Marcelo e Costa vão dar cabo disto tudo

O meu artigo hoje no Diário Económico.

Marcelo e Costa vão dar cabo disto tudo

Para justificar a sua existência, o Governo do PS contou que o anterior tinha destruído postos de trabalho, colocado o Estado Social em risco e que se preparava para entregar o país aos neoliberais de Bruxelas. Em Bruxelas, e de novo para se justificar, disse que a anterior política orçamental não tinha cumprido as metas do défice. Era preciso mudar. Esta foi a história que o PS contou para justificar a sua chegada ao poder.

Entretanto, todas as instituições relevantes na matéria têm revisto em baixa as previsões de crescimento económico para 2016. No seu programa de governo, o PS punha o país a crescer 3%; agora as previsões são de 0,9%. E como o Orçamento de Estado foi delineado em sonhos deste género, não é difícil imaginar o que vai acontecer ao défice, que já se prevê ficar acima dos 3% do PIB.

Ora, é este Governo, que contou em Bruxelas que a meta do défice não tinha sido cumprida em 2015, e que se prepara para fechar 2016 com um défice superior a 3% do PIB, que diz estar a defender os interesses do país. É nesta altura que assistimos aos contornos de uma nova história do PS. Uma história de horror e com consequências gravíssimas para os portugueses. E que história é essa?

Tem duas partes distintas. Primeiro, desvaloriza-se a queda do crescimento, a derrapagem das contas, o atraso no pagamento aos fornecedores. O importante é que o país se sinta feliz. Um pouco à semelhança do que Salazar conseguiu nos anos 40 e 50. Aqui, Marcelo Rebelo de Sousa tem tido uma grande importância, distribuindo afectos e desvalorizando as más notícias. No fundo, se sorrirmos não se passa nada. A segunda parte é o confronto com Bruxelas.

Aqui radicaliza-se o discurso, culpam-se os burocratas, os neoliberais por esse mundo fora e os alemães – nesta coisa dos nacionalismos bacocos fica sempre bem odiar um povo concreto – de todos os males do mundo. Na verdade, a culpa é da Europa que não deixa que os nossos políticos sejam irresponsáveis como dantes. Não se admite. Até Catarina Martins se queixa que a Europa não aceita certas políticas de esquerda, esquecendo-se que a Europa, desde 1989, deixou para trás essas certas políticas de esquerda.

Sucede que o país não funciona sem os mercados e sem a Europa. Se quiséssemos que funcionasse teríamos de ser como a Venezuela. Independentes e na mão de um governo opressor. Ora, e infelizmente, é para lá que caminhamos a passos largos. Nunca imaginei que este Governo conseguisse tão depressa destruir o que se alcançou em 4 anos muito difíceis para todos. Mas também tinha esperança de que quando a factura chegasse, como chegou em 2011, o país acordasse e fizesse o que tivesse de ser feito.

Ora, é precisamente aí que está o problema. É que, ao contrário do que aconteceu em 2011, o PS não vai aceitar que Portugal corrija a sua trajectória descendente. Fazê-lo seria o fim desta elite política e empresarial. Algo inaceitável para pessoas como António Costa, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa, Ferro Rodrigues e o próprio Marcelo Rebelo de Sousa. Uma nova política de austeridade seria o fim do PS e de todos os que vivem na sua órbita.

Mais há mais: é que a Europa de 2016 não é igual à de 2011. No entretanto deu-se a crise grega, o Brexit, vieram os refugiados, ressurgiram os nacionalismos, de esquerda e de direita, sofreram-se atentados terroristas, apareceu na América um Trump que defende o proteccionismo, e o medo e a desconfiança grassam por aí fora. Não tenhamos dúvidas: este PS, aliado ao BE e ao PCP, vê nestes acontecimentos, não algo terrífico, mas uma oportunidade para se fazer valer, ou seja, escapar. Para a esquerda, o país não vai falir porque não haverá Europa para decretar a falência.

Assim, o que nos espera é uma luta desenfreada entre estes actores políticos pelos despojos. Costa dramatizará o discurso das sanções esperando eleições antes de um novo resgate. Finalmente vencedor pode deparar-se com uma Europa sem força e um PSD domesticado nas mãos de Marcelo. Este, espera pelo desastre para mandar a partir de Belém.

Não deixa de ser interessante perceber que, enquanto o modo de vida estável de todos nós se descompõe e centenas de milhares caminham para a pobreza, a classe política que nos governa tenha já a sua tábua de salvação à mão. Os ratos não fariam melhor.

 

Sanções e CGD no Económico TV

O governo precisa de proteger os interesses que dominam o Estado, nomeadamente através da Caixa Geral de Depósitos. Nem que para isso seja preciso comprar uma guerra com Bruxelas, que justifique esta maioria de esquerda, que justifique eleições antes que a economia se deteriore ainda mais. Os meus comentários, ontem, no Económico TV.

Sanções e Caixa no Económico TV

Hoje às 12 horas vou estar no Económico TV com as sanções e a Caixa Geral de Depósitos em cima da mesa.

No Fio da Navalha

A forma lamentável como Marcelo Rebelo de Sousa se comportou no dia 11 de Julho de 2016, levou-me a fazer do artigo desta semana no i uma carta ao Presidente da República.

Excelentíssimo senhor Presdiente da República Portuguesa

Quando o avião dos jogadores da seleção nacional aterrou em Portugal, três militares da Força Aérea morreram num acidente com um C-130. Foi ali mesmo ao lado do aeroporto da Portela, no Montijo. De Lisboa via-se o fumo negro da explosão.

Nesse momento eu estava doido de alegria com a vitória no Euro 2016. No entanto, com aquele acidente, e sabendo-se até que duas das vítimas morreram heroicamente a tentar salvar o piloto do aparelho, pensei que o senhor Presidente tivesse uma atitude. Faltasse aos festejos ou os fizesse sobriamente, à porta fechada. Na verdade, o senhor sempre é o comandante supremo das Forças Armadas.

Infelizmente, não foi isso que aconteceu. Pelo contrário, o senhor Presidente preferiu manter o programado, como se nada se tivesse passado, e dar aos jogadores uns papéis simbolizando medalhas. Colocou uma gravata preta, proferiu umas palavras sobre o acontecimento e continuou. Bem sei que a oportunidade era única e o senhor Presidente quer ser popular para mandar no país quando o preço das políticas do governo for apresentado. Mas há limites.

Naquele dia de festa senti vergonha. E isso é imperdoável. Lamento a sua atitude; lamento que tenha discursado para os jogadores com o líder dos comunistas bem atrás de si. Sei que é ambicioso, mas peço-lhe que não se esqueça que a Presidência da República não é uma estação de televisão. Senhor Presidente, ainda faltam cinco anos para terminar o seu mandato. Dignifique-o, se não por si, que seja por Portugal.

A presidencialização do regime

E depois de Marcelo, artigo de Helena Matos. De referir que a presidencialização do regime será feita sem qualquer escrutínio porque Marcelo foi eleito sem qualquer programa. Durante o Verão, António Costa vai exacerbar o tema das sanções, culpar a Comissão, não lhe interessando não ter seguido uma política de contenção das contas públicas com frutos no passado, e preparar-se para eleições. Caso as ganhe, é provável que Passos Coelho diga adeus à liderança do PSD. Feito isso, e sem entraves vindo do PSD, Marcelo liberta-se de mais um obstáculo para o seu objectivo de governar a partir de Belém.

Para já Marcelo tem diante de si um primeiro-ministro que precisa desesperadamente do suporte presidencial, quer para ser primeiro-ministro quer, o que não é menos importante, para deixar de o ser em momento adequado. A forma como Costa vai deixar de ser primeiro-ministro é fundamental para o seu futuro. E, acredito eu, Belém é o seu próximo objectivo. Dir-me-ão que ainda falta muito tempo para que Marcelo acabe o seu mandato. É verdade, mas também é verdade que presidencialmente o tempo passa a outra velocidade: com Durão Barroso a atingir o topo da “vida empresarial”, ou seja, a colocar fim à sua carreira política, como Marcelo oportuna e sibilinamente lembrou, resta um forte candidato presidencial. Quem? António Costa. Não duvido que será um forte candidato, apoiado por todas as esquerdas. Que por essa altura o PS esteja a pagar o preço da subalternização ao PCP e ao BE não será já o problema de Costa mas sim de quem lhe vai suceder.

Sanções contra Portugal e o Estado da Nação

Portugal está entre a espada e a parede, com PS de um lado e BE/PCP do outro. Os meus comentários no Económico TV, com umas breves palavras sobre a selecção no fim.

Sanções e estado da nação no Económico TV

Hoje às 12 horas no Económico TV: sanções contra o défice excessivo e o debate do Estado da Nação, com a geringonça ao leme.

No Fio da Navalha

O meu artigo ontem no ‘i’.

Uma Europa comunista

Depois do referendo no Reino Unido, António Costa disse que a União Europeia tem de ser útil. Na convenção do BE, Catarina Martins defendeu que Portugal deve referendar a continuação na União Europeia, caso lhe sejam aplicadas sanções por défice excessivo. No Reino Unido, o líder dos Trabalhistas, Jeremy Corbyn está a ser duramente criticado por não se ter esforçado na campanha contra o Brexit. Corbyn era contra o “leave”, mas foi dizendo que, a acontecer, não seria grave. Entretanto, em Espanha, Pablo Iglesias quer mudar a Europa. O que quer esta esquerda?

Como a própria diz, mudar a Europa. Na forma vaga de Costa, que esta volte a ser útil. Naturalmente, ele diz referir-se às pessoas embora, para Costa, a utilidade da Europa passe por ter margem de manobra para governar sem custos eleitorais, porque a dívida só será paga por outros e mais tarde. A subtileza de Costa é semelhante ao fingimento de Corbyn.

Já Catarina Martins é mais clara. Conforme disse depois do Brexit, estamos perante “(…) a falência da União Europeia e de termos de nos preparar e construir uma alternativa”. Conforme mencionou há dias em Torres Vedras, há que dar força ao BE “para um reforço do trabalho em prol da vida coletiva”.

Costa quer sobreviver na política e salvar o PS, que não sabe ser de esquerda sem que seja a endividar os nossos filhos. Mas Corbyn, Iglesias e Martins querem mais: querem uma nova Europa, uma Europa coletivista e comunista.

Marcelo pode marcar o regime

Como Marcelo pode subverter o sistema político, transformando o nosso semi-presidencialismo de pendor parlamentarista num de pendor presidencialista. O meu artigo no Diário Económico.

Marcelo pode marcar o regime

Durante a primeira legislatura do Parlamento, eleito em 1976, Ramalho Eanes deu posse a três governos de iniciativa presidencial. Chegou mesmo a exonerar Mário Soares, não permitindo que o Parlamento, como pretendia Soares, se pronunciasse sobre o futuro do governo socialista. No seu discurso a 25 de Abril de 1978, Eanes afirmou que “ao Presidente da República importa menos quem governa e mais como se governa”.

O entendimento que Eanes tinha do sistema semi-presidencial não era o de Soares, Sampaio e Cavaco. Os três presidentes subsequentes exerceram o cargo já depois da Revisão Constitucional de 1982, que fez o governo depender mais da Assembleia da República. Esta estabilização dos poderes presidenciais, a par da extinção do Conselho da Revolução, foram a concretização do projecto de Sá Carneiro. Foi este quem pugnou, desde 1976, por uma revisão constitucional que atenuasse o pendor presidencialista do sistema e enfrentou até ao fim um presidente que, a seu ver, exercia o cargo de uma forma não compatível com uma democracia europeia e ocidental.

Podemos dizer que Sá Carneiro foi determinante para o equilíbrio dos poderes a que assistimos desde 1982. Aliás, o sistema político que vivemos desde então, e cujos poderes foram exercidos por Soares, Cavaco, Guterres e Sampaio, Sócrates e Passos Coelho, tem a marca de Francisco Sá Carneiro. Ora, é este equilíbrio que está a ser questionado por Marcelo Rebelo de Sousa.

O actual presidente da República foi eleito em Janeiro deste ano, já depois de António Costa ser primeiro-ministro num governo com um apoio parlamentar preso por arames. Uma debilidade a que se soma a frágil situação económica do país que se deve ao excessivo endividamento do Estado. Perante um Governo que vê na sua continuidade o seu sucesso, Marcelo cedo percebeu que o seu mandato poderia ser diferente dos anteriores. É que se os poderes presidenciais foram estabilizados em 1982, também é verdade que as maiorias absolutas conseguidas desde 1985 criaram uma prática de respeito pela vontade do Parlamento que passou a ser dominado pelo executivo.

Neste mandato de Marcelo a maioria que sustenta o Governo não é absoluta, mas apenas parlamentar, tal como o de Soares em 1978. E quando este Governo cair, mesmo que sejam convocadas novas eleições, não é de esperar uma maioria absoluta de direita. Enquanto isso, Marcelo, que tem tido o cuidado de cultivar uma imagem de homem próximo do povo, um homem da rua, o que lhe granjeia uma popularidade ímpar, não terá dificuldades, perante um Parlamento dividido e um Estado com sérias dificuldades de financiamento, de impor a sua vontade.

Se o fizer Marcelo porá termo ao equilíbrio por que Sá Carneiro lutou. Voltaremos a viver num sistema semi-presidencialista de pendor presidencial, ao invés de parlamentar. Ao consegui-lo, Marcelo será um De Gaulle à portuguesa, definindo o regime à sua imagem, mas com uma diferença relativamente ao francês: é que, ao contrário deste, Marcelo candidatou-se à presidência da República sem um programa que fosse. A sua estratégia foi o silêncio e a evitação de confrontos. E é neste ponto que o regime pode resvalar para o populismo sem conteúdo e, porque vazio, incontrolável e isento de críticas. Um regime oposto àquele por que Sá Carneiro, e também Soares, lutaram há 40 anos.

Possíveis sanções a Portugal no ETV

António Costa quer evitar que o PS perca votos para a esquerda. É por isso que não pode permitir que um governo de direita seja bem sucedido. Tem de ser governo, mas com um discurso contra a austoridade para se proteger da extrema-esquerda. No decurso deste ano procurou contentar o maior número de pessoas para, à primeira oportunidade, ir para eleições e vencê-las. Para isso, falta-lhe o pretexto. As sanções contra Portugal são uma hipótese. A estratégia do PSD consiste em esperar pelo desastre a que este governo está a conduzir o país. No entanto, se as eleições tiverem lugar antes desse desastre, o PSD fica sem discurso.

Os meus comentários hoje no Económico TV.

Michel Rocard 1930-2016

236009

Entrevista concedida pelo ex-primeiro-ministro de François Mitterrand à Le Point, publicada na semana passada e cuja leitura recomendo pela sua pertinência e actualidade.

Rocard foi um socialista que não se revia nos socialistas de agora. La deuxième gauche, a que Rocard se referiu em 1977, não era marxista, acreditava na economia de mercado e, ao contrário do que sucede com os socialistas actuais, via a Europa com bons olhos. Não deixa de ser significativo que a acusação estampada na primeira página da Le Point tenha sido a última mensagem política.

No Fio da Navalha

Quando votamos para o Parlamento, votamos para 4 anos; quanto tempo vale uma decisão tomada em referendo? O meu artigo hoje no ‘i’.

Os referendos e a força das massas

Quem acompanhe os canais de televisão britânicos notou como até os comentadores favoráveis ao Brexit estão apreensivos. Parece que queriam votar naquele sentido, mas não com aquele resultado. E os efeitos são muitos: baixa dos ratings das agências de notação financeira, queda da libra, saída das empresas da City, possibilidade de desintegração do Reino Unido. Fala-se em milhões que se arrependeram de como votaram. Como é que os fleumáticos britânicos se puseram nesta situação?

São os mais jovens a criticar o resultado que os mais velhos lhes impuseram e com que terão de viver o resto das suas vidas. São os trabalhadores dos setores mais integrados na União Europeia que criticam o sentido de voto dos que sentem viver à margem da Europa. Este referendo foi a possibilidade de pessoas decidirem o destino, não de um país, mas da vida de pessoas que não conhecem e cujas necessidades ignoram.

O fenómeno repetiu-se até no Partido Trabalhista, quando Jeremy Corbyn, atacado pelos seus deputados, se virou para as massas que, conduzidas por ele, o apoiam. A massificação do voto, que ignora as particularidades das minorias, é o caminho para o poder absoluto dos populistas e radicais.

Foi Karl Popper quem elogiou a democracia representativa como um dos instrumentos que limitam o poder. Ela previne o poder absoluto da decisão tomada num momento em que o poder passa de uns para outros num mero instante. Para Popper, a democracia representativa prevenia o que aconteceu no Reino Unido. Seria bom que esta fosse uma das lições a tirar do que aconteceu.

Brexit, referendos e Corbyn no Económico TV

Sobre o Brexit que pode não se concretizar e sobre os malefícios dos referendos. Ainda um breve comentário também sobre o apelo que Corbyn fez às massas para se manter na liderança dos trabalhistas. Os meus comentários hoje no Económico TV.

A nova esquerda

Tanto Catarina Martins como Marine Le Pen querem referendar a Europa. Na verdade, tanto uma como outra são contra a União Europeia. Ao sê-lo, as duas pretendem que se fechem as fronteiras, porque, apesar de não o dizer expressamente, é esse o resultado do discurso do BE contra os negócios e os lucros. É certo que Marine Le Pen é nacionalista e xenófoba e, nesse campo, Catarina Martins se mostra mais generosa. Mas isso é porque em Portugal a imigração não indigna ninguém, não é um mercado eleitoral a explorar, já que são poucos os que querem vir para cá trabalhar.

Uma boa peça jornalística seria apurar quantas vezes os pontos de vista (não me refiro às votações) do BE e da FN se encontraram no Parlamento Europeu.

Como é que se reforma a União sem o Reino Unido?

Eu percebo as críticas feitas à União Europeia: que é demasiado centralizadora, que é burocrática e excessivamente regulamentadora; que não é democrática, que usa e abusa da intimidação para levar a água o seu moinho. Eu também alinho nestas críticas e gostava que a União fosse mais um mercado livre e menos uma entidade política.

O problema é que não vejo como se liberaliza a União Europeia sem o Reino Unido. Se a União não mudou para manter o Reino Unido, porque o fará agora?

A Europa pode vir a ser reformada, embora não creia que no sentido pretendido pelos Britânicos. A partir de agora, ou se centraliza ainda mais (com a Alemanha a estabelecer as regras) ou se dá mais espaço aos governos despesistas e será mais difícil manter uma moeda forte como o euro.

O Brexit e os jovens

Em Abril escrevi no ‘i’ que o referendo no Reino Unido revelava uma divisão geracional. Chamei ao artigo ‘egoísmo geracional’. Infelizmente, os jovens já não são suficientes para fazer a história.

Egoísmo geracional

As sondagens sobre o Brexit estão a causar surpresa, não tanto pelo resultado final em si, mas pelo que revelam. E o que mostram é que, se a maioria dos jovens entre os 18 e os 29 anos é favorável à continuação na União Europeia (UE), a maioria dos cidadãos com mais de 60 anos votará pela saída.

O Reino Unido (RU) anda a discutir o porquê desta divisão. E as razões vão desde a natural tendência para os mais velhos desconfiarem do que vem de fora e se tornarem nostálgicos do passado, preferindo um regresso ao país que conheceram outrora, até ao egoísmo dos que já viveram os benefícios da UE e agora nada têm a perder com a saída.
Abi Wilkinson é uma jovem colunista do “Telegraph” e sobre este assunto escreveu que ela e a sua geração já têm demasiadas dificuldades em encontrar trabalho para verem o cenário piorar ainda mais. Estes jovens não querem sofrer as consequências de uma decisão determinada meramente pelos receios vindos dos que já tiveram o proveito mas que, agora que saem do mundo do trabalho, já não querem saber.

Este assunto é muito importante porque revela, além de um egoísmo geracional latente, uma outra realidade: muitos dos mais idosos que querem o RU fora da UE com certeza que estão dispostos a ajudar os seus filhos e netos. Uma discrepância considerável que nos diz que, por muito que vejamos um país como um todo, a solidariedade, a reciprocidade existe mais entre os que são próximos. “There is no such thing as society”, já dizia aquela grande senhora.

Brexit e o extremismo

O Brexit não é apenas a desculpa que Costa precisava para explicar o fracasso da sua governação. O PS já não é europeísta e o Brexit é uma excelente oportunidade para, com o Podemos e também com a Frente Nacional (todos os aliados contam), mudar a Europa.

O Brexit e a Alemanha

O único Estado que servia de contrapeso à Alemanha saiu da União Europeia. Não deixa de ser irónico que o abanão que a União precisava atire a Europa para o colo da Alemanha. A começar pelo centro financeiro que pode passar de Londres para Frankfurt.

Brexit e os países nórdicos

Há muita gente à esquerda que está satisfeita com o Brexit. A Europa precisava de um abanão e vai tê-lo. Sem dúvida. Só que este abanão não nos vai trazer mais dinheiro. Muito pelo contrário. É que os países nórdicos podem também querer sair, e aí é que vai ser o ai Jesus.

Brexit e Bruxelas

O Reino Unido não votou contra austeridade na Europa. Costa e restante esquerda podem tirar os cavalinhos da chuva no que a isso diz respeito. Os Britânicos votaram maioritariamente contra o excesso de regulamentação vinda de Bruxelas (que a esquerda lusitana considera não ser suficiente) e contra a imigração (um assunto que não aquece nem arrefece Portugal).

O Brexit e a desilusão da esquerda

O meu comentário sobre o Brexit no Diário Económico.

Na sua larga maioria a esquerda em Portugal anseia pelo ‘Brexit’ para que a Europa se reforme. No entanto, a acontecer, o ‘Brexit’ será por razões totalmente opostas às defendidas pela esquerda. O ‘Brexit’ tem dois tipos de apoiantes: os que são a favor do mercado livre, criticam a burocracia de Bruxelas e querem menos regulamentação laboral e os que são contra a imigração.

Ora, a esquerda portuguesa tem sido contra a desregulamentação laboral que Bruxelas impôs nos últimos 5 anos e é a favor, ainda, da imigração, até porque são poucos os que imigram para Portugal, não sendo essa questão um mercado eleitoral interessante para a esquerda. Desta forma, e qualquer que seja o resultado, a esquerda vai ter uma desilusão amanhã. A próxima etapa será a Espanha.

A esperança de Costa e a espera de Marcelo

Escrevi no mês passado sobre os riscos que o Brexit e as eleições em Espanha comportam para a União Europeia. Uma coisa me parece certa: Costa e os que apoiam o seu governo devem estar a esfregar as mãos de contentamento à espera de um desastre europeu. Por outro lado, enquanto Costa conta com o fracasso da Europa, Marcelo aguarda pelo fracasso de Costa. Objectivo: ser o nosso de Gaulle. Um de Gaulle à portuguesa, porque sem programa, pelo menos que o país tenha sufragado. O equilíbrio do nosso sistema semi-presidencial em que o poder do primeiro-ministro predomina sobre o do presidente, e que foi conseguido por Sá Carneiro, pode estar a chegar ao fim, com Marcelo a exercer o poder à semelhança do que se faz em França. Entretanto, no meio de tanta incerteza os resultados podem ser contrários às expectativas criadas. É nestas alturas que ficar quieto e respirar fundo parece ser a melhor atitude das pessoas razoáveis.

O ‘Brexit’ e a Europa

Paris já disse que se o Reino Unido sair da UE acaba-se o acesso ao mercado comum. Como é que um país doente como a França se vai aguentar na Europa sem o Reino Unido? A minha crónica hoje no Diário Económico.

O ‘Brexit’ e a Europa

O Reino Unido vota amanhã a sua permanência na União Europeia. O governo britânico alertou várias vezes para os prejuízos económicos caso a opção seja sair. As instituições europeias, e até Obama, repetiram-no vezes sem conta: as grandes empresas sairão de Londres, o investimento estrangeiro cairá e o Reino Unido levará anos para recuperar o que pode perder numa noite. Nas últimas semanas o aviso tornou-se ameaça e o efeito pode ser contrário ao pretendido. Afinal, estamos a falar dos britânicos que não gostam de ser ameaçados. Mas e a Europa?

A Europa pode perder muito mais do que o Reino Unido. É a história que nos diz. Nos mostra quando olhamos para o passado e deparamos com o caótico autoritarismo que grassou pela Europa fora quando a Inglaterra ou, num sentido mais alargado, o Reino Unido se afastou do Velho Continente, deixando-o à deriva com uma das suas maiores nações doente.

Como já referi numa outra crónica para este jornal a 25 de Maio último, as ondas de choque provadas pelo ‘Brexit’, com a ajuda de um bom resultado da coligação Unidos Podemos, já este domingo em Espanha, darão força aos governos dos países com contas públicas mais deficitárias nas suas negociações com Bruxelas. Qualquer cedência nessa matéria enfraquecerá o euro que é o maior sustentáculo da União. Pior que isso: dará força aos governos despesistas, facilitando a vida à classe política que favorece interesses à custa dos cidadãos.

E assim chegamos ao grande doente europeu que é a França. Uma França que perdeu o norte e que, sem o Reino Unido na Europa, ficaria entregue a si mesma, aos seus fantasmas e terrores. Os franceses sabem-no, estão confusos e no meio de um debate intelectual e político que esperam lhes mostre uma luz ao fundo do túnel.

Apesar do actual presidente ser socialista, e da Frente Nacional ser uma ameaça ao equilíbrio político da actual República, os últimos anos têm sido marcados por uma forte actividade intelectual por parte de autores que situam entre a direita francesa. Não me refiro apenas ao livro Le Suicide français, de Éric Zemmour, saído em Outubro de 2014 e que tem mais de 300 mil exemplares vendidos, mas também às intervenções de Alain Finkielkraut. Os dois são fortes críticos do Maio de 68 e da forma como esse movimento debilitou o Estado francês. Mas o mais importante é que estes autores estão a influenciar uma nova geração de intelectuais, nascidos depois de 1968, sob os efeitos desse movimento que o pretendem contrariar.

A França tem sido vista como um país irreformável, título que podia ostentar com orgulho quando de Bruxelas, ao invés de obrigações, fluía dinheiro para os países periféricos, o que se compensava através de um cuidado especial com Paris. Nesta segunda década do século, a unanimidade já era e os efeitos na paragem no tempo sentem-se nas cidades francesas. A França já não faz par com a Alemanha na Europa e uma saída do Reino Unido desequilibraria ainda mais essa discrepância.

Infelizmente o debate francês que referi em cima pode ter vindo tarde demais. Com as dificuldades financeiras, a crise dos refugiados, que os atentados islâmicos não ajudam, os tempos serão de radicalização. O êxito de Zemmour vem de ser mais mediático e legível que Finkielkraut, mas também de alertar para a decadência do Estado e a transformação da Frente Nacional num partido de esquerda que vai convencer o eleitor funcionário público que vota no partido socialista.

A tendência será, infelizmente, para uma valorização do papel do Estado com os entraves que tal política implicou no passado. Sem o Reino Unido, com a França estatizada e enfraquecida perante uma Alemanha unida à volta da sua força comercial, que foi um dos pilares para a sua unificação no século XIX, não estou a ver outra forma de a União Europeia sobreviver que não seja através de uma reforma das suas instituições. Em que sentido, é muito difícil, senão impossível, dizê-lo.

Tal como há semanas era difícil prever o ‘Brexit’, hoje é arriscado avançar com as suas consequências. Uma certeza a história nos mostra: a Europa pode perder mais que o Reino Unido.

Ainda sobre o fascismo e a extrema-esquerda

(ou como um partido de extrema-direita se torna de esquerda). Éric Zemmour, em 2013.

Impunidade

Sobre a sua sugestão, no twitter, de se despedir uma jornalista porque discorda do trabalho desta, a deputada do PS, Gabriela Canavilhas, responde que a sua comunicação foi “descontraída” e “um desabafo”. É assim, sem mais. Dentro do mesmo raciocínio, a censura à imprensa no Estado Novo era apenas uma forma “descontraída” de Salazar exercer o poder. Já não há limites para a vergonha?

No Fio da Navalha

O meu artigo ontem no ‘i’.

A importância de estar quieto

Os feriados foram um pretexto para parar. Eu fi-lo e, quando o faço, desligo total e completamente. Não há telemóvel nem computador. Descansar não é não fazer nada, mas será, com certeza, viver devagar. Num destes dias de descanso, acabei por ver a segunda parte dum jogo de futebol do campeonato da Europa. A enorme sala do hotel onde estive, mantida com a decoração dos anos 20 e 30 do século passado, estava vazia. Ao meu lado apenas um outro hóspede sentado defronte do televisor e de olhos postos no telemóvel.

Não sei o que fazia, mas o aparelho não parava e apenas permitia ao seu dono olhar para o jogo quando, pelo relato, percebia que algo tinha acontecido. Com sorte, via a repetição. Já todos presenciámos comportamentos semelhantes. A incapacidade de algumas pessoas se concentrarem mais de cinco minutos no quer que seja é atroz. Já nem mesmo um jogo de futebol na televisão as domina.

Não é novidade nenhuma que se vive demasiado depressa. O que quero saber é como vão sair desta armadilha as pessoas que nela caíram. As livrarias estão pejadas de livros de autoajuda para aumentar a atenção e melhorar a qualidade de vida. Quando o hotel onde estive foi feito, a vida era vivida mais lentamente porque não existiam as tecnologias de hoje. Estas são indispensáveis e, antes, as dificuldades eram muitas. Mas com a necessidade que temos de priorizar o que é importante, pergunto-me se um dia destes a maioria não olhará para trás para aprender a viver doutra forma as facilidades do presente.

A verdade costuma vir ao de cima

Em Janeiro escrevi uma crónica no ‘i’ sobre o desaparecimento de 5 proprietários de uma livraria/editora em Hong Kong. Um deles regressou esta semana a casa e contou como foi.

E agora, Catarina Martins?

“A banca é um assunto sério demais para ser deixado nas mãos de banqueiros privados.” – Catarina Martins não se referia à Caixa Geral de Depósitos.

CGD, Brexit e sanções a Portugal no Económico TV

A Caixa Geral de Depósitos precisa de 4 mil milhões de euros, para se manter; Portugal pode ser punido por défice excessivo e o Brexit terá consequências gravissímas para o nosso país. Enquanto isso, Marcelo e Costa riem e tiram selfies em Paris. É verdade que o povo gosta de ser entretido (Salazar percebeu isso muito bem), mas há limites. Os meus comentários hoje às 12 horas no Económico TV.

Desbloquear a direita

Em vez de servir os cidadãos, o Estado explora-os. Ora, não foi para isso que se limitou o poder político com a liberdade dos indivíduos e a democracia. O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Desbloquear a direita

O argumento que o Governo usou para alterar as regras de matrículas nos colégios com contratos de associação com o Estado é contabilístico. Dito de outra maneira, vai ao encontro de uma das maiores preocupações da direita em Portugal: baixar a despesa pública. A jogada é brilhantemente cínica porque, ao mesmo tempo que impõe uma visão ideológica do que deve ser, no seu ponto de vista, a educação, a esquerda mais extremada justifica-se com um argumento da direita.

Façamos um ponto prévio: é indispensável que os orçamentos de Estado sejam excedentários. Mais: é imprescindível que tal se obtenha com uma redução da despesa pública para que se baixem os impostos. Estes objectivos têm de ser obtidos, não só para que haja confiança, previsibilidade na política fiscal, se invista e se criem postos de trabalho, mas também porque um Estado que exige à população elevadas contribuições para satisfação de interesses que sustentam o poder político, põe em causa a sua legitimidade política. Em vez de servir os cidadãos, o Estado explora-os. Ora, não foi para isso que se limitou o poder político com a liberdade dos indivíduos e a democracia.

Mas a direita não se pode reduzir a um discurso meramente contabilístico. Melhor: a direita só explica a redução da despesa pública com um projecto verdadeiramente libertador e que passa por reformas não superficiais do que devem ser as funções essenciais do Estado; de como deve ser organizado o Estado. De modo a que a não se limite a ser um mero cobrador das promessas da esquerda, a direita deve apresentar um discurso político muito claro em áreas muito concretas: na questão dos estivadores e do Porto de Lisboa; na saúde; na segurança social; na área laboral; na descentralização fiscal, com os municípios a assumirem a cobrança das receitas municipais e fazerem depender daí as suas despesas. E também na educação.

Porque a questão essencial nos contratos de associação com os colégios não é contabilística, mas ideológica. Se o que está em causa para a esquerda é o controlo da educação, para a direita é a liberdade de escolha. A liberdade dos pais escolherem a escola dos seus filhos independentemente de serem ricos ou pobres. Terem mais ou menos dinheiro. A liberdade é algo de que esta esquerda que governa o país tem a boca cheia mas de que tem medo quando se concretiza. Não é novidade nenhuma. Vimos como foi nos regimes comunistas; sabemos como é na Venezuela e em Cuba. Mas em Portugal não pode ser assim. Temos de ser mais exigentes. E é por isso que a direita tem de estar à altura dessa maior exigência.

A direita não deve punir as pessoas com os erros de governação da esquerda. O Estado está à beira da bancarrota? Muito bem. É preciso equilibrar as contas; mas baixar a despesa, não só cortando salários (o que numa situação dramática é necessário) mas com uma governação que reduza despesa, porque ao restituir a liberdade aos cidadãos, reduz os encargos do Estado. Como também do lado da receita, não taxando o capital e a poupança porque são estes que permitem investir, criar emprego e pagar melhores salários.

O país precisa urgentemente de um Estado que atribua menos subvenções, se liberte dos interesses corporativistas que o amarram, não interfira nos negócios para satisfação de alguns empresários; de um Estado que cobre menos impostos e deixe as pessoas, em liberdade, escolher o que fazer com o fruto do seu trabalho, planear o seu futuro e delinear o rumo a dar à educação dos seus filhos. Apenas com uma mudança programática será possível que o próximo governo de direita, com medidas ainda por cima posteriormente revertidas, faça muito mais que corrigir os erros da esquerda.