
No Cinco Dias devem ter gostado da imagem.

Sempre me pareceu verdadeira a ideia de que os padrões da Educação em Portugal, particularmente nos critérios de avaliação, têm vindo a baixar nas últimas décadas. Também sempre me pareceu que o caso português não era o pior. Contacto todos os dias com alunos universitários do mundo inteiro. Não lhes descubro qualquer particular superioridade académica (muitas vezes até o contrário). Numa altura em que temos um ministro da Educação anti-”eduquês”, a OCDE produz esta recomendação no mais retinto “eduquês”. Julgo que reflecte bem o que se pensa sobre isto na Europa.
Pois é Miguel, assim que se percebeu quem era Mohamed Merah, seguiu-se o silêncio nos sítios do costume. Eu bem procurei, mas nada. Nem umas consideraçõezitas do tipo das que se produziram ao tempo do Breivik: ”não há loucos isolados”, ou os “loucos são sempre representantes da sua cultura”, etc. Talvez seja por causa da greve geral.
De qualquer forma, é possível que ainda apareçam por aí saudosos tópicos: se não é a incitação ao racismo por Sarkozy (desta vez não dá), será talvez a “agressão do Ocidente ao Islão”, ou até a “segregação dos imigrantes árabes no seio da sociedade ocidental”. É que isto é sempre preso por ter Breivik e preso por não ter.
Não precisaram de 24 horas para exigir que o Nobel da Paz fosse retirado a Ellen Johson Sirleaf depois de ela ter defendido a manutenção da criminalização da homossexualidade na Libéria. Passaram quase três anos da manutenção de Guantánamo aberto, de tortura em prisões secretas e de ataques a civis algures entre o Paquistão e o Afeganistão, mas o mesmo não se ouviu sobre Barack Obama. Pouco importa o mais que Johnson Sirleaf terá feito pela Libéria, por África ou pelo mundo. Ela não gosta de “picolhos e fufas” (palavras da Ana Matos Pires), a gente tira-lhe o prémio e prontos! É triste.
Perante as notas do João Rodrigues a respeito do que aqui disse sobre o sistema bancário, em particular perante a pergunta: “que nos propõe Luciano Amaral? Uma vaga disciplina de mercado, um regresso a um padrão-ouro de má memória?”; tenho de reconhecer que a minha posição não é inteiramente realista. São muitos séculos de uma certa socialização da banca, que não se mudam do pé para a mão. Acresce que, em democracia, alguma autonomia monetária os países têm de ter, o que significa que o banco central de um país democrático sempre terá tendência para intervir, muitas vezes para evitar falências bancárias. As democracias continuam a ser essencialmente nacionais, embora mais ou menos abertas ao exterior. É por isso que eu acho que o padrão-ouro (como, de resto, também o euro na sua fórmula actual) são dificilmente compatíveis com a democracia: o padrão-ouro transformaria as democracias nacionais em meras gestoras do boom & bust gerado pela situação dos pagamentos internacionais, o que acabaria por ser a própria negação da democracia. Sem exagerar, é o risco que corremos hoje no euro.
Mas o facto de a minha posição não ser inteiramente realista não me faz pensar que devo abandonar a ideia de que a disciplina de mercado seria melhor para o sistema financeiro, como aliás é para o resto da economia. Eu não confundo um sistema político e económico ideal com as possibilidades reais. O primeiro é abstracto, as segundas estão sujeitas a uma certa História, a certas circunstâncias concretas. Julgo que é esta posição que distingue um não dogmático de um dogmático. Eu aprecio a democracia (lá está a famosa frase não dogmática: é o pior que existe excepto tudo o resto) e, por isso, estou disposto a prescindir de partes daquilo que penso em favor de ideias com que não estou de acordo em nome da preservação da dita democracia. Agora, no “mercado das ideias” democrático, tentarei propor as minhas, sabendo que umas vezes elas serão aceites e que outras vezes não serão aceites. Por isso sei perfeitamente que jamais o sistema financeiro será completamente sujeito à disciplina de mercado. Mas não deixarei de propor que a comunidade democrática a que pertenço adopte maneiras de o fazer aproximar disso. Acho, definitivamente, que as nossas comunidades democráticas deveriam mesmo arranjar maneira de tornar a actividade bancária (e similares) mais arriscada do que é hoje. No passado já foi, mesmo em democracia. Por isso, uma “certa” disciplina de mercado não é assim tão irrealista.
Agora, no que não acredito mesmo é nos benefícios da nacionalização bancária, ao contrário do João. Uma banca completamente politizada, sem qualquer “disciplina de mercado”, seria o convite a criar-se a ideia de que o crédito é ilimitado, de que é sempre possível fazer tudo. A prazo, qualquer economia seria destruída por isto. No passado, para além de Portugal 75-85, há outros exemplos: a Itália fascista é um deles, ou os países socialistas. Neste último caso, o resultado foi mesmo uma “super-financeirização” da economia. Não através de banqueiros privados, mas através do perdão sistemático das dívidas das empresas. Resultado: o crédito continuava e elas continuavam a produzir aquilo que não era necessário e a não produzir aquilo que era necessário. Acrescendo a isto um processo inflacionário descontrolado. No caso dos países socialistas, como os preços eram fixados por decreto, a inflação via-se na escassez de produtos no mercado oficial e na existência de um mercado negro florescente onde tudo se comprava a 4, 5, 10 vezes mais do que a tabela.
Em suma, por tudo isto, acho que os nossos sistemas financeiros precisam de disciplina de mercado e não de socialização. Como já disse, socialização é o que existe e não me parece bom. E continuo a achar que a socialização do João jamais seria a solução.
O João Rodrigues acha que o episódio da falência da Lehman Brothers exemplifica a disciplina de mercado a que eu acho que o sistema financeiro deveria estar sujeito. Não percebo bem: a Lehman foi a única grande instituição financeira internacional que se deixou falir; todas as outras foram salvas. Um caso não faz disciplina de mercado. Diz o João Rodrigues que o caso Lehman deixou a economia mundial à beira do colapso. Presumo que queira dizer que, caso se deixasse o processo continuar para outras instituições, a economia entraria mesmo em colapso. Está por provar, uma vez que não se deixou o processo continuar. Mas admitamos que sim, que haveria esse colapso, para afastarmos um argumento desta conversa. Se isso acontecesse seria a maneira mais transparente de lidar com a “alavancagem” (ou, para usar uma terminologia que julgo que o João Rodrigues prefere: a “financeirização”) da economia mundial. Ou melhor, seria a maneira mais transparente de proceder à “desalavancagem” (ou “desfinanceirização”) que me parece essencial a essa mesma economia mundial. Os diversos apoios públicos que se multiplicaram na altura não foram senão, precisamente, a perpetuação da “alavancagem”.
O João Rodrigues prefere a “socialização” da banca. Mas isto foi a socialização da banca! É por isso que acho que o João Rodrigues entra numa contradição essencial: ele quer a “desfinanceirização” da economia mundial mas ao mesmo tempo apoia a sua perpetuação através de intervenções públicas. A menos que o seu problema seja com o facto de haver lucros privados. Mas eu acho que ele sabe que os lucros são apenas pequenos valores no conjunto da actividade bancária (1% nas melhores hipóteses). O grande problema da “financeirização”, sobretudo graças aos apoios públicos, é a situação de subsídio implícito em que vive o sector financeiro e a colossal desmobilização de recursos para outros fins que daí resulta.
Claro que aqui o João Rodrigues tem razão. Se a banca é uma actividade tão socializada, tão politizada, às tantas de facto não se justifica a ficção da propriedade privada: socialize-se mesmo a banca. Pois eu estou de acordo. O que acho é que não resolvia nada, precisamente porque os incentivos para a “financeirização” continuariam. Não seria a “financeirização” por “privados”. Seria uma “financeirização” assumidamente pública. Coisa que já aconteceu em muita parte do mundo. Só para dar o exemplo mais próximo: aconteceu em Portugal entre 1975 e 1985, e em boa parte esteve na origem das duas intervenções do FMI da altura, graças aos programas de expansão descontrolada do crédito manipulados pelos governos da época.
O João Rodrigues que me desculpe, mas a socialização já existe. Ele dirá que não é a sua socialização. Talvez. Mas a que existe não funciona bem e a dele também não funcionaria.
Fala-se que os detentores de uma percentagem entre 70% e 80% de dívida grega aceitaram o programa de troca de títulos. Parece que o sistema de chantagem em cascata funcionou e nem sequer será preciso ir aos maiores extremos na coerção. Resta saber para quanto tempo será esta “solução”.
“1. Barring a “miracle” (…) Greece will almost certainly have to activate collective action clauses to get sufficient participation in the debt swap, and the ISDA has said all along that:
the use of [CACs] to effect a reduction in coupon or principal or one of the other events set out in the definition of the Restructuring Credit Event could trigger [a credit event] if the other requirements of the Restructuring Credit Event were met (for example decline in creditworthiness), as its effect would be to bind all holders of the relevant debt.
2. It is prudent for ISDA to be prepared in the event that a credit event is determined to have occurred.
That was the declaration yesterday from the International Swaps and Derivatives Association, which is the body that officially decides when a “credit event” has occured, and credit default swaps (CDSs) paid out.
In fact, the ISDA is so prepared that it has drawn up a list of “potential deliverable obligations“ that market participants “reasonably believe are likely to be delivered into standard credit default swap contracts”.
In other words, financial institutions have submitted to the ISDA a list of bonds they think are covered by CDS insurance. These bonds will be reviewed by the ISDA if a “credit event” occurs – although the ISDA warned that:
Inclusion of an obligation in the list does not imply that the contributor, ISDA or the EMEA Determinations Committee has verified that the obligation actually is deliverable under the terms of a standard credit default swap contract“. (fonte)
Em resumo: esta notável trapalhada grega vai servir para saber se os credit default swaps ainda valem alguma coisa ou são apenas uma pilha de contratos assinados em papel molhado (como o Ricardo já tinha notado). Saber isto vai permitir-nos também saber se ainda existe um mercado financeiro internacional digno do nome.

Falta pouco (mais ou menos um dia) para sabermos se ficará claro para toda a gente que o incumprimento da Grécia tem pouco de “voluntário” da parte dos credores. Foi graças a alterações legislativas recentes na Grécia que ficou estabelecido que, desde que os detentores de 75% da sua dívida aceitem a redução dos compromissos, os detentores dos restantes 25% terão de o aceitar também. Ou seja, começa logo por não ser voluntário da parte, pelo menos, dos detentores de 1/4 da dívida. Mas mesmo os detentores de 75% ou mais que venham a aceitar até amanhã, fazem-no com uma pistola encostada à cabeça: basta que os detentores de 66% aceitem para que o governo grego accione as cláusulas de acção colectiva que tornam aplicáveis as reduções de compromissos não só a esses 66% mas também aos restantes credores. E, para completar o quadro, o governo grego ameaçou todos com um incumprimento total caso o limiar dos 66% não seja atingido. Se tivesse um maluco com um serra eléctrica a ameaçar cortar-me o braço caso não o deixasse cortar-me a mão, se calhar também aceitava “voluntariamente” que me cortasse a mão.
Mesmo assim, ainda tudo pode acontecer. E caso esta magnífica maquinaria não funcione até amanhã, o abandono do euro pela Grécia tornar-se-á uma prática inevitabilidade e, depois, sabe-se lá o que acontece.
O presidente da Comissão executiva do BPI defende que se deve “privatizar parte da Caixa Geral de Depósitos”. Para quê? Desde há três ou quatro anos que percebemos que os bancos não podem falir. Ao primeiro estremeção, multiplicam-se as garantias e os apoios públicos: ainda hoje, são eles os beneficiários directos dos programas de liquidez do BCE. Valeria a pena privatizar a caixa se todo o sector bancário (incluindo a Caixa) se sujeitasse a uma efectiva disciplina de mercado. Senão, é mais ou menos indiferente.
Mas repare-se que a sugestão não é privatizar todo o capital da Caixa, apenas “uma parte”. Assim percebe-se melhor: uma vez cotada, a Caixa poderia adquirir bancos, fundir-se ou ser adquirida. E como seria excelente para qualquer banco dito “privado” colocar-se sob a sombra protectora da montanha de depósitos da Caixa e da garantia estatal que a protege e não precisa de ser accionada nem tem custos de comissão. Tinha a vantagem de ser mais explícito do que a ficção actual.
A questão levantada pelo artigo citado pelo Ricardo e pelo Ricardo sobre a legitimidade da interrupção da vida de recém-nascidos é a questão essencial sobre o aborto: qual o limiar da vida humana? Quem sempre se recusou a discuti-la tem poucas razões para se indignar com isto. No tempo do referendo (e noutros) escrevi umas coisas sobre o assunto. Destaco o seguinte, poque se apropria directamente:
não estou de acordo que o aborto seja despenalizado se feito “até às dez semanas”, muito simplesmente porque é um limite (ou um limiar) que não entendo. Não há nenhuma razão para pensar que a partir das dez semanas exista um ente em desenvolvimento na barriga da mãe diferente do que existia à nona ou à oitava. As dez semanas não trazem nenhuma alteração qualitativa à vida em gestação que tornem aceitável a despenalização de quem pratica o aborto até então. Não existe, a partir da décima semana, uma vida que passe a merecer protecção jurídica diferente da que existia antes e, por isso, também este aspecto da pergunta é suficiente para eu votar Não

Ainda não percebi se isto (Álvaro Santos Pereira perde gestão de fundos comunitários para Vítor Gaspar) é verdadeiro ou não. Mas, entre notícias e desmentidos, parece que sim. Ou seja, entrámos também no período da caça ao fundo (uma espécie de caça à multa mas de proporções épicas e sem ter de gastar dinheiro com polícias). Seria bom pedir já uma auditoria permanente ao destino destes fundos, não vão servir de receita extraordinária para cumprir o défice em 2012.
Quem diz que o Banco Central Europeu, ao contrário do que se passa na América, não “sustenta a economia” com liquidez praticamente ilimitada?
Ver aqui: O Banco Central Europeu (BCE) concedeu 529,5 mil milhões de euros de liquidez à banca da Zona Euro, um valor que superou as estimativas e o montante total do último leilão. Foram 800 os bancos que recorreram a esta linha de financiamento do BCE a três anos.
Face ao último leilão que a autoridade monetária fez a três anos (21 de Dezembro), houve um aumento de 277 entidades a recorrer a esta medida do BCE, ou seja, mais 52,9%, de acordo com os dados que foram divulgados esta manhã.
No que respeita ao valor total financiado, houve um acréscimo de 8,24%, ou 40,3 mil milhões de euros. Foram concedidos 529,5 mil milhões de euros, o que compara com os 489 mil milhões de euros observados na operação de Dezembro. Este montante é um novo recorde e compara com os 470 mil milhões de euros estimados pelos economistas consultados pela Bloomberg.
Este é a segunda operação de financiamento a três anos realizada pelo BCE desde Dezembro. O objectivo é dotar a banca de liquidez suficiente para conseguir superar a actual situação, que congelou praticamente todo o sistema financeiro, com os bancos a não conseguirem financiar-se e, como consequência, têm vindo a reduzir o financiamento da economia.
Mais qualquer coisinha aqui.
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O pacato cidadão que circule de carro numa cidade portuguesa por estes dias depara-se com um espectáculo notável: récuas de agentes da autoridade, em cada esquina (normalmente vias de grande circulação), incomodam uma multidão de pacatos cidadãos pacatamente dirigindo-se de carro para o emprego. É provável que quanto mais caiam as receitas fiscais mais se multipliquem estas operações stop, na esperança de umas migalhas para o saco roto do Orçamento.
A balbúrdia no trânsito que provocam, o tempo que fazem perder devem colocá-las na mesma política de estímulo à produtividade em que se incluíram a supressão de feriados e da tolerância de ponto do carnaval. Deve ser isto a opção estratégica de apoio ao sector dos bens transaccionáveis.

Escândalo: pobre recusa ajudar rico. Para onde vai o mundo?
São só uns esclarecimentos, até porque tenciono não voltar ao assunto, a menos que nova crise se precipite. Como sou um espírito zen, acho que não me vou aborrecer com certas coisas.
Já reparei que muitos dos que aparecem procurando desculpar Cavaco, começam pelo intróito: “eu não sou cavaquista, mas…” Pois eu tenho a dizer que, não sendo cavaquista encartado (digamos assim), sou certamente dos mais antigos defensores de Cavaco, já do tempo de primeiro-ministro e, não tendo passado pela etapa iniciática do Pulo do Lobo (o blogue), apoiei-o e votei nele para Presidente, dentro dos limites do meu entusiasmo e das minhas modestas capacidades.
Eu não acho que Cavaco tenha ensandecido e não acho que esteja acabado. Também acho que aquilo que fez é muito do seu interesse. O que tenho dúvidas é:
1 – Que seja do interesse do PSD e do CDS. O PSD e o CDS têm interesse em construir um corpo programático e em encontrar um espaço que os insira de forma eficaz no panorama político português. Não têm interesse em histórias obscuras, de eventos que não se sabe se realmente tiveram lugar, nem de que maneira, nem com que protagonistas. Se há uma razão para não andar a reboque desta história é uma e muito simples: ninguém sabe o que realmente se passou, a não ser os seus protagonistas. Como eles não nos vão dizer (pelo menos não dizem a mim), eles que resolvam o problema. E há outra razão, que é a do ponto seguinte.
2 – Que seja do interesse do país. O país não precisa de uma querela institucional entre Presidente e governo. A pergunta é: porquê e para quê? Alguém que me responda. Digamos que no final do conflito se muda a natureza do regime. Alguém é capaz de me dizer se será para melhor?
Em suma: na minha opinião a hora é de trabalhar, apanhar os cacos e fazer alguma coisa de novo. Não é de seguir às cegas um caminho, só porque lá ao fundo uma voz encantatória (se assim se pode dizer…) diz: “vem”.
Não queria acabar com um conselho, mas acho que vai ter de ser: eu não iria por aí. Mas como não estou na cabeça de ninguém e não mando na cabeça de ninguém, não posso (nem quero) fazer nada contra isso. É para isto que servem as escolhas. Elas depois têm é consequências, e eu acho que não iria gostar de muitas das que esse caminho oferece. Quanto ao mais, do as you wish.
Cavaco fez ontem um arremedo de golpe de Estado. Dois dias depois de um partido ter sido o mais votado, Cavaco veio dizer que, no fundo, ele não é bem legítimo, porque usa o poder indevidamente. Ao dar este semi-golpe de Estado, Cavaco naturalmente deve estar à espera de parceiros para embarcar com ele. Quer contar armas. Na minha opinião, é uma estrada que deve seguir sozinho. Que eu saiba (mas, claro, eu sei muito pouco), ninguém lhe encomendou esta guerra. Mais: não foi para isto que ele foi eleito. Ele foi eleito para ser o garante do regular funcionamento das instituições. Agora transformou-se no garante do seu irregular funcionamento. Até domingo, era o PS que queria lançar o regime numa espécie de guerra civil larvar. No domingo, graças aos resultados do BE e do CDS, deixou de o poder fazer. Ontem, Cavaco tinha a oportunidade de acabar com essa guerra civil e tinha todas as condições para isso. Graças ao resultado de domingo, ele voltara a ser o centro essencial do sistema político, aquele sem o qual nenhum partido (incluído o do governo) podia ter uma legislatura descansada. Em vez disso relançou o caos nesse sistema. Boa sorte.
Parece-me que o PSD não tem nada que assumir as dores das escutas: até prova clamorosa em contrário, é um problema da Presidência. Atenção: a prova tem de ser clamorosa.
Acresce que só tenho a agradecer às pessoas que votaram no CDS terem impedido que o país resvalasse para a espécie de guerra civil de baixa intensidade que o PS e demais esquerda andava(m) a preparar. Se o PS pudesse coligar-se eficazmente com o BE teríamos aí a radicalização esquerda-direita, arrastando o Presidente no processo e destruindo os últimos átomos de credibilidade do nosso regime. Para já, nada disso vai ser possível. Outras coisas serão, e logo veremos quais. Mas pelo menos essa não será. Conheço o argumento que diz que antes a radicalização do que estas águas mornas. Para mim soa-me a política do quanto pior melhor. Para além de que seria necessário que o resultado fosse melhor do que o que existe, o que não é nada garantido. Serei um conservador estúpido, mas por enquanto perfiro ainda explorar as virtualidades pacíficas deste regime.
O Adolfo tem razão. E mais: tenho visto muitos dos meus amigos do PSD tentarem explicar ao CDS o que deve e não deve fazer com os seus 21 deputados. É muito simples: os deputados são deles, ganhos com o maior mérito. E eles têm todo o direito a usá-los sem terem de ouvir liçõezinhas de moral de quem tinha obrigação de ter obtido um resultado melhor. O CDS seria o parceiro júnior natural numa coligação com o PSD, caso o PSD tivesse ganho com maioria relativa. Se o PSD queria influenciar o CDS, que tivesse conseguido pelo menos isso. Agora (pelo menos por enquanto), muito simplesmente, o PSD é irrelevante para o CDS. Não vale a pena andar a zurzir o CDS. Vale a pena é fazer o trabalho de casa.
Vem hoje no Diário Económico que o Governo e o Banco de Portugal não só esperam como esperam promover fusões bancárias. Eu julguei que grande parte do problema da corrente crise tivesse sido o facto de as maiores instituições bancárias serem “demasiado grandes para falir”, o que muito simplesmente significa que a elas não se aplicam as regras de mercado. Não em termos legais, mas efectivos, já que à menor ameaça sistémica segue-se uma intervenção pública salvadora. Bancos ainda maiores não me parecem solução para nada, a não ser (mais uma vez) para os salvar no imediato. O Carlos Novais anda há anos (quase sozinho em Portugal) a falar das discussões “austríacas” em torno da “banca livre” e das reservas de 100%. Tenho sérias dúvidas de que fosse praticável mudar radicalmente a lógica da banca nos últimos dois séculos (não só porque não seria facilmente entendido como porque poderia ter efeitos muito fortes de contracção da economia – uma espécie de cold turkey financeiro), mas não tenho dúvidas de que o único caminho para as nossas economias não permanecerem reféns da irresponsabilidade da banca (central e comercial) é apontar para esse tipo de soluções. Pelo menos, pelo menos (para não lhes pedir que adoptassem o “programa austríaco”), o Governo e o Banco de Portugal não deveriam preocupar-se com fusões, mas antes em aumentar legalmente os rácios de capital para níveis de segurança mais efectivos. E deveriam também pensar em proibir certo tipo de transacções financeiras promotoras de “alavancagens” insustentáveis: elas não correspondem senão à criação de moeda por outros meios.
André, limitei-me a fazer umas contas nas costas do envelope a partir dos dados que tinha à frente apresentados pelo Público. Tudo depende bastante de como classificar os não-inscritos. Mas também não é muito importante. Eu não pretendia fazer sociologia eleitoral elevada, até porque não tinha os dados nem tenho capacidade suficiente para isso. Uma coisa: eu não tenho dúvidas de que os partidos de direita foram os mais votados. Não houve, no entanto, um movimento maciço (ou até muito significativo) de transferência de votos para a direita. Por outro lado, como a direita europeia é muito diversificada, é difícil fazer uma interpretação dos votos na “direita”, que pode significar coisas diferentes.
Nada disto nem do que dizes parece alterar o que julgo ser o significado mais profundo das eleições: a terra de ninguém em que a dita “esquerda moderada” (digamos, para facilitar, os vários PSs por essa Europa fora) está colocada. Se a “direita” é mais difícil de classificar, já esta esquerda é mais ou menos a mesma pelo mundo fora. É aquela que tenta, e muitas vezes consegue, fazer a quadratura do círculo: dar a acreditar a parte do eleitorado de direita de que é capaz de governar, sem alienar a esquerda mais à esquerda. A crise teve o condão de fazer muita gente voltar às suas origens: à direita e à esquerda. O artigo que citas do João Rosas é precisamente o símbolo dessa confusão (apardalamento talvez até fosse a palvara mais adequada): ao mesmo tempo que condena a falta de imaginação da “direita” ou do “neoliberalismo” (não se percebe muito bem) revela a mais extraordinária falta de imaginação na análise da conjuntura. De imaginação e de pontaria: atira para todo o lado sem acertar em ninguém. É muito significativo do estado de confusão em que a esquerda moderada se encontra. Eles não querem perder a iniciativa para a esquerda mais radical mas mantêm aquela repugnância em serem classificados de direita.
…perdeu a esquerda “faustiana”. Não sei se me faço entender: a esquerda que fez o pacto com o diabo capitalista. A verdadeira esquerda mostrou-se disposta a perdoar-lhe (e a apoiá-la) enquanto o capitalismo estava a render. Quando veio a crise, acabou-se o namoro. Agora, o número de equilibrismo é recuperar a verdadeira esquerda sem perder o que se ganhou à direita. Vai ser impossível. Em Portugal, representa (pelo menos) o fim da maioria absoluta.
Diz-se por aí que a esquerda perdeu nas eleições europeias, a nível europeu. Sim, perdeu. Mas não foi toda a esquerda. Foi a esquerda dita da Terceira Via. Para usar uma medida sumária, no PE, o PPE fica com menos 2% de deputados, os liberais idem e a UEN perde 1%; tudo relativamente a 2004. Os Verdes têm mais 1% e a EU não sobe nem desce. Portanto, a direita perde e a esquerda mais à esquerda mantém ou sobe. É no PSE que se dá o descalabro, com menos 6%. Por outro lado, o que realmente cresce muito é o número de deputados Não Inscritos (cerca de mais 9% em termos de representação parlamentar). Presumo que isto signifique outro “voto de protesto” contra todas as formações políticas do PE.
Eis portanto a Europa a contraciclo da América, onde a Terceira Via ganhou. Resta saber se a Terceira Via americana terá um segundo mandato. Com a política económica que tem seguido, crescem as dúvidas. Take heed, take heed…
Mesmo que só tenha tido 11% dos votos, fala-se muito por estes dias do Bloco de Esquerda (enfim fala-se sempre muito do Bloco de Esquerda, mas agora fala-se mais). E já vi por aí muita gente decretar a morte do outro bloco: o Central. Perdoe-se-me a impertinência, mas as notícias desta morte talvez tenham sido exageradas. Imagine-se que PS e PSD terminam com votações parecidas com estas que tiveram e não conseguem formar coligações para o lado do seu respectivo espectro político. Só há duas soluções: governos sempre minoritários (mesmo de coligação) ou uma solução de maioria absoluta (o Bloco Central). Mesmo sem sermos tão radicais e admitindo que possam surgir outras soluções maioritárias, pode parecer a muita gente que o BC seja melhor do que elas. Ainda para mais seria uma situação que o Presidente da República não se importaria nada de abençoar. Pois, eu também não gosto. Mas assim se vê a força do BC.
Aquela conversa de Louçã sobre o PSD não ter ganho as eleições mesmo terminando à frente é uma inversão da velha reacção do PC a cada resultado eleitoral. O PC nunca perdia. Provavelmente, o PSD nunca ganha.
Deploro sinceramente a derrota do PDS (Partido das Sondagens) nestas eleições. É porque daqui até ao dia propriamente dito das eleições legislativas vamos andar por aí no escuro. Qualquer sondagem que daqui até lá saia tem o mesmo tipo de credibilidade que Santana no tempo da “incubadora”. Veja-se aquela sondagem espantosa que a SIC divulgou na própria noite das eleições: o PS tinha cerca de 40%. A gente, naturalmente, riu-se imenso.
1. Quem viu ontem as performances respectivas de Paulo Rangel e Manuela Ferreira Leite na sequência da vitória percebeu qual é o grande problema do PSD daqui até às legislativas. Enquanto Rangel agarrou logo a vitória com uma agressividade completamente apropriada à ocasião, dando ainda mais ar ao balão, Manuela Ferreira Leite desinchou-o logo a seguir. Quem quer ver o PSD ganhar as legislativas (o que não inclui muitas daquelas facções internas que estão sobretudo preocupadas em ganhar às outras facções dentro do PSD, mesmo que isso signifique perder fora) certamente pensou: que pena Paulo Rangel não ser o líder do PSD. Mal Manuela começou a falar, viu-se logo a continuidade das vitórias comprometida. Já tinha falado sobre isto aqui.
2. Não foi apenas Rangel a comprovar a importância dos aspectos individuais dos candidatos. Vital Moreira (meu Deus) também o fez, embora pela negativa. Viu-se ontem, com o evidente decoroçoamento no momento da derrota, que só então percebeu o desastre que vinha sendo construído desde o início da campanha. Ontem, caiu-lhe tudo aos pés. Depois de anos e anos no papel discreto de ex-comunista (nunca muito arrependido), no papel ainda mais discreto de académico “reputado” e, mais recentmente, de assistente submisso de José Sócrates, puseram-lhe enfim nas mãos a máquina do PS, o dinheiro e as agências de comunicação. Vital andou, de forma parola, visivelmente deslumbrado com a coisa. Ontem não sei o que terá percebido, mas certamente percebeu que não bastou para ganhar. Resta-lhe o belo ordenado de Bruxelas, que apesar de tudo compensa muita coisa.
3. A derrota do PS é muito maior do que se esperaria. Parece-me que bem podem dizer adeus à maioria absoluta, embora não necessariamente a uma vitória nas legislativas.
4. Ligado com isto, parece-me que começou ontem o esvaziamento da votação do BE. O PS e o BE funcionam em vasos comunicantes, do lado esquerdo do PS e do direito do BE. Com o reforço do PSD, muita gente no BE regressará à velha casa do PS na altura das legislativas. Afinal, estas foram mesmo eleições de protesto. Parece-me aliás que as votações relativas do PS e do BE nas legislativas vão depender da capacidade do PSD para se recompor. Não digo que o BE não se tenha afirmado mais consistentemente no panorama eleitoral, mas parece-me que não vale 11%. Terá talvez ganho de forma consistente alguns descontentes que fazem parte da tradicional clientela do PS – alguns professores e respectivas famílias, por exemplo, cujo destino natural fora do PS é o BE. Mas não sei se terá sido em número suficiente. Enfim, veremos.
5. A grande arma do PS vai continuar a ser o PSD. Melhor, as facções dentro do PSD. Muita gente diz que agora o partido vai ficar disciplinado atrás de Manuela. Não sei. O PS vai tentar tudo para alimentar algumas facções (como há tempos fazia com Pedro Passos Coelho) e elas provavelmente não se vão importar. Tudo depende de como avaliarem as reais possibilidades de o PSD ganhar aslegislativas. Se acharem que são altas, provavelmente não seguirão o canto da sereia. Se acharem que são baixas, vão continuar no seu frenesim. E convém não esquecer: Santana arrisca-se a ganhar Lisboa, o que lhe dará um grande palco para tentar a sua sorte.
6.Em suma: fun times ahead!
Depois do Japão, o Reino Unido. Só falta a vaca sagrada: os EUA.
Convinha que nos entendêssemos sobre as tão invocadas “fugas de informação”: elas existem, se não nunca saberíamos nada destas coisas que, supostamente, estão em “segredo de justiça”. Não são feitas é pelos jornais, são feitas pela “justiça”. Os jornais são só o megafone, papel que não é pouco relevante. E isto não é nenhuma teoria da conspiração. É uma mera questão aritmética: juntar dois mais dois. Alguém dá informação secreta e alguém a publica.
Afinal, a estratégia de Manuela Ferreira Leite era alta estratégia: as eleições em Portugal não se ganham; os outros é que as perdem.
Ainda há mais ou menos um mês, aproveitando o enfraquecimento relativo do Presidente causado pelo “Caso BPN”, o primeiro-ministro ignorou estrepitosamente a sua “magistratura de influência”, preparando-se para ignorar em absoluto o Presidente daqui até às eleições. Ainda dizem que a justiça não é célere: um mês depois, quem está seriamente no caminho para o esquecimento é o primeiro-ministro. Um mês depois, quem implora “cooperação institucional” é o primeiro-ministro. Um mês depois, é o Presidente quem tem o primeiro-ministro preso pelo colarinho à espera de cair no precipício. Nunca me pareceu boa ideia o primeiro-ministro meter-se com o Presidente.
Resta saber se estes dois não se conduzirão mutuamente ao precipício e, com eles, nós.

Obama telefona primeiro a Abbas do que a Olmert, fala primeiro a uma televisão árabe do que americana, reconhece erros na relação com o Irão… Não sei muito bem se isto é ingenuidade de quem acredita na sua própria propaganda e acha, portanto, que tudo o que “correu mal” nos últimos anos foi “culpa” de Bush. Ou então se corresponde ao supremo maquiavelismo de estender agora a mão aos inimigos para melhor os atacar depois. Seja como for, algumas respostas já vieram: o Hamas voltou a atacar Israel, o Irão “exige” que os EUA peçam perdão pelos “crimes” contra o Irão dos últimos 60 anos. Quem resiste a espetar o dedo numa almofadinha suave a ver até onde vai? Ou muito me engano ou vamos assistir à repetição de um padrão americano do século XX: uma vez passada a fase da “boa vontade” e “paz e harmonia entre os povos”, a esquerda americana irrita-se com a falta de compreensão do resto do mundo para com a sua notável bondade e passa a malhar forte por todo o lado. Foram presidentes democratas aqueles que mais brutalidade revelaram na relação dos EUA com o mundo, depois de uma fase inicial de grande compreensão face ao inimigo do dia: Woodrow Wilson e a I Guerra Mundial, Roosevelt e a II Guerra Mundial, Truman e a Guerra Fria, Kennedy e Johnson e o Vietname, Clinton e a Jugoslávia. É engraçado que o mais “democrata” dos presidentes americanos (Bush júnior) tenha tido a sorte e o tratamento que teve.
Dito isto e isto, as notícias recentes deveriam acabar de vez com uma perniciosa mitologia que tem sustentado um certo grupo de pessoas no PSD e uma certa forma de o PSD se entender a si próprio, e que tem levado a uma certa forma de o PSD se apresentar à sociedade: a do partido competente e dedicado à causa nacional. No fundo, a metáfora da “boa moeda”. Quando vemos a inépcia desta direcção (seja na forma de comunicar, seja nestas pequenas ou grandes gaffes, por palermas que sejam), quando vemos a “boa moeda” do partido embrulhada no enredo grotesco do BPN, tudo isso se torna risível. Talvez estivesse na hora de o PSD compreender que não há alternativa a estruturar um pensamento político (suficientemente vago e flexível para se adequar à mudança das circunstâncias mas também suficientemente claro para oferecer uma identidade). A mitologia dos homens bons e competentes nunca foi uma boa ideia e está progressivamente a transformar-se numa anedota.
Dito isto, MFL e esta direcção do PSD cavaram a sua própria sepultura, graças à assunção voluntária de uma certa herança política: eles são as pessoas sérias, que não se confundem com a ralé do seu partido, que não têm explicações a dar ao país, que não falam (como a própria MFL não falou, até ter mesmo de falar), que tudo sabem, tudo perceberam e que um dia verterão as suas notáveis soluções sobre o país ignaro. Se já tinham, naturalmente, todos os seus adversários políticos contra, conseguiram também colocar do mesmo lado mais dois grupos de pessoas: a) cerca de metade do seu próprio partido, que hostilizaram impiedosamente quando ela mandava no partido e no país (toda a gente se queixa do que Menezes faz agora a MFL, mas alguém se lembra daquilo que foi feito a Menezes ou a Santana, pela própria oposição interna, quando eles eram líderes do partido ou do país, num dos mais lamentáveis espectáculos de deslealdade política de que há memória?); b) a comunicação social, que para o bem e para o mal é uma força política a considerar e que, já de si, não é muito simpática para a direita. Andava tudo sedento de uma oportunidade para aplicar um golpe mortífero sobre a senhora. A oportunidade apareceu e o resultado o que se viu.
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