O Insurgente

Maio 17, 2013

afinal, faz ou não sentido que a direita seja liberal e conservadora?

Filed under: Diversos — rui a. @ 20:53

Aqui há uns dias defendi neste blog, em dois artigos publicados, que o liberalismo deveria ser colocado na direita político-partidária (não esquecer que a “direita” é, sobretudo, uma posição geométrica…), devidamente acompanhado pela boa tradição conservadora. Por isto eu queria essencialmente dizer que deve ser na direita política que devemos procurar (e encontrar) os valores da liberdade individual, da defesa da propriedade e da livre-iniciativa, do mercado não intervencionado, do governo com poderes limitados, do estado regulado pela lei e pelo direito (não sendo este último a simples expressão da vontade do legislador, mas o acervo das regras sociais espontâneas, gerais e abstractas), mas também a defesa dos valores sociais tradicionais, do respeito pela religião e pela liberdade religiosa, da ordem social que resulta da vivência comunitária e dos princípios, costumes, normas e regras que a conformaram ao longo do tempo. E colocado na direita política por quê? Por várias razões, algumas delas muito longas para poderem ser aqui expostas, mas sobretudo por duas muito pragmáticas: porque isto tem de ser defendido por alguém que aja politicamente na esfera da soberania e porque, se à direita poderemos ter dificuldade em encontrar alguns ou mesmo muitos destes valores, na esquerda não os  encontraremos de certeza absoluta. A maioria dos meus colegas e comentadores manifestou-se assumidamente contra esta ideia, defendendo que a direita era excessivamente conservadora e “bota-de-elástico” para poder ser considerada liberal, e que o liberalismo melhor ficaria distante dela, num qualquer limbo político de que ainda não consegui perscrutar o lugar. Pois bem, hoje tivemos a resposta a algumas destas ansiedades e dúvidas. E ela não nos foi muito simpática.

(mais…)

About these ads

Maio 3, 2013

“r-i-g-o-r-o-s-a-m-e-n-t-e a-o c-e-n-t-r-o”

Filed under: Diversos — rui a. @ 22:09

http://www.ionline.pt/sites/default/files/imagecache/iarticle_photo_400x225/amaral.jpg

O senhor da fotografia ao lado chama-se Diogo Freitas do Amaral. Os mais novos conhecem-no como ex-ministro do governo de José Sócrates e fiel companheiro de algumas figuras gradas do socialismo português e actuais ou antigos deputados do PS: Luís Beiroco, Rui Pena e, naturalmente, essa referência maior do nosso socialismo democrático que é Basílio Horta.

Eu tenho, todavia, uma estória para contar aos mais jovens. Freitas do Amaral foi, em tempos, há quase quarenta anos, o fundador e o primeiro presidente do CDS, o partido mais à direita do espectro partidário do nosso regime democrático. Todos os outros nomes referidos no anterior parágrafo foram também dirigentes, deputados e ministros do CDS.

Freitas do Amaral tinha sido, logo no começo da sua vida profissional, professor na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, e assistente e colaborador próximo do Professor Marcelo Caetano, que sucedeu na presidência do conselho de ministros, em 1968, a António de Oliveira Salazar. Entre os jovens comprometidos com o regime deposto a 25 de Abril de 1974 e, sobretudo, com o regime que se esperava refundado por Marcelo Caetano, Freitas era tido, talvez por feitio e por carácter, como um homem tolerante, democrático, quase um liberal (era um grande apreciador da liberdade!). Essas e outra característica determinante, a de ser um “europeísta”, o que, à época, significava que tinha pouco ou nenhum apreço pela presença portuguesa em África, levaram a que, numa bela tarde do verão de 1974, já depois da revolução, Freitas do Amaral recebesse um telefonema do Conselho da Revolução (uma espécie de Tribunal Constitucional da época), para comparecer com o seu amigo e companheiro de tertúlias intelectuais, Adelino Amaro da Costa, no dito Conselho, no dia seguinte. Freitas confessa no primeiro volume das suas Memórias que se convenceu que os iam mandar prender. No dia acertado lá compareceu com o seu amigo no temível conselho revolucionário e, para espanto de ambos, foram recebidos, se bem recordo (não tenho o livro à mão) por um afável major Melo Antunes, figura eminente da esquerda revolucionária, que, em vez de os enfiar no calabouço a que se julgavam destinados, lhes pediu, melhor, os intimou a fundarem um partido de direita. Um partido de direita democrática, naturalmente, europeísta e distante do Ultramar, claro está, e que aceitasse a legitimidade da revolução de Abril, o que não era coisa difícil (mortos por isso estavam eles) para Freitas e a Adelino.

Freitas do Amaral e Amaro da Costa aceitaram a encomenda, mas nunca se sentiram, nenhum dos dois, confortáveis com a ideia de que o CDS fosse um partido de direita. Adelino chegou mesmo, por esse tempo, a confessar-se um homem de centro-esquerda (segundo as Memórias de Freitas do Amaral) e, quanto a Freitas, fosse pelo trauma do seu percurso marcelista, fosse por convicção íntima ou por ambas as coisas, rejeitou sempre a qualificação pessoal de “homem de direita”. Na televisão, quando lhe perguntavam como definia ideologicamente o seu partido, ele mirava as câmaras e, através delas, os espectadores, e, com a gravitas exigida pela solenidade do momento e a sua pautada e solene voz de mestre-escola, respondia pausadamente: “O CDS não é um partido nem de esquerda nem de direita. O CDS está r-i-g-o-r-o-s-a-m-e-n-t-e  a-o  c-e-n-t-r-o”.

(mais…)

Maio 2, 2013

faz ainda algum sentido ser de “direita”?

Filed under: Diversos — rui a. @ 22:59

Num tempo de diluição de fronteiras políticas e ideológicas, agravado pela queda do muro de Berlim e pela convicção generalizada de que, desde esse momento, o mundo vive numa panaceia de capitalismo liberal, questiona-se frequentemente a pertinência de se manterem as categorias de “esquerda” e “direita”, como se entre ambas, e dentro de cada uma delas, as diferenças fossem ténues, ou mesmo inexistentes. Está também muito em voga a moda de tentar criar novas categorias políticas que horizontalmente ocupem espaços à direita e à esquerda, sem verdadeiramente se poderem catalogar numa ou noutra posição. Para algumas pessoas, o liberalismo, o anarco-capitalismo e a social-democracia (da «terceira via» blairiana) são bons exemplos de teorias e práticas políticas que não se podem catalogar em nenhum daqueles dois campos tradicionais. Frequentemente, ouvimos figuras históricas da esquerda, como Mário Soares, acusarem correligionários seus, como Tony Blair ou mesmo José Sócrates, de cedências ao “mercado” e ao “capitalismo”, como ouvimos e lemos liberais e anarco-capitalistas a recusarem ser catalogados na direita. Fará, então, algum sentido manter ainda essa dicotomia fundadora da nossa modernidade política?

A minha resposta é claramente afirmativa: mais do que nunca, faz agora sentido o aggiornamento político e ideológico à esquerda e à direita. E acrescento que esta diluição só prejudica aqueles que defendem uma ideia liberal da liberdade, o livre-mercado, a iniciativa privada, a redução do estado e os direitos naturais do indivíduo. É graças a essa diluição e à crescente falta de identidade política, que vemos a esquerda a condenar a direita e o “mercado” ou o “neoliberalismo” (que ela habilmente utiliza como sinónimos) dos resultados catastróficos das suas próprias políticas. Ou será que, por exemplo, não foram José Sócrates e o governo do PS os responsáveis pela crise económica portuguesa, mas sim os “mercados especulativos”, a “desregulamentação financeira”, enfim, o “neoliberalismo” os grandes responsáveis, como nos pretendem impingir?

É da tradição católica dizer-se que o grande truque do diabo é negar a sua inexistência. Com a falta de demarcação entre direita e esquerda, esta última, que manieta habilmente a comunicação social e, por meio dela, a opinião pública, tem vindo a alijar as suas responsabilidades na crise dos últimos anos, endossando-as a quem elas não são devidas, nem poderiam nunca ser, desde logo, por ausência de responsabilidades governativas. Mas, a “explicação” oficial, é que os pobres governos de esquerda ficaram reféns dos grandes interesses dos criminosos mercados especulativos, inspirados por um desapiedado «neoliberalismo», que agora há que dominar com férrea regulamentação. As consequências disto, a não ser desmentido, poderão ser avassaladoras para a liberdade. Até porque, no meio desta intencional confusão, a esquerda não deixa para outros os seus próprios valores…

(mais…)

Março 9, 2013

socialismo clássico

Filed under: Diversos — rui a. @ 14:17

«Um liberal é um sujeito cético, desconfiado da natureza humana e do custo das utopias. Encara o estado como um mal necessário. Sabe que não existe vida civilizada sem governo, mas defende a tese de que o melhor mecanismo de incentivo é a descentralização do poder estatal em um ambiente de livre mercado. Para nós, liberais, o que realmente serve de garantia ao interesse público são as instituições sadias em pleno funcionamento e não um governante iluminado dando canetadas no palácio, pensando ser capaz de resolver tudo apenas pela vontade.»

Rodrigo Constantino, em entrevita à Veja de hoje.

Março 7, 2013

a minha liberdade é melhor que a tua

Filed under: Diversos — rui a. @ 15:16

Nos últimos anos, tenho dedicado algum do meu tempo ao estudo da Revolução Francesa. Considero-a um excelente repositório do que não deve ser feito em nome de ideais filosóficos e políticos, e uma brilhante demonstração dos efeitos nocivos da intolerância e do fanatismo. Um dos seus aspectos mais interessantes foi o papel desempenhado pela ideia da “liberdade” nos acontecimentos mais dramáticos da Revolução. Desde os seus primórdios mais remotos, a saber, a Enciclopédia e a influência dos philosophes iluministas, passando pelo início dos acontecimentos revolucionários, com os Estados Gerais de 1789, até aos vários ciclos da Revolução (concretamente, em minha opinião, os da Constituição liberal, do domínio girondino, dos dois períodos jacobinos – o Terror e o Grande Terror – e o final thermidoriano), a “liberdade” foi sempre o motivo que presidiu a todos os acontecimentos e o móbil da acção de todos os protagonistas. Mesmo dos que levaram a França à guerra civil e ao massacre de milhares de inocentes, muitos dos quais, a partir do Grande Terror, não tiveram sequer o direito de defesa perante o “Tribunal” Revolucionário.

(mais…)

esta «liberdade» vai sair-nos muito cara

Filed under: Diversos — rui a. @ 00:45

Hayek era um perigoso esquerdista e não era liberal. Friedman era geneticamente socialista, mas isso nós já sabíamos:

«É inegável que Hayek e Friedman colaboraram muito na luta contra a tirania estatal.  Porém, eles não são nem de longe os autores que melhor representam a liberdade; e é inegável também que eles apoiaram muitas posições contrárias à liberdade.  E é exatamente por causa de todas as concessões que estes autores fizeram aos estatistas, que a esquerda os alçou à posição de maiores e mais radicais representantes do livre mercado, ao passo que pensadores realmente radicais como Mises e Rothbard foram jogados para fora do debate.  Hayek e Friedman são os inimigos que a esquerda adora odiar.  De fato, eles não são inimigoseles fazem parte da esquerda, e são aceitos e respeitados pelo mainstream (que é esquerdista)

Fernando Chiocca, aqui.

Março 4, 2013

propriedade pública e propriedade privada

Filed under: Diversos — rui a. @ 02:24

Não existem bens sobre os quais não incida um título que autorize alguém a usar, gozar e deles dispor. Seja privada ou pública, a propriedade sempre inclui essas três dimensões de poderes (uso, gozo e disposição), mesmo tratando-se dos chamados «bens públicos», que são aqueles que pertencem ao estado e são geridos pelos seus representantes. Desses, o estado pode dispor como um normal proprietário de bens privados, ainda que as regras de fruição e disposição possam estar regulamentadas por lei e não apenas pela vontade soberana do seu proprietário. Todavia, um bem público, uma estrada, por exemplo, é objecto de administração da parte de pessoas concretas (uma autarquia, uma empresa concessionária, por exemplo), que têm vontade própria que se reflecte nos seus actos de gestão. Por sua vez, esses bens públicos permitem que os seus proprietários beneficiem dos frutos da sua produção, pela renda que geram e da qual os seus gestores beneficiam, directa ou indirectamente, como é o caso de uma auto-estrada concessionada, ou, se não tiverem qualquer capacidade autónoma de produção de renda para satisfazer os seus proprietários, ela é colhida aos contribuintes por via tributária. Desse modo, podemos dizer que um bem público não produtivo dá direito a uma determinada quota de renda privada para sustento desse bem e daqueles que o administram. Ou seja, todos os bens públicos garantem a sustentação daqueles que os administram, ao contrário dos bens privados que se não produzirem o rendimento que garanta a sua sustentação, ou se o seu proprietário não os mantiver com renda própria, caso sejam improdutivos, rapidamente mudarão de mãos ou estarão condenados a desaparecer.

(mais…)

Fevereiro 26, 2013

liberdade de educação (3)

Filed under: Diversos — rui a. @ 19:49

O “numerus clausus” universitário surgiu, em Portugal, lá para os idos de 1976/77, estava o PS no governo e era seu Ministro da Educação o Professor Mário Sottomayor Cardia. A coisa foi uma necessidade emergencial, porquanto, naquele primeiro ano, o ministro tinha sugerido a suspensão de admissões na Universidade, tal o número absurdo de candidatos existentes para as vagas disponíveis. O “numerus clausus” foi, então, nesse momento, uma resposta à escassez da oferta de ensino universitário do estado.

No seguimento desta dificuldade, o governo aprovou a criação da primeira Universidade privada, a Universidade Livre, não tanto por qualquer paixão pela liberdade de ensino, mas, sobretudo, para resolver o seu problema de falta de vagas nas suas Universidades.

Depois, com o crescimento da Livre e o surgimento posterior de novas Universidades privadas e de novos cursos e mais vagas, as corporações começaram a agitar-se perante a “ameaça” do mercado ser invadido por mais profissionais do que aqueles que os interesses instalados gostariam de enfrentar. Como a concorrência é coisa boa em todas as profissões, excepto na nossa (1ª e única Lei Arroja da Economia), essas corporações conseguiram convencer o Ministério da Educação a aplicar o “numerus clausus” às Universidades privadas, não propriamente porque estas não tivessem capacidade de resposta para a procura de mercado que falhava ao estado, mas para controlar o número de estudantes universitários e futuros profissionais. O “numerus clausus” passou, assim, a ser um instrumento de controlo do mercado de trabalho e já não de racionalização dos meios escassos do ensino público.

O desenvolvimento desta perversão é conhecido: totalmente dependentes do MEC e do governo, as Universidades privadas só o são na propriedade dos meios e recursos que utilizam, e não na disponibilidade, que a Constituição consagra, de organizarem livremente o ensino que ministram aos seus estudantes. Hoje, como quase desde o começo, estas Universidades dependem integralmente do MEC para poderem cumprir a sua missão educacional. A tutela é de tal modo forte e autoritária, que, na prática, elas quase não dispõem de autonomia universitária, princípio essencial para qualquer verdadeiro sistema universitário que se preze.

Quanto à empregabilidade dos nossos licenciados, qualquer que seja o seu curso ou área científica, o problema não reside no excesso de graduados, mas na falta de emprego e de empresas que os possam contratar. Um país cheio de licenciados, mestres e doutores nunca será, por esse facto, um país subdesenvolvido. Um país onde o estado esmaga, por via fiscal e burocrática, as suas energias empresariais e sociais mais elementares, não conseguirá nunca empregar os recursos disponíveis no mercado, por ínfimos que sejam. É o que se passa em Portugal, e é por essa razão que a emigração dos nossos licenciados não para de aumentar.

P.S.: A Universidade Católica Portuguesa não é mencionada no post em virtude da sua origem concordatária, que lhe permitiu – e ainda bem – passar, durante alguns anos, um pouco à margem do intervencionismo que sempre se fez sentir nas Universidades privadas. De resto, é uma grande instituição a quem o país muito deve.

Fevereiro 23, 2013

olha, olha, quem é vivo sempre aparece

Filed under: Diversos — rui a. @ 15:28

Fevereiro 19, 2013

liberdade e monarquia constitucional

Filed under: Diversos — rui a. @ 04:16

símbolo.

aprendemos pouco.

reina.

poder moderador?

Fevereiro 11, 2013

um «cemitério» de consumidores

Filed under: Diversos — rui a. @ 21:21

Neste post publicado no Portugal Contemporâneo, o Carlos Novais trouxe à discussão o ponto central que distingue, a meu ver, o liberalismo clássico do libertarismo anarco-capitalista. Ele surge a propósito das ideias de Hoppe (o sempre eterno Hoppe…) e consiste num comentário feito sobre o seu livro mais famoso – Democracy: The God that Failed -, no qual se expõe o princípio de organização política de uma sociedade inspirada por essas ideias. Diz assim: «Os verdadeiros conservadores, segundo Hoppe, são defensores de uma “ordem natural” com base na propriedade privada, nas normas culturais e morais, a instituição da família e a ideia da aristocracia natural, um grupo de homens que, devido à sua enorme produtividade, a prudência e a virtude privada, voluntariamente são reconhecidos como líderes de suas comunidades, culturais e intelectuais e guardiões da Lei Natural antiga e imutável.»

Estamos, como não custa entender, em pleno domínio da teoria do governo e da teoria das elites, que seriam, estas últimas, detentoras desse pesado, mas inevitável fardo que é governar os outros. A «democracia», o tal «God» que falhou, e que é visto pelos liberais clássicos como um imprescindível sistema de selecção pacífica dos governantes, seria substituída por um sistema de escolha de líderes – os «aristocratas naturais», imensamente «produtivos, prudentes e virtuosos» – através de um processo esotérico de «reconhecimento voluntário», que ninguém sabe no que poderia consistir. A este «escol» de aristocratas anarco-capitalistas caberia a elevada missão de guardar a «Lei Natural antiga e imutável».

O cenário parece um pouco saído da sci-fi alucinogénica dos anos 70, mas tem filiação mais profunda e perigosa do que aquilo que possa parecer a um observador mais desatento. Ela inspira-se na velha República dos Sábios de Platão, que teve, ao longo da História, interpretações várias, entre elas a ditadura jacobina de Robespierre, a vanguarda do proletariado de Lenine, as elites revolucionárias fascistas, as tentativas de supremacia tecnocrática europeísta, etc.. O ponto é sempre o mesmo: seja por necessidade de «defender» a revolução, o povo, a pátria, o progresso, ou a «Lei Natural antiga e imutável», um grupo selecto de cavalheiros presume-se em melhores condições do que todos os demais para o fazer e para nos garantir, assim, a felicidade na terra. Karl Popper descreveu este vício totalitário muitíssimo bem e ele já não é novidade nenhuma. No caso do pensamento de HHH (concedamos a amabilidade de admitir que ele não esgota, nesta matéria, o pensamento ancap) seria interessante perceber como se processaria esse tal «reconhecimento voluntário» dos «líderes» de uma comunidade, sem que isso representasse uma intolerável violência sobre os indivíduos que não estivessem para aturar tamanho sacrifício e generosidade destes «aristocratas».

É evidente, pelo menos para mim, que defender que a «História é um cemitério da luta de classes» ou de «elites», sejam estas as elites de Pareto ou de Hoppe, não passa de um discurso político totalitário, que nada, mas mesmo nada, tem de liberal. O liberalismo, pelo menos como eu o conheço, abstém-se de dispor sobre o que deve ser a natureza do governo. Não anda atrás do «governo ideal», nem dos «sábios» que tomem conta dele e dos restantes mortais. Se lermos atentamente os liberais clássicos, talvez com uma breve (e completamente despropositada, diga-se em abono da verdade) passagem de Hayek sobre uma hipotética teoria «liberal» da organização política (no Capítulo XVII, Parte III, do Law, Legislation and Liberty), os liberais não costumam dissertar sobre aquilo que o governo deve ser, mas sobre o que o governo não poderá nunca ser e fazer para se salvaguardar a liberdade individual. Por isso, os liberais criaram e desenvolveram as Constituições políticas para diminuir o poder do estado e do governo, e não Constituições políticas para criarem governos e estados. Estes já existiam, e passaram a ser bem mais razoáveis depois desta «invenção» liberal.

Convém não confundir nada disto com o célebre «igualitarismo», que os liberais defendem na esfera pública – já que ninguém deve ser descriminado pela lei ou pela soberania, e todos os cidadãos devem ter os mesmos direitos políticos perante o estado (princípio muito, muito velho, do tempo da República Romana, cuja dissecação deixaremos para outro dia…) -, condenam na esfera privada – onde o mercado selecciona quem serve melhor os consumidores –, e que pretendem impedir na esfera privada como imposição da pública, isto é, na idealização de uma sociedade igualitária em bens e rendimentos, imposta por um programa político, a partir do governo e do estado (o Estado Social, se quiserem). Os liberais entendem – e bem – que a melhor maneira de permitir que as pessoas melhorem as suas condições de desconforto existencial é o livre-mercado, e que o estado – por várias razões que não cabe, aqui e agora, explorar – promove e aprofunda a desigualdade social com as suas políticas de redistribuição.

No fim de contas, aquilo que os liberais defendem é que a «História» possa ser um «cemitério» de «consumidores», evocando aqui o velho dogma de Mises, para quem o liberalismo é a expressão da «soberania dos consumidores». Mas nunca um «cemitério de elites».

Fevereiro 9, 2013

brasil, 1970

Filed under: Diversos — rui a. @ 13:56

Brasil, década de 1970. Almocei ontem com um amigo brasileiro que viveu esses tempos no estado do Mato Grosso. Nessa altura, dizia-me ele, não havia lei nem ordem nessa extensa região do país, como, de resto, acontecia em muitas outras. As coisas decidiam-se pela força bruta. Todos os homens andavam armados com «pistola e facão», para defenderem as suas vidas ou para atentarem contra as alheias, se, por alguma razão, isso lhes fosse conveniente. O direito à vida não existia: existia somente o direito da força, sobrevivendo quem conseguisse resistir. O direito de propriedade também não: lembra-se este meu amigo de inúmeros casos de proprietários rurais, que tinham adquirido as suas terras comprando-as ou apropriando-se originariamente delas com o seu trabalho, serem esbulhados por milícias armadas que os expulsavam daquilo que era legitimamente seu. Ao mais ténue gesto de resistência, e às vezes nem isso, a resposta vinha por um cano de fuzil. Quem matasse ou roubasse ficaria incólume, desde que tivesse a força consigo.

A chegada da administração pública ao território, ocorrida nas décadas de 80 e 90, sobretudo da polícia armada e dos tribunais, permitiu que esta terra de ninguém passasse a ter lei e ordem, e que as pessoas, em razão disso, adquirissem direitos, entre eles, o direito à vida e à propriedade. Hoje, o Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul, este último, parcela do anterior estado de que foi desmembrado em 1977 para melhor garantir a eficácia da administração pública, encontram-se em pleno desenvolvimento e viram ascender uma imensa categoria de proprietários e de cidadãos. A prosperidade e o desenvolvimento floresceram, fruto, antes de mais, da existência de ordem pública e da lei que se aplica eficazmente a quem a puser em causa. As condições de vida não se comparam ao que eram ainda há uns escassos trinta anos. São incomparavelmente melhores.

Esta história tem pouco mais de trinta anos e representa a passagem de um «estado de quase natureza» social para um modelo de organização monopolista da coerção e da administração judicial. Não custa admitir que seja semelhante ao que sucedeu em inúmeros outros locais, em diferentes momentos, onde essa transição foi mais precoce por motivos históricos. Na Europa Feudal, por exemplo, para o ciclo posterior dos estados-nação renascentistas. Em face disto, há algumas perguntas que devem ser feitas. Primeiro, por que razão as pessoas se submeteram à autoridade pública do estado central, em vez de defenderem a preservação do seu status de vida anterior? Segunda, por que não surgiram agências privadas de protecção que oferecessem segurança às pessoas que dela precisassem, na verdade, a esmagadora maioria delas? E terceiro, por que razão a lei e a ordem impostas pelo estado federal brasileiro permitiram que fossem garantidos os direitos à vida e à propriedade, e as condições para a cooperação social, que a anterior situação, onde esse estado estava ausente, ignorava por completo?

Volto a frisar que esta história é verdadeira. Não resulta de exercícios de lógica pura, nem saiu de páginas de livros que exaltam a liberdade em detrimento do estado, ou o estado em detrimento da liberdade. Foi assim e, como ela, muitas outras semelhantes. A meu ver, isto merece reflexão séria.

Janeiro 22, 2013

o «liberalismo» radical e revolucionário de hans-hermann hoppe

Filed under: Diversos — rui a. @ 03:12

Hans-Hermann Hoppe é uma das grandes referências do dito «liberalismo» anarco-capitalista, cuja influência doutrinal começa a ser preocupantemente dominante na maioria dos think tank libertários/liberais actuais. A outra é, como se sabe, Murray Rothbard, de quem Hoppe é o discípulo predilecto e o grande herdeiro intelectual. Esta doutrina tem dois pressupostos essenciais: a recusa do mundo moderno e um ódio vesgo ao liberalismo clássico, que ambos consideram responsável por esse mundo degenerado em que vivemos.

.

Esses pressupostos são explicados e propõem consequências.

.

As explicações são simples: o liberalismo clássico terá criado uma legitimação do governo, ao desenvolver a teoria do contrato social para explicar a existência do estado-nação e do governo. Por sua vez, as constituições políticas, que consagraram, nos séculos XVIII e XIX, governos reduzidos e respeitadores dos direitos fundamentais, não foram senão os embriões dos governos social-democratas do nosso tempo. O governo, tal como hoje o conhecemos nos países ocidentais mais intervencionistas, seria, assim, consequência directa da doutrina liberal clássica constitucional, pelo que esta seria de rejeitar liminarmente pelos verdadeiros amantes da liberdade: «o liberalismo, na verdade, contribuiu para a destruição de tudo aquilo que ele havia proposto preservar e proteger: liberdade e propriedade», afirma Hoppe. Marx e Keynes não existiram, portanto.

.

As consequências destes pressupostos são corolários seus evidentemente naturais: o futuro da «liberdade» passaria pela rejeição «revolucionária» da social-democracia, filha do liberalismo clássico, pela «denúncia dos governos democráticos como sendo ilegítimos», e, politicamente, pelo retorno «aos primórdios do liberalismo como um credo revolucionário», que deveria passar a lutar, revolucionariamente, pela «decomposição do estado-nação».

.

Estas ideias e as transcrições aqui incluídas, que resumem bem o pensamento ancap sobre o liberalismo clássico, integram um interessante artigo de Hans-Hermann Hoppe, aqui traduzido, e que tem o sugestivo título de O futuro do liberalismo – um apelo para um novo radicalismo. Vamos, então, tecer algumas considerações a seu respeito.

(mais…)

Janeiro 13, 2013

a «ética» de rothbard

Filed under: Diversos — rui a. @ 22:27

«Mantém a liberdade tão próxima quanto o possível da moralidade», recomendava Lord Acton, que reforçava esta convicção dizendo que «a liberdade é mais uma questão moral do que política». Acton, que era um liberal clássico, seguia a tradição: para ele, o exercício da liberdade estava condicionado por um juízo moral objectivo sobre o bem e o mal, com a finalidade de «orientar as nossas vidas e, mostrando-nos quais acções são boas e quais são más, preparar-nos para praticar uma e evitar a outra», como dizia, por sua vez, John Locke.
.
Na tradição liberal clássica, da qual Mises e Hayek são os principais herdeiros e actualizadores do nosso tempo, a ideia de liberdade era indissociável da ética, a ética da responsabilidade e a responsabilidade e a ética de um juízo objectivo da moral, podendo esta consistir na distinção entre o bem e o mal estabelecidos por Deus (Acton), pelas regras de justa conduta que decorrem da tradição (Hayek), ou pelas prácticas mais convenientes e úteis à vida (Mises). O direito de propriedade, que todos os liberais consideram absoluto e que é, na tradição liberal, o direito de onde todos os outros decorrem, tem, assim, na visão clássica, um fundamento que não se esgota em si mesmo, mas que pressupõe, por um lado, uma dimensão ética e cristã do direito ao que é adquirido pelo esforço do trabalho individual, e, por outro lado, uma finalidade própria, que é a de permitir que o indivíduo construa e determine a sua vida, orientando-a por uma escolha permanente entre o bem e o mal, o justo e o injusto, o certo e o errado.
.
A ética da propriedade privada que fundamenta o liberalismo libertário anarco-capitalista de inspiração Rothbardaiana, que ultimamente tem dominado os think tank liberais, separa, de forma estanque, a ética da moral. Para Murray Rothbard, a ética é uma coisa e a moral é outra. Ambas podem estar, segundo os seus princípios, completamente separadas, podendo ser inclusivamente antagónicas, sem se contradizerem ou invalidarem. Segundo Rotbard, a ética da liberdade fundamenta-se na propriedade privada. Esta, por sua vez, resulta do princípio originário do direito à propriedade do corpo, do qual decorrem todos os «títulos de propriedade privada que são justos – que emanam do direito natural de possuir a si próprio e a propriedade que ele tenha transformado através da sua força ou que tenha sido dada ou legada voluntariamente a ele por estes transformadores» (Rothbard, A Ética da Liberdade).
(mais…)

Dezembro 2, 2012

«amor»

Filed under: Diversos — rui a. @ 22:17

No Portugal Contemporâneo.

Novembro 27, 2012

deitar fora a criança com a água do banho

Filed under: Diversos — rui a. @ 22:20

Um post que editei aí em baixo suscitou a já habitual animosidade ancap contra o constitucionalismo liberal, nascido no século XVIII e disseminado na Europa e na América na centúria seguinte, por se ter demonstrado insuficiente, ou mesmo incapaz, de conter a soberania e os abusos do governo. Perante isto, de nada vale alegar que o constitucionalismo derrubou o Ancien Régime e a absoluta arbitrariedade do poder absolutista (basta pensarmos na inexistência de qualquer respeito pelos direitos individuais, traduzida, por exemplo, na prepotência da maioria dos processos criminais vigentes nesses países, nas abomináveis lettre de cachet utilizadas pelos soberanos franceses, na discricionariedade do exercício do poder público, ou na excepcionalidade de certos estatutos pessoais em desfavor de outros) e que assegurou, nos países em que se aplicou, mais do que um século de relativa liberdade política e económica.

.

E´certo que o estado e a soberania conseguiram, sobretudo a partir de Weimar, perverter o sentido originário da Constituição, que era, como lembra bem Hayek, o de «poder limitado», transformando-a de um documento garantístico e orgânico, num instrumento programático de governação. Para esta subversão contribuíram, como quase sempre sucede quando se estraga o que tem mérito, as boas intenções sociais (garantir o emprego, o desenvolvimento económico, o apoio aos mais desfavorecidos, etc.), o abuso da legitimidade democrática, transformada em processo legitimador das decisões do governo, em vez de processo legitimador da mudança de governo, e, sobretudo, uma total e completa falta de noção do que devem ser os limites da acção da soberania ditados pelo direito natural.

(mais…)

Novembro 26, 2012

sem tirar nem pôr

Filed under: Diversos — rui a. @ 00:09

O liberalismo contemporâneo, sobretudo na sua corrente ancap, actualmente dominante nos think tank liberais, declarou guerra ao estado, ao governo, ao poder público, por outras palavras, à política, sem, contudo, se esforçar por os tentar compreender. Limita-se a demonstrar a superioridade moral da liberdade individual face ao poder público e a natural eficiência do mercado perante o fracasso das economias intervencionadas e planificadas, e ignora completamente as razões pelas quais a política e a soberania são uma constante das sociedades humanas. Não estuda nem tenta compreender o que são a vontade de poder, por um lado, e o desejo de protecção e de tutela pública, por outro. Contesta o estado, as suas ineficiências e os seus abusos, mas é incapaz de explicar por que razão o encontramos, sob as mais diversas formas, em todas as sociedades humanas. «Explicar» o fenómeno como Rothbard o fez no The Ethics of Liberty, dizendo que os estados modernos foram fundados por bandos de saqueadores e bandidos é arrumar o problema com um erro histórico, por ignorar as razões comunitárias e identitárias que estiveram na génese de quase todos eles, mas também uma forma grosseira de olhar para o poder e para as relações de soberania, que são muito anteriores à eclosão dos estados com a configuração dominante que hoje lhes conhecemos e a que Rothbard se referia. Demonstrar que os direitos de propriedade devem prevalecer sobre todos os demais, não serve para explicar por que razão muita gente não se importa de prescindir de parte do que lhe pertence, ou poderia vir a pertencer numa sociedade de mercado livre, em favor de quem lhe promete segurança, prosperidade e paz. Mesmo em momentos de completa ruptura com um modo de vida feito à sombra do estado, como sucede actualmente em Portugal, no qual os sucessivos governos confessam uma completa incompetência para cumprir os seus fins mais elementares, continuam a ouvir-se, um pouco por todo o lado, insistentes apelos ao estado, para que resolva os problemas que ele próprio gerou. A isto, o que tem dito e respondido o liberalismo actual? Nada.

.

Não responde nada, mas entretém-se a declarar guerra ao mundo em que vivemos e que, em boa medida, foi herdeiro de algumas das suas melhores tradições. O constitucionalismo oitocentista, a quem todos ficamos a dever uma imensidão de direitos individuais e de cidadania, é relegado para o plano das inutilidades e, mesmo até, das perversões (Huerta de Soto foi o último a aderir à moda…). A democracia é um mal a evitar. O reconhecimento da evidência da existência do estado e as consequentes tentativas de contenção do seu poder são um insulto minarquista à liberdade e à propriedade..
.
Num comentário a um post meu no Blasfémias, de algumas semanas atrás, o meu amigo José Manuel Moreira, um dos poucos liberais verdadeiramente clássicos que ainda vou conhecendo, escreveu que «o verdadeiramente grave para o Liberalismo do nosso tempo é o seu apoliticismo, o não se perceber que a liberdade económica significa muito pouco sem a política.». E´ isto mesmo, sem tirar nem pôr.

Novembro 24, 2012

de mal a pior

Filed under: Diversos — rui a. @ 17:10

Aproveitando o simpático lembrete do meu amigo Rodrigo Adão da Fonseca, servido na forma inteligente (como não poderia deixar de ser) de uma marretada com luva de pelica, recordando-me que sou ainda membro deste blog e sugerindo-me um “regresso à aldeia” donde nunca me senti verdadeiramente ausente, aproveito o descuido para entrar, hoje, no blog, com a finalidade de recordar um ponto em que insisto há muitos anos e que me parece crucial para o momento em que (todos) vivemos. Espero que ninguém se zangue com esta entrada intempestiva, estrategicamente programada para um sábado ao final da tarde, quando ninguém lê blogs, mas, se alguém se ressentir, a culpa foi do RAF…

O ponto é muito simples: o liberalismo não é uma filosofia de governo e de estado, mas uma filosofia sobre o governo e sobre o estado. Logo, como resulta evidente, não serve para programa de governo, porque um programa de governo – qualquer que seja – é sempre intrusivo da liberdade individual, se esta for entendida como a capacidade de se tomarem decisões sem a sua intermediação. Como filosofia política, o liberalismo é uma pedagogia de cidadania, porque demonstra que qualquer pessoa tem mais vantagem em ver-se livre do estado do que ficar dependente dele. Como filosofia económica, o liberalismo explica que o mercado livre, isto é, o mercado não intervencionado pelo estado, satisfaz melhor os consumidores do que um mercado onde os empresários tenham de partilhar as suas decisões com os políticos e os burocratas. O liberalismo é, assim, uma filosofia que tem destino individual (não poderia ser de outro modo), e que é dirigida a cada um dos membros da sociedade, tentando demonstrar-lhes que eles têm mais a ganhar em serem livres e responsáveis por si próprios, do que dependentes do paternalismo e do protecionismo do governo. Só uma sociedade responsável e adulta, isto é, na qual predominem estas a convicções, poderá aproximar-se do ideal de liberdade que os liberais clássicos protagonizam. Daí a importância das ideias, como Mises sempre salientou, não porque elas possam vir a ser executadas por um governo eleito, mas porque elas podem impedir os abusos do governo, se forem socialmente predominantes, porque os governos sempre querem ganhar eleições e não podem, para isso, contrariar os sentimentos dominantes do eleitorado.

Nessa medida, é sempre ilusório acreditarmos em “promessas liberais” de políticos. Não quer isto dizer que quem as faça não as faça com absoluta seriedade e não esteja absolutamente convicto do que diz, mas uma coisa é ser-se cidadão, ainda que político, coisa diferente é ser-se governante, e não devemos ficar surpreendidos com as contradições inerentes a cada um desses estatutos. Sobretudo no estado de emergência nacional em que Portugal se encontra, ao qual foi condenado por décadas de políticas socialistas que comprometeram o nosso futuro, e em que os asfixiantes buracos da tesouraria do estado impedem qualquer reflexão de médio longo prazo. E é por isso mesmo que isto só poderá ir de mal a pior.

Julho 20, 2009

obrigado

Filed under: Diversos — rui a. @ 13:07

Cesso hoje a minha colaboração n’ O Insurgente, onde tenho escrito, de forma muito irregular e inconstante, desde Fevereiro de 2008. A decisão é inteiramente individual, e não resulta de qualquer condicionamento que me tenha sido imposto, ou limitação ou crítica que tivesse eventualmente sentido, o que nunca aconteceu em momento algum. Sucede que O Insurgente já existia muito antes de eu aqui ter iniciado a minha colaboração, e que nele se juntam pessoas que, por razões diversas, podem sentir-se menos confortáveis com opiniões que tenho publicado, nas últimas semanas, sobre o PSD, as suas principais figuras e a direita portuguesa em geral. Entendo, assim, que não tenho o direito e não as devo constranger, num espaço de que não sou proprietário, e para o qual fui generosamente convidado a escrever. Resta-me agradecer a todos, em particular ao André Azevedo Alves, que, com talento e inequívoco espírito liberal, fez deste blog uma referência nacional, pela oportunidade que me deram, e aos (certamente poucos) leitores que, ao longo deste tempo, me foram prestando alguma atenção, e a quem senti ser devida esta explicação. Obrigado a todos e continuação do êxito que têm tido até agora.

Julho 19, 2009

silêncio, por favor

Filed under: Diversos — rui a. @ 07:08

Até ao dia 27 de Setembro próximo, a direita portuguesa é intocável. Não se pode criticar, não se pode censurar. Não se pode sequer perguntar o que nos pretende ela fazer, após essa data, com o nosso voto, caso e se vier a conquistar o poder. Expulsar o eng.º do governo é uma missão patriótica e quem se lhe “opuser” comete crime de lesa-pátria. Até 27 de Setembro, despojar o eng.º do poder é o verdadeiro programa do PSD. Depois daí, se o partido ganhar as eleições e formar governo, com ou sem o CDS a tiracolo, logo se verá. Faça-se silêncio pois, e não se perturbem as eminências que, na S. Caetano à Lapa e um pouco por esse país rural fora, têm sobre os seus ombros tão pesada e transcendente responsabilidade.

Julho 18, 2009

em busca da verdade

Filed under: Diversos — rui a. @ 13:19

JosePedroAguiarBranco

José Pedro Aguiar Branco, o 5º deputado mais faltoso da actual legislatura, será o cabeça de lista do PSD, pelo Porto, às próximas legislativas. O PSD em busca da verdade.

Julho 16, 2009

o liberalismo é de esquerda?

Filed under: Diversos — rui a. @ 20:07

Gladstone%20&%20Disraeli

A Inglaterra política do século XIX é inteiramente dominada por duas figuras ímpares: William Ewart Gladstone e Benjamin Disraeli. Ambos nascidos para a política no seio do Partido Conservador, os tories, haveriam de romper politicamente em 1855, quando Gladstone abandonou aquele partido para ingressar no Partido Liberal, os whigs, do qual se tornaria líder, mais tarde. A razão da desavença foi pessoal e de princípios. Gladstone não suportava Disraeli e este retribuía-lhe igual estima chamando-lhe frequentemente “Tartufo”. Numa carta endereçada a Lord Derby, Disraeli escreveu:”A posteridade fará justiça a Mr. Gladstone, esse maníaco sem princípios, a essa extraordinária mistura de inveja, vingança, hipocrisia e superstição”. Nos princípios, Gladstone era liberal, enquanto Disraeli era conservador e proteccionista.

William Gladstone foi primeiro-ministro por quatro vezes, entre 1868 e 1894. Disraeli foi-o também, mas apenas por duas vezes, entre 1868 e 1880. Um e outro exerceram os mais elevados cargos políticos do seu tempo, o primeiro como torie e, mais tarde, enquanto whig, e o segundo mantendo-se como membro do Partido Conservador, que conquistou a pulso e graças a inúmeras dissensões e rupturas internas.

Enquanto Ministro das Finanças, cargo que exerceu por quatro vezes, e Primeiro-Ministro, Gladstone aboliu mais de mil tarifas existentes no Reino Unido, que representavam cerca de 95% da totalidade desses encargos. Reduziu os impostos sobre a renda a uma quota única de 1,25%, sendo que tinha por objectivo eliminá-lo completamente. Liberalizou o comércio, reduziu as tarifas alfandegárias, liberalizou as relações comerciais com a França, o velho inimigo, e também com a Áustria, a Bélgica e os estados alemães. Extinguiu ou reduziu toda a espécie de impostos e tarifas que conseguiu (imposto de renda, como já referido, as taxas sobre o papel, o lúpulo, a madeira, a pimenta, o açúcar, o vinho, entre muitos outros). Em política internacional, Gladstone era um pacifista nato, tendo advogado a arbitragem internacional para a resolução de conflitos, no que foi absolutamente inovador e também muito contestado internamente, no seu país. Em matéria de costumes e de religião, Gladstone era um crente profundo, achava-se predestinado pelo Altíssimo (“O Todo-Poderoso parece estar a poupar-me e a apoiar-me em vista de algum grande propósito, por mais que eu me julgue indigno. Glória a seu nome”, escreveu ele, um dia, no seu diário, a propósito das suas intenções pacificadoras da Irlanda). A quem o queria ouvir costumava afirmar: “Ah! A noção do pecado, eis a grande carência da vida moderna”.

Benjamin Disraeli era um político profundamente distinto do seu rival. Proteccionista, aumentou impostos, atacou a legislação liberalizadora do comércio internacional, legalizou e protegeu os sindicatos, criou diversa legislação laboral, tendo fixado a duração diária do período de trabalho, regulamentado o trabalho feminino e infantil, e produziu inúmera legislação de proteccionismo social. Na política externa, era um expansionista defensor do Império Britânico, e tudo fez para o manter e aumentar a sua área de influência, sobretudo em África e na Ásia. Não era um homem de convicções religiosas profundas, nem lhes recorria para fundamentar as suas ideias políticas.

Gladstone e Disraeli são, assim, dois modelos paradigmáticos do liberalismo clássico, o primeiro, e do conservadorismo, o segundo. Gladstone reduziu o poder do estado e do governo, deu mais liberdade e responsabilidade individual aos ingleses, foi um cosmopolita no domínio das relações internacionais. Disraeli tinha da sociedade a noção conservadora de que tudo nasce na política, e que esta deve ser protagonizada por um estado robusto e interventor. Gladstone procurou conservar o liberalismo clássico e o estado mínimo que tinham permitido a Revolução Industrial, e Disraeli foi um profeta e o primeiro construtor do Estado Social inglês.

Nesta medida, cabe aqui perguntar, invocando as afirmações contidas no artigo de hoje, no i (O liberalismo é de esquerda), do Prof. João Cardoso Rosas, se o liberalismo clássico de Gladstone se situava, utilizando os critérios que utilizou, mais à esquerda ou à direita, colocando a mesma questão para o conservadorismo de Disraeli. Quando Cardoso Rosas escreve que Durante o século 19, antes do triunfo do socialismo, ser de esquerda ou ser liberal era a mesma coisa”, estaria a pensar nos whigs e nos tories de Gladstone e Disraeli? Parece-me bem que não.

os silogismos do professor rosas

Filed under: Diversos — rui a. @ 05:48

Surpreende-nos, mais uma vez, o Prof. Cardoso Rosas. Neste artigo estabelece o seguinte silogismo: a direita portuguesa é conservadora; a direita portuguesa não é liberal; logo, o liberalismo é de esquerda. O liberalismo do Prof. Rosas fica-se por John Stuart Mill, segundo ele o “liberal” do “século 19″, John Rawls, o “liberal” do “século 20″, e esse grande doutrinador com vasta obra publicada que responde pelo nome de Barack Obama, provavelmente o maior liberal do século XXI, digo eu. Enquadramento rigoroso e exacto para um especialista em Teoria Política, como se vê.

Julho 9, 2009

não mais do que isto

Filed under: Diversos — rui a. @ 19:52

president-ronald-reagan1

Ninguém tem a ilusão ou ingenuidade de conceber um Partido Social Democrata liberal. Tão pouco imaginar que é possível, em Portugal, um governo verdadeiramente liberalizador da sociedade, da economia e da política em geral. O liberalismo, como reiteradamente tem sido dito e escrito, não é um programa de governo e não serve de ideário partidário. É mais uma pedagogia social do que política. Serve mais para tornar os cidadãos conscientes dos seus direitos perante a política e o estado do que para operar o milagre do estado e do governo lhos reconhecerem unilateralmente.

Posto isto, entre o socialismo e a economia de mercado existe um espaço muito razoável. Aquilo em que temos vivido é, de há trinta anos para cá, socialismo mais ou menos soft, mais ou menos hard, conforme quem governa e as circunstâncias da época. O que se esperaria, neste momento, do PSD não era a sua transformação num partido defensor de um estado mínimo, tão pouco um feroz inimigo do estado. Mas também não era de esperar que viesse dizer que o estado actual é para manter, com diferenças de pura metodologia governativa.

Mesmo para um partido social-democrata é possível reduzir os impostos, aumentar a participação da sociedade na vida civil, devolver a esta funções que abusivamente o estado lhe foi retirando ou impondo, como a educação e a segurança social, privatizar mostrengos e prostíbulos do regime como a CGD ou a RTP, limitar os abusos do poder, tornar clara e eficaz a justiça, simplificar as leis, impor responsabilidade ao estado e aos seus agentes na relação com os cidadãos, diminuir a capacidade de ingerência dos poderes públicos na vida privada, revogar leis iníquas, fazer findar os métodos medievais de obter “justiça”, como as listas de “criminosos”, etc.

Estranhamente, sobre tudo isto o PSD não se tem pronunciado. E não é necessário produzir um tratado político de governação para dizer a um país o que se pretende fazer destas coisas. Reagan reformou e relançou a América e foi sempre um homem de ideias simples e lineares. E muito claras, acima de tudo. Até ao momento, sabemos duas coisas do PSD de Manuela Ferreira Leite: que se identifica com o Estado Social descrito (mas não cumprido) pelo governo socialista; que não descerá os impostos, porque não lhe será possível fazê-lo. Estamos, assim, em regime de puro rotativismo do bloco central, onde tudo se conserva, nada se transforma e onde as coisas devem permanecer como são, por não haver espaço para outras. O PSD poderá servir para desalojar Sócrates e os seus do governo. Para criar o tradicional estado de graça e a ilusão de que tudo será melhor, por um ano ou dois. Mas não mais do que isto.

pode deixar na gaveta

Filed under: Diversos — rui a. @ 15:37

gaveta

Manuela Ferreira Leite anunciou que, ao invés do que dissera há alguns dias, afinal não pretende “rasgar” nenhuma política social do actual governo, com as quais, aliás, concorda, apenas lamentando que elas não tenham ido mais longe, isto é, que não tenham tido “execução prática” na maior parte dos casos. Por outras palavras, a líder do PSD confirmou o que só um cego ainda não tinha visto: que ela é uma acérrima defensora do Estado Social, que quer manter e aprofundar, gerindo-o, se possível, melhor do que o Partido Socialista. Desenganem-se, pois, os que mantiveram a ilusão de que dali poderia resultar um programa de governo liberalizador ou uma visão da sociedade portuguesa diferente da que tem o Partido Socialista. Aliás, estas declarações resultam, em boa medida, da necessidade que Manuela Ferreira Leite terá sentido de se desmarcar dessas “tendências liberais”, alegadas estrategicamente pelo marketing do PS para a diminuir eleitoralmente. Manuela foi atrás do marketing socialista e confessou ao país o que lhe vai na alma. Depois disto, por mim, pode bem deixar na gaveta o programa eleitoral do PSD.

Julho 3, 2009

o pepino

Filed under: Diversos — rui a. @ 16:38

beavis_and_butthead

O Toneca era um menino muito engraçado. Precoce desde pequenino, respondão e danado para a brincadeira. Era o orgulho dos pais e o terror dos vizinhos. E da avó, cujos santinhos imaculados não tinham descanso de tantos bigodes e barbichas que lhes fazia. O Tareco, o gato do andar de cima, também não tinha sossego. Sempre que o Toneca o apanhava a jeito amarrava-lhe um extenso fio ao rabo, cheio de latas de coca-cola e outros refrigerantes gaseificados, com que o bichano corria rua abaixo num chinfrim infernal. Os pais achavam-lhe muita piada, admiravam-lhe a rebeldia e estimulavam-lhe o génio. Torceram-se a rir quando ele atirou um prato de farinha maizena à cara de um colega da escola, depois de lhe ter dito que ele tinha cara de bolacha. Que coisa engraçada! Que pilhéria! Que talento!

Um dia, o pai levou o Toneca para o emprego. A escola tinha acabado, a mãe estava a fazer as unhas na manicure, a empregada de baixa da caixa, e o rapaz não tinha onde ficar. Ficou sentado a um canto da sala onde o pai escrevia ao computador. Quando o senhor Antunes ia a passar – o Antunes era o genioso dono da empresa -, o Toneca achou-lhe graça à barrigaça protuberante, à careca avançada e ao enorme nariz avermelhado, e não esteve com meias medidas: pôs-lhe a língua de fora e fez-lhe uns corninhos com os dedos, enquanto soltava alguns horríveis e sonoros esgares. O pai ainda o correu à bofetada e ao pontapé, mas já não valeu de nada: estava a recibo verde e, no dia seguinte, já não trabalhava na empresa do impiedoso Antunes.

Moral da estória: de pequenino se torce o pepino.

Junho 29, 2009

a arrogância fatal

Filed under: Diversos — rui a. @ 15:54

Uma das mais notáveis características do pensamento socialista é a sua absoluta falta de humildade. O socialismo tem, para tudo, solução. E quando o problema é de natureza económica, a solução é sempre a mesma: o aumento da despesa pública.

Este documento subscrito por um grupo numeroso de economistas portugueses não traz, por isso, nada de novo. Apesar de nele se reclamar a urgência de “uma nova política económica e financeira”, baseada no investimento público como fonte criadora de riqueza e de emprego, cabe aqui perguntar o que andaram a fazer os governos socialistas e de orientação keynesiana nas últimas décadas.Em Portugal, por exemplo, essa estratégia foi seguida por Aníbal Cavaco Silva, um keynesiano assumido, cujos governos ficaram célebres pelas políticas do betão e dos grandes investimentos em obras públicas. Foi seguida por António Guterres, que investiu fortemente em políticas ditas sociais, tais como o rendimento mínimo, o ensino público (a “paixão pela educação”, lembram-se?), o serviço nacional de saúde, a reforma da segurança social estatal, os IC’s, etc.. Não foi abandonado por Durão Barroso, num governo que durou pouco tempo e que manteve inalterável toda a estrutura do Estado Social. E foi o programa de governo de José Sócrates, com o qual ele tentou criar cento e cinquenta mil novos postos de trabalho, que obviamente não conseguiu.

Ou será que não foi assim? Ou será que António Guterres e José Sócrates não governaram à esquerda? Ou que Cavaco Silva não fez do investimento público a marca da sua governação? Ou que o estado português não continua a consumir mais de 50% do PIB nas despesas que decide politicamente e que considera prioritárias?

Imaginar que a crise portuguesa é resultado de “especulação financeira” (em Portugal?), de “mercados mal regulados” (se falarmos do mercado português, onde tudo é regulado ao mais ínfimo pormenor, só se for certamente por excesso de regulação), ou por “escassa capacidade política” (não será seguramente do legislador português) é partir de um mundo irreal, que não corresponde àquele em que vivemos.

Há, talvez, uma passagem no documento que nos pode ajudar a perceber o equívoco, quando os seus subscritores dizem que estamos perante uma “quebra conjuntural da procura privada”. É que ela já não é “conjuntural”, mas estrutural. Por outras palavras: a economia privada está falida, as empresas e as pessoas não têm dinheiro, e, por isso, não são capazes de investir capitais que não têm, que não conseguem acumular, tornando-se consequentemente incapazes de gerar riqueza e emprego. A explicação talvez seja mais simples do que parece: é que a economia pública, na qual temos vivido nas últimas décadas, vive dos recursos gerados pela economia privada. Em si mesma não produz nada, não cria coisa nenhuma, a não ser trabalho temporário e ilusões estatísticas. Sendo os recursos económicos limitados, se o estado os vai retirar aos cidadãos e às empresas, estes ficam sem eles e vão naturalmente empobrecendo. É esse o problema da economia portuguesa: a sua quase inexistência.

Junho 28, 2009

mil e quantos?

Filed under: Diversos — rui a. @ 00:33

O PS parece estar de cabeça perdida. Fazer da criação de emprego, com números certos e redondos, uma promessa eleitoral, só pode fazer lembrar aquela outra dos cento e cinquenta mil. Convenha-se que, em vésperas de eleições e com os números do desemprego da legislatura, é memória que não convém avivar.

Junho 27, 2009

dois meses

Filed under: Diversos — rui a. @ 17:00

Cavaco Silva marcou as legislas para 27 de Setembro, antes das autárquicas, portanto. O único partido a quem a decisão não agradou foi, obviamente, o PSD, que perde a possibilidade de chegar às legislativas em crescendo, após uma quase inevitável vitória nas autárquicas, pelo menos, nas cidades mais importantes do país. O PSD tem dois meses para mostrar o que vale, já que o mês de Agosto não conta para a política. Esperemos que chegue. A ver vamos.

Junho 25, 2009

síntese

Filed under: Diversos — rui a. @ 02:18

TGV não, mas há indemnizações pesadas a pagar (quem sabe não vale mais a pena fazê-lo, digo eu), Alcochete sim, investimento público sim. Declarações de Manuela Ferreira Leite transcritas no Público.

Junho 24, 2009

o abcesso

Filed under: Diversos — rui a. @ 16:13

Pacheco Pereira inventou uma nova teoria conspirativa: quem pretende conhecer o programa eleitoral do PSD é situacionista, logo, beneficia tacticamamente o PS (com ou sem dolo, não esclarece, mas presume-se que dolosamente, como é próprio de uma conspiração decente). A demonstração, segundo o autor do Abrupto, é elementar: eles, os “situacionistas” não querem saber qual é o programa do PS.
Por mim, quanto ao programa socialista, estou mais do que esclarecido: bastaram-me os últimos quatro anos de governo e a intenção já declarada do primeiro-ministro de que o “rumo” é para manter. É preciso dizer ou pedir mais alguma coisa?

o que importa saber

Filed under: Diversos — rui a. @ 00:50

ps-psd

Eu não critico o Partido Socialista. Critico o socialismo. Eu não critico um governo socialista. Critico um povo que elege democraticamente um governo socialista. Eu não critico um partido socialista que põe em prática um programa de governo socialista. Critico um partido de direita que põe em prática um programa de governo socialista.

Sumariamente, o que o Partido Socialista fez nesta legislatura foi aplicar no governo a ideologia em que acredita e que anunciou aos eleitores. Não mentiu a ninguém, não escondeu que, se fosse para o governo, a sua preocupação seria a de salvar o Estado Social, no qual acredita piamente. Por isso aumentou os impostos, convencido que esse é o melhor meio para conseguir uma justa redistribuição da riqueza e para manter o Estado Social. Simplificou a burocracia, com o anunciado Simplex, não para a reduzir ou eliminar, mas para a tornar mais eficiente e interventora. Deu um poder nunca visto a quem colecta os tributos dos cidadãos, mesmo passando por cima e ao lado de alguns direitos individuais, por acreditar que o todo, o colectivo, vale mais do que as partes, os indivíduos. Apostou no Serviço Nacional de Saúde e no Ensino Público, embora os tenha racionalizado por imposição das necessidades. Atacou algumas corporações (magistraturas, polícias, professores, advogados), porque entende que eles devem ser submissos ao estado, em vez de defenderem os interesses dos seus associados, frequentemente colidentes com o governo, isto é, com o interesse público. Nacionalizou e intervencionou bancos, em vez de deixar as responsabilidades aos seus accionistas.

Tudo isto eu imaginava que pudesse acontecer num governo socialista. Não me espanta. O que me pareceria estranho era que sucedesse o contrário. Por isso, considero uma pura perda de tempo atacar o governo socialista do Eng.º Sócrates. O que me preocupa é o socialismo dos governos de direita, por outras palavras, que não haja, em Portugal, alternativa real ao socialismo e ao estatismo.

De facto, o que os governos dos partidos da direita do regime nos têm dito e feito é que não há alternativa ao Estado Social. Que é nele que temos que viver e que ele é a melhor forma de organizar politicamente a sociedade portuguesa. E é nele que nos têm obrigado a viver, quando passam pela governação. O que esses partidos nos dizem é que são melhores a organizar e a gerir o Estado Social. Que conseguem administrar melhor o Serviço Nacional de Saúde, a Segurança Social, as escolas, as universidades, os tribunais, a receita pública, o rendimento mínimo, as empresas públicas. Não propõem um modelo de estado e de vida societária que não seja o Estado Social. Apenas uma forma diferente de o gerir e outro pessoal supostamente mais qualificado. Portugal deve ser provavelmente a única democracia do mundo em que o poder roda entre dois grandes partidos social-democratas. Entre dois partidos que defendem o Estado Social.

Ao contrário do que se possa pensar, as críticas que aqui tenho feito ao longo dos últimos dias ao PSD não pretendem que este partido se transforme num arauto do liberalismo. Sei bem que, por definição, o liberalismo não é uma ideologia ou um programa de governo. Não existem partidos liberais, como não existem estados ou governos liberais. O que existem são sociedades mais liberais do que outras, dotadas de fortes instituições civis, conscientes da necessidade de imporem regras, limites e parâmetros à actuação do governo. A história da liberdade é a da resistência dos cidadãos e das suas comunidades aos abusos, atropelos e arbitrariedades do estado. E existem partidos e governos que contribuem mais do que outros para o reforço das suas sociedades, do tecido social, empresarial e institucional, da liberdade individual. Por vezes por acreditarem que esse é o caminho certo, na maior parte dos casos porque a pressão social a isso os obriga. Baixa tributação, privatização das funções sociais do estado, supletividade de intervenção do poder público face ao poder civil, instituições de justiça transparentes, céleres e fiscalizadas, orçamentos públicos reduzidos e controlados, regras simples e desburocratizadas para o comércio, são algumas das medidas que alguns governos não-socialistas põem em prática.

O que se trata de saber em relação ao PSD é, no fim de contas, apenas isto: continua a acreditar no Estado Social, propondo-se apenas geri-lo melhor do que o governo actual do Partido Socialista, ou pretende um modelo de estado diferente para Portugal?

Junho 22, 2009

não dá votos

Filed under: Diversos — rui a. @ 18:57

Existe uma tese francamente dominante no país politicamente letrado, segundo a qual os partidos da direita não podem assumir nenhuma forma de liberalismo, porquanto com isso perderiam votos e eleições. Na blogosfera tem sido o leitor e comentador José Barros a difundi-la mais coerentemente.

Subjaz a esta ideia uma outra. A de que o eleitorado é tendencialmente de esquerda e quer ser protegido pelo estado. Logo, um partido que prometa menos estado não tem qualquer hipótese de chegar ao governo, donde o CDS e o PSD prometem “melhor estado”, em vez de prometerem um estado menor.

Eu não nego que os factos lhe dêem razão. Não me lembro, na verdade, de nenhum governo de direita que tenha, nos últimos anos, seguido um road map liberal, tão pouco de ouvir os dirigentes desses partidos reclamarem por menos estado e por mais liberdade individual. Pelo contrário, estão permanentemente a demarcar-se do liberalismo, a afirmar que querem o estado em toda a parte, e até mesmo que Portugal não é a Califórnia da Europa (o que, a mim, me parece mal).

Ora, eu julgo que estas posições não são tácticas, mas estruturantes. Penso mesmo que a direita portuguesa não é liberal, mas sim estatista. E julgo que é por essa razão que o país não tem progredido como devia sempre que ela vai para o governo.

já agora…

Filed under: Diversos — rui a. @ 16:20

antonio_x

Uma dúvida que gostaria de ver esclarecida em tempo pré-eleitoral: o PSD e Manuela Ferreira Leite também consideram inevitável um aumento generalizado de impostos após as eleições, como António Lobo Xavier aqui declarou?

não tenciona

Filed under: Diversos — rui a. @ 15:34

“Numa coisa, seguramente, o meu programa vai distinguir-se daqueles que é costume apresentar ao País. É que não tenciono fazer nenhuma promessa que não tencione cumprir, não tenciono mentir aos portugueses”.

Página seguinte »

Tema: Customized Rubric. Blog em WordPress.com.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 3.154 outros seguidores