Concordo com quase todas as palavras, vírgulas e verbos articulados pelo Carlos Guimarães Pinto no post Uma parasita a menos (logo abaixo).
Só discordo visceralmente da última frase do texto:
Maria João Pires decidiu abandonar a nacionalidade portuguesa e partir para o Brasil. Era bom que os restantes parasitas lhe seguissem o caminho.
Não é por qualquer sentimento xenófobo ou antiimigratório, até porque cá estou em Lisboa. É porque, meu caro Carlos, no Brasil já tem tanto artista e artista em busca de uma boca estatal ou já beneficiário dela que temo no médio e longo prazos o governo brasileiro destinar uma parte gorda do orçamento só para financiar projectos artísticos pessoais (alguns, efectivamente, atraem umas 10 pessoas, incluindo familiares e amigos íntimos).
No mês passado, por exemplo, o Ministério da Cultura do Brasil, por interferência directa do Ministro da Cultura, Juca Ferreira, autorizou o pedido dos produtores para financiar a digressão do compositor e cantor brasileiro Caetano Veloso mediante benefícios fiscais da Lei Rouanet (de incentivo à cultura na qual empresas podem deduzir uma parte do Imposto de Renda ao patrocinar eventos culturais). Um mês antes, em maio, a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), responsável por analisar os projectos, negou o pedido dos produtores sob a justificativa de que um artista como Caetano Veloso não necessitava do benefício por ser comercialmente viável. O valor pedido? R$ 2 milhões, 733.785,39 euros na cotação de ontem.
É preciso ter muita coragem para não entrar nesse esquema. Em agosto de 2007, o já falecido músico e realizador Zé Rodrix pediu demissão ao descobrir que o espectáculo sobre a vida de Jim Morrison no qual trabalhava teria recursos obtidos via Lei Rouanet:
Não acredito que o dinheiro de TODOS deva servir para patrocinar a aventura pessoal de ALGUNS, e, quando isto se configura, eu saio fora. Investimento deve ser feito com dinheiro real que não prejudique o essencial do país. Impostos devem ter fim específico, e os sustento da arte não é, a mer ver, uma destas essencialidades. Sempre fui um artista que não se privilegiou de nenhum tipo de ligação com estados e governos, em nome de minha própria liberdade. Assim sendo, há que haver em mim algum respeito pelas coisas em que eu acredito. Se entrar nisto, estare negando tudo que é a minha maneira de ser, pensar e agir. No Brasil de hoje, precisamos de investidores conscientes, e não, segundo minha maneira de ver a realidade, de utilizar de maneira equivocada o dinheiro público.
Não sei os detalhes das razões que motivaram tal decisão insensata da pianista portuguesa, mas, meu caro Carlos, não incentive outros a fazê-lo porque senão os artistas brasileiros passarão a ver com maus olhos os artistas portugueses e antevejo passeatas, protestos, gritos, desmaios, espasmos para ver quem consegue arrancar mais do contribuinte brasileiro. Não será, de facto, uma cena bonita de ser ver.

Ontem, na Quadratura do Círculo (Flashback, para os saudosistas, e Tempo de Antena, para António Costa), o Presidente da Câmara de Lisboa, num daqueles momentos de falta de vergonha que, quando se trata da personagem, nunca escasseiam, disse que “a única” (imagine-se, a única) coisa que “correu mal” ao Governo foi “a sorte” (por, claro, não ter tido). 

No final de 