Um dilema moral

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Em filosofia política, mas até extravasando o contexto da política, existe um interessante dilema moral que permite aferir se alguém pensa as suas decisões com base em princípios estanques e imutáveis, ou com base em critérios utilitaristas que se adaptam às circunstâncias e, mais frequentemente, aos números.

Está um gordo em cima de uma ponte, por onde passa uma linha de comboio. Presas à linha de comboio estão 5 pessoas. Existem duas decisões possíveis:

  1. Atirar o gordo da ponte, parando o comboio e impedindo que este mate as 5 pessoas;
  2. Não sacrificar o gordo, deixando que o comboio atropele as pessoas.

Não existe uma resposta correcta, depende do quadro moral que norteia cada um. Curiosamente, muitos dos que se recusam a sacrificar um inocente para salvar terceiros acabam por alterar a sua decisão quando o número de pessoas aumenta, mostrando que, em boa verdade, sempre foram utilitaristas. Os fins justificam os meios, pensarão, pois trata-se de uma questão de sobrevivência.

Serve este dilema para contar que Carlos Abreu Amorim decidiu ele próprio atirar-se da ponte, pois vem aí um comboio que convém não perder.

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A greve da TAP vista do Porto

Queremos aviões novos. Por Jorge Afonso Morgado.

Vista do Porto, a questão é igualmente simples mas especialmente mais incómoda. A TAP não presta um serviço decente ao Porto. E não quer ser parte activa no crescimento do turismo na cidade. O aeroporto cresce (8%, apontando para um recorde de 7M de passageiros), o número de dormidas aumenta (mais de 13%, devendo superar os 2,5M). Enquanto a cidade ganha prémios – Best European Destination chega? -, a TAP acumula atrasos, desvios nas rotas e instabilidade nas frequências. Com o alheamento da TAP, valem–nos o regresso da British, o reforço da Lufthansa e da TAAG, o investimento da EasyJet, a novidade da Turkish e a sempre presente e “quase nossa” Ryanair. Acresce que a TAP usa na maioria dos voos para o Porto, aviões do tempo da televisão a preto e branco, como os Embraer onde um português médio não consegue pôr-se de pé ou os velhinhos Fokker. Aviões que já não se fabricam, para os quais é difícil arranjar peças (basta viajar neles para perceber), que começam a dar problemas sérios e que faziam uma bela figura num museu.

Uma greve da TAP é um direito inalienável. Para quem a convoca, rebentar com o que resta também. No caso do Porto, o melhor que se pode dizer é que quase não se nota. A concorrência, felizmente, funciona.

Leitura complementar: Contra a requisição civil na TAP; Assinemos já o manifesto contra a venda da TAP; TAP lidera rankings internacionais.

Boas razões para estudar filosofia política

Elogio da filosofia política. Por Paulo Tunhas

Em todo o caso, a filosofia, e não é um dos seus menores benefícios, protege da facilidade da indignação. Não dos actos de aprovação e de desaprovação, é claro. Muito pelo contrário. Mesmo que, como dizia Hegel com razão, não deva ser edificante, deve-nos ajudar a julgar. Mas protege-nos da facilidade da indignação quando esta funciona quase como uma cumplicidade com aquilo que indigna, um caso desagradavelmente frequente. E a grande filosofia política protege-nos da facilidade das indignações políticas e do guarda-roupa retórico que fatalmente as acompanha. Quer dizer: impede-nos de levarmos muito a sério a quase totalidade dos discursos políticos que nos acompanham diariamente. Ou melhor: impede-nos de os levarmos à letra e convida-nos a traduzi-los, por difícil ou improvavelmente satisfatório que o exercício pareça, nas questões fundamentais que se repetem.

Carlos Abreu Amorim e a difícil convivência do poder político com o liberalismo

As mudanças de opinião podem ser um sinal de inteligência e honestidade intelectual. Alguém que nunca pare de aprender, acabará eventualmente por mudar ou ajustar as suas opiniões. Não tenho muita consideração com quem forma uma opinião aos 20 anos (necessariamente baseada em pouca informação) e não a muda ao longo da vida.
Não há por isso nada de errado nestas declarações de Carlos Abreu Amorim. Todos os dias pessoas mudam de opinião e eu gosto de pensar que são mais os que percorrem um caminho oposto ao dele. Mudar de opinião é normal e a mudança dele já era evidente há bastante tempo. Só para os mais desatentos será uma surpresa que ele não se considere liberal.
Claro que nestas coisas o contexto importa. O liberalismo é uma doutrina que procura retirar poder da esfera política, devolvendo-o aos indivíduos. Quanto mais socialista for um país, maior será o poder dos políticos. Tornar-se socialista apenas depois de atingir um cargo de poder político deixa suspeitas de uma mudança de conveniência. A forma forçada como o anúncio desta conversão aparece (em resposta a uma pergunta muito pouco relacionada com as suas convicções pessoais); a potencial chegada de um bloco central liderado pelo PS (onde assumidos liberais certamente não terão lugar); e a desculpa dada para essa conversão (uma crise num sistema financeiro centrado numa economia monetária estatizada) fazem suspeitar que há algo mais do que uma conversão intelectual.
Carlos Abreu Amorim é, agora de forma assumida, mais um dos que apoiam o sistema económico que nos trouxe até aqui. Um sistema que dá poder e prestígio social aos que, como ele, assumem cargos políticos, mas que em Portugal e no resto do Mundo apenas trouxe miséria aos outros.

TAP lidera rankings internacionais (2)

Of the 35 major airlines compared in 2013, Monarch planes, on average, were delayed the longest – 18 minutes – followed closely by TAP Portugal, whose flights were on average delayed by 16.8 minutes.

Em 2013, entre as companhias aéreas que voam de e para o Reino Unido, a TAP ficou em 2º lugar no rankings das mais atrasadas. A culpa, como dirão alguns comentadores, é do nevoeiro que se faz sentir em Lisboa, da Groundforce (que até pertende à TAP), ou da privatização da ANA.

Já em 2008, a Associação Europeia de Companhias aéreas colocava a TAP no topo dos rankings de atrasos:

BA was 25th of 28 carriers for punctuality in short and medium-haul flights, measured by the share of delayed flight arrivals, ahead only of Cyprus Airways, Spanair and TAP.

Olhando para o aspecto positivo da coisa, há sempre quem fique a ganhar com esta liderança da TAP

TAP é alvo de muitas reclamações depois de cancelamentos e atrasos de voos
A companhia aérea TAP é líder de reclamações de passageiros, depois de vários cancelamentos e atrasos dos voos. Com pouco mais de dois meses de vida, a startup internacional AirHelp criada para ajudar os passageiros a reclamar e a receber indemnizações junto das companhias aéreas, tem tido uma forte procura por parte dos passageiros da TAP.

As requisições civis de 1977 e 1997 na TAP

TAP: As justificações das requisições civis de 1977 e 1997

O diploma de 1997 dizia que todos os trabalhadores, incluindo os que estão no estrangeiro, estavam convocados para esta requisição civil, enquanto em julho de 1977, o Governo – liderado por Mário Soares – considerou que uma greve da TAP degradava “a sua imagem como companhia internacional, na fase de franca recuperação económica em que se encontra”.

Leitura complementar: Contra a requisição civil na TAP; Assinemos já o manifesto contra a venda da TAP; TAP lidera rankings internacionais.

Greve da TAP: o que fazer?

Há greve. O que fazer?

Leitura complementar: Contra a requisição civil na TAP; Assinemos já o manifesto contra a venda da TAP; TAP lidera rankings internacionais.

John Hibbs, R.I.P.

John Hibbs, R.I.P. Por Michael Goldstein.

John Hibbs was an IEA author whose work led to a radical change in policy in the somewhat unfashionable field of bus transport. (…) John is almost certainly right that the 1985 Act prevented the ‘strange suicide of the British bus industry’ – traffic fell from 42 per cent to 6 per cent of the transport market between 1952 and the beginning of the 21st century, but that fall came to an end with the greater flexibility and more effective marketing techniques that were possible after the 1985 Act. Before the Act, many local authorities were still running routes determined by post-World War I timetables. He was a strong critic of those voices (still prominent today) who wished to re-regulate the industry believing it would usher in the days of decline again. John described the idea of franchising as ‘competition for a monopoly’ and incompatible with liberalisation and the best possible passenger service.

Desemprego cai 13% face ao ano passado

Número de desempregados inscritos cai mais de 13% em novembro

O número de desempregados inscritos nos centros de emprego do continente e das regiões atingiu as 598.083 pessoas no final de novembro deste ano, menos 13,6% face ao período homólogo, segundo dados oficiais dados a conhecer esta sexta-feira.

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Dennis O’Keeffe, R.I.P.

Dennis O’Keeffe, R.I.P. Por Steve Davies.

Over the years his academic work took a number of directions and involved work with several institutions. His great professional interest was always the sociology of education and he was always a fierce critic of the way that educational quality had been undermined by misguided ideas and practices. During the 1990s he undertook perhaps the major project of his academic life, a study of truancy. He was able to show that truancy was vastly more widespread than most realised and that the great bulk of it was not simple hostility to education by delinquent pupils but a perfectly rational decision by pupils to avoid certain subjects and teachers while attending other classes. The fault for him lay in the rigid control of schools by the state and a range of misguided pedagogical philosophies. These findings were of course unwelcome to both left and right at the time and in particular the Department of Education and so they were ignored.

In addition to this work Dennis undertook a number of very important major editing and translation projects for the Liberty Fund of Indianapolis, making use of his fluent command of French to rediscover the great tradition of French Classical liberalism. He edited and translated Benjamin Constant’s Principles of Politics and worked on the Fund’s continuing six volume complete works of Bastiat. He also translated the complete text of Gustave de Molinari’s ‘Evenings on the Rue St Lazare’ which the Liberty Fund will be bringing out in the near future.

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Quanto mais concorrência, menos poder para chantagear

Lufthansa aproveita greve na TAP e vai fazer mais voos entre Lisboa e Frankfurt
Ryanair já reagiu à greve da TAP. Há voos a 19,99 euros

Leitura complementar: Contra a requisição civil na TAP.

TAP lidera rankings internacionais

Hoje, por exemplo, Lisboa está no topo dos aeroportos mundiais em atrasos dos vôos. Mais de metade dos vôos chegaram ou partiram atrasados. (via http://www.flightradar24.com/airport/delays)
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Os leitores que queiram ser compensados pelos seus vôos, têm aqui as instruções.

Assinemos já o manifesto contra a venda da TAP

Comecemos por fingir que a TAP não precisa de dinheiro e que os capitais próprios negativos não significam nada. Agora façamos de conta que a Comissão Europeia não proíbe os estados de injectar dinheiro em companhias aéreas, mesmo quando a alternativa é a falência. Vamos depois fingir que investidores estrangeiros irão colocar o seu dinheiro na TAP apenas para acabar com todos os vôos, afinal foi isso mesmo que fizeram com a EDP (os sacanas dos chineses levaram as barragens) e que se preparam para fazer com a PT (já andam a planear desmontar as torres e levá-las para França). Finjamos depois que se a TAP acabasse às mãos dos investidores internacionais, não viriam outras companhias aéreas aproveitar as rotas deixadas vagas. Façamos o tremendo esforço intelectual de assumir que a venda da TAP acabará com todas as suas rotas.
Esqueçamos depois que das 30 rotas continentais mais concorridas a partir de Lisboa, a TAP só tenha o exclusivo de uma (Hamburgo). Esqueçamos ainda que no Porto não existe uma única rota entre as mais populares na qual não haja já alternativa à TAP. Finjamos depois que ir de férias para o Brasil, ir a Caracas ou Maputo sem fazer escala seja uma necessidade essencial merecedora do dinheiro dos contribuintes.
Sei que para os leitores mais honestos e inteligentes será um grande esforço passar por este exercício de fingimento intelectual, mas se o conseguir estará pronto para colocar o seu nome ao lado de Tony Carreira no manifesto contra a venda da TAP.

A requisição civil na TAP e o interesse público

O meu artigo de hoje no Observador: Contra a requisição civil na TAP.

O interesse público correctamente entendido não passa por aplicar a requisição civil aos trabalhadores da TAP, mas sim pela completa desestatização do sector e pelo aumento, por via do mercado, das alternativas à disposição do público.

Proteger o interesse público implica garantir que os portugueses não continuarão no futuro – como tem lamentavelmente sucedido até agora – a ser forçados a sustentar a TAP. A única questão em aberto face à gravíssima situação a que chegou a empresa é se o interesse público será melhor servido por uma imediata privatização ou pela liquidação da empresa.

O artigo completo pode ser lido aqui.

Heim, o Bloco a portar-se bem

Muito bem o BE nestas duas iniciativas legislativas que foram ontem aprovadas. Não percebo duas coisas.

1. Por que razão as notícias nos títulos escolheram sempre dar a primazia a aspetos jurídicos (ser crime público ou não) em vez de ao que é mais importante: que a violação tenha deixado de ser crime apenas quando algum grau de violência física tivesse sido usado (sancionando-se, assim, violações em que se recorresse a ameaças ou quando a mulher estivesse embriegada ou drogada de mais ou em que não se usasse muita violência) para passar a ser crime sempre que a mulher não dá o seu consentimento.

2. Por que diabo todos os partidos exceto BE e Verdes se abstiveram? Entendo as objeções que alguns possam ter à questão do crime público, mas na questão do consentimento não vejo como possa haver dúvidas. Só posso entender que não tenham querido associar-se a um projeto do BE. Mas tal como foi indecoroso o uso do PS das tragédias de dezenas de mulheres para benefícios eleitorais, também me custa que prevaleçam politiquices sobre a necessidade de melhorar a legislação nos casos de violência sexual sobre mulheres (ou sobre quaisquer outros grupos demográficos ou sociológicos, for that matter).

Interesse púbico e provisão privada

Luís Aguiar-Conraria (A Destreza das Dúvidas)

Não é de todo obrigatório que o interesse público e os sectores vitais da economia nacional tenham de estar entregues a empresas públicas. Por exemplo, a alimentação é absolutamente vital e penso que não passa pela cabeça de ninguém nacionalizar todas as empresas alimentares em Portugal. Diria até que o argumento funciona ao contrário: a alimentação é um sector tão essencial que não podemos correr o risco de o entregar à gestão de mandatários de governos

Entrevista para o podcast do Instituto Mises Brasil

Foi com muito gosto que dei mais uma entrevista (salvo erro a terceira) ao Bruno Garschagen para o podcast do Instituto Mises Brasil, desta vez tendo como tema o artigo “Hayek’s Slippery Slope, the Stability of the Mixed Economy and the Dynamics of Rent Seeking”, recentemente publicado na Political Studies, a principal revista científica da Political Studies Association.

PODCAST 150 – ANDRÉ AZEVEDO ALVES

Para fechar o ano com chave de ouro depois de um 2014 muito produtivo na divulgação das ideias da Escola Austríaca no Brasil, incluindo o lançamento realizado no início desta semana do terceiro número da revista MISES, o Podcast do Instituto Mises Brasil foi conversar com André Azevedo Alves, professor e doutor em Ciência Política pela London School of Economics, sobre um artigo acadêmico escrito em parceria com o professor John Meadowcroft, do King’s College London, e publicado na edição mais recente da revista Political Studies.

Subjacente ao artigo (com primeira versão concluída em 2012) está uma série de ideias e uma linha de investigação que o John Meadowcroft e eu vimos tentando desenvolver já há alguns anos e relativamente à qual esperamos poder apresentar mais resultados nos próximos anos. Em 2014, por motivos de força maior, não foi possível avançar substancialmente nesta linha, mas espero que 2015 seja um ano mais produtivo a este respeito, com novos frutos a médio prazo.

Mais uma greve dos STCP: dias 6, 7, 8 e 9 de Janeiro

Trabalhadores da STCP marcam quatro dias de greve para janeiro

Em comunicado, a Comissão de Trabalhadores da STCP afirma que a greve está agendada para os dias 06, 07, 08 e 09 de janeiro.

Leitura complementar: Esta semana há greve nos transportes públicos.

Sobre a PACC

Sobre a PACC, recordo este meu artigo de Julho no Observador: A prova, os professores e os sindicalistas;

O activismo político dos sindicalistas comunistas explica uma boa parte da contestação organizada à PACC. Mas seria errado negar que existe também em alguns professores uma estranha aversão à realização de exames. Se se pretende promover a qualidade do ensino e se há muitos candidatos para um reduzido número de lugares no Estado, é lógico que se tente seleccionar os melhores por meio de uma prova.

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FCT e a conspiração das quotas

Diz o Público que a FCT deu instruções para haver até 80 centros excepcionais e excelentes. Ou seja, afirma o jornal que a FCT estabeleceu quotas para a avaliação das unidades de investigação, sugerindo que há uma ordem para, independentemente da qualidade dessas unidades, não se ultrapassar essa marca:

“haverá um limite para a atribuição das classificações mais altas: entre os 178 centros que chegaram a esta fase da avaliação, no máximo 10% (cerca de 18) poderão ter a nota Excepcional e 20 a 35% (35 a 62) a nota Excelente.” (…)

Ora, isso é objectivamente falso. E não só é falso como resulta de uma leitura enviesada do documento em causa (publicado a 19 de Novembro), que só pode ser propositada: é que o parágrafo que antecede a tabela de onde se retiraram estas percentagens é explícito: estas estimativas não podem, de maneira alguma, influenciar a avaliação das unidades de investigação. Só não lê quem não quer. Está na página 7 (ver abaixo), no original aqui.

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Mas pronto, se calhar o que interessa não são os factos. O que interessa é que as teorias de conspiração dão muito jeito para criticar.

Prosperidade por decreto

Aguardo ansiosamente pela vitória do Syriza nas próximas eleições gregas. Vai ser bonito de se ver:

Greek far-left politician Alexis Tsipras has said a Syriza government would “cancel austerity through the Greek parliament, we will cancel the bailout.” He told Reuters that a Syriza victory, after a possible early election, “will break the bad spell and liberate markets. It will create a feeling of security.”

Manifesto pela TAP

Este accionista gostava de voar para fora da TAP.

Este accionista gostava de voar para fora da TAP.

Caros subscritores do manifesto pela não privatização da TAP, nomeadamente António Pedro Vasconcelos, Adriano Moreira, António Arnaut, António Sampaio da Nóvoa, Dom Januário Torgal Ferreira, Francisco Louçã, Mário Soares, Lídia Jorge, Siza Vieira, Sérgio Godinho, e tantos outros que gostam de brincar às empresas com o dinheiro dos outros,

Agora que se juntaram, façam um fundo de investimento e entrem na corrida pela compra da empresa. É win-win para toda a gente: a TAP continuará a ser vossa, um sentimento de posse que vos tem preocupado muito; e nós deixaremos de ser vossos sócios, algo que apraz a qualquer mente lúcida. Muito obrigado.

Pelo fim do embargo a Cuba

“Trade Will Lead to Freedom” de Douglas Irwin (WSJ)

President Obama’s announcement that he wants to restore diplomatic relations between the U.S. and Cuba immediately brings up the U.S. trade embargo of that country. Mr. Obama and the new Republican Congress now have a historic opportunity to lift the embargo. The trade ban has been in effect for more than 50 years. It has been a complete failure to promote any positive change in the country. Instead, it has strengthened the Castros’ grip on the country by giving them a ready-made excuse for their disastrous economic policies.(…)

Trade will unleash winds of change that will upset the status quo. As Ronald Reagan understood, there is nothing more unsettling to repressive regimes than allowing the exchange of goods and people, ideas and information, to flow freely between countries. Commerce is a conduit for this exchange and can upend the balance of power in closed societies.(…)

QE não é “money printing”

No decorrer da minha análise à descida do preço do petróleo, e no enquadramento prévio que dei ao quantitative easing (QE), surgiram dúvidas que serão de certa forma naturais, dada a complexidade subjacente à economia monetária. O sistema bancário passou de um mero balanço de entradas e saídas de ouro, evitando assim assaltos entre Florença e Veneza, para um intrincado sistema de moeda fiduciária em que os bancos têm capacidade de criar crédito, e os bancos centrais capacidade de manipular taxas de juro, que antes não eram mais do que o preço de equilíbrio entre poupança (oferta de crédito) e investimento (procura por crédito).

Recapitulando: quando um banco necessita de liquidez, entrega ao banco central um activo teoricamente risk-free, que geralmente são títulos de dívida pública, e que funcionará como colateral. O quantitative easing consiste somente em alargar o leque de activos que podem ser entregues em troca de liquidez. É pura e simplesmente um asset swap. Neste momento o balanço do banco central expande-se, o que não implica que os agregados monetários se tenham expandido também. Um exemplo: um banco tem em sua posse uma hipoteca de uma casa com um determinado valor; dada a natureza pouco líquida da hipoteca, o dinheiro está indisponível até que todo o capital e juros em dívida sejam pagos pelo cliente, tendo portanto apenas valor contabilístico. Trocando-o por liquidez, o banco tem agora aquele montante disponível para, por exemplo, a prestação de um novo crédito.

E como pode esta liquidez ser convertida em oferta de moeda? Apenas e simplesmente se aumentar a procura por depósitos, o agregado M1. E isso só acontecerá se 1) entrar dinheiro na economia através de novos depósitos; 2) o banco conceder crédito, situação análoga a criação de um novo depósito (o banco ao conceder crédito cria um depósito com o montante). Tal como explica o Prof John Cochrane neste artigo, tal pode não acontecer se os bancos não concederem esse crédito, o que aliás aconteceu nos EUA. Ou seja, quem beneficiou foram os bancos de investimento e os hedge funds que usaram esse dinheiro para investir noutros activos financeiros.

Em suma, embora no momento da troca de liquidez exista “novo dinheiro” a ser gerado que é entregue aos bancos, não se trata de “fresh money” criado do nada, mas antes de uma troca contabilística de liquidez. Naturalmente que o BC tem de criar aquela moeda, mas tal não é “money printing” ou monetização, em que dinheiro sem equivalente real é simplesmente impresso e injectado na economia através de dívida pública ou défices orçamentais. Infelizmente, os nossos media, comentadores e até alguns professores de economia geram uma enorme confusão sobre o assunto, o que confunde qualquer incauto.

Myth 1 – Quantitative Easing is printing money: Politicians, journalists and market participants often refer to quantitative easing as “printing money.” This is because when the Fed buys bonds from banks it does so by crediting those banks’ accounts at the Fed with reserves that didn’t exist before. But it’s misleading to call this process “money printing” because it doesn’t actually do anything to increase the amount of money in circulation. In fact, in our monetary system, most money is created by private banks and not the Federal Reserve.

Artigos interessantes sobre o assunto:

Uma análise à descida do preço do petróleo

À semelhança de tantas outras boas intenções, aquilo que pretendia ser um estímulo ao consumo e ao investimento das famílias mais pobres acabou por ser uma injecção massiva de liquidez naqueles que já a tinham de sobra. Era suposto que baixas taxas de juro incentivassem investimento, e que os aumentos dos preços das acções incentivassem a confiança, que por sua vez aumentaria o consumo, o rendimento, num círculo virtuoso que deixaria Keynes orgulhoso.

Bancos, empresas e fundos trocaram então os seus activos de menor liquidez por dinheiro, perfazendo uma troca que se aproxima dos $4 triliões de dólares. O Quantitative Easing é, neste aspecto, neutro. Não consiste na impressão de fresh money, mas simplesmente na cedência de liquidez, aceitando (quase) qualquer activo como colateral. Ou seja, não entra dinheiro novo na economia. Dinheiro que parado não faz sentido, pelo que foi investido no mercado de acções, no mercado de obrigações e no mercado de commodities, com isso fazendo o S&P500 disparar, assim como a cotação do petróleo, que subiu de $49.64 em 2009 para $81.57 em 2010, um aumento de 64%. E assim foi aumentando, numa correlação quase perfeita com o anúncio de novos estímulos.

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Com a redução dos estímulos monetários, medida por diversas vezes anunciada pela recém-eleita chairman Yellen, a liquidez começou a secar. Isso implica devolver o dinheiro ao Fed, o que requer retirá-lo dos mercados de capitais, incluindo o mercado de commodities, onde está cotado o petróleo. A somar a isto, o fracking, uma técnica relativamente recente que permite extrair petróleo com água e areia de bacias horizontais, e que causou o aumento de produção nos EUA. O aumento é tão grande quanto a soma de todo o petróleo produzido pelos países da OPEP, exceptuando a Arábia Saudita. Adicionalmente, a procura por petróleo na China abrandou significativamente, acentuando as pressões já grandes no lado da oferta para um descida de preço.

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E isto explicará, em traços gerais, a grande queda no preço do petróleo. E porque não reagem os países da OPEP, cortando a produção, e, com isso, fazendo aumentar novamente o preço do petróleo? Porque cada um dos países tem de individualmente produzir e vender mais por forma a compensar a perda de receita gerada pela queda do preço. No entanto, quando todos o fazem ao mesmo tempo, o preço acaba por baixar. Para os países da OPEP a situação assemelha-se ao Dilema do Prisioneiro: embora o melhor cenário para os jogadores (cada país) fosse reduzir a produção, existem fortes incentivos a que os jogadores se desviem, produzindo mais para resolver os seus problemas internos, que aliás são notórios, conduzindo para um equilíbrio de Nash que não maximiza a situação dos países. Como consequência, os países não conseguem baixar a produção.

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E com isto ganham os importadores de petróleo, ainda que apenas de forma temporária. A redução do preço do petróleo reduz a rentabilidade de muitos projectos de prospecção de petróleo em offshore, suspendendo-os ou mesmo cancelando-os. Tal acção terá um efeito negativo no médio-prazo, pressionando o preço por efeito da redução da produção. Mas o mais importante disto tudo é notar o quão disruptiva pode ser uma intervenção de um banco central no funcionamento do mercado, distorcendo o sinalizador de escassez, o preço, e gerando uma volatilidade que dificilmente poderá ser acomodada sem um enorme impacto económico, como aliás a Rússia é prova disso, que em poucos dias viu o Rublo desvalorizar 50%.

Natal e Moedas

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Outrora, era normal encontrar espalhados – de forma caótica e perigosa – pelo parque os carrinhos de compras, apesar dos simpáticos avisos que indicavam onde deveríamos deixá-los. Até que um dia, para nossa surpresa, ao chegar ao estacionamento, encontramos os ditos bem alinhados em locais próprios.

Tal milagre deveu-se a um invento que permitiu ter o carrinho só depois de se inserir nele uma moeda que se recupera quando se encaixa o carrinho, vazio, em outro já arrumado e alinhado. Desta forma, a necessidade que o cliente tem do carrinho e o interesse em não ficar sem a moeda faz com que coopere na manutenção da “ordem”. Mostrando que a ligação do interesse próprio ao bem comum, é mais segura do que falsas dicotomias, como egoístas “versus” altruístas.

Para o problema dos carrinhos de compras abandonados nos parques de estacionamento, os privados encontraram uma solução simples e eficaz, que internaliza os incentivos económicos das pessoas. Fosse o Estado, e o abandono dos carrinhos de compras seria regulado, criminalizado, vigiado por câmaras de segurança, fiscalizado por agentes, autuado por agentes da autoridade e admoestado pelo socialista altruísta do bem comum. Tudo isto custando muito mais do que o prejuízo que gerava.

O resto está no excelente artigo do Prof José Manuel Moreira.

Eurocratas detectam mais uma “falha de mercado”

Crowdfunding needs EU rules, says markets watchdog

É inadimissível que o financiamento de micro-projectos seja feito de forma voluntária sem controlo da burocracia comunitária. Imagino que lhe cause uriticária.