Compreender o putinismo III

Em boa verdade, o fenómemo não assenta em grandes novidades.

Putin’s ‘Russian Spring’ Idea was Invented by Russian Fascists in 1920s.

Leituras complementares: Compreender o putinismoCompreender o putinismo IIA anexação de Putin e o estado da russofoniaAbaixo a Guerra Fria.

“Uma pipa de massa”

“Que se calem”, disse, com a classe que lhe é reconhecida, o senhor que à primeira oportunidade virou as costas aos seus compromissos com o país para ocupar um cargo europeu, “aqueles que dizem que a Comissão não é solidária com Portugal”. Tudo porque, com pompa inversamente proporcional à vergonha na cara, Durão Barroso e Passos Coelho vieram hoje anunciar os 26 mil milhões de euros de fundos estruturais que a União Europeia atribuirá a Portugal ao longo dos próximos anos. “Uma pipa de massa”, segundo Barroso, que “é preciso gastar bem”. Pois é aí que está o problema. A experiência do país com os fundos europeus não augura nada de bom nesse capítulo.

Há uns anos, em Março de 2003, a The Economist publicava um artigo que punha em dúvida a ideia de que os fundos europeus beneficiavam os países que os recebiam. O artigo citava o português Pedro Pita Barros, que contava como, quando fez um comentário semelhante numa conferência, muitas pessoas comentaram em privado – e em privado – que concordavam com ele. “The most obvious way that regional aid might be damaging”, lia-se no artigo, “is by distorting priorities”: “businesses spring up to exploit the availability of subsidies, most obviously for construction and “training”, rather than responding to the real demands of the market. In order to qualify for it, recipient countries usually have to chip in around half of the cost of an EU-financed project. That tempts them to spend taxpayers’ money on schemes that they might otherwise not bother with. This is a potential headache in a country like Portugal, which is undergoing a ferocious budgetary squeeze to keep within the euro area’s fiscal rules but which is nonetheless tempted to press ahead with new infrastructure projects of marginal value—for fear of losing “European money”“.

Um argumento semelhante é desenvolvido pelos nossos Carlos Guimarães Pinto, Miguel Botelho Moniz e Ricardo Gonçalves Francisco no seu O Economista Insurgente: “os subsídios europeus foram bem aproveitados no desenvolvimento de infraestruturas públicas e no crescimento de certos sectores”. O problema esteve em que “a simples transferência de fundos vem com poucas exigências para além de um caderno de encargos e, por vezes, cofinanciamento dos investimentos. Os beneficiários apenas se têm que preocupar em preencher todas as exigências burocráticas exigidas pela autoridade gestora dos fundos”. E assim, “pessoas e empresas que teriam aplicado os seus esforços noutro tipo de actividades” deslocaram-nos para actividades que apenas eram rentáveis por decisão, não das preferências das pessoas através de cuja procura se criasse um mercado para determinadas actividades, mas das estruturas políticas europeias e nacionais, que definiam o que era “estratégico” e “prioritário”. O grande problema dos subsídios europeus, dizem o Carlos, o Miguel e o Ricardo, foi “terem deslocado recursos de actividades produtivos para actividades rentistas”. Substituiram o mercado da interacção dos indivíduos pelo mercado da influência política. E com isso, claro, vem sempre corrupção.

No seu artigo, a The Economist citava Pita Barros, que argumentava que “it’s when you hear people seriously suggesting that Portugal should fiddle its official statistics, so that we are still rated poor enough to qualify for European subsidies, that you wonder if this has gone too far”. Um funcionário comunitário também citado pelo artigo acrescentava que “the best thing the EU could do for Greece is to cut off the structural funds immediately. They’re turning Greece into Europe’s Mezzogiorno [the depressed southern part of Italy]. Anybody who works hard at a regular business is regarded as an idiot, since it’s much easier to set up a project to draw in European subsidies.”
O artigo terminava lamentando o facto de ser muito provável que estes erros fossem mantidos, porque os fundos estruturais eram vistos pelas estruturas comunitárias essencialmente como um instrumento de propaganda, tanto da própria União como a nível interno de governantes sempre dispostos a fazerem anúncios que lhes pudessem dar votos. Onze anos depois, pelos vistos, não aprendemos nada, e o lamento da revista pode infelizmente continuar a ser feito.

Uma nota sobre o conflito Israelo-Palestiniano

Quando o Império Ottomano se dissolveu, fruto da derrota das potências centrais na I Grande Guerra, esta foi a distribuição do território por entre os países aliados:

MapCarvingUpOttomanEmpire1916

Nem Arábia Saudita, Síria, Jordânia, Israel, Palestina ou Líbano existiam. O território era e continuou a ser, pelo menos até 1946, protectorado inglês e francês. Da mesma forma, também a dissolução do Império Austro-Húngaro levou a que outros países anexassem territórios que não lhes pertenciam, como a Sérvia, expansão que posteriormente conduziu à Jugoslávia.

First-World-War-before1914

É importante recordar que a definição das actuais fronteiras foi um processo dinâmico e contínuo, fruto de conflitos militares, e que com excepção de Portugal, ainda há nem 60 anos se voltaram a redefinir. É também relevante relembrar que até 1991 a Europa do Leste não dispunha de soberania, a Alemanha estava dividida em duas repúblicas, e as suas fronteiras eram meramente virtuais na composição da União Soviética, e não fosse a dissolução da USSR, ainda hoje existiria RDA.

O objectivo desta contextualização não se prende com defender a expansão dos colonatos em Israel pós-1967. É apenas derrubar a tese de que o Estado de Israel não tem direito a existir por apropriação indevida de território, que aliás pertencia ao Reino Unido. Um ponto de ordem importante num momento em que o anti-semitismo tende a ressurgir, e em que moderados ocidentais começam a adoptar o discurso anti-sionista que apela à erradicação do Estado de Israel, e que, poucas dezenas de anos desde a última tentativa ainda não passaram, do povo de Israel. E ainda mais importante sabendo que a ordem dos jihadistas é a de que as fronteiras se redefinam uma vez mais, desta feita todos muçulmanos.

article-2674736-1F46221200000578-100_634x381

Nota: este artigo beneficia magnanimamente com a leitura destes três artigos e respectivos comentários:

A fortuna de Michael Moore

Divórcio de Michael Moore revela riqueza do realizador

O realizador Michael Moore divorciou-se de Kathleen Glynn com quem estava casado há 22 anos, noticiou a BBC esta quinta-feira. E ficou-se a saber o vasto património do realizador de cinema, conhecido pelas suas posições anti-capitalistas.

Continuar a ler

(Des)Amor com (des)amor se paga

Israel – como tudo na vida – não está acima de críticas. Nem na atual guerra com o Hamas em Gaza nem nos intervalos das erupções violentas. E tem lá dentro os intoleráveis judeus ultra-ortodoxos que são tão agradáveis para o género feminino (dou três exemplos) como as gentis almas que compõem o Hamas. Mas confesso que me espanta como há tanta gente que tem bitolas tão distintas para os dois lados. Israel não pode atacar (como faz agora e em resultado de ataques sofridos) mas também não se pode defender preventivamente (ai Jesus que construiram o muro); Israel não pode atacar mas ninguém se lembra que do tempo em que iam mandar os judeus ao mar (propósito que ainda tem o Hamas), das guerras que o lado palestiniano provocou e dos boicotes a qualquer tentativa de uma paz negociada – e tudo em prol de jogos de poder entre Hamas e OLP (e dentro de cada um), da manutenção de esquemas de corrupção que enriqueceram os líderes da OLP e para distrair os palestinianos da negligência e incompetência e corrupção dos governos de OLP e Hamas.

Já com o Hamas a complacência é total. A indignação com as mortes civis (e sobretudo de crianças) dirige-se toda para o exército israelita, mas o facto do Hamas preferir o apelo propagandístico das mortes de crianças e civis pelos israelitas, localizando-se onde faz mais mossa à população civil em caso de ataque, em vez de proteger os civis de Gaza já é de todo irrelevante e não lhe atribui nenhuma culpa na morte dos referidos civis. A pobreza em Gaza não interessa, os desrespeito pelos direitos humanos das mulheres likewise. E para o que acontece ao mesmo tempo na Síria e nos locais controlados pelo ISIS olha-se para o lado, que não é conveniente haver outros concorrentes à indignação que se quer oferecer toda a Israel.

Eu, se tiver de escolher lados, fico com Israel. Tem erros, tem exageros, tem mão militar pesada. Mas não festeja as vítimas do outro lado, não sacrifica vidas civis do seu lado à propaganda, não só não tem um total desrespeito pelas vidas do lado inimigo como não pretende provocar o maior número de vítimas – é isto o Hamas. Que, além disso, defende coisas que me são aberrantes. Aprecio tanto o Hamas como lá valorizam o que eu sou e represento: uma mulher ocidental independente.

Uma boa leitura para estes dias – e porque os dramas humanos naquela zona não começaram agora – é o Oh Jerusalem, da dupla Larry Collins e Dominique Lapierre. (Livro sobre o qual escrevi no primeiro jornal que deu guarida a textos meus – o Notícias do CUPAV – depois do assassinato de Ytzhaz Rabin, que era referido no livro nos seus tempos do Palmach, a 4 de novembro de 1995. Lembro-me perfeitamente de ter sabido desta notícia numa área de serviço da A1, já bem de noite no regresso de Coimbra, onde tinha ido à festa de 20 anos do CUMN.)

oh jerusalem

Assim vai o Iraque…

Fundamentalistas destroem túmulo de Jonas

O túmulo do profeta que, na Bíblia, sobreviveu três dias na barriga de um peixe, no fundo do mar, foi destruído numa onda de ataques do grupo de terroristas do Estado Islâmico.

Purged by ISIS, Iraq’s Christians appeal to world for help

Iraqi Christians are begging for help from the civilized world after Mosul, the northern city where they have lived and worshiped for 2,000 years, was purged of non-Muslims by ISIS, the jihadist terror group that claims to have established its own nation in the region.

Em casa de terrorista, espetam-se as manas a viver com o inimigo

É natural que as pessoas queiram o melhor para as famílias. Enviar as três irmãs para o berço de todos os males do mundo não é um bocadinho pesado? Não ficariam a salvo das maldades no “ghetto de Varsóvia de Gaza”? Afinal, que criatura é esta que permite que as irmãs vivam na “casa dos criminosos de guerra”?

O “bully” enfraquecido

(Artigo publicado no Diário Económico de ontem)

Num artigo no Sunday Times, o primeiro-ministro britânico afirmou que “é altura” dos países europeus tomarem uma posição firme contra a Rússia caso se confirmem as responsabilidades russas no desastre do voo MH17. Cameron tem razão, mas duvido que uma ameaça europeia e americana de isolar a Rússia, caso esta não cesse o seu apoio à insurreição no leste da Ucrânia, viesse a alterar o comportamento de Putin: é por sentir que a Rússia está já isolada que Putin age como age. Toda esta crise é um produto do enfraquecimento russo: nos anos 80 e 90, com a incapacidade do império de manter o controlo sobre as várias “nacionalidades” que o compunham; e recente, com a aproximação ucraniana à NATO e à UE.

Longe de ser a “afirmação do poderio russo” que por aí se anuncia, a desestabilização do leste ucraniano surge da percepção de que esse poder é cada vez menor. A Rússia é um país que vê os vizinhos quererem fugir da sua “esfera de influência”, numa gravíssima crise demográfica, e com um orçamento de Defesa quase insignificante quando comparado com os EUA. E a circunstância do regime ser (como escreveu Fraser Nelson) “uma gigantesca empresa energética com um exército” pode ter enriquecido os seus corruptos líderes, mas também os fragilizará, à medida que os EUA começarem a usar o emergente sector do gás de xisto para baixarem os preços no mercado energético global: não só verão a sua riqueza diminuída, como se arriscam a que uma economia atrofiada lhes retire o apoio popular.

Mas com as suas tropelias na vizinhança, Putin une os russos em torno do líder que os “protege” de um “Ocidente moralmente decadente” e dos “nazis” da Ucrânia. Sanções mais pesadas serão talvez a resposta necessária ao que se passou. Mas não deixarão de servir a Putin para conquistar apoio interno. Lidar com o Putin é como lidar com um “bully”: se ignorarmos os seus tormentos, estes continuarão porque ninguém lhes vai pôr fim. Se respondermos, estaremos a reagir como ele sempre quis. Façamos o que fizermos, jogaremos sempre o jogo dele.

John Blundell (1952-2014)

Foi com misto de surpresa e tristeza que tomei conhecimento do falecimento de John Blundell, ex-Director Geral do Institute of Economic Affairs, com apenas 62 anos. Tive oportunidade de conhecer o casal Blundell (John e Christine) durante os anos que vivi em Londres enquanto aluno de doutoramento na LSE.

Como muito bem referido por Steve Davies, o casal constituia uma “effective double team”, de cujo apoio tive a sorte de beneficiar por várias vezes. Relativamente a John Blundell, ele próprio um ex-aluno da LSE, destaco o interesse e apoio que sempre manifestou relativamente à LSE Hayek Society e que pude testemunhar pessoalmente nos dois anos em que fui membro da Direcção da mesma, assim como as suas extraordinárias capacidades de networking, das quais também beneficiei em vários momentos.

Com o desaparecimento de John Blundell, o movimento internacional de defesa da liberdade na perspectiva do liberalismo clássico perde uma das suas mais activas e influentes figuras das última décadas.

John Blundell R.I.P. Por Steve Davies.

With the passing yesterday of John Blundell, the movement for freedom and economic liberty on both sides of the Atlantic has lost one of its leading figures. John was for many years at the centre of that movement of people, institutions and ideas that promoted economic freedom. He leaves behind a legacy of organisations that he played an important part in building and also leaves behind lives that he touched and changed. He is best known here as the IEA’s long-serving Director General between 1993 and 2009 but he was deeply involved with many institutions and movements both in the UK and in the US and beyond.

Continuar a ler

João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)

Aos 73 anos, desaparece o autor de “Viva o Povo Brasileiro” – João Ubaldo Ribeiro.
(via JMF)

A última coluna escrita por João Ubaldo Ribeiro: O correto uso do papel higiênico.

O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente.

Continuar a ler

Misoginia e falta de juízo

O meu texto de hoje no Observador, sobre maravilhosos ditos e sentenças de juízes em casos de violações e de abusos sexuais a menores.

‘Hoje trago casos em que a realidade imita a ficção.

Parte da ficção vem dos livros de Nancy Mitford e de uma das suas personagens: Lord Alconleigh, fidalgo de província que servia como magistrado. O método usado para determinar a culpa dos supostos meliantes que lhe apresentavam era simples e tornava desnecessárias maçadas como provas, testemunhos, interrogatórios e contra-interrogatórios; bastava ponderar se o acusado tinha ou não cara de criminoso. A simetria facial e a forma mais ou menos ameaçadora das sobrancelhas sentenciavam a pena ou a absolvição.

Claro que, agora na realidade, nenhum juiz cai no exagero de determinar sentenças baseando-se nas feições dos acusados. Têm um método ainda mais infalível: decidem com base no sexo dos queixosos. Porque toda a gente sabe (ou, pelo menos, os juízes sabem): as mulheres são mentirosas. Capazes de inventar qualquer historieta alucinada para destruir a vida de um coitado do sexo masculino. De os levar à loucura, à aplicação de uns sopapos (que eles nem queriam) e, de seguida, ainda vão para os tribunais caluniar um homem.’