O baluarte da Europa

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Foi implacável com Varoufakis e Tsipras; é humana com quem o merece.

Confronted by forces that would overwhelm British leaders, the woman the Greek left (and many on the British left who should know better) mistakenly accuse of being the leading advocate of conservative neoliberalism has stood up to be counted. Being the country to which so many want to migrate should be a source of pride, she says. She wants to keep Germany and Europe open, to welcome legitimate asylum seekers in common humanity, while doing her very best to stop abuse and keep the movement to manageable proportions. Which demands a European-wide response. So far, her electorate and her press back her.

Uma tragédia e uma farsa

O meu texto de ontem no Observador.

‘Começo com a farsa. Eu percebo que os eleitores já tenham adquirido imunidade à campanha eleitoral do PS. É verdade que já tivemos os cartazes que prometiam combater a precariedade ao mesmo tempo que não pagavam às pessoas que exibiam. Também sei que depois das cartas que querem descobrir as Índias e Brasis que há em mim, pessoa irrepetível e que não sou nenhuma fração (adicionalmente não sou, esclareço, um integral ou um número imaginário), despedindo-se António Costa de mim com um ‘afetuoso abraço’ aparentemente não havia (cogitava eu ingenuamente) margem para maiores sustos. Esperava, no máximo, que na semana antes das eleições Costa se despedisse com um beijinho repenicado.

Estava enganada. Na segunda feira viu o PS por bem informar-me que, e cito, ‘António Costa e Fernanda Tadeu casaram há 28 anos. Não houve festa mas sim um hambúrguer rápido no Abracadabra na Rua do Ouro com os padrinhos Diogo e Teresa Machado, antes de seguirem para Veneza em lua-de-mel. António sempre soube gerir a sua vida pessoal e profissional e Fernanda tem sido o seu maior apoio.’ Na imagem, Costa confessa-se utilizador de bolsas de cintura. Não contentes, o jornal de campanha do PS entrevistou Fernanda Tadeu, onde a senhora avisou que tinha identidade (não pensássemos nós que era uma raiz quadrada) e deu informações políticas relevantes sobre o marido como o gosto por terrines.

Bom, cada um dará a importância que entender ao hambúrguer de Costa, mas eu trago o assunto para aqui por uma razão que me provoca menos risos. Vamos lá ver: Fernanda Tadeu não tem qualquer interesse para o eleitorado senão por estar casada com um candidato a primeiro-ministro. Então, como conciliar estas aparições da senhora com os ataques vis que pessoas ligadas ao PS têm feito às fotografias de Laura Ferreira na comunicação social desde que está doente com cancro (e exibe corajosamente a sua cabeça sem cabelo)?

De cada vez que há uma fotografia de Laura, logo socialistas têm corrido a acusar Passos Coelho de usar a doença da mulher para fins eleitorais. O conselheiro preferido de Costa, Porfírio Silva (candidato a deputado e membro do secretariado nacional do PS), escreveu mesmo no twitter ‘Usar a doença de uma Pessoa para dourar a pílula eleitoral de alguém… é do domínio do abjeto’ (a 9/7/2015, às 14h56).’

O resto está aqui.

Sobre as fotografias da criança morta na praia

Os jornais são totalmente livres de publicar na primeira página as fotos que entenderem. No entanto, a imagem de uma criança de 3 anos morta a ser levada ao colo por um homem não alerta para nada. Não muda nada. Choca-nos; magoa-nos; dá-nos um nó apertado no estômago, mas não muda nada, porque a nossa sensibilidade, solidariedade, não põe termo à guerras, à violência, à selvajaria de que fogem.

Não se trata, pois, da liberdade de publicar ou não publicar, mas do resultado dessa publicação não ir ao encontro da razão que os jornalistas alegam ter pesado na decisão de a colocar na primeira página à vista de todos.

No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no jornal ‘i’ é um comentário a este ‘post’ de Francisco Louçã, no Público.

A esquerda débil

Numa das suas inúmeras tentativas para escrever no “Público” um texto semelhante aos publicados nos blogues, Francisco Louçã, o antigo líder não assumido do Bloco de Esquerda, dissertou, a 31 de Agosto, sobre o que a esquerda deve aprender com a direita.

A par da mudança de ideologia da direita, que Louçã refere já não ser social-democrata, e esquecendo o percurso feito pela esquerda para fazer sua a visão que Sá Carneiro tinha há 35 anos, o texto é uma série de banalidades boçais para encher espaço.

No entanto, e ignorando o tempo que temos perdido à espera que a esquerda portuguesa aceite como normal o que é óbvio, Louçã tem o mérito de alertar para o preço que esta tem pago pela sua inactividade intelectual.

É que, sossegada numa impunidade ideológica que lhe permite dizer tudo sem que seja questionada, a esquerda limita-se a repetir os jargões do passado. Por seu lado, a direita – e aqui não me refiro à partidária – foi obrigada a esforçar-se por ultrapassar o crivo astuto dos que repetem à exaustão a manha da descredibilização fácil.

Não é difícil ridicularizar o debate, no que Louçã e seus pares são pródigos. Mais complicado fica quando se ganha o gosto e não se evolui. A mesma cassete e tom histriónico, anos a fio, cansa. Farta. Se há algo que a esquerda pode fazer é, não se entusiasmando com os syrizas que vão e vêm, ver o mundo de forma menos complexada, de modo a não proclamar hoje o que a direita já dizia há quatro décadas.

Depois trata-se do resto

Um texto do Henrique Burnay, publicado no Facebook

Um Homem é um Homem. Um Homem a morrer afogado é um Homem. Mesmo que não seja refugiado a sério, mesmo que até tenha acabado de matar outro Homem. Um Homem a morrer afogado é um Homem, e primeiro salvam-se vidas, depois trata-se do resto.
Há oportunistas, haverá potenciais terroristas, há fanáticos religiosos. Haverá. Mas primeiro salvam-se vidas, depois trata-se do resto. Quando um Homem está a morrer afogado não há tempo para lhe perguntar se aceita a nossa liberdade religiosa, a nossa igualdade, a nossa Democracia.
A nossa religião, para os que a temos, ensina isso, mesmo a quem não comunga. A nossa Democracia, que é mais do que votar, depende isso.
Primeiro salvam-se vidas, depois trata-se do resto.
E o resto não é pouco. Claro que não podem todos ficar. Claro que ter missões de salvamento junto à costa é promover maiores fluxos. Claro que por cada asilo concedido se promove maior tráfico de Homens. Mas agora há Homens a morrer. Primeiro salvam-se vidas, depois trata-se do resto.
Não, não há lugar para todos. Não, não é possível abrir as portas e deixar entrar e ficar quem quiser. A emigração tem de ser controlada. Claro que tem. Mas um Homem a morrer afogado é um Homem.
Claro que há mais sofrimento no Mundo. Provavelmente gente mais justa, gente melhor, gente mais pobre e miserável. Pois há. E não os vamos salvar todos. Pois não. Nem quero. Ou melhor, sei que não é por querer que se resolve, nem é por se querer que é possível. E desejar o impossível pode ficar bem, nas não serve para quase nada.
Mas um Homem a morrer afogado é um Homem.
E, se um dia, uma destas vidas salvas se explodir no meio de nós, se um deles se radicalizar e matar outros Homens, ainda assim teremos feito o correcto, o que é justo.
Eu prefiro morrer um dia num metro em Londres, morto por uma bomba, a deixar morrer um Homem porque tenho medo de um dia ter medo dele.
E, sim, pago a minha quota-parte extra. Digam-me onde a entrego.

Aqui está um bom princípio de discussão, sem histerias. Primeiro salvem-se as vidas, nem que depois de as salvar o seu destino seja o regresso ao ponto de partida.

3 falácias sobre a Zona Euro

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Três ideias viraram pressupostos imutáveis, nunca questionadas, na discussão pública sobre a Zona Euro que sucedeu à crise das dívidas soberanas. São elas: 1) os Estados soberanos membros de uma zona monetária não podem/não devem falir; 2) uma união fiscal e/ou política preveniria a sua falência; 3) a Zona Euro não é óptima, pelo que não pode funcionar. São as três falsas.

  1. Os Estados soberanos devem falir

Os Estados soberanos podem e devem falir, assim limpando o seu balanço e começando de novo. O problema da falência no actual quadro institucional da União Europeia é que a falência do Estado soberano iria implicar a imediata insolvência da banca doméstica, e por sua vez uma necessidade de recapitalização. Vejamos porquê. Para que um banco possa solicitar liquidez ao Banco Central, este tem de ceder como colateral títulos de dívida pública do Estado soberano onde constituiu personalidade jurídica (*). Caso não os tenha, tem de os adquirir. Ora, se a taxa de juro desses títulos subir (i.e., o preço dos títulos baixou), isto irá gerar imparidades no balanço dos bancos. Por conseguinte, para que estes cumpram os rácios de capital serão obrigados a consolidar e a ceder menos crédito. A contracção do crédito arrefece a economia pelos canais habituais, reduzindo a receita fiscal e aumentando o défice orçamental, pondo em causa a sustentabilidade da dívida pública. Os juros sobem. Este círculo vicioso entre risco soberano e risco bancário, ou «loop diabólico», como Teixeira dos Santos gostava de lhe chamar nas suas aulas, é fruto, não da ausência de uma união política ou fiscal, mas sim da ausência de uma união bancária.

  1. Uma união fiscal e/ou política não previne a falência de um Estado

Os Estados Unidos conseguiram sobreviver sem uma união fiscal durante 140 anos, entre 1790, ano da criação do dólar, e 1930, e com uma união política em constante evolução. A união fiscal, atenuando embora o efeito de alguns estabilizadores automáticos no défice, como por exemplo os subsídios de desemprego, não resolve insolvências que resultem de problemas estruturais. Com efeito, e esquecendo Porto Rico, que é um Estado sem personalidade jurídica, a cidade de Detroit foi à falência, e o Estado de Illinois também poderá ir à falência. Lá como cá, o Banco Central não pode socorrer (bailout) um Estado. No entanto, a falência de um Estado nos EUA não implica que este tenha de sair da federação e efectuar pagamentos numa nova moeda. Porquê?

Porque, ao contrário da União Europeia, existe uma união bancária. Assim, os bancos não estão vinculados a um Estado soberano, e não estão obrigados a adquirir títulos de dívida pública de um soberano em particular por forma a obter liquidez junto do Banco Central. Ou seja, não existe perigo de bank run no caso de uma falência do soberano. Para que isto seja possível teria de ser instituída uma união bancária na Zona Euro, assim permitindo que qualquer residente europeu abra uma conta bancária em qualquer país da união sem requerer burocracia ou autorizações adicionais, e deixando de exigir que os bancos comprem títulos de dívida pública. Mais ainda, o Estado soberano deixaria de ser capaz de taxar os depósitos (bail in) ou alterar a moeda desses depósitos (do Euro para o Drachma, por exemplo).

Nestas circunstâncias, a falência do Estado grego conduziria apenas à necessidade de este ter saldos primários. Os bancos continuariam a operar normalmente, assim como o restante sector privado. Obviamente que existiria um impacto económico na falência do Estado, mas este não teria repercussões financeiras tão graves como a total desestabilização e potencial insolvência do sector bancário.

  1. A Zona Euro não é óptima

Segundo os critérios de optimalidade de Robert Mundell — o que inclui uma união fiscal, a inexistência de barreiras à migração, entre outros —, a Zona Euro não é uma zona monetária óptima. Mas isto não implica que uma zona sub-óptima seja disfuncional ou que não seja benéfica para os seus membros. Aliás, que sistema económico ou social funciona tal e qual como definido num equilíbrio Walrasiano? Os próprios EUA têm vários Estados que não cumprem os requisitos estipulados por Robert Mundell.

No entanto, sabemos o que a Zona Euro permite — que os países-membros reduzam os custos de transacção, em particular o risco cambial, promovendo as transacções no mercado europeu. Permite também evitar que Estados abusem da alavanca da desvalorização cambial como forma de «resolver», ainda que de forma meramente ilusória, problemas de competitividade. Se a taxa de câmbio fosse solução para alguma coisa, a Grécia dos anos 80 ou 90 teria crescido exponencialmente e exportaria carros para Estugarda. Tanto assim não foi, que o crescimento pré-Euro da Grécia foi muito inferior ao crescimento pós-Euro, embora a Grécia e também Portugal não tenham sabido aproveitar a redução dos custos de financiamento que o Euro trouxe.

(*) Nota: após a crise financeira de 2007-08, o BCE criou um mecanismo que alargava o leque de activos que aceita como colateral para ceder liquidez. Esta operação foi semelhante ao Quantitative Easing, iniciado em Março de 2015, com a diferença que é estéril, isto é, não aumenta o balanço do Banco Central. No entanto, dado isto não ser um mecanismo convencional dos BCs, não substitui uma adenda aos estatutos do BCE, permitindo que, de forma permanente, os bancos não sejam obrigados a comprar títulos de dívida pública do próprio país (ht LT).

Novo Banco, desemprego & crescimento económico

A estatística é o que um socialista quiser. Os meus debates com o Marco Capitão Ferreira estão a ficar cada vez mais interessantes.

Ramiro Marques sobre controlo da linguagem e do pensamento

Reproduzo de seguida um texto enviado por Ramiro Marques:

Controla a linguagem e és dono do pensamento

Ramiro Marques

“Two programmes taught at Washington State University have set out clear restrictions upon the language students can use, banning terms such as “The Man”, “Coloured People” and “Illegals/ Illegal Aliens”. The terms have been forbidden by certain professors on the basis that they are “oppressive and hateful”, according to one of the syllabuses reported by Campus Reform.” (Fonte: The Independent, 31 de agosto de 2015).

A intolerância cresce nas universidades sob o lema e o programa político “controla a linguagem e és dono do pensamento”. Como é que os novos marxismos totalitários estão a usar o controlo dos departamentos de ciências sociais e humanas das universidades para impor uma nova linguagem ao serviço de um projeto político e ideológico que visa arrasar com o cânone cultural ocidental? A principal estratégia é o reforço da censura sobre a linguagem. O controlo da linguagem é a primeira fonte de doutrinação. Uma vez amestrados, os jovens estudantes ficam preparados para aceitar a censura como natural porque imposta sob o pretexto da promoção da igualdade. Quando a domesticação cultural e linguística estiver concluída, os próprios jovens se encarregarão de, através da autocensura, fazerem uso acrítico da nova linguagem sem se aperceberem que são sujeitos passivos de um experimentalismo político que visa o controlo total da sociedade através da destruição da “velha” cultura, tida como opressora das minorias, e a sua substituição pela mais radical das igualdades: a ausência de masculino e feminino como resultado da diferenciação biológica. Tome-se nota: “Tutors have been requested to consider asking students which pronouns they wish to be addressed by, warning against assuming gender-binary pronouns “he” and “she”. (Fonte: The Independent). Continuar a ler

O país está diferente

Concordo com a ideia central do artigo, mas acrescentaria que o país está muito menos estruturalmente diferente do que deveria estar e que, também por isso, 2016 continua a ser um ano de alto risco: O país está diferente. E a oposição recusa admiti-lo. Por José Manuel Fernandes.

Não há volta a dar: desde finais de 2012, meados de 2013, que os indicadores económicos estão a melhorar. Batemos no fundo, já estamos a recuperar. É isso que está a tornar a vida mais dura à oposição.

O lobby rentista dos manuais escolares

Um excelente texto de António Araújo sobre o escandaloso lobby rentista – patrocinado pelo Estado, como geralmente acontece nestes casos – dos manuais escolares “oficiais”: 42,70 €.

Os «cadernos de exercícios» ou «cadernos de actividades» são uma, entre muitas, das habilidades deste negócio milionário. O Ministério, no seu site, indica apenas o preço do manual. Mas depois todos os professores exigem o «caderno de actividades», sem o qual a aprendizagem da matéria é impossível. Sei bem que, nos termos da lei, é proibido obrigar a compra em conjunto do manual e do caderno de actividades. Também sei que quem já tenha o manual pode comprar só o caderno de actividades, ou vice-versa. Mas porque é que o MNE não publicita também o preço dos cadernos de exercícios e de actividades? No caso da Biologia, o livro custa 32,74€. Mas, depois, o «manual de auto-avaliação» carrega a factura com mais 9,96€.

Aliás, a pouca-vergonha é tanta que, regra geral, manuais e cadernos de actividades vêm ambos embrulhados no mesmo celofane. Se vou ao balcão de uma papelaria e peço «o livro de Biologia do 11º ano», entregam-me o manual mais o caderno de actividades, tudo por atacado. Chamam-lhe «bloco pedagógico». E depois apresentam a conta: 42 euros.

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E isto, não é afrontar o Tribunal Constitucional?

Segundo o Económico, num debate on-line António Costa admitiu estudar a possibilidade de as portagens pagas na rede viária servirem para financiar a Segurança Social. Financiar a Segurança Social com portagens é um disparate de uma magnitude tal que dificilmente se consegue encontrar algo mais inconstitucional do que isso. Mas como para superar o PS, só mesmo o PS, o Económico informa-nos ainda que:

Não se bastando, o líder do PS acrescentou que “quem fala em vias rodoviárias também pode falar em taxas que recaem sobre a energia”.

Como alguém dizia, nos dias que correm, quando lemos coisas sobre o PS não sabemos se são notícias do jornal ou do Inimigo Público…

PS promete aumentar retenção salárial

António Costa defende que o subsídio de Natal deve ser pago em Novembro e não em duodécimos. “É assim que deve voltar a ser”, afirma o líder socialista.

O que António Costa está a prometer é que as entidades empregadoras retenha os duodécimos uma média de 6 meses. Um empréstimos sem juros dos trabalhadores aos empregadores que irá significar uma redução dos salários reais.

Testemunho Especialista

Segundo o JN, «Costa acusa Governo e Carlos Costa de criarem ilusão de ausência de custos com Novo Banco». A observação é pertinente, não fosse Costa um perito na criação de ilusões de ausência de custos.

Financiar a Segurança Social com portagens

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Aimeriez-vous un souvenir?

António Costa teve uma ideia digna de nota — mais uma. Financiar a Segurança Social com receitas das portagens. Mas Costa não deveria ficar por aqui. Deveria também considerar pagar os salários dos funcionários públicos com as receitas da venda de souvenirs a turistas à porta de cruzeiros. E financiar obras públicas vendendo rifas, raspadinhas e sêlos, edição dos Descobrimentos.

E já agora, dado que as receitas das portagens abatem às PPPs, António Costa sugere financiar as PPPs com receitas vindas de onde? De uma taxa sobre as pensões ou sobre o subsídio de desemprego?

solução endógena e de longo prazo seria menos má

“Anbang falhou acordo com Banco de Portugal”

Ao que parece, segue-se agora novo duelo, desta feita com a Apollo…

Enfim, talvez não fosse má ideia pensar em soluções diferentes. Neste sentido, deixo estaesta sugestão, ambas escritas há um ano no “aftermath” da resolução, e que a meu ver permanecem menos más que o modelo entretanto adoptado.

Porque vos escrevo?*

Hoje, para o jornal i:

“A 4/10 temos eleições e sinto que é o meu dever alertar para todos os desaires que marcam o meu percurso enquanto candidato e que refletem o desnorte do PS. Como autarca fazia isto todos os dias na reunião da câmara e na rua. Mas na campanha nacional é mais difícil, eu não estava habituado, por isso decidi ter uma conversa convosco através desta carta depois de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas o terem feito.

O primeiro fator foi a minha postura aquando da vitória do Syriza: um “sinal de mudança que dá força para seguir na mesma linha”. Recentemente, tentei dar a volta confessando uma “identidade” com uma antiga líder de um “partido de direita ultra liberal”, mas era “tarde demais para vencer a depressão, a descrença e a resignação a um sentimento de decadência do PS e reconstruir um sentimento de esperança coletiva”.

Segundo, a respeito da polémica dos cartazes, havia “duas opções de fundo em confronto”: o nosso modelo de invenção de histórias de vida inexistentes e o anterior modelo de promessa de 150 mil empregos. Abdicando do segundo – executado depois de fazermos as contas novamente para chegarmos à conclusão de que, desta vez, podíamos prometer mais – optámos pelo primeiro.

Terceiro, porque temos de “virar a página da austeridade para relançar a economia, criar emprego de qualidade e com futuro” apresentei um cenário macro económico que só posso apresentar, hoje, graças ao trabalho da coligação PàF. Em 2011 seria, obviamente, impossível depois de tantos anos de governação socialista.

Por hoje é tudo, vou comer um hambúrguer com a minha Fernanda, até amanhã.”

*Este texto corresponde a uma adaptação à primeira carta de António Costa aos “indecisos”.

As contas do PS: impactos, riscos e perplexidades

“As contas de Centeno – compilação” de Pedro Romano (Desvio Colossal)

o grupo de economistas do PS divulgou uma versão mais alargada do seu cenário macroeconómico, com mais medidas e informações mais detalhadas. A má notícia é que os detalhes do modelo continuam por conhecer, e há pormenores do exercício que não são completamente claros. A boa notícia é que os números divulgados já permitem perceber um pouco melhor o que vai na cabeça (ou no excel) dos economistas e pelo menos fazer algumas contas de costas envelope.

É isso que esta série de posts tenta fazer. Para tornar a série compreensível – e não assustar os leitores com menos tempo -, a análise é separada em quatro partes.

A primeira elenca algumas questões de base relacionadas com a quantificação das medidas (os inputs do exercício, chamemos-lhe assim). São sobretudo números que não batem certo, dúvidas em relação às opções tomadas e perplexidades diversas que foram surgindo à medida que comecei a compilar e contrastar valores. A segunda e a terceira tentam perceber em que medida é que os impactos na actividade económica e no emprego são realistas. E a quarta faz um pequeno exercício de riscos orçamentais

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A falácia do contributo do consumo e do crédito para o crescimento do PIB

Imagine o leitor que de um ano para o outro acontecia o seguinte na economia portuguesa:
1. Os portugueses consumiam mais 200 milhões de euros de carros importados
2. A corticeira Amorim vendia mais 100 milhões de euros em cortiça

O que aconteceria ao PIB neste caso? Seguindo a fórmula mais conhecida do PIB (Consumo Privado (C) + Consumo Público (G) + Investimento (I) + Exportações (X) – Importações (I)), o PIB cresceria os 100 milhões de euros correspondentes ao aumento de exportações da corticeira Amorim. O aumento do consumo em 200 milhões era totalmente eliminado pela parcela importações, já que todos os produtos foram importados. Intuitivamente, não é complicado perceber que o consumo de 200 milhões em carros importados não tem nenhum efeito na riqueza produzida no país. Também não é difícil perceber que produzir mais 100 milhões de euros em cortiça, aumenta o tamanho da economia portuguesa.

Se o leitor, principalmente se não for economista, percebeu a explicação simples do parágrafo anterior, ficará surpreendido de saber que para o INE não é bem assim. Na análise à situação anterior, os relatórios do INE diriam que o crescimento de 100 milhões da economia ocorreu graças a um contributo positivo do consumo no valor de 200 milhões de euros e negativo da procura externa líquida no valor de 100 milhões de euros. Isto acontece porque o INE não desconta à procura interna o valor dessa procura que resultou em importações, fazendo com que todo o peso do aumento das exportações recais sobre a categoria “procura externa líquida”. Esta confusão metodológica tem efeitos relevantes na discussão política e dá azo a demagogia de todo o tipo. Pior que isso: faz com que, por natureza, a procura interna contribua sempre positivamente para o crescimento do PIB em alturas de crescimento, dando a ideia aos mais desatentos que a única forma de crescer é estimulando a procura interna.

Para corrigir esta situação, o Banco de Portugal alterou a sua metodologia de cálculo dos contributos para o PIB. Em vez de subtrair o valor das importações apenas ao contributo das exportações, aloca parte das importações ao consumo interno. No caso acima, como todo o aumento das importações se deveu ao consumo, as importações seriam subtraídas alocadas ao contributo do consumo fazendo com que fosse, acertadamente, zero. Uma grande diferença em relação ao que é reportado no INE.

A diferença entre usar uma metodologia acertada (a do Banco de Portugal) e uma completamente enganosa (a do INE) é gritante. Em 2014, por exemplo, o INE refere um contributo da procura interna para o crecimento do PIB de +2,0pp e o Banco de Portugal de apenas +0,3. Sete vezes menos! Da mesma forma, enquanto o INE reportou um contributo da procura externa líquida de -1,1pp, o Banco de Portugal fala num contributo positivo de +0,6 das exportações (o dobro da contribuição atribuída ao consumo interno).

Quando ouvirem um político dizer que o crescimento económico se deve ao consumo e ao crédito, lembrem-se desta explicação e dos três gráficos abaixo:

CNKEKCmXAAAU9Ba

CNKEKDcXAAACeEY

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(Fonte: INE e Banco de Portugal. Primeiros dois gráficos roubados ao João Miranda)

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RTP ao serviço da propaganda socialista

Hoje foi anunciado que a taxa de desemprego baixou para 12,1%, para os níveis mais baixos desde Outubro de 2010. Além da descida, é relevante o facto da descida ser consistente, em linha com o que tem ocorrido nos últimos meses. E o que é que a RTP faz? Após anunciar a descida do desemprego, mostra duas reportagens, uma, onde se fala do emprego sazonal, no verão, e outra, com uma professora que decide emigrar. Se a RTP desejar, posso indicar-lhe com gosto toda uma série de empresas que optaram por contratar, nos últimos meses, pessoas para exercer funções que não são de venda de bolas de berlim ou nadador-salvador, e que são a PRINCIPAL razão de ser da descida AGREGADA do desemprego, em vez de dar voz às situações que apenas dão uma visão muito parcelar da realidade do país.

Já agora, seria interessante que a RTP e outros órgãos de comunicação social perguntassem a Mário Centeno se, face ao novo valor do desemprego, o PS vai corrigir as suas projecções, corrigidas a 21 de Agosto de 2015, que estimam um nível de desemprego para 1016 de … 12,2% (como muito bem o Carlos Guimarães Pinto identifica aqui): ou se vão continuar apenas a esticar, acriticamente, os microfones, para que alguns políticos projectem as suas mistificações. É que os famosos “cenários macroeconómicos” do PS não acertam uma, passam a vida a ter de ser mudado, e parece que, sobre isso, a comunicação social não tem nada a perguntar ao professor Centeno.

A culpa é do hambúrguer

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Da página oficial de Facebook António Costa consta a imagem que antecede este texto. Como se a imagem não valesse só por si, a legenda que compõe o resto do post rebenta com a escala de confiança. E reza assim a legenda:

“António Costa e Fernanda Tadeu casaram há 28 anos. Não houve festa mas sim um hambúrguer rápido no Abracadabra na Rua do Ouro com os padrinhos Diogo e Teresa Machado, antes de seguirem viagem para Veneza em lua-de-mel. António sempre soube gerir a sua vida pessoal e profissional e Fernanda tem sido o seu maior apoio.”

Infelizmente para a confiança ganha com este monumento de comunicação, o post do hambúrguer no dia de casamento de António Costa desapareceu por questões técnicas.

Como a confiança merece ser apoiada, nacionalizei a imagem ao Telmo Azevedo Fernandes. Que faz justiça aos protagonistas.

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À falta da espiral recessiva a coisa desculpa-se com a sazonalidade

Observador

Primeira estimativa do INE para a taxa de desemprego em julho aponta para mais uma descida, para 12,1%. É o número mais baixo desde outubro de 2010. O valor de junho foi revisto em baixa para 12,3%.

Vá lá para fora, cá dentro – versão sardinhas

Fui almoçar um hambúrguer lá para os lados da Rua do Ouro. Estava óptimo, como sempre. Há quase trinta anos que não falho, o sítio é simpático, e a clientela, de confiança. Hoje, não sei porquê (talvez para concorrerem com as cadeias de fast-food estrangeiras) lançaram uma campanha engraçada: ao fim de dez refeições, ganhas cupões para um sorteio de um fim-de-semana em Veneza. Adorei a ideia. E as chips continuam impecáveis, sempre com aquele toque estaladiço típico de Trás-os-Montes. Não me venham com americanices, não há nada que supere a comida tradicional portuguesa.

PS Volta A Prometer Aumentar O Desemprego

O Carlos Guimarães Pinto já tinha referido que o cenário macro-económico do PS ao fim de três meses já prometia aumentar a taxa de desemprego. Hoje, o INE apresentou a sua estimativa provisória para a taxa de desemprego em Julho de 2015 com o valor de 12,1%.

Segundo o estudo sobre o Impacto Financeiro do Programa Eleitoral do PS que actualizava o e cenário macro-económico do PS na longínqua data de 21 de Agosto de 2015 (há cerca de semana e meia atrás), com as medidas propostas pelo PS, a taxa de desemprego seria de 12,2% em 2016 – fica prometido o aumento do desemprego.CenarioMacroEconomico

Leitura dominical

Europa é de fugir a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

Quando um branco mata um negro, como às vezes acontece com alguns polícias excessivamente nervosos nos EUA, a sentença popular é imediata: trata-se, obviamente, de racismo. Quando, como aconteceu na quarta–feira, um negro mata dois brancos, filma os homicídios e despeja tudo no Twitter para efeitos de consagração, a coisa complica-se: o homem, para cúmulo, gay, era capaz de ser vítima de discriminação, o que legitima parcialmente o crime. O resto legitima-se com o direito de posse de armas, pelo que há que julgar a Constituição e prender o revólver.

 

Em matéria de malabarismo mental, não faltam casos parecidos. O terrorista do comboio francês, por exemplo, apenas queria roubar para comer. Pelo menos é o que jura a advogada dele, que descreve um homem miserável e subnutrido. Esqueceu-se de descrever de que maneira é que tamanha penúria económica e física permite adquirir e transportar uma Kalashnikov de 600 euros e três quilos. Mas o principal é que a culpa é da exclusão social, ou seja, da sociedade, ou seja, sua e minha. Por mim, estou disposto a confessar tudo e a acatar o merecido castigo.

 

Entretanto, lembro a curiosa retórica com que se recebe os refugiados que dia após dia chegam pelo Mediterrâneo e por onde calha. Segundo a voz corrente nos media, a responsabilidade pela tragédia (humanitária, é de bom-tom acrescentar) cabe inteirinha à Europa, a Europa que não recebe devidamente, a Europa que não integra adequadamente, a Europa que, em suma, não corresponde impecavelmente aos sonhos daqueles desgraçados, disponibilizando-lhes em cinco minutos casa decente, emprego digno, subsídio de assimilação e banda filarmónica. Os telejornais fervilham de repórteres a apontar o dedo indignado.

 

Quase ninguém explica que as dificuldades de resposta da Europa são inevitáveis perante a brutal, e desde há décadas incomparável, migração de centenas de milhares de pessoas (350 mil em 2015). Quase ninguém recorda que as dúvidas europeias são as próprias de gente civilizada, que tende a ponderar as consequências dos seus actos. Quase ninguém nota que a Alemanha, logo a Alemanha, tem liderado com a generosidade possível o processo de acolhimento. Quase ninguém refere a veneração que inúmeros sírios passaram a dedicar à senhora Merkel, logo à senhora Merkel. Sobretudo quase ninguém informa que os refugiados, na imensa maioria muçulmanos, escapam precisamente da selvajaria hoje recorrente nos países de origem e na religião que professam. Apesar do folclore jornalístico em contrário, que atribui ao bombeiro o fogo posto pelo pirómano, a verdade é que o drama dos refugiados começa no Islão, não na Europa.

 

A benefício da subtileza, também poderíamos falar dos refugiados que são de facto “infiltrados” do ISIS e agremiações similares. E dos refugiados que matam refugiados sob acusações de cristianismo. E dos perigos de abordar estas matérias com mais lirismo adolescente do que sensatez. Porém, dado que andamos ocupadíssimos a odiarmo-nos, não há tempo para detalhes. O importante é estabelecer que a culpa é nossa. Culpa de quê? Vê-se depois, ou nem isso. Certo é que a Europa é de fugir, embora os outros misteriosamente fujam para a Europa.

 

“Governo quer obrigar portugueses a pagarem leite mais caro”

Milk Numa visita a Chaves, o Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho veio dizer que o seu Governo está a procurar “sensibilizar a União a Europeia para a necessidade de ter uma alteração dos preços de referência” do leite, para assim impedir que “preços anormalmente baixos possam ocorrer”. O que são preços “anormalmente baixos” e o que os distingue de preços “normalmente baixos” ninguém sabe, muito menos o Primeiro-Ministro. O que ele sabe, e bem, é que os produtores de leite portugueses, parte integrante da “lavoura” tão querida do CDS e que este não se cansa de procurar proteger, dizem estar a viver uma “situação dramática” com a queda dos preços que se tem verificado desde o fim das quotas anteriormente estabelecidas pela União Europa. E sabe ainda melhor que estes lhe agradecerão todos os esforços no sentido de “corrigir” o problema.

Sem promoções no Pingo Doce para condenar, a Ministra da Agricultura logo veio consolar os produtores de leite, dizendo que a “preocupação” do Governo era fazer com que o preço do leite “pudesse subir”, para que assim fosse “efetivamente um mecanismo regulador, que neste momento entendemos que não está a ser”. Reunida com os seus congéneres de Espanha, Itália e França, Cristas explicou que iriam pedir na Europa “um aumento dos preços de referência, que permitem retirar produto do mercado quando o produto está em excesso – e que está a pressionar o preço para baixo – e com isso ajudar a regular o preço do próprio produto”. A crer no seu passeio a Chaves e o que lá disse, o Primeiro-Ministro dá o seu aval, e mais uma vez (não têm sido poucas) demonstra o quão infundadas são as acusações de que se trata de um “ultraliberal”.

Traduzidas do “politiquês” que esta gente adoptou em detrimento da língua portuguesa, as palavras da Ministra da Agricultura querem dizer apenas o seguinte: uma vez removidos os obstáculos à produção e venda do leite, a oferta do dito produto aumentou, e a procura por ele não foi suficiente para que quem o vende o fizesse a preços mais altos que aqueles que se têm verificado; legítima e compreensivelmente preocupados com a sua vida e o seu ganha-pão, os produtores agradecem que o poder político, sediado em Lisboa ou em Bruxelas, arranje um mecanismo que permita diminuir a concorrência que enfrentam, e assim garantir que possam cobrar preços mais altos pelo que têm a vender; e como a “lavoura” constitui uma dilecta clientela da coligação, esta última não quer deixar de lutar (ou, no mínimo, parecer fazê-lo) para que seja satisfeita a vontade da primeira.

Ou seja, a coligação achou por bem partir para eleições passando (como agora horrivelmente se diz) “a mensagem” de que quer proibir os portugueses de pagarem, pelo leite que compram, os preços baixos que as livres oferta e procura presentemente lhes oferecem; e que se “a Europa” deixar e um número suficiente de eleitores a quiser alçar de novo a São Bento, pretende usar o poder e a lei para beneficiar arbitrariamente um grupo de pessoas em detrimento de outras, pela simples razão de que as primeiras se movimentam melhor que as segundas no mercado da influência política, o único que prospera em Portugal. Tendo em conta o desprezo generalizado da população por todo e qualquer indivíduo que exerça um cargo político, e que por isso convém aos partidos “mobilizarem” os fiéis e clientes a irem votar, já que poucos para além destes estarão dispostos a dar o seu voto a quem quer que seja, a tal “mensagem” talvez seja uma boa ideia como estratégia eleitoral e de manutenção do poder. Mas como modo de o exercer, e princípio de governação, dificilmente poderia ser pior.