“Quando não há dinheiro não se paga. Foi o que se passou com a Argentina, entre outros países, e nem por isso o povo ficou pior.” - Mário Soares
Olhando o gráfico abaixo podemos denotar três períodos de relevo. O primeiro, de 91 a 95, demonstra o resultado do Governo Menem que, mesmo tendo entrado numa espiral de corrupção, conseguiu equilibrar o défice argentino e controlar a inflação, introduzindo também o peso que, através de um Currency Board, passou a utilizar o dólar como uma âncora cambial. Enquanto este arranjo se manteve, a Argentina cumpriu os compromissos com os credores e, como se pode verificar, não só cresceu como esse crescimento beneficiou as classes mais baixas. Na sequência da crise do México e da crisa asiática, a situação da Argentina deteriorou-se e os sucessivos governos foram incapazes – uns por falta de vontade, outros por falta de apoios – de conter os gastos públicos. O FMI, que raramente ajuda nesta situações, só agravou o problema. Não vou roubar-vos tempo a explicar o saque e a violência estatal que se seguiram, pois esta efeméride é do conhecimento geral. A verdade é que a Argentina entrou em default no final de 2001 e são notáveis os efeitos deste nas classes mais pobres. O choque quase duplicou o número de pessoas abaixo da linha da pobreza.
De facto, após uns anos de sofrimento e agonia, a Argentina voltou a crescer. Com os Kirchner, a típica combinação populista de substituíção de importações com amplos programas sociais alcançou o seu auge, o que explica – juntamente com a conjuntura internacional favorável – em certa medida, os dados do gráfico para esse período, mas que também explica os valores que alguns economistas apontam para a real inflacção da Argentina: entre 20 e 30 % – impulsionada, principalmente, pela impressora do Banco Central. O abrandamento económico do Brasil, pelos mesmos motivos que no país vizinho, já se faz sentir. Uma economia asfixiada por impostos e tarifas, amarrada por regulações, estrangulada pela mão bem visível de um estado que parece empenhado em homenagear o General Perón – inspiração para o Partido Justicialista – a cada decreto redigido. E daqui a uns anos, quando o FMI voltar a bater à porta, serão novamente culpados os liberais, os capitalistas, o Papa e sabe-se lá quem mais.
Dr. Soares, por menos que isto foi morto o Presidente Allende. Por menos que isto Getúlio Vargas acabou com um tiro no peito. Por bem menos que isto o Jango acabou no Uruguai – e crescem as teorias de envenenamento. Tenha portanto tento na língua e juízo na cabeça que, não fosse a direita portuguesa democratizada e tivesse ela os tiques dos seus confrades republicanos, já o senhor estaria a confraternizar com o seu amado Mitterrand ou auxiliando o capeta nas boas vindas ao monstro que condenou a Venezuela. Felizmente, outros não partilham a sua aversão à liberdade, podendo o senhor brindar-nos semanalmente com a sua iliteracia económica, com o seu português brejeiro e com o que o seu afilhado político, José Sócrates, apelidaria de “falta de cultura democrática”.
Voltando a citar o próprio: “As situações são diferentes, mas é um facto que o exemplo da Argentina nos pode ajudar a ter coragem“. Certamente que o caso argentino nos pode ajudar a ter coragem para implementar medidas que, apesar de duras, reconduzam o país aos mercados e ao crescimento. Como foi o caso de Ricardo López Murphy que, tendo chegado à pasta da economia com um programa sério de ajustamento que evitaria o default, foi afastado duas semanas depois, não só pela esquerda, mas pelo mesmo tipo de vozes que, à direita, pedem a demissão de Gaspar:











