Varoufakis, o tóxico

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Tsipras’ Gamble

Another homeless parliamentarian is Yanis Varoufakis, the former finance minister who, despite the extremely high number of votes he received in January, is considered so toxic that no party has been willing to include him in their lists so far.

(via Nuno Garoupa)

Flanagan’s suicide notes

After Shooting, Alleged Gunman Details Grievances in ‘Suicide Notes’

In Flanagan’s often rambling letter to authorities, family and friends, he writes of a long list of grievances. In one part of the document, Flanagan calls it a “Suicide Note for Friends and Family.”

He says he has been attacked by black men and white females
He talks about how he was attacked for being a gay, black man
He says has suffered racial discrimination, sexual harassment and bullying at work

A source with direct knowledge of his complaints against the station said a pair of tweets sent today and attributed to him accurately reflect previous complaints he lodged against the two people he killed today. These are the two Tweets: “Alison made racist comments,” and, “Adam went to hr on me after working with me one time!!!”

No Fio da Navalha

O meu artigo para o Jornal ‘i’ de hoje.

A pólvora chinesa

As bolsas caíram a pique com as notícias vindas da China. Melhor: com a confirmação de que a economia chinesa se encontra com sérios problemas. O que está a acontecer na China é extremamente importante, não só porque este país é hoje um gigante económico, mas também, e como Miguel Monjardino já teve oportunidade de referir no “Expresso”, ditará os termos de um debate ideológico que terá lugar nos próximos anos.

É que o modelo chinês finalmente falhou. Finalmente, porque era de esperar. Não obstante as experiências históricas passadas, muitos foram os que acreditaram ter a China descoberto uma nova fórmula de desenvolvimento controlada pelo Estado, capaz de sobreviver à crise das economias ocidentais. O desejo da ordem a qualquer preço é a única explicação que conheço para um erro tantas vezes repetido.

A economia chinesa é uma enorme bolha que o poder político planeou a partir de Pequim, subsidiando-a através de estímulos keynesianos por via do banco central e demais bancos politicamente dependentes. Imagine-se a política monetária defendida por Obama nos EUA, e que certa esquerda pretende seja adoptada na Europa, mas para subsidiar empresas com objectivos delineados a régua e esquadro por um comité central sediado em Pequim.

Interessante será também ver o impacto que a quebra na produção chinesa terá nos preços no Ocidente. É que a baixa inflação de que temos beneficiado deve-se em muito aos produtos baratos vindos do Oriente. A inflação tão sonhada pelo BCE e pelo Fed pode tornar-se um pesadelo.

Uma nova causa para a esquerda fracturante

Estamos em campanha eleitoral, tempo em que brotam platitudes ainda mais surpreendentes que as já incríveis boçalidades aliteradas pelos do costume. Boçalidades que nos recordam, por justaposição, da nossa sanidade. Do criminalizar o piropo à eutanásia dos caracóis, tudo serve para entreter os fidalgos da causa.

Surpreendentemente, tirando o fenómeno dos cartazes do PS e as epístolas aos indecisos que se pretendem fiéis, ainda não tivemos nenhum episódio particularmente grutesco, ou pelo menos mais do que a política já se presta. Cumpre, então, prestar serviço público, e fornecer à esquerda fracturante uma causa que os possa mover, já que demovê-los é pouco provável.

Urge, com a premência característica das causas de esquerda, regular os formulários que perguntam o género. A forma binária e biológica de interpretar o género é uma imposição reaccionária, quiçá ultraliberal, neste mundo pós-moderno. Note-se a opressão implícita nesta pergunta:

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Brutos. Como se o mundo se esgotasse aqui, como se a dualidade fosse finita, como se fosse, ou 1, ou 0. Como é por demais evidente a qualquer fiel signatário das causas da extrema-esquerda, exige-se uma rectificação imediata desta situação. No mínimo, permitir que a checkbox suceda ao radio button, garantindo assim uma escolha plural:

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Melhor, mas insuficiente. O género não se exaure aqui. Começa aqui. Assim, o progressista 2.0 deverá almejar a mais, incluindo também outras hipóteses, consentâneas com a criatividade de cada um. E permitir ainda que cada um se expresse livremente sobre o assunto.

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Por fim, para quem está num estágio avançado do marxismo cultural ciêntifico, que culmina no comunismo, e percebe a conotação reaccionária que a biologia impõe, a derradeira alternativa:

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Nota: isto é brincadeira. Já isto é verdade, e não tem piada nenhuma.

Campanha Eleitoral (II): Costa anuncia o Terceiro Milagre de Fátima

Costa andou ontem em campanha pela capital. O ex-Presidente da Câmara de Lisboa, acompanhado do actual Presidente, antes, seu Vice, criticou o governo, sem se rir nem mostrar os dentes, de “usar e abusar das funções do Estado para fazer campanha”. “É escandaloso”, assumiu, exibindo uma enorme lata ambivalência facial quando, embevecido, Medina lhe mostrava as placas com o seu nome junto da “obra feita”:

“Viste isto tudo feito?”, perguntou Medina, no Jardim da Cerca, a última paragem. “Senhor presidente muitos parabéns! Grande trabalho”, respondeu Costa. “A placa está lá em cima”, disse Medina, rindo-se. A placa com o nome de Costa, agora cabeça-de-lista do PS por Lisboa e candidato a primeiro-ministro nas legislativas de 4 de Outubro.

Durante o passeio, o autarca e o ex-autarca mostraram aos portugueses como se desenham as cores do arco-íris, cantando alegremente, “A obra é do Costa, as culpas são do Medina”:

Já na Mouraria, um senhor queixou-se da recolha do lixo, apontando parados dois caixotes do lixo a transbordar e para Costa. “Ele agora está inocente. O culpado sou eu”, interveio Medina.

Na segunda parte do concerto, entoaram, “vamos baixar os impostos aos portugueses, como baixamos os impostos aos Lisboetas”:

O líder do PS acena (…) que também diminuiu (…) os impostos para os lisboetas.

Menos impostos, mas sempre, mais cheques para dar à populaça: o passeio teve o seu clímax quando, com pompa e circunstância, o Desejado anunciou o Terceiro Milagre de Fátima, “Esqueçam a Economia, morte ao Excel, é tudo uma questão de Fé: menos impostos, e mais cheques, é o Fim da Austeridade”, entusiasmo que irá levar provavelmente Mário Centeno a ter de fazer mais um pre-Orçamento Rectificativo, o terceiro e ainda nem sequer formaram Governo:

Costa anunciou mil milhões de euros para um programa de reabilitação urbana, que já constava do programa socialista mas ainda sem orçamento.

Infelizmente, o mundo está difícil e complicado, na Grécia deu-se o mote, e até no PS, nem tudo são rosas: vai daí, alguém decidiu cantar o fado, “Afinal, e o aumento do IMI?”:

O pequeno comício (…) terminou também com fado. “O fado (…) é (…) uma canção de um povo sofrido que chora com amargura mas com muita coragem, que não vira a cara à luta, dá o corpo ao manifesto e acredita no futuro”, concluiu António Costa. (…) Um homem que (…) tinha andado a distribuir panfletos contra o aumento do IMI (…) acabou por ser afastado (…) gerando-se um momento de tensão, mesmo no final do primeiro dia em registo de campanha. 

Apesar de tudo, dá a sensação que, rosas contadas, e expulso o gajo que trazia os espinhos, foi bonita a festa, pá!

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A Venezuela não interessa a ninguém (2)

Being the ex-President’s daughter pays off: Hugo Chavez’s ambassador daughter is Venezuela’s richest woman

Venezuela’s Food Shortages Trigger Long Lines, Hunger and Looting

In a national survey, the pollster Consultores 21 found 30% of Venezuelans eating two or fewer meals a day during the second quarter of this year, up from 20% in the first quarter. Around 70% of people in the study also said they had stopped buying some basic food item because it had become unavailable or too expensive.

Food-supply problems in Venezuela underscore the increasingly precarious situation for Mr. Maduro’s socialist government, which according to the latest poll by Datanálisis is preferred by less than 20% of voters ahead of Dec. 6 parliamentary elections. The critical situation threatens to plunge South America’s largest oil exporter into a wave of civil unrest reminiscent of last year’s nationwide demonstrations seeking Mr. Maduro’s ouster.

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Fé na matemática

O meu texto de ontem no Observador.

‘Quando li esta deliciosa crítica de Alexander Masters ao livro The Universe in Your Hand lembrei-me do famoso e infame modelo macroeconómico do PS com os seus 207.000 empregos em quatro anos. E, nem de propósito, ontem Stephen Hawking contou-nos aquilo em que ‘acredita’: que a informação se transforma em holograma quando passa num buraco negro. O que me deixou muito feliz, uma vez que estou muito familiarizada com todas as possibilidades permitidas aos hologramas, pela via mais óbvia, a das séries infantis que os meus filhos vêem na televisão. Há uma destas séries que tem um avô preso num universo alternativo e cujo vilão atua por meio de hologramas. Acho que amanhã, para as impressionar (há que aproveitar enquanto não chega a adolescência), digo às minha crianças que provavelmente os buracos negros tiveram o seu papel na separação de avô e neto.

Como refere Alexander Masters, há um grupo numeroso de cientistas respeitáveis, ferozmente ateus, deliberadamente descrentes dessas fábulas que são as religiões, cujo intelecto não se contenta com menos do que uma cristalina prova científica. Misturam-se a custo com os simplórios beatos ou new age que acreditam num Deus criador ou numa energia harmoniosa universal com que comunicam através de mantras e meditação. Oferecem a esses beatos e new agers o tratamento merecido: a chacota. E no meio de tanta teoria exótica e improvável, nunca lhes ocorreu ponderar se o apelo espiritual da grande maioria da população mundial é afinal resposta a alguma lei natural ainda não descoberta. Ou se a procura de resposta aos ‘porquê?’ e ‘para quê?’ é, hélas, tão racional como o encantamento que as personalidades científicas têm com a beleza (fria) do ‘como?’, que é ao que a ciência responde.

Em todo o caso, eu, que como católica sou alvo de chacota das personalidades científicas, fiquei satisfeita com o que li dessas teorias (todas mais veneráveis do que qualquer religião) que, entre surpreendentes outros, concebem universos dentro de universos. Porque quando eu era criança vivia fascinada com a imagem do Atlas carregando o mundo nos ombros. (Mal sabia eu que décadas mais tarde faria parte de um grupo que tem no seu cânone um livro chamado Atlas Shrugged.) Bom, a criança Maria João também vivia convencida que o nosso mundo era um brinquedo num mundo de gigantes, tal como os globos terrestres são brinquedos no nosso. Pelo que, dou já aqui como provado de forma cristalina, as imaginações infantis são uma ótima fonte de explicações cosmológicas.’

O resto (até chegar aos números do PS) está aqui.

Ainda sobre os abusos do fisco

Com uns dias de atraso relativamente à publicação, aqui fica o meu artigo mais recente no Observador: Os abusos do fisco não acontecem por acaso.

Campanha eleitoral (I): quem tem medo da Democracia?

Muito se tem discutido sobre qual o papel que o CDS-PP deve ter nos debates eleitorais e na campanha, em especial, no grande debate agendado para o dia 22 de Setembro, no qual a Coligação deseja que participem, não apenas Pedro Passos Coelho, mas também Paulo Portas.

O Bloco de Esquerda e o Partido Socialista opuseram-se à presença de Portas, defendendo a sua posição com o argumento que tal significaria uma duplicação do espaço da Coligação na defesa do seu programa. Costa chegou a afirmar que a presença de Portas representaria uma violação das regras do jogo, uma vez que nessa situação “o PS jogaria com 11 jogadores, e a Coligação, com 22”.

A questão não é linear, e sou o primeiro a reconhecer que, quando se colocou, não mereceu da minha parte uma posição imediata. Após ouvir os vários argumentos, consultar a Lei Eleitoral, e pensar a frio sobre o assunto, considero que a posição de Paulo Portas não só é perfeitamente legítima, como é aquela que melhor defende os interesses dos eleitores e da democracia.

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Respeito!

Apesar dos esforços dos cartazes e cartas do António Costa. Grande Líder só há um. O Kim e mais nenhum.

“‏@DPRK_News
Davos World Economic Forum proclaims 14 traits shared by great leaders. All such traits are possessed by Supreme Leader Kim Jong-Un!”

De acordo

Nota-se bem quando existem ideólogos e pensadores por trás de um líder. O discurso é outro. É pensado exactamente na mesma latitude em que Nóvoa pensa o país.

A Justiça e os últimos 4 anos

O meu artigo no Diário Económico de hoje sobre a Justiça.

Justiça

Sobre os últimos quatro anos devemos reter o novo mapa judiciário apresentado pela actual ministra que, com a figura do administrador judicial e a criação de gabinetes de apoio aos magistrados judiciais, foi um primeiro passo na necessária reorganização do funcionamento interno dos tribunais.

Mais mediáticas foram as prisões de José Sócrates, em Évora, e a de Ricardo Salgado, em casa. No entanto, e apesar do sistema judicial ter sido capaz de enfrentar os antigos donos disto tudo, o certo é que tal se terá devido mais ao colapso de um esquema económico que ao mero funcionamento da Justiça.

O futuro nos dirá. Nos esclarecerá se, apesar do sucedido nesta legislatura, o modelo socialista de desenvolvimento que dura há décadas, e que pressupõe como normal uma combinação entre políticos e empresários, ferindo a livre iniciativa e o livre funcionamento do mercado, sobreviverá ao ponto de outros poderes substituírem os que agora caíram em desgraça.

Campanha eleitoral

A partir de hoje, vou dedicar-me a fazer análise de alguns aspectos mais relevantes da campanha eleitoral. Os posts serão publicados aqui, mas igualmente divulgados no velhinho Blue Lounge, para ordenar o arquivo. Tentarei fazer sobretudo uma apreciação crítica dos aspectos programáticos, para além dos factores mais evidentes, além obviamente dos principais fait divers que naturalmente todas as campanhas eleitorais produzem. Em alguns posts não serei breve, pois não é da minha natureza :) Só lê quem quer :)

A Venezuela não interessa a ninguém

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A Venezuela não interessa a ninguém. A Venezuela não interessa a ninguém. Porque haveria de interessar, se não interessa a ninguém? Na Venezuela não há um leão chamado Cecil caçado por um dentista. Logo, não interessa a ninguém. Na Venezuela não há caracóis que são cozidos vivos. Você gostaria de ser cozido vivo? Na Venezuela também não. Na Venezuela cidadãos são executados à luz do dia. Triste fado. Fossem um felino ou um molusco e interessariam a alguém. A Venezuela não interessa a ninguém. A revolução bolivariana é boa, é bem intencionada, é bonita e é de esquerda, é contra o capitalismo, é pelo socialismo. E isso já interessa. O que não interessa a ninguém é o que vem depois. Isso não interessa a ninguém. Em particular, as filas para o supermercado, o limite de levantamento de 13€. Ou, como diz o outro, por sinal candidato a deputado pelo PS, quem não consegue viver com levantamentos de 60€/dia? Se os gregos conseguem, os venezuelanos, estóicos latinos, também. É a revolução bolivariana. Essa interessa, essa é digna, essa é noticiável. Essa merece capas do Público e do DN. É tão comovente que jornais brasileiros fazem noticia das capas que Portugal dedicou a Chavez e à Venezuela. A criança que chora com a morte de Chavez, anunciando ao mundo a era pós-Chavez. Essa interessa. Pelo menos a alguns. Interessa aos mesmos a quem não interessa o que deveria interessar agora. A Venezuela não interessa a ninguém. Nem a Venezuela, nem eles.

Mãe II

kafka2O texto publicado no Diário Económico tem 1000 caracteres com espaços. Não sei porquê tinha-o escrito com 2000. Fica aqui a versão mais longa.

 

 

Mãe

Os Governos de Portugal saídos de eleições são uma espécie de “Kinder Surpresa”. Sabe-se quem se candidata a PM que, ganhando as eleições, se torna um ditador posicional. Como todos os ditadores (de facto ou posicionais), distribui lugares e recursos, faz escolhas, promove este ou aquele e obriga-se a satisfazer clientelas e Partido, não vá o diabo tecê-las. Continuar a ler

Mãe

kafka2Eu no Diário Económico de ontem

Os governos de Portugal saídos de eleições são uma espécie de “Kinder Surpresa”. Sabe-se quem se candidata a primeiro-ministro que, ganhando as eleições, se torna um ditador posicional.

 

Compreender o putinismo XXVIII

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Oleg Sentsov é um cineasta ucraniano. Foi condenado a passar duas décadas na prisão por um tribunal militar russo que deu como provadas as acusações de dirigir uma célula terrorista na Crimeia em 2014. Dentro das actividades subversivas dadas como provadas, está o plano de Oleg Sentsov fazer explodir uma estátua de Lenine.

Se descontar as honradas tradições que fazem do Putinismo aquilo que é, achar curioso que um tribunal militar russo profira sentenças sobre uma guerra inexistente, no sentido em que não participou com um único militar e passar uma esponja sobre a natural oposição à anexação russa da Crimeia, ser levado a acreditar que durante o tempo que esteve preso Oleg Sentsov não foi tocado por ninguém das forças de segurança russas e que as queixas de tortura que apresenta são resultado de práticas sadomasoquistas, diria que Oleg Sentsov merecia um louvor.

Solução keynesiana para a crise chinesa

Dentro da lógica keynesiana, uma solução para a crise chinesa seria estimular a procura agregada (armadilha para os keynesianos: não são todas as crises fruto de uma contração da procura agregada?) através do investimento público. Em quê? Bom, em mais umas quantas cidades edificadas inorganicamente. Já têm Paris, falta-lhes Londres ou São Francisco. Seria o equivalente moderno ao atirar garrafas com notas num buraco e convidar as pessoas a destapá-los. Made in China.

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O colapso chinês

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Como tive oportunidade de referir há 5 anos, este livro de Gordon Chang é indispensável para perceber o que se está, e se vai passar na China. A bolha especulativa, os bancos estatais cheios de capital inventado na secretaria e por aí fora. Há anos que se fala do que agora se prepara para acontecer. No fundo, até os chineses sabiam. Ou achávamos nós que a procura do golden visa se devia apenas às casas, ao clima e ao acesso à Europa? A fuga dos mais sabidos começou há muito.

as virtudes do socialismo

Terminei a leitura de um livro de Victor de Sá, chamado A Crise do Liberalismo e as Primeiras Manifestações das Ideias Socialistas em Portugal (1820-1852), que me interessa porque eu próprio ando há alguns anos (inicialmente por desporto e, agora, em princípio, também com intenções académicas) a tentar perceber por que razão as ideias liberais clássicas nunca singraram em Portugal, apesar da nossa ligação histórica à cultura e à política anflo-saxónicas. É certo que o liberalismo é uma doutrina que se generaliza, na política, no século XIX, e que Portugal, apesar de ter tido uma má relação com os ingleses no princípio desse século e nunca ter deixado de ter uma profunda ligação a França, onde o liberalismo* era verdadeiramente um estatismo legalista, defensor dos direitos do cidadão e não exactamente dos direitos do indivíduo, manteve no ciclo do seu primeiro constitucionalismo ligações à cultura e à política de Inglaterra, sendo muitos dos liberais triunfadores de 1834 emigrados nesse país, como Palmela e Saldanha.

Victor de Sá era um velho comunista intelectualizado, daqueles de quem Álvaro Cunhal costumava desconfiar e pôr na reserva do partido. O gramscianismo nunca entusiasmou o velho líder comunista e os «intelectuais orgânicos» eram avis raras no paraíso comunista. O melhor era evitar misturas. Contudo, Victor de Sá foi sempre muito considerado no partido, tendo mesmo sido o primeiro deputado comunista eleito no norte do país. Esse curriculum, se não lhe acrescenta méritos, também não lhe retira a qualidade de ter sido um bom escritor e, na medida do que é possível num comunista adepto do «marxismo científico» e da análise da história pela dialética da luta de classes, o que escreveu lê-se muito bem e tem mérito. Tal como as cebolas ou as matrioskas (que ele certamente muito apreciaria), retirada uma primeira camada ou aberta uma primeira boneca (a luta de classes como método «científico» de interpretação da História), o que fica por baixo tem interesse e proveito. E é bem escrito.

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Black Ribbon Day

Embora com um dia de atraso (o dia é observado no dia 23 de Agosto), assinalo neste post o dia Europeu de Lembrança das vítimas do Estalinismo e do Nazismo também conhecido como Black Ribbon Day. O dia recorda os milhões de vítimas de regimes totalitários, especificamente do comunismo/estalinismo, do fascismo e do nazismo.

BlackRibbonDay

Corbynomics apoiada

JC

De acordo com a última tendência a Corbynomics é moderada e humana. O fanatismo está na austeridade. Quem o diz é a Academia.

Leituras recomendadas: Retratos de mais um messias canhotoJeremy Corbyn: o messias na graça dos deuses do proletariadoJeremy Corbyn and Daniel Hannan on Socialism

A causa das coisas

homer_dohHá pouco no twitter envolvi-me numa discussão bem disposta com o João Galamba e o Pedro Morgado (indefectível socialista) a propósito da entrevista do pobre do ex-Ministro da Saúde Correia de Campos à nova versão da Renova, o jornal Público. O dito rolo de papel macio de folha dupla intitula a entrevista assim:

“Vamos herdar uma dívida de mais de 1,5 mil milhões de euros na saúde”

Como em 2011 a dívida era 3 mil milhões de euros, achei piada ao título, só que o que Correia de Campos diz é:

“..vamos herdar uma situação de passivo [na saúde] pelo menos de 1,5 a 1,6 mil milhões.”

E, digo eu, o passivo em 2011 era de cerca de 6,4 mil milhões de euros. Primeira reacção dos ditos:

Isso são números completamente inventados. Ou seja, eu (ou alguém) estaria a mentir.

Ora como lhes mostro que 6,4mil milhões de passivo é resultado da auditoria do Tribunal de Contas em 2011, a segunda reacção é: Não sabes a diferença entre dívida e passivo. Como o ex-Ministro diz explicitamente “passivo“, a terceira reacção passa a ser, ele está a falar de “nova dívida”. Reafirmo eu: na entrevista Correia de campos é explícito, fala de “passivo”. Quarta reacção: eu conheço o homem já falei com ele sobre isso, ele refere-se a “nova dívida”. Repito o que o sr diz na entrevista: “..vamos herdar uma situação de passivo [na saúde] pelo menos de 1,5 a 1,6 mil milhões.”

Posto isto, perdei toda a esperança vós que aqui entrais. Discutir com a esquerda (e parte substancial da dita direita) é isto. Mas que é divertido, é.

 

Leitura dominical

Precário é o Dr. Costa. A crónica de Alberto Gonçalves no DN.

Dada a quantidade de ar morno que lhe atravessa a cabeça, extraordinária até pelos padrões da classe política, é difícil prestar atenção às opiniões de António Costa, e dificílimo destacar alguma. Quando num dia promete 207 mil empregos e no seguinte explica que a promessa é afinal uma estimativa, as pessoas, entretanto habituadas ao estilo, não ligam. Mesmo assim, foi com pasmo que vi o homem lamentar a “precariedade” dos novos contratos laborais, tragédia que “não oferece segurança” e é “altamente prejudicial”. Não é só um argumento típico de quem anda longe do universo do trabalho: é a fezada de quem nunca trabalhou.

Pela parte que directamente me toca, em vinte anos nunca tive qualquer vínculo à entidade empregadora e nunca me ocorreu reivindicar (é o verbo, não é?) alternativa. Com uma remota excepção: seis meses de suplício num “projecto” ligado ao Ministério da Saúde, de onde saí por despedimento “ilícito” e abençoado. Descontada a legitimidade legal, a que pretexto iria forçar-me a continuar num lugar onde não me queriam e que, de resto, eu abominava? Desde então, aprendi que receber por cada serviço que presto é, além de genericamente decente, racional. Por muito que isto indigne o Dr. Costa, não percebo que um sujeito suporte ser remunerado por imposição do tribunal e não pelo reconhecimento daquilo que faz. A garantia do emprego para a vida é má para o emprego e péssima para a vida.

Pela parte que me toca indirectamente, a brutal distância entre o Dr. Costa e o mundo ainda é mais ofensiva. Nos últimos meses, tenho acompanhado de perto o microscópico drama de um “patrão” que tenta em vão despedir o “trabalhador”. O primeiro paga o dobro do praticado no sector, a que acresce horas extras, 14 meses e, claro, segurança social. O segundo organiza manifestações sindicais diárias, esforça-se com irregularidade e exibe maus modos. A solução, de acordo com diversos advogados? Manter tudo como está, já que o despedimento com justa causa exige pelos vistos que o assalariado cometa um ou dois crimes de sangue durante o expediente. E o malévolo capitalista não aguenta os custos de um despedimento sem prova da causa “justa”.

Quando o Dr. Costa, com três décadas de carreira partidária em cima, diz que “o combate à precariedade é tão ou mais importante do que o combate ao desemprego”, não compreende que aquele torna este inútil: no cenário actual, e que o PS sonha agravar, apenas um maluco empregará alguém.

Mudando de assunto, há que louvar o novíssimo critério do Dr. Costa para a emergência de um “bloco central”: uma “invasão marciana” (sic). Enfim, o chefe do PS comenta temas que domina. Infelizmente, arrisca-se a não ir a tempo: precário é ele.

Sobre O Modelo Das Estimativas De Mário Centeno

Começo este post, subscrevendo e reforçando o apelo que o Carlos Guimarães Pinto já efectuou para que o PS disponibilize a folha de cálculo utilizada no seu cenário macro-económico. Até o PS disponibilizar essa folha de cálculo, considero que os seus números são inventados.

anteriormente tinha criticado a pretensão do “grupo de sábios” em apresentar um modelo que dá impressão de ser incrivelmente preciso – o que revela que o grupo por trás do tal cenário macro-económico desconhece (ou não torna visível) as limitações de previsões macro-económicas. Para dar um exemplo, nas várias medidas desdobradas – e que o PS considera completamente perfeitamente independentes, o modelo vai ao ponto de quantificar o número de empregos criados por ano e até ao nível das unidades – e isto durante quatro anos como se pode ver num dos quadros de exemplo (retirado da página 11).

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Este modelo vem também com as credenciais de um partido que a) prometeu criar 150 mil empregos na sua primeira legislatura; b) deixou o país às portas da bancarrota na sua última governação em 2011; e c) que ele próprio está em falência técnica (aparentemente, o modelo só pode ser aplicado a nível macro e não micro). A juntar a isto tudo, como o Carlos Guimaráes Pinto realçou, apesar do PS tanto criticar o estado da economia nacional como resultado do governo actual, o PS promete já na próxima legislatura um crescimento económico como não há memória neste páis.

Aproveito este post para lançar as seguintes questões aos autores do tal estudo macro-económico:

  1. Os 207 mil empregos são empregos sem termo, ou são empregos precários (contratados a prazo)?
  2. São empregos de qualidade bem remunerados baseados na inovação e no conhecimento ou são empregos com salários baixos?
  3. Especificamente, em que àreas é que serão criados os empregos: construção, indústria, turismo, restauração, tecnologias de informação, saúde, educação, serviços? Um modelo tão poderoso certamente considerará as diferentes dinâmicas de cada sector.
  4. Na taxa de desemprego considerada no modelo, estão excluídas as pessoas que estão a realizar estágios; que frequentam programas ocupacionais; as pessoas que desistem de procurar emprego; e as pessoas que saem do país?

Termino este post renovando mais uma vez o apelo ao Mário Centeno para que seguindo as melhores práticas, disponibilize a folha de cálculo utilizada na elaboração do cenário.