A bota e a perdigota do PS

Estando Portugal, por razões óbvias, sob vigilância da Comissão Europeia dada a sua elevadíssima dívida pública, o PS resolveu usar o facto para atacar o governo. Algo expectável, naturalmente, sendo oposição. O engraçado é que o PS, ou pelo menos o seu porta voz Vieira da Silva, parece não ter entendido os termos dessa vigilância. Se tivesse, talvez fosse mais reservado na manifestação pública, na medida em que o comunicado da CE aponta explicitamente para fragilidades da nossa economia que são o estandarte da campanha do PS: Diz a comissão que Portugal está demasiado dependente do crescimento económico para atingir os seus objectivos de redução do défice e da dívida pública. Isto é, há ainda muito para reformar e muita despesa para cortar. Sem estes passos, um crescimento económico durável não voltará.

O relatório da CE é tipicamente político no sentido de dar no cravo e na ferradura, deixando expressões e frases que podem ser usadas tanto pelo governo como pela oposição para puxar a brasa à sua sardinha. No entanto, errando o alvo mais uma vez, Vieira da Silva confunde contexto com causa: A comissão indica o reduzido crescimento, reduzida inflação e alto desemprego como factores que dificultam o atingir dos objectivos. Vieira da Silva entende estes factores como a causa dos desiquilíbrios. É curioso achar que inflação baixa é a raíz dos nossos problemas, quando o desiquilíbrio fundamental da periferia europeia face ao centro foi justamente um diferencial de inflação (no sentido de nível de preços, não massa monetária) superior ao crescimento da produtividade.

A pergunta

Em 1980 Reagan venceu Carter perguntando aos eleitores se estavam melhor que há 4 anos. Postas as coisas nesses termos, os norte-americanos rapidamente concluíram que não e mudaram de administração.

António Costa, que quer ser primeiro-ministro no lugar de Passos Coelho, já respondeu à mesma pergunta.

 

Costa perde sentido de estado

António Costa fez um discurso em português, sem tradutor, onde disse que Portugal estava bastante melhor do que há 4 anos atrás. Toda a cerimónia, mesmo os discursos dos membros da comunidade chinesa, foi em português. Assistiram à cerimónia membros da comunidade chinesa em Portugal que entendiam português e, portanto, podem ler a nossa imprensa. O que sentirão esses “chineses” ao ler hoje que afinal Costa estava a tentar iludi-los? Que impacto terão estas declarações na confiança daqueles “investidores”?

P.S.: Fica aqui uma sugestão para o PSD: contratar 20 chineses para ir a todos os comícios do PS.

O Insurgente: uma década a errar

Teddy-saying-sorryO Insurgente comemora hoje 10 anos: uma década de textos sobre política, economia, actualidade e tudo o mais que nos vai apetecendo escrever. Este pode ser um dia de celebração, mas é também o melhor momento para nos retratarmos. É verdade: o Insurgente errou. Errou muitas vezes e, por isso, pedimos desculpa.

O Insurgente falhou quando já desde 2005 antecipava a falência do estado social e as consequências que daí adviriam. Como nos disseram tantas vezes: era preciso ser extremista para pensar assim. Ignorando os comentários avisados de quem nos dizia que um Estado não pode falir e de que haverá sempre dinheiro para pagar salários e pensões, os insurgentes insistiam no erro. Ignorámos também quem nos dizia que os défices não eram um problema e, antes pelo contrário, eram fundamentais ao crescimento económico. Ignorámos quem nos dizia que a dívida era sustentável porque era a dívida que trazia crescimento. É verdade que o estado acabou por estar perto da falência em 2010/11 e que isso originou uma crise sem precedentes no país. Mas isso não conta, porque a culpa não foi do estado, mas dos americanos, dos banqueiros, da merkel e do Euro. O Insurgente pede desculpa.

O Insurgente falhou ao não acreditar na capacidade do democrata Hugo Chavez em trazer a prosperidade à América do Sul. Pelo contrário, a Venezuela prosperou. O poder de compra aumentou tanto na Venezuela que hoje em dia os consumidores levam tudo o que há nas prateleiras, deixando os supermercados vazios. O Insurgente foi ainda humilhado quando Chavez, já depois de morto, apareceu ao novo líder Maduro sob a forma de uma pomba, desacreditando todos aqueles que duvidavam do seu carácter divino.

O Insurgente falhou quando criticou o despesismo e a desonestidade de José Sócrates. Os factos acabaram por nos contradizer. Haverá maior prova de confiança na honestidade de alguém do que ter um amigo que nos empresta dinheiro sem a necessidade de assinar um papel? Haverá maior prova de confiança na capacidade de gestão financeira de alguém do que ter acesso a uma linha de crédito infinita e incondicional? Pois, não há: José Sócrates provou que estávamos errados. O Insurgente pede desculpa.

O Insurgente errou quando desconfiou das promessas de Hollande em mudar a Europa e resolver os problemas económicos com “crescimento”. Sendo verdade que a França não teve crescimento económico, a verdade é que isso só se deveu à lobotomia neoliberal de Hollande. Aquilo até estava a correr bem nos primeiros 3 meses. Para além disso, partes da França cresceram mesmo (por exemplo, os eleitores da FN e as vendas do Charlie Hebdo). O Insurgente pede desculpa.

O Insurgente errou quando duvidou da capacidade de Obama em trazer a paz ao mundo e acabar com o terrorismo. A prova de que conseguiu é que hoje já quase não se ouve falar da Al Qaeda. Guantanamo continua aberto, mas só enquanto decorrem as obras de requalificação da prisão em campo de férias. Um pouco por toda a Europa, a imagem de aviões da NATO e da Rússia a voar lado a lado em harmonia são um símbolo do fim definitivo da guerra fria.O Insurgente pede desculpa.

Daqui por 10 anos, quando Tsipras e Costa tiverem mudado a Europa para melhor, cá estaremos no nosso vigésimo aniversário para pedir novamente desculpas. Obrigado a todos por nos seguirem, apesar de não acertarmos uma.

A Falta De Solidariedade Dos Gregos Com A Grécia (II)

Um dos grandes problemas dos governos Gregos é que é tem sido extremamente difícil conseguir com que os seus cidadãos paguem efectivamente os impostos. Segundo um professor da universidade de Atenas citado neste artigo, os “Gregos consideram os impostos um roubo” (neste sentimento, os Gregos têm a minha solidariedade). Como se pode observar no gráfico abaixo (retirado daqui), os governos Gregos nos último anos têm obtido quase tanto em receitas de impostos como o valor de impostos que tem ficado por pagar.

GreekTaxes

Para complicar a situação, a partir de Janeiro deste ano, e com a perspectiva de uma vitória do Syriza nas eleições, uma parte significativa da população Grega deixou de pagar impostos. Este artigo refere que em Janeiro se esperava que a cobrança de impostos ficasse 40% aquém do esperado o que corresponde a menos 1,5 mil milhões de euros a entrar nos cofres do estado. E tudo porque o Syriza na sua campanha eleitoral prometeu que iria tratar favoralmente os contribuintes em dificuldades e que iria abolir o imposto ENFIA (imposto sobre propriedade).

Leitura complementarA Falta De Solidariedade Dos Gregos Com A Grécia

10% de conhecimento, 80% de ignorância e 10% de demagogia

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Já sabem: podem guardar as notas de euro debaixo do colchão, mas só as que têm a imagem do Hitler (ou lá o que os Alemães põe nos Euros deles).

Actualização: Raquel Varela acrescentou uma nota técnica ao seu processo de desmembramento do Euro

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Quem é o Alfredo Barroso?

Em 1985 na sequência de denúncias sobre a existência de fome em Portugal Alfredo Barroso, que na altura em membro do governo PS/PSD liderado pelo seu tio Mário Soares, respondia da seguinte forma:

Fomes

(clicar para aumentar)

(via Porta da Loja)

Chinesices (2)

Numa altura em que 90% dos portugueses se questionam acerca identidade do misterioso personagem que promete abandonar o partido a direcção socialista promete não deixar morrer a polémica:

Ferro Rodrigues recusou-se a fazer mais comentários sobre a demissão de Alfredo Barroso, adiantando apenas que o PS emitirá um comunicado sobre esta controvérsia até ao fim da manhã de hoje.

Dialética Marxista

180px-grouchomarxpromophotoDepois dos “radicais-moderados” do Syriza, a mente fervilhou tentando antecipar de onde viria a próxima e brilhante síntese de teses e antíteses. Pois chegou agora, crédito a Alfredo Barroso, na ideia da China “comunista-neoliberal”.

Brincar com o dinheiro das pensões

No i online

Socialistas querem que o Fundo de Estabilização Financeira possa fazer aplicações até 10% dos activos em compra de casas devolutas ou de famílias em risco de insolvência

…isto vindo de um partido que se recusa terminantemente a deixar que os indivíduos possam gerir livremente o seu fundo de reforma obrigando-os a participar num esquema estatal.

Chinesices

Observador

Alfredo Barroso não gostou dos agradecimentos de Costa aos investidores chineses e anunciou a sua desfiliação do PS. “Nunca me passou pela cabeça que se atrevesse a prestar vassalagem à China”, disse.

De tão ridículas, nem vou comentar as acusações de “vassalagem” (que fazem recordar outras semelhantes e igualmente ridículas). Queria apenas observar que, não obstante à extrema-esquerdização do PS, Alfredo Barroso conseguia ainda estar mais à esquerda tendo inclusivamente apoiado o Bloco de Esquerda nas eleições para o PE. Desse ponto de vista estava tanto no PS como Pacheco Pereira “está” no PSD.

Não Podemos dizer mal do Maduro

Observador

O partido da oposição venezuelana Primero Justicia apresentou nesta quarta-feira uma queixa junto do Ministério Público da Venezuela por suposto financiamento ilegal do partido espanhol Podemos, por parte do Governo de Caracas. De acordo com um comunicado do Primero Justicia, o deputado que apresentou a queixa, Julio Montoya, afirma que o executivo da Venezuela contratou, nos últimos anos, a fundação Centro de Estudos Políticos e Sociais do partido Podemos por 14 milhões de euros.

Montoyo indica que os contratos realizaram-se através de diferentes organismos estatais, como a empresa de comunicações Cantv, o Instituto Venezuelano dos Serviços Sociais e o Ministério da Alimentação. O deputado da oposição afirma que nos próximos dias vai apresentar “documentos que provam os contratos entre o Podemos e o Estado da Venezuela” e que vão incluir no processo os “nomes de pessoas relacionadas com o Governo que têm empresas de fachada que são utilizadas para a obtenção de dólares norte-americanos” que foram depois transferidos para o partido espanhol.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

O sonho

Com o lançamento de um novo romance, Miguel Real concedeu uma entrevista ao “Público” na qual afirmou que “Portugal desenvolveu um imenso sentimento de medo em relação ao futuro”. Para aquele professor de Filosofia, o país terá deixado “de sonhar e de criar utopias”.

Durante várias décadas o país sonhou a utopia de que se podia desenvolver sem se preocupar com o futuro. Ora a despreocupação, ou a negligência, conforme o ponto de vista, não é igual a não ter medo. É falta de cuidado, imprudência, inconsciência. Quer queiramos quer não, o que o país teve, se é que é possível colectivizar desta forma milhões de individualidades, foi falta de cuidado.

Bem sei que é aborrecido falar de assuntos comezinhos como este. Mas, se a arte de sonhar está em não deixar de ter os pés bem assentes na terra, não podemos perder a consciência de que a presente crise resulta da acumulação de dívida, da inconsciência com que se encarou o futuro.

Até porque há sempre espaço para sonhar. Eu, por exemplo, gostaria de viver num país cujo Estado não estivesse endividado e não precisasse de ajuda externa para levar a cabo as suas funções essenciais. Que, com as contas públicas equilibradas, tirasse partido de uma moeda forte, que é o melhor instrumento para um desenvolvimento com salários altos. Um país onde o poder político fosse contido e as pessoas livres do fardo que são as frases feitas como as proferidas por Miguel Real, que, ao mesmo tempo que nos falam do futuro, nos tiram os meios de o encarar.

Rua e lenços revolucionários

Maduro

Enquanto o povo se prepara para defender a revolução nas ruas, a política económica revolucionária de Maduro continua a frutificar.

Exercícios intelectuais nas fronteiras do conhecimento e da paz

Rússia anuncia manobras militares na fronteira com Estónia e Letónia,

Polónia não aprecia comemorações.

 Suécia e a Finlândia assinaram um pacto militar entre si como resposta à crescente ameaça da Nato.

I Have Never Left Russia“.

Os oito erros que levaram a Ucrânia a invadir várias regiões da Rússia.

Showbiz (arquivo cultural-caridoso do então PM russo).

Métodos Socráticos

Os tiques de Sócrates ainda estão entranhados na cultura política portuguesa e custam a sair. Em reacção ao episódio chinês de António Costa, Vieira da Silva esclareceu que Costa usou a palavra “diferente”, não especificando se estava “melhor” ou “pior”. Já Luis Montenegro elogiou a falta de “botabaixismo”.

a teoria dos jogos

“A exclusão da Grécia do euro é apenas uma questão de tempo, e estou hoje convicto que nem o enésimo acordo de última hora alcançado há dias em Bruxelas impedirá tal desenlace. O ponto fundamental da questão é muito simples: depois de dois programas de resgate por parte dos chamados credores oficiais, avaliados em 230 mil milhões de euros, e de um perdão de dívida de 100 mil milhões por parte de investidores privados, é inverosímil que novos empréstimos à Grécia venham a ser incondicionais. Ao mesmo tempo, é também altamente inverosímil que o novo governo grego seja capaz de assumir os respectivos compromissos – balizados, quantificados, e calendarizados – que possam satisfazer as exigências dos credores. Este jogo de negociações deixou de ter como propósito a obtenção de um compromisso estável e duradouro, e passou a ter como finalidade a determinação de quem, em última instância, tomará a iniciativa de fazer a Grécia sair do euro.”, no meu artigo de hoje no Diário Económico.

Boas pespectivas

O Ministro das Finanças grego admite que a Grécia tem um problemita de liquidez

“We will not have liquidity problems for the public sector. But we will definitely have a problem in repaying instalments to the IMF now and to the ECB in July,” [Yanis Varoufakis] told Alpha Radio.(…)

Following interest payments this month of about 2 billion euros to private bondholders and official lenders, Greece must repay an International Monetary Fund loan of around 1.6 billion that matures in March.

Then it needs 0.8 billion euros for interest payments in April and about 7.5 billion in July and August for maturing bonds held by the ECB and for more interest payments.

Os apoios de António Costa

O próprio messias no Casino da Póvoa.

O Terceiro excluído, por João Cardoso Rosas.

(…) Os partidos da social-democracia, que sempre constituíram a primeira ou segunda força política europeia, estão em crise profunda. Não se trata de pensar agora no caso português e na ambiguidade da liderança do PS – António Costa pode andar por aí a repetir as vacuidades que quiser porque na Europa não sabem sequer que ele existe. O que deve fazer pensar são os casos da Alemanha ou da Holanda, onde os social-democratas alinham inteiramente pela política de austeridade. Nos Governos de França ou da Itália, eles pareciam ter uma visão diferente, mas acabaram por não ser consequentes.

O actual debate na Europa é muito importante e dele depende não só o futuro da Grécia, ou de Portugal, mas também o destino do projecto europeu. Neste debate o aspecto político mais surpreendente é, sem dúvida, a auto-exclusão do centro-esquerda.

Entretanto no PCTP/MRPP

Já não s@m@s Syris@.

Adenda: Por um qualquer motivo revolucionário que me escapa, os camaradas do site do PCTP/MRPP removeram o link para o vídeo. No entanto, a revolução do Garcia Pereira continua por aqui. Divirtam-se.

Volta Seguro, Que Deixas Saudades

Não era tarefa fácil conseguir desempenhar um papel de secretário geral do PS de forma pior do que o António José Seguro, mas tenho que reconhecer que António Costa parece ter um dom natural, e que com a sua vacuidade consegue ser de facto pior que o secretário geral do PS anterior.

António Costa, que não sabe escolher os momentos para falar e os momentos para manter o silêncio, começa a parece um disco riscado com o seu lero-lero habitual e as baboseiras do costume. Sempre crítico em relação ao governo actual, vai insistindo que é preciso “acabar com a austeridade e gerar crescimento” (em termos técnicos é o equivalente a “eu não gosto da chuva e quero Sol”), sendo que a única proposta concreta conhecida é que se ele for primeiro-ministro, o Carnaval será festejado em todo país porque “é muito importante para a economia de todas as cidades e para as famílias“.

Depois de sabermos que o PS não quer confundir os eleitores com propostas, António Costa voltou hoje a não se comprometer com qualquer estratégia ou proposta alegando que:

 “Numa União a 28, não é possível prometer um resultado que depende de negociações com várias instituições, múltiplos governos, de orientações diversas”.

E adianta ainda que:

“Como se tem visto nas últimas semanas, é um erro definir uma estratégia nacional que ignore a incerteza negocial e se bloqueie numa única solução”

A solução segundo António Costa é então:

“Identificar corretamente os problemas, assumir a determinação de os enfrentar e ter a capacidade necessária para construir as alianças que permitam as soluções viáveis, trabalhando as várias variáveis possíveis”.

Poderoso, profundo e inspirador! De salientar que não é expectável que o facto de Portugal permanecer numa União a 28 se altere até ao dia das próximos eleições. Daí que, a levarmos em conta estas declarações, o PS corre o sério risco de se apresentar a eleições sem programa, porque “não é possível prometer um resultado que depende de negociações com várias instituições, múltiplos governos, de orientações diversas” e “é um erro definir uma estratégia nacional que ignore a incerteza negocial e se bloqueie numa única solução“.

É pois esta nulidade que o país se arrisca a ter como primeiro ministro – aparentemente basta estar no lugar certo na hora certa. Deus nos acuda.

SeguroECosta