A pessoa que viajava ontem ao meu lado rumo a Lisboa folheava o meu ex-jornal diário. Acabada a leitura da última página do Público, onde constava esta coluna, ri-se, e diz: “Que grande cromo! Este é daqueles que diz que acertou no totoloto à segunda-feira“.
Olhei, vi quem era o dito, ri-me também para dentro, baixinho.
O meu interlocutor, daqueles bem faladores, pergunta-me: “sabe se este senhor (não foi esta a palavra usada, mas o pudor impede-me de repetir a que foi realmente utilizada) escreveu alguma vez antecipando a crise?“.
Eu respondi-lhe, “não sei bem, mas sinceramente não me recordo de ler nada escrito pelo dito colunista sobre economia, finanças, e mercado de capitais, antes desta confusão em Wall Street“.
Suspira o meu interlocutor, “estranho, é que ele escreve que o cidadão informado – e, pelo name dropping (fala no Houdini, no Micosa, e em imensa gente, tantos autores que ele leu), ele parece ser um deles (ri-se novamente)- poderia estar a par da bolha do imobiliário há, pelo menos, dois anos; já nos podia era ter avisado antes“. Salta nova gargalhada, desta vez uma bem alarve, por sinal. Eu, inibido, ri timidamente, não andasse por ali alguém da brigada do algodão a insinuar que a minha expressão facial traduzia uma ausência de pluralismo.
À saida, comenta o meu interlocutor: “malandros, esses gestores dos bancos de investimento, gente inteligentíssima, e o pessoal da Guerra do Iraque. Bushistas. E malandro, também, esse Durão Barroso, que também é culpado. O que nos vale é que vem aí o Messias“.
“O Messias?”, perguntei.
“Sim, o Messias“, ouço. “Esta aqui dito, no fim, “os americanos, ao menos, têm uma escolha entre mudar de defeitos e mudar de feitio nas próximas eleições“.
Pois…
não sei o que é mais grave, saberem que algo ia acontecer ou não fazerem nenhuma ideia do que vai acontecer.
Comentário por ferro1 — Setembro 25, 2008 @ 16:00
RAF, você teve um sonho estranho no comboio. Espero, pelo menos, que o tenham acordado a tempo de sair na sua estação. Homem, ninguém usa “name droping” numa conversa.
Comentário por Pedro — Setembro 25, 2008 @ 16:01
Pedro,
Estou a escrever de memória, e essas coisas nem sempre saem a 100%. Não posso jurar que foi essa a expressão usada – há outras que me lembro mesmo, e que optei por não usar, e que captaram mais a minha atenção – mas toda a conversa está aí reproduzida, hoc sensu.
Comentário por Rodrigo Adão da Fonseca — Setembro 25, 2008 @ 16:07
Está bem, então.
Comentário por Pedro — Setembro 25, 2008 @ 16:44
Este também adivinhou o totoloto à segunda feira, mas foi uns dois anos antes da sexta feira do sorteio.
http://www.nytimes.com/2008/08/17/magazine/17pessimist-t.html?_r=1&partner=rssuserland&emc=rss&pagewanted=all&oref=slogin
Comentário por l.rodrigues — Setembro 25, 2008 @ 16:56
Caro L. Rodrigues,
E está a sair-lhe a sorte grande. O que é importante é jogar sempre a mesma chave. Como se diz no texto acima linkado, até um relógio parado dás horas certas duas vezes por dia.
Comentário por RAF — Setembro 25, 2008 @ 17:24
Eu acho que esse seu interlocutor não só tinha um riso alarve, como ele ele próprio alarve. O Rui Tavares nunca disse que era especialista na matéria, nem que tinha previsto o que quer que seja. Limitou-se a dizer que outros, especialistas, o tinham feito. É esse o pecado do Rui Tavares, aquilo que provoca o riso alarve do seu divertido interlocutor.
Comentário por Pedro — Setembro 25, 2008 @ 17:55
[...] cumpre a promessa de não ler as crónicas de quem não concorda com ele, Rodrigo Adão da Fonseca descreve aqui a conversa que teve com um amigo imaginário sobre mim. Diz que eu “acertei no totobola à segunda-feira” sobre a crise do imobiliário, e [...]
Pingback por Orgulho ignorante at ruitavares.net — Setembro 25, 2008 @ 18:09
“Limitou-se a dizer que outros, especialistas, o tinham feito.”
O proximo a ganhar o euromilhoes tambem eh um especialista no jogo…
Comentário por CMF — Setembro 25, 2008 @ 18:16
o raf é aquele tipo que, mesmo à segunda feira, jura que os resultados do totobola estão errados, foram ao contrário, nem houve jogo… O resto da resposta está em http://ruitavares.net
Comentário por rui tavares — Setembro 25, 2008 @ 19:10
Acho estranho, quem tinha avisado para grande parte do problema Fannie Mae/Freddie Mac(imagine-se uma empresa que detenha mais de 50% do mercado na Europa) problemas foram essencialmente conservadores normalmente chamdos de “Neoliberais”.
Comentário por lucklucky — Setembro 25, 2008 @ 19:15
Caro RAF, dando o seu exemplo como bom, o relógio parado acerta porque a hora acaba sempre por chegar. Sendo assim, como é que é imprevisível?
Comentário por l.rodrigues — Setembro 25, 2008 @ 19:25
[...] RAF bem tenta, mas não consegue escapar. Agora tem amigos imaginários que o atormentam com as crónicas do Rui Tavares. Pobre RAF. Força, estamos [...]
Pingback por cinco dias » Vozes — Setembro 25, 2008 @ 19:38
[...] ignorante” no que diz respeito à crise dos mercados financeiros. Isto, porque relatei aqui no Insurgente uma conversa casual e real – embora obviamente romanceada – onde o meu interlocutor (por acaso, [...]
Pingback por Jovem universitária e outras metáforas « O Insurgente — Setembro 26, 2008 @ 00:07
[...] Política — Miguel Botelho Moniz @ 12:29 pm Esta questão do artigo do Rui Tavares e do acertar no totoloto à segunda-feira lembra-me as velhas bocas sobre economistas e previsões económicas: Primeiro, que houve [...]
Pingback por Bola de cristal « O Insurgente — Setembro 26, 2008 @ 12:30
[...] senhor (ele usou outra termo mas por educação não repito), sabe quem é?” Olhei e assinava o RAF. “O gajo não disse que não lia mais o Público?”, perguntou o homem na casa dos 70 e [...]
Pingback por Arrastão: Conversas no 9 — Setembro 26, 2008 @ 13:27
[...] a minha crónica é publicada, acabar por na primeira viagem de comboio encontrar anónimos — que primeiro são anónimos faladores e possuidores de uma “gargalhada alarve” mas numa segunda recordação se transformam afinal em sábios com “uma vida inteira dedicada [...]
Pingback por Romanceado por romanceado… at ruitavares.net — Setembro 26, 2008 @ 18:05
[...] mais um fait-divers sobre abuso de poder num município (desta vez, Lisboa) e, na blogosfera, o verniz saltou entre Rui Tavares e Rodrigo Adão Fonseca (com amigos à mistura). Enfim, os mesmos sinais do [...]
Pingback por Back on track « bem-vindo à esfera — Setembro 29, 2008 @ 01:01