70 anos

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Auschwitz.

Hoje a RTP 1 pelas 23.30 h, exibirá a “A Noite Cairá” de Alfred Hitchcock. Trata-se de um documentário que revela imagens dos campos de concentração nazis. A maior parte do filme rodado em 1945 baseia-se no  campo de concentração de Bergen-Belsen. Alfred Hitchcock montou o filme mas por decisão dos Aliados e dada a brutalidade reproduzida na película, acabaria por ficar nos arquivos.

Tsipras, Putin e a Rússia

Putin congratulates Tsipras

Russian President Vladimir Putin congratulated Alexis Tsipras for the latter’s decisive victory and expressed certainty that Greece and Russia would continue to develop the traditionally close ties that bind them in an effort to constructively find solutions to current European and international problems.

Tsipras blasts EU’s Ukraine policy in Moscow (13 de Maio de 2014)

Syriza leader Alexis Tsipras lambasted western policy on Ukraine and expressed support for separatist referendums in the Ukraine during an official visit to Moscow, upon the invitation of the Russian government.

Dias interessantes na Grécia (3)

Festa? Falemos antes dos dias difíceis do Syriza. Por José Manuel Fernandes.

Na sequência do resultado eleitoral, o Financial Times interrogava-se sobre se Tsipras se vai revelar um demagogo, estilo Hugo Chavez, ou um realista, na linha de um Lula da Silva. Na verdade Tsipras não tem a margem de manobra de nenhum desses líderes – não tem petróleo, não tem moeda e não vai dirigir um país com tantos pobres e iletrados como a Venezuela ou o Brasil. As escolhas de Tsipras não só são mais estreitas como terão de ser imediatas. E são escolhas que têm a ver com dinheiro, muito dinheiro: o que já falta à Grécia para cumprir as obrigações de 2015 e o que o Syriza precisaria para por em prática as suas promessas eleitorais.

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Um enorme trinta-e-um

European-union-sfSpanEsta manhã, as classes falatórias do continente europeu acordaram em polvorosa com a notícia da vitória do Syriza. Dos que exultam com o resultado aos que nele vêem um Apocalipse, todos atribuíram um enorme significado à coisa. Era escusado: a vitória do Syriza é tão irrelevante como o seria a sua derrota. Infelizmente, os problemas que a crise grega implica para a Grécia e para a Europa precedem a eleição de ontem, e sobreviver-lhe-iam independentemente de qual fosse o vencedor. A subida do Syriza ao poder apenas precipita a sua confrontação.

Em 2010, o conhecido jornalista americano Michael Lewis viajou para a Grécia para escrever um artigo sobre a crise do país. Publicado na Vanity Fair e incluído no seu livro Boomerang, e o retrato que faz é aterrador. Uma Grécia que, anos 80 e 90, sofria taxas de juro sobre os seus títulos de dívida pública 10% mais altas que as alemãs, viu na adesão à moeda única uma forma de ser tratada “como um país totalmente funcional do Norte da Europa”. O problema, explica Lewis, é que estava longe de o ser, dado os seus défices monstruosos e a inflação indomada da sua antiga moeda nacional, e só mesmo as mágicas artes da manipulação das contas (com a prestimosa ajuda da Goldman Sachs e o fechar de olhos do resto da “Europa”: Lewis cita um economista grego que, em 1998, notava como as contas oficiais gregas deixavam de fora metade da sua dívida real) permitiram que a Grécia aderisse ao euro desde o seu início. Uma vez conseguido este objectivo, o país pôde então “adquirir para a sua dívida uma garantia implícita da Europa (leia-se da Alemanha)”, permitindo aos gregos contrair empréstimos a taxas semelhantes às dos alemães.

Não foi só o “povo grego” a aproveitar a oportunidade: os bancos gregos, diz Lewis, emprestaram cerca de 30 mil milhões de euros ao Estado (a juntar a todos os outros que este último pediu emprestado a muitas outras entidades), que prontamente os atirou ao lixo: entre 2000 e 2010, os salários do sector público (excluindo subornos que pediam aos incautos que a eles recorrem) duplicaram; a companhia de caminhos de ferro tinha uma despesa sete vezes menor que as suas despesas; o seu sistema educativo, apesar de ser um dos piores da Europa, tinha quatro vezes mais professores por aluno que um dos melhores, o finlandês; empregos que fossem classificados como “trabalho árduo” tinham como idade de reforma 55 anos para os homens e 50 para as mulheres, e incluíam profissões como radialistas ou músicos; o pagamento de impostos era uma actividade praticamente facultativa: os médicos, uma profissão onde escasseiam os necessitados e paupérrimos, eram conhecidos por declararem rendimentos inferiores aos necessários para se pagar imposto; e a explosão do défice em 2009, por exemplo, era explicada a Lewis pelo então Ministro das Finanças como uma consequência de ter sido um ano eleitoral, e que como tal os funcionários do fisco local tinham recebido ordens para não serem especialmente rigorosos na cobrança fiscal. E claro, a massagem das contas públicas continuava, com, por exemplo, o montante real dos gastos do Estado com o sistema público de pensões a ser mais de três vezes superior ao declarado às instituições europeias. Como seria de esperar, nada disto teve um happy ending.

Quando o Pasok chegou ao poder, substituindo a Nova Democracia, teve de admitir que o buraco orçamental era muito maior do que era até reconhecido, e que a Grécia teria de pedir o resgaste à troika do FMI, BCE e UE. Como diz Lewis, a “Europa concordou em gastar milhões de dólares para resgatar a Grécia. Em contrapartida, a Grécia comprometeu-se a dar uma volta à quase totalidade da sua economia.” Mas como até a mais distraída das leituras de uma das recentes avaliações da execução do programa grego mostra, a promessa ficou longe de ser cumprida: “a Grécia”, diz o FMI, “tem continuado a fazer progressos significativos no reequilíbrio da sua economia. Mas tem ficado para trás na execução de reformas indutoras da produtividade”, para o que contribuiu a resistência de “interesses instalados”. O “ajustamento” terá sido efectuado “através de canais recessivos (compressão de despesa e salários reais), em vez de ganhos de produtividade”, e objectivos como os das privatizações, reformas no mercado laboral, e da própria contenção da dívida ficaram muito aquém do exigido e prometido. Por alguma razão, no mês passado, a EU teve de prolongar o programa de empréstimos à Grécia por mais dois meses, dados os receios de que tudo estivesse à beira de ruir.

É verdade que, o ano passado, a Grécia conseguiu um excedente orçamental. Mas feito “à bruta” (veja-se, por exemplo, os cortes nas pensões, feitos não de forma gradual mas de uma assentada), o “ajustamento” grego não podia deixar de ter tido consequências gravíssimas para a população. Desde o elevado desemprego jovem, passando pelos funcionários públicos despedidos, pelas pessoas que não conseguem contrair empréstimos e por isso têm de fechar os seus pequenos negócios, por quem não deixou de ter dinheiro para pagar as escolas dos filhos, até quem deixou de ter dinheiro para pagar o suborno aos médicos para que os seus velhos sejam tratados num hospital, uma enorme fatia da população grega viu, de um dia para o outro, a sua vida piorar significativamente, e com poucas perspectivas de alguma vez vir a melhorar. E escusado será dizer que, embora mais “austeritário”, o Estado grego não ficou por isso menos corrupto: a máquina fiscal que outrora servia acima de tudo para cobrar subornos a quem não queria pagar impostos comporta-se agora de forma autoritário para cobrá-los mesmo a quem não os deve.

Perante isto, não é de espantar que um partido como o Syriza tenha conseguido ganhar as eleições. Para quem viva num país que passou pelo acima descrito, o voto em quem promete querer a “reestruturação da dívida” (com perdão de parte dela) e a manutenção da Grécia no seio quente e fofo da moeda única, o aumento do “investimento público” em cerca de 4 mil milhões de euros e a descida de impostos, surge naturalmente como algo atractivo, se bem que apenas da mesma forma (e com as mesmas consequências) que o canto da sereias era atractivo para os marinheiros companheiros de um mítico habitante daquelas terras.

Aliás, não tem faltado quem diga que esta vitória do Syriza é uma prova de como a “austeridade” da “sra. Merkel” (uma oportunista política de importância menor elevada a ideóloga firme e toda-poderosa pela simplicidade mental dos críticos) tem como único resultado a ascensão das forças políticas radicais. Deixando de lado o problema do raciocínio de se identificar os “radicais” como um mal mas achar-se que a forma de os combater é precisamente adoptando a sua agenda, esta é uma tese que peca pela incapacidade de compreender a natureza do berbicacho que defrontamos. Pois não é só na Grécia que os “radicais” e os “extremos” conquistam um lugar nos voláteis corações dos eleitores, e em alguns desses outros locais, não é a austeridade que os anima, mas precisamente o que entendem ser um excesso de “generosidade” para com os que se queixam dela: se na Grécia a vitória do Syriza talvez se deva à forma como Merkel, a Finlândia e a Holanda fizeram a “Europa” lidar com a crise, na Alemanha, Finlândia e Holanda, a ascensão de partidos radicais “nacionalistas” não se deve de forma alguma à ideia de que os “povos do sul” estão a ser autoritariamente condenados à pobreza pelo “fundamentalismo austeritário” dos “países do norte”, mas à percepção de que alemães, finlandeses e holandeses estão a pagar a “preguiça” e a “boa vida” dos “laxistas” do “Mediterrâneo”.

Pouco interessa qual dos lados tem razão, quanto mais não seja porque o mais provável é que ambos estejam igualmente longe da verdade. O que interessa é que os lados existem, e colocam um enorme problema à União Europeia, problema esse que decorre da forma como os seus arranjos políticos e económicos foram desenhados. O “anti-austeritarismo” grego ou espanhol e o nacionalismo “anti-dependentes” da Alemanha ou da Finlândia, apesar das suas muitas diferenças, têm no euro uma origem comum: a adopção de uma mesma moeda por países com condições e características políticas, sociais e económicas tão diferentes como a Grécia (ou Portugal) e a Alemanha (ou a Finlândia), fez com que a dada altura fosse inevitável que as necessidades de países com problemas orçamentais se tornassem incompatíveis com a credibilidade da moeda, a necessidade de restrições orçamentais nesses países com a possibilidade de terem algum crescimento económico, e a eventual conveniência de transferências monetárias dos mais ricos para os mais pobres com o apoio eleitoral aos partidos de governo nesses países mais ricos. Os arranjos políticos e económicos da União Europeia produziram não só um conflito de interesses de duas democracias, uma incompatibilidade entre vontades igualmente legítimas das respectivas maiorias eleitorais de cada um dos regimes democráticos integrantes da UE, como assegurou também que ninguém fica contente com o resultado: dependendo da proveniência, ora se protesta a falta de “solidariedade” de uns, ou o estar-se a pagar a “preguiça” e o “despesismo” dos outros.

Na Grécia, considera-se que a dívida actualmente contraída pelo Estado é insustentável, ou no mínimo incompatível com os “direitos humanos do povo grego”. E embora haja quem diga que a dívida grega até é mais sustentável que a de outros países, a verdade é que a necessidade de obter excedentes orçamentais primários de 4,5% do PIB em 2016 parecem, dado o estado do país, ser incompatíveis com a possibilidade dos gregos levarem uma vida minimamente decente. Nesse sentido, uma “reestruturação” da dívida talvez fosse útil (embora se argumente que as taxas de juro gregas são já tão baixas que tal medida não serviria de muito). O problema está em que uma “reestruturação” não se faz unilateralmente, e os credores da Grécia só a aceitariam se tivessem um mínimo de confiança (que obviamente não têm) de que o país aproveitaria esse alívio para fazer as reformas que em tempos de dificuldade não conseguiam fazer, em vez de o usar para regressar aos “bons velhos tempos” descritos por Michael Lewis. De forma unilateral, a única coisa que a Grécia pode fazer é declarar uma bancarrota, uma opção que, embora permitindo o regresso à sua extinta moeda nacional e o recurso à sua impressão em massa para aumentar salários e despesa, teria como consequência real uma outra “austeridade”, porventura ainda mais violenta: com a inflação, o aumento nominal dos salários corresponderia muito provavelmente a uma descida real do seu valor, e a uma degradação das condições de vida dos que ainda tivessem emprego, para não falar dos que entretanto se juntariam à longa fila de desempregados, após o fecho de mais não sei quantos negócios, levados na corrente. A Grécia substituiria a “austeridade” da “sra. Merkel” e imposta pelo estrangeiro por uma “austeridade” interna do “sr. Tsipras”, e dificilmente ficaria melhor com a troca.

Deve ser por isto que muita gente fora da Grécia viu com bons olhos uma vitória do Syriza: a desgraça que se abateria lá pelos lados helénicos serviria de exemplo para quem, por aqui e por ali, vá tendo veleidades “anti-austeritárias”. O problema está em que a desgraça não se cingiria à Grécia, alastrando-se em maior ou menor grau por toda a União. Parece ser verdade que o sistema financeiro europeu está muito menos exposto à dívida grega, e que portanto uma eventual bancarrota causaria teoricamente menos danos agora do que teria provocado em 2010. Mas convém não esquecer que, a partir do momento em que a Grécia reintroduzisse uma moeda própria, os gregos que ainda tivessem euros na sua mão teriam de os trocar, colocando no mercado uma inundação de euros para venda que conduziriam a uma sua desvalorização. A simples saída de um país da moeda única colocaria em dúvida a credibilidade desta última, quanto mais não seja porque haveria sempre a possibilidade de as coisas até correram bem e do seu exemplo ser posteriormente seguido por outros países. E claro, uma saída grega do euro implicaria perdas de montantes relativamente avultadas nos cofres dos países da União: a Alemanha, obviamente, seria quem teria mais a perder. Mas até o nosso país se arriscaria a perder 1,1 mil milhões de euros com a brincadeira. E há quem receie que os fundos de resgate não têm dinheiro suficiente para lidar com uma crise que eventualmente se abatesse sobre a Espanha ou a Itália em consequência do que resultasse de uma saída grega.

Por outro lado, se a Alemanha e restante União Europeia acabarem por ir ao encontro das pretensões de Tsipras, a incerteza e o perigo não seriam menores. O resultado imediato seria o de incentivar os restantes países em dificuldades (não só Portugal, não só a Espanha, mas também a Itália e acima de tudo a França) a pedirem igual ou semelhante benevolência. A credibilidade do euro, que sofreria logo com o perdão ou simples reestruturação da dívida grega (a moeda passaria a estar associada, não à política ortodoxa de Frankfurt, mas às práticas orçamentais criativas de Atenas), ficaria pelas ruas da amargura com a mera possibilidade de semelhantes perdões e reestruturações se estenderem ao resto do continente, e de que as reformas que não foram feitas deixassem de ser vistas como necessárias. A perda de valor do euro afectaria não só os salários e poupanças dos gregos, mas também o valor dos rendimentos dos cidadãos dos outros países da zona euro, implicando uma degradação das suas condições de vida. E perante as dificuldades estruturais das suas economias e a relutância em realizar as reformas que poderiam ajudar a colmatá-las, as expectativas de que pudessem melhorar seriam tão escassas como os empregos que sobreviveriam à tempestade.

Aconteça o que acontecer com o Syriza, aconteça o que acontecer no país que agora irá governar em coligação com os nacionalistas-populistas-justicialistas dos dissidentes da Nova Democracia, nem a Grécia nem o resto da Europa se verão livres de dificuldades nos tempos que se avizinham. Nem a Grécia nem a Europa evitarão uma qualquer forma de “austeridade”. Nem os problemas relacionados com a forma como a Grécia tem sido governada desaparecem, nem os problemas inerentes ao desenho dos arranjos políticos da “Europa” deixarão de existir.

Temos, por isso, um enorme trinta-e-um em mãos. Como saíremos dele?

Mal.

Compreender o putinismo XIV

URSS

Back in USSR.

The Association of Tour Operators of Russia (ATOR) has issued a reminder through Russian media that a new rule for foreign tourists comes into effect as of January 26, obligating them to list the cities, towns and other inhabited areas they plan to visit while in Russia.

Russia’s Federal Migration Service is also requiring proof of an invitation to visit these settlements and the name of the person or organization giving the invitation.  All types of visas must have this information on them.

“oportunismo pouco recomendável”

Grécia (2) Por Vital Moreira.

A tentativa de todas as esquerdas em Portugal para cavalgarem a vitória da esquerda radical na Grécia, incluindo partidos que pouco têm a ver com o Syriza, como o PS e o PCP, releva de um oportunismo pouco recomendável.

O Syriza, a Frente Nacional e o futuro da Europa

Depois do Syriza, a Frente Nacional. Por Rui Ramos.

Estarão a esquerda radical e a direita nacionalista disponíveis para respeitar o pluralismo político e admitir a alternância governativa, que, até hoje, foram os fundamentos das democracias europeias? Não serão as suas políticas, fundamentalmente hostis à liberdade de iniciativa ou de circulação, fatais para uma UE até agora concebida, apesar de todas as limitações, como uma via de abertura das sociedades europeias e flexibilização das suas economias? Nesse caso, a página que se virou ontem na Grécia pode mesmo ser a primeira de um livro muito diferente do que aquele que contém a história dos últimos 70 anos.

Leitura complementar: Razões para ter esperança no Syriza.

Dias interessantes na Grécia (2)

As três prioridades do novo ministro das Finanças, o marxista Yanis Varoufakis
Bolsa de Atenas afunda 7%. “O jogo de xadrez com a Europa ainda agora começou”

Merkel e BCE a uma só voz fecham a porta a renegociação da dívida

A Europa reage às eleições gregas. Angela Merkel, FMI e Banco Central Europeu são claros: não há espaço para renegociação da dívida. “A Grécia não pode ter tratamento especial”, diz Lagarde.

Leitura complementar: Razões para ter esperança no Syriza.

Dias interessantes na Grécia

Gregos Independentes: quem é o novo parceiro do Syriza?

Em pouco menos de uma hora, no dia seguinte às eleições, o Syriza chegou a acordo com o partido nacionalista de direita Gregos Independentes, para formar um Governo de coligação – terá uma maioria de 162 deputados (149 + 13), num Parlamento com 300 cadeiras. (…) Em dezembro, Kammenos fazia umas declarações polémicas à televisão grega acusando os judeus que vivem na Grécia de não pagar impostos. O discurso foi encarado como profundamente anti-semita e as comunidades judaicas apressaram-se a exigir pedidos de desculpa oficiais.

“Gregos Independentes” – a boa direita nacionalista? Por Miguel Madeira.

Leitura complementar: Razões para ter esperança no Syriza.

Marine Le Pen congratula-se com vitória do Syriza

Marine Le Pen satisfeira pela “monstruosa bofetada democrática que o povo grego veio dar à União Europeia”
Le Pen deseja vitória do Syriza de Alexis Tsipras na Grécia

Leitura complementar: Razões para ter esperança no Syriza.

A justiça, a solidariedade e a ajuda à Grécia

Os apoiantes do Syriza, que vão do Bloco de Esquerda à Frente Nacional, mencionam muito a necessidade de se encontrar uma solução justa para a Grécia. Sejamos francos num ponto: qualquer solução que passe por a Grécia não pagar o que pediu emprestado para se desenvolver, mas que foi para os bolsos errados, não é justo. Pode ser uma decisão solidária; pode ser caridade; pode ser uma forma de dar esperança aos gregos, mas não é justiça.

A Europa pode ajudar, uma vez mais, a Grécia. Pode haver, até, muito boa vontade da parte dos credores, mas não haverá justiça.

A amizade nem sempre é justa; a solidariedade nem sempre é justa; a boa vontade nem sempre é justiça.

A ilusão das palavras

jn_2015_01_26Afinal o governo de Passos Coelho tinha uma solução simples para acabar com a crise orçamental que se instalou em 2011, quando Sócrates ficou sem dinheiro para pagar contas. Simples, bastava-lhe anunciar o “fim da austeridade”!!! No dia seguinte às eleições na Grécia, este parece ser o principal mote da maioria dos socialistas, bem retratado na capa do Jornal de Notícias.

A acontecer, a reestruturação da dívida implicará, para um orçamento deficitário como o do Estado grego, acordo entre os novos credores (que terão de financiar os próximos défices) e o governo de Tsipras (que terá de convencê-los que o seu programa é capaz de equilibrar as contas). Não vejo o sector privado a entrar nesta aventura. Resta a União Europeia, o BCE e o FMI, ou seja a troika.

Acreditar que a partir de hoje tudo vai ser um mar de rosas é, penso, uma grande ilusão. A ver.

O programa do Syriza

Este é o programa do Syriza

Depois da noite de domingo, a Europa vai ter que contar com uma nova proposta política, eleita num Governo da zona euro. Aqui deixamos-lhe uma síntese, primeiro das linhas gerais do programa – e mais abaixo do seu programa económico, desenhado em cinco pilares.

Leitura complementar: Razões para ter esperança no Syriza.

Syriza com maioria absoluta?

TSF:

O Syriza, partido anti-austeridade da Grécia, liderado por Alexis Tsipras, venceu as legislativas ao conseguir entre 35,5 por cento e os 39,5 por cento dos votos, segundo as primeiras sondagens logo após o encerramento das urnas.

De acordo com os resultados destas primeiras projeções, o Syriza pode mesmo conseguir a maioria absoluta, que se traduz em 151 lugares no parlamento, com 300 deputados no total, conseguindo entre 146 e 158 parlamentares.

Syriza: a vacina com muitos efeitos secundários

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No ano passado estive de férias na Grécia. Com grande pena minha falhei as grandes e violentas manifestações da praça Syntagma, mas apanhei lá um desfile de orgulho gay, colorido e divertido, de que deixo aqui uma fotografia. Estive em Atenas (não muito tempo) e, como não sofro daquela aflição de tantos portugueses enfadados de só poder ir de férias para locais para onde tenham transporte aéreo sem escalas, alugámos um carro e fomos para uma praia a quatro horas de distância de Atenas.

A Grécia tem muito de parecido com Portugal. Os restaurantes e os hóteis, mesmo com crise e com resgate internacional, estavam com frequência abundante de gregos. As roupas e os carros não são assim tão diferentes dos nossos. Há, como se mostra acima, paradas LGBT. As aldeias perdidas longe de Atenas tinham as mesmas casas por pintar e muros só de cimento das aldeias perdidas longe de Lisboa, com as senhoras de idade vestidas de preto. E Atenas deve ter um presidente de câmara parecido com Costa, também às voltas com a recolha de lixo na capital, que acaba tornando os montes de lixo numa das features da cidade (fotografia abaixo, para verem como é igual).

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Mas também havia diferenças. Mais (ainda mais) casas com sinais de estarem à venda. Mais lojas fechadas (e bombas de gasolina e cafés) pelo meio de Atenas e pelas tais aldeias perdidas do que se vê por cá. A auto-estrada tinha com frequência trajetos em desuso ao lado, não de estradas nacionais substituídas pela auto-estrada mas de troços de auto-estrada substituídos por novos troços de auto-estrada – dando ideia do escrupuloso dinheiro dos contribuintes e dos credores que havia sido feito. Enfim, a nuvem da crise era mais opressora do que se notava em Portugal.

No meio disto tudo, o Syriza vai provavelmente hoje ganhar as eleições. E ou se hollandiza – e mostra em definitivo que o paleio da esquerda radical só serve mesmo para enganar os tolos – ou provocará o fim do financiamento à Grécia com a consequente calamidade económica, com ordenados e pensões e demais compromissos do estado grego por pagar. Claro que a vitória do Syriza pode ser a vacina que os europeus precisam para se relembrarem dos efeitos económicos das políticas da extrema-esquerda, e tirar as veleidades dos partidos de esquerda dos outros países, mas eu não sou cínica a ponto de desejar esta clarificação sacrificando um país e os gregos que não votam no Syriza.

Por cá é divertido sobretudo ver como não só no partido-irmão do Syriza, o BE, há entusiasmo por esta esperada vitória. O PS costista está carregado de gente com olhos arregalados de satisfação. O que diz muito do que é atualmente o PS – e como não percebem o país (Portugal, mesmo) nem o mundo.

Uma Tragédia Grega

Em dia de eleições na Grécia, vale a pena relembrar o programa do Syriza, o mais certo vencedor das eleições:

  • Perdão substancial da dívida pública grega de modo a que se torne sustentável.
  • Sujeitar o pagamento da restante parte da dívida ao crescimento económico.
  • Inclusão de um período de carência no pagamento da dívida para obter fundos para o crescimento.
  • Exclusão do investimento público das restrições do pacto de estabilidade e crescimento – o António Costa, vem tarde.
  • Um novo “New Deal” Europeu, financiado pelo Banco Europeu de Investimento.
  • Um programa de Quantitative Easing do Banco Central Europeu em que este compre dívida directa aos estados (já depois do perdão da dívida) – volta José Seguro, que estás perdoado
  • Aumentar o investimento público em pelo menos 4 mil milhões de euros.
  • Reverter gradualmente todas as injustiças do memorando de entendimento.
  • Repor gradualmente os salários e as pensões de modo a estimular o consumo e a procura.

O programa do Syriza conta ainda com as seguintes medidas:

  • Electricidade gratuita para 300.000 lares abaixo da linha da pobreza e até 300 kWh por mês por por famíla.
  • Subsídios de refeição para 300.000 famílias sem rendimento.
  • Programa de garantia de habitação com o objectivo inicial de cobrir 30.000 apartamentos (entre 30 e 70 m^2) subsidiando a renda em 3€ / m^2.
  • Restituição do subsídio de natal como o 13º mês a pensionsistas cuja pensão seja inferior a 700€.
  • Cuidados médicos e farmacêuticos gratuitos para desempregados sem seguro de saúde.
  • Cartão de transportes públicos especial para os desempregados de longa duração e para quem se encontra abaixo do limite da pobreza.
  • Eliminação do imposto especial sobre combustíveis para aquecimento e sobre o gasóleo automóvel.
  • Cessar os processos de dívidas ao estado durante 12 meses para quem não tem rendimento.
  • Abolir o imposto unificado sobre a propriedade (ENFIA) e introduzir um imposto sobre grandes propriedades.
  • Suspender por tempo indeterminado todos os despejos por parte dos bancos para residências avaliadas até 300.000€.
  • Criação de um banco público de fomento com capital de mil milhões de euros – o Pires de Lima é um visionário.
  • Aumento do salário mínimo para 751€ – o António Costa é demasiado modesto.
  • Recuperação da protecção dos direitos trabalhadores perdidos através do memorando de entendimento com a troika.
  • Recuperação dos acordos colectivos de trabalho.
  • Abolição de todas as regras que permitam o lay-off massivos e injustificados.
  • Programa de criação de 300.000 empregos – o José Sócrates foi pouco ambicioso.
  • Re-estabelecimento da ERT (estação de radio e televisão pública).

Boa Sorte lá com isso, Tsipras!

TSIPRAS PIDE MAYORÍA ABSOLUTA PARA LAS ELECCIONES DEL DOMINGO EN GRECIA

Compreender o putinismo XIII

Foto: AP

Foto: AP

Na Rússia, a fome voltou a ser patriótica.

Russian Deputy Prime Minister Igor Shuvalov, speaking at the World Economic Forum in Davos, on Friday warned the West against trying to topple President Vladimir Putin and said that Russians are ready to sacrifice their wealth in Putin’s support.

Russia has for the past year been sliding into recession amid a slump in its energy export prices as well as Western sanctions against Moscow’s role in the conflict in Ukraine that has claimed more than 5,000 lives. Questions have been raised in Russia and abroad whether the price that ordinary Russians are having to pay for the annexation of Crimea is too high.

Shuvalov, who is believed to be one of the richest men in the government, said that what he considers the West’s attempts to oust Putin will only unite the nation further.

“When a Russian feels any foreign pressure, he will never give up his leader,” Shuvalov said. “Never. We will survive any hardship in the country — eat less food, use less electricity.”

Shuvalov’s comments triggered pithy remarks on Russia social media including an opposition activist who posted photos of Shuvalov’s Moscow, London and Austria homes to illustrate where the deputy prime minister would experience the hardships he described.

Críticos da Sétima Arte em alta

AE

Apesar da confusão do crítico oriundo da Coreia do Norte, a crítica ao filme “A Entrevista” não pode deixar de ser clara.

O filme A Entrevista já rendeu muita dor de cabeça à Sony, por provocar a ira do regime norte-coreano e de hackers que invadiram o sistema de segurança da empresa em novembro passado. Agora, o longa é responsável por tirar o sono dos organizadores do Festival de Cinema de Berlim, já que o governo de Kim Jong-un acredita que o filme terá sua estreia em Berlim durante o festival, porque ambos acontecem no mesmo dia, 5 de fevereiro. “Esse filme claramente instiga o terrorismo“, diz um trecho do comunicado em tom de ameaça emitido pela emissora estatal norte-coreana, que também afirma que se A Entrevista for para a Berlinale, a Alemanha será vista como uma aliada dos Estados Unidos. Entretanto, o evento já divulgou a sua lista de filmes, e A Entrevista não está entre eles.

Dúvidas sobre a próxima tragédia grega

  1. Vai o Syriza conseguir maioria absoluta nas eleições de 25 de Janeiro?
  2. Obtendo apenas maioria relativa vai o Syriza coligar-se com outro partido ou tentar governar sozinho?
  3. Sendo a economia grega apenas 2% da Zona Euro, conseguirá o Syriza ter suficiente poder negocial para manter-se no euro e, ao mesmo tempo, reestruturar a dívida do país?
  4. Em caso de reestruturação da dívida grega (por outras palavras, incumprimento) que investidores privados estarão dispostos a financiar novos défices?
  5. Poderá o Quantitative Easing do Banco Central Europeu ajudar o financiamento do novo governo grego? E se este programa limita a compra a 33% da dívida de cada Estado-membro, onde irá a Grécia financiar os restantes 67%?
  6. Terá Alexis Tsipras suficiente margem de manobra financeira para cumprir as promessas eleitorais de maior despesa pública ou seguirá o caminho de François Hollande?
  7. Estará António Costa, secretário-geral do PS, à espera para ver o que acontece na Grécia para, só mais tarde, apresentar definitivas propostas eleitorais para as eleições legislativas portuguesas?

De regresso à normalidade lunática II

Foto: Maan Images

Foto: Maan Images

Hamas e Fatah de costas voltadas. E ontem estavam tão bem. Em Julho do ano passado, uma vez mais, os dois principais movimentos palestinianos apesar de terem acordadado na construção de um governo de unidade nacional palestiniano regressam aos confrontos políticos. Na altura, um dos principais líderes do Hamas em Gaza, acusou o governo de unidade palestiniano de ignorar a Faixa de Gaza e reafirmou o que era esperado – é possível que o Hamas volte a retomar o controlo político e militar da área. O autor das ameaças foi Abu Marzouk, dirigente político do Hamas que negociou o acordo de reconciliação nacional com a Fatah. Abu Marzouk responsabilizou também o Presidente Mahmoud Abbas pelo agudizar do conflito.
Sete anos após a última guerra civil palestiniana, a 23 de Abril último, o movimento islamista Hamas e a Autoridade Palestiniana assinaram o acordo de reconciliação nacional que instituíu a 2 de Junho um governo de unidade nacional transitório formado por seis meses, composto por tecnocratas cujos obejectivos maiores passam por incrementar a economia local e preparar as eleições, prevista para… Janeiro de 2015.
De regresso ao mundo real, o que desplotou na altura as critícas do Hamas foram os incumprimentos financeiros aos mais de 50 mil funcionários públicos afectos ao Hamas na Faixa de Gaza que deixaram de receber os seus salários, anteriormente pagos pelos islamistas. O Hamas pediu ainda a demissão dos quatro ministros do governo de unidade nacional que se encontram colocados no território da Faxa de Gaza  em protesto pela falta de pagamentos e pelo facto de Mahmoud Abbas nunca ter visitado Gaza após o acordo de constituição do governo de unidade nacional.
A História tem todas as condições para voltar a repetir-se. Hoje um carro explodiu. já tinha acontecido este espisódio, Terça-feira.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

A Grécia está tramada

A Grécia vai ter eleições legislativas neste domingo, mas a Europa já não sustém a respiração por isso. É que, ao contrário do que aconteceu no passado, desta vez o trabalho de casa foi feito e o risco de saída da moeda única por parte da Grécia é menor.

Nos últimos anos, enquanto os gregos foram fazendo pequenos, embora dolorosos, ajustes nas contas do Estado, o financiamento vindo da troika serviu para comprar tempo e proteger os credores não institucionais da Grécia. Se antes seriam os bancos a perder com o incumprimento grego, agora o prejuízo já será suportado por instituições como o Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira, o BCE e o FMI, que detêm cerca de 3/4 da dívida pública grega.

Há risco, mas o efeito dominó está controlado. Falando mal e depressa, a Europa tramou a Grécia. No fundo, e se tivermos em conta a forma como a Grécia falseou as contas públicas, podemos dizer que lhe pagou na mesma moeda. Agora os gregos estão em maus lençóis. Por muito que o líder do Syriza, Alexis Tsipras, ameace, o certo é que os países nórdicos, com a Alemanha à cabeça, já não se assustam.

É que os gregos não têm grande alternativa: ou perdem ficando no euro, com a política de austeridade em cima, ou perdem muito mais, saindo da moeda única e sofrendo com uma drástica desvalorização da moeda nacional, uma inflação galopante e a pobreza repentina de milhões de pessoas. Se houver sensatez, e tanto se tem ouvido dizer que ela paira no Syriza, a vitória deste vai mudar pouca coisa.

Ana Cristina Leonardo bem podia aprender a ler

Graças aos tags dos comentários que o António Parente me fez num post da Ana Cristina Leonardo no fb dei com esta maravilhosa caixa de comentários sobre o meu texto de hoje no Observador, cheia de gente encantadora que, apesar de não saber ler, mais que compensa a falha em tonitruantes manifestações de superioridade esquerdista e pacifista e insultos.

Ora bem, no meu texto, eu refiro ‘A Segunda Guerra Mundial tem alguns paralelos curiosos com o presente e os perigos do extremismo islâmico (e não apenas do terrorismo). Os nazis eram um grupo de loucos dispostos a tudo, com um tipo particular de fé ateia que não está muito longe da intransigência fundamentalista islâmica‘. Comparo, portanto, o nazismo com o extremismo islâmico. Ora a boa gente do parágrafo acima fez equivaler ‘extremismo islâmico’ ao ISIS (sabe-se lá por que devaneios) e dedicam-se com fúria a demonstrar como a situação do ISIS é diferente da da Alemanha da década de 30. E eu, claro, sou uma ignorante por não saber que o ISIS e a Alemanha de 1939 são coisas diferentes. Isto, claro, apesar de eu ter referido extremismo islâmico – presente (e quanto) no Irão, na Arábia Saudita, na Síria e em sei lá quantos mais lugares – e nunca ter feito qualquer equiparação entre ISIS e Alemanha. Gente maravilhosamente perspicaz, portanto.

No meu texto avanço depois para comparar 3 (três) pontos específicos dos ‘alguns’ paralelismos que tinha apontado – que, como toda a gente percebe, é equivalente a escrever ‘a situação do ISIS é igual, sem tirar nem por, ponto por ponto, à da Europa em 1939′ -: drones, moderados e apaziguamento de Obama. A conclusão do texto é:

‘Não que eu recuse de todo o apaziguamento. Por razões diferentes dos seus autores, com a sua incapacidade de perceber que do lado oposto estão loucos que não medem sucesso e falhanço pelo número de pessoas vivas e pela qualidade de vida das populações, como nós costumamos. Mas porque cada vez mais me convenço que uma guerra é tão maléfica como uma paz podre. A decisão por uma ou por outra não obedece a leis gerais mas a circunstâncias concretas.

Pelo menos aprenda-se com a Segunda Guerra Mundial que o apaziguamento é uma opção pela paz podre e não pela paz.’

Pessoas pensantes poderiam chegar à conclusão que a paz podre foi o que trouxe a primavera árabe e os resultantes governos islâmicos, foi o que fez nascer a al qaeda, foi o que fez florescer as ditaduras laicas mas sangrentas e apoiantes do terrorismo destronadas com a primavera árabe, e foi e é o que mantém situações dramáticas de supressão de direitos humanos de metade da população da zona – as mulheres – e de violência sobre elas. Uma paz podre não é inócua; é perigosa e mortífera. Mas, mesmo assim, eu digo claramente que não prefiro a guerra a isso.

O que, perante isto, entende esta gente iletrada – perdão, esclarecida – que eu defendo? O evidente. Nas palavras de Ana Cristina Leonardo: ‘que o melhor era ir lá com uns tanques e depois fazer uma conferência em Potsdam para dividir o petróleo.’ Cinco minutos de palmas, sff.

Estas maravilhosas interpretações das minhas palavras – ou, na verdade, o que os macaquinhos na cabeça e os preconceitos da Ana Cristina Leonardo & friends os levam a interpretar das minhas palavras, e nem faz mal se for o contrário do que eu escrevo – estão no meio de outras considerações deliciosas. Uma senhora que não vislumbro quem seja diz que tem uma questão pessoalíssima comigo. Um tal de João José Cardoso diz que eu, por só ter referido livros britânicos, acho que a Segunda Guerra Mundial foi apenas britânica e que tudo revolveu à volta do Canal da Mancha. Ora bem, pessoas do mundo, ficam a saber, da parte do tal João José Cardoso: perante assuntos complexos que envolvam muitos países, línguas, culturas, datas, whatever, ai de quem se interessar mais por um ponto específico desse assunto. Ou leem sobre a totalidade ou NADA. Eu, presentemente, também tenho a casa a abarrotar de livros e papers sobre maoísmo. Ficam a saber – porque são obedientes e usam o fantástico método João José Cardoso -, assim, que para mim TODO o comunismo em qualquer país se resume ao maoísmo e que TODA a história da China, tanto quanto eu sei, existe apenas entre 1949 e 1976. Bravo pela estratosfericamente inteligente conclusão.

Este João José, que é uma pessoa certamente desempoeirada das ideias, também me chama ‘beata’. Ficam também a saber que qualquer pessoa que num estado laico tenha a falta de vergonha de se afirmar como católica é uma ‘beata’. Está ao lado dos imbecis passistas que usaram o mesmo argumento comigo, e dos invertebrados que dantes me associavam à Opus Dei e ao uso de cilícios. Não se preocupem, não vou cair no preconceito oposto e aconselhá-lo a tomar banho, pentear o cabelo, por um perfume, deixar de lado a t-shirt com o Che Guevarra e, enfim, abandonar o ar de rato de biblioteca que tanto esquerdista tem.

E ao estonteante senhor que afirma ‘esta Sarah Palin ilustra bem a diferença entre ser culta e debitar cultura a metro para o parecer…’, queria descansá-lo. Nunca na vida pretendi ser culta, era o que faltava. Até porque se sabe bem que as pessoas de direita nunca são cultas. Por muito conhecimento que adquiram, são sempre assim uns patos-bravos da cultura, de cada vez que se lhe referem é só exibicionismo e ostentação, aquilo não nos sai naturalmente como à boa gente de esquerda que se vê que bebeu cultura desde pequeninos. E na verdade nem sabemos bem, tal como o novo-rico desadaptado, o que é Cultura com C grande. Em vez de citar Chomsky, Zizek e outros autores que as pessoas cultas referem, falo em Churchill e Martin Gilbert. Vê-se à légua que o meu verniz cultural é muito fininho. Mas, lá está, como sou mansa e humilde de coração, queria aqui garantir que não pretendo dar-me ares de pessoa culta, nem pensar, e que olho com ar enlevado para a posição cultural muito mais elevada de Ana Cristina Leonardo e de este Humberto Baião.

Termino dizendo-me muito feliz com as gargalhadas que provoquei. Podia aqui agora citar o pai da Lizzie Bennet no Pride and Prejudice sobre rirmo-nos dos outros e os outros rirem-se de nós, que tem piada e era bastante apropriado, mas já me dei ares suficientes por hoje e é altura de não roubar protagonismo à gente verdadeiramente culta do país. E tempo de agradecer a experiência sociológica que o António Parente me ofereceu, que ver estas pessoas – que se calhar até votam – ajuda a explicar o estado do país. O problema nem é que sejam de esquerda ou profundamente preconceituosas. O problema, repetindo-me, é que não sabem ler.

Alemanha vs. Grécia – Modelos de desenvolvimento

Outra nota à análise de ontem de Miguel Sousa Tavares (MST) na SIC, desta vez sobre as eleições gregas, a austeridade e a Alemanha. MST comparou, não foi o primeiro a fazê-lo, a dívida da Grécia à da Alemanha no final da segunda guerra mundial, como pretexto para a necessidade de a Europa ser mais complacente com os gregos.

Dito assim parece lógico. Mas não é. Entre os dois casos há uma diferença abissal. A dívida alemã foi fruto das guerras que marcaram a primeira metade do século XX. Já a dívida grega é fruto do modelo de desenvolvimento da Grécia. A dívida alemã foi paga porque a Alemanha se desenvolveu. A dívida na Grécia foi contraída porque a Grécia se desenvolveu.

Ou seja, há algo de errado no modelo de desenvolvimento grego que não havia no alemão. É isto que tem de ser analisado e corrigido. É isto que deve ser exigido aos gregos e não aos alemães.

Charlie Hebdo, liberdade de expressão e de indignação

Miguel Sousa Tavares disse ontem, no seu habitual comentário das segundas-feiras na SIC, que o Charlie Hebdo caricatura a religião e que isso é uma outra forma de fanatismo, fanatismo ateu, que ele, apesar de ateu, não subscreve.

Não sou ateu. No entanto, não posso deixar de realçar o seguinte:

O Charlie Hebdo não foi atacado por caricaturar a religião, mas o fanatismo religioso. E mesmo que fosse a religião o alvo, a questão em cima da mesa é a mesma: liberdade de expressão. Qualquer pessoa é livre de ridicularizar o que quer que seja. Pode não ser responsável? Pode. Podemos nos indignar? Podemos. Mas cabe-nos passar por cima. Ser adulto é, em parte, isso mesmo: ter consciência de que o nosso valor está acima de qualquer crítica estúpida.

Notícias sobre o futuro do euro

Depois de a Suíça se ter tornado, na prática e por iniciativa própria, no primeiro país a “sair” do euro, vale a pena salientar também a continuação deste movimento: Bundesbank repatriou 120 toneladas de ouro em 2014

O Bundesbank, o banco central alemão, repatriou para Frankfurt 120 toneladas de ouro em 2014, procedentes das caixas-fortes no estrangeiro e mantém a intenção de ter em 2020 metade das reservas de ouro nas suas próprias caixas-fortes.

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Charlie e nós

Charlie e eu. Por P. Gonçalo Portocarrero de Almada.

Se amanhã alguém metralhar uma sinagoga judia, eu serei, com eles e por eles, judeu. Se uma milícia massacrar os alunos de uma escola palestiniana, norte-americana ou paquistanesa, eu serei um desses estudantes. Se algum fanático matar, em nome de qualquer ideologia ou religião, uma prostituta, um toxicodependente, um sem-abrigo, um travesti, um pagão ou um fiel de outra religião, eu serei tudo isso, sem deixar de ser cristão. (…) Não faço minhas as declarações dos católicos que, por se considerarem justos, dão graças a Deus por … não serem Charlie. Eu também não o sou, mas estaria disposto a sê-lo, para defender a liberdade das vítimas, sejam ou não mártires. Não apesar de ser cristão mas, precisamente, porque o sou.

documentário mais ou menos perdido sobre a descoberta pelos aliados dos campos de concentração

Um complemento certamente horrendo mas útil ao Shoah de Claude Lanzmann.

‘Singer’s documentary opens with footage from German Concentration Camps: Factual Survey of the British 11th Armoured Division liberating the Bergen-Belsen concentration camp in Northern Germany on April 15, 1945. There, the Allied troops discovered a strange sight.

“Neat and tidy orchards. Well-stocked farms lined the wayside. And the British soldier did not fail to admire the place, and its inhabitants—at least, until he began to feel a smell,” says a narrator in voiceover.

The British soldiers found tens of thousands of emaciated prisoners inside the camp, many of which were on the brink of death by starvation. The camera lingers on piles of naked, skeletal corpses stacked several bodies high, as well as line after line of dead children. A total of 30,000 corpses were witnessed by Allied troops, according to the film. Singer managed to track down several British soldiers who were there, and some break down in tears recalling the horrors. […]

So, Hitchcock served as a “director’s advisor,” supervising the way the footage was edited. He demanded that the documentary emphasized long shoots and frequent pans, so that people wouldn’t question its authenticity. He was also blown away by the stark contrast between the quotidian (the lives of Germans living near the camps) and the ghastly (the nightmare within), and requested that the film use maps to highlight their proximity, driving home the message that these German citizens knew exactly what was going on.

“Hitchcock himself is reputed to have been very nauseated by the footage,” says Singer. “He saw it in the cutting room and then didn’t want to watch it again.”

Bernstein’s time, however, soon ran out. According to a June 1945 memo from the Psychological Warfare Film department, Bernstein, lost in an artistic quagmire, was relieved of his duties. “Here he was trying to make a propaganda film, and he ended up making a great documentary,” says Singer. “And that’s not really what the government wanted.”

The Americans then installed acclaimed Double Indemnity filmmaker Billy Wilder as supervising director, and used some of Bernstein’s footage to create a short propaganda film entitled Death Mills. Whereas Bernstein’s film was artistic and captured the full breadth of suffering, Wilder’s version is described as a “hectoring short film” that “merely accused the Germans of committing these crimes.” Still, to the Americans’ credit, the film premiered in Germany.

“We must show it to as many Germans as possible,” Wilder says in a 1988 interview.’

No The Daily Beast.