Sunitas e xiitas e o apoio ao discurso do Bibi

President Obama, listen to Netanyahu on Iran, Faisal J. Abbas  Editor-in-Chief of Al Arabiya English.

Zé dos Plásticos

O Zé dos Plásticos é um super-herói cujo arquinimigo é o Saco de Plástico. Dormimos todos mais descansados sabendo que o Zé dos Plásticos está a tento aos ataques do Saco de Plástico, ao ambiente plastic-free e às dores nas costas das velhinhas que já não os carregam com compras.

zedosplasticos

Não, quem foge ao fisco não pode ser pm

Estou desacordo com o Carlos Guimarães Pinto aqui quanto à aceitabilidade de termos um pm que fugiu aos impostos. E – para comentar de passagem os casos PPC e Costa, se o de PPC é evidente a aldrabice de vir dizer que não sabia se tinha de pagar Segurança Social (além das trapalhadas dos valores), o de Costa veremos o que é, mas eu vou já dizendo que não compro as papas e os bolos de quererem que alguém acredite que um apartamento em poucos meses valorize quase para o dobro do valor, sendo que o valor inicial era aquele sobre o qual teria de se pagar sisa. Já parace a história de um certo pm que vivia num prédio onde as pessoas que estavam isentas do pagamento de sisa por um enooooooooorme acaso compraram as casas substancialmente mais caras do que aqueles que tiveram de pagar sisa.

As razões da discordância são várias. Primeira. Não é inevitável fugir aos impostos, pelo que qualquer pessoa pode sempre escolher cumprir devidamente as suas obrigações fiscais e quem queira fazer carreira política devia aprender desde cedo que este é um custo of doing business.

Segunda. É socialmente aceitável em Portugal um certo grau de fuga aos impostos porque os temos imoralmente altos. E quem costuma vir com historietas da média da carga fiscal europeia que use os neurórios, porque temos rendimentos consideravelmente mais baixos e, como tal, a mesma percentagem de imposto é bastante mais custosa em quem tem menores rendimento do que em quem os tem maiores, mesmo que neste último caso em valor absoluto se pague muito mais de imposto. Mas os políticos não são – e não devem ser – julgados pelos padrões dos comuns mortais que se deixam governar em vez de governarem. O escrutínio é das melhores invenções da democracia e é usado em todas as democracias adultas (não é o caso da nossa). Precisamente para garantir que são os melhores – e não apenas os mais bem colocados no partido ou na pirâmide social – que ocupam os lugares que maiores decisões tomam sobre a vida de outros. E na minha definição de ‘melhor’ não está apenas a competência e a capacidade de gestão de dinheiros públicos, está também a seriedade, o espírito de serviço e o compromisso com o bem-comum. Qualidades que não costumam ocorrer nos mesmos que fogem aos impostos.

Terceira. PPC – que aumentou impostos como ninguém ainda o havia feito e refinou a AT e a legislação a pontos de as ter tornado instrumentos que só podem ser descritos como de totalitarismo fiscal – e Costa – que ainda há pouco aumentou de forma enlouquecida as taxas cobradas aos lisboetas e que de modo nenhum promete baixar impostos ou por travão nos abusos permitidos atualmente à AT (e que apoiou todos os aumentos de impostos de sócrates, bem como as listas de devedores e outros atropelos semelhantes) – são duas pessoas a quem não se exige (e não se pode exigir) menos do que uma exemplar e inatacável relação com o estado enquanto contribuintes.

Diferente seria se um político que não pagou aqui e ali os impostos devidos implementasse uma descida de impostos para todos os seus concidadãos e defendesse que o nível de imposto ao qual fugiu era imoral e que a partir de certo nível é um sintoma de autorrespeito e um imperativo moral fugir aos impostos. Não é extamente isto que tem sucedido com PPC e Costa.

Sobre a natureza dos descontos para a Segurança Social, estamos esclarecidos

Aquando dos cortes nas pensões em 2012 e 2013, comentadores de esquerda e reformados ligados ao PSD usaram vezes sem conta o argumento de que as reformas eram o direito resultado directo dos descontos anteriores. Falou-se em roubo do governo porque aquele dinheiro tinha sido descontado ao longo dos anos e que deveria apenas regressar ao bolso de quem o descontou. A Segurança Social foi tratada como um sistema de capitalização em que o direito à pensão era quase equivalente ao direito à propriedade privada

Se há coisa que esta questão em torno dos descontos de Passos Coelho vem demontrar é que já nem a esquerda mantém essa opinião. Da esquerda à direita somos todos unânimes (ainda que interpretemos de forma diferente a importância do caso): os descontos para a Segurança Social são uma obrigação perante a sociedade que Passos não cumpriu, e não um desconto para benefício pessoal futuro. Se Passos tivesse deixado de contribuir para o seu PPR, niguém se importaria. Se a contribuição para a Segurança Social é uma obrigação perante outros e não um pagamento em prol de benefício pessoal futuro, então podemos concluir que as pensões são também um benefício atribuido pela sociedade (na proporção em que as possa pagar) e não um direito resultado de descontos anteriores. Que este conceito fique para memória futura quando se voltar a discutir o valor das pensões.

Pode um homem que tenha falhado o pagamento de impostos no passado ser primeiro-ministro de Portugal? (2)

António Costa já veio desmentir a notícia aqui partilhada de que em tempos teria ficado a dever contribuição autárquica e SISA. Não sei se a notícia é ou não verdadeira. A única vantagem de ser verdadeira é que nos permitiria olhar para a questão no título do post de forma mais desapaixonada.

Nos últimos dias temos visto apelos à demissão do primeiro-ministro por não ter pago os descontos para a Segurança Social enquanto foi trabalhador independente. Fosse por desconhecimento, esquecimento ou intencionalmente, fez o mesmo que mais de 100 mil pessoas fizeram ou tentaram na mesma altura. Fez aquilo que era comum trabalhadores independentes e profissionais liberais fazerem nessa altura.

Portugal não é a Suécia. Durante muitos anos não só não tinha sistemas capazes de cobrar como era socialmente aceite que certos pagamentos de impostos fossem evitados. A própria máquina fiscal ignorava-os, como o caso da falta de notificação de Passos Coelho demonstra. Todos aqueles em idade de ser primeiro-ministro hoje cresceram nesse ambiente social e jogaram a sua vida de acordo com essas regras.

Será que devemos eliminar do lote de possíveis primeiros-ministros todos aqueles que no passado tenham aproveitado lacunas da lei para pagar menos impostos? Todos aqueles que aproveitaram a falta de cruzamento de dados entre a SS e o Fisco para pagarem menos contribuições? Todos aqueles que tendo sido profissionais liberais declararam menos do que efectivamente receberam? Todos aqueles que por desconhecimento ou esquecimento não pagaram todas as contribuições devidas? Todos aqueles que contrataram mulheres-a-dias e não lhes pagaram a segurança social devida? Todos aqueles que um dia fizeram uns biscates pelos quais receberam por fora?

A resposta aqui é um claro não. Se o fizéssemos, estaríamos a excluir quase todas as pessoas que um dia foram empresários, trabalhadores independentes, que fizeram biscates durante a universidade, ou pessoas que tenham precisado de empregadas domésticas. Sobrariam os políticos profissionais oriundos de famílias ricas sem experiência de vida e trabalho que nunca tenham tido que interagir com o fisco. Serão esses os únicos que deverão ter acesso a uma carreira política?

55 Mãos Cheias De Nada

Costa55Depois da promessa de devolver o Carnaval se for eleito primeiro-ministro, António Costa apresenta agora 55 propostas que constituiem o “o primeiro capítulo do programa de Governo”. E em que consistem estas propostas? Alguma delas rompe com a “política de austeridade e de empobrecimento” do governo que tanto critica? É possível vislumbrar algumas das linhas mestras referentes à dívida, ao défice, despesa, impostos, crescimento económico ou emprego? A resposta é um contundente “Não”.

Tirando a promessa da reposição da taxa de IVA na restauração para 13%, tudo o resto são generalidades para encher o olho com palavras tão bonitas como “Valorizar o território”; “Potenciar a produção agrícola”; “Aprofundar a cooperação intermunicipal”; “Descentralizar atribuições e competências”; “Reforçar os mecanismos de participação popular”; sem nunca quantificar o impacto destas medidas no orçamento de estado.

Boa sorte lá com isso, António!

Ai Lello, recordar é viver

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José Lello não declarou conta de 658 mil euros Deputado do PS esteve 14 anos sem declarar este valor ao Tribunal Constitucional

Leitura complementar: Pode um homem que tenha falhado o pagamento de impostos no passado ser primeiro-ministro de Portugal?

Harry Potter E O Mistério da Carta Alterada

VaroufakisA carta enviada no dia 19 de Fevereiro pelo ministro grego das Finanças Yanis Varoufakis ao presidente do Eurogrupo era afinal era muito diferente da pré-negociada com Atenas e Alexis Tsipras mostrou-se supreendido com as alterações (fonte 1, fonte 2). Nessa carta, o governo grego enunciava de forma vaga e dúbia os compromissos que Atenas assumia perante os seus pares europeus ao mesmo tempo que pedia um prolongamento do actual programa. A mesma carta foi rejeitada quase de imediato pela Alemanha com a famosa referência ao “cavalo de troia”.

Em entrevista ao Financial Times, Dijsselbloem afirmou que a carta recebida de Yanis Varoufakis na véspera do Eurogrupo era muito diferente da pré-negociada com Atenas e que o primeiro-ministro grego se tinha mostrado admirado com o sucedido: “telefonei a Tsipras e disse-lhe “’olhe, não sei o que se passou, mas vocês enviaram-nos uma carta diferente’”. Tsipras ficou surpreendido. “Como é que isso foi possível?”. Foi verificar. Alguém tinha mudado a carta“, relata Dijsselbloem ao FT.

E quem mexeu na carta? A suspeita recai sobre o ministro das Finanças. De novo sem negar de forma categórica, Varoufakis respondeu nesta segunda-feira: “Eu estou a fazer um esforço enorme para não responder a Dijsselbloem. Tivémos as nossas diferenças, mas no último Eurogrupo encontramos um terreno comum. Não vou agora analisar o que aconteceu antes. Não tenho o direito nem a disposição para o fazer. De qualquer forma, as coisas não se passaram de todo como Dijsselbloem diz”, afirmou citado pelo Guardian.

Inventado não tinha tanta graça.

Ricos cada vez menos ricos em Portugal

E não, não é uma boa notícia: Ranking Forbes: os portugueses mais ricos estão bem mais pobres

Os três portugueses mais ricos do Mundo estão em queda na lista da Forbes: Américo Amorim perdeu 102 lugares, Belmiro de Azevedo 262 e Soares dos Santos 455.

Uma simples lição

Para lá dos processos de intenções, do aproveitamento político e da exploração mediática, há uma simples lição a retirar desta polémica em torno das dívidas à Segurança Social de Passos Coelho e do alegado incumprimento fiscal de António Costa: independentemente das intenções honestas ou criminosas dos contribuintes, a natureza confusa e obscura dos regimes fiscais e “contributivos” (os que dão outro nome a “impostos” para que os incautos os julguem menos invasivos) só produz efeitos nocivos; permite às autoridades abusarem dos direitos dos contribuintes de forma a obterem mais receita, fazem com que cidadãos honestos quebrem inadvertidamente as regras, e permite aos desonestos explorar as zonas mais nebulosas da lei para escapar às obrigações que deveriam ser iguais para todos. Não é difícil perceber. Mas pelos vistos, é difícil de resolver.

Razões para acreditar em karma

José Sócrates está há mais de 3 meses preso preventivamente, sem acusação formada. É provável que fique mais algum tempo. De acordo com a lei, qualquer pessoa (sim, você também) pode ficar nesta situação até 12 meses sem ser acusado de nada (ou até 16 meses sem decisão instrutória). Ninguém merece ser exposto a uma situação semelhante. Mas de entre todos os que não a merecem o que menos não a merece é aquele que teve durante tantos anos o poder para a alterar. José Sócrates poderia ter alterado esta situação e não o fez porque nunca julgou que pudesse ser afectado por ela.

Pedro Passos Coelho foi deputado entre 1991 e 1999. Durante esse período não tomou uma única atitude para que o sistema de segurança social fosse mais claro ou mais eficaz na cobrança. Milhares de pessoas acabaram com dívidas à segurança social sem fazer a mínima ideia como apareceram ou porque julgavam que as contribuições eram opcionais. Passos Coelho foi um deles e acabou por lhe vir morder anos depois. Merece pouca pena.

Neste momento, prepara-se para ser discutido novamente uma lei do enriquecimento ilícito. A inicial que invertia o ónus da prova foi rejeitada pelo Tribunal Constitucional, mas esta continua a abrir uma caixa de Pandora para o futuro. Se tudo correr bem, um daqueles deputados que a aprovará ou quiçá, queira Santo Karma, a ministra da justiça, um dia acabará nas malhas dessa lei.

Um novo paradigma de democracia radical

Cerco a Tsipras: Acordo não será sujeito a votação no parlamento

Está decidido. Acordo de extensão concluído na terça-feira irá ser debatido no parlamento de Atenas, mas não irá haver lugar a votação. Cresce a oposição a Alexis Tsipras dentro do partido Syriza.

Leitura complementar: Da espiral recessiva aos cantos do Syriza; Razões para ter esperança no Syriza; O socialismo europeu e o Syriza.

Portugal e as heranças do Estado Novo

Mais uma reflexão interessante e desafiante de Gabriel Mithá Ribeiro: A polícia do espírito.

Anos e anos de trabalho de campo em Moçambique demonstraram que, face a assuntos sensíveis (como a herança colonial portuguesa), é muito mais ambivalente e complexo e, por isso, bem mais rico o pensamento dos humildes do que de certas elites escolarizadas. É nas últimas que é mais fácil antecipar, ao fim de poucos minutos de conversa, quem são os bons e os maus do planeta e da história, apesar do invólucro da fala polida. Quer dizer que de um lado está um amontoado de conhecimentos formais e discursos fluentes e, do outro lado, está a inteligência de senso comum na relação com o meio envolvente e com o sentido do tempo histórico.

Em Portugal, a relação com as heranças do tempo do Estado Novo – por ser uma época com carga traumática, mas também por estar longe de se esgotar nela, bem como por ser o referente fundador do tempo presente – instituiu os mais significativos recalcamentos que atormentam as mentes. Aí reside a fonte primordial das frustrações e falhanços da democracia portuguesa, uma vez que, por pressão dos que se sentem donos dela, aquela arvora-se em alter-ego ultrarradical do passado histórico imediato, no sentido de um antes todo ele ‘mau’ e um depois todo ele ‘bom’, sendo o ‘mau’ que sobra no presente herança do ‘espírito do antigamente’. Esta via dominada por generalismos grosseiros na gestão da memória coletiva de senso comum vai fazendo com que a democracia corra o risco de ela mesma se transformar numa caricatura de tanto caricaturar o passado imediato.

Aristocracia de Estado

Rui TAVARES

Alto, camaradas! O cavaleiro vai a caminho. Por quem me julgais?

Findo o cordão de berço que portava as armas e os nomes das famílias, famílias distintas e distinguidas por, pré-1820, feitos prestados ao país, e, pós-1820, terem meia dúzia de tostões para comprarem títulos nobligárquicos, permanecem, para espanto dos regicidas que da carabina sonharam o 5 de Outubro, resquícios de toda uma tradição aristocrática, desta feita bem implantada no Estado, que segue de pai para filho.

São os eleitos à fidalguia do cargo público, são muitos e julgam-se com direito ao trono por herança. Meio Parlamento está ocupado pelos bisnetos, netos, filhos, por aqueles que convictos acreditam ser os justos herdeiros da servilidade ao Estado, de onde se servem, por serviços tão condignamente prestados à República por algum dos seus antepassados, como por exemplo prometer ruas de sentido descendente apenas.

Apenas assim, aliás, se justifica a inimputabilidade de alguns ex-Presidentes, que publicamente ameaçando um juiz, publicamente são agraciados por serem democratas de serviços prestados à nação. A tão distintos senadores, escreveria Mário Soares de si próprio e do grande amigo e democrata José Sócrates, só tombarão as nossas graças.

Arrogados da senda pública, só assim se explica que os cavaleiros de Estado indignados fiquem quando confrontados com sondagens que os colocam atrás de populistas como Marinho e Pinto, muito promovidos por esses programas da manhã com que a populaça se delicia. Esta aristocracia do Estado, da qual Rui Tavares se acha parte, distancia-se assim da plebe, dos programas da manhã, da música e das festas populares, encurtando a distância de Belém à Buraca apenas pela arte da caneta, que escrever sobre pobrezinhos e desdenhar de empresários, enquanto nada faz, é distinto ofício do fidalgo da república.

A nós, pobres coitados, calha-nos tamanho triste desígnio. De fidalgos que davam o corpo ao manifesto, resta-nos agora os pelintras que fazem do manifesto vida. Do pior o melhor, só mesmo reduzindo as cadeiras disponíveis ao mínimo indispensável, e deixá-las saltar.

Leituras complementares: O representante do povo das zonas nobres de Lisboa; Arrogância.

O representante do povo das zonas nobres de Lisboa

Pedro Correia no Delito de Opinião

Quando os entrevistadores – e bem – o questionam sobre o que originou os dois eurodeputados eleitos pelo MPT, [Rui] Tavares não esconde o seu imenso desdém pelo fenómeno. Com estas palavras bem reveladoras: «Atenção mediática nas televisões generalistas. Marinho e Pinto é uma figura de programas da manhã.»

Temos, portanto, um representante da esquerda “genuína”, que se preocupa com os pobres e remediados, a referir-se com sobranceria aos «programas da manhã» que as classes mais desfavorecidas gostam de ver e acompanham com interesse nos canais generalistas.

Podia ser mais uma frase inócua, entre tantas outras contidas nesta entrevista. Mas é afinal bem reveladora sobre a enorme distância a que algumas cabeças pensantes da esquerda portuguesa se encontram do povo para o qual dizem falar.

Não admira que exista também um abismo entre aquilo que ambicionam e o que depois conseguem recolher nas urnas. Nada acontece por acaso.

Não admira que nas europeias os melhores resultados do LIVRE tenha sido obtidos em Belém, Avenidas Novas, Estrela ou Misericórdia.

Até quando?

Esta notícia é demasiado importante para que passe em branco. Esta mostra-nos que os privados fizeram o que foi indispensável fazer nestes quatro últimos anos e que, quando comparado com o esforço das pessoas, das famílias e das pequenas e médias empresas, o Estado ficou aquém do que teria de fazer para que o país saísse definitivamente da crise.

Mas mais grave ainda que os parcos resultados do Estado (principalmente quando comparados com os dos privados) é o estes terem acontecido por força e teimosia de um governo que teve de batalhar contra tudo e contra todos. E é precisamente aqui que está o ponto: qual é a representatividade dos partidos políticos, e das personalidades políticas, de esquerda que não permitem, que não aceitam sequer discutir, que o Estado faça aquilo que os cidadãos se viram dispostos a ter de fazer para levar por diante a suas vidas?

Até quando a maioria dos cidadãos está disposta a sacrificar-se desta maneira para que tudo fique na mesma e os mesmos ditem as suas sentenças sobre os que está certo o que está errado?

Mais um vendedor de banha da cobra

antonio_costa_jose_socratesA liderança de António Costa no PS tem sido marcada pela vacuidade e “ambiguidade criativa” (para usar a terminologia favorita do minister of awesome Varoufakis). Costa está à espera que o poder lhe caia ao colo, tal como muitas vezes acontece quando um governo tem de tomar medidas impopulares e os eleitores acabam por entregar o seu voto à oposição. Assim sendo, tem seguido a estratégia de “calado é o melhor” e não tem avançado nada de substancial (ou sequer ligeiro, na verdade) em termos dos seus planos de governação. Sócrates fez parecido em 2005, sendo que teve a tarefa facilitada pelo facto de o PSD ter Santana Lopes como lider.

As semelhanças com Sócrates, lamentavelmente, parecem não ficar por aqui. Este fim de semana Costa fez afirmações que pela sua desfaçatez fazem crer que o novo lider do PS tem a mesma relação dissonante com a realidade. Temos aqui valente vendedor de banha da cobra. Costa comparou o seu track record com Passos Coelho, dizendo: «Eu reduzi a dívida que herdei em 40%, o senhor primeiro-ministro aumentou em 18% a dívida que herdou. Esta é diferença entre quem gere bem e quem gere mal.»

É preciso ter muita lata para dizer uma coisa destas. Ou não tem noção das coisas (um pouco como Mário Soares que, nas últimas presidenciais em que concorreu, disse que no tempo dele o défice público não era alto, que era um criação “do Cavaco”) ou toma os eleitores por parvos. É que a dívida da CML diminuiu por causa do governo central ter tomado parte dela. E, por outro lado, a dívida pública não poderá deixar de aumentar enquanto houver reclassificações da dívida pública (reconhecimento de coisas que estavam “debaixo do tapete”) e défices orçamentais.

Um penso-rápido para tratar uma fractura exposta

Pirate Bay vai ser barrado em Portugal

«Tribunal da Propriedade Intelectual determinou que a Cabovisão, a Meo, a NOS e a Vodafone deverão passar a impedir os internautas portugueses de acederem ao endereço thepiratebay.se e também a outros 29 domínios sucedâneos»

Leitura dominical

As mentiras da oposição, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

Agora é Jihadi John, nascido Mohammed Emwazi. De cada vez que se descobre a identidade de um psicopata, perdão, activista do Estado Islâmico, os noticiários enchem-se de desabafos biográficos, a explicar, em tom sempre surpreendido, que o psicopata, perdão, o activista de hoje em tempos foi uma criança, por regra afável e brincalhona. É isto necessário?

Não vejo para quê. O “lado humano” das notícias, um bocadinho irritante noutras matérias, é particularmente repulsivo em notícias sobre o lado desumano da vida. Salvo os tontinhos terminais, que imaginavam os psicopatas, perdão, os activistas a nascer com uma adaga nas mãos ou um “workshop” em ressentimento na cabeça, toda a gente já desconfiava de que os monstros um dia tiveram uma infância mais ou menos feliz, mais ou menos normal, mais ou menos idêntica à nossa.

O pequeno Mohammed queria, ao que consta, ser futebolista. E depois? Hitler queria ser pintor. Estaline queria cantar. Átila queria decorar interiores (alguns estudiosos discordam). O essencial não é investigar o momento em que os dementes se converteram à demência, mas a maneira de impedir as consequências desta. Revelar que um psicopata, perdão, activista nasceu é uma redundância: urgente é saber quando morre.

A lei da cópia privada e o rentismo em Portugal (2)

jorge_barreto_xavier

Na sequência do meu artigo de ontem no Observador (“A nova lei da cópia privada: uma vitória do rentismo”), o deputado do PS José Magalhães publicou no seu Facebook um comentário com respostas às cinco perguntas que reproduzo no final do artigo.

Aqui fica, na íntegra, o texto integral do deputado José Magalhães, para memória futura:

CÓPIA PRIVADA – PERGUNTAS COM RESPOSTA

Concordo no essencial e no secundário com este ponto de vista e foi por isso mesmo que votei contra o texto final. A expectativa de que houvesse correcções em Comissão gorou-se. As perguntas referidas no texto têm resposta cruel: Continuar a ler

Rand Paul vence CPAC Straw Poll

Vale o que vale (neste caso, não muito), mas fica a notícia de uma mais uma vitória na CPAC para Rand Paul: Rand Paul Wins CPAC Straw Poll

Kentucky Sen. Rand Paul won the Conservative Political Action Conference’s straw poll for the third year in a row Saturday, while Wisconsin Gov. Scott Walker placed second, reflecting his surging popularity.

O Economista Insurgente: “De onde é que vem a dívida do Estado?”

O Economista Insurgente

«De um modo geral, a dívida pública aumenta porque o Estado tem mais despesas do que receitas. Ou seja, o orçamento do Estado apresenta défice. Para um Estado reduzir a sua dívida pública tem de ter um superavit; mais receitas que despesas. Em toda a história da democracia em Portugal, nunca houve um único orçamento que não tenha sido deficitário. Por isso, a dívida tem vindo a aumentar todos os anos, de forma consistente e sem alívio.

Para agravar a situação causada pelo défice crónico, o Estado tem sido obrigado a assumir uma série de dívidas que anteriormente não eram contabilizadas na dívida pública. Exemplo disso são dívidas contraídas por empresas públicas nas suas operações correntes e que implícita ou explicitamente são garantidas pelo Estado. Ou ainda contratos celebrados pelo Estado, por exemplo nas parcerias público-privadas, que implicam despesas futuras a que não é possível escapar e que constituem a chamada dívida escondida.

A juntar a esta dívida oficial, existem várias obrigações do Estado para com os cidadãos que são uma espécie de dívida. São responsabilidades do Estado (do inglês, liabilities) assumidas no decorrer de direitos sociais criados pelos sucessivos governos, como pensões, subsídios e outras transferências, cujo valor exato é difícil de estimar por depender de imponderáveis como a esperança de vida dos reformados, invalidez resultante de acidentes ou doenças, desemprego e outras situações de emergência que possam surgir.»

in “O Economista Insurgente”, Esfera dos Livros, 2014

Compreender o putinismo XIX

Boris Nemtsov. Imagem via FB do Nuno Rogeiro

Boris Nemtsov. Imagem via FB do Nuno Rogeiro

After Boris Nemtsov’s Assassination, ‘There Are No Longer Any Limits’, por Julia Ioffe.

Even if one of these theories were true, none of Moscow’s embattled liberals would be convinced. “I will never believe it,” Yevgenia Albats, editor of the liberal magazine New Times and an old friend of Nemtsov, told me. “This is not about some domestic affair. These were absolute professionals.” Ilya Yashin, a member of Nemtsov’s Solidarity Party, was of the same mind. “It’s totally obvious for me that it’s a political killing,” he said. “I don’t have the slightest doubt about that.” Maxim Katz, another opposition activist, claimed on Twitter that, any way you slice it, Putin is responsible: “If he ordered it, then he’s guilty as the orderer. And even if he didn’t, then [he is responsible] as the inciter of hatred, hysteria, and anger among the people.”

It’s hard to argue with this last point. Putin’s aggressive foreign policy, his increasingly conservative domestic policy, his labeling the opposition a “fifth column” and “national traitors,” his state television whipping up a militant, nationalistic fervor — all of this creates a certain atmosphere. Putin, after all, has a history of playing with fire, only to have the flames get away from him. After years of the Kremlin tacitly supporting ultranationalist, neo-Nazi groups, the same skinheads staged a violent protest at the foot of the Kremlin walls in 2010 while riot police officers stood by and watched helplessly. Today, a rabid nationalism has swallowed up most of the country, and it is no longer clear that Putin can control it. “In this kind of atmosphere, everything is possible,” Pavlovsky told me. “This is a Weimar atmosphere. There are no longer any limits.”

Until relatively recently, the risks opposition activists knew they were taking on were not generally thought to be life-threatening. The government was likely to hassle activists and make their lives uncomfortable, but mostly it just marginalized them, like the town fool. This began to change with the arrests of protesters in the summer of 2012. When Navalny was sentenced to five years in prison a year later, it came as a shock; this had never been done before. Even after the sentence was suspended, it seemed to be a warning to the opposition.

Nemtsov’s assassination took that warning to its logical conclusion. Now, “we live in a different political reality,” tweeted Leonid Volkov, a prominent opposition activist. “The fact that they killed him is a message to frighten everyone, the brave and the not brave,” Yashin said. “That this is what happens to people who go against the government of our country.” Anatoly Chubais — who, like Nemtsov, served in the Yeltsin government, and who remains close to Putin — visited the site of the shooting this morning. “If, just a few days ago, people in our city are carrying signs that say ‘Let’s finish off the fifth column,’ and today they kill Nemtsov,” he said in astatement, referring to the Kremlin-sponsored anti-Maidan protest in Moscow last weekend, “what will happen tomorrow?” Or, as Albats put it, “Hunting season is open.”

Nemtsov had been confiding to friends of late that he was growing frightened. This summer, he went to Israel to hide out for a few months, fearing arrest. He told Albats that he worried he wouldn’t be able to withstand a stint in a Russian penal colony. In the fall, he filed a police report because of threats he was receiving on social media. It didn’t seem to go anywhere. Recently, he even let his bravado slip in public, telling an interviewer two weeks ago that he was scared Putin would kill him.

And yet, he didn’t let up. According to Albats and Yashin, Nemtsov was working on a particularly incendiary report that he planned to call “Putin and Ukraine,” which would trace the stream of weaponry flowing from Russia to separatists in the Donbass. He was meeting with the families of Russian men who had died fighting with the separatists. He kept up his withering attacks on Facebook and Twitter. He kept traveling to Ukraine and meeting with president Petro Poroshenko, something that couldn’t have gone unnoticed by the Kremlin’s security agencies. And still, Nemtsov never hired a bodyguard. He walked home through Moscow late at night unprotected.

And he almost made it. His apartment building was visible from the bridge. “From his window, where he worked out in the mornings, you can see the place where he was killed,” Romanova told me. “For many years, he saw the place where they would kill him.”