Caro Pedro Pedro Passos Coelho,
Ouvi com atenção o companheiro dizer que estar desempregado é mau mas que, como em qualquer crise, há perigo mas também há oportunidade. Se bem que concorde com a frase em teoria, na prática acho que o risco de má interpretação por parte de uma pessoa mal preparada e com falta de visão.
Li outro dia que os chineses não têm um caractere para crise. Na sua escrita, onde os sinais representam ideias em vez de letras, uma situação de crise é representada por dois símbolos: um representa oportunidade e outro perigo.
Foi com certeza com base nisto que o senhor se exprimiu publicamente e, deixe-me que lhe diga, teoricamente, faz todo o sentido. Uma economia com baixa produtividade precisa de empreendedores não de funcionários.
Vi também um estudo recente onde se refere que os recém licenciados portugueses preferem ter um emprego a empreender um negócio. Se a estes somarmos todos os outros desempregados da nossa sociedade o problema fica ainda mais sério pois não há empregos na nossa economia.
Temos pois que empreender. Ter ideias que se transformem em dinheiro e consequentemente em empregos. Mas meu caro Pedro Passos Coelho, é precisamente aqui que pessoas com falta de cultura económica começam a perder o fio à meada.
Durante gerações, talvez mesmo desde sempre, a escola estatal portuguesa privilegiou precisamente o contrário disto mesmo. A criatividade (processo de germinação das ideias) nunca foi uma coisa muito valorizada no processo educativo. Sempre fomos mais do género enciclopédico. Um marrão com boas notas sempre foi o arquétipo do rapaz com quem gostaríamos de casar a nossa filha. Que deus nos livrasse de um empreendedor cujo futuro fosse incerto!
Em Portugal, 80 por cento das pessoas trabalha por conta de outrem. Nos Estados Unidos, apenas 30. Além disso, em Portugal, o Índice de Aversão à Incerteza é de 104. E a extrema esquerda, que nada percebe de empreendedorismo, recebe votações na ordem dos 15 a 20%. Se o modelo a seguir é o de uma sociedade empreendedora, estes números, caro Pedro Passos Coelho, não o podem deixar indiferente. Pois é consigo que todos contamos para inverter esta situação. Este é o único caminho: a nossa oportunidade é a educação cívica para uma mudança de paradigma cultural.
É por isto que digo que agora não pode parar. Compreender estes assuntos à 1ª é apenas para quem sabe, e pode, ter tempo para pensar. E esse não é o perfil dos desempregados portugueses.Os nossos jovens licenciados têm, desde o 25 de Abril, um ensino desajustado às necessidades do país e, entre a nossa população activa, menos de 30 por cento das pessoas concluiu o ensino secundário. Bem vê como é importante focar no empreendedorismo e na desburocratização para permitir a abertura fácil de empresas. Nem todos são Valdires!
Negócio é uma palavra com origem latina – “negotio” – que quer dizer, como o próprio nome indica, negação do ócio. É sempre da acção que gere Valor que vem o dinheiro.
O problema é que na nossa cultura ninguém nos ensina a pensar assim: escola, televisão, políticos… E é por isso que agradeço as suas palavras e lhe peço para insistir no tema.
Referência: Original no Aventar (que na minha terra – Minho – se lê “Avental”, mas essa palavra geralmente refere-se a outro grupo supostamente muito diferente).