuo que se perde quando os fundos para trabalhar são dados sem retorno, nem objectivo concreto.

De acordo com um texto de Fernando Vendrell, publicado no blogue da Associação Portuguesa de Realizadores, o não financiamento do cinema pelo governo põem em causa “a capacidade dos portugueses (…) sonharem, se confrontarem com os seus fantasmas, fruindo na sua vida uma experiência mais rica e intensa, através das suas emoções e da projecção do seu imaginário”. Mas como é que tal é possível se não há dialogo com o público? Se quem faz filmes não se preocupa com quem os possa ver? Como é que pretendem devolver a capacidade de sonhar ao mesmo tempo que querem estar livres do que pensam e sentem quem lhes paga? Como é que pretendem pensar se recebem cheques em branco? Por que motivo chamam de cultura, algo que ignora as pessoas, as críticas e a realidade? Por que é que se acham detentores da verdade quando vivem uma abstracção?

Maio 14, 2012

No Fio da Navalha

O meu artigo para o jornal i deste sábado.

Sem Alemanha não há Europa

A alternativa à austeridade é a redução do peso do Estado ou um empobrecimento suave conseguido com a inflação. Estará Hollande disposto a tanto?

A vitória de François Hollande no último fim-de-semana está a ser analisada como um chumbo da França à política de austeridade de Angela Merkel. De acordo com os socialistas franceses e seus congéneres portugueses, a austeridade não chega e deve ser substituída por uma política de incentivo ao crescimento económico. Infelizmente, tal só se consegue de duas formas: ou reduzimos a despesa do Estado e descemos os impostos ao mesmo tempo que pagamos a dívida, ou carregamos no investimento público e o Estado volta a contratar pessoas e a pagar ordenados por inteiro. Ora se Hollande prefere a segunda solução como é que vai investir na economia se os estados estão endividados e o dinheiro lhes é emprestado a taxas de juros incomportáveis? Só há uma maneira: através da inflação e desvalorizando a moeda, pondo o BCE a emprestar dinheiro directamente aos estados, a um preço muito inferior ao praticado no mercado livre. No fundo, é levar à prática o que Paul Krugman anda a dizer há anos. Com esta solução, não só a dívida se reduz, porque vale menos, como os produtos ficam mais baratos e a inflação, num nível inicial, nos obriga a consumir. Com mais moeda a circular, achamos que temos mais dinheiro, que estamos melhor, apesar de mais pobres. É a receita do empobrecimento indolor que foi aplicada em Portugal, com o Bloco Central, em 1983. A receita que permitirá ao Estado continuar a gastar sem que os governos tenham de encetar as conhecidas reformas estruturais na lei laboral, na política fiscal e na redução do peso do Estado na economia. As medidas impopulares que tanto medo metem a quem está na política, mas que são as únicas capazes de levar ao crescimento da economia sem que se aplique, em cima de nós, um imposto disfarçado de correcção monetária e de inflação. Se o BCE emprestar dinheiro aos estados, o cidadão comum continua a não escapar à austeridade. Perde na mesma o seu dinheiro, com a diferença de que não sente. E porque não sente, os governos estão certos de que o convencem do quer que seja.

Não é difícil perceber por que motivo a solução de Hollande não agrada à Alemanha, que não precisa de desvalorizar a sua moeda para vender mais. Aquando da criação do euro, o governo e os sindicatos alemães acordaram, ao contrário do que sucedeu nos países do Sul da Europa, não subir os salários para níveis superiores ao da inflação. O custo do trabalho manteve-se baixo e a produção alta. Por isso os alemães não querem agora pagar a nossa dívida, que resulta de salários muito acima do valor que produzimos. Para piorar as coisas, a divisão entre a Alemanha e os países do Sul não se reduz a uma diferente perspectiva do problema. O grande dilema é o quanto a economia alemã se afastou da europeia. Conforme a BBC noticiou o mês passado, as exportações germânicas cresceram 3,4% em Janeiro e 1,6% em Fevereiro deste ano. Só em 2011, as vendas de produtos alemães ao estrangeiro aumentaram 13,2%, naquele que foi o melhor ano de sempre da indústria germânica, que vende cada vez mais para fora do mercado europeu. Números que contrariam quem diz que a Alemanha precisa da Europa para vender os seus produtos e que a austeridade serve apenas para manter o domínio alemão sobre o Velho Continente.

A maneira como Hollande vai lidar com este afastamento alemão é a grande incógnita dos próximos meses. Se o novo presidente francês quiser a dita solução do empobrecimento sem dor, esta será de uma injustiça comparável à da imposição à Alemanha da Paz de Versalhes, em 1919. Sucede que, ao contrário de então, os alemães não têm agora razões para ficar mais pobres. Da mesma forma que o projecto europeu surgiu para integrar a Alemanha na Europa, a penalização deste país pode ditar o fim da mesma Europa. Aquilo com que os políticos europeus se vão confrontar é saber se é possível salvar o Estado social europeu à custa da Alemanha, quando os dois estão intimamente ligados.

Maio 9, 2012

O lugar do lixo

Filed under: Comentário,Nanny State Watch,Política,socialismo,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 16:10

Este artigo do jornalista grego Takis Michas para o WSJ, explica-nos bem ao que vem a extrema-esquerda que conseguiu o segundo lugar nas eleições gregas. Não pagar a dívida, e contratar 150 mil funcionários públicos para reduzir o desemprego, ao mesmo tempo que protege os interesses dos que se encontram instalados no topo de diversos sectores do sector privado, prometendo-lhes parar as reformas que conduziriam a um mercado livre. Não deixa de ser interessante que as ditaduras, sejam esquerda ou de direita, comecem sempre da mesma maneira.

A aposta do Syriza no medo que a Europa possa ter das imprevisíveis consequências de uma saída da Grécia da moeda única, merece apenas uma resposta da Sra. Merkel: rua!

Maio 7, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:32

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

No país dos sovietes

A promoção do Pingo Doce no dia do Trabalhador foi uma dura resposta aos que exigiram um boicote àquela cadeia de supermercados.

Se não foi de propósito, merecia que tivesse sido. Merecíamos todos. Uns, porque se sentiram aliviados ao saber que ainda existe quem afronte o poder do Estado. Outros, porque levaram com a resposta que há tantos anos andavam a pedir. A promoção que o Pingo Doce ofereceu aos seus clientes no passado 1º de Maio não se trata apenas de uma desforra face aos apelos ao boicote àquela cadeia de supermercados, vindos dos que invocaram, em nome do país, interesses corporativos e particulares. É um pequeno ajuste de contas por tudo o que tem sido feito em detrimento do país, das nossas vidas, dos nossos negócios e da nossa esperança.

Durante anos, o país deixou-se levar por discursos de frases feitas e sentido nenhum que nos diziam ser importante regulamentar a lei laboral, impedir o despedimento, garantir o emprego na função pública, taxar o trabalho e o lucro, aumentar os encargos sobre os que criavam empresas e negócios e eram ambiciosos. Ganhar dinheiro só era positivo porque parte dele era encaminhado para os cofres do Estado. Trabalhámos não para nós, mas para todos nós. Para que o Estado tivesse dinheiro e os iluminados pela luz do poder o pudessem gastar a seu bel-prazer.

Esta catástrofe, que já dura há tantas décadas, ainda não terminou, mas recebeu no dia 1 de Maio um primeiro sinal de que o seu fim pode não estar longe. Há uma letargia que nos consome, que não permite à economia crescer, que nos fez aceitar como bons os milhões de euros gastos em investimentos públicos e que tem destruído os postos de trabalho. Aliás, o desemprego só não atingiu mais cedo as proporções de hoje porque a emigração não é de agora. Começou há cerca de dez anos, quando os primeiros sentiram os sinais de uma economia estagnada, sem futuro. Que algo não estava certo e que o desastre aguardava uma primeira oportunidade para se fazer sentir. Enquanto tal não sucedeu, a apatia que a lengalenga socialista provocou permitiu que a grande maioria se endividasse na compra de uma casa para viver, sem que ninguém tivesse a coragem de liberalizar a lei do arrendamento e facilitar a vida das pessoas. Que a justiça deixasse de funcionar a tempo e horas, e ninguém tenha sido capaz, ou saiba sequer, como resolver o problema. Permitiu-nos chegar a um ponto em que o Estado já nem as suas funções essenciais cumpre de forma digna. Andámos a cavar um buraco procurando uma saída do outro lado. As pás, essas, foram-nos dadas, entre sorrisos e promessas, pelos verdadeiros coveiros do Estado social.

O que sucedeu com a promoção do Pingo Doce é um exemplo do que deve ser feito para sairmos do buraco onde nos encontramos. É preciso confrontar a irracionalidade daqueles que, cheios de ideais, destroem as nossas vidas. Expô-los publicamente ao ridículo. Fazer com que se veja o que defendem e aquilo que pretendem. Pô-los a exigir que o Estado, reduzido que está a servi-los, impeça quem queira ou precise de ter acesso a produtos mais baratos. Fazê–los proclamar não ser justo baixar os preços, mesmo que isso seja do proveito da maioria das pessoas e, mais importante que qualquer outro argumento, apenas a elas diga respeito.

A ânsia que alguns poderes instalados no Estado têm de entrar nas nossas vidas e decidir, em nosso nome, o que é melhor para nós é um vício que atingiu os limites da falta de decoro. Veja-se o Partido Socialista, que exigiu à ASAE que investigue se houve concorrência desleal na promoção do Pingo Doce, não vá o país ter perdido com um benefício pontual concedido aos consumidores. Que a ASAE, um organismo público controlado não sabemos por quem, com ligações não sabemos a que poderes, uma entidade de quem, ao contrário do que sucede com qualquer supermercado, não podemos fugir, possa investigar o que quer que seja é, isso sim, um verdadeiro exemplo do que em Portugal, e fazendo minhas as palavras do líder da CGTP, precisa de ser posto no lugar.

Maio 4, 2012

Se o ridículo pagasse imposto, já tínhamos cinema

Filed under: Comentário,Cultura,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:27

Alguns cineastas que, por fazerem filmes que poucos querem ver, precisam do dinheiro do Estado, decidiram fazer um ultimato ao governo. Entre múltiplas coisas, querem meios financeiros para continuar a filmar, alegando que só assim se concretizará um projecto ambicioso de relançamento consistente do cinema em Portugal. Como é que um projecto que começa a pedir, pode ser ambicioso já são outros quinhentos. Da mesma forma, não se percebe onde se encontra a ambição de quem não quer vencer o maior dos desafios: conseguir que o público esteja disposto a pagar um bilhete pela sua obra.

Mas o mais engraçado nem são estas incongruências, mas a expressão pomposa e ameaçadora do ultimato. É que lendo a dita petição, só encontramos exigências e nenhuma ameaça. Nenhuma consequência. Talvez porque quem nunca se preocupou em agradar um público suficientemente vasto para não depender do poder político, não tenha agora muita margem de manobra. E talvez seja isso que explique o desespero que os traz a esta posição de força ridícula: não podem filmar porque não têm meios e se não lhes derem dinheiro não filmam. Ora, quem é que mais perde com isto?

Maio 2, 2012

Descaramento

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:14

Os sindicatos e os partidos de esquerda que propuseram um boicote ao Pingo Doce, prejudicando o negócio e o trabalho de terceiros, são os que se indignam porque uma promoção lhes estragou a festa do 1.º de Maio. O descaramento não tem limites. Enfim, amor com amor se paga.

Abril 30, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Política Fiscal,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:36

O meu artigo para o jornal i deste fim-de-semana.

Liberdade

A liberdade também implica um Estado que gaste menos e não cobre tantos impostos.

Com o passar de mais um 25 de Abril, voltámos a ouvir que os portugueses não devem tolerar mais cortes nas ajudas, nos subsídios e na gratuitidade universal dos serviços do Estado. A austeridade está a acabar com a convicção de que o Estado é um poço sem fundo e que todos temos direito a tudo. Que fomos feitos para receber. De onde, de quem, pouco interessa, desde que o intermediário seja o Estado e ele trate disso por nós. Delegámos nele o jogo sujo de arranjar receitas de qualquer maneira. Se com mais impostos, taxas de juros mais baixas ou até com o fabrico, pelo Banco Central Europeu, de mais dinheiro, pouco importa. Desde que chegue ao nosso bolso. Foi assim que assumimos a pose de pessoas de bem e generosas. Uma generosidade imposta a todos, dispersa entre cada um de nós e, por isso, sentida por ninguém.

Esta posição é vergonhosa e indigna de ser decretada à conta do 25 de Abril. A revolução dos cravos visou pôr termo à guerra do ultramar, que destruía a vida de milhares de jovens, e pretendeu estabelecer uma democracia em Portugal. Que pudéssemos votar, ter opiniões contrárias à do governo e acesso a uma informação livre e imparcial. Comparar estes objectivos, dignos e gratificantes para quem a eles se propôs e por eles se bateu, com a mera exigência de mais direitos, à custa do esforço de outros, é um insulto. No entanto, há quem faça precisamente isso: exija do Estado a prestação de múltiplos serviços, alegando um direito baseado na mera existência. Existo, logo exijo. Foi para um país de cidadãos de mão estendida que se fez o 25 de Abril? Terá sido para esta falta de brio que saltámos de uma ditadura para uma democracia? Não me parece. Foi para quê, então?

Acima de tudo, pela liberdade. Não só de votarmos, mas de, através do voto, procurarmos soluções para os problemas e, dessa forma, vivermos melhor. De não ficarmos presos às decisões tomadas há 38 anos, mas conseguirmos decidir de acordo com as necessidades e as vontades de hoje. Por isso, além da escolha de um governo, a liberdade implica viver e decidir sobre os problemas que afectam a vida de cada um de nós, sem a interferência de terceiros. Esta liberdade, que Isaiah Berlin definiu como negativa, é aquela que devemos aprofundar em cada dia que passa das nossas vidas. Trata-se de um processo quase tão difícil quanto planear e levar a cabo uma revolução. Consiste num esforço diário, dissolve-se se não constar de uma prática habitual, implica uma vigilância constante da nossa parte. Obriga-nos a melhorar e a escolhermos o caminho mais difícil: o de assumirmos a responsabilidade das nossas vidas, de forma a não sermos um peso para os demais. E se tomarmos consciência da dimensão desta empreitada, reparamos que é um dever o que se nos impõe: sermos individualmente livres de forma que os outros também o possam ser. Se não o fizermos, a liberdade de que tanto se fala nestes dias será oca e pouco significado terá. Serão livres os que esperam e não os que procuram. A liberdade desaparecerá à primeira dificuldade e será trocada pelo que se apelida de segurança. Como se esta fosse possível sem que se respeite a vontade e os desejos de terceiros.

O apreço pelo trabalho do outro implica um esforço suplementar da nossa parte. O direito ao ensino e ao trabalho não pressupõe que estes nos sejam concedidos, mas que possamos lutar por eles. Da mesma forma, a gratuitidade de prestações sociais a quem as pode pagar, porque implicam um ónus sobre o trabalho dos restantes cidadãos, são uma farpa na sua liberdade individual. Na liberdade de trabalhar e usufruir, o máximo possível, dos seus rendimentos. Quanto mais subsídios recebemos, mais impostos pagamos e menos livres somos. Só uma sociedade respeitadora desta liberdade tem condições de ajudar quem precisa, os verdadeiros pobres, e não os que, em seu nome, se arrogam o direito de receber. É assim que a liberdade dos solidários passa mais por prescindir do que por impor obrigações.

Abril 23, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Economia,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política — André Abrantes Amaral @ 10:56

O meu artigo para o jornal i deste fim-de-semana.

Décroissance

A extrema-esquerda, que tem defendido uma redução da actividade económica para mudar o nosso modo de vida, devia estar satisfeita com esta crise.

Há um ano, o governo de Zapatero baixou o limite de velocidade nas auto- -estradas de 120 para 110 km/h. A ideia procurava reduzir o consumo de combustível, devido ao aumento do preço do petróleo que, na altura, atingia os 120 dólares por barril. Procurava também reduzir as emissões de carbono para a atmosfera e, dessa forma, proteger o planeta. Como é natural, esta imposição não teve sucesso. Ninguém cumpriu o limite imposto, tal como não houve qualquer redução no consumo dos combustíveis. Em Portugal, ainda se pensou fazer o mesmo, mas não foi necessário. A recessão económica chegou e fez o que faltava. De acordo com a Direcção-Geral de Energia e Geologia, o consumo de combustíveis está em queda desde Abril de 2011. Em Outubro último, o consumo de gasolina terá caído 8,1%, e o do gasóleo 3,4%. No início deste mês foi anunciada uma quebra de 47 milhões de litros de combustível vendidos. São cada vez menos os que andam de automóvel. E cada vez mais os que cumprem os limites de velocidade, por forma a pouparem combustível, e ainda os que preferem as estradas nacionais às auto-estradas, evitando as portagens. Estas notícias têm sido encaradas como inquietantes. Mas não foram estes os resultados que tantos queriam conseguir por força da lei? Menos carros, menos poluição, menor dependência do petróleo. O que a força não impôs, conseguiu-o a realidade.

O mesmo aconteceu com a construção civil. Lembra-se o leitor dos “patos bravos” de que o país estava cheio? A chatice que era construírem-se prédios em todo o lado, quando nenhuma colina verde escapava à fúria do betão? De acordo com os últimos dados, o sector da construção e do imobiliário vai perder 12 mil empresas só neste ano de 2012. O país dos “patos bravos” acabou, e com eles a construção desenfreada. Para quê então as notícias alarmantes sobre o assunto, agora que a economia está a ir ao encontro dos desejos de alguns que, sabemos agora, não sabiam bem o que significava aquilo que queriam? Os adeptos da teoria da décroissance, tão em voga entre certos sectores intelectuais da esquerda francesa e com forte influência na extrema-esquerda portuguesa, estão a ter o que sempre desejaram: menos consumo, menos poluição, menos construção. Se assim é, para quê então tanta crítica? Para quê os incentivos à revolta e o apelo à rua?

Apesar dos protestos, a extrema-esquerda sabe que o que sempre defendeu está a acontecer: a falência de um modo de vida que tem criticado ao longo dos últimos anos. Há nisto uma forte ironia que se traduz num círculo demasiado vicioso: o protesto contra um modo de vida que permitia à extrema-esquerda ser o que é, e que uma vez em causa a obriga a lutar para tudo volte ao que era, ao que nunca quis. Complicado? Não tanto, se considerarmos a extrema-esquerda como um grupo político, não de mero protesto, mas que visa sujeitar as nossas vidas à vontade do Estado. Que pretende impor-nos comportamentos, por muito simples que estes sejam, mas que já não os aceita quando advêm do nosso livre arbítrio. Por isso, circular a 110 km porque a lei nos diz para o fazer é bom, mas andar mais devagar para poupar gasolina já é uma consequência opressiva da austeridade. Poupar na electricidade para salvar a Terra é positivo, mas se devido à nossa escolha racional enquanto consumidores é de rejeitar. Como a maioria das nossas decisões enquanto homens livres: a escolha de uma escola para os nossos filhos, a prática de uma religião que nos torne conscientemente livres do arbítrio do poder político ou a liberdade de gastarmos o nosso dinheiro como quisermos. Aquilo porque se bate a extrema-esquerda não é a resolução dos nossos problemas, mas saber como determinar as nossas decisões. Fazer de nós, indivíduos e famílias, parte integrante de um todo estatal. Mesmo que isso implique o recurso à força e à violência na rua.

Abril 19, 2012

A mudança de paradigma

Filed under: Comentário,Economia,Política — André Abrantes Amaral @ 11:03

De acordo com os dados divulgados no início deste mês pelo Instituto Nacional de Estatística, as exportações portuguesas terão aumentado 10,2% no primeiro trimestre deste ano, ao mesmo tempo que as importações caíram 6%. Devendo-se a quebra no consumo interno e a recessão que o país atravessa, em parte ao corte de algumas despesas do estado, nomeadamente nas obras públicas e na compra de produtos e contratação de serviços, a redução das importações e o aumento das exportações é um excelente sinal. Um sinal de que o dinheiro começa, finalmente, a circular entre as pessoas certas. Entre quem produz e não entre quem gasta. A circular no sector correcto que é o privado. Não ouvimos durante anos dizer que a economia se deveria basear não no consumo, mas na produção? Ora aqui está.

Abril 16, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media — André Abrantes Amaral @ 18:04

O meu artigo para o jornal i deste fim-de-semana.

Titanic

Recordar o naufrágio do Titanic é homenagear as vítimas daquela que terá sido a primeira das muitas catástrofes do século xx

Em “À Procura de Sir Malcolm” (Meribérica), Jean Claude Floc’h e François Rivière falam-nos da dolorosa recordação que Francis Albany tem da viagem feita, quando criança e com os pais, a bordo do Titanic. O que se conta é muito mais que a história real do Titanic, cujo naufrágio serve de pano de fundo a uma intriga belíssima, com desenhos dignos da linha clara da banda desenhada franco-belga. Mas está lá tudo: o embarque, o fascínio de um grande navio, a travessia do Atlântico, o ambiente que uma viagem daquelas pressupunha e, claro está, os icebergues. O terror, o choque, o pasmo e o silêncio que se abateu sobre aquela gente num espaço de pouco mais de duas horas. Tudo aconteceu faz esta noite 100 anos.

O interessante no Titanic não é apenas o aviso simbólico do fim de uma época, que terminaria em 1914. É um acontecimento impressionante que, de tantas vezes estudado e contado, se tornou um momento de paragem na história, num seu ponto de referência. Assim sendo, e na medida em que a percepção que cada um tem do que seja justo e injusto, certo e errado, do que espera e deseja da vida, muda, mesmo que não de forma essencial, com os tempos, percebemos como os que estavam no Titanic foram dos primeiros que pensavam como nós. No meio da evolução intelectual, de valores e sentimentos, aqueles homens e mulheres foram os primeiros do século xx com as vidas registadas ao pormenor. Sabemos quase tudo o que se passou naquela noite. Se lermos o que deles se diz concluímos que nos revemos no que eram e naquilo em que se queriam tornar. Alguns dos que sobreviveram chegaram às décadas de 70 e 80. Deram o seu testemunho e viveram a nossa época. Contrariamente ao cidadão comum do século xviii, que é para nós um estranho, que ainda não conhecia a democracia, o conceito das liberdades e o liberalismo, os que viviam há um século tinham o nosso código de valores. Foram pessoas por quem sentimos empatia e de quem nos sentimos cúmplices.

Isidor Straus era um norte-americano de origem germânica, dono dos armazéns Macy’s em Nova Iorque. Ele e a mulher, Isadore, iam para os EUA, vindos da Alemanha. Ao contrário do habitual, não viajaram num barco alemão. Embarcaram no Titanic em Southampton, Inglaterra, rumo à América. Dois anos depois este mundo estava em guerra. Algo inimaginável para este casal sexagenário que se sentiria em casa no século xxi. Depois do choque com o icebergue e de se ter percebido que os botes de salvamento não chegavam para todos, Isidor recusou–se a ocupar um lugar, preferindo deixá-lo aos mais novos. A sua mulher não aceitou afastar-se dele. De acordo com os testemunhos, terá dito que da mesma forma que viveram juntos juntos morreriam. Perante esta decisão, Isidor ordenou à empregada da sua mulher que embarcasse. O que Ellen Bird fez e lhe permitiu viver até 1949. Houve outros actos heróicos, muitos desconhecidos, mas todos praticados por homens e mulheres sem treino militar, com amor à vida, alguns ricos, outros pobres, todos a sonhar com a vida que tinham pela frente. Homens e mulheres que aceitaram o inevitável quando, pouco tempo antes, tudo era expectativa e promessa de bem estar.

Se há um momento semelhante a este, terá ele ocorrido a 11 de Setembro de 2001. Também aí, e ainda hoje, vamos conhecendo actos heróicos e generosos de pessoas comuns. Talvez daqui a 90 anos alguém ainda lhes reserve uma crónica num jornal. O importante é a percepção do choque que deve ter sido idêntico para nós, que assistimos à queda das torres em directo na televisão, e para os que souberam do naufrágio do Titanic nos dias seguintes pelos jornais. O mesmo sentimento de impotência e de incompreensão. O mesmo assombro. A mesma aceitação. A história conta-nos que o mar estava calmo, não havia luar nem nuvens. O céu estava estrelado. Vinte minutos depois de o Titanic ter submergido, os gritos dos que caíram à água terminaram. O silêncio imperou de então para cá, faz esta noite 100 anos.

Abril 9, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Educação,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Religião — André Abrantes Amaral @ 09:36

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana de Páscoa.

Ressurreição

Mais difícil que dar a alma por algo, é guardá-la. A Páscoa é também a festa do renascimento da vontade humana e das suas capacidades.

To sell your soul is the easiest thing in the world. If I asked you to keep your soul – would you understand why that’s much harder?

Ayn Rand, The Fountainhead.

Ayn Rand foi uma filósofa e escritora norte-americana, autora de diversos livros, dos quais os mais conhecidos são “Atlas Shrugged” e “The Fountainhead”. Neste último, Rand conta-nos a vida de Howard Roark, um arquitecto genialmente criativo, que adora o seu trabalho e não se rende ao que pelos outros foi convencionado como devia ser a arquitectura. Nem se deixa aliciar pela consagração fácil e rápida dos que trocam a realização pessoal pelo prestígio e uma vida fácil. Roark chegará a ter dinheiro, até um grande atelier, mas este pouco mais é para ele que o resultado do trabalho, uma forma de ser independente e não se sujeitar a quem quer que seja. O que gera a incompreensão dos seus colegas é o não compreenderem porque Roark não escolhe o caminho mais rápido para o sucesso. O não entenderem que para ele, o êxito é, não o reconhecimento social, mas estar liberto dos condicionalismos que tolhem o processo criativo. São muitos os que o receiam porque não valorizam o que apenas alguns conseguem almejar. Por não conseguirem conviver com alguém que busca o que para tantos nem sequer é um sonho. E não suportam o seu silêncio, o facto de não fazer sugestões, de não perder tempo a comentar as decisões dos outros. Não o faz, da mesma forma que agradece que não o façam consigo. Não o faz porque pressupõe que cada um procure viver da forma que lhe agrada, não imaginando que alguém troque a sua realização pessoal pelo reconhecimento alheio. Ou melhor: que alguém se realize por ser o que os outros desejam que seja. Que alguém deixe de ser quem é, desista da sua individualidade, da sua essência, natureza, para agradar a terceiros. A atitude de Roark, que muitos apelidam de egoísta, é tremendamente cristã. E é por essa razão que trago hoje, para este jornal e na Páscoa, a sua história.

Se houve mensagem que Cristo deixou foi a de não julgarmos os outros e não sermos escravos dos bens materiais. A concepção do indivíduo como algo sagrado, porque criado à imagem e semelhança de Deus; a imoralidade que é destrui-lo, não o deixar singrar na vida, ou pior, destruir-se em nome dos outros. A ilusão que é explicar os nossos fracassos, falhas, com os erros alheios. Culpabilizá-los pelo que fizemos e somos. Não assumirmos a responsabilidade de sermos aqueles em quem nos transformámos, porque nem sempre quisemos ser aquilo em que nos poderíamos tornar. O dever de não trocarmos a nossa realização pessoal pela busca do bem estar material, como sinal de afirmação na sociedade. E se encararmos a questão por este prisma, o altruísmo não será prescindirmos de nós em nome dos outros, mas fazermos o nosso melhor. A procura da felicidade torna-se um direito inalienável e a entrega já não será irmos contra a nossa vontade, mas usá-la para algo que nos deixe intimamente felizes. Porque só alguém feliz, realizado por fazer o que gosta, ou por lutar por fazer o que gosta, cumpre o papel divino que lhe foi destinado e é uma referência para quem lhe preste a devida atenção.

Se somos criados à imagem e semelhança de Deus, nada é mais valioso que a vida humana. Uma vida que só se dignifica com trabalho, independência e em liberdade, com a obrigação de fazermos o melhor, mesmo que desagrade a terceiros. De subirmos a parada dos nossos feitos. Assim sendo, a virtude medir-se-á não pelo que fazemos pelos outros, mas pelo que fazemos por nós. Se acreditarmos nas nossas capacidades, sem termos de pedir ajuda a quem quer que seja, encontramos a razão de ser da nossa existência e confiamos também na dos demais. Se tentamos, eles também podem tentar. O respeito pelo outro passa por este ponto tantas vezes esquecido que é não prescindirmos de nós e seguirmos com a nossa vida. O não nos deixarmos prender pela convenção aparente de entregar a nossa essência por algo que nos seja alheio.

Abril 2, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Nanny State Watch,Política — André Abrantes Amaral @ 10:21

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

O clima e a nossa responsabilidade

Enquanto os crédulos acreditam que o clima não muda, os oportunistas utilizam esse facto para fazer valer os seus projectos políticos.

Como não choveu no Inverno são muitas as referências ao aquecimento global, às secas que aí virão e à culpa do homem, que é imensa. Infelizmente, a memória é curta. Caso contrário, recordaríamos as chuvas do ano passado, bem como o Verão, que não foi o primeiro a ser fraco. Também não esqueceríamos como o Inverno deste ano foi rigoroso na Europa, enquanto cá não chovia. Como não choveu noutros Invernos, conforme também bem sabemos, se não quisermos ter memória curta. Mas o tema deste artigo não são as alterações climáticas, mas a responsabilidade do homem como sua causa principal, que tantos tomam por certa e que alguns pretendem usar para ditar políticas restritivas das liberdades individuais.

Em Janeiro de 2011, a “Swiss Federal Research Institute for Forest, Snow and Landscape” anunciou os resultados de um estudo baseado na observação dos anéis de mais de 7200 fósseis de árvores dos últimos 2500 anos, na Alemanha, em França, em Itália e na Áustria. Medindo a largura dos anéis das madeiras foi possível determinar as temperaturas e os níveis de precipitação numa base quase anual. E o que se comprovou foi algo que já se sabia: o clima sempre mudou e as suas fortes alterações terão até influenciado a história da Europa. Os Verões húmidos e quentes coincidiram com as épocas de expansão, enquanto os secos e frios ocorreram nos períodos de crise, como sejam a decadência do Império Romano e as migrações que forçaram a sua queda, a Peste Negra, em meados do século xiv e a Guerra dos Trinta Anos, na primeira metade do século xvii. O que para aqui interessa são as alterações climáticas que foram ocorrendo durante estes dois mil e quinhentos anos. Períodos prolongados de seca, a par de outros frios (que gelaram o Tamisa no Inverno de 1683-84), em contraponto com épocas quentes e chuvosas, que marcaram por exemplo o século xv, coincidentes com a expansão portuguesa e o início do Renascimento. Como se vê, um fenómeno constante e, julgo não estar errado, em nada resultante da actividade poluidora do homem.

Porque é aqui que bate o ponto: na responsabilidade humana. Do comportamento do homem que criou a sociedade industrializada, de serviços e consumista que permitiu o maior desenvolvimento jamais visto na qualidade de vida das pessoas. A atribuição de um sentimento de culpa por algo que tem sido positivo e que nos tem permitido viver melhor, saber e questionar mais, não aceitando de forma gratuita as imposições dos governantes e dos poderosos. Não deixa de ser interessante que seja entre a classe política e os que aplaudem o poder omnipresente do Estado que se encontrem os principais defensores da culpa do homem por algo tão natural e recorrente como as alterações do clima na Terra.

Há dois aspectos que nos devem chamar a atenção. O primeiro é o critério científico colado à tese da responsabilidade do homem quando a ciência se baseia, como nos disse Karl Popper, no confronto entre posições opostas e não na imposição de uma teoria como absoluta. Sendo a ciência a base de investigação por excelência, qualquer utilização da mesma para impor respostas definitivas devia ser uma afronta à nossa inteligência. O segundo é a humildade. Esta é utilizada pelos que culpabilizam o homem pelas alterações climáticas, alegando que se formos humildes percebemos que temos de mudar a nossa vida e não ferir o planeta. Mas se encararmos o fenómeno por outro prisma, se entendermos que as alterações climáticas são naturais, inevitáveis e independentes da actividade humana, nesse caso a humildade será aceitarmos que o homem é insignificante perante as alterações naturais do clima e que pouco ou nada pode fazer para as evitar, que não seja adaptar-se como sempre fez. Talvez parte daquilo a que assistimos não seja ao fim da vida na Terra, mas da crença de que o homem é omnipotente e tudo pode. Até impedir as mudanças no clima, que, por serem naturais, se tornam indispensáveis ao equilíbrio do planeta.

Março 26, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:47

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A crítica certeira

Devemos centrar as nossas críticas não nos que ganham dinheiro mas nos que vivem dos fundos públicos.

Quem acompanhe o processo eleitoral para a presidência dos EUA percebe o quanto este está marcado por um preconceito contra a riqueza, até há poucos anos impensável na América. Ser rico é um problema para quem queira ser político nos EUA e está a criar sérias dificuldades a Mitt Romney, o mais provável candidato republicano a correr contra Barack Obama. É fácil prever Obama a colar Romney à imagem de homem rico; uma riqueza de origem dúbia e, na melhor das hipóteses, desconhecida. Algo contrário à própria representação de Obama, nascido numa família sem posses, mas que estudou e chegou onde chegou. Claro que Obama tem mérito. O problema é que Romney também o tem, apesar dos esforços que Obama vai fazendo para lhe negar esse direito. Para Obama, se ser rico é um pecado, ser um político bem sucedido já é uma virtude. É muito interessante como um discurso vindo de Washington, num tempo em que a classe política goza de tão pouca consideração, vingou tão bem.

Este será o teor do discurso de Obama: quem queira o bem público, o único aceitável por pessoas de bem, trabalha para os outros. Como ele o fez quando foi voluntário em Chicago; como ele o faz agora, em comissão de serviço, como presidente dos EUA. A mensagem de Obama é, como foi em 2008, muito subtil, mas mortífera: ele quer ser presidente dos EUA, não porque seja ambicioso, mas porque pretende prestar um serviço. A partir daqui, a sua mensagem voltará a repetir-se: aqueles que trabalham para que o seu negócio cresça, os que estão imbuídos pela ideia do lucro, os que visam apenas os seus interesses devem ser travados. Travados, não no sentido de impedidos de continuarem a fazer o que fazem tão bem, que é criar riqueza, postos de trabalho e receitas fiscais, mas de serem canalizados para o bem comum, precisamente por aqueles que já abraçaram a causa pública. Se a hipocrisia subjacente a este raciocínio lhe faz impressão, peço-lhe que continue a ler o artigo. Caso contrário, por favor, pare. O que aqui está escrito não é para si.

Recomecemos com calma. que o assunto é delicado e sério. Não há nada de errado em seguir uma carreira pública. Ela é desejável e imprescindível num estado de direito. A dignidade que lhe está subjacente é de louvar e respeitar. Aqueles que a seguem devem procurar o equilíbrio, a estabilidade e a segurança de que qualquer sociedade necessita para que viva em liberdade. Este deve ser o objectivo do serviço público. Este. Não ultrapassar as suas funções para, em nome do Estado, ou seja, de todos, direccionar a economia, favorecendo sectores de actividade em detrimento de outros e, dentro desses, alguns empresários, discriminando os que não conseguem, ou não querem, ter “amigos” no poder. E também não passa, apenas porque as contas públicas estão em maus lençóis, por lançar suspeitas sobre os que, de fora da esfera pública, decidiram ganhar dinheiro. Infelizmente, apesar de errada, esta tendência ir-se–á acentuar no decorrer deste ano.

É que não há nada de errado em querer ganhar dinheiro e acumular riqueza. Se achamos que há, saberemos também que quem assim age perde mais do que julga ganhar. Ou seja, é algo que não nos diz respeito se quem ganha dinheiro o faz de forma não criminosa e sem favores políticos. Até porque nós precisamos de quem ganhe muito dinheiro. Precisamos das pessoas que têm o faro para a riqueza, o dito toque de Midas. E precisamos também de centrar a nossa crítica, não em quem enriquece por mérito, mas naqueles que o conseguem devido às boas relações que têm com o poder político. Na verdade, são estes últimos os ricos ilegítimos. Os ricos favorecidos que não merecem o nosso respeito. Se discernirmos esta diferença elementar, mas tantas vezes esquecida, compreenderemos como a luta dos próximos anos não deve ser entre ricos e pobres, mas entre os que trabalham de forma honesta e os que vivem dos dinheiros e dos favores públicos.

Março 23, 2012

Virtude

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 22:33

Money is the barometer of a society’s virtue. When you see that trading is done, not by consent, but by compulsion – when you see that in order to produce, you need to obtain permission from men who produce nothing – when you see that money is following to those who deal, not in goods, but in favors – when you see that men get richer by graft and by pull than by work, and your laws don’t protect you against them, but protect them against you – when you see corruption being rewarded and honesty becoming a self-sacrifice – you may know that your society is doomed.

Ayn Rand, Atlas Shrugged, p. 413.

Passos Coelho quer uma sociedade mais dinâmica, com menos estado e, naturalmente, mais justa. O texto em cima ajuda-nos a perceber como a nossa sociedade não é virtuosa. Ajudar-nos-á a saber, dentro de anos, se Passos Coelho foi bem sucedido. Mas, acima de tudo, pode servir de referência quanto ao caminho que devemos trilhar. Menos estado, não significa apenas mais riqueza, mas também menos corrupção e menos favorecimento político. Mais trabalho e mais transparência.

 

A questão em cima da mesa

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 21:53

Conseguirá um partido, mesmo sendo de causas, libertar a economia do poder politico?

Portas

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 21:44

Não aparece no governo, mas vem ao congresso do PSD. Há quem consiga estar sempre no sítio certo.

Março 19, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 09:39

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A moral ilegítima

Se os políticos escolherem cirurgicamente os que ficam de fora do Estado social, a moral que o justifica fica pelo caminho.

François Hollande, o homem que as sondagens indicam poder afastar Nicolas Sarkozy do Eliseu, promete criar uma taxa de imposto de 75% para os rendimentos acima de um milhão de euros anuais. Actualmente, a mais elevada é de 41% para os rendimentos acima dos 72 mil euros ano. De acordo com o “Le Monde”, o próprio director de campanha de Hollande, Pierre Moscovici, devido ao reduzido número de franceses abrangidos por esta taxa suplementar, considera a medida meramente simbólica e com poucos efeitos práticos. Ao que parece, a repercussão no défice das contas públicas será nulo. Independentemente de tudo isso, Hollande classificou a taxa especial de imposto como “um acto de patriotismo”. Porquê, se não vai dar resultados? Porque vira as massas contra um grupo anónimo, alvo de animosidade fácil. O que se retira da proposta de Hollande é que, para o candidato do PSF, é igual se a riqueza foi merecida ou se conseguida através dos bons contactos empresariais que alguns têm com o Estado francês. Para Hollande, é a quantidade que se recebe que determina a moral. Não o acto em si. Não é difícil imaginar o perigo que esta nova determinação do que seja certo ou errado representa.

Infelizmente, não é só Hollande que faz jogo sujo nas presidenciais francesas. Sarkozy, receando uma derrota humilhante em Abril, pisca o olho à extrema-direita, prometendo baixar a quota de entrada dos imigrantes. De repente, são estes estrangeiros os culpados pelo desemprego, o crime e a violência. Atente-se bem no raciocínio do presidente francês: não são os impostos, nem a burocracia estatal, nem as centenas de milhares de franceses que vivem à conta dos compatriotas que trabalham. Não. A justificação para uma economia estagnada há quase 15 anos está nos imigrantes, os que não podem votar, mas procuram uma nova vida naquele país. Outra massa incógnita. Outro alvo fácil do rancor. Um ressentimento que está a crescer à medida que as dificuldades aumentam e que os políticos direccionam de forma a atingir quem quer que seja que não seja o Estado. O objectivo é evitar quaisquer críticas às políticas socialistas que conduziram o Estado social à falência.

A semelhança entre as propostas de Sarkozy e Hollande é que ambas visam contornar problemas que resultam das políticas de solidariedade social. Para Sarkozy, os imigrantes, muitas vezes sem trabalho, acabam por beneficiar das regalias do Estado social serem terem feito os devidos descontos. Para Hollande, a própria concepção do que seja a solidariedade estatal é contrária à existência de ricos, sendo imoral haver quem ganhe tanto quando outros pouco têm. O resultado é que o Estado social, que se foi alargando a todas as classes sociais, visando a universalidade, se está a entrincheirar atrás de um eleitorado, ao mesmo tempo que aponta o dedo aos que vão ficando de fora. Mais: o socialismo vingou porque visava ajudar os mais pobres, permitindo-lhes o acesso ao trabalho, a uma rede de segurança que os apoiasse quando preciso. A sua força moral era essa e era imbatível. De tal forma que poucos a questionaram e muitos a ela se renderam. Aquilo a que assistimos agora são chefes de Estado a atacar grupos de cidadãos sem defesa, não em prol dos mais fracos, mas de um eleitorado ainda maioritário que teme assistir ao fim dos benefícios auferidos com o alargamento das funções do Estado. Um eleitorado que teve do seu lado a força do Estado para viver em segurança, mesmo que à custa do esforço dos que pagavam. Agora que os sucessivos défices públicos obrigam a cortes nas despesas, quando há uma luta desenfreada para não ficar de fora de um barco que já não aguenta tanta gente, a moral que fundamentava o socialismo desapareceu. Sarkozy e Hollande querem salvar o modelo social europeu. Esquecem-se de que ele se fez para integrar, e não para pôr de parte. Ao culparem uns para protegerem outros, acabam por questionar a própria moral socialista, tornando-a ilegítima.

Março 16, 2012

A não perder – 19 Março, 18h.30 – FNAC Colombo

Filed under: Livros — André Abrantes Amaral @ 11:31

Março 15, 2012

Afinar a pontaria

Filed under: Comentário,Economia,Energia,Nanny State Watch,Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:33

A demissão do secretário de estado da energia, Henrique Gomes, aparentemente por não ter conseguido corrigir as rendas excessivas no sector da produção energética, que penalizam as famílias e as verdadeiras empresas, em detrimento de outras, monopolistas e com excelentes ligações dentro do poder político, comprova que o que devemos criticar não é a riqueza e o sucesso em si, mas o este depender das vantagens políticas, ilegítimas em qualquer democracia e estado de direito, auferidas por algumas empresas, e dos dinheiros conseguidos à conta desses mesmos privilégios políticos.

É nisto que dá quando queremos pôr a política a mandar na economia. Em resposta, a esquerda pretende impor a pureza e a perfeição. Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso, conhecendo como são os homens e o estado, sabe que a solução passa por menos monopólios e menos privilégios. Maior liberalização dos mercados. Maior transparência. Menos amizades e mais profissionalismo.

Março 7, 2012

Mudar

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 12:16

A queda nas receitas do estado está a preocupar o governo. É bom que isso aconteça. A economia privada, que é quem alimenta o país e permite a pouca vergonha que é o desperdício dos dinheiros públicos, não está a aguentar o aumento da carga fiscal. É bom que isso aconteça porque só perante essa inevitabilidade os governos serão forçados a mudar de estratégia.

Ao contrário do que sucedeu no tempo de Sócrates, já não há margem para resolver o défice das contas públicas pelo lado da receita. A solução, a única saída para o beco onde nos encontramos, está no corte da despesa pública. Temo que o governo só agora se tenha verdadeiramente apercebido desta realidade. A austeridade tem de chegar ao estado. Àqueles que trabalham com o estado, fazem negócios com ele, vivem dos pareceres que lhes dão, contam com o poder público para levar avante os seus projectos. É esta economia semi-pública que tem de ser travada. É o círculo vicioso de cobrar dinheiro aos privados para financiar a economia privada dos amigos do estado que tem de terminar.

O estado tem também de se pôr a mexer com uma série de reformas estruturais. Simplificação fiscal e reforma da justiça. Cortar na despesa pública e pôr os tribunais a funcionar, permitiria um incremento no investimento privado mais bem sucedido que o que se visa com os milhões do QREN.

Março 5, 2012

No Fio da Navalha

O meu artigo deste sábado para o jornal i.

A Dama de Ferro

Se Margaret Thatcher nos avisou quanto aos inconvenientes da moeda única, como é que a crise do euro põe em causa o seu legado?

“Where there is discord, may we bring harmony. Where there is error, may we bring truth. Where there is doubt, may we bring faith. And where there is despair, may we bring hope.”

Margaret Thatcher, citando S. Francisco de Assis, no dia da sua tomada de posse.

Quando Margaret Thatcher chegou ao poder, em 1979, o Reino Unido andava nas ruas da amargura. Tudo devido à inflação, a uma economia estagnada, a um tecido empresarial ultrapassado, a demasiadas empresas públicas e a um excessivo poder dos sindicatos. Um desastre resultante das políticas socialistas que visaram a colectivização dos meios de produção e foram levadas à prática durante as décadas de 50 e 60. Thatcher reconhecia esta realidade, sabia que a economia não crescia devido ao peso do Estado e foi citando S. Francisco de Assis, sobre a harmonia, a humildade e a esperança que entrou pela primeira vez no número 10 de Downing Street. Não temeu as dificuldades e não receou o julgamento do voto. Thatcher tinha noção do que tinha de ser feito. Fê-lo, apesar de todas as vozes contra. De todos os pedidos de que voltasse atrás. De todas as dificuldades que a sua política implicava para os britânicos. Pode parecer antagónica a referência a S. Francisco de Assis, mas apenas alguém capaz de perceber o seu conteúdo tem a força interior para levar a cabo a empreitada que Thatcher se propôs.

A ex-primeira-ministra britânica voltou a estar na boca do mundo com o filme que valeu o Óscar a Meryl Streep. E também devido à crise que vivemos, que tantos dizem pôr em causa o mundo que Thatcher ajudou a criar. Ora é aqui que deparamos com algo que não pode estar certo. Vamos por partes e comecemos com uma argumentação de mera lógica: se foi o fim das políticas estatizantes dos anos 50 e 60 que permitiu aos britânicos viver melhor, como é que a crise financeira do século xxi explica o fracasso da governação de Thatcher, 21 anos depois de esta se ter ido embora? Como é que a crise do euro justifica as medidas estatizantes que empobreceram o Reino Unido e legitima o que falhou no passado? Não há resposta para esta argumentação lógica. O que não impede que se continue a carregar na mesma tecla: a crise da dívida pública é um falhanço da governação de Thatcher.

A semana passada alertei para a necessidade de lermos com atenção os manuais da história norte-americana antes de concluirmos pela decadência daquele país. Volto à carga, desta vez sobre a governação da Dama de Ferro, entre 1979 e 1990. Thatcher não só reduziu a despesa pública, evitando os erros cometidos pelos governos que se lhe seguiram no Reino Unindo e na Europa, como sempre alertou para o perigo da moeda única. Se formos honestos, lembrar-nos-emos das fortes críticas que Thatcher teceu ao projecto da moeda única, nunca aceitando a adesão do seu país. Sempre avisou que uma moeda europeia não teria em consideração os diferentes níveis de produtividade dos países, as suas diversas culturas, as diferentes formas como o trabalho é encarado por cada povo. Preveniu que uma moeda única pressupunha transferir mais soberania para a Alemanha, pondo em risco as democracias. Alertou-nos, a quem a queria ouvir, para o que nos está a acontecer agora. Na altura, em que se sabia que o euro traria dinheiro barato e uma longa vida política aos governantes de então, ninguém quis saber. Fez-se aquilo a que nos fomos habituando: atirou-se o problema para o futuro. Para os outros, que somos nós. Thatcher foi apelidada de teimosa, obstinada, inflexível e caprichosa. Sabemos agora porquê. Mas em vez de reconhecermos que estava certa, preferimos acatar as justificações dos que não a quiseram ouvir e erraram. Continuamos a fechar os olhos. Talvez porque abri-los implica admitir o erro. E se individualmente consentir num erro é difícil, reconhecê-lo em colectividade é impossível. Até nisso lhe damos razão.

Fevereiro 28, 2012

O golpe fatal

Filed under: Comentário,Economia,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:40

Há muita gente à esquerda que considera que a crise orçamental dos estados advém da ajuda financeira aos bancos em 2008. Foram muitos os avisos de que tal iria acontecer. O nível de endividamento dos estados não era, em 2008, igual ao de 1929, ano que tantos socialistas, ávidos em enterrar de vez o que apelidam de neo-liberalismo, sonharam reavivar para vingar o golpe ideológico sofrido em 1989.

Como se vê, o tiro saiu pela culatra e se algum benefício esta crise tem, é a de pôr em causa a omnipotência do estado. Aquilo a que assistimos nos últimos meses é à percepção de que o estado não é um poço sem fundo e de que o dinheiro que este utiliza tem um preço. Implica mais impostos, menos salários, menos regalias, mais desemprego, mais dívida, mais juros, mais impostos, menos salários, menos regalias, mais desemprego, mais dívida, mais juros, numa espiral que nunca mais acaba.

É por estas e por outras que estou para ver quando, e quem será, o primeiro a pôr o dedo na ferida e a perceber a armadilha em que o socialismo caiu.

Fevereiro 27, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional — André Abrantes Amaral @ 10:15

O meu artigo para o i deste sábado.

O mito do fim

Devemos ler os livros de história antes de levarmos a sério o mito da decadência americana

Robert Kagan é historiador e um comentador habitual da política externa dos EUA. Como bom profissional que é, Kagan analisa os factos não esquecendo as lições do passado. É o que faz num artigo que publicou há dias na “New Republic”, sobre o seu novo livro, “The World America Made” (Knopf). Nele, Robert Kagan questiona a decadência americana, que tantos aceitam como certa, analisando cada uma das ideias preconcebidas que a justificam. Pelo caminho alerta para o perigo de, deixando-nos ir pelo raciocínio fácil, chegarmos a conclusões totalmente erradas.

Quem olhe para os EUA vê o forte endividamento do estado federal, a incapacidade de entendimento entre os membros do Congresso para a redução da despesa pública, os fracos índices económicos e o desemprego. Conclui, como algo inevitável nas sociedades ricas, que a decadência moral se apodera dos norte-americanos. Um declínio comparável ao do Império Romano, como se este não tivesse levado séculos a deixar de ser a potência que era. Olhamos para o que vemos hoje e esquecemos como foi no passado. Que a existência não se torna um paraíso apenas porque se tornou história e a vida não fica fácil só porque termina. Temos de analisar os acontecimentos em perspectiva, comparando-os com o que sucedeu ontem e perceber melhor a dimensão do que enfrentamos hoje.

Um das ideias mais frequentes é a da redução da quota-parte americana no PIB mundial. Que os EUA têm índices de crescimento económico muito inferiores aos das potências emergentes, sendo isso um sinal de cansaço e da falta de entusiasmo que marcou aquele país durante o século xx. Esta é a percepção comum. Mas se olharmos para a história o que vemos é que o PIB norte-americano representa 1/4 do PIB mundial desde 1969. Valores que não se têm alterado, apesar da crise, e ainda que a China e a Índia apresentem resultados surpreendentes. O mesmo tipo de raciocínio terá de ser feito relativamente à política externa. É dado assente que os EUA perderam influência e já não conseguem o que querem, como quando o mundo era um tabuleiro de xadrez, sem um adversário do outro lado da mesa. Novamente, uma análise cuidada do que aconteceu no passado ajuda-nos. Na verdade, e como Kagan lembra, nunca os EUA foram uma potência hegemónica. Até na década de 50, os anos de Eisenhower, do boom económico, os EUA tiveram de aceitar o golpe comunista chinês de 1949, apenas conseguiram meia vitória na Coreia e viram a URSS fabricar a bomba atómica. Houve mesmo o receio de que a URSS estivesse a crescer a um nível superior ao dos EUA. Algo ridículo, agora que sabemos a história toda. Assustador para quem vivia na altura. Algo que nos deve servir de lição quando damos como certo o sucesso chinês. Foi assim na altura e também nos anos 90, depois do fim da URSS, quando os EUA não conseguiram impedir que a Coreia do Norte e o Irão avançassem com o seu programa nuclear, nem sequer impor a paz no Médio Oriente. Para quem punha e dispunha do mundo, é muito pouco. Tal como sempre foi pouco o soft power americano. Ou não eram muitos os que na Europa preferiam o regime soviético ao do Uncle Sam? E não foram os anos 60 o tempo da decadência da juventude sem valores e sem disciplina? Em que Kennedy e Luther King foram mortos a tiro? Se a sociedade está em decadência agora, que nome damos ao que acontecia naquele tempo?

Kagan refere também que os EUA são aliados da Índia e próximos do Brasil, como foram do Japão e da Alemanha nos anos 80, quando estes países, em vez de ameaçarem o poderio americano, o fortaleceram. Sabemos como as boas alianças são importantes para os países dominantes. E para potência decadente os EUA parecem bem acompanhados. Se, como diz George Steiner, um dos axiomas do Ocidente é a consciência do fim, a história ajuda-nos a não tirar conclusões precipitadas. É um instrumento valioso contra a dedução fácil, que devemos ter sempre presente para não cairmos nos lugares-comuns.

Combate de blogs

Este sábado estive novamente no Combate de Blogs com Nuno Ramos de Almeida e o jornalista Filipe Caetano, a discutir as coisas do costume: Grécia, dívida e para não ser apenas austeridade, a iniciativa da carta de Cameron a Bruxelas. A terminar, um pequeno comentário sobre a seca e a Síria.

 

Fevereiro 19, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 21:57

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

O custo do verdadeiro egoísmo

Ao adiar a mudança do que estava errado, fomos colectivamente egoístas e nunca chegámos a ser individualmente generosos.

O fim da tolerância de ponto para os funcionários públicos, na terça-feira de Carnaval, é apenas mais um passo na mudança a que estamos a assistir. As críticas são imensas, e muitas mais ouviremos nos próximos anos. Uma coisa é certa: virão maioritariamente dos que perdem privilégios. Dos que têm regalias sem qualquer contrapartida. Sem nada que as compense ou sequer as justifique. Não deixa de ser interessante que se lamente tanto o fim dos feriados e tão pouco o mais de um milhão de pessoas que não têm trabalho. Qualquer sociedade com o mínimo de sensibilidade sentiria vergonha. Mas aquela em que grande parte dos seus membros é apaparicada pelo Estado em troca de votos, em que tantos escolheram um emprego com o único critério de ser para sempre, é uma sociedade que não guarda nada para o outro. Uma sociedade onde o jargão socialista da solidariedade social é encarado como algo suave, indolor e brando. Algo que não afecta a pessoa que partilha, pois transferiu essa aptidão para uma entidade intangível e inatingível. Um Estado que, por ser responsável por todos, pouco liga ao indivíduo. Pouco faz por quem precisa.

O egoísmo prega-nos a partida de ter dois sentidos, consoante a perspectiva em que encaramos o problema. Não serão hoje egoístas os que se queixam do fim de alguns feriados quando tantos não têm trabalho? Não será egoísmo que metade do país tenha emprego garantido no Estado, no Estado que vive dos impostos que pagamos e da dívida que contrai lá fora e nos onera a todos, enquanto a outra metade receia perder o trabalho? Se discuta o fim dos subsídios de férias e de Natal na função pública e não se refiram os que já há tanto tempo não o recebem? Aqueles a quem a crise não chegou em 2012, mas antes, quando os primeiros avisos de que algo não ia bem, não quiseram ser ouvidos pelo governo e pelo eleitorado.

O Estado social foi criado sobre a premissa de ajudar quem precisa. Mas o que faz ele agora? Vive à custa de quem trabalha. E o mais grave é que não só se transformou numa máquina que sustenta quem a ele pertence e explora os que de fora entregam a dízima, como já nem é social. Desvirtuou-se. Foi muito além do objectivo salutar que é ajudar os mais desfavorecidos e transformou-se num monstro burocrático que nos consome. Estamos cada dia que passa mais pobres, porque considerámos egoísta qualquer crítica ao Estado social. Como uma apreciação baseada em princípios interesseiros, algo que não podíamos aceitar porque feria a nossa boa consciência. Afinal a boa consciência que escondia uma forma de egoísmo. A boa consciência de quem vivia bem num sistema que se esperava durasse para sempre.

Não durou. Como nada dura, e acaba quando menos se espera. E agora que acabou podemos pensar em termos que até há pouco julgámos impróprios. Podemos construir um Estado mais justo, que não viva à custa da habilidade dos cidadãos, deixe de ter empresas, faça menos negócios e se concentre no cumprimento do que devem ser as suas funções essenciais e de soberania. O problema de termos adiado este repensar do que o Estado dever ser é que hoje vivemos tempos de emergência. Que serão de calamidade quando na Primavera a Grécia sair do euro. Não haverá tempo para edificar o que quer que seja, mas apenas para sobrevivermos. O cada um por si vai doer. O desespero e a angústia leva as maiorias a preferir a ordem à justiça. A preferir o previsível ao imprevisto. A Grécia pode cair nas mãos da extrema-esquerda nas eleições de Abril. O que suceder a partir daí é uma incógnita. O egoísmo comodista deu nisto: uma colossal incerteza. Em 1989, tinha eu 16 anos, disse- -me o professor Agostinho da Silva, sobre a dívida que havia no mundo e quem a ia pagar, que o barco ia abanar e o importante era não enjoar a bordo. Agarremo-nos então todos e fixemos bem os olhos no horizonte.

Fevereiro 13, 2012

Dramas climáticos

Filed under: Comentário — André Abrantes Amaral @ 12:22

Devido ao frio que assola a Europa, o Figaro publicou há dias uma entrevista com o historiador do clima, Emmanuel Garnier. Diz ele que os franceses têm a característica muito própria de nunca estarem satisfeitos com o tempo que faz. Quando está calor, mesmo no Verão, é porque algo se passa e, quando está frio, como nestas duas semanas de Fevereiro, é porque algo também só pode estar errado. A explicação dá vontade de rir porque em Portugal acontece o mesmo. Garnier acrescenta que os franceses não toleram uma meteorologia que não seja normal. Para eles, o Inverno são estâncias de ski com neve, ao mesmo tempo que há sol e temperaturas agradáveis na cidade onde vivem. As intempéries são fenómenos do passado. Garnier encontra explicações para o fenómeno na convicção muito francesa e progressista de que se a ciência tudo consegue, conter o clima não pode ser excepção. E quando tal não sucede, é porque algo está errado. Durmam em paz, que a República vos vela, é o velho adágio francês que leva os políticos a evitar o discurso do risco, preferindo intervir mais tarde que permitir que os cidadãos se previnam, caso a caso, nas suas localidades. O centralismo político também passa por aqui. Junte-se o mediatismo histérico que nos faz esquecer o passado e temos o cenário ideal para alertas laranjas em metade do país. Quem é que disse que Portugal já não francês?

No Fio da Navalha

Filed under: Insurgentes nos media,Internacional,Política,Portugal,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 09:55

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A força do Atlântico

Depois de David Cameron ter vetado a proposta de alteração dos tratados europeus, o “Wall Street Journal” publicou, no final do ano passado, um artigo que defendia uma aproximação entre o Reino Unido e os EUA. Os seus autores, ambos norte-americanos, entendem que a integração do Reino Unido na Europa foi feita à custa dos laços naturais que partilha com os EUA e demais países de língua inglesa. Foi algo que trouxe benefícios aos britânicos, mas, com a crise do euro e as propostas de aprofundamento da União Europeia, implica um custo muito elevado.

A CEE, dentro da qual o primeiro- -ministro Edward Heath conseguiu fazer admitir o seu país, que visava um mercado de livre circulação de pessoas, bens, serviços e capitais, e sem um poder supranacional não eleito, já não existe. Pelo contrário, transformou-se num muro que cerca a Europa, por se ter querido fazer dela um paraíso kantiano fechado a quatro chaves. A União Europeia, pressionada pela crise do euro e pelas decisões políticas de Merkel e Sarkozy, caminha para a criação de um megaestado centralizado, que visa controlar a vida política dos países-membros. O que sucede na Grécia e na Itália, onde o governo eleito foi substituído por líderes próximos de Bruxelas, o desejo de colocar em Atenas um comissário europeu que vistorie as contas gregas, aprove ou chumbe as decisões do seu governo, apontam para o possível fim das democracias e das soberanias nacionais. Que estados recentes como a Grécia e a Itália, habituados ao longo da sua curta história a vergar-se à vontade de potências estrangeiras, aceitem as imposições que lhes estão a ser feitas, não é de estranhar. Mas que outros, como a Espanha e o Reino Unido, o façam, já será muito difícil. Se o aprofundamento e o alargamento da União foi conseguido com relativo sucesso quando havia dinheiro, o que se quer levar a cabo para salvar o euro conduzirá o velho continente ao desastre. Uma federação criada numa época de crise, em que a capacidade negocial é mínima, em que qualquer solução é imposta, não tem futuro. Só criará ressentimentos que conduzirão ao colapso daquilo que tantos anos levou a construir.

Continuando o raciocínio do artigo referido no primeiro parágrafo, a solução preconizada não é assim tão descabida. Na verdade, o Reino Unido tem outras soluções além da Europa. Bem vistas as coisas, a Europa também. Aliás, a resolução dos problemas europeus foi sempre encontrada noutros continentes. O que foram os Descobrimentos senão uma abertura dos europeus ao mundo, buscando outras formas de obter os produtos de que necessitavam? O que foi o desbravamento de novos territórios senão a procura de espaços para se viver? O que seria da Europa sem a entrada dos EUA nas duas guerras mundiais? Onde está hoje a força de alguns países europeus, se não entre os países que falam as suas línguas? Que seria de Portugal sem o Brasil, Angola e Moçambique? Do Reino Unido sem os EUA, o Canadá e a Austrália? Da França sem a sua influência no Magrebe, no Sudeste Asiático e no Pacífico? Da Espanha sem o continente sul-americano?

O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, afirmou há dias que, com a procura de investimento angolano, o futuro de Portugal é o declínio. Apesar de não agradar a forma como os empresários angolanos fazem dinheiro, para alguns países europeus o regresso ao Atlântico é uma alternativa natural. Por isso já há tantos portugueses em Angola. Durante anos o aprofundamento dos laços com o Brasil foi preterido devido ao risco que tal implicava para a Europa, como aconteceu com a obtenção dos vistos. Precisamos todos de dinheiro e sangue novo. Uma vez mais, ele está lá fora e vai ter profundas implicações no equilíbrio europeu. Quais, não podemos prever. Como no passado, o mundo bateu à porta da Europa e vamos ter de a abrir.

Fevereiro 6, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Cultura,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política — André Abrantes Amaral @ 09:42

O meu artigo para o jornal i de sábado que, a partir deste fim de semana, passa a ser semanal.

Sopa de letras

Quem estuda a língua, estuda a sua evolução; não a muda. Se o português é uma língua viva, não precisa ser mudada por decreto

It’s a beautiful thing, the destruction of words.
1984, George Orwell

Vasco Graça Moura ordenou a não aplicação, no CCB, das regras do Acordo Ortográfico que desde do início do ano passaram a ser aplicadas nos documentos do Estado. De 2009, ano em que o acordo entrou em vigor, até 2015, foi-nos dado um tempo de adaptação às novas regras. Regras difíceis para quem sempre procurou não dar pontapés na gramática. Custosas de compreender para quem procura ler o que está escrito. Porque o problema do acordo é precisamente esse: mudar a nossa forma de escrever e, se lermos convenientemente, de falar. Uma das várias alterações será a eliminação das consoantes mudas, mesmo quando estas servem para abrir a vogal anterior. Veja-se a título de exemplo, as palavras como projecto, exacto, acção e directo, que lemos acentuando as vogais que antecedem a consoante muda. Com as novas regras, deveremos lê-las como projeto, exato, direto e ação, assim mesmo como lhe sai da primeira vez que as vê, que é a natural, sem acentuar as vogais ‘e’ e ‘a’. Muda a forma como fala, não muda? Ou não mudará se contornar as regras básicas do português para fingir que tudo está igual.

É este o grande senão do acordo ortográfico. Mudar ao mesmo tempo que faz de conta que fica na mesma. Ao contrário do que se passou com a eliminação do ‘ph’ que já se lia com o som da letra ‘f’, em que adequámos a forma de escrever ao modo de falar, vamos agora a mudar a forma de falar porque estamos a alterar o modo de escrever. Enquanto na reforma ortográfica de 1911, as alterações visaram adequar a escrita à fala, à rua, que, com o tempo e o uso, tinha simplificado a língua, o que se pretende hoje é forçar uma facilitação decidida por decreto. Por isso, em 1911, os dígrafos de origem grega foram substituídos por grafemas simples: ‘th’ e ‘ph’ passaram a ‘f’; ‘rh’, foi substituído por ‘r’, ou ‘rr’, conforme os casos. Não houve uma mudança, mas uma adaptação da teoria à prática. Ao que se falava na rua.

Precisamente o contrário do que se quer com o acordo ortográfico que é decretar a rua a seguir os gabinetes. Ora, que mais não é uma língua que muda por decreto, que uma língua morta?

Syme era um inteligente funcionário do Ministério da Verdade que, no célebre ‘1984’ de George Orwell,  trabalhava no aperfeiçoamento do dicionário da nova língua conhecida por Newspeak. Syme não compreendia porque existiam tantas palavras com significados semelhantes. Não percebia a razão de ser dos sinónimos. Para ele, estes serviam apenas para criar confusão, permitir, através de palavras de significado semelhante, dizer coisas diferentes. O que em qualquer língua é a sua riqueza, para ele não tinha razão de ser. Pelo contrário, era algo que impedia o entendimento entre os cidadãos. Podia criar dúvidas que, para alguém que via a língua como uma mera soma de palavras, era desnecessário e até perigoso. Por isso, deliciava-se em destruir palavras. Em reduzi-las ao ponto de para cada facto, objecto, sentimento, haver apenas uma possível. A eficiência na sua máxima expressão e Syme era eficiente.

Qual a razão de ser do acordo ortográfico? Dizem os seus defensores que é para facilitar o comércio com o Brasil, ou aproveitar a influência que este vai ter no mundo. Eficiência. A sempre velha eficiência, não ao ponto de eliminar palavras, mas as destruir, eliminado letras. Apagando as suas especificidades. Os seus vários significados que estão na posse de quem gosta da língua e a aprende e a usa em todo o seu potencial. O objectivo do acordo é esse: não tendo a língua segredos, não haja quem os descubra. Todos a falar e a escrever o mesmo. O gosto pelo poder que dá obrigar, em poucos anos, o que só se consegue em séculos: mudar o modo como os outros se expressam. Falam e escrevem. Comunicam. Um poder imenso na mão de técnicos que encaram a língua como um sopa de letras e não parte da nossa vida. Técnicos de uma língua morta, mas que não é a nossa.

Fevereiro 3, 2012

República vs Monarquia

Filed under: Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:21

Não me parece que seja a mudança do presidente pela do rei que resolva os problemas do país, tal como não foi a troca do rei pelo presidente que os solucionou há cem anos. De qualquer forma, o debate continua e é salutar.

Fevereiro 2, 2012

Formigas

Filed under: Comentário,Internacional,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 15:19

“(…) à long terme la croissance d’un pays est déterminée par trois facteurs: la croissance de la population active, le progrès technique et l’augmentation du stock de capital.”

Lemos esta entrevista no Le Figaro e, se os problemas do Japão de hoje, forem nossos amanhã, vamos ter de ser formigas durante muitos anos. Poupar e ter filhos. Amealhar e multiplicar. A solução é fácil e, bem vistas as coisas, nem é muito cara.

Janeiro 30, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Economia,Insurgentes nos media,Política,Política Fiscal,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:33

O meu artigo para o jornal i deste sábado.

Caro senhor primeiro-ministro

É preciso reduzir depressa a despesa pública, para pôr fim à política de austeridade

Quando venceu as eleições, em Junho passado, as expectativas não eram muito altas, tão grandes eram os desafios. Independentemente disso, acreditei e votei em si. Depois de tanta mentira rebuscada, estava disposto a acreditar em alguém que não escondesse a verdade. E a verdade é dura, como o senhor primeiro-ministro já deve ter percebido. Não me arrependi. E é precisamente por não me ter arrependido que lhe dirijo esta crónica.

Quero recordar-lhe os perigos que corremos caso o seu governo falhe. O desastre que será não reduzirmos a despesa do Estado e regressarmos às políticas que nos trouxeram até aqui. As políticas que implicam cobrar impostos altos à população com vista a satisfazer os interesses privados de alguns. De poderosos com fácil acesso ao poder que nos querem convencer serem no nosso proveito os seus projectos privados. Passarem por público um interesse que mais não é que corporativo. Se estes são os riscos do seu falhanço, o que podemos conseguir com o seu sucesso?

Antes de mais nada, um país de cidadãos livres. Onde a liberdade não se reduza a votar, mas se estenda à vida do dia–a-dia. Livres de darem o destino que queiram ao dinheiro que ganham com o seu trabalho. De investir, poupar, gastar, comprar e vender, sem que isso implique um motivo para terceiros, através do poder estatal, se imiscuírem. Um Estado livre das chantagens corporativas. Um país livre do estrangulamento legal que essas chantagens implicam. Um Estado presente em nome de todos e não de alguns. Um país onde as pessoas percam o vício de esperar do Estado aquilo que apenas podem conseguir por elas próprias. Onde a educação seja um direito, mas acima de tudo um dever. Um dever que cada cidadão tem de seguir e assumir. Essa é a única forma de os jovens não serem encaminhados para cursos que tanto jeito dão aos que conseguiram a licença para os ministrar. Um país onde haja menos empresas públicas e menos empresas a viver com o beneplácito do Estado. Empresas que, desvirtuando as regras dos mercados, que são as do cidadão comum, impedem que os produtos se vendam a preços mais baixos e competitivos. Um país onde o sucesso já não seja conseguir um emprego para a vida, mas ter um trabalho que seja uma mais–valia para os outros. Precisamos que o Estado gaste menos e isso implica uma forte redução da sua actividade. Só isso permite que a despesa pública baixe para níveis que possibilitem descer os impostos. Porque apenas a redução dos impostos fará a economia voltar a crescer. Criarmos mais postos de trabalho. Vivermos melhor e não ter de haver tantos a ir embora.

Se não conseguir esta mudança, o senhor falhou. E o senhor não pode falhar, porque, se isso acontecer, a alternativa da oposição é mais despesa pública e mais impostos. Mais pobreza. Porque não pode falhar, o senhor não pode perder mais tempo. Tem de cortar seriamente na despesa do Estado. Tem de fechar departamentos, direcções-gerais e regionais, gabinetes, comissões de estudo e de análise. Tem de pôr um ponto final em muitas das funções do Estado. Vai ter de despedir funcionários públicos, porque em 2013 já não lhes poderá dizer que não paga os subsídios de férias e de Natal. Fazê-lo não seria justo para os muitos que trabalham no sector público e que são precisos. Vai ter de privatizar escolas, para que o Estado possa reabrir as que fechou no Interior. São medidas duras e o senhor terá de ser duro. Não vai ser fácil, mas ninguém lhe pediu que fosse primeiro-ministro. Foi o senhor que quis este trabalho. É o senhor que terá de o levar a cabo. Vai ter de tomar estas medidas, pois, caso contrário, os sacrifícios que os portugueses estão a fazer serão inúteis. Uma mera perda de tempo. E, senhor primeiro-ministro, nós estamos fartos de perder o tempo das nossas vidas à volta desta história da dívida pública.

Austeridade, recessão e CGTP no Combate de Blogs

Filed under: Comentário,Economia,Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:30

  O Combate de Blogs deste sábado, com Marta Rebelo e o jornalista Filipe Caetano, sobre a austeridade e as suas implicações na economia, pode ser visto aqui.

Janeiro 20, 2012

O milagre chinês

Filed under: Comentário,Internacional,Nanny State Watch,Política — André Abrantes Amaral @ 17:46

Um excelente vídeo que ilustra bem o que tentei explicar no meu artigo para o jornal i sobre a verdadeira situação na China.

Janeiro 16, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:45

O meu artigo deste sábado no jornal i.

Pare, escute e olhe

As críticas à ida de Soares dos Santos para a Holanda, só beneficia os culpados da triste situação em que nos encontramos.

A sociedade Fernando Soares dos Santos, detentora da maioria do capital da Jerónimo Martins, decidiu mudar a sede social para a Holanda. De acordo com Alexandre Soares dos Santos, esta decisão deveu-se à instabilidade fiscal em Portugal e às boas condições que a Holanda oferece às empresas. A quem investe, monta um negócio e cria postos de trabalho. Algo a que, descobrimos nos últimos dias, a Holanda dá imenso valor. Algo que, atentas as críticas de tantos comentadores e os boicotes tentados ao Pingo Doce, me leva a concluir que não prezamos muito.

Nos últimos 25 anos, o estado português sobreviveu à custa de um aumento gradual dos impostos e de um endividamento ao exterior que, para ser pago, nos levou às medidas de austeridade que conhecemos. Foram muitos os avisos de que quanto mais o estado exige a quem trabalha, menor é a vontade de trabalhar. É a velha máxima de quanto maior a tributação, menor é a competitividade. Infelizmente nenhum governante se preocupou com esta situação, ou alterou a forma como geria os interesses do país. Porquê? Porque acreditavam no que faziam. Melhor: porque faziam aquilo em que queriam acreditar. Porque queriam que o Estado fosse o motor da economia e que quanto mais este investisse e regulasse a actividade económica, melhor. Melhor para o país, já vimos que não. Mas melhor para o conceito de vida política que impregna o íntimo dos nossos governantes. Os convence do direito de, conquistado o poder político, terem acesso ao poder económico. Distribuir benesses, repartir favores. Serem influentes, não à custa do que conseguiram com o trabalho, mas do dinheiro que cobram aos cidadãos.

O ruído à volta da decisão de Alexandre Soares dos Santos tem sido muito aproveitado pelos políticos de esquerda. Depois de tanta asneira cometida que nos obriga passar pelas dificuldades que conhecemos hoje, não há nada como atirar poeira para cima dos outros. E é aqui que precisamos ter cuidado. Que devemos parar, escutar e olhar com atenção para o que se passa. Para o porquê das coisas. A crítica à mudança da sede de uma sociedade, perfeitamente legal e que já aceitaríamos de bom grado se nos beneficiasse, é irracional e susceptível de ser conduzida por interesses que não nos dizem respeito. Por motivos que apenas interessam a quem tanto nos prejudicou nos últimos anos. Vivemos tempos difíceis com o desemprego, os salários em atraso e as poupanças a serem destruídas. Tempos que vão agudizar ódios e ressentimentos; sentimentos propícios para discursos oportunistas e demagógicos. Próprios de quem instiga a inveja e a animosidade, como forma de justificar o seu discurso ultrapassado e estatizante.

Os políticos que criticam Soares dos Santos são os que andaram de mãos dadas com empresários, orgulhosos por os terem a investir em Portugal. São os que criticam a escolha de Catroga para a EDP, mas esquecem que a única forma de isso não acontecer é o estado sair por completo das empresas. Agora, em que a forma de cativar investimento é reduzindo o poder do estado, estes políticos estão assustados. Assustam-se porque receiam perder influência sobre os escolhidos. Porque a alternativa que sugerem, de impedir decisões como as da deslocação da sede de uma sociedade para o estrangeiro, implica o estabelecimento de um estado policial onde tudo é proibido, desde que não seja em prol do estado. Do poder político, mascarado de patriotismo. Ou já nos esquecemos como nasce o nacionalismo bacoco? Assim, antes de reagirmos a quente, precisamos pensar muito bem nos motivos de quem nos atira poeira para os olhos. Por que o fazem e com que objectivos. Temos de ser mais cuidadosos na análise da informação que nos chega. Na verdade, além de pagarmos impostos, também servimos para pensar.

Janeiro 13, 2012

O sucesso de Ron Paul

Filed under: Comentário,Internacional,Política — André Abrantes Amaral @ 12:05

A leitura deste artigo de Charles Krauthammer sobre os excelentes resultados de Ron Paul nas primárias republicanas, é da máxima importância para se perceber a mudança que está a ocorrer no GOP.

Paul está a cativar o eleitorado mais conservador, juntando-o aos libertários. O que vai sair disto daqui a 10/15 anos, pode ser muito benéfico para todos.

Janeiro 12, 2012

Espantoso

Filed under: Blogosfera,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 14:19

A questão neste ‘post’ é  saber como é que alguém compreende um argumento, se nem se dá ao trabalho de acertar no nome de quem o escreveu.

Janeiro 9, 2012

China (2)

Filed under: Comentário,Internacional — André Abrantes Amaral @ 12:07

No seguimento deste meu artigo para o i, a somar aos que referi neste ‘post’, aqui vai outro aviso sobre o que se passa na China. Não ponham muita fé nos chineses que ainda se vira o feitiço contra o feiticeiro.

Janeiro 4, 2012

China

Filed under: Comentário,Internacional — André Abrantes Amaral @ 17:26

No seguimento deste meu texto sobre a China, aproveito para juntar alguns outros artigos sobre o mesmo tema e o difícil ano que 2012 vai ser para o regime chinês.

China’s New Leaders Get in Line.

China’s Shaky Economic Foundation.

The Coming Collapse of China: 2012 Edition, por Gordon Chang.

Is China Ready for 2012?

Janeiro 3, 2012

O Ouriço

Filed under: Blogosfera — André Abrantes Amaral @ 09:42

O novo ano inicia-se com o surgimento de um novo blogue no qual participam, entre outros, João Gomes de Almeida. A não perder.

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