Os alemães ficaram espertos

Se o verdadeiro esperto é aquele que conta com a esperteza dos outros, então podemos concluir que os alemães foram espertos em escolher Mário Centeno para presidente do Eurogrupo. A minha crónica no i.

Os alemães ficaram espertos

Até há uns dias, o presidente do Eurogrupo era uma pessoa horrível. Esse socialista, ministro das Finanças de um pequeno país europeu (outrora potência comercial), não passava de um pau-mandado de Wolfgang Schäuble, o ainda ministro das Finanças alemão. O nome de Jeroen Dijsselbloem, o dito, pronunciava-se de uma maneira ainda mais horrível que a pessoa: ye-rohn dai-sell-bloom.

Já Mário Centeno, não. Este socialista, ministro das Finanças de um pequeno país europeu (outrora potência comercial), eleito presidente do Eurogrupo, é um génio que mudou o próprio Eurogrupo. E, o que é mais impressionante, convenceu o próprio Schäuble, o tal ainda ministro das Finanças alemão, outra pessoa horrível, mais culpado ainda que José Sócrates pela bancarrota de Portugal, a mudar de rumo. É que, bem vistas as coisas, não só Schäuble comparou Centeno a Ronaldo e o escolheu para presidente do Eurogrupo como ainda vai deixar de ser ministro das Finanças. Com Centeno, ou Ronaldo, e um Mourinho no Eurogrupo, compreende-se que Tsipras tenha ficado satisfeito. Tudo mudou.

Para que tudo fique na mesma. Aquela frase, daquele Don Fabrizio, daquele livro “O Leopardo”, daquele italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa, assenta aqui que nem uma luva. A mestria do aristocrata italiano que conduz a família pelos tortuosos caminhos da decadência é, essa sim, igual à dos mestres da política portuguesa. Porque, se Portugal tem grandes políticos, entendendo por grande político aquele que domina a arte de algo mudar para que tudo fique igual, esses são Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Atrevo-me até a escrever algo que jamais julguei ser possível: Portas, ao pé deles, é um aprendiz.

É que o Eurogrupo não mudou, a política monetária do euro não mudou e, pior que isso, com Macron e a ajuda daquele outro socialista de nome Martin Schulz, ainda vai ficar pior. Na verdade, estou bastante curioso para ver o que é que Costa, Catarina e Jerónimo vão mudar no discurso que Centeno vai adoptar, e que trata da criação do ministro das Finanças europeu e do orçamento europeu, cujos fundos apenas beneficiam os bons alunos, para que tudo fique igual.

Estou curioso porque é interessante ver como é que profissionais da mudança enganam um povo. É certo que é um povo fácil de levar. É um povo que não gosta que lhe digam o que deve fazer; disso, não gostamos. Agora, com um elogio gratuito acompanhado de umas migalhas, e a boa e velha palmadinha nas costas, com isso, a gente já lá vai. Os alemães aprenderam e ficaram espertos à portuguesa. Somos tão felizes.

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O PSD que não se iluda com o PS

O PSD acha que, com Santana Lopes ou com Rui Rio, pode trazer o PS para centro, mas está enganado. A minha crónica no Jornal Económico.

O PSD que não se iluda com o PS

É provável que a nova liderança do PSD tente alterar os equilíbrios até aqui existentes. Rio quer um PSD mais ao centro, e Santana Lopes, apesar de se dizer de direita, quer colaborar com os socialistas. A intenção é pressionar o PS, forçando-o a quebrar com o PCP e o BE. Com um PS desgastado, o PSD teria espaço para se apresentar como uma alternativa de governo.

Sucede que todas as estratégias têm um senão e nesta, o pormenor que pode estragar as contas é a realidade. Do país, da Europa e do mundo. Quando ouço, por exemplo, Santana Lopes sinto-me nos anos 80. Não é apenas a constante referência ao PPD/PSD, mas o achar que o PS regressa ao centro político como se este PS fosse o mesmo que em 1983-85 governou com o PSD. Ora, o PS de Costa não é o PS de Soares. E não é porque nem Portugal, nem a Europa, nem o mundo de hoje são os mesmos.

Portugal não é mesmo porque o montante da dívida, pública e privada, não o permite. A Europa não é a mesma porque a URSS já não existe, a UE alargou-se para leste, e encontra-se hoje num nível em que a sua falta de flexibilidade pressupõe que Portugal estivesse melhor preparado para a moeda única, que criou imensas oportunidades que os nossos governos destruíram. O mundo está diferente, com os EUA afastados da UE e mais preocupados com a China.

O que os candidatos à liderança do PSD parece ainda não terem percebido é que o PS também mudou. E muito. Este PS não se aproximou do PCP e do BE por questões meramente estratégicas; a aliança entre os três partidos de esquerda é mais ideológica que oportunista. Resulta da defesa dos mesmos interesses perante um Portugal, uma UE e um mundo muito diferentes. Perante as mudanças ocorridas, o PS, que viu o que sucedeu aos partidos socialistas europeus, percebeu que para sobreviver tem de se radicalizar na defesa de um sistema democrático eleitoralmente estatizado.

O país desenvolveu-se com um Estado que dá emprego, apoia empresas de empresários amigos e politicamente próximos. Como nem todos se chamam Belmiro de Azevedo, muitos se vendem por um baixo preço. Ou alto, como aconteceu com Ricardo Salgado. Este PS sabe que não pode trair o seu eleitorado que vive por conta deste sistema. Se o fizer, desaparece. Assim, percebem-se melhor os últimos orçamentos, com impostos altos, cativações, mas ordenados e pensões por inteiro. E agora, até com algum investimento público devidamente escolhido, devidamente direccionado.

Se o PS vier para o centro, acaba. Foi ao percebê-lo que Costa engendrou a coligação social-comunista que sustenta o seu governo. O PSD deve perceber que o estado da economia portuguesa destruiu a esquerda moderada e pouco mais há a fazer.

Marcelo, o presidente dos sofredores

Terá Marcelo pena de nós por não passarmos da cepa torta? A minha crónica hoje no i.

Marcelo, o presidente dos sofredores

Na semana passada escrevi sobre como Marcelo mudou desde o princípio do seu mandato presidencial. Hoje faço-o sobre como essa mudança prova o quanto Portugal se mantém igual. É cada vez mais certo que o crescimento económico que temos presenciado está a ser distribuído através de favores que visam a manutenção do PS no governo, a satisfação dos interesses dos sindicatos do PCP e a agenda do BE.

Tal como no passado, a conjuntura internacionalmente favorável que vivemos não está a ser aproveitada para reformar o Estado e libertar a economia. O país vai pagar muito caro cada dia que passa com o atual governo. Marcelo já o percebeu e age em conformidade. Nas últimas semanas tem consolado as vítimas dos incêndio, da mesma forma que, dentro de algum tempo, consolará as vítimas das atuais políticas.

Marcelo é hoje mais um consolador da nossa tragédia que um político. Cada abraço de conforto que dá, cada palavra de força que profere vai nesse sentido: consolar um país cujo fado é sofrer. É muito interessante ver como, enquanto Cavaco, apesar de todas as suas idiossincrasias, apelava ao esforço e à vontade para se superarem as dificuldades, Marcelo se contenta em consolar os pobres porque serão sempre pobres.

Ao vê-lo no seu afã por estar com os que sofrem, este novo Marcelo que nos surge triste, contristado, com pena dos portugueses, faz-me crer o quanto ele finalmente compreendeu o sacrifício imenso que é viver aqui, de forma pequena. Sem horizontes, sem esperança, sem saída.

Afinal

Afinal as hipóteses do Porto eram limitadas; afinal, as melhorias na economia europeia vão trazer taxas de juros mais elevadas, o que não nos ajuda nada. Afinal, o governo cede nos professores porque está preso pelas clientelas do PCP e do BE; afinal, o PCP não derrubou o muro; afinal, a dívida pública é ainda mais colossal do que era em 2011. São muitos os afinais. Porque, afinal os tempos felizes que vivemos foram ao género dos tempos felizes de outrora em que o país, apesar de pobre, se dizia único, com um povo simpático e acolhedor. Afinal isto está tudo igual e somos governados pela mesma mentalidade que governou o país naqueles 40 anos que alguns de nós desejávamos longínquos. Mas não são. Perseguem-nos, porque afinal tudo se resume a muito pouco.

Pessoa, Simenon, Gomes Ferreira, Cardoso Pires e Agostinho da Silva

O Pedro Correia teve a gentileza de me convidar para escrever um texto para o Delito de Opinião, e eu escrevi sobre o meu encontro com certos escritores. E Agostinho da Silva, claro. A inesquecível conversa, era eu um miúdo, que tive com Agostinho da Silva.

A esquerda está a dar cabo do Estado social

Hoje no Jornal Económico.

A esquerda está a dar cabo do Estado social

Primeiro soubemos das cativações orçamentais. Depois que essas cativações tinham sido a causa para o dito sucesso do défice de 2% do PIB, em 2016. Como não há milagres, apesar de na crença de alguns as vacas voarem, percebemos que as cativações compensaram os aumentos salariais na função pública, que é a plataforma eleitoral do Governo.

Mais tarde fomos sabendo outras coisas. Soubemos da má resposta das autoridades ao incêndio em Pedrógão, das deficiências do Estado no combate aos incêndios de 15 de Outubro, da anedota pública que foi o roubo de Tancos, das listas de espera nos hospitais que têm vindo a aumentar, das escolas, algumas sem professores outras sem comida decente para crianças. Uma lista interminável de falhas do funcionamento do Estado, das quais o surto legionella no São Francisco Xavier é apenas mais uma gota de água num oceano que, caso o Governo fosse outro que não este seguro pela extrema-esquerda e um ciclone de categoria 5 pairaria sobre nós.

Conforme noticiado pelo Público, o Conselho Nacional de Saúde, um órgão independente consultivo do Governo terá concluído que faltam cerca de mil milhões de euros para a saúde. Não é por nada, mas quando ouço rumores de que falta dinheiro na saúde, que há atrasos no pagamento a fornecedores e os partidos de extrema-esquerda se calam é porque o assunto, além de grave, os compromete. O que me assusta: sempre que os extremistas, e os comunistas são extremistas se nos recordarmos do que disseram aquando do centenário da revolução bolchevique, estão comprometidos é porque algo muito grave e perigoso se passa.

É chocante a forma como o Governo, e quem o sustenta, mentiu antes da troika, durante a intervenção da troika e agora, depois do programa de resgate financeiro a que o Estado se teve de submeter para salvar a sua dimensão social. Até 2011, com a economia estagnada, o PS comprometeu o país, apesar de alguns avisos em contrário, a um programa de dispendiosas obras públicas para fazer a economia mexer. O resultado foi a falência do Estado. Durante o programa de resgate que visou salvar o Estado social, a esquerda, da pretensamente moderada à extremista, acusou o governo de o destruir porque se cortavam salários apesar de se manterem as despesas sociais. Como se pagar salários na função pública fosse uma obrigação social e não laboral. Já em 2017, enquanto se cativa dinheiro que falta faz a quem precisa, aumentam-se salários, repõem-se regalias.

Agora que o Estado vai perdendo a sua dimensão social a esquerda já não sai à rua porque os seus não são os que mais beneficiam dos cuidados de saúde nem das políticas sociais. Os seus são apenas os que votam e esses são os que lhe interessam.

Marcelo mudou, mas de pouco nos vale

A minha crónica hoje no i.

Marcelo mudou, mas de pouco nos vale

Para mim, como Presidente da República, o mudar de vida neste domínio é um dos testes decisivos ao cumprimento do mandato que assumi e nele me empenharei totalmente até ao fim desse mandato.” Marcelo Rebelo de Sousa, em 17 de outubro de 2017, ao finalizar o seu discurso em Oliveira do Hospital.

É importante relembrar estas palavras do Presidente da República porque marcam um ponto de viragem no seu mandato.

Até então, Marcelo andava sempre junto a Costa, apoiava o governo, alinhava, embora com as reservas normais numa pessoa minimamente inteligente e sensata, no optimismo dos socialistas. Marcelo ria, sorria, falava, gesticulava, tornara-se um homem fútil, um Presidente supérfluo que não fazia contraponto ao governo, mas à oposição. Alegre, jovial, folgava os bons tempos com que os bons ventos vindos do exterior bafejavam o seu mandato. Marcelo desfrutava ao mesmo tempo que rebaixava Passos, troçando do seu azar.

Mas depois Passos saiu, a tragédia instalou-se e Marcelo, qual verdadeiro animal político, mudou. Ele sabe que a felicidade da primeira parte do seu mandato não tem bases para se manter e que tudo se esboroará sem que se perceba bem como. É para esse tempo que Marcelo se prepara. Assim, enquanto Costa e Medina se abraçavam na abertura da Web Summit, quais crianças felizes e contentes, Marcelo visitava os sem-abrigo. Porque Marcelo já não tagarela; ainda sorri, mas de um jeito triste, e já não se ri por tudo e por nada. Marcelo deixou de querer estar na roda e já não dança. Mudou porque as circunstâncias mudaram. Tornou-se sério e passou a ser levado a sério.

O problema, no entanto, é que a ação de Marcelo não vai resolver problema nenhum. O país continua a endividar-se, e o Estado sequestrado por interesses vários; não há reformas que reduzam a despesa pública, nem Marcelo, mesmo que a isso estivesse disposto, podia fazer o que quer que fosse. Desta forma, caminhamos para o pior dos cenários numa democracia: um Estado endividado, preso por variadíssimos interesses que vão das empresas dependentes dos decisores políticos aos sindicatos que precisam de mostrar serviço, passando pelas fundações e demais entidades públicas. Com uma classe política desacreditada e um Presidente generoso, popular, mas totalmente incapaz de propor as mudanças que são indispensáveis, temo que muitos dos que hoje culpam a liberdade económica por todos os males do mundo acabem por apontar o dedo também ao liberalismo político. Marcelo mudou, mas a mudança serve-nos de alguma coisa?

Antes o paraíso que o inferno fiscal

A minha cróninca no i. Sobre os paraísos, porque o bom agora são os infernos fiscais.

Antes o paraíso que o inferno fiscal

Veio a lume mais uma investigação sobre os paraísos fiscais, revelando uma lista de pessoas muito ricas e famosas que têm dinheiro, ou fizeram investimentos, em empresas offshore. Claro está que a notícia foi dada como sendo um mal a que se tem de pôr termo. Seguindo-se a conclusão mortífera: se não fugissem, pagávamos menos impostos, como se o problema fosse a pouca receita e não a excessiva despesa.

Entretanto, leio estas notícias e pergunto-me: quando é que nos tornámos tão amigos dos cobradores de impostos? Atenção, caro leitor, não vá por aí, não caia na esparrela de me confundir com os que defendem a fuga aos impostos, as fraudes fiscais e os crimes económicos. Nem todas as ligações a offshores são crime ou sequer eticamente reprováveis. Claro que há paraísos fiscais ligados a atividades criminosas, mas ligados a atividades criminosas também estão vários Estados e não é por isso que o conceito de Estado deve ser posto em causa.

Ademais, há Estados falidos porque mal governados. E, porque mal governados, Estados que se tornaram verdadeiros infernos fiscais. Nesses locais, o cidadão tornou-se um suspeito permanente que é preciso fiscalizar por tudo e por nada, a torto e a direito, não vá ele não entregar a dízima, perdão, não pagar o imposto. Até porque o imposto é muito mais alto que a maldita dízima contra a qual essa ideia peregrina que foi a liberdade dos cidadãos se insurgiu e através da qual se estabeleceram os valores que (ainda) regem a nossa sociedade.

E veja-se ainda isto: existem infernos fiscais, como é o caso de Portugal, para os nacionais, que são paraísos fiscais para estrangeiros. Não deixa de ter graça, mas é bastante demonstrativo da forma como se condiciona a informação, que o governo português seja contra as offshores, para onde foge dinheiro que podia ir para o seu bolso, mas já incentive regimes jurídicos para outros cidadãos não pagarem cá impostos.

Porquê, então, tanto barulho? Porque, e esta é fácil, os Estados estão endividados. Portugal é dos piores, mas poucos escapam. Assim, as offshores, que antigamente até eram aceitáveis, tornaram-se um inimigo. Primeiro, porque há nelas muito dinheiro a que é preciso deitar a mão; segundo, porque é preciso um culpado. Falta dinheiro? Claro que a resposta não é a má gestão de maus governos, mas a fuga de capitais. Uma hipocrisia múltipla. Os Estados faliram porque somos mal governados; os ricos vão sempre fugir porque podem; e os remediados, a nova classe média, é que cá ficam presos para pagar a dízima, perdão, para suportar a carga fiscal.

Quando a ausência é o maior sinal

Há um sinal político, em Portugal tudo é política, a reter no Web Summit: contrariamente ao conjunto Costa/Medina, Marcelo Rebelo de Sousa não esteve na abertura, nem parece que vá aparecer na festa. O facto é relevante porque Marcelo, depois de surfar na onda durante os primeiros meses, percebeu finalmente que a euforia deste governo, a época das vacas voadoras, tem o seu fim à vista. E é com esse fim à vista que Marcelo preside agora ao país.

E se Deus existisse e tivesse sentido de humor?

Neste post.

A Catalunha quer ser independente para quê?

A minha crónica no i.

A Catalunha quer ser independente para quê?

Se os Catalães quiserem ser independentes o que é que tu tens com isso? Ou: como é que sendo Português podes ser contra a indepêndencia da Catalunha? São perguntas que me têm sido feitas quando digo que a Catalunha não deve ser independente. Mas há algum problema em a Catalunha ser independente?

Claro que não. Num mundo ideal, com certeza que não. Sucede que não vivemos num mundo ideal, mas num mundo real, tramado. E num mundo tramado quem mais tem exigido a independência da Catalunha são forças extremistas que, a pretexto de uma causa, pretendem criar uma república na Europa onde possam governar com o mínimo de escrutínio.

Claro que houve um referendo e que nesse referendo o sim à independência venceu por larga maioria. Sucede que numa democracia verdadeira, votar não é apenas colocar uma cruz num quadrado, dobrar a folha e depositá-la numa urna. Existem regras indispensáveis para que o voto de cada pessoa que colocou a cruz num quadrado, dobrou a folha e a depositou numa urna não seja falseado. As regras são precisas para que se garanta que o direito ao voto não tenha sido violado. Ora, foram precisamente essas garantias que não existiram no referendo de 1 de Outubro. Pelo contrário, a forma como o referendo se processou alimentou sérias dúvidas em muitos dos que até então nutriam simpatia com a independência da Catalunha.

E não, nem todos os Catalães querem ser independentes. E mais uma vez não, a Catalunha não é igual a Portugal, tal como a Europa em 2017 é muito diferente da de 1640. Há quase 400 anos a Europa encontrava-se em plena guerra dos 30 anos, uma guerra religiosa entre estados católicos e estados protestantes que acabou por ser uma excelente forma da França afastar a ameaça dos Habsburgos e se tornar na maior potência católica do continente. Para tal, dava jeito que Portugal se afastasse da Espanha, lhe colocasse problemas e lhe dividisse o império. O 1.º de Dezembro não aconteceu apenas porque Miguel de Vasconcelos foi atirado da janela, mas porque o equilíbrio de poder na Europa o permitiu.

Hoje a Europa não está em guerra e resolve as suas questões sentada à mesa em Bruxelas, para onde, ironia das ironias, Puigdemont fugiu. Além disso, a Espanha é um estado democrático, que preza as autonomias e a reacção de Madrid a todos estes episódios foi, no minímo, exemplar: perante o desafio de Puidgmeont pediram-se esclarecimentos;depois da declaração de independência, Madrid deu a vez à voz do povo. Em vez das armas convocaram-se eleições. Perante isto sou eu que pergunto: os Catalães vão querer ser independentes para quê?

Um orçamento pago por subalternos

A minha crónica no Jornal Económico.

Um orçamento pago por subalternos

Olhamos para o orçamento de Estado e vemos um intento que para alguns chega a ser um desígnio. Sem reformas, no Estado e na economia, e pondo toda a fé no milagre que é o turismo, na ajuda do BCE e na bênção dos céus que são os baixos preços das matérias-primas, o Governo tem margem de manobra para manter a despesa pública, cobrar impostos a parte da população e distribui-los depois entre o seu eleitorado.

Margem para isso e até para cumprir as metas do défice impostas por Bruxelas. Bruxelas que, de toda a forma, não esquece de alertar para as tais reformas estruturais que há uns anos eram imprescindíveis e agora se deixam para depois. Quer isto dizer o quê? Muito simplesmente que os números que nos são apresentados, tanto da actividade económica como da política orçamental, são fumo que se esvairá ao primeiro contratempo.

Durante anos ouvi dizer que o crescimento tinha de ser sustentado. Afinal, não foi porque era baseado em dívida. Agora, já ninguém se atreve a dizer tanto, mas o Governo também não age, mesmo sabendo que o que se conseguiu é insustentável. Um bom exemplo de um falso sucesso no controlo das contas públicas, e por arrasto da dívida pública, foi o alcançado por Bill Clinton, nos EUA. No seu mandato como presidente, Bill Clinton terá conseguido, através de truques contabilísticos, excedentes orçamentais nos anos de 1998, 1999 e 2000. No entanto, a dívida pública em termos absolutos, ou seja em números, continuou a aumentar. Não só os ditos excedentes não serviram para reduzir a dívida pública, como esta disparou quando o crescimento da economia foi travado com a crise da bolha da internet, no ano 2000.

Tudo para concluir o seguinte: parte do país alinha nisto, mesmo sabendo que não tem pés para andar, porque não tem outro remédio. Como o eleitorado do PS é constituído maioritariamente por quem vive na dependência do Estado, e este é gerido por um Governo que governa o país inteiro, não há muito mais que se possa fazer. Nenhum empregado, de nenhuma empresa, consegue tal feito: que o seu patrão cobre aos outros o dinheiro que utiliza para pagar o seu salário.

Perante este facto, boa parte da população não tem quem fale por ela. Daí que os cautelosos guardarão algum onde encontrem protecção. Outros, ou porque não conseguem poupar, ou porque ainda não perceberam como a coisa funciona, ficarão descalços. Todos perdem. Entretanto, a base eleitoral do Governo vai ganhando uns trocos, pronta para a indignação que virá quando o esforço dos demais não chegar para mais. Há quem veja neste intento um desígnio para o país: a subalternização de um povo à vontade dos que, viciando a democracia, se apoderam do Estado e o governam a seu bel-prazer.

Cuidado com Marcelo

A minha crónica hoje no i.

Cuidado com Marcelo

Critiquei diversas vezes a actuação de Marcelo Rebelo de Sousa enquanto Presidente da República. E fi-lo quando não apreciei o seu método, menos ainda a sua estratégia de afirmação pessoal. No entanto, da mesma forma que se critica quando se discorda, louva-se quando se concorda. E a actuação de Marcelo depois dos incêndios de 15 de outubro foi exemplar. Foi muito diferente da seguida pelo próprio em Pedrógão Grande, onde o seu “fez–se o máximo que podia ser feito” se tratou de uma omissão terrível. Há quem veja hipocrisia na sua atuação porque a bondade não se publicita. Sucede que Marcelo é o Presidente da República e, depois da insensibilidade do governo, foi importante que o chefe do Estado agisse como agiu.

Agora que Passos Coelho está de saída da liderança do PSD, Marcelo decidiu ser o Presidente de todos os portugueses, como Soares chegou a ser, mas com a diferença que, hoje, o parlamento não é dominado por um só partido. Façamos só um ponto da situação muito rápido de forma a que se perceba o que vem a seguir: no nosso sistema semipresidencial, até agora de pendor parlamentar, o primeiro-ministro de um partido com maioria absoluta é dono e senhor da governação porque domina o parlamento e cala o Presidente. Reunidas estas condições, não há chefe político com mais poder num Estado democrático. Nem o primeiro-ministro britânico, porque, nesse caso, os deputados que o sustentam são eleitos por círculos uninominais e não em listas fechadas pelos líderes dos partidos. No entanto, caso essa maioria monopartidária não exista e caso o primeiro-ministro esteja debilitado, como está Costa, e o Presidente seja interventivo e popular, como é Marcelo, o pendor parlamentar do sistema, pelo qual Sá Carneiro lutou contra Eanes, pode estar em risco.

É verdade que depois da revisão constitucional de 1982, o Presidente perdeu poderes constitucionais. Essa foi, aliás, a vitória póstuma de Sá Carneiro. Mas não deixa de ser verdadeiro que o Presidente pode, caso tenha preponderância sobre o governo, como parece ser o caso atual, influenciar esse mesmo governo. Marcelo pode bem vir a ser o primeiro Presidente chefe de governo do regime, modificando o sistema político dentro dos limites permitidos pelas regras constitucionais. Assim, é importante que elogiemos a actuação de Marcelo em outubro, mas que não o endeusemos. Como o próprio lembrou, ele é pessoa; uma pessoa que é um político que tem uma ambição e que pode virar o sistema do avesso.

Um governo desumano

Porque além da incompetência, além das culpas no cartório, o que nos chocou foi a desumanidade de quem governa. A minha crónica no i.

Um governo desumano

Em resposta aos incêndios de 15 de outubro, o outro dia fatídico do ano de 2017, António Costa afirmou que o governo não tem “solução mágica” para evitar que mais pessoas morram nos incêndios. Ao mesmo tempo, o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, afirmou que as pessoas têm de ser “pró-activas e resilientes”, não podendo ficar à espera dos bombeiros, como se fossem mágicos que tocam no fogo e não se queimam.

Depois foram chegando as notícias. Primeiro dois mortos, depois três, de repente 12, 20, 27, 31, até serem 41, esperemos que não mais, pelo amor de Deus. A seguir os relatos dos que sobreviveram, dos que salvaram vidas, dos que souberam como morreram alguns para salvarem vidas de outros, bens seus, casas, negócios, as suas próprias vidas. A coragem de Eduardo Donas Botto, o motorista do IP3 que salvou 51 pessoas.

O choque entre as histórias dos que sofreram, morreram, sobreviveram, e as afirmações dos responsáveis do governo é atroz. São desumanas e cruéis as exigências ao povo para serem o que os governantes não tiveram a dignidade de ter: coragem, resiliência, brio, compaixão. Amor. Humanidade.

Já não estão em causa os cortes orçamentais que a protecção civil sofreu em 2016, depois da austeridade. Já não estão em causa os boys colocados na Autoridade Nacional de Protecção Civil e que percebem tanto daquilo como eu de medicina. Já não interessa que Costa até tenha sido ministro da Administração Interna. Já nem sequer falo de o Estado não proteger os cidadãos – a principal das suas funções – e se reduzir a pagar salários à custa de cativações, esquecendo a generalidade dos portugueses. O que mais chocou nisto tudo foi a frieza das palavras, a desumanidade dos governantes, a amoralidade dos seus atos; a falta de respeito de quem quis ser governo, mas não quer ser responsável.

Nunca o país teve um governo tão sectário, tão displicente em relação ao que não lhe convém, tão centrado em manter-se intocável. Tudo vale desde que saia ileso, impune, o que à partida consegue através de provisões orçamentais eleitoralmente direcionadas. Com metade do país saciado, mais a boca cheia de frases feitas e as palavras solidariedade e justiça social lá pelo meio, Costa acha que o país se cala.

O país arde, pessoas morrem, as que sobrevivem perdem tudo, mas os governantes ficam. Ficam porque para se sobreviver se perdeu a vergonha. Fica o governo, mas também a desconfiança, o medo, a suspeição. Um sentimento de revolta. Este é um governo doente, que nasceu doente e cairá dessa forma.

Como safar o BE e o PCP na moção de censura

Depois das declarações de Marcelo, ou Costa demite já a ministra, ou fá-la cair em troca do apoio do BE e do PCP na moção de censura.

Um Estado falhado

Alguém diga a António Costa que não é a reforma da floresta, mas a Protecção Civil que falhou.

Agora não é popular aparecer

Ser de esquerda é fácil

Pedro Adão e Silva, o ‘eu parece-me’ está agora na RTP 3 a dizer que a dívida pública está a diminuir. Relativamente ao PIB claro, que já em termos absolutos a dívida continua a aumentar. Mas isso, Pedro Adão Silva, o ‘eu parece-me’, não diz. É tão fácil ser do PS.

A dívida está a matar-nos

No Jornal Económico de hoje.

A dívida está a matar-nos

Andamos eufóricos porque a maioria os dados económicos do país são excelentes. Todos? Não. Há um que resiste e resistirá, parece que sempre, à confiança que invade o país. A dívida pública que desce relativamente ao PIB, porque este está a crescer, continua, de acordo com os dados de 2016 e os já conhecidos para 2017, a aumentar a uma velocidade cada vez maior. Continue reading “A dívida está a matar-nos”

O regresso ao tempo de Sá Carneiro

A minha crónica hoje no i.

O regresso ao tempo de Sá Carneiro

Lemos as biografias de Sá Carneiro, de Maria João Avillez e de Miguel Pinheiro, e ficamos com uma ideia de como foi, mas não sabemos nada. É preciso viver para perceber. É preciso viver para saber o que é a solidão política de quem trilha um caminho que considera o correto.

Há quem compare o fim da assistência financeira de 2014 com a de 1985. E, com base nessa comparação, conclua que Costa governará dez anos como Cavaco, pois os dois beneficiaram do esforço feitos por outros. Sucede que a realidade não é comparável porque, além de a dívida pública em 1985 estar nos 52% do PIB, e em 2017 nos 130%, a UE também não é igual à dos anos 80. A vida política de Costa não vai ser fácil.

Assim, e à medida que se forem apercebendo disso, muitos irão pressionar o PSD e o CDS para ajudarem o PS e contraporem a influência do PCP e do BE no governo – a ideia da direita como muleta do PS, tal como já foi desejado nos anos 70, quando Sá Carneiro, sozinho, quis um PSD autónomo que não abdicasse da sua visão para o país.

O cenário para o PSD neste outono de 2017 é semelhante. Ou o PSD ignora os problemas que se avolumam em troca de lugares, ou convence o eleitorado com um projeto alternativo. Um PSD só para ficar em segundo e, condescendentemente ser aceite em Belém e nas redações dos jornais, porque pactua com os erros que mais tarde teremos de pagar, não serve para absolutamente nada. Um partido tem de ganhar eleições, não para ocupar cargos, mas para servir o país. Esta forma de fazer política pode estar de regresso. Ainda bem, porque é a que vale a pena.

Para que serve o PSD?

A vitória do PS não garante a resolução do endividamento do Estado (eu sei que o assunto é chato, mas chateia-me mais falir e ter de pagar por isso). E não se resolve se o PSD mudar de direcção para ser tornar numa muleta do PS com vista a contrabalançar a influência do PCP e do BE na geringonça. Um PSD calado e conivente, e por isso aceite em Belém e pelas redacções dos jornais, como tantos nos anos 70 queriam que fosse, até pode ter melhores resultados eleitorais durante uns anos, mas não serve para nada.

Declaração de voto

A minha declaração de voto em Lisboa, com uma pequena confissão de que me arrependo amargamente. A minha crónica no i.

Declaração de voto

Por motivos de transparência, é importante que quem faz comentário político declare o sentido do seu voto. Ora, em Lisboa não é fácil escolher em quem votar nestas autárquicas. Não voto Medina porque, além de um voto no PS ser entendido como uma legitimação política de António Costa, Fernando Medina exerceu um mandato para o qual não foi eleito, com um projeto pensado para ganhar as eleições seguintes.

Por razões éticas e morais não posso votar no PCP nem no Bloco. Votei uma vez no PCP para a junta de freguesia, decisão de que ainda hoje me envergonho: milhões de pessoas sofreram com o comunismo e eu, para ter passeios limpos, traí-as. Nunca me perdoarei, mas uma coisa é certa: jamais repetirei o erro.

Resta o CDS e o PSD. Desde o princípio que desejei que os dois concorressem juntos a Lisboa, num quadro de antecipação das legislativas. A situação financeira do país, as reformas do Estado, que antes eram inadiáveis e hoje estão esquecidas, assim o exigiam. Infelizmente, não foi isso que aconteceu.

Além de me parecer que Lisboa nada ganha com a eleição de mais um líder partidário com outras ambições que não as de vereador ou presidente de câmara, estas eleições terão, inevitavelmente, uma leitura nacional. Ora, e por muitas falhas que Passos Coelho tenha, um erro não cometeu, que foi o de ter embarcado na euforia que o país vive. Gosto de pessoas sóbrias, resilientes, qualidades ainda mais indispensáveis na política. A sua saída de cena daria luz verde ao desnorte emocional que anda por aí. Assim sendo, votarei no que sobra.

A patranha de António Costa

A minha crónica hoje no i.

A patranha de António Costa

A crónica de hoje tem demasiados números. É chato, mas seria importante que o leitor perdesse algum tempo com ela porque, no fim de contas, é quem vai pagar a conta. Algo de que pode não gostar, mas que não pode mudar. E o que tem sido difícil mudar em Portugal é a trajectória da dívida pública. Vejamos bem: em 2011, o ano de intervenção da troika, a dívida pública era de 183,3 mil milhões de euros, 107,2% do PIB, mais 22 mil milhões que em 2010. Em 2012 atingiu o valor de 203,4 mil milhões de euros, uma subida de 20 mil milhões, representando 122,5% do PIB. Foi com enorme esforço que subiu “apenas” para 213 mil milhões em 2013, ou seja, uns meros 10 mil milhões de euros. Em 2014 chegou aos 224 mil milhões, 128,7% do PIB, subindo em 2015 “apenas” 7 mil milhões, para os 231 mil milhões de euros.

Depois veio a geringonça: 241 mil milhões em 2016 (subida de 10 mil milhões) e 249 mil milhões em Julho de 2017 (mais 8 mil milhões em seis meses). Dizem-nos: mas o défice desceu. Certo. Mas desceu o défice face ao PIB, que subiu. O aumento da dívida pública é tão grave que, mesmo com o crescimento económico de 2017 – o maior do século, e o pior da Europa quando comparado o segundo com o primeiro trimestre deste ano –, a dívida pública em percentagem do PIB traduziu-se, em 2016, num rácio de mais de 130%.

António Costa veio agora, durante a campanha eleitoral, dizer que a partir de outubro, depois das eleições, o governo vai reduzir a dívida pública. Como, não diz. E não diz porque a redução a que se refere é a da percentagem da dívida face ao PIB e não do seu montante absoluto, que continuará a subir. Ou seja, não será a dívida que diminui, mas o PIB que cresce. O que significa que, apesar de tudo, vamos dever mais, que cada vez mais viveremos o hoje com o que vamos ganhar amanhã.

A ideia de Costa é que o PIB cresça a qualquer custo, fazendo de conta que está tudo bem. Mas quando a economia tropeçar devido a uma calamidade natural, a uma guerra, a uma recessão num país próximo de Portugal, ou até porque quem compra a nossa dívida ache que é demais, o crescimento abranda, a recessão instala-se, mas a dívida pública lá continua. Já não serão 250 mil milhões de euros, mas 260, 270, e com a queda, nessa altura inevitável, do PIB, não 130%, mas 140% ou 150%. António Costa anda contente, mas as causas da sua alegria são o esforço que todos fizemos e que não deveríamos permitir que alguém pudesse desbaratar para mero prestígio pessoal. O nosso amor-próprio devia reclamar que exigíssemos mais. Porque quem vai pagar isto é o leitor, não eles.

 

Partidas

Este é um blogue de política e economia. Assim, o meu texto sobre outra coisa qualquer que não isso está aqui.

A Alemanha vive a paz perpétua

O radicalismo alemão estava a destruir a Europa. Lembram-se? A minha crónica no i.

A Alemanha vive a paz perpétua

A Alemanha vai a votos no dia 24 e a importância que em Portugal se atribui ao facto está ao nível da relevância que o PSD dá às autárquicas. Durante a crise do euro, muitos esperavam que o radicalismo invadisse a política alemã pondo fim ao reinado de Merkel e, dessa forma, à moeda única.

A expectativa assentava na AfD (Alternative für Deutschland), um partido de extrema-direita que se opõe ao apoio que a Alemanha tem, dentro do quadro da União, concedido aos países em dificuldades, entre os quais Portugal. Como por cá alguns partidos, como o PCP e boa parte do BE, defendem a saída de Portugal do euro, um bom resultado da AfD seria, depois do Brexit e do crescimento do extremismo na Holanda, Áustria e França, o derrube do último pilar seguro da moeda única.

Mas nada disto aconteceu. A Alemanha vai a votos num ambiente tão pacífico que lembra Portugal nos anos 90. O debate entre Merkel e Schulz mostrou à evidência o que os junta, e não o que os separa. Os dois estavam tão de acordo que o sonho europeu lá parece não ter sido esquecido.

A Alemanha hoje é a Europa onde podíamos viver, caso a maioria dos países tivesse encetado as reformas que os alemães levaram a cabo com o socialista Gerhard Schröder. Não deixa de ser interessante que, enquanto o radicalismo cresce em boa parte dos países europeus, seja na Alemanha, depois de tudo o que se disse do extremismo alemão, com tantos a acusá-los de nazismo, que a tão desejada paz perpétua de Kant se tenha propagado.

O que é que o PS pensa da nova União Europeia?

Hoje mesmo Jean-Claude Juncker defendeu que a União Europeia deve passar a ter um ministro europeu das finanças. Acrescentou, ainda, que a UE precisa “de um ministro europeu da Economia e Finanças, alguém que acompanhe as reformas estruturais nos nossos Estados-membros.”

O que Juncker disse hoje no Parlamento Europeu não está longe do que Emmnauel macron tem defendido para a Europa e que referi neste meu artigo no Jornal Económico saído no passado dia 2 de Junho. Macron quer um orçamento comunitário para a zona euro direccionado ao investimento estratégico. Um orçamento que implica, necessariamente, um ministro das finanças europeu que tutele todos os demais ministros das finanças. Este orçamento servirá também para apoiar os países que se encontrem numa situação de emergência financeira, como sucedeu com Portugal. A moeda de troca, ou seja, a condição para que um país da zona euro beneficie dessa ajuda e beneficie dos referidos investimentos estratégicos é a apresentação de reformas estruturais: no Estado e na economia, nomeadamente na lei laboral.

A pergunta que então coloquei nesse meu artigo, volto a repetir agora: Como é que o PS, o PCP e o BE vão lidar com este projecto europeu? Considerarão que um orçamento europeu e um ministro das Finanças da zona euro ferem a soberania nacional, ou aceitam os fundos daí provenientes em troca de reformas, como a liberalização do Código Laboral que sempre recusaram?

Aos verdadeiros empresários (2)

As revelações sobre as viagens pagas pela Microsoft a autarcas portugueses (bem como as de outras empresas a diversos políticos com excelentes, e sempre produtivas, relações com ‘empresários’) obrigam-me a trazer de volta o meu artigo no Jornal Económico de 4 de Agosto último.

Aos verdadeiros empresários.

PSD e CDS devem fundir-se num novo partido

A minha crónica no i.

PSD e CDS devem fundir-se num novo partido

Ana Sá Lopes noticiou há dias no i que António Costa gostaria de manter a Geringonça, mesmo que o PS conquiste a maioria absoluta. A informação confunde, os pactos de regime de Costa com o PSD seriam afinal para inglês ver, mas percebe-se: Costa prefere acordos com os deputados do PCP e do BE, com quem se entende, a depender apenas dos do PS, muitos dos quais, devido às devisões internas no partido, não controla.

Mas a ilação mais importante a tirar desta novidade é para a direita. PSD e CDS. Com a Geringonça estes dois partidos apenas regressam ao poder se a dívida pública rebentar com o Estado. E até isso é discutível porque o discurso da vitimização à esquerda pode ser empolado para que, eleitoralmente, 2011 não se repita. Vencer a histeria não será fácil.

E só se repete se PSD e CDS se juntarem. Já desde Outubro de 2015 tenho tido a oportunidade de o defender, primeiro no Diário, depois no Jornal Económico que lhe sucedeu, que estes dois partidos se deveriam juntar num só. A vantagem não seria apenas a mera soma de votos que, como se viu em 2015 pode não chegar para vencer a Geringonça, mas porque a junção dos dois num possibilita a capacidade destes apresentarem um programa verdadeiramente reformador, que apresente soluções para a reforma o Estado, que reduza a dívida pública (e privada) que se tem acumulado, e crie condições para que a economia se desenvolva sem os condicionalismos impostos pelo Estado e a sua dívida. O equilíbrio de forças mudou e é pena que PSD e CDS ainda não tenham agido em conformidade.

Lá como cá

Um presidente, e Marcelo

Mais uma crítica ao professor Marcelo. Desta vez, vinda de Emmanuel Macron, na entrevista que concedeu à Le Point, e que saiu ontem, já depois da referência de Cavaco à “verborreia frenética”. Em terras francesas, o sentido de Estado tem outro sentido.