O Insurgente

Maio 20, 2013

Os fins não justificam os meios

Filed under: Educação,Insurgentes nos media — Alexandre Homem Cristo @ 13:44

mario_nogueira

[hoje no i]

Várias organizações sindicais entregaram um pré-aviso de greve para os quatro dias de avaliação aos alunos dos 6.º, 9.º, 11.º e 12.º anos que têm provas nacionais e para o primeiro dia de exames nacionais. Deste modo, os sindicatos colocaram em risco não somente a realização das provas e dos exames, como o lançamento das notas dos alunos para que estes possam apresentar-se a exame. Fazem-no porque se opõem à mobilidade especial. Isto é, porque, nas suas próprias palavras, está em causa a defesa da Escola Pública.

É habitual os interesses corporativos, em Portugal, não se assumirem. Repare-se que, no nosso país, as greves nunca se fazem em nome de coisas mundanas. Fazem-se em nome de grandes causas, como a liberdade, a equidade, a justiça social ou a igualdade. O mesmo acontece com os professores: não é pelos seus próprios interesses que lutam, é pela defesa da Escola Pública. Mas será que defender os interesses dos professores corresponde a defender os interesses dos alunos? Não, esses interesses nem sempre são coincidentes. (…)

[continuar a ler]

 

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Maio 13, 2013

Há professores a mais?

Filed under: Educação,Insurgentes nos media — Alexandre Homem Cristo @ 15:19

teachers

(artigo publicado hoje no i)

“Naturalmente, as corporações, os sindicatos e os partidos da extrema-esquerda acreditam que não – o que há é professores a menos. É uma posição preconceituosa e, para além de fazer agitar bandeiras, de nada serve. Mas, não sejamos ingénuos, também há, na posição oposta, muito de preconceito. E se à esquerda estamos habituados a um certo alheamento face aos factos, à direita esse mesmo alheamento não pode ser consentido. [...]“

[ler mais]

Abril 24, 2013

Sobre o programa de matemática e o “retrocesso de décadas”

Filed under: Educação — Alexandre Homem Cristo @ 23:32

Anda meio mundo a discutir o novo programa de matemática. O documento foi apresentado ontem à tarde mas, aparentemente, já toda a gente teve oportunidade de ler e analisar as 119 páginas do documento (metas + programa). Aliás, certamente que muita gente teve acesso ao documento antes de o mesmo ser público, uma vez que há uma semana que se fala deste assunto. Reacções a quente? Sim. Mas vamos por partes.

1. Fala-se muito de “um retrocesso de décadas”. Porquê? Parece que as crianças vão ter de memorizar coisas como a tabuada, o que é uma metodologia inequivocamente fascista. O que não se diz nos jornais é que, assim sendo, o programa que vigorou este ano e nos anteriores é fascista, porque impõe a memorização da tabuada (cf. página 16 do programa de 2007). Este ponto também é válido para os críticos do programa de 2007 que afirmam que esse programa é uma merda na medida em que nem obriga a memorizar a tabuada. Enfim, é o debate que temos. E, infelizmente, continua obcecado com o passado.

2. Ainda sobre o “retrocesso de décadas”, a proposta de Nuno Crato faz pequenas actualizações ao programa que já existia. Aliás, o programa que vigorava estava alinhado com as metas curriculares na sua quase totalidade, e não havia problema de maior. Ora, corrigiu-se o “quase”, para que a sintonia fosse a melhor. Não se entende como é que essas pequenas actualizações nos atiram para a idade da pedra.

3a. Por fim, sobre o “retrocesso de décadas” e, em particular, os desempenhos dos alunos portugueses nas avaliações internacionais, vale a pena sublinhar vários aspectos. Portugal participou no TIMMS, que avaliou os conhecimentos dos alunos portugueses do 4º ano a matemática, em 1995 e em 2011. Em 1995, teve o estrondoso resultado de 4º lugar a contar do fim, seguido de perto pela Noruega, pela Islândia e pelo Irão. Em 2011, obteve um bom resultado (15º), acima da média. A melhoria é significativa e devemos estar satisfeitos. Dizer que Portugal foi o país que mais melhorou nesse intervalo de tempo é verdade, mas também tem pouco interesse se tivermos em conta a nossa casa de partida.

3b. Achar que a melhoria se deve ao programa da disciplina de matemática é redutor (para não dizer estúpido). Não somente porque o intervalo temporal é muito maior do que a vigência do programa, como porque os factores que mais influenciam os desempenhos escolares não são os programas (mas sim o nível socioeconómico dos pais e qualidade dos professores, por exemplo). O programa será, quanto muito, um dos factores. Associar a qualidade do programa de matemática de 2007 à melhoria de desempenhos é excessivo. Assim, defender que uma actualização do programa colocará esta melhoria em causa só pode ser cegueira.

3c. A avaliação do relatório TIMMS é feita aos 4º e 8º anos. Portugal apenas participou na avaliação dos alunos do 4º ano. Assim sendo, o argumento de “retrocesso de décadas” perde ainda mais pertinência, visto que é uma loucura achar que o que distingue os alunos dos países participantes no TIMMS no 4º ano é o seu programa de matemática. Os primeiros anos de ensino são, por definição, aqueles em que os curricula mais se assemelham nos vários países.

4. Se estas notas acima poderão ajudar o João Gonçalves a responder à questão que levanta, é oportuno deixar uma última nota sobre a sua referência a Santana Castilho. O problema não é ele perceber do assunto, porque naturalmente percebe. O problema é como sustenta as suas posições (não raramente violentas), por vezes introduzindo nos seus textos dados que não estão correctos. No de hoje, há dois exemplos:

  • diz que “temos 3.500.000 portugueses com mais de 15 anos que não têm qualquer diploma ou apenas concluíram o ensino básico”, quando o valor real é 4.459.152 (mais um milhão do que ele afirma);
  • diz que “persiste uma taxa de abandono precoce de 27,1%, a maior da Europa”, quando o valor real é de 20,8% e não é o pior na Europa (Malta, Espanha e Turquia estão piores). De resto, esta sua afirmação, que é falsa, é colocada em destaque no seu artigo de hoje no Público.

Uma educação refém do Estado Novo

Filed under: Educação,Insurgentes nos media — Alexandre Homem Cristo @ 17:00

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Em semana do 39.o aniversário do 25 de Abril, é oportuno salientar que um dos maiores problemas do debate político é a sua obsessão pelo passado e, muito concretamente, pelo Estado Novo. Um problema que existe tanto à direita como à esquerda, e que na educação é especialmente visível. A direita desconfia do actual sistema educativo e sonha com a exigência do passado. E a esquerda, tendo-se apropriado da educação nacional sob a bandeira da defesa da escola pública, interpreta cada proposta de mudança como um retrocesso e uma ameaça ao seu domínio. Ambas as posições estão erradas e prejudicam o debate público.

Portugal está hoje melhor do que estava há 40 anos. Em 1970, só 21 mil alunos estavam matriculados no ensino secundário. Em 2011, eram 343 mil. Assim, a taxa real de escolarização da população com ensino secundário era de 3,8% em 1970 e de 72,5% em 2011. No ensino básico, a tendência repete- -se: no 3.o ciclo, a taxa de escolarização da população passou de 14,4% (1970) para 92,1% (2011). Tal como aconteceu no ensino superior: o número de estudantes matriculados passou de 80 mil (1980) para 390 mil (2012).

Se nos últimos 40 anos as mudanças são tremendas, mesmo nos últimos 10 e 20 anos as melhorias são evidentes. O abandono escolar caiu a pique, de 50% (1992) para 20,8% (2012). Entre 2000 e 2012, o número de portugueses sem qualquer grau de escolaridade reduziu-se para quase metade: 1,5 milhões para 890 mil. E, no mesmo período, duplicou o número de doutoramentos por ano, passando de 860 para 1666.

Estes são apenas alguns dos muitos indicadores positivos, que exemplificam as melhorias na educação. Perante estes dados, a pergunta impõe-se: que sentido faz sonhar com o passado? Nenhum. Até porque não existe qualquer indicador que sugira que o ensino era, durante o Estado Novo, melhor do que é actualmente. Pelo contrário. Desde que existem avaliações internacionais, os desempenhos escolares dos alunos portugueses têm vindo sempre a melhorar, partindo do fundo da tabela. A ideia de um passado idílico na educação nacional, que alguma direita alimenta, deve, portanto, ser enterrada.

Também à esquerda o Estado Novo domina o pensamento político para a educação. Os conceitos “Escola Pública” e “Escola de Abril” são, aliás, exemplares quanto a isso. O primeiro porque, utilizando-se apenas no singular, impõe um único modelo e uma visão igualitarista sobre o que deve ser a escola (supostamente em oposição à escola exclusiva do Estado Novo). O segundo porque, remetendo para um modelo de escola com 40 anos, impinge um pensamento imobilista quanto a mexidas no sistema educativo. De facto, porque desenhado e controlado por si, aos olhos da esquerda, o actual sistema nunca caducará nem carecerá de actualizações. No entanto, estas duas obsessões (a igualitarista e a imobilista) são contrariadas por todas as recomendações constantes em relatórios nacionais e internacionais – que defendem maior diversidade na oferta educativa, maior autonomia das escolas, e maior flexibilidade e capacidade de adaptação dos sistemas às necessidades dos alunos.

Assim, cúmplices em manter o passado como ponto de referência, direita e esquerda têm muitas vezes sido incapazes de pensar o futuro. É tempo de o fazerem. Emancipando-se da herança do Estado Novo. E aceitando as evidências do presente. A de que hoje estamos melhor. E a de que, com as mudanças certas no sistema, podemos melhorar ainda mais. É este um dos consensos de que o país precisa.

[no i]

Abril 10, 2013

Fiquemos, pois, descansados: em Portugal não existem escolas más. Só temos escolas boas ou muito boas, e umas quantas (poucas) que são apenas “suficiente”

Filed under: Educação — Alexandre Homem Cristo @ 20:46

20111110-education

Mais de 90% das escolas com classificações de “Bom” ou “Muito Bom”. [público]

 

 

Ícones da pop

Filed under: Educação — Alexandre Homem Cristo @ 16:10

António de Sampaio da Nóvoa tornou-se, no ano passado, um ícone da resistência ao governo. Bastou um discurso sonante e umas dezenas de partilhas no facebook. Mas ficou agora evidente que o difícil não é conseguir esse estatuto, mas antes não ficar refém dele (como Narciso ficou da sua própria imagem – deu no que deu). O comunicado que Sampaio da Nóvoa ontem publicou não é uma simples tomada de posição – é um manifesto. E também não é uma crítica ao despacho de Gaspar por eventualmente interferir com o funcionamento da universidade – é um ataque à política do Governo. Consequência: nem sequer os seus pares (os reitores) se identificam com as suas críticas. Na vida real, ficou isolado. Mas, no facebook, foram muitas as partilhas conseguidas. Presume-se, portanto, que o seu (verdadeiro) objectivo tenha sido alcançado.

Abril 8, 2013

Os homens não são anjos

Filed under: Diversos — Alexandre Homem Cristo @ 15:40

No Chipre, Michalis Sarris foi, até recentemente, ministro das finanças. Demitiu-se, porque o presidente do seu país solicitou uma investigação sobre a origem da crise bancária cipriota, nomeadamente sobre as transacções feitas pelo seu escritório de advogados. Em França, Jérôme Cahuzac foi, até recentemente, ministro do orçamento. Demitiu-se, porque a justiça francesa validou suspeitas de fraude fiscal contra si, surgidas há 3 meses na imprensa. E, em Portugal, Miguel Relvas foi, até recentemente, ministro adjunto e dos assuntos parlamentares. Também se demitiu. Fê-lo porque uma auditoria ao seu processo de licenciatura detectou irregularidades graves.

Os casos são diferentes, mas há dois aspectos importantes que os unem. O primeiro é a fragilidade pessoal (leia-se, humana) dos titulares de cargos políticos. Sarris quis proteger os seus investimentos e os da sua família. Cahuzac quis escapar ao confisco fiscal que se pratica no seu país (e logo pelo governo que integrava). E Relvas, sofrendo da snobeira deste país de doutores, quis ter uma licenciatura sem estudar. O que, dito de outro modo, significa simplesmente que os políticos são homens como todos os outros. Têm família, amigos, virtudes, defeitos, forças e fragilidades. E tudo isto é normal. A fragilidade dos homens está prevista e faz parte do jogo, pois a democracia não foi construída sobre o pressuposto de que os homens são anjos. Muito pelo contrário. Foi desenhada institucionalmente com mecanismos de fiscalização política, para evitar que interesses pessoais se sobreponham à defesa do bem comum.

É daí que surge o outro aspecto interessante a retirar destes casos: os mecanismos democráticos de fiscalização funcionaram. Os três ex-governantes que tentaram contornar as regras falharam. Todos eles foram vencidos pelas instituições e forçados a sair. No Chipre, pelo presidente da república. Em França, pela imprensa e pela justiça. Em Portugal, pela Inspecção Geral de Educação e Ciência, que opera sob a tutela de Nuno Crato. E se, pelo menos em França, este escrutínio não é surpresa, não há memória de em Portugal algo de parecido alguma vez ter acontecido. O facto é, portanto, digno de ser sublinhado.

Ora, é impossível, chegados a este ponto, não fazer as perguntas que, inevitavelmente, ficam no ar. Os portugueses habituaram-se a escândalos, a suspeitas e a ameaças. Familiarizaram-se com a impunidade que sempre reinou nos casos políticos. Mais cedo ou mais tarde, tudo era abafado. Só que, desta vez, não foi. O que é que mudou, entretanto? O que é que fez com que Relvas sofresse aquilo que Sócrates (que também tinha realizado provas escritas de forma irregular) não sofreu? Foram os protagonistas que mudaram. Nuno Crato não é Mariano Gago, para sorte dos portugueses. E nas diferenças que os separam reside uma grande lição.

Só que, infelizmente para o país, a mudança de protagonistas ainda não é motivo suficiente para estarmos satisfeitos. Ela não é sustentável. Enquanto a mudança não acontecer ao nível das instituições, será sempre efémera. Nada nos garante que, da próxima vez que os protagonistas mudarem, não voltamos às práticas do passado. Assim, num regime que ainda não conseguiu que as instituições valessem mais do que os nomes que as dirigem, só podemos esperar que este caso de Relvas seja, de certo modo, um primeiro passo no sentido certo. Seria, de longe, o melhor serviço que Relvas alguma vez poderia prestar ao seu país.

[hoje no "i"]

Abril 2, 2013

Um sistema que serve os alunos (e não os professores)

Filed under: Educação,Insurgentes nos media — Alexandre Homem Cristo @ 11:52

Anteciparam cenários. Atiraram com números para os jornais. Prometeram o horror. Foi assim que se desenrolou este início do ano de 2013 na educação, pela mão dos habituais alarmistas. Quiseram gerir a expectativa do que no sector seria feito no âmbito da chamada refundação do Estado. Só que nada do que imaginaram se concretizou. Nem o despedimento dos 50 mil funcionários, nem o alargamento do horário de trabalho dos professores. Não que isso tivesse comovido a FENPROF, recordista nacional de profecias falhadas. Quando Nuno Crato apresentou algo bem diferente (mobilidade especial e reorganização das Zonas de Quadro Pedagógico – QZP), a ameaça de uma greve de professores pairou de imediato. Castigar os alunos sempre foi uma poderosa arma negocial. A esquerda, em geral, alinhou nos protestos. E a polémica instalou-se, com manchete em vários jornais. Mas, apesar do ruído, a dúvida veio à superfície: afinal, por que razão são contra a mobilidade especial? Nenhum dos indignados soube explicar.

A mobilidade especial existe há vários anos na função pública. E durante todos esses anos, a educação ficou de fora. Um professor do quadro recebia o seu salário, tivesse aulas para dar ou não. Não podia ser dispensado, mesmo que o sistema educativo, na prática, tivesse prescindido dele. Ora, o que distingue professores de restantes funcionários públicos que justifique, hoje, essa excepção? Não se sabe. E ninguém, entre os indignados, nos diz. Naturalmente, compreende-se que esses professores sem alunos não fiquem agradados com a novidade do Ministério. Mas isso não responde à questão que importa: porquê manter a excepção dos professores quanto à mobilidade especial?

A excepção, de facto, não se justifica. Por duas razões. A primeira é que ao Estado compete a boa gestão dos recursos, humanos e financeiros, e não há razão válida para manter nos quadros um funcionário sem funções. Seja professor ou não. O dinheiro dos contribuintes, apesar das tentativas de quem governa e governou, não estica. E o que se gasta num funcionário sem funções não será investido onde é preciso e onde faz falta. Esta é uma premissa válida por si só, mas ainda mais relevante no contexto em que vivemos. Num cenário de cortes na despesa pública, não se compreende que o Estado mantenha, na sua folha de pagamentos, professores que não exercem funções lectivas, enquanto corta nas remunerações dos que as exercem.

A segunda razão é que a implementação da mobilidade especial não produz efeitos negativos no sistema. É, portanto, o tipo de reforma política que os portugueses exigiram a este Governo, quando o elegeram. Isto porque um professor que não tem aulas para dar, é um professor cuja saída do sistema educativo não prejudicará qualquer aluno. E se isto não é evidente para todos, é apenas porque durante demasiado tempo o país se esqueceu que o sistema educativo existe para servir os alunos, e não os professores. Há que parar com o fingimento (ideológico e corporativo) de que o número de professores no sistema educativo não tem relação directa com o número de alunos matriculados.

Em Portugal, a mudança é, por definição, polémica. Num país onde as boas reformas são as que não saem do papel, qualquer decisão ministerial será sempre acusada de ameaçar os alicerces constitucionais do Estado Social. Esta medida do Ministério de Nuno Crato não foge à regra. E ainda bem. A mudança que precisamos também passa por quebrar os consensos que nos conduziram à ruína. Sobretudo na educação.

[ontem no i]

Março 15, 2013

Hollande continua a bater recordes

Filed under: Diversos — Alexandre Homem Cristo @ 10:57

hollande_mars2013

Março 14, 2013

A ilusão

Filed under: Diversos — Alexandre Homem Cristo @ 18:03

Há quem esteja muito entusiasmado com a possibilidade destas eleições autárquicas servirem de antecâmara para uma aproximação efectiva entre o PS e o BE que, após as eleições legislativas, permita uma coligação. É, naturalmente, uma ilusão – nitidamente correlacionada com a insatisfação de muitos deputados socialistas com a liderança de Seguro. Isto porque o principal obstáculo a essa aproximação é o próprio BE, que não tem qualquer interesse nessa aproximação – o que é evidente pelos termos que estabeleceu: rasgar o memorando e dizer não à troika. Pode o PS rasgar o memorando que assinou? Não pode. Pode o PS rejeitar o diálogo com as instituições internacionais que constituem a troika? Não pode. E, não podendo, não há margem para os dois partidos se aproximarem. O BE não é, nunca foi, um partido de compromissos. Tudo isto é óbvio. Só não vê quem não quer.

Março 13, 2013

Acordo Ortográfico em discussão, dia 20, na FCSH-UNL

Filed under: Diversos — Alexandre Homem Cristo @ 15:16

Forum P ou P_20.3.2013

Março 12, 2013

Salazar

Filed under: Diversos — Alexandre Homem Cristo @ 13:02

É uma ironia constatar que, com demasiada frequência, a esquerda precisa de Salazar para validar a sua argumentação. É um recurso de preguiça e, também, de incompetência. Acusar um oponente de “salazarismo”, de ser “salazarento”, de querer voltar “aos tempos antigos”, de suspirar pelo “antigamente” (entre outros termos equivalentes) não é mais de que um truque (baixo) para obter legitimidade instantânea num debate. Não é um argumento e, pior do que isso, o seu uso elucida sobre a ausência de argumentos. É, tão-somente, uma diabolização do adversário. Não há dúvidas que Salazar vive – a esquerda não o deixa morrer. E não pensem que vive apenas na extrema-esquerda, cuja irresponsabilidade não surpreende ninguém. Vive, e cada vez mais, na esquerda que se quer responsável, séria, credível, académica. Como aqui se vê. Depois não se queixem que o nível do debate é baixo.

Março 5, 2013

Enterrar o futuro (na educação)

Filed under: Diversos — Alexandre Homem Cristo @ 14:57

A petição “defender o futuro” dará entrada hoje na Assembleia da República, segundo dizem as notícias. Conheço muitos dos peticionários, alguns dos quais colegas no extinto Cachimbo de Magritte. Não concordo com o que defendem, que de resto me parece evidente estar associado a uma visão da sociedade vista a partir da doutrina social da Igreja. Algo que não partilho. Defendo, aliás, alguma da legislação que pretendem revogar ou alterar (como o casamento entre pessoas do mesmo sexo). E, tendo em conta o contexto social, financeiro e económico do país, é difícil de acreditar que a petição tenha sido lançada com reais expectativas de lançar o debate e que, de facto, se possa voltar atrás nas várias “causas fracturantes” que aponta. Mas isso é problema dos signatários.

O que já não é só problema dos signatários é a misteriosa inclusão da “liberdade de escolha” (na sua relação com os contratos de associação) na lista dessas causas. Alguém percebe o que tem o aborto, o divórcio e o casamento entre pessoas do mesmo sexo a ver com o financiamento das escolas com contrato de associação? Na teoria, pelo menos, não tem nada a ver. Mas na cabeça dos signatários, a relação existe. Provavelmente, será até evidente. Mas será sempre um equívoco.

Promover a “liberdade de escolha” na educação é muito mais do que financiar escolas privadas. Limitá-la a isso é desrespeitar os seus princípios. E, muito pior do que isso, associá-la a uma petição de matriz conservadora e católica é dar alimento aos fortíssimos preconceitos (da esquerda em particular e da sociedade em geral), que acredita tratar-se de uma medida política para favorecer os mais favorecidos. Quando, na verdade, o seu objectivo é precisamente o inverso (dar ferramentas de escolha a quem, por motivos financeiros, não as tem). Do ponto de vista do debate, e sobre isso que ninguém tenha dúvidas, isto trata-se de um significativo retrocesso.

Março 4, 2013

A matriz socialista

Filed under: Diversos — Alexandre Homem Cristo @ 20:12

Há algo que, com o adensar dos efeitos da crise económica, cada vez mais tem sobressaído. A matriz socialista, que define a nossa economia e nos conduziu a três pedidos de resgate financeiro, fortaleceu-se. Continua onde sempre esteve. Está nos partidos, nas alegadas soluções apresentadas pelo PS (que apenas serviriam para aumentar o défice), nas propostas do PCP (que vive no registo bélico da Guerra Fria), nos motes dos manifestantes (“queremos a nossa vida de volta”), nas soluções simples do “que se lixe”, nos discursos das elites (mesmo nas ditas liberais), e na carga fiscal que os Governos impõem para acertar contas que nunca ficam certas. Mas, para além disso, a actual insatisfação com o presente tem-na alimentado, promovendo uma nostalgia pelo passado recente. De todas as mudanças que o país precisava, esta de ultrapassar a matriz socialista era a mais importante – seria o pilar de suporte para a implementação de muitas das reformas que o país precisa e aguarda. Tudo indica que, tão cedo, não sucederá.

Fevereiro 26, 2013

Liberdade de educação (2)

Filed under: Educação — Alexandre Homem Cristo @ 18:14

Concordando inteiramente com o que escreveu o Rodrigo, deixo somente uma curta nota. A relação entre a formação no ensino superior e a sua “utilidade para a economia” é complexa. O Estado tem de ter essa relação em conta, quando organiza a sua rede de oferta no ensino superior – é inevitável que assim seja – mas sempre sem ameaçar a liberdade de escolha dos que querem estudar. Mas há um ponto importante que não se pode esquecer: à liberdade de escolha não basta a diversidade de oferta, é necessária também informação sobre essa oferta. Ou seja, é preciso que os jovens tenham acesso a informação que lhes permita escolhas conscientes.

Um dos problemas que temos hoje é o das expectativas frustradas: muitos jovens licenciados desempregados achavam que bastava ter um canudo para entrar no mercado de trabalho. Não é assim. E como não é assim, o principal papel do Estado deve ser o de informar os candidatos ao ensino superior sobre o que existe em cada universidade, e sobre as taxas de empregabilidade dos cursos, entre outros factores sobre a qualidade desses cursos. Para que os jovens saibam quando escolhem um curso com pouca empregabilidade. E para que o façam conscientemente, exercendo a sua liberdade de escolha.

Como pôr Portugal a crescer?

Filed under: Diversos — Alexandre Homem Cristo @ 12:24

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Fevereiro 17, 2013

Under the Moonspell

Filed under: Insurgentes nos media — Alexandre Homem Cristo @ 13:10

wolfheart

Nasceram, em 1992, na Brandoa e num Portugal que já não existe. O país era, nessa altura, um cemitério de projectos musicais e o heavy metal não constava sequer no mapa. Era irrealista alimentar qualquer expectativa de sucesso. Pelo menos, em Portugal. Mas não era assim no Centro e Norte da Europa, para onde a ambição os levou. Assinaram por uma pequena editora francesa e, depois, pela importante editora alemã com que lançaram o seu primeiro longa duração, “Wolfheart” (1995). Não foi fácil. O seu estilo inovador estava longe de ser consensual. A editora teve dúvidas quanto à qualidade do disco. E o prestigiado produtor que com eles trabalhou, envergonhado pelo resultado final, recusou-se a assiná-lo. Mesmo assim, o disco saiu. E o seu impacto na cena internacional foi tremendo. Recordes de vendas foram batidos e dezenas de concertos agendados. O mundo ficou atento e aguardava pela confirmação do inesperado talento. Pouco depois, “Irreligious” (1996), o seu segundo disco, consagrou-os. Era oficial: afinal, os líderes do heavy metal gótico não estavam na gélida Escandinávia. Estavam no Sul, em Portugal.

Os anos passaram e os Moonspell somam já vinte em actividade. É muito tempo. São vários os casamentos, as amizades ou as carreiras que não resistem a tamanha prova. E são ainda mais as bandas que não lhe sobrevivem. Mas eles resistiram. Os parabéns são merecidos. Mais importante, merecido é também o nosso reconhecimento.

Até recentemente, Portugal lidou mal – ou, no melhor dos casos, com indiferença – com o sucesso internacional dos Moonspell. O que, sejamos sinceros, não é propriamente surpreendente. Foram postos de parte das celebrações anuais da música portuguesa. Foram, no geral, esquecidos. E, mais tarde, em 2006, lembrados graças a uma polémica lançada por um rapper português e muito apoiada por artistas nacionais. Então, foram acusados de cantar em inglês por motivos financeiros, atraiçoando a sua herança cultural. A situação realça aquela que é a mais curiosa e interessante característica da sua biografia: um amor incondicional por Portugal que raramente foi correspondido. A portugalidade foi, desde a primeira hora, o que os definiu. É esse elemento comum a todas as suas obras que, apesar das mudanças no estilo musical, garante coerência ao seu percurso. Está nas letras, nas referências literárias, nos versos cantados em português, na parceria com José Luís Peixoto, na homenagem aos Madredeus ou na própria definição do seu estilo (lusitanian metal). É, portanto, de uma grande ironia que tenham chegado a Moscovo antes do que a Évora. Tal como é, também, revelador da singularidade das nossas gentes que resistíssemos a orgulharmo-nos das suas conquistas.

Mesmo que tarde, o justo reconhecimento chegou. O sétimo disco, “Memorial” (2006), alcançou o lugar cimeiro do top de vendas, em Portugal. Foi disco de ouro e, com o feito, a banda recebeu a adequada exposição mediática. Foi o início da reconciliação, que culminou na homenagem, em 2010, dos CTT. Ao lado de grandes discos do rock português, o “Wolfheart” foi imortalizado em selo. O amor era, finalmente, correspondido.

Hoje, vinte anos após o início, gostando ou não da sua música, todos conhecem os Moonspell. Conquistaram o mundo nuns rápidos dois anos, e Portugal nuns longos vinte. E é essa última conquista que os confirma como nossos embaixadores.

[publicado no i]

Fevereiro 6, 2013

Trabalhar mais horas do que um alemão para produzir apenas metade

Filed under: Diversos — Alexandre Homem Cristo @ 15:00

dgaep_ produtividade

“(…) o número de horas trabalhadas é apenas uma variável em todo o processo produtivo e somente a articulação saudável entre as variáveis de produção (qualificações, horas trabalhadas, motivação, identificação pessoal com os objetivos organizacionais, adequação das Tecnologias de Informação e Comunicação aos conteúdos e postos de trabalho, etc….) e os modelos de organização do trabalho existentes poderá determinar melhorias na produtividade.”

DGAEP, 2013, O modelo de organização e duração do tempo de trabalho na administração pública (Análise comparada dos 27 Estados-membros da UE)

Refundar a educação: os recursos humanos

Filed under: Educação,Insurgentes nos media — Alexandre Homem Cristo @ 11:32

A máquina estatal da Educação é gigante. Representa sensivelmente metade da administração pública. O facto não é novidade para ninguém. Nem sequer para o FMI. Mas, apesar disso, nem todos os que a lideraram tentaram atenuar o problema. Com Maria de Lurdes Rodrigues, a máquina até engordou. Entre Dezembro de 2005 e de 2009, o número de empregados da administração central na Educação e na Ciência aumentou levemente, atingindo cerca de 243 mil (cf. BOEP 3/2010). Só com Nuno Crato emagreceu significativamente. Passou de 236 mil (Dezembro 2011) para 213 mil (Setembro 2012), diminuindo em 10%. Destes, 121 mil, mais de metade, são professores do ensino básico e secundário (cf. SIEP 3º trimestre/2012). Não há sector que tenha maior peso na administração central do que a Educação. E não há grupo profissional que tenha maior representação no Estado do que os professores. O gigantismo é evidente. Mas, sendo certo que são muitos, a dúvida permanece: serão demasiados?

O FMI diz que sim. A OCDE também. No ensino básico, Portugal é o 3º pior em termos de número de alunos por professor (10,9), muito longe da média da OCDE (15,8) e da UE21 (14,3). Os dados são referentes a 2010 (OCDE, Education at a Glance 2012, p. 451), pelo que é provável que, com a diminuição do número de professores, o rácio tenha melhorado ligeiramente. Contudo, com a crise demográfica do país, espera-se uma quebra, nos próximos 15 anos, de cerca de 10% dos alunos, pelo que o desequilíbrio não se resolverá com pequenos ajustamentos. Então, o que fazer?

A proposta que está na mesa, (im)posta pelo FMI, é o de dispensar até 50 mil empregados da máquina da educação. É, no entanto, mais simples escrevê-lo do que fazê-lo. Porque se trata de mais de um quinto dos empregados do sector na administração central. E porque há que esclarecer quem decide os eleitos para ficar e para sair, ou qual o critério a aplicar. Assim, enfrentar a questão obriga a uma dupla abordagem.

A primeira, de curto prazo, para garantir um ajustamento imediato quanto às remunerações. Isto significa, nomeadamente, acabar com o privilégio da redução da componente lectiva, que faz com que os mais experientes e melhor pagos trabalhem menos – o que impõe a contratação de mais professores. Mas tal ajustamento significa, também, um regime de mobilidade especial mais eficaz, que permita diminuir progressivamente os encargos com os funcionários ou professores que, não tendo funções, permanecem vinculados ao Estado. São duas mudanças difíceis. Mas ambas são urgentes e necessárias.

A segunda abordagem, de longo prazo, deve garantir a sustentabilidade do sistema educativo. A análise das comparações internacionais acima não pode esquecer que, por detrás do rácio de cada país, está um sistema educativo próprio, com necessidades de recursos humanos específicas. E, no caso português, é uma ilusão achar que um sistema de ensino obeso e criado na dependência do Estado pode funcionar tão bem com apenas metade das pessoas. Por isso, uma redução sustentável dos recursos humanos na Educação obriga a reformar o próprio sistema educativo. Descentralizar é uma inevitabilidade.

O diagnóstico está feito: a máquina da educação tem de ser reduzida. As opções são muitas, mas também o são os riscos. E certezas, só há uma: sem mexer no sistema, a refundação só servirá para que tudo fique como está.

 

[publicado no "i", este é o terceiro e último texto da mini série sobre a "refundação" na educação. Leitura complementar: "Refundar a educação: o financiamento" e "Refundar a educação: privados na rede pública".]

Janeiro 29, 2013

Europa

Filed under: Diversos — Alexandre Homem Cristo @ 12:49

Um grupo de intelectuais redigiu uma carta aberta aos líderes europeus. “Europa ou caos”. A inconsequência não deverá surpreender quem já se habituou a que se produzam manifestos por todos os motivos. Mas há neste algo de inovador: a ausência total de sustentação das suas posições. A defesa de um federalismo europeu aparece como a (única) solução para uma crise que é, em muitos aspectos, europeia. Como se faria e quais as vantagens? E porquê o fatalismo, entre o federalismo e a morte do projecto europeu? Não se sabe. É assim e pronto. Vamos mesmo ter de acreditar na palavra deles. E é assim que estes intelectuais permanecem fiéis à pior das tradições europeias: a arrogância dos argumentos de autoridade.

Janeiro 28, 2013

Refundar a educação: privados na rede pública

Filed under: Educação,Insurgentes nos media — Alexandre Homem Cristo @ 13:41

Sempre que se discutem reformas na educação, o fantasma da privatização reaparece. Todos discutem a possibilidade e, para um lado ou para o outro, todos mistificam as suas consequências. Os factos ficam à porta e o debate mantém-se inconsequente. Só que, desta vez, recuperado pelo relatório do FMI e com a “refundação” como horizonte, um debate sério terá mesmo de ser feito. O que está em causa? Aumentar (ou não) a presença de privados na rede pública. Isto é, está em causa aprofundar (ou não) o conceito já existente de escolas com contrato de associação.

A questão está longe de ser pacífica. De um lado, a esquerda não tem dúvidas em diabolizar a possibilidade, prometendo que, com ela, viria a destruição da escola pública. Do outro lado, a direita acredita que, por si só, a entrada de privados na rede pública resultaria em melhorias transversais no sistema educativo. Ambas estão enganadas. Fica, portanto, a dúvida: que reforma pode ser feita neste sentido?

Qualquer que seja a opção, ela terá de passar por aqui: é necessário fazer evoluir o próprio conceito de contrato de associação. O actual está caducado. Deixou de fazer sentido restringir a existência de contratos de associação ao critério do alcance geográfico das escolas públicas do Estado. Até porque, em muitas zonas do país, a duplicação de oferta (Estado e contrato de associação) é uma realidade. A incoerência tem de ser resolvida. É que, por cá, os contratos de associação ainda visam substituir o Estado onde ele não chega, enquanto lá fora visam promover a diversidade de oferta educativa. A diferença é total. E o caminho que nos separa das boas práticas internacionais (de coexistência, na rede pública, de escolas estatais e privadas) deve ser percorrido. A adopção da proposta do FMI, de aumentar o número de contratos de associação, só terá hipóteses de sucesso se o fizermos.

O desafio é grande. Por isso, é imperativo que, desde logo, fiquem claros os motivos e as ambições da reforma. É para cortar na despesa pública? É para diversificar a oferta educativa? Ou é para melhorar os resultados escolares? Olhando para o debate público, a defesa deste tipo de reforma vem, habitualmente, acompanhada destas três promessas. Contudo, a análise de vários casos internacionais revela-nos que estas nem sempre se concretizaram. Tudo depende das escolhas e do enquadramento legal. Em particular, do modelo de contrato entre o Estado e as escolas, onde reside o maior dos desafios.

Seja qual for a ambição da reforma, o modelo de contrato com as escolas teria de ser revisto. Se, por um lado, lhes concederia mais autonomia, por outro sobre elas imporia mais responsabilidade (por exemplo, através de um conjunto de objectivos a cumprir durante a vigência do contrato). Se, por um lado, essas escolas seriam financiadas para a prestação de serviço público, por outro só seriam elegíveis os projectos educativos que, de facto, oferecessem garantias de sucesso. Se, por um lado, se promoveria a diversificação da oferta educativa, por outro ter-se-ia de garantir que, em caso algum, essas escolas seleccionariam os seus alunos. A liberdade educativa das escolas seria máxima, mas também o seria a sua responsabilidade.

Aceitar a proposta do FMI obriga a grandes mudanças. Só com elas a proposta se tornaria interessante. Reconheçamo-lo: a poupança directa seria muito inferior à estimada no relatório. Mas, em qualidade e diversidade, os benefícios poderiam ser muito significativos. Bastaria que fosse essa a ambição. E é isso o que se espera da “refundação” do Estado.

[publicado hoje no i]

Janeiro 22, 2013

Públicos que são privados

Filed under: Diversos — Alexandre Homem Cristo @ 11:25

adse

(hoje no DN, título da notícia da página 4 que faz a capa do diário)

A ADSE é um sistema injusto porque discrimina os portugueses entre funcionários do Estado e todos os outros? E, para além de injusto, implica um grande esforço financeiro ao Estado, sendo que a sua extinção permitiria poupança na despesa pública? E, em vez de extinguir, seria possível generalizar a ADSE, extinguindo apenas a sua exclusividade para funcionários públicos, dando assim liberdade de escolha na saúde aos portugueses?

O debate podia (e devia) ser esse. Mas não. Será dominado, como sempre é, pelo preconceito contra os privados que prestam serviço público. Na Saúde, e já agora na Educação, o problema dos privados que prestam serviço público é que se confunde sempre a sua natureza (privada) com o serviço que prestam (público). E, claro, o financiamento público que recebem para a prestação desse serviço com lucros. 270 milhões de euros transferidos para privados? Blasfémia. Acabe-se, então, com a coisa.

Janeiro 21, 2013

Refundar a educação: o financiamento

Filed under: Educação,Insurgentes nos media — Alexandre Homem Cristo @ 12:24

school funding

A reforma do Estado está na agenda mediática. Todos falam dela. Mas ninguém a discute. Mais de uma semana após a publicação do relatório do FMI, todo o enfoque foi colocado nas suas deficiências. Quis-se enterrar o documento e, com ele, o debate. Mas este tem de ser feito. A realidade não espera. E, no sector da Educação, a urgência é clara. Afinal, grande parte do nosso futuro colectivo depende da qualidade do sistema educativo. Assim, entre o que propõe o FMI e o que o país realmente precisa, que reformas implementar? A mais estrutural das propostas, e talvez a mais interessante, é a revisão do modelo de financiamento das escolas públicas (do Estado e com contrato de associação). Comecemos por aí.

É sabido que o actual sistema de financiamento promove grandes disparidades nos gastos por aluno/turma. Ou seja, para prestar um mesmo serviço educativo, há escolas que recebem mais dinheiro do que outras. O facto foi confirmado e descrito pelo Tribunal de Contas (relatório 31/2012). Várias razões legítimas o justificam, mas juntas não conseguem explicar tudo. É que uma outra, ilegítima, existe: há escolas públicas que gerem mal os fundos e que, para suprir as suas necessidades, obtêm financiamento público a mais. Isso tem de acabar.

Como fazê-lo? A resposta é simples: crie-se uma fórmula de financiamento igual para todas as escolas públicas (do Estado e com contrato de associação). E, para garantir um financiamento justo, use-se como factor principal o número de alunos matriculados em cada escola, introduzindo outros factores para ponderação (o número de alunos com necessidades especiais ou as diferenças regionais nos custos, por exemplo). O mais difícil já foi feito. Com os estudos sobre o custo por aluno, do Tribunal de Contas e do próprio Ministério, determinar um valor de referência por aluno/turma é possível. E se os dados dos estudos são válidos para renegociar os contratos de associação, também o são, por definição, para calcular o financiamento das escolas públicas do Estado.

Sabendo que é exequível, importa sublinhar quatro vantagens imediatas desta reforma. Em primeiro lugar, traria mais eficiência à distribuição dos fundos públicos. E tornaria mais transparente a gestão orçamental da Educação, garantindo que um mesmo serviço educativo é financiado de igual modo. Em segundo lugar, não afectaria a comunidade escolar (alunos e professores), na medida em que não interfere com a oferta educativa. Em terceiro lugar, resultaria numa poupança directa de milhões de euros. Embora a estimativa do FMI (580 milhões de euros) parta de dados desactualizados (referentes a 2009/2010) e esteja, por isso, completamente inflacionada, é expectável que a poupança directa seja, mesmo assim, muito significativa. Por fim, esta reforma aprofundaria a autonomia das escolas quanto à sua gestão financeira. Assim, para além de gerir todo o seu financiamento sem interferência da tutela, as escolas poderiam obter, através de parcerias, fontes de financiamento privado. Estas possibilitariam diversificar a sua oferta educativa e, ao mesmo tempo, diminuir a sua dependência no financiamento público.

O modelo e as suas vantagens são claros. A sua implementação permitiria mais eficiência, mais poupança, mais autonomia e maior independência das escolas face ao Estado. Há reformas que, poupando muito, pouco ou nada mudam. E depois há reformas que, mesmo poupando menos, fazem a diferença e ajudam a construir o futuro. São estas últimas que se espera de uma refundação do Estado.

[publicado hoje no i]

 

Janeiro 17, 2013

Despesa pública na educação

Filed under: Educação — Alexandre Homem Cristo @ 12:05

pisa

Este gráfico (retirado daqui) é interessante, mas dificilmente levaria a concluir que ainda existe uma grande margem para redução de custos no sector da educação, como sugere o estudo de onde foi retirado. Em primeiro lugar, porque a informação está desactualizada (os dados são de 2009), e desde então muito mudou em Portugal, com uma significativa redução de custos no sector da educação. Em segundo lugar, e mais importante para o debate, o gráfico acima apenas tem em conta a despesa pública, deixando de lado a despesa privada. Em Portugal, é o Estado que assegura quase a totalidade dos custos, coisa que não acontece no mesmo grau na maioria dos países europeus.

Se olharmos para o gráfico abaixo, sobre o financiamento aos estabelecimentos de ensino básico e secundário, fica claro o ponto: 99,5% é financiamento público. A média da OCDE é 91%, e há importantes países europeus onde é bastante menos – UK (79%), Holanda (87%) e Alemanha (87,5%), por exemplo.

despesa pública no total da despesa

Então, o que é que estes dois gráficos nos dizem? (1) Que o sector da educação é, em Portugal, excessivamente dependente do Estado. (2) Que o corte na despesa pública em educação deve ter isso em conta. Ou seja, o sistema educativo foi construído para ser dependente do Estado, pelo que cortar sucessivamente na despesa pública do sector sem o libertar dessa dependência poderá, eventualmente, colocar o seu funcionamento em risco. Bottomline, refundar a educação nesta fase (após os cortes que já foram feitos) deve passar por mudanças estruturais no funcionamento do sistema educativo (autonomia, regras de financiamento, etc.).

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