“Governo quer obrigar portugueses a pagarem leite mais caro”

Milk Numa visita a Chaves, o Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho veio dizer que o seu Governo está a procurar “sensibilizar a União a Europeia para a necessidade de ter uma alteração dos preços de referência” do leite, para assim impedir que “preços anormalmente baixos possam ocorrer”. O que são preços “anormalmente baixos” e o que os distingue de preços “normalmente baixos” ninguém sabe, muito menos o Primeiro-Ministro. O que ele sabe, e bem, é que os produtores de leite portugueses, parte integrante da “lavoura” tão querida do CDS e que este não se cansa de procurar proteger, dizem estar a viver uma “situação dramática” com a queda dos preços que se tem verificado desde o fim das quotas anteriormente estabelecidas pela União Europa. E sabe ainda melhor que estes lhe agradecerão todos os esforços no sentido de “corrigir” o problema.

Sem promoções no Pingo Doce para condenar, a Ministra da Agricultura logo veio consolar os produtores de leite, dizendo que a “preocupação” do Governo era fazer com que o preço do leite “pudesse subir”, para que assim fosse “efetivamente um mecanismo regulador, que neste momento entendemos que não está a ser”. Reunida com os seus congéneres de Espanha, Itália e França, Cristas explicou que iriam pedir na Europa “um aumento dos preços de referência, que permitem retirar produto do mercado quando o produto está em excesso – e que está a pressionar o preço para baixo – e com isso ajudar a regular o preço do próprio produto”. A crer no seu passeio a Chaves e o que lá disse, o Primeiro-Ministro dá o seu aval, e mais uma vez (não têm sido poucas) demonstra o quão infundadas são as acusações de que se trata de um “ultraliberal”.

Traduzidas do “politiquês” que esta gente adoptou em detrimento da língua portuguesa, as palavras da Ministra da Agricultura querem dizer apenas o seguinte: uma vez removidos os obstáculos à produção e venda do leite, a oferta do dito produto aumentou, e a procura por ele não foi suficiente para que quem o vende o fizesse a preços mais altos que aqueles que se têm verificado; legítima e compreensivelmente preocupados com a sua vida e o seu ganha-pão, os produtores agradecem que o poder político, sediado em Lisboa ou em Bruxelas, arranje um mecanismo que permita diminuir a concorrência que enfrentam, e assim garantir que possam cobrar preços mais altos pelo que têm a vender; e como a “lavoura” constitui uma dilecta clientela da coligação, esta última não quer deixar de lutar (ou, no mínimo, parecer fazê-lo) para que seja satisfeita a vontade da primeira.

Ou seja, a coligação achou por bem partir para eleições passando (como agora horrivelmente se diz) “a mensagem” de que quer proibir os portugueses de pagarem, pelo leite que compram, os preços baixos que as livres oferta e procura presentemente lhes oferecem; e que se “a Europa” deixar e um número suficiente de eleitores a quiser alçar de novo a São Bento, pretende usar o poder e a lei para beneficiar arbitrariamente um grupo de pessoas em detrimento de outras, pela simples razão de que as primeiras se movimentam melhor que as segundas no mercado da influência política, o único que prospera em Portugal. Tendo em conta o desprezo generalizado da população por todo e qualquer indivíduo que exerça um cargo político, e que por isso convém aos partidos “mobilizarem” os fiéis e clientes a irem votar, já que poucos para além destes estarão dispostos a dar o seu voto a quem quer que seja, a tal “mensagem” talvez seja uma boa ideia como estratégia eleitoral e de manutenção do poder. Mas como modo de o exercer, e princípio de governação, dificilmente poderia ser pior.

O perigo de radicalização do PS

O Miguel Noronha já aqui simpaticamente o recomendou, mas ainda assim não quero deixar de dar conta do meu artigo de hoje no Observador, aproveitando adicionalmente para chamar mais uma vez a atenção para as declarações de ontem de Ferro Rodrigues e de António Arnaut, que a meu ver reforçam a sua pertinência: A radicalização do PS: entre Fernanda Câncio e Ascenso Simões.

O PS ao serviço de uma maioria “patriótica e de esquerda” ?

Curiosidades do presente: António Arnaut quer uma maioria “patriótica e de esquerda”.

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Leitura complementar: A radicalização do PS: entre Fernanda Câncio e Ascenso Simões.

O “logo veremos” e os seus riscos

Carta de um indeciso aos seus semelhantes. Por Rui Ramos.

António Costa, nesta campanha, representa o “logo veremos”. Logo veremos se ele vai afrontar a mitológica Merkel, ou, pelo contrário, fazer tudo o que ela lhe mandar (o que quer dizer “uma postura activa na Europa, sem submissão nem aventureirismos”?). Logo veremos se vai acabar com a austeridade ou, pelo contrário, como o Syriza, aplicar uma dose ainda maior. Logo veremos como vai governar: sozinho, com a direita, ou com os comunistas. Logo veremos se mandará votar num candidato presidencial “radical” (Nóvoa), ou num candidato “moderado” (Maria de Belém). Em “eleições decisivas”, António Costa fez do PS uma escolha que deixa tudo por decidir.

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A Venezuela não interessa a ninguém (3)

How Hugo Chavez Trashed Latin America’s Richest Economy

Chavez isn’t around anymore, but this is clearly his crisis. He took a country that was muddling along, and put it on course to become a basket case. There are worse kinds of rulers than that — those who massacre their own people or lead their nations into hopeless wars. But in terms of basic macroeconomic management Hugo Chavez has to go down as one of the most disastrous leaders the world has seen quite in a while.

(via Ricardo Valente)

Varoufakis, o tóxico

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Tsipras’ Gamble

Another homeless parliamentarian is Yanis Varoufakis, the former finance minister who, despite the extremely high number of votes he received in January, is considered so toxic that no party has been willing to include him in their lists so far.

(via Nuno Garoupa)

No Fio da Navalha

O meu artigo para o Jornal ‘i’ de hoje.

A pólvora chinesa

As bolsas caíram a pique com as notícias vindas da China. Melhor: com a confirmação de que a economia chinesa se encontra com sérios problemas. O que está a acontecer na China é extremamente importante, não só porque este país é hoje um gigante económico, mas também, e como Miguel Monjardino já teve oportunidade de referir no “Expresso”, ditará os termos de um debate ideológico que terá lugar nos próximos anos.

É que o modelo chinês finalmente falhou. Finalmente, porque era de esperar. Não obstante as experiências históricas passadas, muitos foram os que acreditaram ter a China descoberto uma nova fórmula de desenvolvimento controlada pelo Estado, capaz de sobreviver à crise das economias ocidentais. O desejo da ordem a qualquer preço é a única explicação que conheço para um erro tantas vezes repetido.

A economia chinesa é uma enorme bolha que o poder político planeou a partir de Pequim, subsidiando-a através de estímulos keynesianos por via do banco central e demais bancos politicamente dependentes. Imagine-se a política monetária defendida por Obama nos EUA, e que certa esquerda pretende seja adoptada na Europa, mas para subsidiar empresas com objectivos delineados a régua e esquadro por um comité central sediado em Pequim.

Interessante será também ver o impacto que a quebra na produção chinesa terá nos preços no Ocidente. É que a baixa inflação de que temos beneficiado deve-se em muito aos produtos baratos vindos do Oriente. A inflação tão sonhada pelo BCE e pelo Fed pode tornar-se um pesadelo.

A Venezuela não interessa a ninguém (2)

Being the ex-President’s daughter pays off: Hugo Chavez’s ambassador daughter is Venezuela’s richest woman

Venezuela’s Food Shortages Trigger Long Lines, Hunger and Looting

In a national survey, the pollster Consultores 21 found 30% of Venezuelans eating two or fewer meals a day during the second quarter of this year, up from 20% in the first quarter. Around 70% of people in the study also said they had stopped buying some basic food item because it had become unavailable or too expensive.

Food-supply problems in Venezuela underscore the increasingly precarious situation for Mr. Maduro’s socialist government, which according to the latest poll by Datanálisis is preferred by less than 20% of voters ahead of Dec. 6 parliamentary elections. The critical situation threatens to plunge South America’s largest oil exporter into a wave of civil unrest reminiscent of last year’s nationwide demonstrations seeking Mr. Maduro’s ouster.

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Respeito!

Apesar dos esforços dos cartazes e cartas do António Costa. Grande Líder só há um. O Kim e mais nenhum.

“‏@DPRK_News
Davos World Economic Forum proclaims 14 traits shared by great leaders. All such traits are possessed by Supreme Leader Kim Jong-Un!”

De acordo

Nota-se bem quando existem ideólogos e pensadores por trás de um líder. O discurso é outro. É pensado exactamente na mesma latitude em que Nóvoa pensa o país.

A Venezuela não interessa a ninguém

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A Venezuela não interessa a ninguém. A Venezuela não interessa a ninguém. Porque haveria de interessar, se não interessa a ninguém? Na Venezuela não há um leão chamado Cecil caçado por um dentista. Logo, não interessa a ninguém. Na Venezuela não há caracóis que são cozidos vivos. Você gostaria de ser cozido vivo? Na Venezuela também não. Na Venezuela cidadãos são executados à luz do dia. Triste fado. Fossem um felino ou um molusco e interessariam a alguém. A Venezuela não interessa a ninguém. A revolução bolivariana é boa, é bem intencionada, é bonita e é de esquerda, é contra o capitalismo, é pelo socialismo. E isso já interessa. O que não interessa a ninguém é o que vem depois. Isso não interessa a ninguém. Em particular, as filas para o supermercado, o limite de levantamento de 13€. Ou, como diz o outro, por sinal candidato a deputado pelo PS, quem não consegue viver com levantamentos de 60€/dia? Se os gregos conseguem, os venezuelanos, estóicos latinos, também. É a revolução bolivariana. Essa interessa, essa é digna, essa é noticiável. Essa merece capas do Público e do DN. É tão comovente que jornais brasileiros fazem noticia das capas que Portugal dedicou a Chavez e à Venezuela. A criança que chora com a morte de Chavez, anunciando ao mundo a era pós-Chavez. Essa interessa. Pelo menos a alguns. Interessa aos mesmos a quem não interessa o que deveria interessar agora. A Venezuela não interessa a ninguém. Nem a Venezuela, nem eles.

Corbynomics apoiada

JC

De acordo com a última tendência a Corbynomics é moderada e humana. O fanatismo está na austeridade. Quem o diz é a Academia.

Leituras recomendadas: Retratos de mais um messias canhotoJeremy Corbyn: o messias na graça dos deuses do proletariadoJeremy Corbyn and Daniel Hannan on Socialism

A causa das coisas

homer_dohHá pouco no twitter envolvi-me numa discussão bem disposta com o João Galamba e o Pedro Morgado (indefectível socialista) a propósito da entrevista do pobre do ex-Ministro da Saúde Correia de Campos à nova versão da Renova, o jornal Público. O dito rolo de papel macio de folha dupla intitula a entrevista assim:

“Vamos herdar uma dívida de mais de 1,5 mil milhões de euros na saúde”

Como em 2011 a dívida era 3 mil milhões de euros, achei piada ao título, só que o que Correia de Campos diz é:

“..vamos herdar uma situação de passivo [na saúde] pelo menos de 1,5 a 1,6 mil milhões.”

E, digo eu, o passivo em 2011 era de cerca de 6,4 mil milhões de euros. Primeira reacção dos ditos:

Isso são números completamente inventados. Ou seja, eu (ou alguém) estaria a mentir.

Ora como lhes mostro que 6,4mil milhões de passivo é resultado da auditoria do Tribunal de Contas em 2011, a segunda reacção é: Não sabes a diferença entre dívida e passivo. Como o ex-Ministro diz explicitamente “passivo“, a terceira reacção passa a ser, ele está a falar de “nova dívida”. Reafirmo eu: na entrevista Correia de campos é explícito, fala de “passivo”. Quarta reacção: eu conheço o homem já falei com ele sobre isso, ele refere-se a “nova dívida”. Repito o que o sr diz na entrevista: “..vamos herdar uma situação de passivo [na saúde] pelo menos de 1,5 a 1,6 mil milhões.”

Posto isto, perdei toda a esperança vós que aqui entrais. Discutir com a esquerda (e parte substancial da dita direita) é isto. Mas que é divertido, é.

 

O Estado baby-sitter e a liberdade de escolha

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Possivelmente inspirado pela rentrée política da coligação, Paulo Trigo Pereira disserta sobre a liberdade de escolha na sua crónica no Público. Faz um enquadramento genérico do tema e contextualiza-o à luz da filosofia política. Evoca pensadores como Nozick, Isaiah Berlin ou Rawls. Até Kant. E no fim decreta que, na ausência de «níveis de instrução, de rendimento, de saúde, de liberdades cívicas e políticas adequadas», não estão reunidas as condições para que os portugueses possam beneficiar de liberdade de escolha.

O artigo é interessante, introduzido com o decoro e a seriedade intelectual que questões tão prementes exigem. Mas erra no busílis do seu argumento — já existe liberdade de escolha em Portugal, com ou sem aquilo que Paulo Trigo Pereira considera serem os requisitos mínimos. Está é vedada aos mais pobres, sendo apanágio exclusivo dos mais ricos. Senão vejamos. Se as escolas públicas na periferia da sua residência não têm os níveis de qualidade que lhe parecem adequados para prover uma boa educação aos seus filhos, e caso seja rico, pode sempre optar por inscrevê-los num colégio privado. É aliás esclarecedor que tantos socialistas, paladinos da defesa da escola pública, ou assim se anunciam, tenham os seus filhos em escolas privadas. Por exemplo, os filhos de António Costa estudaram no Colégio Moderno, pertencente à família de Mário Soares, e que, em 2007, ocupou o 9º lugar do ranking nacional.

Mas há mais exemplos onde existe liberdade de escolha. Mesmo tendo acesso a um Serviço Nacional de Saúde tendencialmente gratuito, financiado através de impostos, uma parte considerável da população opta por subscrever um seguro de saúde privado que lhe permita escolher onde obter cuidados de saúde, pese embora o esforço financeiro acrescido. Uma vez mais, uma facilidade apenas acessível a cidadãos ricos. De forma análoga, os funcionários públicos, mediante inscrição na ADSE, um subsistema de saúde exclusivo do sector público, também dispõem de ampla liberdade de escolha nos cuidados de saúde. Podem optar entre o SNS ou um qualquer outro prestador de cuidados de saúde. Curiosamente, da última vez que Mário Soares esteve internado, este optou por ir para o Hospital da Luz, do grupo Espírito Santo Saúde, em detrimento do SNS. Uma vez mais, uma liberdade apenas para alguns.

A liberdade de escolha existe, e bem. O que se exige é que esta seja democratizada, e que mais portugueses, para além dos abastados, possam beneficiar dela. Uma família pobre que resida num bairro social rodeado por escolas públicas com um mau ranking está forçada a inscrever os seus filhos nessas mesmas escolas, hipotecando o seu futuro e perpetuando o círculo vicioso da pobreza. E fá-lo enquanto os socialistas, que apregoam as virtudes da escola pública, inscrevem os seus filhos nas melhores escolas privadas do país. De igual forma, um português pobre é forçado a aguardar meses pela marcação de uma consulta, e a esperar horas para ser atendido numa urgência de um hospital público. A questão que se coloca é porquê que os mais pobres não poderão almejar a inscrever os seus filhos nas melhores escolas do país, proporcionando-lhes oportunidades idênticas às que os mais abastados beneficiam, ou a procurarem cuidados de saúde num hospital privado? Porque deverão os colégios privados ser um benefício exclusivo para os mais ricos?

Garantir que todos os portugueses têm acesso aos melhores cuidados de saúde, privados ou públicos, e à melhor educação, privada ou pública, é um imperativo categórico, na acepção kantiana do termo. Democratizar a liberdade de escolha é, portanto, um garante da justiça social, conceito tão caro a Rawls. E é-lo sem violar a liberdade individual. Pelo contrário, promovendo-a. A interferência do Estado em matéria de direitos negativos tal como definidos por Berlin — direitos que não pressupõem um dever, uma obrigação, por parte de terceiros — é, mais do que coercivo, uma intromissão na vida dos cidadãos. Pressupõe uma postura paternalista do Estado, de baby-sitter, em que o cidadão é incapaz de tomar decisões, pelo que deverá o Estado tomá-las por ele. Mais ainda, a democratização da liberdade de escolha introduz concorrência e competição, motores da inovação e garantes da eficiência. Por exemplo, seria assim possível identificar de forma precisa as piores escolas, aquelas de onde as famílias fogem, e agir em conformidade.

Paulo Trigo Pereira evoca a questão das desigualdades sociais como travão à liberdade de escolha, mas o argumento parece estar invertido. Ao limitarmos a liberdade e a acção dos mais pobres, diminuímos as suas chances de saírem do círculo vicioso da pobreza. A liberdade de escolha é, mais do que a promoção da eficiência económica e do bem-estar, uma obrigação moral para com estes. Não permitamos que a cegueira ideológica continue a privar os que já estão mormente privados de melhor saúde e melhor educação: os mais pobres. Já os prejudicamos o suficiente, não prejudiquemos também os seus filhos.

O difícil puzzle das pensões

Reforma das pensões: há soluções técnicas, não há solução política. Por Margarida Corrêa de Aguiar.

Não deveríamos estar condenados à recorrente adopção de ajustamentos avulsos ou paramétricos agravando a iniquidade intergeracional e reduzindo a adequação das pensões sem ultrapassar em definitivo as ameaças à sustentabilidade do sistema de pensões, como tem sido a experiência dos últimos dez anos.

Persistir na pedagogia da reforma estrutural, como não me canso de fazer, funciona como um antídoto, embora reconheça a sua duvidosa eficácia.

Diário de Notícias: declínio e degradação de um jornal histórico

Em 2009, o Diário de Notícias vendia cerca de 45.000 exemplares em, banca. Hoje em dia, as vendas em banca andam em torno dos 10.000 exemplares. Ainda assim, é estranho como uma publicação que atingiu um nível tão abismal de degradação interna continua a conseguir esses números, provavelmente justificados essencialmente pela habituação de alguns (cada vez menos) leitores a um jornal com forte marca histórica em Portugal.

Exemplos da degradação do Diário de Notícias não faltam mas esta nota de direcção é paradigmática do estado a que o histórico jornal chegou. Basicamente, como resumiu Eduardo Cintra Torres, a direcção do Diário de Notícias não lamenta ter mentido nem pede desculpa. Desculpa-se a si mesma e culpa a vítima da mentira.

Hoje, o DN está praticamente reduzido a um orgão de propaganda, ainda por cima mal feito, quase sempre mal escrito e sem qualquer respeito pelos leitores nem pelos visados nas “notícias” que vai publicando. A propósito, vale a pena ler este comentário da Rita Carreira: DN e filosofia de jornalismo

Diz o DN que a responsabilidade pelos erros da história é do Fernando Alexandre e da sua decisão de não responder às perguntas do jornal. Quando li isto, fiquei perturbada. A história é baseada num depoimento oficial que existe e ao qual o jornal teve acesso. O erro advém de esse documento ser mal citado por duas formas: desrespeito pelo contexto da citação e transcrição incorrecta da citação. Qualquer pessoa que trabalha no jornal poderia ter corrigido este erro sem precisar de acesso ao Fernando Alexandre, bastava verificar a fonte original da citação. Isto é factual, não está sujeito a interpretação.

Quando eu leio uma história do DN, exactamente o que é que eu devo pensar? Que o jornal tem carta branca para citar erradamente documentos oficiais, especialmente quando os autores da citação não verificam os factos da história? Que o editor do DN não se sente responsável por evitar erros deste tipo no futuro? Que o DN é um jornal que não tem implementado um processo de controle de qualidade?

Leitura complementar: Fernando Alexandre e a luta contra a corrupção no MAI; Fernando Alexandre, a luta contra a corrupção no MAI e os erros do DN; Fernando Alexandre, a luta contra a corrupção no MAI e os erros do DN (2).

Resumo esquemático das alternativas eleitorais (2)

O resumo esquemático das alternativas eleitorais feito pelo Carlos Guimarães Pinto tornou-se viral e superou já as 5.000 partilhas nas redes sociais e tem – compreensivelmente – suscitado inúmeras tentativas de resposta por parte de socialistas (como por exemplo esta no Aventar).

Continuo no entanto a achar, como já escrevi, que o mais sintomático é que o diagrama do Carlos vale mais do que todos os cartazes pirosos e ineptos da coligação PSD/CDS juntos.

Eleições antecipadas na Grécia

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Tsipras vai convocar eleições antecipadas na Grécia

A decisão terá sido tomada durante o encontro de hoje entre o primeiro-ministro grego e os seus colaboradores mais próximos e não é completamente inesperada. Depois de meses de intensa disputa com os credores internacionais e de apoiar o “não” no referendo à proposta da troika (o “não” venceu), Tsipras acabou por ceder aos credores e aceitar condições ainda mais duras, em troca de um terceiro resgate.

O resultado no Parlamento grego foi a rebelião dentro do seu partido. Para aprovar as medidas necessárias para vir a beneficiar do terceiro resgate, Tsipras ficou a depender de partidos na oposição, já que perdeu o apoio de cerca de um terço dos seus próprios deputados.

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O Diabo está nos detalhes

A 10 de janeiro de 2005:
“Sócrates promete criar 150 mil empregos se for primeiro-ministro”

A 19 de Agosto de 2015:
“PS promete a criação de 207 mil empregos até 2019”

A 20 de Agosto de 2015:
“Eu não prometo 207 mil postos de trabalho, eu comprometo-me com um conjunto de medidas de política que tendo por prioridade a criação de emprego têm um estudo técnico a suportá-lo que estima um conjunto de resultados, na dívida, no crescimento, na redução do défice e também no emprego” (…) “convém não confundir promessas com aquilo que são estimativas dos resultados das promessas”

Sobre as “estimativas dos resultados das promessas”, o Carlos levantou já questões pertinentes.
Quanto à criação de emprego, tem António Costa razão em clarificar a diferença face a anteriores candidatos do PS. Ele não pode prometer o que apenas os empresários podem realizar. São eles que investem e criam empregos. Os governos ajudam não expoliando empresários e trabalhadores, saindo da frente, não aumentando mas diminuindo o número e valor dos vencimentos e estipêndios estatais e outros consumos da riqueza e poupança produzidas.
Não tenho a certeza que o PS de 2015 já tenha adquirido total compreensão deste pormenor diferenciador entre o papel do governo e dos empresários.

Porque esconde o PS as suas contas? Os erros já encontrados e os grandes riscos ainda escondidos.

O PS orgulha-se de ter sido o único partido a apresentar contas do impacto das suas medidas. Ontem, depois de apresentarem uma revisão ao seu plano com apenas 4 meses, os líderes do PS voltaram a enfatizar que apenas o PS fez os cálculos ao impacto das suas medidas. Seria um bom motivo de orgulho, e um bom exemplo para as outras forças políticas, se provassem que as fizeram realmente. A questão é que até hoje ainda não provaram. Mostraram uns números finais, é verdade, mas os cálculos para chegar a esses números estão ainda por revelar. Em resumo, o PS diz que fez um estudo que não disponibiliza e que, convenientemente, prova que as suas medidas eleitorais vão ter um impacto positivo no país. Suspeito? O Gato Fedorento explica melhor. Até conseguirem provar que fizeram os cálculos, só se pode concluir que não só não fizeram as contas (o que os coloca lado-a-lado com os outros partidos), como mentiram (algo que nenhum dos outros partidos fez).

Esta falha em mostrar os cálculos é ainda mais relevante pelo facto de ser Mário Centeno o coordenador do plano. Mário Centeno não foi chamado pelo PS por ser militante, pescador ou benfiquista. Foi chamado por ser um economista e um académico respeitado. Foi chamado para dar respeitabilidade ciêntífica ao plano. Como académico respeitado tem a obrigação redobrada de fazer com que os seus estudos sejam replicáveis e os dados publicamente disponíveis. Esta transparência é particularmente importante porque, como provou o famoso exemplo de Rogoff-Reinhart, mesmo os melhores académicos cometem lapsos.

Apesar de não darem acesso aos cálculos, ontem já foi possível vislumbrar um erro colossal no plano macroeconómico do PS. Embora eu gostasse muito que os números na caixa vermelha abaixo fossem correctos, a verdade é que estão completamente errados. A carga fiscal é 10 vezes superior ao que o PS mostra no seu plano. Mesmo revelando apenas uma ínfima parte do seu modelo, é possível encontrar um erro desta dimensão (ver abaixo).

errosPS
(retirado da página 28 do documento macroeconómico do PS às 9.30 do dia 20 de Agosto)

Mas gralhas de Excel à parte, há uma razão ainda melhor para que o Ps mostre os seus cáclulos: todo o plano macroeconómico do PS assenta no pressuposto de que as medidas terão um impacto positivo no PIB. O cálculo desse impacto no PIB está completamente escondido na folha de cálculo. E se o impacto não acontecer? E se o PS fizer toda aquela despesa pública que promete e o PIB não se mexer. Em baixo, podem ver o que acontecerá se o PS cumprir com o seu plano para a despesa e receita, mas o crescimento prometido (e que não dizem como calcularam) não acontecer:

deficesc

dividasc

Se o crescimento que o PS garante que vai acontecer mas não revela como calculou não se concretizar, o défice continuará sempre acima de 3% e a dívida pública será 8pp superior ao que está no plano. No último ano, o défice será mais do dobro do que o PS tem no seu plano, algo dificilmente aceite pelas entidades europeias.

Finalmente o leitor poderá questionar-se sobre o porquê de eu ter dúvidas sobre a forma como foi calculado o crescimento económico no plano macroeconómico do PS. É simples: apesar de afirmarem que a economia portuguesa está destroçada, o PS promete já daqui a dois anos um nível de crescimento que Portugal não tem há 15 anos.

Por isso, repito aqui o meu apelo a Mário Centeno: se confia realmente nos cálculos que fez, disponibilize-os ao público, como um bom académico e homem de ciência. Mostre que não está apenas a contribuir para que o país afunde novamente daqui a uns anos.

P.S.: Como forma de dar o exemplo, e apesar de isto ser apenas um blog, fica aqui disponível a simples folha de cálculo utilizada para calcular os impactos acima. Cálculos disponíveis para todos verem e criticarem, se acharem conveniente.

Fernando Alexandre, a luta contra a corrupção no MAI e os erros do DN (2)

Diário de Notícias publica direito de resposta. Por Fernando Alexandre.

O Diário de Notícias publica hoje o meu direito de resposta à caluniosa ‘notícia’ da autoria de Carlos Rodrigues Lima. Como mostro, para além do jornalista demonstrar desconhecer o meu depoimento ao Ministério Público (que terá sido a base da sua ‘notícia’), toda a sua argumentação assenta na deturpação duma passagem do meu depoimento, a qual cito ipsis verbis.

Aproveito para agradecer a todos o apoio neste processo e deixo-vos aqui a minha resposta:

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