
O meu artigo para o jornal i deste sábado.
Os malefícios da colectivização
Há demasiado tempo que analisamos as questões políticas e económicas em termos meramente colectivos.
Tornou-se uma expressão tão corrente que até parece verdade. O conflito geracional entre novos e velhos, que vira aqueles que estão a iniciar a sua vida profissional contra os que a estão a terminar, ou já se reformaram, parece estar para ficar. De acordo com essa teoria, as gerações mais novas, percebendo que não irão receber uma reforma como retorno das suas contribuições para a segurança social, e questionando se valerá a pena continuar com esses descontos, viram-se contra os mais velhos, que contam com eles para viverem plenamente as suas reformas. O interessante nesta controvérsia é que, se é verdade que os pagamentos para a segurança social estão a ser postos em causa, já a tese do conflito entre gerações é mais duvidosa.
Na verdade, ao mesmo tempo que falamos de conflito geracional, sabemos que os filhos levam anos a sair de casa dos pais, havendo quem, por volta dos 30 anos, ainda não tenha a sua. Não há dia em que a imprensa não noticie casos de filhos desempregados, por vezes já casados e também eles com filhos, que subsistem porque são ajudados pelos pais. Casos em que membros dessa geração mais velha ajudam os da geração mais nova. E talvez não seja preciso ir tão longe. Vejamos o próprio leitor deste artigo, que é novo ou já se encontra reformado. Porventura tem algum problema com os seus pais, tios, avós, filhos, sobrinhos ou netos? Não tem, pois não? Não vê neles, nas pessoas concretas que conhece, qualquer empecilho para a sua vida, para o planeamento do que queira fazer dela, de como e quando quererá deixar de trabalhar. Se assim é, onde está o conflito geracional de que tanto se fala?
Há demasiado tempo que analisamos o quer que seja em política e em economia em termos meramente colectivos. Fazemo-lo quando estudamos os problemas e procuramos as soluções. Encaramos a sociedade como um conjunto de grupos. Ouvimos falar no interesse nacional, mas dividimos o país em classes profissionais, cada uma defendendo os seus interesses corporativos. Reduzimo-nos a esta crença na colectividade, porque nos deixámos cair no dogma dos malefícios da individualidade. Vemos o indivíduo como alguém egoísta, mau, que apenas pensa em si, cujos impulsos devem ser refreados pelo poder político, a administração pública e os grupos institucionais. Raramente associamos o indivíduo àquilo que cada um de nós é enquanto pessoa concreta. Enquanto avó, pai, tio, neto, filho e sobrinho que olha para o outro não como fonte de conflito, mas como uma família. Não numa perspectiva de confronto, mas de apoio. É surpreendente quando percebemos que esse indivíduo que nos dizem ser maléfico é aquela pessoa que está presente. Quando nos damos conta que se fala de conflito geracional porque colectivizámos as relações sociais. Porque vemos grupos e não pessoas. Porque o Estado não as deixa decidir, com medo de perder o controle do que não compreende.
Também se fala muito que os tribunais não dão vazão ao número incontável de processos, decidindo tarde e a más horas. Sendo advogado, posso confirmar na pele o quanto esta história é verdadeira. Mas também posso testemunhar os inúmeros negócios que se fecham todos os dias, apesar do Estado não cumprir a função indispensável que é administrar a Justiça. Os contratos que se assinam sabendo-se de antemão que o seu incumprimento, por qualquer das partes, conduz a uma batalha nos tribunais, da qual o único vencedor será o tempo. Apesar desses perigos, os negócios continuam e o cidadão comum persiste. Aquele homem e aquela mulher, aqueles indivíduos, quando vendem uma casa ou gerem uma empresa, continuam a assinar contratos. Fazem-no porque não têm outro remédio, mas também porque confiam. Crêem no outro, também um indivíduo, acreditam na sua honorabilidade e nas vantagens que tem em cumprir com a palavra dada. É olhando para os casos concretos que compreendemos que o colapso a que assistimos não é social, nem geracional, mas sim do modo como encaramos o Estado no meio de nós.