De quem falamos quando falamos de José Sócrates

Como seria de esperar, as atribulações do recluso preventivo José Sócrates continuam a encher os jornais e blocos informativos das televisões. Hoje, deu-se grande destaque à carta que enviou através do seu advogado, protestando a sua inocência e atacando a acção do sistema de Justiça contra a sua excelsa pessoa. É normal que uma pessoa se defenda e jure a sua inocência. Mas convém que não nos esqueçamos de quem estamos a falar. Há pouco mais de um ano, uma jornalista da revista Sábado contactou José Sócrates, para lhe fazer algumas perguntas acerca da sua tese de mestrado. Perguntou-lhe, por exemplo, se o tema da dita era, como ela julgava ter sabido de fonte fidedigna, a tortura. Sócrates respondeu categoricamente que não, que a jornalista não o escrevesse na revista já que “estará a enganar e a induzir em erro os leitores”. Menos de um mês depois, o Expresso noticiava, usando o próprio Sócrates como fonte, que a sua tese seria editada em livro, e que o tema era, precisamente, a tortura. A Sábado contactou Sócrates novamente, para saber por que razão Sócrates tinha mentido acerca desta questão, ao que este terá respondido “Você disse que a minha tese era sobre tortura e não é. A minha tese não é sobre tortura. É sobre tortura em determinadas circunstâncias, embora, é claro, eu não tenha na altura acrescentado essa informação” e que “aproveitei uma imprecisão da sua parte para lhe dizer que não”. Ou seja, acerca de um assunto tão comezinho – e que seria tornado público pouco depois – José Sócrates mentiu descaradamente, justificando o facto de ter mentido com o ter tido oportunidade de mentir. É de alguém assim, com uma relação de conflito com a verdade que roça o patológico, que estamos a falar. Não tendo até agora nenhuma informação que me possa fazer ter opinião acerca da culpabilidade ou inocência de Sócrates no caso que o coloca em Évora, e sendo verdade que cabe à Justiça provar que (se houver culpa) ele é culpado e não a Sócrates provar que é inocente, eu (que como bem diz o João Miguel Tavares, estou apenas a formar um juízo sobre a sua pessoa e não a decidir sobre se deve estar em liberdade ou atrás das grades) olho para o passado de José Sócrates e não consigo deixar de partir do princípio de que tudo o que ele possa dizer é mentira. Porque é fácil de verificar que ele é capaz de mentir acerca de qualquer coisa.

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Compreender o putinismo XI

ARGENTINA-RUSSIA-KIRCHNER-PUTIN

Algo completamente inesperado e que ultrapassa o desinteressado apoio aos apoiantes.

In campaign against truth, Mr. Putin wields fear and economic force

(…)The autocrat’s success in walling off Russians from alternative sources of news and information, culminating now in his campaign against the country’s last independent television channel, provides a case in point. The channel TV Dozhd (meaning “rain”) was founded five years ago, when state television had become so soporifically subservient that “most people we knew had stopped watching,” as Mikhail Zygar, Dozhd’s 33-year-old editor in chief, recalled during a recent visit to The Post. Dozhd offered real news and balanced commentary. “Give TV one more chance” was its pitch. It soon built an audience of 20 million (in a nation of 142 million). (…)

Meanwhile, Mr. Zygar said, official propaganda has become less soporific and more engaging — moving from “North Korea-style” to “Fox Media-style,” he said. “Flames of hatred toward ‘Ukrainian fascists’ and ‘American aggressors’ can be seen in the eyes of every presenter, and it’s very effective. And there is no alternative, except for us.”

Mr. Putin keeps at the ready the possibility of methods harsher than advertising bans. Parliament extended the “anti-extremism” law this year in a way that allows prosecutors to charge pretty much any critic with a crime. “Hypothetically, if some news show guest says that Crimea should be returned to Ukraine, I could be thrown in jail for five years,” Mr. Zygar said. But, he noted, “It’s much easier to get rid of us with economic pressure.

 

In dubio pro reo

  1. José Sócrates foi detido, e encontra-se em prisão preventiva. Tal resultou de uma investigação promovida pelo DCIAP, organismo judiciário competente, com a ajuda das polícias de investigação. Da averiguação resultaram uma série de elementos que levaram a que um Juiz de Instrução Criminal considerasse que havia indícios suficientes para convocar o ex-primeiro-ministro e pessoas suas próximas para um Interrogatório. O Juiz entendeu ainda haver razões para manter Sócrates sob prisão preventiva, com base em elementos que, nos seus contornos completos, nos são desconhecidos.
  2. José Sócrates é, para o processo penal e para a ordem jurídica, inocente, até que seja condenado pelo respectivo Tribunal. Esta presunção da inocência – do latim, in dubio pro reo (latinismo que tem andado na boca de muita gente) – não é, em qualquer caso, inilidível, ficando aliás ferida ao longo do processo, desde logo, quando sobre o indiciado recaem suspeitas. A presunção da inocência, sendo um elemento central do funcionamento processual penal, não pode – nem deve – impedir que haja juízos de apreciação, face ao conteúdo e relevância das suspeitas. A suspeita é o ponto de partida para uma clarificação, essencial, que afaste ou confirme os factos e/ou elementos que lhe servem de base. Assim, as suspeitas, ou são afastadas – levando a um arquivamento do processo – ou são reforçadas, devendo o MP optar pela Acusação e consequente Julgamento. Continuar a ler

Controlo de danos

Socialistas debatem afastamento de figuras próximas de Sócrates

Injusta ou não, um deputado do PS lembra a “narrativa de colar Costa ao velho PS”. Perante a gravidade da situação, Costa terá de “ter cuidado com as pessoas que vai colocar na direcção do partido”. Esse sentimento transpira tanto de uma parte do grupo parlamentar como de algumas “estruturas” do partido.

“Têm de se tomar medidas”, adverte um outro dirigente distrital socialista, para evitar que o PS saia das próximas legislativas com “pouco mais de 20% dos votos”. E o primeiro sinal, conclui esse dirigente, tem de ser dado no congresso: “Até prova em contrário, há gente que devia entrar em pousio.”

Sócrates, a queda de um oportunista sem ideologia

Não, o título deste artigo não é da autoria de um gangster neoliberal de direita, cuja profissão de fé passa por liquidar Sócrates na praça pública. É do Libération, esse mesmo, de Jean-Paul Sartre. A sublime ironia disto tudo é impossível de ser quantificada.

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A presumível inocência de Sócrates

João Miguel Tavares no Público

Existe uma admirável coincidência entre os fazedores de opinião que estão a demonstrar uma hiper-sensibilidade às falhas do segredo de justiça e uma notável abnegação na defesa da presunção de inocência, e aqueles fazedores de opinião que durante anos e anos defenderam José Sócrates contra os ataques ad hominem e o julgaram vítima de infames conspirações. Quando vejo Miguel Sousa Tavares ou Clara Ferreira Alves mais entretidos a discutir fugas de informação e timings de detenção do que a possibilidade muito real de um ex-primeiro-ministro ser corrupto, eu sei que eles estão menos a defender Sócrates do que a defenderem-se a si próprios, e àquilo que andaram a escrever ao longo dos anos.

Ainda ontem, no DN, Ferreira Fernandes dizia o seguinte: “Em 2009, escrevi: ‘Prendam-no ou calem-se.’ A turba, com muita gana mas sem prova, chegou primeiro do que a opinião pública – e depois?” E depois, caro Ferreira Fernandes, é que ali entre 2007 e 2011 boa parte da opinião pública preferiu fechar os olhos ao elefante no meio da sala. Se não havia provas, havia infindáveis indícios – e boa parte da opinião pública preferiu engolir as teses surreais de Sócrates, mantendo-se impassível diante do sufoco evidente do poder judicial às mãos do poder político. Viram, ouviram e leram. Mas preferiram ignorar. É uma escolha, claro. Só que convém assumi-la, até para que ninguém a esqueça

Alô Brasil!

Globo News

Ex-premiê português pode ter ligação com esquema de corrupção no Brasil(…)

Dois anos depois de renunciar ao cargo, Sócrates passou a representar a Octapharma, farmacêutica suíça denunciada no Brasil por fraudar licitações do Ministério da Saúde na compra de medicamentos hemoderivados. O esquema ficou conhecido como ‘Máfia dos Vampiros’. Continuar a ler

Mário Soares e a comunicação social

Ao contrário do Miguel Noronha, não deixo de comentar as declarações de Mário Soares à porta da prisão onde este visitou o preso preventivo José Sócrates. Como seria de esperar, as declarações indignaram uma série de gente, o que se compreende, dado o seu teor inenarrável. Mas o que me indignou – passe o exagero – a mim foi a atitude da comunicação social, que, ao lhe dar atenção e destaque, explora um senhor de idade bastante avançada e – aparentemente, pelo menos – com cada vez maior debilidade, aproveitando-se dessa sua condição e do carácter bombástico das suas declarações para encher a sua programação noticiosa e criar ruído para a continuar a alimentar. Quem leia isto talvez ache que estou a atacar Soares de forma meio irónica e velada, criticando a comunicação social só para usar a oportunidade de chamar “senil” a Soares. Não estou. Acho verdadeiramente impressionantes e condenáveis as imagens de um senhor de quase 90 anos a ver a sua natural debilidade a ser explorada por uns senhores que deviam ter maior responsabilidade (para não falar em consideração pelas pessoas: também eles tiveram ou têm pais e avós que chegaram ou vão chegar aquela idade; também eles terão um dia aquela idade), mas que dão prioridade a terem rastilho para uma polémica que, como bem sabem, aquelas palavras iriam criar.

Oops, lá se foi o segredo de justiça (2)

No Observador

A mulher do advogado de José Sócrates, Alda Magalhães Telles, apagou as duas publicações que tinha feito no Twitter na passada madrugada de segunda para terça-feira, onde dava conta de pormenores do interrogatório feito pelo juiz Carlos Alexandre ao ex-primeiro-ministro José Sócrates. Pormenores esses que o próprio advogado, João Araújo, se escusou a revelar à comunicação social, sustentando o silêncio com o dever de segredo de justiça.

LEITURA COMPLEMENTAR: Oops, lá se foi o segredo de justiça

Ramiro Marques sobre Mário Nogueira

Reproduzo de seguida um texto enviado por Ramiro Marques:

O centralismo e o quase monopólio estatal criaram o poder de Mário Nogueira e da Fenprof sobre as escolas e os professores

Ramiro Marques
Professor Coordenador Principal no Instituto Politécnico de Santarém
Membro do Conselho Nacional da Educação

Mário Nogueira deu uma entrevista ao jornal i no dia 10 de novembro. É uma entrevista que merece análise não tanto por aquilo que o dirigente da Fenprof diz mas sobretudo pelo que se subentende das suas palavras. Os comunistas são mestres no disfarce. Sabem usar como ninguém o double speak e são peritos em deitar para cima dos outros as culpas pelo mal que fizeram. Têm o descaramento suficiente para se apresentarem à opinião pública como os detentores das soluções para os males que eles criaram. A história da educação em Portugal, nos últimos 40 anos, tem sido isso. Hoje controlam um dos maiores sindicatos do país – a Fenprof – com mais de 50 mil filiados de um total de 130 mil professores, com força e influência para impor aos alunos e às famílias uma greve em período de avaliação dos alunos durante 3 semanas e para boicotar a prova de avaliação de conhecimentos e competências, vulgarmente chamada de prova de ingresso na profissão docente.

À pergunta do jornalista “os professores não têm autoridade?”, Mário Nogueira responde:

“O discurso público é de uma desvalorização permanente dos professores. Há uma campanha que, quer queiramos quer não, passa para a opinião pública.”

Quando afirmo que os comunistas são mestres no disfarce e sabem usar como ninguém o double speak, apresentando-se à opinião pública como os detentores das soluções para os males que eles causaram e atribuíram a outros, é a isto que eu me refiro. Não acredito que exista alguém no país que mais tenha contribuído para a erosão da autoridade dos professores do que Mário Nogueira. Fá-lo com a mestria dos comunistas, uma mestria adquirida e treinada a partir do dia da formatura e da entronização como delegado sindical e, poucos anos depois, de dirigente sindical, num processo de formação prática que dura há 30 anos. Passaram por ele doze(1) ministros durante os 22 anos que leva como dirigente da Fenprof. Continuar a ler

UKIP e SNP

Are all bets off after fresh UKIP by-election victory?
Mapping UKIP’s polling strength

Labour faces massive losses to SNP at UK general election, poll shows

“Aviso” a António Costa

Económico: “França vai cortar 20 mil milhões na Segurança Social”

França, a braços com a necessidade de reduzir drasticamente o seu défice orçamental, vai ter de cortar a despesa pública em 50 mil milhões de euros. Como? (…)

Os cortes resultarão de “poupanças no Estado de 19 mil milhões de euros, 20 mil milhões de na Segurança Social e 11 mil milhões nas colectividades locais”, precisou o responsável pela pasta das Finanças [Michel Sapin]

Justiça à Sócrates

Do blasfemo João Miranda (meu destaque):

A última alteração ao código de processo penal foi em 2010 e tem a assinatura do Primeiro Ministro José Sócrates Pinto de Sousa. Não consigo imaginar nada mais justo do que um homem ser processado pelas regras que ele próprio considerou justas para os outros.

O Natal socialista

“Natal chegou mais cedo”, diz Juncker
O presidente da Comissão Europeia disse hoje que “o Natal chegou mais cedo”, na apresentação do plano para a economia europeia, que cria um fundo estratégico para mobilizar 315 mil milhões de euros nos próximos três anos.

No Natal a sério, os pais compram uns brinquedos inúteis para agradar às crianças e pagam a conta no final do mês.

No Natal socialista, os políticos compram uns brinquedos inúteis para agradar aos pais e deixam a conta às crianças.

a soçobrar

“(…) há que recusar, rechaçar, e repelir este sistema que tem vindo a partidarizar a administração pública e a governação de Portugal, cristalizando o carreirismo político e os cargos de confiança política no seio das suas instituições, e produzindo a falência política e institucional que temos diante de nós. Parece que deixou de existir noção do bem público. O regime está a soçobrar.”, no meu artigo de hoje no Diário Económico.

Um azar nunca vem só

Octapharma despede José Sócrates

A Octapharma referiu, em comunicado enviado à agência Lusa, que, “face aos últimos desenvolvimentos, entende não estarem reunidas as condições para manter a colaboração com José Sócrates”

Reflexões de comunistas saudosistas

jeronimo_sousa

Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, no Económico (em entrevista à Lusa): “Mundo está pior” após a queda do muro de Berlim

 

Leituras complementares:

Tou-me cagando para o segredo de justiça

Recordar é viver, e o PS deveria recordar-se das palavras do seu líder parlamentar, Ferro Rodrigues, antes de debitar a lamúria de que o rei vai nú, ou na versão republicana, que o regime está a cair de podre.

“Tou-me cagando para o segredo de justiça”

O Julgamento

O Julgamento (Via Instituto Ludwig von Mises) :

O homem do betão e das PPPs, padrinho dos empreiteiros e das concessionárias que ainda hoje nos assaltam. Mentor do desgoverno financeiro que nos entregou aos credores, escudeiro do Estado forte, grande, ineficiente, metediço. Protagonista de um pós-bolivarianismo de tons ibéricos. Sócrates foi o último terramoto desde cataclismo que foi o regime nascido da Abrilada. Passos Coelho será, talvez, uma pequena réplica de mau gosto.

Mais que o julgamento, nos tribunais, de um dos homem que nos desgraçou a todos, este é o julgamento, público, do bando de abutres que nos vem pilhando desde sempre. Daqueles que nos ministérios e nas empresas defecaram na pouca dignidade que resta à nação, roubando – qualquer outra palavra é eufemismo – sem eira nem beira, perpetuando-se a si e aos seus no poder – político e económico. Este é o julgamento de uma terceira via, um capitalismo de socialistas caviar, um socialismo de capitais desviados. Este é o julgamento de um modelo de governação assente no compadrio, no suborno, na coerção, na corrupção aos mais altos níveis da sociedade.

Mas acima de tudo, este é o julgamento de um país e de um povo que gerou políticos à sua imagem. Das boleias e quotas pagas nas concelhias por uma conta mistério em vésperas de eleições. Dos clubes de futebol da terrinha e dos terrenos que vão andando de mão em mão. Este é o julgamento do chico-espertismo que tenta sempre passar à frente, no trânsito, na fila da repartição das finanças. Do menino que liga ao amigos do pai por causa daquela vaga na universidade, do pai que liga ao colega do secundário, que agora trabalha na Junta, para dar uma ajudinha ao colega que ficou desempregado. É o julgamento das garrafinhas de whiskey e dos bacalhaus pela consoada, para pagar favores do ano inteiro. Dos exames de condução feitos na marisqueira, dos vistos apressados no consulado, daquela licença para obras agilizada com uma sms ao senhor vereador.

(…)

O Zé – não o Sócrates ele mesmo – que é hoje deputado sem conseguir conjugar um verbo sem calinadas e entender-se com o sujeito e o predicado podia ser você, caro leitor. Com um pouco mais de esforço e afinco e se o André que brincava consigo e com os seus primos na casa de férias não tivesse perdido aquelas eleições, na federação académica ou na distrital. Se o Carlos, seu cunhado, não tivesse perdido aquela vaga na empresa, que até costumava fazer negócio com aquele ex-secretário de estado que agora está a “trabalhar” no ramo. O que o meu caro amigo teve não foi nem a ética nem a dignidade de cuja falta se acusam os nossos políticos de ter, como se abundasse na sociedade.

O que o meu amigo teve foi falta de sorte. Mas não se queixe. Ainda há uns meses conseguiu aldrabar umas facturas para “meter no IRS”. O empregado da Junta, que pôs a tijoleira lá em casa, deixa-o sempre estacionar lá o carro. O Mendes da esquadra deu um toquezinho relativamente àquela multa, mas também ninguém o mandou estacionar num lugar para inválidos. O meu amigo dê é graças a Deus por ter passado à frente nas urgências quando lhe deu aquela coisa no ano passado ou quiçá não estivesse aqui a terminar de ler este artigo. E não tenha vergonha. Todos o fazem. Se não fosse você, seria outro a aproveitar. E no que toca a benesses, antes nós que os outros.

Assembleia Geral

No Assembleia Geral da ETV da passada sexta-feira, falei sobre a votação parlamentar sobre as subvenções vitalícias aos ex-detentores de cargos políticos.

http://rd3.videos.sapo.pt/playhtml?file=http://rd3.videos.sapo.pt/GVYfYgEa4aYoyIOzFBuO/mov/1

Ensinem isto nas escolas, sff

O João Miguel Tavares escreve no Público um pequeno texto que toda a gente devia ler, muitos para ver se finalmente ganham juízo e aprendem que não existe democracia sem um feroz escrutínio à atividade dos políticos – e, já agora, dos juízes e magistrados. E a ver se páram com o disparate dos perigos do fim do regime, da democracia, da Via Látea, porque certamente não é quando as instituições do regime, até agora entorpecidas, estão finalmente a funcionar que se deve por em causa o regime.

‘Mas parece que neste respeitoso Portugal insistir em fazer perguntas óbvias passa por má educação. Perguntava-se uma vez e Sócrates não respondia. Perguntava-se duas vezes e Sócrates não respondia. E quando se perguntava a terceira vez já se estava a criticar o jornal por insistir na pergunta em vez de se criticar Sócrates por recusar a resposta.

Nem agora, após José Sócrates ter sido detido para interrogatório, essa sede de generalização parece saciada. Ele é preso e avançam de imediato as profecias apocalípticas: é o fim do regime que se aproxima; é a política, como um todo, que é atingida. Não, senhores, não. O regime tem imensas falhas e a política infindáveis problemas, mas Passos Coelho tem toda a razão quando afirma que nem toda a gente é igual. E José Sócrates, graças a Deus, não é igual a ninguém. Ele é o special one da indistinção entre verdade e mentira, pela simples razão de que nunca viu diferença entre uma e outra. A sua detenção não é o fim do regime. Pelo contrário: foi durante o seu consulado que o regime esteve quase morto. O que está agora a acontecer é o oposto disso: é o regime a funcionar outra vez.

E a funcionar apesar de todas aqueles que, confundindo mais uma vez as prioridades, estão muito preocupados com a detenção de Sócrates ao sair de um avião ou por a SIC ter filmado um carro a ir-se embora do aeroporto. Ai, meu Deus, que os jornalistas foram informados! Eu, de facto, preferia que os jornalistas não tivessem sido informados. Mas preferia muito mais que José Sócrates não tivesse sido – e a verdade é que ele foi escandalosamente informado e protegido pela justiça durante anos a fio. Num país onde quase não há busca sensível que seja feita sem que os visados estejam prevenidos, eu diria que há fugas de informação bem mais perniciosas do que aquelas que beneficiam a comunicação social. Andaram dez anos a fazer-nos passar por parvos. Se calhar já chega.’

Está completo aqui.

Soltem os prisioneiros

Socrasmandela

Sem dúvida, a mesma luta contra a opressão.

O deputado socialista Fernando Serrasqueiro foi o primeiro a fazê-lo, no Facebook, evocando, de forma subliminar, o exemplo de resistência de Nelson Mandela, o mais famoso prisioneiro político do último século.

Serrasqueiro, ex-secretário de Estado e amigo pessoal de Sócrates, manifestou a sua solidariedade através de um poema, intitulado Invictus, famoso por ter servido de apoio ao activista político Mandela, nos anos que passou na prisão-ilha de Robben Island. E reproduziu-o, sem comentários, duas horas depois do despacho do juiz Carlos Alexandre que enviou o ex-primeiro-ministro do PS para uma prisão em Évora.

Haverá pontos de contacto entre Mandela, prisioneiro político do regime racista sul-africano durante 27 anos, e Sócrates, detido por corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal? Há pelo menos um exemplo de resistência na adversidade, que Serrasqueiro quer transmitir ao amigo e camarada de partido.

Mandela disse que lia o poema Invictus (traduzindo: jamais derrotado) para encontrar força e apaziguar o sofrimento, superando momentos de dúvida. “Sob as garras cruéis das circunstâncias / eu não tremo e nem me desespero / Sob os duros golpes do acaso / Minha cabeça sangra, mas continua erguida”, lê-se na segunda estrofe do poema vitoriano.

(Agradeço ao leitor JP a indicação do assunto).

Atenção aos direitos humanos no continente e ilhas

Luís Filipe Meneses.

O Ministério Público confirmou a investigação ao antigo autarca por suspeitas de corrupção para enriquecimento pessoal. Já foi pedido o levantamento do segredo bancário do autarca.

 

Alberto João Jardim.

O presidente do Governo Regional da Madeira escreveu esta terça-feira no Jornal da Madeira que a mediatização da detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates (sem referir o seu nome) reflecte uma “situação preocupante dos Direitos Humanos em Portugal”.

“O que vimos nos últimos dias, à volta de um caso inaceitavelmente mediatizado com o maior desrespeito e falta de caridade, também põe em causa o aparelho de Justiça e a comunicação ‘social’ que temos em Portugal, porque parece estarmos ante mais uma demonstração da preocupante situação dos Direitos Humanos no nosso País”, escreve Alberto João Jardim na sua coluna de opinião no Jornal da Madeira (JM).

 

Soares preocupado com Sócrates

SS

O antigo Presidente da República escreve, hoje, no Diário de Notícias que sábado, dia de detenção de José Sócrates, «o país foi confrontado com um acontecimento que deixou os democratas imensamente preocupados».