Banha da cobra (II)

Em adenda ao que o Miguel Noronha, e muito bem, alerta aqui, importa notar que a PT SGPS está cotada numa plataforma bolsista chamada Euronext, que resultou da fusão das Bolsas de Lisboa, Paris e Amesterdão. Esta sociedade é privada, e a maioria do capital não é sequer nacional. As bolsas seguem normas comunitárias. Assim, a aquisição da totalidade do capital de uma empresa cotada tem de ser feito por via de uma “Oferta Pública de Aquisição” (“OPA”), não sendo legalmente possível proceder-se a uma nacionalização. No dia em que o Estado português nacionalizasse uma empresa cotada, por estar “barata”, haveria uma fuga imediata de capitais estrangeiros de todas as restantes empresas cotadas, procedendo-se à destruição imediata do nosso mercado de capitais. Para além de que tal iniciativa nunca seria legalmente aceite no quadro da União Europeia.

Uma eventual nacionalização da PT Portugal, nas mãos de uma empresa estrangeira, a Oi, para além das razões apontadas acima, no caso da PT SGPS, abriria uma frente litigiosa com o Brasil, sem proporções.

Quando forem votar, pensem se querem dar poder a quem escreve este tipo de disparates.

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O vendedor da banha da cobra

barraca

Ontem no Público, desolado com a desvalorização da PT em bolsa, o Rui Tavares propunha que o estado lançasse uma OPA sobre a totaldidade do seu capital. Para além de nos ficar barato ainda estariamos a salvar uma empresa estratégica e inovadora, dizia ele para tentar vender a sua milagrosa solução.

E porque não? Por uma excelente razão. Como notaram ontem o Manuel Puerta da Costa e hoje o Pedro Pita Barros, a empresa que o Rui Tavares pretende comprar e está cotado em bolsa e em desvalorizaçáo acelerada é a PT SGPS que é accionista da Oi. A PT Telecomunicações (a que prestadora de serviços de comunicações), que o Rui Tavares gostava que os contribuintes comprassem para o satisfazer, é detida a 100% pela Oi.

Podia aproveitar para meter mais uma farpas acerca do sapateiro que tenta tocar rabecão mas abstenho-me. Não vale a pena bater mais no esquerdista que acha que se acha mais esperto que os outros.

Mais um “nim” (2)

Já era esperado. Não houve qualquer novidade no debate de ontem sobre o “manifesto dos 74″ na AR. O PSD e o CDS estão contra, os partidos comunistas estão a favor e o PS opta pelo “nim”.

não há respostas simples“, mas “fingir que este problema não existe é a pior forma de lhe dar resposta” dizia Vieira da Silva. Simples ou complicadas o PS demonstra mais uma vez ser incapaz de dar uma resposta directa sobre o tema. Provavelmente ainda aguarda a tal “audição pública” a realizar em data incerta. E se a a recomendação da tal “audição” for a renúncia ao pagamento do serviço da dívida? Irá o PS segui-la? Pois. Convinha saber.

Entretanto, não consegui encontrar relato das intervenções dos deputados socialistas que subscreveram o manifesto. Será de presumir que o líder parlamentar Ferro Rodrigues e o sempre rebelde Saldanha Galamba tenha súbitamente ficado afónicos?

É proibido debater educação sem a fenprof

fenprof

A notícia está hoje no CM. De resto, é também pouco útil discutir temas sem a presença de quem (tantas vezes) manda no sector. A queixa até pode parecer ridícula, mas olhem que resulta. Num país em que ninguém gosta de ter chatices, fica o aviso: da próxima vez, pensem duas vezes antes de pôr a fenprof de parte.

Falemos de desigualdade (4)

A ideia neste post de comparar os níveis de bem-estar do Zé e do Vasco com os dos seus avós não foi o de demonstrar a tendência secular de crescimento económico e a forma como afecta todos positivamente, pobres e ricos. Essa é uma questão importante, mas não o ponto fundamental do post.

O principal ponto deste post foi o de, assumindo que efectivamente a desigualdade no nível de rendimentos aumentou, tentar saber se isso se converteu numa efectiva diferença nos níveis de bem-estar. O gráfico em baixo explica melhor este ponto. No eixo horizontal está o nível de rendimento e no eixo vertical o nível de bem-estar.

desigualdade

Será mais ou menos consensual que o aumentos de rendimento têm retornos marginais decrescentes em termos de bem-estar. É irrelevante para esta discussão discutir se o formato da curva é exactamente este ou a definição de “bem-estar”, mas parece-me que o conceito da curva será intuitivo para todos. Partindo do pressuposto que todos concordam, em termos gerais, com a localização dos pontos na curva a questão que se coloca é: será que o aumento das desigualdades de rendimento nas últimas décadas é assim tão importante na vida das pessoas como os números apontam?

Sobre este tema:
Falemos de desigualdade, no Observador
Falemos de desigualdade (2)
Falemos de desigualdade (3)

Um sistema ao serviço dos professores

“O superior interesse do aluno” de João Miguel Tavares (Público)

Outro exemplo, a que tenho assistido em directo: a minha filha mais velha está sem aulas de História desde o início do ano lectivo. Aparentemente, o professor está de baixa; aparentemente, não vai regressar; aparentemente, está à espera de uma junta médica; aparentemente, a junta está atrasada; aparentemente, não pode ser substituído até a junta se pronunciar. Escrevi todos estes “aparentemente” porque obter explicações simples e directas numa escola, sem os clássicos “acho que”, “parece-me que” ou “isso não é comigo”, é um trabalho que nem Hércules superaria. Donde, não tenho a certeza absoluta de nada. Mas disto, tenho: há seis semanas que ela está sem aulas. E a facilidade com que se deixam alunos sem aulas, sem arranjar uma solução imediata, e alimentando um sistema de baixas médicas que colocam o direito ao posto de trabalho quilómetros à frente do direito ao ensino, é, pura e simplesmente, um escândalo. E isto não tem nada a ver com asneiras em concursos – tem a ver com uma visão da escola errada e com as suas prioridades manifestamente trocadas

O Orçamento de Estado de 2015 em Imagens

Neste post, ilustra-se o orçamento de estado para 2015 em imagens complementado com algumas notas. A primeira imagem e a primeira tabela representam o orçamento na Óptica da Contabilidade Nacional.

Orcamento2015

Orcamento2015_Tabela

Algumas notas:

  • Os juros da dívida representam mais de 10% do orçamento de estado. Sem a despesa associada com os juros, existiria um superávit de 4.026 M€.
  • As prestações sociais representam um valor cerca de 1,65 vezes maior do que o valor das contribuições sociais.
  • Em conjunto, as prestações sociais e as despesas com pessoal representam 64% da despesa do estado.
  • Prevê.se que o défice seja reduzido em quase 42% para 4.860 M€.
  • A consolidação orçamental é feita essencialmente através de um aumento da receita em cerca de 2,9% que por sua vez ainda tem de compensar um aumento da despesa de 1,0%.

No gráfico e tabela abaixo, pode-se observar as despesas por sector.

Orcamento2015_Sectorial_Grafico

Orcamento2015_Sectorial

Algumas notas:

  • Os quatro sectores: Solidariedade, Emprego e Segurança Social; Saúde; Gestão da Dívida Pública; e Ensino Básico e Secundário e Administração Escolar respresentam 71,5% da despesa por sectores.
  • Em termos relativos, os maiores aumentos percentuais verificam-se no sector do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia (+231,1%); Gestão da Dívida Pública (+5%); e Orgãos de Soberania (+5%). As maiores reduções verificam-se no sector da Economia (-37,9%);Finanças e Administração Pública (-11,4%) e Ensino Básico e Secundário e Administração Escolar (-11,1%).

Sixties revisited

E agora para desenjoar das minhas beatices todas dos últimos tempos, aqui vai uma história de prostitutas. (Se bem que o tema prostitutas também seja muito bíblico.) E é por histórias destas de costumes que a Vanity Fair continua a ser uma revista imperdível.

‘In Madam, a memoir she published in France in 1994, Fernande Grudet portrayed herself as an aristocrat, born in the château country of the Loire Valley, where her father was a local solon. She had been educated at a Visitandines convent, taking vows of austerity. She had also been a war heroine, a Resistance fighter who paid for that resistance with an internment at a concentration camp.

Lies, all lies, according to a 2010 French television documentary about Claude. Trying to see the entirety of this program is like trying to crack the Da Vinci Code. The production company that had made it is defunct, and I could not find it in any film archive. It was available, in snippets, on the Internet. It alleged to show proof that père Grudet actually ran a snack cart at the Angers train station, that little Fernande had never been at the convent. As for her time in the concentration camp, ostensibly Ravensbrück, the program explored a story that Claude is said to have told about how she saved the life of Charles de Gaulle’s niece while there (or vice versa) and submitted to an affair with a German doctor in order to survive. A historian in the documentary said that Claude probably made all of this up, and the idea that the madam was ever interned was dismissed as another example of Claude’s talent for self-mythologizing.

But, according to Patrick Terrail, the proprietor of Ma Maison, “she had a camp number tattooed on her wrist. I saw it.”

Taki concurred. “I saw the tattoo,” he said. “She showed it to me and Rubi. She was proud she had survived. We talked about the camp for hours. It was even more fascinating than the girls.” But which camp was it? The myth may have been Ravensbrück, but only Auschwitz used tattoos. Hence the Rashomon quality of Claude’s life. Taki then told me that Claude had been imprisoned not for her role in the French Resistance but for her faith. “She was Jewish,” he said. “I’m certain of that. She was horrified at the Jewish collaborators at the camp who herded their fellow Jews into the gas chambers. That was the greatest betrayal in her life.”’

Falemos de desigualdade (3) – a assimetria moral da herança

Um homem que trabalhe muito e poupe uma grande parte dos seus rendimentos para que os seus filhos possam ter um futuro melhor é tido como nobre, esforçado e trabalhador. Ninguém coloca em causa a nobreza e o direito do homem a fazê-lo. Já a fortuna do filho desse homem, e o bem-estar daí decorrente, é visto como imoral e atentatório do princípio da igualdade de oportunidades.

O Papa Francisco e os irmãos mais velhos do filho pródigo

O meu texto de hoje no Observador.

‘Comecemos já por lamentar que Jesus – esse lamechas, coração de manteiga, incapaz de compreender o bem supremo de cumprir a estrita lei mosaica, ‘glutão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores’ (Mt 11,19) e que muito claramente não sabia o que era bom para si próprio – não tenha tido os bons conselhos dos atuais católicos tradicionalistas, os que impediram que se chegasse a uma maioria de dois terços (apesar de perto) para que a Igreja, finalmente, reconhecesse a sua obrigação (sim, obrigação) de acolher os católicos recasados e os homossexuais.

Se Jesus tivesse tido os bons préstimos dos atuais católicos conservadores, os Evangelhos estariam limpos daquelas histórias mal avisadas que Jesus congeminou. Vejam por exemplo o disparate da parábola dos trabalhadores da vinha. Onde já se viu o dono da vinha (i.e., Deus) recompensar da mesma forma os conscienciosos e esforçados que trabalharam todo o dia e os mandriões que só trabalharam uma hora? Onde já se viu um Deus que dispensa o mesmo amor e a mesma misericórdia aos que cumprem escrupulosamente e aos que apenas aparecem para dar um ar de sua graça? E mais uma: o que é isso do Deus-dono-da-vinha sair ele próprio para angariar trabalhadores? Um Deus que vai à procura incansavelmente dos que acedem vir para a sua vinha trabalhar em vez de ficar confortavelmente sentado esperando que lhe venham implorar por trabalho, fazendo entrevistas difíceis (Em que vinhas já trabalhou e por quanto tempo? Quantos cestos de uva apanha por hora? E etc.) e regateando o salário? Que ideia mais desaparafusada.

E o que dizer então da parábola do filho pródigo? Há um livro muito curioso que o padre Henri Nouwen escreveu a partir de meditações sobre o quadro O Regresso do Filho Pródigo de Rembrandt (o livro tem o mesmo nome). Evidentemente a parábola não é sobre o filho, é sobre o Pai que acorre a acolhê-lo mal o vislumbra ao longe, festeja o seu regresso e nem quer ouvir desculpas ou promessas e nem lhe exige garantias de bom comportamento futuro; basta-lhe saber que o filho quer estar com ele. (Tal qual a Igreja atualmente com quem tem família não reconhecida num casamento católico ou é homossexual, não é?)’

O resto está aqui.

“The lunatic is in the hall”

O eurodeputado Carlos Zorrinho disse hoje, na sua intervenção no Parlamento Europeu na sessão que aprovou o elenco da Comissão Europeia presidida por Jean-Claude Juncker, que à Europa “já não bastam palavras, é precisos actos concretos”, e que “precisamos de colocar o nosso homem na lua, ser um laboratório de futuro e não um museu do passado”. Aprecio a ambição de Zorrinho, mas talvez não haja necessidade de gastar dinheiro a pôr “o nosso homem na lua”. É que Zorrinho, pelos vistos, já la vive.

Ilegalizar a Morte

Se existe injustiça na nossa existência é um gajo passar uma vida a trabalhar, a construir vida com alguém, a criar filhos e netos para dum momento para o outro ir fazer companhia à bicharada debaixo da terra. É chato, portanto. E se a ideia de enriquecer – seja a nível de património, seja ao nível dos que nos rodeiam – e mandar tudo às ortigas dum momento para o outro parece aterrorizante, pior ficam aqueles que se vão cedo, irrealizados. Só por canalhice, tacanhez e falta de visão é que a Morte, a eterna efeméride dos vivos, ainda não foi proibida, ilegalizada, assertivamente perseguida pelas autoridades competentes. Ora um dos principais Direitos Humanos é o Direito à Vida. Como se tolera que este seja diariamente violado? Que impunemente tanta malta bata a bota.

Isto acontece porque o Estado está desenhado de forma a servir os mais priveligiados. Os que aproveitam a vida, que viajam, comem bem, têm acesso aos melhores cuidados de saúde e se reformam cedo para levar os netos ao colégio, ao rugby e ao pólo aquático. Em cada funeral devia estar presente um fiscal do Estado, averiguando as causas, autuando sem dó nem pena, trazendo consigo o peso de fascículos de legislação na procura de evitar que o fenómeno se repita, com extensos relatórios e recomendações a quem de direito, para que lei sobre lei o sistema se adorne dos meios para o combate a esta vilania.

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Socialismos dos partidos dos taxistas

Fotografia do Público

Fotografia do Público

Depois dos dilúvios que afectam a cidade de Lisboa sempre que chove, situações de desastre que apenas acontecem porque os serviços camarários não são avisados, o CDS de Lisboa decide que importa regulamentar a actividade dos tuk tuk na capital.

O CDS quer que a actividade dos tuk tuk em Lisboa passe a estar limitada a um conjunto de circuitos pré-definidos e se restrinja ao período diurno, “por forma a compatibilizar os interesses e necessidades” de quem vive na cidade, de quem a visita e “de quem dela depende para desenvolver os seus negócios”.

Nesse sentido, o vereador do CDS na Câmara de Lisboa vai apresentar esta quarta-feira uma moção, na qual recomenda ao município que avance com a regulamentação da actividade destes triciclos motorizados. Em declarações ao PÚBLICO, João Gonçalves Pereira sublinha que essa regulação deve ser vista por todos os agentes como “algo positivo, não negativo”, assente na ideia de que “qualquer país e cidade deve proteger aqueles que neles investiram”.

Na sua moção, há essencialmente três aspectos relativamente aos quais o autarca centrista defende que a câmara deve definir regras, depois de ouvir os empresários do sector: a tomada e largada de passageiros, os circuitos e os horários.

Em sentido contrário ao das várias propostas de regulamentação da actividade turística, apraz-me recordar as palavras de Adolfo Mesquita Nunes,

“A liberalização da economia resulta. Quando o Estado dá espaço às empresas, as empresas respondem, e respondem com criação de emprego e crescimento.” Redução de taxas, liberdade de acesso e redução de custos para as empresas foram os três pontos de viragem. “Costumo dizer que há que desamparar a loja. Ninguém cria uma empresa, de animação turística ou outra qualquer, se tiver de percorrer um calvário de licenciamentos e pagar um amontoado de taxas. (…) Sendo constituída por micro e pequenas empresas, muitas delas resultado de empreendedorismo, a animação turística é um dos sinais e exemplos do relevo do turismo na criação de emprego. “

Como moral da história, aos interessados, aconselho a leitura do certeiro artigo do Alexandre Homem Cristo no Observador, Tuk-tuks: mudança ou ameaça?

(..) A história em si não tem nada de surpreendente. A incapacidade de adaptação aos tempos, a inveja pelo sucesso dos outros, a obsessão pelo proteccionismo, a exigência que o Estado esteja sempre lá para decidir, regulamentar e, sobretudo, preservar a rentabilidade de sectores empresariais que deixaram de ser rentáveis. Tudo isso é Portugal. E é, aliás, por essa razão que este caso é tão interessante – porque ultrapassa a luta específica de um sector e representa, na verdade, o confronto entre a concretização da mudança e o país que somos. Um país que pede essa mudança mas que não gosta quando ela acontece. Um país que se orgulha de ser um destino turístico de excelência, mas que vê o sucesso das empresas do sector como uma ameaça. Um país que quer ser mais livre e próspero mas que não consegue ultrapassar a sua dependência do Estado.

No fundo, é isto: um país que não aprende com os seus erros e onde os bons exemplos de sucesso e de governação parecem nunca ser suficientes para impor a mudança. Um país onde o socialismo parece vencer sempre.

 

Um estado falido

Provavelmente sem se aperceber, neste artigo o socialista Pedro Nuno Santos admite que o governo anterior deixou o país num estado de insolvência. Embora as suas preferências para alocar o (pouco) dinheiro disponível fossem diversas admite que as totalidade das obrigações assumidas pelo governo português eram superiores às receitas geradas.

A inconsciência é tal que é citado na integra pelo clube de fans de José Sócrates.

As lágrimas do crocodilo vermelho

Seria irónico se não fosse trágico. Depois de tudo fazer para coarctar a iniciativa privada e dificultar a gestão corrente nas empresas o PCP pretende aprovar leis para impedir a liquidação de empresas. Tudo em nome de um “país” de quem se auto-nomearan oráculos exclusivos e vitalícios.

as nuvens no horizonte

“(..) para além da frente externa, em relação à qual o Governo nada pode fazer, e cuja deterioração conduzirá a renovado debate quanto à integridade da zona euro e da própria UE, há no OE2015 uma imprudência que, esta sim, é atribuível ao Governo: a ideia de que a eficiência fiscal não conhece limite.”, no meu artigo de hoje no Diário Económico.

Falemos de desigualdade (2)

O Vasco é sócio de um escritório de advogados. Ganha 40 mil euros por mês. Vive em Cascais e tem um património de 5 milhões de Euros. O Vasco é o 1%.
O Zé é empregado de mesa. Ganha 600 euros por mês e vive num apartamento alugado em Massamá. Tem duas semanas de salário no banco e uma dívida à Cofidis. O seu património é negativo. Está no topo do último quartil de rendimentos.

Depois de acordar, o Vasco tem à sua espera torradas e um sumo de laranja preparados pela empregada. Toma o pequeno almoço e chama o motorista que o leva até ao emprego. Enquanto espera no trânsito entretém-se com o seu iPad air e telefona aos seus amigos. Durante a manhã tem várias reuniões, interage com muita gente, clientes e empregados.
O Zé acorda, mete uma fatia de queijo num pão e come uma laranja. Sai de casa a tempo de apanhar o autocarro. Enquanto espera no trânsito, brinca com o seu android e troca mensagens no Whatsapp. Durante a manhã, interage com muita gente, clientes e colegas empregados de mesa.

Ao almoço, o Zé vai ao macdonalds. Por 4 euros come um hamburger, batatas fritas e uma coca-cola. Sai do trabalho às 6 e depara-se com uma greve no metro. Tem que caminhar 1 hora até à estação de autocarros mais próxima. Chega a casa às 7 e meia. Faz o download do episódio da sua série favorita e fica a vê-lo no seu computador que comprou usado por 150€.
Ao almoço, o Vasco vai ao restaurante mais caro da sua zona. Por 200 euros come um hamburger gourmet de carne de vaca argentina rodeado de 8 batatas fritas em óleo de coco, e uma coca-cola. Sai do trabalho às 6 da tarde e vai ao ginásio. O personal trainer recomenda-lhe 1 hora de walking. Chega a casa às sete e meia, senta-se em frente ao seu ecrã plasma e sistema de som e compra o episódio da sua série favorita.

O avô do Vasco ganhava bem: podia comprar meia dúzia de sardinhas todos os dias e tinha uma motorizada para ir para o emprego na cidade. Já o salário do avô do Zé só dava para 1 sardinha por dia. Quando não havia batatas, ia para o trabalho com fome. Como só tinha dinheiro para uma bicicleta, passou a vida num raio de 10 kms à volta de sua casa. O avô do Vasco tinha 6 pares de sapatos que usava todos os dias. O avô do Zé andava muitas vezes descalço para não estragar o seu único par de sapatos.

O Vasco ganha 70 vezes mais que o Zé. O avô do Vasco só ganhava 6 vezes mais que o avô do Zé. A desigualdade aumentou, dizem.

Propostas para a reforma eleitoral

Ainda que a minha preferência vá para os círculos uninominais, penso que a proposta de Vital Moreira em reduzir os circulos eleitorais e introduzir o voto preferêncial seria uma boa alternativa. Pelos menos, bastante melhor que o modelo actual.

Crítica: Separação (2014)

Petr Pavlensky, artista contemporâneo com linguagem repetitiva e alusiva ao século XX.

Petr Pavlensky, artista contemporâneo com linguagem repetitiva e alusiva ao século XX.

Enquadrado numa sequência iniciada com Carcaça (2013), Petr Pavlensky concluiu no passado dia 19 a terceira instalação da Tetralogia da Dor. Intitulada Separação, consistiu numa reprise tímida e pouco contundente do trabalho de Van Gogh intitulado Gosto Tanto de Ti, Toma Lá Uma Orelha, Meu Amor (1888).

O trabalho de Petr Pavlensky é bastante derivativo, há que o afirmar. Talvez não seja pretensão do artista criar um estado de staatsgreep no observador – o que abonaria na repetição permanente do leitmotif sanguinário das instalações – porém, esta abordagem despretensiosa de grandeur na ruptura retira a eloquência, através da banalidade, às obras do artista.

Em Carcaça (2013), o artista, nu e envolto em arame farpado, lembra a sociedade burguesa dos momentos em que, no interior profundo de enraizadas tradições, um camponês encontrava um vadio espadaúdo na cama com a matrona. Pessoas que, como eu, viveram em quintas latifundiárias no interior longínquo, reconhecem imediatamente a cena, apesar do marasmo estático inverossímil para alguém que se enrola em arame farpado enquanto foge a tiro de caçadeira. Posso peremptoriamente afirmar que, nestas circunstâncias, uma vítima de opressão debate-se com afinco, criando chagas profundas que reflectem, num efeito espelho, uma réplica em pequena escala do martírio através de estereotipo judaico-cristão.

Em Fixação (2013), o artista, nu e com o escroto pregado às pedras da calçada, lembra à elite aristocrática que o calceteiro, um labor em extinção, se reproduz em cada pedra, pisada diariamente por milhares de pés anónimos e indiferentes à geometria intricada da sociedade maniqueísta e em oposição à apatia da simetria perfeita do betão armado da elite. Apesar de não ser reprise de obra pré-estabelecida, milhares de pessoas já sentiram a sensação de prego no escroto, tornando a semântica desta obra demasiado evidente para suscitar particular subjectividade de interpretação.

Em Separação (2014), o artista, nu e ensanguentado, sentado com catana no topo do prédio, corta o lóbulo, capando metaforicamente o neoliberalismo na orelha direita enquanto mantém a esquerda una e intacta. Impossibilitando-se de usar convencional brinco, o artista faz um pacto com a sua audiência de que nunca se enfeitará do lado direito, lado que representa o fascínio pelo capital e, inclusivamente, a proxenetização do lóbulo para o cânone de beleza feminina, ostracizada no radicalismo do equilíbrio entre o existencialismo simples e a prostituição do ideal pelo brilho do pendente.

Os dados estão lançados para De Trombas Para o TGV, a instalar em 2015, uma reprise do trabalho do dadaísta Arlindo Arlindo que, em 1938, se atirou para a linha do comboio à saída de Caíde no concelho de Lousada.

Classificação: aguarda última instalação da tetralogia.

É muito simples

“Nunca pagámos tanto por tão pouco”. É mesmo assim. Quando deixámos de permanentemente poder “chutar” os défices para o stock de dívida e fomos obrigados a pagar os saldos orçamentais negativos do presente e do passado (mais umas continhas que tinham sido atiradas para debaixo da carpete) é que apercebemos do verdeiro custo do estado social e da magnifica “obra feita”.

Querem pagar menos impostos? Cortem no despesa. Cortem no estado.

OE 2015: crises socialistas dão em soluções socialistas

A minha presença, de hoje, na Edição das 12 do Económico TV. Quando se pergunta se há alternativa, elas são duas: ou se sai do euro, ou se reforma o Estado. Ambas são difíceis e com custos sociais de que ninguém quer ser o responsável. Assim, restam os impostos altos e os cortes nas pensões e nos salários. O empobrecimento gradual. O PS diz-se contra, mas será a favor quando for governo. Porque as alternativas são demasiado puxadas para quem queira continuar na política depois de ter estado no governo.

Mais um capítulo da guerra ao terror na China

al-qaeda-magazine

Al-Qaeda magazine calls for Xinjiang to be ‘recovered by the Islamic Caliphate’

No final de Abril, o Presidente Chinês, Xi Jinping, visitou a região de Xinjiang, de maioria étnica uigur e que professa maioritariamente o islamismo.  Xinjiang serve de base aos responsáveis pela onda de atentados. Antes, o Presidente declarou a “firme resolução em combater o terrorismo e o separatismo para salvaguardar a segurança nacional”. Xi Jinping, pediu aos militares para “manterem a unidade nacional e a proteger as fronteiras do país” . Nesse mesmo sentido, pediu aos professores da região de Xinjiang da etnia maioritária han, que dominem a língua uigur e que ensinem aos estudantes o mandarim. Desde então, continuam em crescendo os ataques terroristas e a repressão por parte das autoridades chinesas.

 

A golden share da PT já foi tarde e saiu-nos muito cara

Olhando para a actual situação da PT não faltará quem caia no facilitismo de associar o declínio da empresa à extinção da golden share do estado. Nada mais falso. Não só a golden share não teria alterado nada a situação actual (para melhor), como está na sua origem. Nem precisamos de ir tão longe como a OPA da SONAECOM à PT em 2006. Basta-nos olhar para os 3 negócios mais recentes que levaram a PT onde está hoje

1. O empréstimo à Rioforte a rondar os 900 milhões de euros – Estes empréstimos ao grupo Espírito Santo não são algo recente. A compra de papel comercial do Grupo Espírito Santo vinha de longe e fazia parte da parceria estratégica entre a PT e o BES anterior à OPA da SONAECOM em 2006. Não só o estado nunca impediu que estes empréstimos acontecessem, como provavelmente os incentivava.

2. A venda da Vivo no valor de 7,15 mil milhões de euros - A Telefónica procurava há bastante tempo comprar a parte da PT na Vivo e em 2010 apresentou uma proposta bastante generosa de 7,15 mil milhões de euros pelos 30% da PT. Esses 30% valem hoje cerca de 5 mil milhões. O governo de José Sócrates, contra a vontade da maioria dos accionistas, bloqueou a oferta da Telefónica. Perante a pressão dos accionistas, num país prestes a entrar em falência, acabou por aceitar uma oferta de valor semelhante*, na condição de que parte desse dinheiro fosse reinvestido na Oi.

3. A compra de 23% da Oi - A condição imposta pelo governo de José Sócrates para aceitar a proposta da compra da Vivo foi o reinvestimento de metade do valor pago pela Telefónica, 3,75 mil milhões de euros, na compra de uma posição de 23% na Oi. Este foi o negócio mais ruinoso da história da PT. Eventualmente a bastante maior Oi engoliu a PT. Os 23% da Oi que na altura custaram 3.750 mil milhões de euros, hoje valem cerca de 600 milhões de euros. Uma perda para os accionistas de de mais de 3.000 milhões de euros. Na altura José Sócrates congratulou-se diante de todo o país com o negócio feito.

Ou seja, graças à golden share do estado, a PT quase perdeu um grande negócio, a venda da Vivo, e meteu-se no pior negócio da sua história: a compra da posição na Oi. O segundo pior negócio da sua história, a compra de papel comercial da Rioforte, não teria sido evitado com a golden share porque era uma prática já vinda de trás. Nestes dois negócios, patrocinados pela golden share do estado, a PT perdeu o correspondente a 4 vezes o seu valor actual, ou perto de 4 mil milhões de euros.

A golden share do estado não teria salvo a PT. Pelo contrário, a golden share do estado está na origem dos problemas actuais da PT. Tivesse sido extinta mais cedo e a PT poderia valer hoje 5 vezes mais.

*a Telefónica subiu a proposta no papel em 350 milhões de euros em troca de um atraso no pagamento de valor actualizado semelhante para que o governo da altura pudesse salvar a face.

No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no ‘i’. Se a maioria quer um estado socialista, temos de ter austeridade. Temos de pagar. Só há fuga para quem vai embora.

A crise do Estado socialista

O governo apresentou o Orçamento do Estado para 2015, que mantém os impostos altos. A oposição protesta, reclama e diz votar contra. No entanto, se discorda da austeridade contra as pessoas, já não se opõe às despesas que obrigam a essa mesma austeridade.

Para PS e PCP o cenário montado é o ideal: um governo de direita sobe impostos para equilibrar as contas, porque só vê números e não pessoas. O raciocínio, bonito, é hipócrita. Este governo, a bem ou a mal, e isto é algo que a esquerda não quer ouvir porque não lhe convém, sobe impostos para que o Estado socialista que nos esmaga não se desmorone.

Porque a esquerda não quer saber desta verdade, faz ruído. Como? Utilizando as frases que metem números e pessoas, e alegando que o governo fez uma escolha ideológica. Como se tivesse passado pela cabeça dos governantes uma vontade incontrolável de subir impostos, cortar salários, pensões e perder eleições.

Se para o PCP a ideologia comunista só lhe permite gritar palavras de ordem, já a posição do PS é mais delicada e interesseira. Os socialistas, pretendendo passar ao lado da crise do Estado, esperam regressar ao poder sem freio na despesa. Ou não perceberam, ou não lhes interessa perceber que esse mundo acabou. Este Orçamento não resolve a crise do Estado, nem deixa a economia respirar. É verdade. Mas é o único modo de sobrevivência que o socialismo encontrou. Eu sou contra. Só não vejo o que é que para a esquerda isso tem de negativo.

O ilusionista

Rui Tavares no Público

Foi pela dívida que esta crise nasceu – lembram-se dos produtos tóxicos, derivados de vários tipos de empréstimos, incluindo a clientes de alto risco nos Estados Unidos da América? E só cortando o nó górdio da dívida poderemos superar a crise de uma vez por todas.

Enquanto isso não for feito, a dívida vai fazendo vítimas de cima a baixo, pequenas e grandes: o desempregado que não consegue pagar a casa, o sistema bancário cheio de crédito malparado, os Estados cortando nas despesas sociais para pagar uma dívida pública que não cessa de aumentar, os cidadãos mais endividados porque não há emprego nem apoios, as empresas abrindo falência porque não há consumo nem acesso ao crédito – o ciclo não se interrompe, antes se repete e agrava

Seria de esperar que quem lança este anatema sobre os encargos da dívida pública e privada tivesse passado as últimas décadas a perorar por uma redução do consumo público e privado que permitisse equilibrar os orçamentos e uma redução no crédito concedido pelas entidades bancárias. Alguém o ouviu falar disso? E agora? Será que defende uma vida mais frugal, dentro das possibildiades de cada um?

Ao contrário do que faz crer a crise do subrprime não é a responsável directa de muitas misérias privadas. Estas constuiram-se por responsabildade de pessoas e instituiçõe e estados que se endividaram para manter níveis de consumo incomportáveis. Um dia acabou-se o crédito…

Ao contrário do que afirma, as dívidas pública e privadas têm sido renegociadas. Mas se não se alterarem os padrões de consumo, mesmo com perdões de dívida, daqui a uns anos estaremos novamente no mesmo lugar. Mais consumo e mais crédito pede ele. Basta carregar no botão e a crise resolve-se.

Melhor Do Que Um Sketch Dos Monty Python

O professor que tinha ficado colocado em 75 escolas, desta vez arrebatou 95 horários. (fonte)

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