Visitas que fazem sentido

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A Rússia confirma a visita do Querido Kim Jong-un a Moscovo. Em Maio, a delegação norte-coreana terá a oportunidade de  trocar notas, experiências e impressões ao mais alto nível político com as autoridade russas sobre como governar  países em guerra, falidos e sem comida.

O Syriza e a esquerda portuguesa

O PS pode ter começado a perder as eleições. Por João Marques de Almeida.

A reação da esquerda portuguesa à vitória do Syriza ficará na história da política portuguesa como o dia de todos os disparates. Entende-se que o Bloco de Esquerda celebre a vitória do Syriza, dada a proximidade entre os dois. As celebrações do PS e do PCP são incompreensíveis. O “PS grego” (o PASOK) teve cerca de 5% dos votos. Alguém consegue perceber o que celebrou o PS? Quanto aos comunistas gregos (ideologicamente muito próximos dos portugueses) alcançaram 5,5%. Será que o PCP comemorou o facto dos comunistas gregos terem mais 0,5% do que os socialistas gregos?

Está a correr de feição (2)

Tsipras, dia 2: medidas avançam, mercados em mínimos de setembro de 2012

Tsipras anuncia prioridades. Quer “reestruturar dívida”, aumentar já o salário mínimo e travar privatizações. Bolsa cai 10%, para mínimos desde que Draghi prometeu salvar o euro.

O aristocrata republicano em grande forma

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O Che Che nacional continua sem amigos e família que o estimem e cuidem.

Foi em outubro de 2013 que li o livro de Stephen Emmott, professor ilustre da Universidade de Cambridge, Dez Mil Milhões – Enfrentando o Nosso Futuro.

Apercebi-me então do que seria a dramática situação do planeta se a ganância da globalização dos mercados continuasse, sem regras, em busca do petróleo, furando a terra e provocando trágicas consequências nos oceanos, a que infelizmente temos vindo a assistir nos últimos anos.

Daí, seguramente, a razão por que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, um político de uma inteligência e visão extraordinárias, fez baixar o preço do petróleo por toda a parte, tentando ao mesmo tempo limitar a fúria dos oceanos e a consequente formação de gelo que este ano, excecional, atingiu as duas costas dos Estados Unidos e outros continentes.

No ano passado, o mar, em Portugal, destruiu grande parte das nossas praias. Mas se este ano isso se repetisse – e não gostaria que isso acontecesse – ficaríamos sem praias e sem turismo.

Daí que seja necessário que os cientistas que ainda nos restam e que se interessam por esta área se imponham e responsabilizem o governo pela prevenção dos impactos negativos das alterações climáticas, que tendem a agravar-se.

As indignações selectivas das papoilas saltitantes

O Syriza ganhou na Grécia mas em Portugal a Quinta Divisão já começa o seu trabalho. Por Helena Matos.

Interessante será acompanhar de agora em diante a forma como vai ser noticiada a Grécia. Para já temos a grande operação de apagamento e limpeza sobre o perfil do parceiro de coligação do Syriza. As papoilas saltitantes que estariam a arrancar as vestes com a indignação pelo facto a extrema-direita xenófoba e homofóbica estar num governo da UE agora fazem de conta que não vêem nada.

A “igualdade de género” segundo a esquerda radical: exercício prático

Aguardam-se a qualquer momento as ondas de choque na comunicação social bem pensante: Os Gregos Independentes só ficaram a tutelar um dos ministérios do novo governo grego – e entre os dez que compõem o Governo não há uma mulher.

Ao todo são 40 governantes, contando com os secretários de Estado, sendo que apenas seis são mulheres – nenhuma está na liderança de algum ministério.

A dissidência na esquerda

Ainda não estão volvidos dois dias e a guerrilha sectária na esquerda portuguesa já é notória. Eu é que sou Syriza!, gritam.

Momentos de grande diversão proporcionados pelos Che Guevaras indígenas. A não perder os próximos capítulos, que nos poderão trazer outras dúvidas existenciais de grande pertinência, como: «Seremos todos Syriza?»; «Todos os Syriza são iguais, ou haverá Syrizas mais Syrizas do que outros Syrizas?»; «É possível reconhecer anatomicamente um verdadeiro Syriza português?».

E num tom mais sério

«Ansiedades e perplexidades em torno do movimento syrizico mundial: Prolegómenos de uma problemática pertinente, urgente e consistente» (doutoramento apresentado no ISCTE, sob orientação do Professor Bagão Félix); «Pela mão de Tsipras – O Social e o Político na Pós-Modernidade Syrizica» (doutoramento apresentado na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, sobre a orientação do Professor Boaventura Sousa Sanatos);

Do Rui Albuquerque, no Blasfémias.

a culpa é dos alemães – repetir até acreditarmos

A culpa das desventuras económicas gregas é, como se sabe, dos alemães. Os gregos aldrabaram as contas públicas anos a fio, distribuiram direitos e privilégios que até nos fazem rir a nós, os aprisionados pela CGTP, construiram auto-estradas ao lado de auto-estradas. (Sem surpresa, são estes os atuais heróis dos socialistas costistas.) Mas claro que a culpa da presente crise é dos alemães. Que, evidentemente, têm obrigação de continuar a financiar os desvarios dos gregos em vez de fazerem com o seu dinheiro aquilo que bem entendem. Mais ou menos como dizia há uns tempos um economista alucinado da esquerda portuguesa: nós decidimos qual o nível mínimo com que queremos viver e exigimos à UE que nos financie. A esquerda sempre considerou que tem direitos sobre o dinheiro dos outros, não é nada de novo.

Mas esta suposta culpa alemã pelas desgraças gregas – Alemanha, que, recorde-se, aceitou financiar a Grécia quando já mais ninguém o fazia – tem muito de propagandística.

Em 1960, Kruschev mandou retirar da China todos os diplomatas e técnicos soviéticos, colapsando as relações comerciais entre os dois países e terminando o fornecimento de material militar pela URSS. Em 1960 estava-se, na China, com mortes a eito pela fome gerada pelo grande salto em frente lançado em 1958. E havia uma dívida à URSS de 430 milhões de rublos, que Mao decidiu pagar – para proteger a imagem do sucesso económico do comunismo chinês, e sem que tal lhe fosse exigido pela URSS – até 1965. Em 1962 a China já só devia à URSS 138 milhões de rublos (os números são de Frank Dikotter em Mao´s Great Famine). Como não havia divisas com que pagar à URSS, a China tinha de as obter exportando aquilo que conseguia, sobretudo bens alimentares. Tivemos, portanto, a China a retirar bens alimentares a populações que morriam à fome para pagar um empréstimo que nada a obrigava a pagar tão cedo.

Tudo ao contrário da Grécia, dir-me-ão, que agora quer não pagar a dívida precisamente para aliviar a população grega. E aqui sim, nada coincide. Mas na China a escassez de comida nos anos do grande salto em frente foi – e, oficialmente, ainda é – apresentada como resultante da necessidade de fazer os pagamentos da dívida que a URSS exigia. A fome e as mortes não foram a consequência das políticas absurdas para as obras de irrigação ou para a produção de aço, da coletivização radical, da megalomania de Mao que não entendia que a realidade não se verga à sua vontade. Não, a fome e as mortes deveram-se aos míticos ‘três anos de desastres naturais’ e aos pagamentos à URSS. Ainda hoje é esta a explicação reproduzida pelas populações que só têm acesso às fontes chinesas.

O que é parecido na China de 1960 e na Grécia atual? Os comunistas – e Tsipras é comunista e os socialistas portugueses cada vez mais querem ser comunistas -, pagando as dívidas ou não pagando, culpam sempre outros pelos resultados dos desvarios próprios.

Não acertam uma

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Inebriados pela crónica de uma tragédia grega recentemente votada, os assuntos domésticos, com excepção da romaria a Évora, parecem de menor relevo. Em especial a execução orçamental de 2014, que registou valores que ultrapassaram as estimativas do Governo, estimativas desde logo nada conservadoras. Registou-se um défice entre 3.5% e 3.7% fruto de uma redução de cerca de 1700 M€ face a 2013, e abaixo da estimativa inicial de 4%. 2/3 dessa redução deveu-se a cortes na despesa.

Na sequência disto, o deputado do PSD, Duarte Marques, fez um interessante exercício pedagógico. Comparou os resultados da execução orçamental de 2014 com os vaticínios dos videntes da nossa praça em relação às estimativas produzidas em 2013.

João Galamba, por exemplo, tinha dificuldade em compreender “em que medida este orçamento contribui para a consolidação das finanças públicas”, o que vai em linha com a sua incompreensão generalizada de tantos outros assuntos.

Nicolau Santos, o jornalista keynesiano especializado em laços papillon e em assuntos económicos, afirma mesmo tratar-se de uma “ficção”. E diz mais, “É uma ficção porque assenta num quadro macroeconómico irrealista e porque contempla um objetivo irrealizável”. A precisão das palavras de Nicolau é similar à sua exactidão na escolha de bonitas gravatas.

Pedro Adão e Silva, entre comentários de futebol, de surf e de música, encontrou tempo para comentar um outro assunto no qual também é especialista. “O Governo prepara-se para fazer a mesma coisa em 2014 mas espera obter resultados diferentes. Partindo de um défice de 5,8%, o Governo estima reduzir o desequilíbrio orçamental em 2 pontos percentuais, para 4%, com 4 mil milhões de austeridade. Como e porquê? Ninguém sabe. A loucura prossegue, enquanto assistimos ao espantoso exercício que é queimar dinheiro na praça pública para satisfazer os desejos sadomasoquistas dos credores.“. O nosso especialista em coisas afirma, de Marcuse ao peito e prancha de surf debaixo do braço, que a “A meta do défice será superior ao acordado (4%)”. Assim tipo 4.5%, Pedro? “acima da que o próprio Governo quis que fosse a meta revista (4,5%)”.

O resto está no artigo original no Expresso. Aguardamos também explicações quanto à famigerada espiral recessiva.

Cerco ao Palácio de Cristal – 40 anos depois

Cerco ao Palácio de Cristal: as 12 horas mais longas da vida do CDS

“O Congresso não passará” e “morte aos fascistas” foram as palavras de ordem na noite de 25 para 26 de janeiro de 1975, junto ao Palácio de Cristal, no Porto. Lá dentro, onde já decorrera a sessão inaugural do I Congresso do CDS, estavam agora reféns mais de 700 militantes e convidados, enquanto cá fora estava montada uma batalha campal entre centenas de manifestantes e a polícia. Das 12 horas de impasse resultaram 16 feridos (sem mortes), alguns carros incendiados, a atenção dos meios de comunicação internacionais que temeram que Portugal estivesse a resvalar novamente para um regime autoritário e um susto para a vida. Aconteceu há 40 anos.

O padrão José Manuel Pureza de “serviço público de televisão”

Via Câmara Corporativa, fico a saber que, aparentemente, para o Bloco de Esquerda e para uma parte (?) do PS, o indisfarçável entusiasmo generalizado dos jornalistas da RTP com a vitória do Syriza não foi, ainda assim, suficiente para atingir o patamar exigido ao “serviço público”.

Mais uma razão para lamentar que este Governo não tenha tido a coragem e a determinação necessárias para privatizar a RTP.

Tsipras, Putin e a Rússia

Putin congratulates Tsipras

Russian President Vladimir Putin congratulated Alexis Tsipras for the latter’s decisive victory and expressed certainty that Greece and Russia would continue to develop the traditionally close ties that bind them in an effort to constructively find solutions to current European and international problems.

Tsipras blasts EU’s Ukraine policy in Moscow (13 de Maio de 2014)

Syriza leader Alexis Tsipras lambasted western policy on Ukraine and expressed support for separatist referendums in the Ukraine during an official visit to Moscow, upon the invitation of the Russian government.

Dias interessantes na Grécia (3)

Festa? Falemos antes dos dias difíceis do Syriza. Por José Manuel Fernandes.

Na sequência do resultado eleitoral, o Financial Times interrogava-se sobre se Tsipras se vai revelar um demagogo, estilo Hugo Chavez, ou um realista, na linha de um Lula da Silva. Na verdade Tsipras não tem a margem de manobra de nenhum desses líderes – não tem petróleo, não tem moeda e não vai dirigir um país com tantos pobres e iletrados como a Venezuela ou o Brasil. As escolhas de Tsipras não só são mais estreitas como terão de ser imediatas. E são escolhas que têm a ver com dinheiro, muito dinheiro: o que já falta à Grécia para cumprir as obrigações de 2015 e o que o Syriza precisaria para por em prática as suas promessas eleitorais.

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Um enorme trinta-e-um

European-union-sfSpanEsta manhã, as classes falatórias do continente europeu acordaram em polvorosa com a notícia da vitória do Syriza. Dos que exultam com o resultado aos que nele vêem um Apocalipse, todos atribuíram um enorme significado à coisa. Era escusado: a vitória do Syriza é tão irrelevante como o seria a sua derrota. Infelizmente, os problemas que a crise grega implica para a Grécia e para a Europa precedem a eleição de ontem, e sobreviver-lhe-iam independentemente de qual fosse o vencedor. A subida do Syriza ao poder apenas precipita a sua confrontação.

Em 2010, o conhecido jornalista americano Michael Lewis viajou para a Grécia para escrever um artigo sobre a crise do país. Publicado na Vanity Fair e incluído no seu livro Boomerang, e o retrato que faz é aterrador. Uma Grécia que, anos 80 e 90, sofria taxas de juro sobre os seus títulos de dívida pública 10% mais altas que as alemãs, viu na adesão à moeda única uma forma de ser tratada “como um país totalmente funcional do Norte da Europa”. O problema, explica Lewis, é que estava longe de o ser, dado os seus défices monstruosos e a inflação indomada da sua antiga moeda nacional, e só mesmo as mágicas artes da manipulação das contas (com a prestimosa ajuda da Goldman Sachs e o fechar de olhos do resto da “Europa”: Lewis cita um economista grego que, em 1998, notava como as contas oficiais gregas deixavam de fora metade da sua dívida real) permitiram que a Grécia aderisse ao euro desde o seu início. Uma vez conseguido este objectivo, o país pôde então “adquirir para a sua dívida uma garantia implícita da Europa (leia-se da Alemanha)”, permitindo aos gregos contrair empréstimos a taxas semelhantes às dos alemães.

Não foi só o “povo grego” a aproveitar a oportunidade: os bancos gregos, diz Lewis, emprestaram cerca de 30 mil milhões de euros ao Estado (a juntar a todos os outros que este último pediu emprestado a muitas outras entidades), que prontamente os atirou ao lixo: entre 2000 e 2010, os salários do sector público (excluindo subornos que pediam aos incautos que a eles recorrem) duplicaram; a companhia de caminhos de ferro tinha uma despesa sete vezes menor que as suas despesas; o seu sistema educativo, apesar de ser um dos piores da Europa, tinha quatro vezes mais professores por aluno que um dos melhores, o finlandês; empregos que fossem classificados como “trabalho árduo” tinham como idade de reforma 55 anos para os homens e 50 para as mulheres, e incluíam profissões como radialistas ou músicos; o pagamento de impostos era uma actividade praticamente facultativa: os médicos, uma profissão onde escasseiam os necessitados e paupérrimos, eram conhecidos por declararem rendimentos inferiores aos necessários para se pagar imposto; e a explosão do défice em 2009, por exemplo, era explicada a Lewis pelo então Ministro das Finanças como uma consequência de ter sido um ano eleitoral, e que como tal os funcionários do fisco local tinham recebido ordens para não serem especialmente rigorosos na cobrança fiscal. E claro, a massagem das contas públicas continuava, com, por exemplo, o montante real dos gastos do Estado com o sistema público de pensões a ser mais de três vezes superior ao declarado às instituições europeias. Como seria de esperar, nada disto teve um happy ending.

Quando o Pasok chegou ao poder, substituindo a Nova Democracia, teve de admitir que o buraco orçamental era muito maior do que era até reconhecido, e que a Grécia teria de pedir o resgaste à troika do FMI, BCE e UE. Como diz Lewis, a “Europa concordou em gastar milhões de dólares para resgatar a Grécia. Em contrapartida, a Grécia comprometeu-se a dar uma volta à quase totalidade da sua economia.” Mas como até a mais distraída das leituras de uma das recentes avaliações da execução do programa grego mostra, a promessa ficou longe de ser cumprida: “a Grécia”, diz o FMI, “tem continuado a fazer progressos significativos no reequilíbrio da sua economia. Mas tem ficado para trás na execução de reformas indutoras da produtividade”, para o que contribuiu a resistência de “interesses instalados”. O “ajustamento” terá sido efectuado “através de canais recessivos (compressão de despesa e salários reais), em vez de ganhos de produtividade”, e objectivos como os das privatizações, reformas no mercado laboral, e da própria contenção da dívida ficaram muito aquém do exigido e prometido. Por alguma razão, no mês passado, a EU teve de prolongar o programa de empréstimos à Grécia por mais dois meses, dados os receios de que tudo estivesse à beira de ruir.

É verdade que, o ano passado, a Grécia conseguiu um excedente orçamental. Mas feito “à bruta” (veja-se, por exemplo, os cortes nas pensões, feitos não de forma gradual mas de uma assentada), o “ajustamento” grego não podia deixar de ter tido consequências gravíssimas para a população. Desde o elevado desemprego jovem, passando pelos funcionários públicos despedidos, pelas pessoas que não conseguem contrair empréstimos e por isso têm de fechar os seus pequenos negócios, por quem não deixou de ter dinheiro para pagar as escolas dos filhos, até quem deixou de ter dinheiro para pagar o suborno aos médicos para que os seus velhos sejam tratados num hospital, uma enorme fatia da população grega viu, de um dia para o outro, a sua vida piorar significativamente, e com poucas perspectivas de alguma vez vir a melhorar. E escusado será dizer que, embora mais “austeritário”, o Estado grego não ficou por isso menos corrupto: a máquina fiscal que outrora servia acima de tudo para cobrar subornos a quem não queria pagar impostos comporta-se agora de forma autoritário para cobrá-los mesmo a quem não os deve.

Perante isto, não é de espantar que um partido como o Syriza tenha conseguido ganhar as eleições. Para quem viva num país que passou pelo acima descrito, o voto em quem promete querer a “reestruturação da dívida” (com perdão de parte dela) e a manutenção da Grécia no seio quente e fofo da moeda única, o aumento do “investimento público” em cerca de 4 mil milhões de euros e a descida de impostos, surge naturalmente como algo atractivo, se bem que apenas da mesma forma (e com as mesmas consequências) que o canto da sereias era atractivo para os marinheiros companheiros de um mítico habitante daquelas terras.

Aliás, não tem faltado quem diga que esta vitória do Syriza é uma prova de como a “austeridade” da “sra. Merkel” (uma oportunista política de importância menor elevada a ideóloga firme e toda-poderosa pela simplicidade mental dos críticos) tem como único resultado a ascensão das forças políticas radicais. Deixando de lado o problema do raciocínio de se identificar os “radicais” como um mal mas achar-se que a forma de os combater é precisamente adoptando a sua agenda, esta é uma tese que peca pela incapacidade de compreender a natureza do berbicacho que defrontamos. Pois não é só na Grécia que os “radicais” e os “extremos” conquistam um lugar nos voláteis corações dos eleitores, e em alguns desses outros locais, não é a austeridade que os anima, mas precisamente o que entendem ser um excesso de “generosidade” para com os que se queixam dela: se na Grécia a vitória do Syriza talvez se deva à forma como Merkel, a Finlândia e a Holanda fizeram a “Europa” lidar com a crise, na Alemanha, Finlândia e Holanda, a ascensão de partidos radicais “nacionalistas” não se deve de forma alguma à ideia de que os “povos do sul” estão a ser autoritariamente condenados à pobreza pelo “fundamentalismo austeritário” dos “países do norte”, mas à percepção de que alemães, finlandeses e holandeses estão a pagar a “preguiça” e a “boa vida” dos “laxistas” do “Mediterrâneo”.

Pouco interessa qual dos lados tem razão, quanto mais não seja porque o mais provável é que ambos estejam igualmente longe da verdade. O que interessa é que os lados existem, e colocam um enorme problema à União Europeia, problema esse que decorre da forma como os seus arranjos políticos e económicos foram desenhados. O “anti-austeritarismo” grego ou espanhol e o nacionalismo “anti-dependentes” da Alemanha ou da Finlândia, apesar das suas muitas diferenças, têm no euro uma origem comum: a adopção de uma mesma moeda por países com condições e características políticas, sociais e económicas tão diferentes como a Grécia (ou Portugal) e a Alemanha (ou a Finlândia), fez com que a dada altura fosse inevitável que as necessidades de países com problemas orçamentais se tornassem incompatíveis com a credibilidade da moeda, a necessidade de restrições orçamentais nesses países com a possibilidade de terem algum crescimento económico, e a eventual conveniência de transferências monetárias dos mais ricos para os mais pobres com o apoio eleitoral aos partidos de governo nesses países mais ricos. Os arranjos políticos e económicos da União Europeia produziram não só um conflito de interesses de duas democracias, uma incompatibilidade entre vontades igualmente legítimas das respectivas maiorias eleitorais de cada um dos regimes democráticos integrantes da UE, como assegurou também que ninguém fica contente com o resultado: dependendo da proveniência, ora se protesta a falta de “solidariedade” de uns, ou o estar-se a pagar a “preguiça” e o “despesismo” dos outros.

Na Grécia, considera-se que a dívida actualmente contraída pelo Estado é insustentável, ou no mínimo incompatível com os “direitos humanos do povo grego”. E embora haja quem diga que a dívida grega até é mais sustentável que a de outros países, a verdade é que a necessidade de obter excedentes orçamentais primários de 4,5% do PIB em 2016 parecem, dado o estado do país, ser incompatíveis com a possibilidade dos gregos levarem uma vida minimamente decente. Nesse sentido, uma “reestruturação” da dívida talvez fosse útil (embora se argumente que as taxas de juro gregas são já tão baixas que tal medida não serviria de muito). O problema está em que uma “reestruturação” não se faz unilateralmente, e os credores da Grécia só a aceitariam se tivessem um mínimo de confiança (que obviamente não têm) de que o país aproveitaria esse alívio para fazer as reformas que em tempos de dificuldade não conseguiam fazer, em vez de o usar para regressar aos “bons velhos tempos” descritos por Michael Lewis. De forma unilateral, a única coisa que a Grécia pode fazer é declarar uma bancarrota, uma opção que, embora permitindo o regresso à sua extinta moeda nacional e o recurso à sua impressão em massa para aumentar salários e despesa, teria como consequência real uma outra “austeridade”, porventura ainda mais violenta: com a inflação, o aumento nominal dos salários corresponderia muito provavelmente a uma descida real do seu valor, e a uma degradação das condições de vida dos que ainda tivessem emprego, para não falar dos que entretanto se juntariam à longa fila de desempregados, após o fecho de mais não sei quantos negócios, levados na corrente. A Grécia substituiria a “austeridade” da “sra. Merkel” e imposta pelo estrangeiro por uma “austeridade” interna do “sr. Tsipras”, e dificilmente ficaria melhor com a troca.

Deve ser por isto que muita gente fora da Grécia viu com bons olhos uma vitória do Syriza: a desgraça que se abateria lá pelos lados helénicos serviria de exemplo para quem, por aqui e por ali, vá tendo veleidades “anti-austeritárias”. O problema está em que a desgraça não se cingiria à Grécia, alastrando-se em maior ou menor grau por toda a União. Parece ser verdade que o sistema financeiro europeu está muito menos exposto à dívida grega, e que portanto uma eventual bancarrota causaria teoricamente menos danos agora do que teria provocado em 2010. Mas convém não esquecer que, a partir do momento em que a Grécia reintroduzisse uma moeda própria, os gregos que ainda tivessem euros na sua mão teriam de os trocar, colocando no mercado uma inundação de euros para venda que conduziriam a uma sua desvalorização. A simples saída de um país da moeda única colocaria em dúvida a credibilidade desta última, quanto mais não seja porque haveria sempre a possibilidade de as coisas até correram bem e do seu exemplo ser posteriormente seguido por outros países. E claro, uma saída grega do euro implicaria perdas de montantes relativamente avultadas nos cofres dos países da União: a Alemanha, obviamente, seria quem teria mais a perder. Mas até o nosso país se arriscaria a perder 1,1 mil milhões de euros com a brincadeira. E há quem receie que os fundos de resgate não têm dinheiro suficiente para lidar com uma crise que eventualmente se abatesse sobre a Espanha ou a Itália em consequência do que resultasse de uma saída grega.

Por outro lado, se a Alemanha e restante União Europeia acabarem por ir ao encontro das pretensões de Tsipras, a incerteza e o perigo não seriam menores. O resultado imediato seria o de incentivar os restantes países em dificuldades (não só Portugal, não só a Espanha, mas também a Itália e acima de tudo a França) a pedirem igual ou semelhante benevolência. A credibilidade do euro, que sofreria logo com o perdão ou simples reestruturação da dívida grega (a moeda passaria a estar associada, não à política ortodoxa de Frankfurt, mas às práticas orçamentais criativas de Atenas), ficaria pelas ruas da amargura com a mera possibilidade de semelhantes perdões e reestruturações se estenderem ao resto do continente, e de que as reformas que não foram feitas deixassem de ser vistas como necessárias. A perda de valor do euro afectaria não só os salários e poupanças dos gregos, mas também o valor dos rendimentos dos cidadãos dos outros países da zona euro, implicando uma degradação das suas condições de vida. E perante as dificuldades estruturais das suas economias e a relutância em realizar as reformas que poderiam ajudar a colmatá-las, as expectativas de que pudessem melhorar seriam tão escassas como os empregos que sobreviveriam à tempestade.

Aconteça o que acontecer com o Syriza, aconteça o que acontecer no país que agora irá governar em coligação com os nacionalistas-populistas-justicialistas dos dissidentes da Nova Democracia, nem a Grécia nem o resto da Europa se verão livres de dificuldades nos tempos que se avizinham. Nem a Grécia nem a Europa evitarão uma qualquer forma de “austeridade”. Nem os problemas relacionados com a forma como a Grécia tem sido governada desaparecem, nem os problemas inerentes ao desenho dos arranjos políticos da “Europa” deixarão de existir.

Temos, por isso, um enorme trinta-e-um em mãos. Como saíremos dele?

Mal.

Compreender o putinismo XIV

URSS

Back in USSR.

The Association of Tour Operators of Russia (ATOR) has issued a reminder through Russian media that a new rule for foreign tourists comes into effect as of January 26, obligating them to list the cities, towns and other inhabited areas they plan to visit while in Russia.

Russia’s Federal Migration Service is also requiring proof of an invitation to visit these settlements and the name of the person or organization giving the invitation.  All types of visas must have this information on them.

“oportunismo pouco recomendável”

Grécia (2) Por Vital Moreira.

A tentativa de todas as esquerdas em Portugal para cavalgarem a vitória da esquerda radical na Grécia, incluindo partidos que pouco têm a ver com o Syriza, como o PS e o PCP, releva de um oportunismo pouco recomendável.

O Syriza, a Frente Nacional e o futuro da Europa

Depois do Syriza, a Frente Nacional. Por Rui Ramos.

Estarão a esquerda radical e a direita nacionalista disponíveis para respeitar o pluralismo político e admitir a alternância governativa, que, até hoje, foram os fundamentos das democracias europeias? Não serão as suas políticas, fundamentalmente hostis à liberdade de iniciativa ou de circulação, fatais para uma UE até agora concebida, apesar de todas as limitações, como uma via de abertura das sociedades europeias e flexibilização das suas economias? Nesse caso, a página que se virou ontem na Grécia pode mesmo ser a primeira de um livro muito diferente do que aquele que contém a história dos últimos 70 anos.

Leitura complementar: Razões para ter esperança no Syriza.

Dias interessantes na Grécia (2)

As três prioridades do novo ministro das Finanças, o marxista Yanis Varoufakis
Bolsa de Atenas afunda 7%. “O jogo de xadrez com a Europa ainda agora começou”

Merkel e BCE a uma só voz fecham a porta a renegociação da dívida

A Europa reage às eleições gregas. Angela Merkel, FMI e Banco Central Europeu são claros: não há espaço para renegociação da dívida. “A Grécia não pode ter tratamento especial”, diz Lagarde.

Leitura complementar: Razões para ter esperança no Syriza.

Dias interessantes na Grécia

Gregos Independentes: quem é o novo parceiro do Syriza?

Em pouco menos de uma hora, no dia seguinte às eleições, o Syriza chegou a acordo com o partido nacionalista de direita Gregos Independentes, para formar um Governo de coligação – terá uma maioria de 162 deputados (149 + 13), num Parlamento com 300 cadeiras. (…) Em dezembro, Kammenos fazia umas declarações polémicas à televisão grega acusando os judeus que vivem na Grécia de não pagar impostos. O discurso foi encarado como profundamente anti-semita e as comunidades judaicas apressaram-se a exigir pedidos de desculpa oficiais.

“Gregos Independentes” – a boa direita nacionalista? Por Miguel Madeira.

Leitura complementar: Razões para ter esperança no Syriza.

Marine Le Pen congratula-se com vitória do Syriza

Marine Le Pen satisfeira pela “monstruosa bofetada democrática que o povo grego veio dar à União Europeia”
Le Pen deseja vitória do Syriza de Alexis Tsipras na Grécia

Leitura complementar: Razões para ter esperança no Syriza.

A ilusão das palavras

jn_2015_01_26Afinal o governo de Passos Coelho tinha uma solução simples para acabar com a crise orçamental que se instalou em 2011, quando Sócrates ficou sem dinheiro para pagar contas. Simples, bastava-lhe anunciar o “fim da austeridade”!!! No dia seguinte às eleições na Grécia, este parece ser o principal mote da maioria dos socialistas, bem retratado na capa do Jornal de Notícias.

A acontecer, a reestruturação da dívida implicará, para um orçamento deficitário como o do Estado grego, acordo entre os novos credores (que terão de financiar os próximos défices) e o governo de Tsipras (que terá de convencê-los que o seu programa é capaz de equilibrar as contas). Não vejo o sector privado a entrar nesta aventura. Resta a União Europeia, o BCE e o FMI, ou seja a troika.

Acreditar que a partir de hoje tudo vai ser um mar de rosas é, penso, uma grande ilusão. A ver.

Diáspora a Évora

Na diáspora a Évora que congregou milhares e milhares de cidadãos estava lá um infiltrado neoliberal cuja única função, diligentemente efectuada, era a de minar a procissão a partir do seu ponto nevrálgico. Tarefa executada com sucesso.

Melhores momentos:
— “E estas pessoas estão aqui sem almoçar!”
— “Ainda não almoçaram?”
— “Esta senhora ainda não. Mas se calhar também não precisa…”

— “Uma salva de palmas para o Engenheiro!!!”
— *silêncio*

O programa do Syriza

Este é o programa do Syriza

Depois da noite de domingo, a Europa vai ter que contar com uma nova proposta política, eleita num Governo da zona euro. Aqui deixamos-lhe uma síntese, primeiro das linhas gerais do programa – e mais abaixo do seu programa económico, desenhado em cinco pilares.

Leitura complementar: Razões para ter esperança no Syriza.

Syriza: a vacina com muitos efeitos secundários

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No ano passado estive de férias na Grécia. Com grande pena minha falhei as grandes e violentas manifestações da praça Syntagma, mas apanhei lá um desfile de orgulho gay, colorido e divertido, de que deixo aqui uma fotografia. Estive em Atenas (não muito tempo) e, como não sofro daquela aflição de tantos portugueses enfadados de só poder ir de férias para locais para onde tenham transporte aéreo sem escalas, alugámos um carro e fomos para uma praia a quatro horas de distância de Atenas.

A Grécia tem muito de parecido com Portugal. Os restaurantes e os hóteis, mesmo com crise e com resgate internacional, estavam com frequência abundante de gregos. As roupas e os carros não são assim tão diferentes dos nossos. Há, como se mostra acima, paradas LGBT. As aldeias perdidas longe de Atenas tinham as mesmas casas por pintar e muros só de cimento das aldeias perdidas longe de Lisboa, com as senhoras de idade vestidas de preto. E Atenas deve ter um presidente de câmara parecido com Costa, também às voltas com a recolha de lixo na capital, que acaba tornando os montes de lixo numa das features da cidade (fotografia abaixo, para verem como é igual).

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Mas também havia diferenças. Mais (ainda mais) casas com sinais de estarem à venda. Mais lojas fechadas (e bombas de gasolina e cafés) pelo meio de Atenas e pelas tais aldeias perdidas do que se vê por cá. A auto-estrada tinha com frequência trajetos em desuso ao lado, não de estradas nacionais substituídas pela auto-estrada mas de troços de auto-estrada substituídos por novos troços de auto-estrada – dando ideia do escrupuloso dinheiro dos contribuintes e dos credores que havia sido feito. Enfim, a nuvem da crise era mais opressora do que se notava em Portugal.

No meio disto tudo, o Syriza vai provavelmente hoje ganhar as eleições. E ou se hollandiza – e mostra em definitivo que o paleio da esquerda radical só serve mesmo para enganar os tolos – ou provocará o fim do financiamento à Grécia com a consequente calamidade económica, com ordenados e pensões e demais compromissos do estado grego por pagar. Claro que a vitória do Syriza pode ser a vacina que os europeus precisam para se relembrarem dos efeitos económicos das políticas da extrema-esquerda, e tirar as veleidades dos partidos de esquerda dos outros países, mas eu não sou cínica a ponto de desejar esta clarificação sacrificando um país e os gregos que não votam no Syriza.

Por cá é divertido sobretudo ver como não só no partido-irmão do Syriza, o BE, há entusiasmo por esta esperada vitória. O PS costista está carregado de gente com olhos arregalados de satisfação. O que diz muito do que é atualmente o PS – e como não percebem o país (Portugal, mesmo) nem o mundo.

O Charlatão

Diário Digital

Num comentário a estes números, João Galamba disse que não pode ser esquecido que “grande parte do resultado orçamental” é fruto do “enorme aumento de impostos do ano passado que foi liquidado em 2014″.
Além disso, acrescentou, existem outros valores “muito preocupantes” e que explicam o facto do Governo ter ficado cerca de 700 milhões de euros abaixo das metas estabelecidas, nomeadamente o corte no final do ano “em quase 700 milhões no investimento público”.

“Ou seja, para fazer um brilharete de curto prazo sacrificou o futuro do país, sacrificando investimentos que são fundamentais, também para execuções orçamentais futuras”, declarou.

Se em anos anteriores o PS, pela voz dos mesmos personagens, criticava a revisão em alta dos objectivos do défice público esta anos resolve criticar o inverso. A falta de vergonha socialista é recorrente pelo que nem é preciso dizer mais nada. Para quem ainda não soubesse, a estratégia do PS passa por uma aposto no aumento da dívida pública algo que já foi levado a cabo com extrema eficácia nos consulados de António Guterres e José Sócrates. Estes dois PM socialistas resolveram “não sacrifica o futuro” com os resultados conhecidos. Na boa tradição socialista o deputado Saldanha Galamba demonstra ser um exímio vendedor de banha da cobra.