It’s a Brave New World…

O Público dá-nos conta de uma criancinha que fez história (ou fizeram uma história à conta da criancinha…). A pequena Della foi registada por um pai e duas mães. Fantástico! Se ter dois pais é uma riqueza, ter três é muito melhor.

Já agora, e sempre em nome da celebração da família e da inclusão, etc e tal, que tal registarmos os filhos em nome dos nossos irmãos, cunhados e amigos mais chegados? Os católicos têm aquela coisa dos padrinhos, não é? Nunca se sabe o dia de amanhã…

Ora confiram lá a coisa, aqui:

 

 

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Auschwitz

Já foi quase há 70 anos. Agora, mais que nunca, porque as memórias vivas começam a desaparecer, importa que não nos esqueçamos.

De uma forma ou de outra, estas “co-memorações” despertam para a necessidade de saber e de conhecer. Parafraseando Imre Kertész no seu discurso de atribuição do prémio Nobel em 2002: “O problema de Auschwitz não é o de saber se devemos manter a sua memória ou metê-la numa gaveta da História. O verdadeiro problema de Auschwitz é a sua própria existência e, mesmo com a melhor vontade do mundo, ou com a pior, nada podemos fazer para mudar isso”. (excerto final do texto de Esther Mucznick, hoje, no Publico)

Não podemos mudar o que existiu. Mas, enquanto existirmos, somos todos responsáveis pelo que vier existir.

Eppur si muove!

Para além de outras virtudes, o artigo de Ricardo Campelo de Magalhães (que não subscrevo na íntegra) tem o mérito de fazer saltar alguns coelhos da toca. Um deles é esta ideia, que aparece pela pena de João Miguel Tavares num comentário ao seu próprio artigo:

“(…) Mas isso não torna esta lei menos justa quando olhada da perspectiva de crianças que hoje em dia não têm o mesmo direito das outras, que é verem legalmente reconhecidos dois progenitores que elas tratam como tal.”

Ora o ponto continua a ser este. Por mais voltas que se lhe dê continua a haver este pequeno problema: os progenitores não são aqueles que a lei reconhece como tal, mas a moça e o moço que, juntando os trapinhos ou não, juntaram, com sexo ou sem ele, aquela coisa de que se fazem as criancinhas.

Não se trata de Direito Natural, nem de preconceitos religiosos, nem nenhuma dessas coisas medonhas de outros tempos. Trata-se apenas de conseguirmos aceitar a realidade tal como ela é. E, por vezes, a vida é madrasta.

O mundo ao contrário…

cavacobandeira

Talvez fosse oportuno relembrar um momento de grande elevação da política nacional. Não passou ainda um ano. E, talvez premonitoriamente, ocorreu durante as celebrações oficiais da última comemoração do 5 de Outubro como feriado nacional.

Sinal de fim de regime?

PS: para acompanhar com o som de “O mundo ao contrário” dessa grande banda nacional que, apropriadamente, se chama “Xutos e Pontapés”.

Unintended consequences?

Disse ontem o Senhor Presidente da República que:

“as eleições legislativas antecipadas comportam o sério risco de não clarificarem a situação política e, pelo contrário, podem contribuir para a tornar ainda mais confusa, mais precária e mais instável”.

Talvez. Mas, assim à primeira vista, eu diria que o discurso do Senhor Presidente as tornou muito mais difíceis de evitar… Dito isto, pergunto: afinal o Senhor Presidente estará a fazer um favor a quem?

A Vingança de Pilatos

Quem esperava hoje ponto final na tragi-comédia dos últimos dias enganou-se redondamente. Perante o abismo, o Senhor Presidente resolveu dar um passo em frente, encaminhando toda esta trapalhada para um clímax cujas consequências são imprevisíveis, mas dificilmente benignas.

Mais uma vez, o Senhor Presidente brindou-nos com um discurso cuja compreensão e sentido escapam ao mais elementar bom senso.

Depois de, na passada semana e por sua própria iniciativa, ter auto-limitado os poderes presidenciais – afirmando taxativamente que a legitimidade política do Governo só dependia da Assembleia da República –, hoje, qual Fénix, procura fazer-se renascer das cinzas. Mas acaba ainda mais queimado. Tristemente queimado. E, o que é mais grave, deixa o país a arder.

Quando foi tempo de intervir, não o fez. Escondeu-se. Agora é tarde. Demasiado tarde.

E, o que é mais grave é que não só não se percebe qual é o sentido da intervenção como fica por justificar qual a razão que motiva a intervenção.

Não será certamente o Governo de Portugal, porque esse, segundo afirmam o Primeiro Ministro em funções e os líderes dos partidos que suportam o Governo na AR está já assegurado.

O que motiva então esta “proposta” peregrina?

O Senhor Presidente fala-nos de um “compromisso de salvação nacional”. Excelente tirada, terá ele pensado. Muito bem. Mas eu pergunto: esse compromisso não está já firmado no chamado “Memorando de Entendimento”?

Ou então, tudo parece apontar para um lavar de mãos, como Pilatos. Mas nisso eu não quero acreditar.

Cumpre ao Senhor Presidente da República assegurar o regular funcionamento das instituições. Sim senhor. Mas sobre quem recai o dever de assegurar o regular funcionamento da instituição que é a Presidência da República?

É esta a pergunta que me parece que fica entre todos aqueles que ficaram sem palavras depois do discurso do Senhor Presidente.

Que sentido para a Liberdade?

Convite Ferin Berlin

A liberdade é uma daquelas palavras que, um pouco como a velhinha pasta medicinal Couto, anda sempre nas bocas de toda a gente. Infelizmente parece que sofre de um mal congénito: a polissemia. (sintomatologia complexa que parece afectar alguns dos conceitos mais fundamentais do linguajar político contemporâneo.) Isaiah Berlin foi, provavelmente, o mais certeiro de entre os vários senhores doutores que procuraram diagnosticar o fenómeno.

É o que vamos discutir logo à tarde, a partir das 18:30h, na Ferin, em Lisboa. Até logo!

Assim vai a nossa sociedade civil

Fiquei espantado com a força da nossa dita sociedade civil. Enquanto escrevia este pequeno texto a “Petição contra o abate do Pitbull Zico e de todos os outros Zicos”, recolheu mais de mil assinaturas (MIL!). É extraordinário. Independentemente do teor ou do propósito da Petição, dá-nos conta de uma sociedade vibrante, participativa, interventiva. Afinal não somos um povo passivo e desinteressado. Quando as coisas nos interessam, quando elas nos tocam, reagimos, intervimos. Óptimo! Ainda bem que assim é.

Ao que parece, o cão em questão terá atacado uma criança de 18 meses que acabou por morrer, no Hospital, em consequência dos ferimentos. O texto da petição referencia o ataque, mas não a morte da criança… (notícias aqui e aqui)

Por mim, nada contra. Não assino a petição, mas sou daqueles românticos que se bate pelo direito de cada um poder expressar as opiniões que entender.

Mas é com alguma tristeza, confesso, que vejo que no mesmo espaço de tempo em que a petição em defesa do cão que mata uma criança recolhe mil assinaturas, outras duas (esta, a que já aqui fiz referência, e esta), que procuram salvaguardar direitos humanos, ficam-se pelas unidades.

Assim vai a nossa sociedadezinha muito civilizadinha.

“Defender o futuro reduzindo a despesa”

Ora aqui está uma excelente réplica do António Maria Pinheiro Torres ao desafio lançado pelo Sr. Ministro das Finanças à “participação da sociedade civil na tarefa de refundação do Estado”. A “Carta Aberta ao Ministro das Finanças” foi publicada no Público, no passado dia 20. A Petição pode ser consultada e assinada aqui, e já só faltam menos de 300 assinaturas para que este contributo da sociedade civil não possa deixar de ser ouvido e discutido no plenário da Assembleia da República.

Parafraseando a tirada célebre de um ex-Presidente da República, apetece-me acrescentar que há mais vida para além da despesa.

Aqui fica a carta do António Maria:

Exmo. senhor Ministro das Finanças

Até Janeiro de 2013 dará entrada na Assembleia da República uma petição intitulada Defender o Futuro onde os seus subscritores, com diversas personalidades da nossa vida política, social, cultural e económica, fazendo eco das posições do Presidente da República, propõem ao Parlamento a reavaliação das diversas leis “fracturantes” aprovadas no consulado do Governo de Sócrates.
São essas leis as da Procriação Artificial, do Aborto, do Divórcio, do Casamento entre pessoas do mesmo sexo, da mudança de sexo e do financiamento do ensino particular e cooperativo.
Uma vez reunidas 4000 assinaturas (faltam apenas cerca de 500 para que tal aconteça) a petição será obrigatoriamente apreciada em plenário da Assembleia da República e pode bem vir a originar (espera-se) um ou mais processos de revisão destas leis, ou da respectiva regulamentação. O que terá consequências também a nível redução da despesa do Estado. Assunto sabidamente do interesse de vossa excelência.
Na verdade e actualmente, sem que tal decorra forçosamente do resultado do referendo de 2007 (onde a pergunta formulada respeitava unicamente à despenalização até às 10 semanas de gestação), o aborto em Portugal é completamente gratuito e confere à mulher que aborta o direito a uma licença de parentalidade de 15 a 30 dias e ao pagamento do respectivo subsídio correspondente a 100% do vencimento. Acrescem ainda os custos com as grávidas das ilhas: o pagamento de custos do avião, do alojamento em Lisboa (até duas pessoas), táxi na cidade e acompanhamento de um técnico social. Ou seja, basta que se ponha fim, no todo ou em parte, a esta gratuidade e subsídios injustos para que dezenas de milhões de euros/ano sejam poupados ao Orçamento do Estado (na Saúde e na Segurança Social).
Por outro lado, na sequência das novas regras que regem o divórcio, muitas mulheres tem sido precipitadas, mercê da perda do direito de alimentos, em situações sociais que as empurram para o Rendimento Social de Inserção, sobrecarregando assim o já tão esgotado orçamento da Segurança Social. Se os deputados entenderem (no que irão ao encontro do sentimento da comunidade jurídica) rever toda a nova legislação do divórcio que originou tantas e tantas situações de injustiça, pobreza e abandono, V. Exa. contará, também aqui, com uma significativa redução da despesa na Segurança Social.
Acresce que, mercê da lei da Procriação Artificial, e das regulamentações conexas, aumentam as situações em que os actos médicos implicados (altamente dispendiosos e de eficácia muito reduzida) beneficiam, em termos de custo e processos, de uma situação de vantagem em relação às pessoas em situação de doenças. O que, além de uma injustiça e desigualdade, constitui no orçamento da Saúde uma despesa na qual V. Exa. poderá contar com uma substancial redução de custos. Tudo de acordo com convenções internacionais a que o Estado português se obrigou, para protecção do embrião humano.
Começam hoje a ser reconhecidos os menores custos do ensino particular em comparação com o ensino estatal, pelo que, se os deputados entenderem que o serviço público de educação pode ser prestado por escolas estatais e não-estatais em pé de igualdade, e que às famílias deve ser dada a liberdade de escolha do ensino que pretendem para os seus filhos, da concessão desse serviço e da justiça e concorrência leal que daí resultará, poderá contar-se com uma muito significativa redução da despesa em Educação.
Existem outras consequências desta petição e dos resultados do trabalho de revisão das leis fracturantes a que os deputados serão chamados que não deixarão de ter outras consequências que interessam à missão política de V. Exa. e àqueles que um dia lhe sucederem nesse lugar. Na verdade, se forem seguidas as cautelas e preocupações em tempo manifestadas pelo Presidente da República, da revisão destas leis resultará um país onde a responsabilidade será um valor socialmente reconhecido, a natalidade corresponderá ao desejo das famílias e às necessidades da sustentabilidade do Estado Social, o sistema de Educação poderá ajudar a gerações de portugueses mais preparados e as famílias poderão encontrar um ambiente mais propício ao respectivo desenvolvimento. Tudo isso potenciando o crescimento do produto, a redução da despesa e a diminuição do défice. Isto é assunto de interesse maior de V. Exa. e de todos os portugueses em geral.
Esperando ter assim correspondido ao seu apelo à participação da sociedade civil na tarefa de refundação do Estado, subscrevo-me, com os meus melhores cumprimentos, de V. Exa., muito atentamente.

 

Ouvido na rádio…

Vinha eu para casa quando a rádio me deu conta das manifestações de estudantes em São Bento. Tratando-se de estudantes fico sempre com algum interesse, pelo que continuei a ouvir o noticiário. Brevíssima reportagem seguida dos inevitáveis testemunhos dos manifestantes. Um dos entrevistados, que se identificou como estudante do ensino público, estava claramente indignado e queixava-se: “pago mil euros!”

Pois. Em qualquer caso, essa propina, convém não esquecer, fica bastante abaixo do custo médio real por aluno — e eu, que nem sequer vi a cara do rapaz, não faço a mais pequena ideia se ele tem, ou não, qualquer justificação para ser subsidiado na sua formação.

Mas o que me pasmou foi o que o mesmíssimo jovem rematou, logo de seguida:

“eu tenho a certeza absoluta que dentro de 5 anos vou estar a pagar dois mil ou dois mil e quinhentos euros.”

Uma boa notícia? Será que temos aqui um jovem que finalmente percebeu que a formação que recebe tem um custo, e que é inevitável que o valor da propina (pelo menos) se aproxime desse custo?

Ou será que o rapaz, ocupado como anda com todas estas manifestações, já está a deitar contas à vida e prepara-se para ficar mais 5 anos a terminar a licenciatura?? (que, provavelmente, será uma licenciatura de 3 anos…)

Importa-se de repetir?!

Cavaco: portugueses esqueceram o mar, a agricultura e a indústria

Desculpe, estou siderado, importa-se de repetir?

Parece que o senhor Presidente da República nos aconselha a “olhar para o que esquecemos nas últimas décadas e ultrapassar os estigmas”.

Há por aí muito esquecimento. Há sim senhor. Neste caso do Presidente da República que parece ter-se esquecido de quem foi o Primeiro Ministro que promoveu o maior abate da frota pesqueira e o abandono da agricultura da nossa história recente.

Missão Impossível

Aqui fica a minha alfinetada de hoje no Diário Económico.

Dos partidos da oposição ao Provedor de Justiça, há um crescente coro, digno de uma tragédia grega, que exige ao Presidente da República que peça ao Tribunal Constitucional a fiscalização preventiva do Orçamento de Estado(OE). (Esquecem-se que o PR já respondeu negativamente a esta questão em Julho.)

Há aqui dois riscos: um é o de transformar a natureza do regime, politizando os tribunais; o outro é o da incompetência e injustiça da própria pronúncia do TC.

O que está em causa são opções políticas e não averiguações de mera legalidade constitucional. E, goste-se ou não, há uma maioria na AR que está legitimamente mandatada para governar. É ela que será sujeita a escrutínio em eleições – e não o TC. São estas as regras do jogo democrático.

Mas, a admitir-se a fiscalização do OE, ela também teria que se pronunciar sobre todos os anteriores, porque todos violaram o princípio da necessidade de cobertura das despesas pelas receitas. E só a má fé ou a irresponsabilidade podem admitir que a emissão de dívida se inclua do lado da receita.

Seria extraordinário condenar um OE que tem que resolver os problemas criados por dezenas de outros anteriores, deixando-os a todos incólumes.

Há aqui um enorme paradoxo: ou respeitamos a Constituição ou respeitamos o OE. Isto porque um orçamento equilibrado que respeite todos os princípios de uma constituição como a nossa seria sempre um exercício impossível.

De uma vez por todas, temos que ter consciência que aquilo que é exigido pela nossa Constituição em termos programáticos está muito para além da nossa capacidade de geração de receita suficiente. Por isso, talvez possamos vir a ser forçados a fazer uma escolha entre o OE e a Constituição.

Em bom rigor, é a viabilidade da nossa Constituição que deveria ser, de uma vez por todas, avaliada.

O que está em causa não é a constitucionalidade do Orçamento. O que está verdadeiramente em causa é o custo da nossa Constituição.

E que tal um orçamento “low cost”?

E pronto, confirmam-se as piores suspeitas: em vez de se preocupar com o que realmente importa — cortar na despesa — este Governo continua entretido em parvoíces como esta da implementação por decreto de mangueiras “low cost” nas gasolineiras (privadas?!).  Parvoíces que não são apenas ridículas; são reveladoras de um modus operandi intervencionista que claramente põe em evidência quão estranha é a este Governo qualquer ideia de liberalismo.

Continuamos bem entregues…

Um Ministério (aparentemente) cool

Para quem, como eu, se vai entretendo a plantar batatas, aqui ficam umas pequenas linhas sobre o Ministério que rege ofício. Hoje, no Diário Económico, em edição gratuita. E agora, se não se importam, vós sois muito boas pessoas, mas eu vou voltar para as serras, porque o ar nesta cidade está cada vez mais irrespirável.

Pequenas coincidências

Ontem o André Azevedo Alves escreveu sobre a questão da “asfixia fiscal”. Tomei-lhe a deixa e variei o tema para a asfixia democrática. É disso que fala o meu pequeno texto publicado hoje no Diário Económico.

Entre socialistas e aprendizes de socialistas, é cada vez mais claro que a partidocracia vai ficando esgotada no que toca a alternativas de governação. A crise financeira e económica pode bem vir a dar lugar a uma muito mais séria crise de regime. A ver vamos…

A Star is Born!

O discurso de Condoleezza Rice, ontem à noite, na Convenção Nacional Republicana foi, a todos os títulos, memorável. Muito mais que um discurso galvanizador do eleitorado republicano, foi o discurso de alguém que se afirmou como a principal reserva do partido republicano e referência nacional da política americana. Como ela própria sugeriu, ela pode, desde que o queira, ser Presidente dos EUA.

O discurso merece ser lido na íntegra (aqui ou aqui.). Ressalvo apenas algumas passagens que me parecem fundamentais.

Desde logo, a resposta à pergunta fundamental que vem sendo feita à administração Obama:

Where does America stand?  You see when the friends or foes alike don’t know the answer to that question, unambiguously and clearly, the world is likely to be a more dangerous and chaotic place.

Since world war ii, the United States has had an answer to that question.  We stand for free peoples and free markets.  We will defend and support them.

A resposta é claríssima e é complementada com a determinação que se exige a um estadista americano:

But we can only know that there is no choice, because one of two things will happen if we don’t lead. Either no one will lead and there will be chaos, or someone will fill the vacuum who does not share our values.

My fellow Americans, we do not have a choice.  We cannot be reluctant to lead and you cannot lead from behind.

Os EUA gostam de ser ver como líderes do chamado “mundo livre”. Foram-no, seguramente, desde a Segunda Guerra Mundial, quando o mundo estava dividido sob a influência de duas super-potências. Mas aí a liderança era o resultava da avaliação da dimensão e eficácia dos arsenais nucleares. Hoje, porém, vivemos num mundo aparentemente mais livre, mais globalizado, mais interdependente. Supostamente agora as batalhas seriam travadas no tabuleiro que é mais natural aos EUA — o tabuleiro do mercado livre. Mais eis que a antiga super-potência se vê agora ameaçada no seu próprio “backyard”. A China, nova potência, também joga no tabuleiro militar, é certo, mas é no económico que a sua ameaça se faz sentir.

China has signed 15 free trade agreements and is in the progress of negotiating as many as 18 more.  Sadly, we are abandoning the field of free and fair trade and it will come back to haunt us.

(…)

When the world looks at us today, they see an American government that cannot live within its means.  They see an American government that continues to borrow money, that will mortgage the future of generations to come.  The world knows that when a nation loses control of its finances, it eventually loses control of its destiny.

Eis a suprema ironia: a principal credora da hipoteca que está a ser lançada sobre as futuras gerações de americanos é essa mesma China. Não é preciso dizer muito mais. Como diriam os americanos, “do the math!”

E o discurso da estadista em ascensão termina com uma nota pessoal.

And on a personal note– a little girl grows up in Jim Crow Birmingham – the most segregated big city in America – her parents can’t take her to a movie theater or a restaurant – but they make her believe that even though she can’t have a hamburger at the Woolworth’s lunch counter she can be President of the United States and she becomes the Secretary of State.

Não se trata propriamente de uma nota pessoal. Trata-se de uma afirmação de liderança política como há muito não se ouvia nas democracias do chamado mundo livre.

Para quem quis ouvir, não é preciso muito mais: ela pode — basta que o queira.

A crise europeia vista da América

“It’s an ongoing Greek tragedy (..). We’re in the hands of the best efforts of European politicians. That’s a source of risk that’s difficult to forecast.”

(Stephen Wood, chief market strategist for Russell Investments, em entrevista à Bloomberg)

Sobre a liberdade e a propriedade privada

A propósito deste excelente post do BZ, achei que talvez fosse oportuno relembrar algo que “a nossa geração esqueceu”:

“O que a nossa geração esqueceu é que o sistema de propriedade privada é a mais importante garantia de liberdade, não só para aqueles que têm propriedade como para aqueles que não a têm. É apenas porque o controlo dos meios de produção está dividido entre muitas pessoas actuando independentemente que ninguém tem um poder completo sobre nós, que nós como indivíduos podemos decidir o que fazer connosco próprios.” (F. A. Hayek, The Road to Serfdom)

Este esquecimento sai caro. E, por vezes, o esquecimento paga-se com a liberdade.

Comunista ou perigoso neo-liberal?

Depois das notícias que o Primeiro-Ministro nos deu ontem, só mesmo o Bernardino Soares para me alegrar. Então não é que o ilustre e sábio deputado na nação (o mesmo que aqui há uns anos tinha dúvidas sobre se a Coreia do Norte não seria uma democracia) aparece agora a qualificar os novos impostos como “roubo”?! Sim, ROUBO, nem mais nem menos.

Afinal, nem tudo está perdido.

Força, Camarada! Junta a tua à nossa voz!!

 

Irresponsabilidade Ilimitada

A entrevista do Senhor Presidente da República foi, no mínimo, soporífera.

Lá mais para o fim o senhor, que se refere a si mesmo na terceira pessoa (no melhor estilo futebolístico), despertou-me do torpor com a ideia do crédito europeu ilimitado. Repito: ILIMITADO.

E, para que não restem dúvidas, o Senhor Presidente exemplifica, toma o caso concreto da Itália e recomenda como solução a compra ilimitada da dívida italiana. Perfeito! Afinal, qual é o problema? É só pôr a máquina do dinheiro a imprimir mais depressa.

Palavras para quê? É um artista português!

Regras de vestuário Vs. regras de jornalismo

 No Público de hoje vem uma notícia sobre a Universidade Católica, intitulada: “Católica cria regras de vestuário para alunos e professores”. Pelos vistos a notícia é de grande impacto para a vida deste país, já que o Público lhe dedica uma página inteira (a página 4) e dá-lhe uma chamada na primeira página do jornal. Muito bem. Como não há nada de muito importante a passar-se no mundo nestes últimos tempos, se calhar compreende-se…  

A notícia, em si, será relevante para o universo da Católica (onde me incluo, e por isso mesmo para mim tem algum interesse), mas duvido que tenha alguma relevância extra-muros. Aliás, como a própria notícia indica: “nesta matéria a UCP não é pioneira. Ainda há um ano, o Ministério da Educação aconselhava os professores a não usar havaianas, calções de praia, decotes e sapatos de salto alto durante os exames nacionais.”

Por outro lado, o texto da notícia não me merece grandes reparos — para além da opção editorial pelo destaque que lhe é dado. E aqui é que as coisas, a meu ver, se complicam. Ao lado da notícia aparece um “Comentário” de um jornalista do Público, sob o título: “Cristo entraria na Católica?” E, claro está, vêm logo as comparações subreptícias com os talibans ou com o laicismo do Estado francês. Tudo a propósito, claro…, num crescendo que prepara a estocada final de António Marujo — que, é bom que se perceba, nada tem que ver com o tema tratado pela notícia:

“O Conselho Académico de uma universidade católica poderia concentrar-se, por exemplo, na importância de criar alternativas à ditadura financeira dominante. E em que nela se ensinassem mais valores de acordo, por exemplo, com os apelos do Papa à “refundação do sistema financeiro” e menos com a formação de elites que reproduzem o desejo de lucro dos “mercados”.”

 Pois bem, já agora,também me apetece recomendar ao Conselho de Redacção do Público que se concentre um pouco mais nas opções editoriais que faz, e que, se possível, ocupe o seus redactores mais com o trabalho informativo e menos com a produção de comentários. Sobretudo comentários que, como este, não dizem respeito à notícia tratada mas apenas à agenda pessoal do jornalista que os escreve.

Post dedicado ao nosso futuro PM

E depois da festa eis que ressurge a dura realidade. E, conhecidos que são os dotes vocais do nosso futuro PM, não resisto a dedicar-lhe as duas primeiras quadras do “Yesterday” da autoria de Paul McCartney e imortalizada pelos The Beatles.

“Yesterday,
All my troubles seemed so far away,
Now it looks as though they’re here to stay,
Oh, I believe in yesterday.

Suddenly,
I’m not half the man I used to be,
There’s a shadow hanging over me,
Oh, yesterday came suddenly.”

Ou muito me engano, ou estas linhas devem descrever na perfeição o actual estado de espírito de Pedro Passos Coelho. E não será apenas uma; na verdade são  muitas as sombras que pairam sobre ele…

PBN: o partido sem representação

O Partido dos Brancos e Nulos aproxima-se perigosamente do Bloco de Esquerda, o último partido com representação parlamentar.

E, mais uma vez, ninguém fala neles, mas os votos brancos e nulos continuam a crescer. Hoje somaram 223.338 votos. Não são eleitores que encolheram os ombros e preferiram ir para a praia. São os votos, tão legítimos como quaisquer outros, de mais de duzentos e vinte mil de eleitores portugueses que não se revêem em nenhum dos partidos que se candidataram a estas eleições.

Quando se pensa sobre a democracia em Portugal, este é um número que não pode ser esquecido.