O Insurgente

Julho 20, 2009

obrigado

Filed under: Diversos — rui a. @ 13:07

Cesso hoje a minha colaboração n’ O Insurgente, onde tenho escrito, de forma muito irregular e inconstante, desde Fevereiro de 2008. A decisão é inteiramente individual, e não resulta de qualquer condicionamento que me tenha sido imposto, ou limitação ou crítica que tivesse eventualmente sentido, o que nunca aconteceu em momento algum. Sucede que O Insurgente já existia muito antes de eu aqui ter iniciado a minha colaboração, e que nele se juntam pessoas que, por razões diversas, podem sentir-se menos confortáveis com opiniões que tenho publicado, nas últimas semanas, sobre o PSD, as suas principais figuras e a direita portuguesa em geral. Entendo, assim, que não tenho o direito e não as devo constranger, num espaço de que não sou proprietário, e para o qual fui generosamente convidado a escrever. Resta-me agradecer a todos, em particular ao André Azevedo Alves, que, com talento e inequívoco espírito liberal, fez deste blog uma referência nacional, pela oportunidade que me deram, e aos (certamente poucos) leitores que, ao longo deste tempo, me foram prestando alguma atenção, e a quem senti ser devida esta explicação. Obrigado a todos e continuação do êxito que têm tido até agora.

Julho 19, 2009

silêncio, por favor

Filed under: Diversos — rui a. @ 07:08

Até ao dia 27 de Setembro próximo, a direita portuguesa é intocável. Não se pode criticar, não se pode censurar. Não se pode sequer perguntar o que nos pretende ela fazer, após essa data, com o nosso voto, caso e se vier a conquistar o poder. Expulsar o eng.º do governo é uma missão patriótica e quem se lhe “opuser” comete crime de lesa-pátria. Até 27 de Setembro, despojar o eng.º do poder é o verdadeiro programa do PSD. Depois daí, se o partido ganhar as eleições e formar governo, com ou sem o CDS a tiracolo, logo se verá. Faça-se silêncio pois, e não se perturbem as eminências que, na S. Caetano à Lapa e um pouco por esse país rural fora, têm sobre os seus ombros tão pesada e transcendente responsabilidade.

Julho 18, 2009

em busca da verdade

Filed under: Diversos — rui a. @ 13:19

JosePedroAguiarBranco

José Pedro Aguiar Branco, o 5º deputado mais faltoso da actual legislatura, será o cabeça de lista do PSD, pelo Porto, às próximas legislativas. O PSD em busca da verdade.

Julho 16, 2009

o liberalismo é de esquerda?

Filed under: Diversos — rui a. @ 20:07

Gladstone%20&%20Disraeli

A Inglaterra política do século XIX é inteiramente dominada por duas figuras ímpares: William Ewart Gladstone e Benjamin Disraeli. Ambos nascidos para a política no seio do Partido Conservador, os tories, haveriam de romper politicamente em 1855, quando Gladstone abandonou aquele partido para ingressar no Partido Liberal, os whigs, do qual se tornaria líder, mais tarde. A razão da desavença foi pessoal e de princípios. Gladstone não suportava Disraeli e este retribuía-lhe igual estima chamando-lhe frequentemente “Tartufo”. Numa carta endereçada a Lord Derby, Disraeli escreveu:”A posteridade fará justiça a Mr. Gladstone, esse maníaco sem princípios, a essa extraordinária mistura de inveja, vingança, hipocrisia e superstição”. Nos princípios, Gladstone era liberal, enquanto Disraeli era conservador e proteccionista.

William Gladstone foi primeiro-ministro por quatro vezes, entre 1868 e 1894. Disraeli foi-o também, mas apenas por duas vezes, entre 1868 e 1880. Um e outro exerceram os mais elevados cargos políticos do seu tempo, o primeiro como torie e, mais tarde, enquanto whig, e o segundo mantendo-se como membro do Partido Conservador, que conquistou a pulso e graças a inúmeras dissensões e rupturas internas.

Enquanto Ministro das Finanças, cargo que exerceu por quatro vezes, e Primeiro-Ministro, Gladstone aboliu mais de mil tarifas existentes no Reino Unido, que representavam cerca de 95% da totalidade desses encargos. Reduziu os impostos sobre a renda a uma quota única de 1,25%, sendo que tinha por objectivo eliminá-lo completamente. Liberalizou o comércio, reduziu as tarifas alfandegárias, liberalizou as relações comerciais com a França, o velho inimigo, e também com a Áustria, a Bélgica e os estados alemães. Extinguiu ou reduziu toda a espécie de impostos e tarifas que conseguiu (imposto de renda, como já referido, as taxas sobre o papel, o lúpulo, a madeira, a pimenta, o açúcar, o vinho, entre muitos outros). Em política internacional, Gladstone era um pacifista nato, tendo advogado a arbitragem internacional para a resolução de conflitos, no que foi absolutamente inovador e também muito contestado internamente, no seu país. Em matéria de costumes e de religião, Gladstone era um crente profundo, achava-se predestinado pelo Altíssimo (“O Todo-Poderoso parece estar a poupar-me e a apoiar-me em vista de algum grande propósito, por mais que eu me julgue indigno. Glória a seu nome”, escreveu ele, um dia, no seu diário, a propósito das suas intenções pacificadoras da Irlanda). A quem o queria ouvir costumava afirmar: “Ah! A noção do pecado, eis a grande carência da vida moderna”.

Benjamin Disraeli era um político profundamente distinto do seu rival. Proteccionista, aumentou impostos, atacou a legislação liberalizadora do comércio internacional, legalizou e protegeu os sindicatos, criou diversa legislação laboral, tendo fixado a duração diária do período de trabalho, regulamentado o trabalho feminino e infantil, e produziu inúmera legislação de proteccionismo social. Na política externa, era um expansionista defensor do Império Britânico, e tudo fez para o manter e aumentar a sua área de influência, sobretudo em África e na Ásia. Não era um homem de convicções religiosas profundas, nem lhes recorria para fundamentar as suas ideias políticas.

Gladstone e Disraeli são, assim, dois modelos paradigmáticos do liberalismo clássico, o primeiro, e do conservadorismo, o segundo. Gladstone reduziu o poder do estado e do governo, deu mais liberdade e responsabilidade individual aos ingleses, foi um cosmopolita no domínio das relações internacionais. Disraeli tinha da sociedade a noção conservadora de que tudo nasce na política, e que esta deve ser protagonizada por um estado robusto e interventor. Gladstone procurou conservar o liberalismo clássico e o estado mínimo que tinham permitido a Revolução Industrial, e Disraeli foi um profeta e o primeiro construtor do Estado Social inglês.

Nesta medida, cabe aqui perguntar, invocando as afirmações contidas no artigo de hoje, no i (O liberalismo é de esquerda), do Prof. João Cardoso Rosas, se o liberalismo clássico de Gladstone se situava, utilizando os critérios que utilizou, mais à esquerda ou à direita, colocando a mesma questão para o conservadorismo de Disraeli. Quando Cardoso Rosas escreve que Durante o século 19, antes do triunfo do socialismo, ser de esquerda ou ser liberal era a mesma coisa”, estaria a pensar nos whigs e nos tories de Gladstone e Disraeli? Parece-me bem que não.

os silogismos do professor rosas

Filed under: Diversos — rui a. @ 05:48

Surpreende-nos, mais uma vez, o Prof. Cardoso Rosas. Neste artigo estabelece o seguinte silogismo: a direita portuguesa é conservadora; a direita portuguesa não é liberal; logo, o liberalismo é de esquerda. O liberalismo do Prof. Rosas fica-se por John Stuart Mill, segundo ele o “liberal” do “século 19″, John Rawls, o “liberal” do “século 20″, e esse grande doutrinador com vasta obra publicada que responde pelo nome de Barack Obama, provavelmente o maior liberal do século XXI, digo eu. Enquadramento rigoroso e exacto para um especialista em Teoria Política, como se vê.

Julho 9, 2009

não mais do que isto

Filed under: Diversos — rui a. @ 19:52

president-ronald-reagan1

Ninguém tem a ilusão ou ingenuidade de conceber um Partido Social Democrata liberal. Tão pouco imaginar que é possível, em Portugal, um governo verdadeiramente liberalizador da sociedade, da economia e da política em geral. O liberalismo, como reiteradamente tem sido dito e escrito, não é um programa de governo e não serve de ideário partidário. É mais uma pedagogia social do que política. Serve mais para tornar os cidadãos conscientes dos seus direitos perante a política e o estado do que para operar o milagre do estado e do governo lhos reconhecerem unilateralmente.

Posto isto, entre o socialismo e a economia de mercado existe um espaço muito razoável. Aquilo em que temos vivido é, de há trinta anos para cá, socialismo mais ou menos soft, mais ou menos hard, conforme quem governa e as circunstâncias da época. O que se esperaria, neste momento, do PSD não era a sua transformação num partido defensor de um estado mínimo, tão pouco um feroz inimigo do estado. Mas também não era de esperar que viesse dizer que o estado actual é para manter, com diferenças de pura metodologia governativa.

Mesmo para um partido social-democrata é possível reduzir os impostos, aumentar a participação da sociedade na vida civil, devolver a esta funções que abusivamente o estado lhe foi retirando ou impondo, como a educação e a segurança social, privatizar mostrengos e prostíbulos do regime como a CGD ou a RTP, limitar os abusos do poder, tornar clara e eficaz a justiça, simplificar as leis, impor responsabilidade ao estado e aos seus agentes na relação com os cidadãos, diminuir a capacidade de ingerência dos poderes públicos na vida privada, revogar leis iníquas, fazer findar os métodos medievais de obter “justiça”, como as listas de “criminosos”, etc.

Estranhamente, sobre tudo isto o PSD não se tem pronunciado. E não é necessário produzir um tratado político de governação para dizer a um país o que se pretende fazer destas coisas. Reagan reformou e relançou a América e foi sempre um homem de ideias simples e lineares. E muito claras, acima de tudo. Até ao momento, sabemos duas coisas do PSD de Manuela Ferreira Leite: que se identifica com o Estado Social descrito (mas não cumprido) pelo governo socialista; que não descerá os impostos, porque não lhe será possível fazê-lo. Estamos, assim, em regime de puro rotativismo do bloco central, onde tudo se conserva, nada se transforma e onde as coisas devem permanecer como são, por não haver espaço para outras. O PSD poderá servir para desalojar Sócrates e os seus do governo. Para criar o tradicional estado de graça e a ilusão de que tudo será melhor, por um ano ou dois. Mas não mais do que isto.

pode deixar na gaveta

Filed under: Diversos — rui a. @ 15:37

gaveta

Manuela Ferreira Leite anunciou que, ao invés do que dissera há alguns dias, afinal não pretende “rasgar” nenhuma política social do actual governo, com as quais, aliás, concorda, apenas lamentando que elas não tenham ido mais longe, isto é, que não tenham tido “execução prática” na maior parte dos casos. Por outras palavras, a líder do PSD confirmou o que só um cego ainda não tinha visto: que ela é uma acérrima defensora do Estado Social, que quer manter e aprofundar, gerindo-o, se possível, melhor do que o Partido Socialista. Desenganem-se, pois, os que mantiveram a ilusão de que dali poderia resultar um programa de governo liberalizador ou uma visão da sociedade portuguesa diferente da que tem o Partido Socialista. Aliás, estas declarações resultam, em boa medida, da necessidade que Manuela Ferreira Leite terá sentido de se desmarcar dessas “tendências liberais”, alegadas estrategicamente pelo marketing do PS para a diminuir eleitoralmente. Manuela foi atrás do marketing socialista e confessou ao país o que lhe vai na alma. Depois disto, por mim, pode bem deixar na gaveta o programa eleitoral do PSD.

Julho 3, 2009

o pepino

Filed under: Diversos — rui a. @ 16:38

beavis_and_butthead

O Toneca era um menino muito engraçado. Precoce desde pequenino, respondão e danado para a brincadeira. Era o orgulho dos pais e o terror dos vizinhos. E da avó, cujos santinhos imaculados não tinham descanso de tantos bigodes e barbichas que lhes fazia. O Tareco, o gato do andar de cima, também não tinha sossego. Sempre que o Toneca o apanhava a jeito amarrava-lhe um extenso fio ao rabo, cheio de latas de coca-cola e outros refrigerantes gaseificados, com que o bichano corria rua abaixo num chinfrim infernal. Os pais achavam-lhe muita piada, admiravam-lhe a rebeldia e estimulavam-lhe o génio. Torceram-se a rir quando ele atirou um prato de farinha maizena à cara de um colega da escola, depois de lhe ter dito que ele tinha cara de bolacha. Que coisa engraçada! Que pilhéria! Que talento!

Um dia, o pai levou o Toneca para o emprego. A escola tinha acabado, a mãe estava a fazer as unhas na manicure, a empregada de baixa da caixa, e o rapaz não tinha onde ficar. Ficou sentado a um canto da sala onde o pai escrevia ao computador. Quando o senhor Antunes ia a passar – o Antunes era o genioso dono da empresa -, o Toneca achou-lhe graça à barrigaça protuberante, à careca avançada e ao enorme nariz avermelhado, e não esteve com meias medidas: pôs-lhe a língua de fora e fez-lhe uns corninhos com os dedos, enquanto soltava alguns horríveis e sonoros esgares. O pai ainda o correu à bofetada e ao pontapé, mas já não valeu de nada: estava a recibo verde e, no dia seguinte, já não trabalhava na empresa do impiedoso Antunes.

Moral da estória: de pequenino se torce o pepino.

Junho 29, 2009

a arrogância fatal

Filed under: Diversos — rui a. @ 15:54

Uma das mais notáveis características do pensamento socialista é a sua absoluta falta de humildade. O socialismo tem, para tudo, solução. E quando o problema é de natureza económica, a solução é sempre a mesma: o aumento da despesa pública.

Este documento subscrito por um grupo numeroso de economistas portugueses não traz, por isso, nada de novo. Apesar de nele se reclamar a urgência de “uma nova política económica e financeira”, baseada no investimento público como fonte criadora de riqueza e de emprego, cabe aqui perguntar o que andaram a fazer os governos socialistas e de orientação keynesiana nas últimas décadas.Em Portugal, por exemplo, essa estratégia foi seguida por Aníbal Cavaco Silva, um keynesiano assumido, cujos governos ficaram célebres pelas políticas do betão e dos grandes investimentos em obras públicas. Foi seguida por António Guterres, que investiu fortemente em políticas ditas sociais, tais como o rendimento mínimo, o ensino público (a “paixão pela educação”, lembram-se?), o serviço nacional de saúde, a reforma da segurança social estatal, os IC’s, etc.. Não foi abandonado por Durão Barroso, num governo que durou pouco tempo e que manteve inalterável toda a estrutura do Estado Social. E foi o programa de governo de José Sócrates, com o qual ele tentou criar cento e cinquenta mil novos postos de trabalho, que obviamente não conseguiu.

Ou será que não foi assim? Ou será que António Guterres e José Sócrates não governaram à esquerda? Ou que Cavaco Silva não fez do investimento público a marca da sua governação? Ou que o estado português não continua a consumir mais de 50% do PIB nas despesas que decide politicamente e que considera prioritárias?

Imaginar que a crise portuguesa é resultado de “especulação financeira” (em Portugal?), de “mercados mal regulados” (se falarmos do mercado português, onde tudo é regulado ao mais ínfimo pormenor, só se for certamente por excesso de regulação), ou por “escassa capacidade política” (não será seguramente do legislador português) é partir de um mundo irreal, que não corresponde àquele em que vivemos.

Há, talvez, uma passagem no documento que nos pode ajudar a perceber o equívoco, quando os seus subscritores dizem que estamos perante uma “quebra conjuntural da procura privada”. É que ela já não é “conjuntural”, mas estrutural. Por outras palavras: a economia privada está falida, as empresas e as pessoas não têm dinheiro, e, por isso, não são capazes de investir capitais que não têm, que não conseguem acumular, tornando-se consequentemente incapazes de gerar riqueza e emprego. A explicação talvez seja mais simples do que parece: é que a economia pública, na qual temos vivido nas últimas décadas, vive dos recursos gerados pela economia privada. Em si mesma não produz nada, não cria coisa nenhuma, a não ser trabalho temporário e ilusões estatísticas. Sendo os recursos económicos limitados, se o estado os vai retirar aos cidadãos e às empresas, estes ficam sem eles e vão naturalmente empobrecendo. É esse o problema da economia portuguesa: a sua quase inexistência.

Junho 28, 2009

mil e quantos?

Filed under: Diversos — rui a. @ 00:33

O PS parece estar de cabeça perdida. Fazer da criação de emprego, com números certos e redondos, uma promessa eleitoral, só pode fazer lembrar aquela outra dos cento e cinquenta mil. Convenha-se que, em vésperas de eleições e com os números do desemprego da legislatura, é memória que não convém avivar.

Junho 27, 2009

dois meses

Filed under: Diversos — rui a. @ 17:00

Cavaco Silva marcou as legislas para 27 de Setembro, antes das autárquicas, portanto. O único partido a quem a decisão não agradou foi, obviamente, o PSD, que perde a possibilidade de chegar às legislativas em crescendo, após uma quase inevitável vitória nas autárquicas, pelo menos, nas cidades mais importantes do país. O PSD tem dois meses para mostrar o que vale, já que o mês de Agosto não conta para a política. Esperemos que chegue. A ver vamos.

Junho 25, 2009

síntese

Filed under: Diversos — rui a. @ 02:18

TGV não, mas há indemnizações pesadas a pagar (quem sabe não vale mais a pena fazê-lo, digo eu), Alcochete sim, investimento público sim. Declarações de Manuela Ferreira Leite transcritas no Público.

Junho 24, 2009

o abcesso

Filed under: Diversos — rui a. @ 16:13

Pacheco Pereira inventou uma nova teoria conspirativa: quem pretende conhecer o programa eleitoral do PSD é situacionista, logo, beneficia tacticamamente o PS (com ou sem dolo, não esclarece, mas presume-se que dolosamente, como é próprio de uma conspiração decente). A demonstração, segundo o autor do Abrupto, é elementar: eles, os “situacionistas” não querem saber qual é o programa do PS.
Por mim, quanto ao programa socialista, estou mais do que esclarecido: bastaram-me os últimos quatro anos de governo e a intenção já declarada do primeiro-ministro de que o “rumo” é para manter. É preciso dizer ou pedir mais alguma coisa?

o que importa saber

Filed under: Diversos — rui a. @ 00:50

ps-psd

Eu não critico o Partido Socialista. Critico o socialismo. Eu não critico um governo socialista. Critico um povo que elege democraticamente um governo socialista. Eu não critico um partido socialista que põe em prática um programa de governo socialista. Critico um partido de direita que põe em prática um programa de governo socialista.

Sumariamente, o que o Partido Socialista fez nesta legislatura foi aplicar no governo a ideologia em que acredita e que anunciou aos eleitores. Não mentiu a ninguém, não escondeu que, se fosse para o governo, a sua preocupação seria a de salvar o Estado Social, no qual acredita piamente. Por isso aumentou os impostos, convencido que esse é o melhor meio para conseguir uma justa redistribuição da riqueza e para manter o Estado Social. Simplificou a burocracia, com o anunciado Simplex, não para a reduzir ou eliminar, mas para a tornar mais eficiente e interventora. Deu um poder nunca visto a quem colecta os tributos dos cidadãos, mesmo passando por cima e ao lado de alguns direitos individuais, por acreditar que o todo, o colectivo, vale mais do que as partes, os indivíduos. Apostou no Serviço Nacional de Saúde e no Ensino Público, embora os tenha racionalizado por imposição das necessidades. Atacou algumas corporações (magistraturas, polícias, professores, advogados), porque entende que eles devem ser submissos ao estado, em vez de defenderem os interesses dos seus associados, frequentemente colidentes com o governo, isto é, com o interesse público. Nacionalizou e intervencionou bancos, em vez de deixar as responsabilidades aos seus accionistas.

Tudo isto eu imaginava que pudesse acontecer num governo socialista. Não me espanta. O que me pareceria estranho era que sucedesse o contrário. Por isso, considero uma pura perda de tempo atacar o governo socialista do Eng.º Sócrates. O que me preocupa é o socialismo dos governos de direita, por outras palavras, que não haja, em Portugal, alternativa real ao socialismo e ao estatismo.

De facto, o que os governos dos partidos da direita do regime nos têm dito e feito é que não há alternativa ao Estado Social. Que é nele que temos que viver e que ele é a melhor forma de organizar politicamente a sociedade portuguesa. E é nele que nos têm obrigado a viver, quando passam pela governação. O que esses partidos nos dizem é que são melhores a organizar e a gerir o Estado Social. Que conseguem administrar melhor o Serviço Nacional de Saúde, a Segurança Social, as escolas, as universidades, os tribunais, a receita pública, o rendimento mínimo, as empresas públicas. Não propõem um modelo de estado e de vida societária que não seja o Estado Social. Apenas uma forma diferente de o gerir e outro pessoal supostamente mais qualificado. Portugal deve ser provavelmente a única democracia do mundo em que o poder roda entre dois grandes partidos social-democratas. Entre dois partidos que defendem o Estado Social.

Ao contrário do que se possa pensar, as críticas que aqui tenho feito ao longo dos últimos dias ao PSD não pretendem que este partido se transforme num arauto do liberalismo. Sei bem que, por definição, o liberalismo não é uma ideologia ou um programa de governo. Não existem partidos liberais, como não existem estados ou governos liberais. O que existem são sociedades mais liberais do que outras, dotadas de fortes instituições civis, conscientes da necessidade de imporem regras, limites e parâmetros à actuação do governo. A história da liberdade é a da resistência dos cidadãos e das suas comunidades aos abusos, atropelos e arbitrariedades do estado. E existem partidos e governos que contribuem mais do que outros para o reforço das suas sociedades, do tecido social, empresarial e institucional, da liberdade individual. Por vezes por acreditarem que esse é o caminho certo, na maior parte dos casos porque a pressão social a isso os obriga. Baixa tributação, privatização das funções sociais do estado, supletividade de intervenção do poder público face ao poder civil, instituições de justiça transparentes, céleres e fiscalizadas, orçamentos públicos reduzidos e controlados, regras simples e desburocratizadas para o comércio, são algumas das medidas que alguns governos não-socialistas põem em prática.

O que se trata de saber em relação ao PSD é, no fim de contas, apenas isto: continua a acreditar no Estado Social, propondo-se apenas geri-lo melhor do que o governo actual do Partido Socialista, ou pretende um modelo de estado diferente para Portugal?

Junho 22, 2009

não dá votos

Filed under: Diversos — rui a. @ 18:57

Existe uma tese francamente dominante no país politicamente letrado, segundo a qual os partidos da direita não podem assumir nenhuma forma de liberalismo, porquanto com isso perderiam votos e eleições. Na blogosfera tem sido o leitor e comentador José Barros a difundi-la mais coerentemente.

Subjaz a esta ideia uma outra. A de que o eleitorado é tendencialmente de esquerda e quer ser protegido pelo estado. Logo, um partido que prometa menos estado não tem qualquer hipótese de chegar ao governo, donde o CDS e o PSD prometem “melhor estado”, em vez de prometerem um estado menor.

Eu não nego que os factos lhe dêem razão. Não me lembro, na verdade, de nenhum governo de direita que tenha, nos últimos anos, seguido um road map liberal, tão pouco de ouvir os dirigentes desses partidos reclamarem por menos estado e por mais liberdade individual. Pelo contrário, estão permanentemente a demarcar-se do liberalismo, a afirmar que querem o estado em toda a parte, e até mesmo que Portugal não é a Califórnia da Europa (o que, a mim, me parece mal).

Ora, eu julgo que estas posições não são tácticas, mas estruturantes. Penso mesmo que a direita portuguesa não é liberal, mas sim estatista. E julgo que é por essa razão que o país não tem progredido como devia sempre que ela vai para o governo.

já agora…

Filed under: Diversos — rui a. @ 16:20

antonio_x

Uma dúvida que gostaria de ver esclarecida em tempo pré-eleitoral: o PSD e Manuela Ferreira Leite também consideram inevitável um aumento generalizado de impostos após as eleições, como António Lobo Xavier aqui declarou?

não tenciona

Filed under: Diversos — rui a. @ 15:34

“Numa coisa, seguramente, o meu programa vai distinguir-se daqueles que é costume apresentar ao País. É que não tenciono fazer nenhuma promessa que não tencione cumprir, não tenciono mentir aos portugueses”.

pirro 2

Filed under: Diversos — rui a. @ 15:31

Marcelo Rebelo de Sousa: “estratégia do PSD é coxa”.

Junho 21, 2009

pensar um pouco

Filed under: Diversos — rui a. @ 16:38

Paulo_Macedo_Impostos_DGCI_Fisco_2_m

Se olharmos para a democracia de forma meramente negativa, como um exercício de voto ciclíco que nos permite castigar e substituir quem está no exercício do poder, então, é possível aderir entusiasticamente ao PSD de Manuela Ferreira Leite, sem mais: votamos na Senhora e nos seus (que, por sinal, praticamente ignoramos quem sejam), mandamos Sócrates e os seus para casa, o mesmo é dizer para a oposição, castigando-os pelas malandrices que nos fizeram nestes quatro últimos anos, e ficamos à espera que o novo governo faça melhor.

Este exercício é legítimo, só que costuma acarretar desgostos políticos e insatisfação: passado algum tempo, está o país novamente aos berros contra o governo, como aconteceu recentemente com o de Durão Barroso e o de José Sócrates, ambos eleitos com generosas maiorias. E tem outro inconveniente: se se trata apenas de substituir o pessoal político, votando contra quem está no poder, qualquer partido da oposião serve, desde que exerça eficazmente o seu papel oposicionista e contribua para desapiar quem está no governo. Foi este mesmo raciocínio que levou muita gente a votar nas últimas eleições no Bloco de Esquerda.

Se quisermos perceber em quem estamos a votar, então é igualmente legítimo elevar um pouco a fasquia da exigência. No caso do PSD e de Manuela Ferreira Leite, devemos fazê-lo por várias ordens de razões: porque a passagem recente desse partido e dela pela governação não os tornam particularmente recomendáveis; porque esse partido tem dado e continua a dar lamentáveis espectáculos de lutas internas ao país, que nem sequer o cheiro a poder parece agora acalmar (vejam-se os últimos artigos de Pacheco Pereira ou as entrevistas de Luís Filipe Meneses); porque não existem compromissos programáticos e pessoais claros sobre o que pretende esse partido fazer se chegar ao governo.

Para aqueles que censuram o governo de Sócrates – o que, para mim, é uma desnecessidade evidente, por não ser socialista nem acreditar, um segundo que seja, no Estado Social que os socialistas defendem, mantêm e querem desenvolver – convém recordar que os tiques de autoritarismo que fundamentadamente lhe criticam, nomeadamente por ter transformado Portugal num estado fiscal sem respeito pelo cidadão, se iniciaram no governo do PSD e têm um rosto que é precisamente o de Manuela Ferreira Leite. Foi ela, aliás, que contratou e deu corda solta ao então todo poderoso Dr. Paulo Macedo, que o governo do Partido Socialista manteria em funções e deixaria placidamente continuar o seu trabalho.

Do ponto de vista de um cidadão que quer saber como vai ser governado nos próximos anos, penso que seria importante que o PSD e Manuela Ferreira Leite nos esclarecessem como querem pôr o estado e o governo a relacionar-se com os cidadãos em diversas matérias, entre elas as de natureza fiscal. Vão continuar as listas negras? Vão manter a lei da quebra de sigilo bancário sem controlo judicial? Acham saudável a relação actual existente entre o estado e os cidadãos nesta matéria, inequivocamente iniciada no Ministério das Finanças de que foi titular a actual presidente do partido?

São este género de questões comezinhas sobre as quais me pareceria importante escutar o PSD. Já não peço que produzam teorias ciclópicas sobre o estado, sobre a natureza do governo, ou sobre a relação metafísica deste com a sociedade e os indivíduos. Apenas que nos digam o que pretendem fazer a estes últimos, entre os quais, já agora, me incluo. E, aproveitando a circunstância, que o que dissessem fosse dito com seriedade, para cumprir quando chegarem ao governo, e não para meterem na gaveta, tal e qual fizeram na última vez que por lá passaram.

Junho 20, 2009

o programa excelentíssimo

Filed under: Diversos — rui a. @ 23:55

barroso

O meu amigo e companheiro de blog Rodrigo deu-me uma notícia esplêndida: o PSD está a preparar um programa eleitoral, que deve apresentar à Nação lá para os fins de Julho. Presumo que o documento seja magnífico e que venha acompanhado das melhores intenções, tal o entusiasmo com que o Rodrigo fala dele. Por mim, que não sou de leituras partido-programáticas profundas, a última vez que dediquei algum tempo a esse malfadado exercício foi exactamente com o programa do PSD, nas eleições que fizeram de Durão Barroso primeiro-ministro.

Li e não desgostei. Nessas eleições votei nesse partido, em boa medida por causa do programa apresentado. Dele retenho alguns aspectos, os que talvez me tenham levado a votar, pela primeira vez, no PSD: descida de impostos (o famoso “choque fiscal”), reforma profunda do estado, privatizações do sector público considerado desnecessário, estabilidade governativa, moralização do estado, redução da despesa pública, propondo, entre outras medidas, a extinção das inúmeras fundações criadas pelo governo anterior do PS, onde se alojavam os boys and girls rosa. Também retenho os resultados desse programa. O “choque fiscal” foi, de facto, um choque, não tanto pelas medidas anunciadas, mas por se terem posto em prática exactamente as contrárias. A tarefa de reformar o estado e a administração pública foi atribuída, por puro deleite e gozo, ao Dr. João de Deus Pinheiro, um velho amigo do então primeiro-ministro, conhecido pela sua inesgotável capacidade produtiva. Das privatizações lembro-me do novo logotipo verde da RTP 2, que passou a ser ternurentamente apelidada pela 2. Das fundações rosa, matéria em que não me considero especialista, constou-me que tinha sido extinta uma. Provavelmente por falta de jotas que se encarregassem dela. Jotas que, por sinal, abrilhantaram o novo governo e as instituições públicas com a sagesse, a inteligência e a capacidade de verdadeiros homens de estado que ninguém lhes pode negar. Sobre a estabilidade governativa, viu-se ao fim de dois anos e meio. E quanto à moralização do estado, julgo que foi para isso que a Dr.ª Ferreira Leite contratou o Dr. Paulo Macedo, com os belíssimos resultados que o governo seguinte do PS não deixou de aproveitar (os resultados e o Dr. Macedo, claro).

O resultado deste conjunto de brincadeiras, está aí à vista: o PS, depois de quatro anos de governo impopular e com um primeiro-ministro diariamente massacrado na comunicação social, continua a resistir eleitoralmente; e a extrema-esquerda com mais de 20% dos votos, facto nunca antes visto, nem mesmo nos malfadados tempos do PREC. Por outras palavras: o eleitorado continua a desconfiar da direita, para quem parece não tencionar transferir de ânimo leve o seu voto, preferindo a oposição à esquerda, nomeadamente a do Bloco.

Na altura, quando a coisa acabou, o Dr. António Pires de Lima disse, muito sensatamente, que a direita fora para o governo sem qualquer preparação, e que pagou por isso. Falou-se, também, na necessidade de a refundar, não tanto com novos e surpreendentes protagonistas, nem com ideias geniais (ninguém é ingénuo a esse ponto), mas, pelo menos, vendo-a fazer um esforço sério para entender o que lhe tinha sucedido e emendar a mão, na medida do possível, apresentando-se aos portugueses com a credibilidade de propostas sérias e diferentes das praticadas pelo Partido Socialista.

Ao longo destes quatro anos, não dei conta de que nada disso tenha sucedido. Provavelmente será o programa eleitoral do PSD que me vai fazer mudar de ideias, caro Rodrigo.

Junho 19, 2009

os nossos

Filed under: Diversos — rui a. @ 15:00

cristiano-ronaldo-entertainer

Não há provavelmente atitude política mais avessa ao espírito liberal do que separar os políticos entre os “nossos” e os “deles”, e apoiar entusiástica e acriticamente os primeiros. Trata-se de reduzir a política ao mundo do desporto, onde os “nossos” têm de ser aplaudidos quando entram em campo, apenas por usarem o equipamento do nosso clube e estarem a defrontar-se contra um clube diferente.

O critério liberal face à política deve ser o de separar os políticos dos cidadãos, as estruturas políticas da sociedade civil e das suas instituições, o poder soberano do poder civil, e preocupar-se, obviamente, com a defesa dos segundos face aos primeiros. Por princípio e por método, os liberais desconfiam dos políticos e da política, razão pela qual pugnam por poderes soberanos reduzidos e um estado mínimo. Ainda por cima, em Portugal, os políticos – à esquerda e à direita – não têm sido merecedores da confiança dos cidadãos. Basta olhar para o estado em que o país (de há muito) se encontra, para compreender as razões dessa desconfiança.

Acresce que os “nossos”, isto é, os partidos à direita do socialismo, não são partidos em quem se possa confiar cegamente. Bem pelo contrário. Os momentos em que passaram recentemente pelo governo, não os recomendam. Basta recordar o governo de Durão Barroso, o prometido “choque fiscal”, a “reforma” da administração pública, a relação que estabeleceu entre o estado e os cidadãos (lembram-se do “já cá canta” da Dr.ª Ferreira Leite?), a completa ausência de espírito reformista, o “tachismo” aparelhista que o marcou. Por não se terem comportado com seriedade perante o país e os cidadãos, os partidos da direita perderam a confiança dos eleitores, que, pela primeira vez na história da democracia portuguesa, estão a migrar da esquerda para a extrema-esquerda, em vez de regressarem ao centro e à direita.

Do que se trata agora é de saber se esta direita, corporizada no PSD de Manuela Ferreira Leite e no CDS de Paulo Portas, está preparada para governar e como o pretende fazer. Em boa verdade, até agora, o mutismo tem sido a tónica dos dois partidos. Nem um nem outro esclareceram, por enquanto, o que pretendem fazer, quando e se chegarem ao governo, sobre as funções do estado, sobre os sectores da governação que o governo “privatizará” ou não, sobre a política fiscal, a política de saúde, a política para o ensino superior, para a justiça, para a administração pública, para a reforma do estado, para as grandes obras públicas prometidas pelo governo PS, etc., etc., etc.. Até agora, que se tenha ouvido, não disseram nada, nem coisa nenhuma.

Eu atrever-me-ia, então, a sugerir que a primeira obrigação desta direita será a de credibilizar a política e a de restituir a dignidade e a honorabilidade às instituições públicas e governativas, e, se possível (eu sei que é pedir muito) aos seus próprios partidos: honrar a palavra dada aos eleitores, cumprir o prometido em campanha, respeitar os mandatos, separar o governo das máfias dos aparelhos partidários, não fazer negociatas à sombra do estado, tratar os cidadãos por igual, não ser prepotente, respeitar as regras do Estado de Direito. Para isso, é obrigatório dizer-se alguma coisa ao país, anunciar ao que se vem, assumir solenemente responsabilidades programáticas, e não começar a violar compromissos eleitorais, na primeira oportunidade. Menos do que isto significa, a meu ver, que é indiferente o país ter um governo de direita, ou manter o actual.

Infelizmente, a “táctica” parece ser a do minimalismo, isto é, a de dizer o mínimo possível aos eleitores antes das eleições, para se estar livre de fazer o que se entender depois. Preparem-se, pois, os entusiastas dos “nossos”, para grandes desilusões.

Junho 18, 2009

a liberdade e as “liberdades”

Filed under: Diversos — rui a. @ 16:35

img192

Interessante, esta distinção que o Prof. Rosas estabelece aqui entre a liberdade e as “liberdades”. Ela existe, de facto, e separa visceralmente o liberalismo do socialismo democrático.

Para os liberais a liberdade é um pressuposto da natureza humana, uma categoria inerente à própria personalidade do indivíduo. A liberdade consiste na possibilidade de um indivíduo decidir, sem coacção ilegítima, sobre aquilo que é seu, e de poder acordar e dispor de si mesmo em relação com os outros, enquadrado por regras sociais e jurídicas gerais e abstractas.

Já para os socialistas a liberdade é uma adição de liberdades concretas, todas elas com relevância e prévia aceitação política: a liberdade de expressão, a liberdade política, a liberdade económica, a liberdade de certos costumes sociais, etc. Estas “liberdades” não fazem parte da natureza humana, antes são uma concessão política da soberania. Como, aliás, se tem visto, o entendimento dos socialistas é o de que não existe liberdade absoluta, e que toda a liberdade, para o ser, carece de fiscalização e de tutela política, Se necessário, de redução, para salvaguardar, note-se bem, não apenas as liberdades alheias, mas essa invenção estatista que é o “interesse público”.

Parafraseando Lénine, a liberdade é uma coisa tão preciosa que deve ser racionada. Não por acaso, o Prof. Rosas utiliza no seu artigo a velha pergunta bolchevique – “que fazer” – para tentar encontrar um novo rumo para o Partido Socialista.

erro grave

Filed under: Diversos — rui a. @ 14:00

paulo-rangelO de Paulo Rangel, ao admitir abandonar o Parlamento Europeu, para o qual foi eleito há dias, caso o PSD vença as próximas legislativas. Fartos de salta-pocinhas na política, que trocam os lugares para os quais os portugueses os elegeram por outros politicamente mais convenientes, estamos nós todos. A lista do PS ao Parlamento Europeu tinha, aliás, alguns exemplos dessa poligamia política, dos quais visivelmente os eleitores não gostaram. Rangel foi eleito para um cargo importante, chefiou a lista do seu partido, e não foi para o ver ministro de qualquer coisa que os portugueses votaram nele. Os políticos devem habiturar-se que a renúncia a um lugar para o qual foram eleitos só pode justificar-se por razões de força maior. No caso de Paulo Rangel, só vejo uma: disputar as próximas legislativas ao Partido Socialista, no lugar que hoje pertence a Manuela Ferreira Leite.

ficamos-lhe gratos

Filed under: Diversos — rui a. @ 04:59

Ao Prof. Rosas, por sugerir que a esquerda deixe de usar o qualificativo de liberal: “O liberalismo da esquerda afirma a primazia das liberdades individuais e do princípio da não discriminação, mas não sacraliza o mercado e releva especialmente a igualdade de oportunidades e a distribuição da riqueza num sentido igualitário. Aliás, para evitar confusões com a direita, mais vale ao PS usar a palavra “liberdade” em vez de “liberalismo” – o que, de resto, já costuma fazer”. E talvez a “liberdade” não seja muito compatível com “um socialismo amigo do mercado e das liberdades, mas com fortes preocupações igualitárias ao nível da fiscalidade, do sistema de saúde, da segurança social”. Mas deixemos isso para outro dia. Há que agradecer ao Prof. Rosas os progressos já alcançados e pedir a Deus que ele não se fique por aqui.

Junho 17, 2009

luta de classes

Filed under: Diversos — rui a. @ 17:31

capitalismo

A ordenação político-constitucional portuguesa continua a ser estruturalmente marxista, ainda que as sucessivas revisões do texto da lei fundamental tenham expurgado algumas das expressões e vocábulos mais vincadamente marcados por aquela ideologia. Essas alterações não mexeram no essencial: na visão marxista do mundo que enferma todo o texto constitucional, bem visível, por exemplo, na ordenação das chamadas Constituição Económica e Constituição do Trabalho.

Em ambos os casos é a lógica da exploração capitalista e da luta de classes que prevalece. Desde logo, na própria definição da classe dos trabalhadores em contraposição à dos empresários e detentores dos meios de produção, a quem é reconhecido um conjunto de direitos, privilégios e garantias que os diferencia dos demais cidadãos. Seguindo a teoria marxista do século XIX, a Constituição portuguesa vigente pressupõe a luta de classes e a posição de fragilidade dos trabalhadores assalariados perante o domínio dos patrões exploradores. Seria fastidioso reproduzir todo o articulado normativo que integra essa visão dialética e classista do mundo e da sociedade, mas ela é bem visível na Parte I (Direitos e deveres fundamentais), Título II (Direitos, liberdades e garantias pessoais), Capítulo III (Direitos, liberdades e garantias dos trabalhadores), bem como ao longo de toda a Parte II (Organização econômica).

Nesse articulado, a Constituição portuguesa incorpora a luta de classes e a divisão da sociedade em classes dominante e dominada como fundamento das suas disposições normativas e como orientação para as suas opções estruturantes fundamentais. Daí os privilégios atribuídos aos trabalhadores (direito à greve, à segurança no emprego, à intervenção na vida da empresa, à liberdade sindical, a fixação de limites à duração do trabalho, à renovação de contratos a termo, às condições em que este pode ser celebrado, o salário mínimo garantido, o direito ao repouso, ao lazer, etc.), por contraposição de quaisquer direitos reconhecidos aos empresários, quando não mesmo a proibição do que deveriam ser direitos homólogos aos dos trabalhadores (a proibição do lock-out, por exemplo, constante do artigo 57º, nº 4). A tutela desta conflitualidade social e da luta de classes é feita por um órgão constitucionalmente criado para esse fim, o Conselho Económico e Social (art. 92º), onde têm assento os representantes das classes sociais, à sombra do governo e do estado interventores e omnipresentes.

Não ocorre ao legislador constitucional que o mundo em que vivemos não é já o do século XIX, se é que alguma vez a análise marxista o reproduziu com fidelidade. A posição privilegiada dos trabalhadores dependentes fez das empresas, sobretudo as pequenas e médias, suas reféns, impedindo a liberdade contratual e a determinação do conteúdo desses contratos em plano de igualdade entre contratadores e contratados, dificultando a adequação operacional das empresas às exigências, cada vez mais velozes, dos mercados, tendo produzido imobilismo e estagnação empresarial. Nos dias de hoje, a responsabilidade assumida por um empresário é de alto risco, quer por empenhar os seus capitais em projectos que verdadeiramente não controla em absoluto, quer pelas responsabilidades assumidas perante a banca, os credores, o estado, quer pela rigidez e morosidade das normas jurídicas que regulam o mundo do trabalho e dos tribunais que as aplicam.

Esta ordenação constitucional da sociedade portuguesa, que os sucessivos governos têm, mais uns do que outros, proclamado e conservado, gerou nos cidadãos uma desconfiança epidérmica em relação a tudo o que é economia privada e à sociedade capitalista. Em bom rigor, não há outra economia que não seja a que resulta da livre empresa, isto é, da iniciativa privada. O resto, as intervenções “empresariais” do estado, são meros exercícios de finanças públicas, de limitação das regras da concorrência em seu favor, quando não feitas a expensas de transferências ilegítimas da propriedade privada paro o sector público. Só que os portugueses, na sua generalidade, continuam penosamente convencidos que o estado tem capacidade para gerar riqueza e que os cidadãos não a têm ou apenas a procuram em obediência a perversos interesses privados e lucrativos, como se o lucro continuasse a figurar no índex dos pecados veniais.

Numa sociedade liberal a Constituição não deve diferenciar os indivíduos, menos ainda privilegiar uns em detrimento de outros em função da sua posição no processo produtivo. O princípio da igualdade que deveria enfermar todo o Estado de Direito é, assim, posto em causa por uma Constituição marxista e desajustada ao mundo real. Seria esse princípio melhor preservado se a Constituição remetesse as relações económicas e laborais para a livre contratação, e para as regras gerais e abstractas de um Direito Constitucional que não classificasse os cidadãos.

Junho 8, 2009

o grande vencedor

Filed under: Diversos — rui a. @ 02:28

cavaco

O grande vencedor não anunciado destas eleições foi Aníbal Cavaco Silva. Ganhou o seu partido, ganhou a líder em quem ele confia e que ele gerou politicamente, e José Sócrates, que o tentou sistematicamente humilhar ao longo da legislatura, saiu pesadamente derrotado. Mas mais do que isso. Se estas tendências se mantiverem nas legislativas, o próximo governo dependerá absolutamente do Presidente da República, isto é, de Aníbal Cavaco Silva. Ao contrário do André, que antevê um cenário de ingovernabilidade, eu diria que resultados semelhantes em legislativas reforçarão a componente presidencial do sistema, muito atenuada nas últimas décadas em função de sucessivas maiorias parlamentares, curiosamente inauguradas pelo mesmo Aníbal Cavaco Silva, e pelo exercício de um presidente frouxo e complacente que foi Jorge Sampaio. Mas há que não esquecer que a nossa Constituição continua a ser semipresidencialista, e que se os partidos e o parlamento falharem ela abre um amplo espaço de intervenção ao presidente. Assim ele queira e seja capaz.

e o cds?

Filed under: Diversos — rui a. @ 01:16

Apesar de ter resistido às sondagens, de ter mantido os dois deputados e de ter conseguido 8,37% dos votos, o CDS passou a quinto partido, atrás da CDU e do Bloco de Esquerda. Pior do que isso, se estes fossem os resultados das legislativas, o resultado do partido não chegaria para formar maioria parlamentar à direita com o PSD. Ao contrário do que se possa pensar, esta prova de “resistência” do CDS e de Portas não são uma boa notícia para a direita: é curta, é equívoca e não serve para nada.

hope and change

Filed under: Diversos — rui a. @ 00:24

paulo-rangel

Paulo Rangel é o indiscutível vencedor da noite. E, em nome da verdade, também o é Manuela Ferreira Leite, não tanto pela sua capacidade pessoal para atrair o eleitorado, mas por ter sabido escolher um bom candidato e tê-lo imposto ao baronato do laranjal.

Contra um candidato do PS com um comportamento político ordinaríssimo (não basta ser um “doutor de Coimbra” para saber respeitar as regras do combate político leal e sério), o PSD apresentou um candidato que corporizou o valor mais forte da política: a mudança. Rangel é uma figura relativamente nova na política nacional, não pertence ao status quo do regime nem sequer do PSD histórico, teve um discurso positivo e forte que não se deixou enredar na lama dos dias mais recentes (e como teria sido fácil fazê-lo), e, por isso, representou aos olhos do eleitorado uma esperança de renovação e de mudança.

Se quiser ganhar as próximas legislativas, o pior que o PSD poderá fazer é não perceber que este resultado pertence, quase por inteiro, a Paulo Rangel e ao que ele representou, e não tanto ao partido, que verdadeiramente não o merece. Os portugueses, como qualquer eleitorado do mundo, quando estão descontentes com um governo querem mudar de política e de políticos. Não basta, por isso, oferecer-lhes palavras. Há que oferecer protagonistas novos e credíveis. Foi assim que o PSD ganhou com Cavaco há vinte anos, que ganhou agora com Paulo Rangel, e que terá que continuar a fazer para ganhar as próximas eleições legislativas.

Maio 28, 2009

pois claro que foi

Filed under: Política,Portugal — rui a. @ 20:07

Morais Sarmento declarou que foi mal interpretado. Ele não quis dizer que não via quaisquer diferenças políticas entre Paulo Rangel e Vital Moreira. O que muito provavelmente ele gostaria de ter dito é que não as vê entre José Sócrates e Manuela Ferreira Leite. Afinal de contas, esta é que é líder do PSD. Já Rangel passará os próximos cinco anos no Parlamento Europeu.

e não é que tem razão?

Filed under: Política,Portugal — rui a. @ 19:02

Luís Filipe Menezes:

«Estamos a caminhar para ser o Estado da suspeição generalizada.»

«Qualquer dia quem não estiver sob suspeição não é curricularmente escorreito em Portugal. É uma tradução de uma doença complicada e grave»

«Ou algo se altera na gestão do nosso comportamento comunitário ou estamos a criar a situação de não sermos capazes de ultrapassar as actuais dificuldades que a crise nos coloca. Estamos deprimidos, desconfiamos todos uns dos outros. É um estado insuportável, aquele que se vive actualmente em Portugal»

neo produtos

Filed under: Media,Política,Portugal — rui a. @ 16:37

Neo-socialismo.

Maio 27, 2009

da morte anunciada

Filed under: Comentário,Media,Política,Portugal — rui a. @ 13:22

Sete-Dias-Loureiro

Manuel Dias Loureiro está morto. Política e socialmente falando, claro está, que da outra morte, da que é física e irremediável, ainda se vai livrando.

Esta morte anunciada não surpreende ninguém. O obituário de Manuel Dias Loureiro há muito estava escrito, faltando apenas determinar a hora para que as exéquias tivessem lugar. Começaram ontem, com direito a cobertura mediática exaustiva, como se de um funeral de estado se tratasse.

Independentemente das responsabilidades que possa ter e que, até agora não foram reveladas, não deixa de ser espantoso que todos soubéssemos, há muito, que este seria um desfecho inevitável. Em boa verdade, não sabemos ainda de que é acusado, já que ser mentiroso, como Oliveira e Costa ontem o qualificou, não constitui, por si, crime algum, temos uma vaga ideia de que possa ter responsabilidades na situação de insolvência de um banco que com muitos outros, de quem ninguém fala, geriu, mas todos sabíamos intimamente que acabaria condenado.

Entretanto, alguns órgãos de comunicação social vão dando conta de que se estão a enterrar os restos do cavaquismo. O cavaquismo findou na primeira metade da década de 90, e, mais de quinze anos passados, ainda não enterrámos devidamente o cadáver. Em qualquer circunstância, Cavaco Silva, agora Presidente da República, não ficará bem na fotografia, sendo, pelo menos, responsável por um excesso de ingenuidade na gestão que lhe compete dos órgãos de estado, ao promover uma tão “desqualificada” figura, da qual até o mais humilde dos portugueses tinha justas e, agora, fundadas desconfianças.

Sem instituições, o país continua entregue às pessoas que o vão governando, às suas questões íntimas e pessoais. E disso – e só disso – nos vamos todos alimentando. O folhetim Dias Loureiro, mais um a juntar aos muitos dos últimos anos, é apenas a confirmação do estado de coma em que se encontra Portugal e do qual já não sairá sem violência.

Maio 26, 2009

quem manda, quem manda, quem manda?

Filed under: Comentário,Política,Portugal,Teoria — rui a. @ 15:59

salazarismo

Numa remissão que o Miguel fez para um post meu sobre Salazar editado no Portugal Contemporâneo, o Mentat comentou que considerava o texto como um exercício de “auto-comiseração” e, por isso, inútil para a compreensão do momento presente. Eu não concordo com esta opinião, nem creio que o sentido primeiro do post possa ser entendido como uma imputação integral dos males que presentemente nos afligem ao Doutor Oliveira Salazar, embora ele não possa, nem deva, ser eximido dessa responsabilidade.

O que se pretendia era tornar evidente que a fragilidade portuguesa, a actual e a pretérita mais ou menos remota, se deve à quase inexistência de uma sociedade forte, dotada de instituições firmes, e que nessa fragilidade são responsáveis os poderes públicos das últimas décadas. Actualmente, esse esvaziamento da sociedade opera-se através de uma presença asfixiante do estado em todos os domínios privados, nomeadamente esmagando a economia com a sua presença, e com uma carga tributária absurda que impede a acumulação de capital e o investimento. No passado recente, no salazarismo, esse esvaziamento deu-se pela presença asfixiante do governo na vida política, na inexistência de liberdade e na redução da pluralidade natural à ideologia do estado.

Seja como for, em qualquer dos casos o resultado é idêntico: a sociedade civil portuguesa não existe, não tem instituições, não desenvolveu uma vida empresarial autónoma do estado, porque só se pode ter êxito nos negócios se houver ligação directa a quem decide, o mesmo é dizer ao poder político e ao governo.

No século XX e nos primórdios daquele em que vivemos, foram responsáveis por este estado de coisas o paternalismo salazarista e o estatismo socialista. A direita portuguesa continua a não ver bem as coisas, e permanece profundamente anti-liberal e a aguardar a vinda de um qualquer homem providencial capaz de redimir o país. Habituou-se a isso – habituaram-na a isso – e dificilmente sairá desse círculo político vicioso. O anti-liberalismo e o messianismo que a caracterizam são evidências de que não quer responsabilizar-se por nada, e que prefere que outros o façam por si. Neste momento, a tarefa está entregue ao Eng.º Sócrates, cujos tiques de autoritarismo inicial não lhe desagradaram completamente.

Maio 21, 2009

racionalismo liberal

Filed under: Fundamentos,Política,Teoria — rui a. @ 16:43

hayek

O individualismo é o ponto de partida e de chegada de todo o pensamento liberal. Ele pressupõe uma dose razoável de confiança nas capacidades da razão humana e na possibilidade da aprendizagem empírica e racional do mundo envolvente. Não pode, todavia, confundir-se com o racionalismo francês e com o empirismo inglês dos séculos XVI, XVII e XVIII, como frequentemente sucede, em boa verdade, muitas vezes, por culpa própria dos próprios liberais, como foi o caso, no século passado, de Ayn Rand.

O liberalismo é, em parte, tributário do racionalismo, na medida em que acredita que o homem, enquanto ser individualmente considerado, é dotado de faculdades intelectivas próprias que lhe permitem uma razoável compreensão da realidade e, consequentemente, tornam sustentáveis as escolhas e as decisões que ele tem de tomar ao longo da sua vida. O paradigma do homo economicus, prolongado na abordagem do consumidor racional, incorpora precisamente os fundamentos do racionalismo clássico, segundo os quais o homem pode conhecer e, consequentemente, pode decidir e escolher o que mais e melhor lhe convém. A verificação empírica do resultado das suas acções, no fim de contas, o método poppereano de aprendizagem pelo erro, completa este quadro caracterizador do indivíduo, segundo o liberalismo, e constitui um auxiliar correctivo da razão, que passa a ser auxiliada pela experiência prática das coisas e lhe permitirá eliminar hipóteses falsas de conhecimento e verdades que o não são. A razão e a experiência das coisas, devidamente conjugadas e em interacção permanente, constituiriam, assim, o núcleo fundamental da personalidade do indivíduo.

Este caminho poderia conduzir, e conduziu em muitos casos, a um destino perigoso e profundamente anti-liberal. Desde logo, ao Iluminismo oitocentista e ao Despotismo Esclarecido, que lhe deram a forma política mais vulgar por esses dias. Na verdade, a crença exacerbada nas faculdades cognitivas da razão e na utilidade da experiência levariam à fundamentação do despotismo, da tirania e à criação de regimes sem quaisquer vestígios de respeito pelos direitos individuais. Contra estes mesmos regimes, diga-se em abono da verdade, se rebelariam os liberais constitucionalistas dos séculos XVIII e XIX. O raciocínio era simples: se as capacidades da razão humana eram ilimitadas e se a verdade era evidente, como pretendia Descartes, a quem a soubesse utilizar, os reis, nascidos e criados para a governação e iluminados por essa mesma razão, poderiam facilmente encontrar o caminho da felicidade dos seus povos. A condição de exequibilidade deste sistema era só uma: a de que os reis respondiam apenas perante a razão, a sua razão, e ninguém ou nada mais. Por isso, o seu poder tinha que ser total e absoluto, sem limites que lhe fossem impostos pelo direito, pela religião, pela moral, pela tradição ou por outra qualquer fonte de autoridade que não fosse a sua razão individual. De algum modo e ao contrário de algumas presunções, os déspotas iluminados oitocentistas são mais príncipes revolucionários do que monarcas tradicionalistas.

Este racionalismo político de estado prescinde, em última instância, do titular do poder. O fundamento desse poder e a sua extensão em razão dessa suposta fundamentação é que são determinantes. Por isso, não existem muitas diferenças entre o Despotismo Esclarecido e o jacobinismo do Comité de Salvação Pública, nem mesmo com a soberania democrática ilimitada em que vivemos na maior parte dos estados dos nossos dias. A extensão da soberania é hoje praticamente ilimitada, o “despotismo” permanece, pertence ao estado, é atributo dos poderes públicos, independentemente da sua sede de exercício e das formalidades, democráticas ou não, que determinam os titulares dos órgãos de soberania.

A reformulação do racionalismo e do empirismo liberal operada por Friedrich A. von Hayek e por Karl Popper foi, por isso, essencial para conciliar o liberalismo com a razão. O ponto de partida continua o de sempre: o homem é um ser racional, é capaz de conhecer e de aprender com as suas faculdades intelectuais e com a experiência, esta última que permanentemente confronta as conclusões racionalmente obtidas e testa a fiabilidade destas. Só que, na epistemologia liberal de Hayek e de Popper, o conhecimento é, por natureza, limitado, como muito limitadas são as faculdades humanas para compreender e conhecer. Ou seja, por outras palavras, nós somos capazes de conhecer, ninguém melhor do que nós próprios para podermos ajuizar e escolher o que nos é mais conveniente em cada momento das nossas vidas, mas o nosso conhecimento é muito limitado. E desta regra não escapam, obviamente, os poderes públicos, eles próprios titulados e orientados por homens, nesses e em muitos outros aspectos, iguais a todos os outros. Para além do mais, existem também outras fontes autorizadas de conhecimento, entre elas a tradição, que consiste numa riquíssima síntese de informação acumulada e experimentada ao longo dos anos.

Sendo assim, a razão passa a ser um argumento epistemológico para a limitação do poder e não para a sua ampliação, como sucedia no passado. Este foi, em minha opinião, a maior contribuição de Hayek para a refundação do liberalismo clássico.

Maio 20, 2009

rangel e rio

Filed under: Comentário,Política,Portugal — rui a. @ 14:46

Paulo Rangel é um candidato bom com um cartaz mau. Rui Rio é um candidato mau com um cartaz bom.

Rangel é um bom candidato porque tem uma vida própria que começou muito antes do PSD e da política; porque foi imposto para além do aparelho do partido; porque tem ideias e sabe defendê-las; porque é um reformista com, pelo menos, algumas simpatias liberais; porque sabe que o estado português está a asfixiar a sociedade e os indivíduos; porque representa uma abertura do PSD e da sua liderança à sociedade civil.

Rio é um mau candidato porque tem sido um mau presidente da Câmara Municipal do Porto; porque não fez obra que se visse; porque falhou a sua principal promessa eleitoral do último mandato, a saber, a reanimação da baixa da cidade; porque retirou protagonismo político ao Porto; porque não soube lidar com as (poucas) instituições da cidade; porque a cidade está manifestamente pior do que quando a recebeu.

o estigma

Filed under: Comentário,Política,Portugal — rui a. @ 02:06

A orientação estatista e subsidiodependente da campanha europeia do PSD (da do CDS nem vale a pena falar) demonstra que a representação partidária da direita portuguesa está absolutamente esgotada, ao ponto de conseguir estragar um bom candidato, como inequivocamente é Paulo Rangel. O facto é que não se sai disto: estado, estado e mais estado. A direita do PSD não é capaz de ultrapassar esse paradigma, não é capaz de encontrar um modelo alternativo ao Estado Social, onde anda a chafurdar há décadas com o PS, para desgraça do país. No fim de contas, o PSD é incapaz de ultrapassar o estigma do rotativismo socializante e do bloco central, onde fatalmente se deixará cair após as legislativas, caso o PS e o Presidente da República lhe estendam a mão.

Maio 7, 2009

a degenerescência das formas

Filed under: Comentário,Fundamentos,Política,Teoria — rui a. @ 16:50

platao1

O Corcunda respondeu às questões que lhe coloquei sobre as monarquias modernas – o que lhe agradeço – com um curioso exercício de platonismo substancial, moderado com uma dose suave de aristotelismo.

O facto é que, segundo o legitimismo, tal e qual o Corcunda nos descreve, a ordem política monárquica é um dado da natureza que o Rei incorpora sem necessidade de outros parâmetros que não sejam a Tradição e a Fé. Estamos, assim, perante um animismo político aristotélico, como ponto de partida para uma forma pura de monarquia inspirada num Rei Filósofo platónico, este exclusivamente preocupado com o Bem Comum e com a perfeição das almas dos seus súbditos. Tal modelo não comporta, se bem julgo perceber, a degenerescência aristolélica da monarquia em tirania. Com este conjunto de pressupostos e de convicções, o Corcunda retira a conclusão de que a monarquia, para o ser, para se manter na sua forma ideal, só tem que se entregar, sem reservas, à instituição régia, e esperar placidamente que a ordem natural, a tradição e Deus o mantenham no recto caminho do Bem.

O que há a dizer sobre isto? Bom, no plano das ideias e do puro pensamento especulativo, tudo é legítimo, defensável e até plausível. No mundo real, as coisas são já um pouco diferentes. E, se eu, ao contrário do Corcunda, não o procuro refutar, como ele a mim, invocando o tempo a que pertencemos (o que ele faz permanentemente, ora alegando que já não vivemos no século XIX liberal, ora qualificando de gastas e antigas algumas das ideias que tento defender), sempre lhe direi que vejo a política de forma muito prosaica, como o exercício do poder de homens sobre outros homens, e não como uma manifestação de intenções e de planos divinos, que julgo subjaz a todo o pensamento político do Corcunda. Mas poderia obviamente dizer-lhe, na linha que ele costuma utilizar ao qualificar as ideias liberais como coisa pertencente ao século XIX, que certamente não vivemos já nos tempos da organização social e política estamental, no Sacro Império, nem sequer nos da restauração do Congresso de Viena. Mas faço-lhe a gentileza de não procurar invalidar as suas ideias com o tempo, como deve ser timbre e quase obrigação de qualquer conservador e tradicionalista.

Nesta insanável contradição (a separação entre o que é de César e o que pertence a Deus), eu preocupo-me com os homens, sobretudo com os homens dotados de poder. E o rei, que o Corcunda praticamente identifica com um ser ungido por Deus para o exercício da governação e para a busca do bem comum, é, para mim, um homem, antes de tudo o mais. Por isso mesmo, Aristóteles não se cansou de alertar para a facilidade com que a monarquia degenera em tirania.

Para se evitar essa quase sempre inevitável fatalidade, mais tarde, os homens encontrariam uma solução: a limitação constitucional e liberal do poder. De todo o poder político, fosse do rei ou de qualquer outro órgão de soberania. A Monarquia Constitucional, que o Corcunda tanto execra, acabou por ser assim uma excelente solução para, no fim de contas, manter a forma pura da monarquia e evitar a sua repetida e insistente degeneração em tirania, de que a História nos dá, infelizmente, exemplos abundantes.

Maio 6, 2009

algumas dúvidas legítim(ist)as

Filed under: Comentário,Política,Portugal,Teoria — rui a. @ 03:46

Uma das virtudes da troca frequente de correspondência que vou mantendo com o caro Corcunda, do Pasquim da Reacção, é que nenhum de nós consegue já surpreender o outro. Como dois bons conservadores que nos reclamamos – ele à sua e eu à minha maneira -, dizemos ambos coisas razoavelmente antigas e gastas, o que sempre nos garante alguma impunidade perante a asneira a que, certamente, nem um nem outro, humanos que somos, estamos imunes.

No caso vertente, não pretendo discutir com o Corcunda o seu legitimismo monárquico, porque já o conheço bem e de há muito. Apenas lhe ficaria grato se ele se dispusesse a responder-me a duas ou três perguntas menores, cujas respostas julgo também conhecer, mas que sempre poderão contribuir para fixarmos parâmetros nestes assuntos sobre a monarquia, perdão, sobre as monarquias, para ser mais exacto.

Assim, perguntaria ao Corcunda como é que ele qualifica as monarquias europeias dos nossos dias. Para não me alongar muito, ficava-me pela Inglaterra, pela Espanha, pelos Países Baixos e pela Suécia. Sendo todas elas monarquias constitucionais de Estados de Direito democráticos, não são tradicionais, no sentido que o Corcunda atribui à expressão. Estas monarquias “não valem a pena”? Não o são? Serão monarquias “restauradas a botox”, ou “repúblicas coroadas”, como parece depreender-se dos textos de um outro legitimista da blogosfera, o autor do Tribuna, para quem só a verdade importa? E, já agora, como anteveria o Corcunda uma eventual restauração da monarquia portuguesa, caso ela fosse possível? Com a Casa de Bragança e com uma Constituição, ou parecer-lhe-ia mais conveniente convocar os três estados do Reino em Cortes, e esperar que eles proclamassem a monarquia tradicional, sem Constituição escrita?

Estas perguntas que dirijo ao Corcunda na esperança de que ele tenha tempo e paciência para me esclarecer, podem também ser recepcionadas por todos os legitimistas da blogosfera lusa. Se tiverem a mesma bondade de me responder, ficaríamos todos a ganhar com isso.

P.S.: Publico, excepcionalmente, este post aqui e no Portugal Contemporâneo, à semelhança do que fiz com o anterior. Tratam-se, ambos, de posts sobre um assunto sobre o qual escrevi no O Insurgente e no Portugal Contemporâneo, entendendo, por isso, que estes textos finais e conclusivos devem figurar nos dois blogs. As minhas desculpas, pois, aos colegas do O Insurgente pela redundância, que não costumo praticar e não conto repetir.

Maio 5, 2009

monarquia: conclusões

Filed under: Comentário,Política,Portugal,Teoria — rui a. @ 16:50

Não me surpreenderam as reacções de indignação aos meus últimos posts sobre a monarquia (aqui, aqui, aqui e aqui), provenientes de alguns sectores monárquicos. Elas apenas confirmaram o que de há muito suspeitava: a profunda e inultrapassável divisão entre os monárquicos portugueses, que os impede de apresentar ao país uma alternativa uniforme ao regime republicano. Essa divisão, no fim de contas, é muito antiga e continua a separá-los em “legitimistas” e “liberais”. Curiosamente, se a amostra da blogosfera for representativa, com amplo predomínio dos primeiros sobre os segundos. A minha conclusão é, portanto, esta: os monárquicos portugueses continuam reféns de 1834 e nunca serão capazes de ultrapassar essa profunda divisão.

Maio 4, 2009

legitimidade

Filed under: Comentário,Fundamentos,Política,Teoria — rui a. @ 00:31

voto_1

O Tiago Moreira Ramalho sugere que o debate sobre a monarquia se eleve um pouco mais, remetendo-se para as questões de princípio e não apenas de resultado, como, por exemplo, a da “legitimidade do Rei”. Tentarei dar a minha contribuição, dizendo o que penso do assunto.

Mais do que a legitimidade do rei, importará apreciar a legitimidade da monarquia, que não se esgota na figura do rei, como é sabido, embora tenha nele, de facto, a sua originalidade diferenciadora. A monarquia é uma das duas formas possíveis actuais que um estado, isto é, a comunidade politicamente organizada, pode assumir, e essa forma há-de ter tido sempre uma origem. Falando em monarquia constitucional referimo-nos às formas monárquicas do constitucionalismo moderno, baseado nos princípios do contratualismo, da separação e da limitação dos poderes soberanos. Todas as restantes ficam excluídas.

Nesta medida, a primeira pergunta a responder é a seguinte: como se exerceu o poder constituinte que estabeleceu a constituição monárquica de um estado? As respostas, tendo em conta o constitucionalismo moderno, são de três tipos possiveis: a) o poder constituinte outorgado; b) o poder constituinte pactuado; c) o poder constituinte de soberania nacional ou popular.

O primeiro foi muito utilizado por alguns monarcas do século XIX, que, ao perceberem a inevitabilidade do constitucionalismo liberal, preferiram inteligentemente serem eles mesmos a estabelecer a constituição e os princípios estruturantes de uma nova ordem política para os seus países. Não se trata, é certo, de um exercício democrático do poder constituinte, porquanto nem a elaboração nem (na maior parte dos casos) a ratificação dos textos constitucionais estão sujeitas a qualquer forma de exercício democrático da soberania. O que não quer dizer que o texto que resulte dessa forma de poder constituinte não seja democrático e não institua um verdadeiro Estado de Direito. Foi o caso da nossa Constituição de 1826, conhecida por Carta Constitucional precisamente em homenagem ao seu particular modo de elaboração, outorgada por D. Pedro IV. Tratou-se, muito provavelmente, do melhor e o mais equilibrado texto constitucional que o nosso país já conheceu.

O segundo modo de exercício do poder constituinte – o pactuado – resulta de acordos constitucionais estabelecidos entre diversas forças políticas. Foi, também, utilizado no século XIX, como uma forma quase sempre de compromisso entre a monarquia tradicional e as forças políticas constitucionais e liberais, como sucedeu com a nossa Constituição de 1838. Modernamente, nos nossos dias, podemos qualificar deste modo o poder constituinte que levou à União Europeia.

O terceiro e último modo de criação das constituições políticas é o poder constituinte de soberania nacional ou popular, por ele se entendendo a elaboração da constituição política de um estado por uma assembleia representativa da nação ou do povo, conforme se entender. A maioria das constituições redigidas nos nossos dias são-no deste modo, como sucedeu com a nossa Constituição de 1976, para a qual fora eleita no ano anterior uma assembleia com o mandato específico de fazer e aprovar a Constituição. Todavia, apesar da origem democrática desse poder constituinte, nem sempre o seu resultado é plenamente democrático e favorecedor de um Estado de Direito exemplar, como precisamente sucedeu com o exemplo referido (basta lembrar o determinismo ideológico dessa Constituição e as inúmeras pressões a que foi sujeita a Assembleia Constituinte, para se entender o sentido desta afirmação).

Assim, se uma Constituição política de um qualquer estado, elaborada pelo terceiro modo aqui referido de exercício do poder constituinte, determinar que a sua forma política passará a ser monárquica, a questão da legitimidade democrática da monarquia, se quisermos, do rei, fica resolvida por natureza. O rei não é eleito democraticamente? Pois não. Como não são democraticamente eleitos muitos outros titulares de órgãos de soberania democráticos, como, por exemplo, os juízes. Nem por esse facto o exercício da justiça passa a ser uma disposição de um poder autoritário, sem fundamento democrático. A natureza democrática destes poderes fundamenta-se não necessariamente na forma de designação dos seus titulares concretos, mas na instituição democrática e constitucional dos mesmos. Idêntica situação se verifica, se pretendermos maior proximidade à figura do rei, isto é, ao chefe de estado, em muitas repúblicas democráticas, onde o presidente é designado e não eleito por sufrágio universal e directo. São os casos da Itália e da Alemanha e da generalidade das repúblicas onde vigora o parlamentarismo; quando o presidente é eleito por sufrágio universal, estamos sempre perante ou um sistema de governo presidencial ou semipresidencial. Nunca parlamentar puro.

Acresce, por outro lado, que o rei não exerce, numa monarquia constitucional, qualquer função de soberania. Por essa razão, não tem de se lhe aplicar o instituto da representatividade democrática directa, e bem. Se isso sucedesse, a função essencial que ele desempenha – a do poder moderador – ficaria comprometida. Só pode moderar e equilibrar poderes quem não depende deles, seja na origem seja no exercício das suas funções, e essa é a função de um rei constitucional. De resto, as constituições políticas democráticas estão cheias de vestígios deste princípio. Por exemplo, a inamovibilidade de alguns titulares de certos órgãos de soberania, na pendência dos seus mandatos (frequentemente titulares de órgãos judiciais de hierarquia superior, quando exercem funções de controlo da constitucionalidade ou da legalidade dos actos do poder político). Por outro lado ainda, a função equilibradora e inspiradora dos órgãos do estado que o rei constitucional desempenha, também não prescinde da neutralidade e da isenção que só podem existir a partir de um elemento atípico do sistema político. Obviamente que todos os sujeitos de um sistema político têm a finalidade de disputar, conquistar e exercer o poder soberano. Um chefe de estado republicano, mesmo fora dos sistemas presidencialistas, pretende, pelo menos, ser reeleito e manter a sua influência política após abandonar funções (vejam-se todos, mas todos sem excepção, os exemplos dos presidentes da III República Portuguesa). É um elemento do sistema, em interacção e competição ou concorrência com os demais. A neutralidade necessária ao equilíbrio moderador das instituições só poderá decorrer de um elemento constitucional que esteja verdadeiramente fora do sistema político. Do rei, em suma.

Página Seguinte »

Tema: Rubric. Blog em WordPress.com.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 2.436 outros seguidores