As autárquicas não são um plebiscito

O meu artigo no ‘i’. Relativamente às escolhas do PSD para as autárquicas discordo do que o meu amigo Alexandre Homem Cristo escreveu segunda-feira no Observador. O governo quer que as autárquicas substituam as legislativas, legitimando-o e forçando a demissão de Passos Coelho, que venceu as eleições.

O PSD não pode ser usado neste esquema. Nas autárquicas elegem-se autarcas. Os governos são votados nas legislativas.

As autárquicas não são um plebiscito

O mundo político anda numa polvorosa porque o PSD escolheu uma desconhecida do aparelho partidário, Teresa Leal Coelho, como candidata à câmara de Lisboa. De acordo com os analistas esta escolha, a que se junta a do Porto, ditará o fim da carreira política de Passos Coelho.

As eleições autárquicas estão a ser apresentadas como um plebicisto ao governo da Geringonça que não foi sufragado nas legislativas. É verdade que o governo tem sustentação parlamentar, mas também não deixa de ser verdadeiro que tal não foi o proposto aos portugueses quando estes votaram. A esquerda sabe que defraudou a vontade do eleitorado e, com essa ferida que não confessa mas que mói, vê nas autárquicas a oportunidade para legitimar este governo.

A governação da Geringonça teve esta linha de rumo. Sucede que as autárquicas não são um plebiscito e, apesar dos tiques da Geringonça, ainda não vivemos numa democracia populista. Todo o cenário político, desde a política governamental à discrepação presidencial, passando pela forma como Medina – o presidente não eleito de Lisboa – geriu a cidade, está ser preparado para uma vitória que limpe as legislativas.

É por este motivo que não embarco nas críticas a Passos Coelho. O PSD não pode ser usado neste jogo próprio de uma democracia populista. Os governos devem sair das legislativas, como o presidente das presidenciais e os autarcas das autárquicas. É tendo em conta este cenário que é perfeitamente legítimo que o PSD reduza as eleições de Setembro àquilo que são.

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A Europa acordou?

A minha crónica no i sobre o politicamente correcto na Europa e a reacção holandesa à intrusão astuta da Turquia. Parece que ainda não é demasiado tarde.

A Europa acordou?

A Holanda proibiu o ministro dos Negócios Estrangeiros turco de fazer campanha a favor do sim no referendo sobre um regime presidencialista na Turquia. A cidade alemã de Gaggenau fez o mesmo ao ministro da Justiça turco, e o ministro do Interior alemão afirmou, entretanto, que uma campanha eleitoral turca não tem de ser feita na Alemanha.

É caso para dizer que, finalmente, os países europeus acordaram. Quando membros de um governo estrangeiro fazem campanha eleitoral no nosso país estamos perante uma extensão inaceitável desse país dentro do nosso. É uma violação das regras mais elementares da soberania e ainda bem que Holanda e Alemanha foram firmes neste ponto.

Nada disto tem que ver com refugiados ou com a imigração. Sou favorável à imigração, com a qual ganham todos: imigrantes, países de origem e países receptores. Nestes últimos, o enriquecimento que as novas pessoas trazem consigo, com outra forma de encarar os problemas e de os resolver, a que se soma a vontade férrea para trabalhar, é uma mais-valia indesmentível.

No entanto, além de imigração pressupor integração, não é disto que se trata aqui. Da mesma forma que não imaginamos o presidente dos EUA a fazer um périplo pela Europa apelando ao voto nas eleições norte-americanas, ou o presidente francês a proceder da mesma forma na Alemanha ou no Reino Unido, não se compreende por que motivo deveriam os países europeus agir diferentemente para com a Turquia. À hora em que estas linhas são lidas saberemos se não foi demasiado tarde.

A novidade Macron

Sem querer estar a fazer o elogio de Emmanuel Macron, que se pode revelar mais um fiasco à francesa, é preciso que se entenda como é que este homem, que foi secretário-geral adjunto de Hollande, ministro da economia de Valls, conseguiu destronar um presidente, afastar um primeiro-ministro e estar tão perto de se tornar o próximo presidente da França. O meu artigo de hoje no Jornal Económico.

A novidade Macron

Em Novembro, neste espaço, tive oportunidade de referir a importância da candidatura de Emmanuel Macron à presidência da França, mencionando que uma boa prestação deste candidato seria crucial para todos. Macron apresentou há dias as suas políticas com um corte na despesa pública de 60 mil milhões de euros, acompanhado de um investimento público próximo dos 50 mil milhões. O que tira de um lado, põe do outro.

A grande alteração que Macron preconiza, e quem leia o seu livro “Révolution” facilmente o compreende, é uma outra forma de colocar os problemas e, inevitavelmente, de os resolver. O líder do movimento En Marche quer melhores políticas sociais, melhor educação pública e apoio aos desempregados. Sucede que estas medidas que o colocam à esquerda prevê Macron levá-las à prática com mais descentralização, dando maior autonomia aos municípios e às escolas, e permitindo que a legislação laboral se cinja aos direitos essenciais, passando as empresas a regular as relações contratuais com os seus empregados.

Para Macron a divisão já não se faz entre trabalhadores e patrões, mas entre um país que quer avançar e outro que estagnou. Para superar o impasse propõe não regulamentar ou controlar, mas permitir que as pessoas possam encontrar as soluções apropriadas ao seu caso concreto e não serem punidas por isso. Esta é a mudança que Macron preconiza e qualquer semelhança com a esquerda portuguesa é ilusória. Com a sua nova perspectiva laboral, Macron quer um Estado que não privilegie os funcionários públicos e os que trabalham nas grandes empresas em detrimento dos que estão nas médias e pequenas empresas, cuja realidade é, a maioria das vezes, desconhecida por quem está na política.

É percebendo o que Macron quer para a França que compreendemos como é que ele vai enfrentar Marine Le Pen na segunda volta. Ao contrário dos outros candidatos, Macron não  diaboliza quem vota na Frente Nacional (FN). Para ele, o eleitorado da FN são os franceses esquecidos pela elite política. Agricultores, empregados de fábricas e de escritórios, de pequenas e médias empresas, pessoas que costumam votar à esquerda ou à direita, mas que desistiram de esperar por quem não tem soluções para os seus problemas e se vêem empurradas, mais pela emoção que pela razão, para o colo da extrema-direita.

Liberal quando dá espaço a que os franceses resolvam os seus problemas, de esquerda quando mantém as políticas sociais, Macron mostra um novo discurso a esse eleitorado desiludido. Mas há riscos. Um vem da sua inexperiência, o que o torna uma incógnita. Outro quando, em Maio, Hamon e Mélenchon decidirem quem apoiam na segunda volta. É que tanto um como o outro estão mais próximos de Le Pen que de Macron.

Sinais de perigo

Porque os sinais de perigo são cada vez em maior número. O meu artigo no ‘i’.

Sinais de perigo

Quando o país discutia o triângulo das Bermudas que é a CGD, a esquerda inventou uma polémica sobre algo já conhecido há meses e desviou as atenções para as offshores. Se o neoliberalismo é chavão dos que fogem para denegrir quem debate, os paraísos fiscais são o novo filão para, com ignorância e demagogia, mudar de assunto.

Sobre as offshores, a esquerda não explica por que razão é que a CGD tem uma sucursal nas ilhas Caimão (https://www.cgd.pt/English/Contacts/International-Network/Pages/Cayman-Islands.aspx); que, se sai dinheiro para offshores, também entra dinheiro vindo de offshores; e que estas são importantes nos negócios internacionais, o que talvez leve a que o banco público, que a esquerda – e boa parte da direita – tanto preza, tenha a dita sucursal num paraíso fiscal.

A informação é poder. E estar informado é estar protegido. Protegidos contra a má-fé, a mentira, a demagogia e o populismo. Não esqueçamos que foi aproveitando-se da falta de conhecimento sobre as questões mais importantes que ideologias totalitárias, como o nazismo e o comunismo, imperaram. Fomentando o ódio que nasce da ignorância.

A demagogia dos partidos extremistas portugueses, de que este PS – que ainda não tirou as ilações da sua derrota eleitoral – se aproveita, é preocupante. E quando as offshores cumpriram o seu papel de desviar as atenções, eis que surge o ataque ao Conselho de Finanças Públicas por não subscrever a narrativa dominante. No meio de tantos perigos, estar alerta tornou-se um dever.

Um Carnaval português

O Carnaval acabou, mas a festa continua. O meu artigo no ‘i’.

Um Carnaval português

Findo o Carnaval, há quem não largue a máscara que usa o ano inteiro. Durante 12 meses, o Presidente da República faz de comentador. Na televisão, enquanto lhe engraxam os sapatos ou à porta de um café. Até à saída da praia. Qualquer lugar serve para que o Presidente do nosso Estado se esqueça do papel que o mandato que exerce o obriga a desempenhar.

Se para ganhar popularidade ou por mera fatuidade e insensatez, não sabemos. Até porque são tantos os mascarados que nos baralhamos. António Costa, por exemplo, que escolheu ser primeiro-ministro – é o primeiro a consegui-lo depois de perder as eleições -, tem um ministro das Finanças que disfarça défices.

Centeno terá conseguido um défice de 2,1% do PIB em 2016. Para tal atirou para 2017 o dinheiro que vamos dar à CGD; comprimiu o investimento público à custa dos hospitais e das escolas, com algumas a fechar por falta de manutenção. O investimento público está abaixo do prometido pelo governo, ao mesmo tempo que a despesa com pessoal, digo eleitores, cresceu. Entretanto, o grande aumento de impostos não foi revertido.

Normalmente diríamos que o défice conseguido em 2016, o mais baixo da democracia, é uma mentira. Mas como não estamos numa legislatura normal, concluímos ser um ininterrupto Carnaval. Com o PCP e o BE a fazerem-se de amigos do povo temos, qual cereja em cima deste Entrudo, Francisco Louçã vestido de capitalista com um lugar no órgão consultivo do Banco de Portugal. O sambódromo do Rio de Janeiro, ao pé disto, é uma brincadeira.

Portugal: offshore mas só para alguns

Escrevi no ‘i’ sobre offshores em Abril do ano passado e volto novamente ao assunto agora que, uma vez mais, andamos todos indignados e esquecemo-nos que Portugal é uma verdadeira offshore para estrangeiros que venham viver para cá e até para portugueses que, uma vez tenham estado os últimos 5 anos a residir fiscalmente no estrangeiro, podem voltar e pagar muito menos impostos que os seus compatriotas.

Como é que se aceita que portugueses sejam tratados de forma diferenciada pelo fisco? Que Portugal é este que discrimina cidadãos? Onde é que estão o PCP e o BE que tanto criticaram o regime do residente não habitual para agora se esquecerem do assunto?

É impressionante como os paraísos fiscais servem para desviar atenções enganando quem não se importa de ser enganado.

O retorno de Deus

Será que a Europa vai reagir ao islamismo retornando a Deus? O meu artigo no ‘i’.

O retorno de Deus

“Le retour du religieux (…) je le savais pour ma part inéluctable dès l’âge de quinze ans.” “Soumission”, Michel Houellebecq, p. 267.

Esta frase é proferida pelo director da Universidade de Sorbonne, um belga convertido ao islamismo numa França, em 2022, com um presidente muçulmano. Em “Soumission”, Michel Houellebecq retrata a escolha que uma França adormecida se vê forçada a fazer entre uma Frente Nacional radicalizada e um partido islâmico moderado.

Como todas as histórias futuristas, esta parece fantasticamente implausível para ser possível. Mas, se Houellebecq não quis descrever avanços tecnológicos que não antevê – a forma de comunicar é hoje mais evoluída que a do livro –, acerta num ponto que deixa qualquer um de sobreaviso: os partidos tradicionais estão em crise e, na vida real, já em 2017, podem não ir à segunda volta das presidenciais.

Quem nos conta o que se passa é François, um académico estudioso de Joris-Karl Huysmans, escritor francês do século XIX, expoente maior do decadentismo e que se converteu ao catolicismo. François é um francês deste século, sem ligações nem ao país nem a ninguém, que se interroga perante a submissão inevitável que os homens terão de aceitar para se elevarem acima do que são.

“Soumission” não é apenas o adivinhar da falência política de um regime, mas a indicação de um caminho: a crença em algo mais forte que nós para que sejamos mais que uma decadência adormecida. Assim, ou Houellebecq, que disse já não ser ateu, se engana, ou a reação europeia será religiosa.

A geringonça e o fim da Europa

Passos conta com o risco financeiro para tramar Costa, mas Costa conta com o risco europeu para tramar Passos (e Marcelo). Quem é que vai ganhar? O meu artigo no Jornal Económico.

A geringonça e o fim da Europa

É cada vez mais evidente que o Governo não tem agenda: satisfeitos os interesses que a sustentam, pouco mais há a fazer que não seja esperar. Passos Coelho viu aqui uma oportunidade quando afirma que 2017 é o ano dos riscos financeiros. E se o líder do PSD vê confirmadas a suas projecções nos juros da dívida portuguesa que atingem valores preocupantes, tem também razão num ponto: os cidadãos que pagam os interesses protegidos pela geringonça não aguentam muito mais. O país perdeu a capacidade de se financiar lá fora conseguida no período da troika. Mas há um senão; um problema com que Passos parece não contar, mas que Costa espera seja a sua salvação.

E esse problema, que para Costa é um trunfo, é a desintegração da UE. Todos o sabemos, e Costa melhor que nós, que o calendário eleitoral europeu favorece o actual Governo: eleições na Holanda em Março, em França em Abril/Maio, ambas com a extrema-direita à frente nas sondagens, e na Alemanha, em Setembro, com o risco de a extrema-direita impor uma derrota a Merkel.

Para que a Europa sobreviva é preciso que Macron vença em França e Merkel ganhe na Alemanha. Se um deles falhar, a UE corre o sério risco de desaparecer. É isto: o projecto europeu está por um fio e depende de duas pessoas, uma das quais, apesar de pejados de méritos, é um desconhecido com pouca prática política.

O politicamente correcto, que impediu o debate político sério, amordaçou a Europa a soluções não questionadas e que agora, sem discussão séria, de forma dolorosa, são postas em causa por populistas de esquerda e de direita. Não houve seriedade nas questões religiosas, na imigração, no emprego, na protecção social concedida a quem não merecia e nada fez pela comunidade, nas políticas laborais, apesar do trabalho ter mudado radicalmente nos últimos 15 anos. Proibindo-se a discussão com medo de se afrontar, de se ofender, quem quer que fosse, criou-se uma panela de pressão que pode rebentar este ano.

E se Passos espera que os ventos soprem a seu favor, Costa, o BE e o PCP vêem no sucesso eleitoral do extremismo a sua tábua de salvação. O fim do euro, que acontecerá caso Marine Le Pen vença em França, o regresso tão desejado do escudo, que trará inflação, reduzirá salários, aumentará a pobreza, trará aflição para muitos. Mas servirá também de pretexto. As causas facilmente se apontarão ao estrangeiro. Seremos pobres, estaremos aflitos, não em virtude do Governo da geringonça mas por responsabilidade da Europa que se auto-liquidou. É desta forma que Tsipras sobreviverá na Grécia, Costa em Portugal e Rajoy pode cair em Espanha. O caos será amigo de um populismo de tal forma demagógico que o que vimos até agora é uma brincadeira de crianças.

O regresso às origens nos EUA

Com Trump, vamos dar graças à democracia que passa pela separação dos poderes. Com Trump, ainda bem que há Congresso e tribunais. O meu artigo no ‘i’.

O regresso às origens nos EUA

Com Trump na presidência, são muitos os que esperam que o congresso e os tribunais equilibrem a influência do presidente norte-americano. E esperam bem, porque Trump defende políticas desastrosas, como o proteccionismo, que boa parte da esquerda entre nós também advoga.

Infelizmente, não tem sido sempre assim. Nos últimos anos, os presidentes têm sido vistos como seres iluminados que deviam vencer a cegueira dos congressistas para que os EUA evoluíssem. Com Obama, esta tendência chegou mesmo a assumir contornos graves, com o presidente a ser encarado como um novo Messias libertador contra os poderes instalados em Washington. Um pouco como Trump, mas com mais souplesse.

A centralização do poder na pessoa do presidente foi um processo longo, com Andrew Jackson, Lincoln, Teddy Roosevelt, Wilson e FDR a darem o mote. E se antes eram poucos os que, na senda de George Washington, não repetiam o mandato, no pós-guerra só se ficaram por quatro anos os que ou morreram ou foram desastrosos.

Com Trump podemos assistir ao reconhecimento, por parte da população, de como a separação de poderes é importante; que um Congresso forte que reprime decisões não é uma falha da democracia, mas a sua força; e que os tribunais devem exercer devidamente as suas funções. Quem sabe não assistimos a um regresso às origens do sistema norte-americano. Recordar como é importante desconfiar do homem providencial, e restringir, na medida do possível, os poderes do presidente, pode vir a ser o legado de Trump.

O homem que não tinha ideais

Sim. Gente Independente, de Halldór Laxness. Outra vez.
Porque para se ser independente é também preciso não ter ideais. O meu artigo no ‘i’.

O homem que não tinha ideais

Volto esta semana ao livro “Gente Independente”, de Halldór Laxness (Cavalo de Ferro). Tudo nele se centra no desejo de Bjartur das Casas de Verão ser independente. A semana passada referi a importância de não ter dívidas, o que se consegue com obstinação e resiliência.

E como não é fácil ser-se independente, o processo também não é simples. Para não se ter dívidas e se ser independente, é preciso também não ter ideais. Sendo o ideal a reunião de todas as perfeições, o que é impossível, um homem independente não tem ideais. Quem procura a independência visa apenas vencer-se a si mesmo e não os demais; nem sequer pretende controlar ou mudar a natureza, que qualquer pessoa sensata ama por ser implacável como é.

Quem tem ideais não se foca em si, mas no outro. Quer mudar não ele próprio, mas o outro. O mundo, a sociedade, o que seja. É egocêntrico e arrogante. E, naturalmente, não aceita a independência.

Neste livro, todos opinam sobre a vida de Bjartur, que não propõe nada a ninguém. É com a melhor das intenções que o querem ajudar para depois o aprisionar. Para isso, a melhor arma é o ficar a dever. Dinheiro ou favores. Algo. E quando, depois da falsa prosperidade que invade a Islândia no decorrer da guerra 1914-18, a dívida destrói o que nos ombros desta foi construído, é à porta dos independentes que vão bater. A apropriação do que é dos outros torna-se lei. As massas que usufruíram das liberdades libertam-se então para destruir a independência de quem não se deslumbra com ideais.

Como o Islão matou a laicidade do Estado

O meu artigo no Jornal Económico.

Como o Islão matou a laicidade do Estado

Nas presidenciais francesas é importante compreender as razões para o estado do partido socialista, cujas primárias tiveram agora lugar. É que depois de cinco anos no Eliseu os socialistas arriscam-se a não ter um candidato na segunda volta. Nem Valls lhes vale, e o único com hipóteses de fazer um brilharete, Macron, saiu do partido e diz-se de esquerda, sim, mas não socialista. Por favor, não o confundam.

Há quem diga que é o resultado do mandato de Hollande. Sem dúvida. Mas, mais que isso convém perceber que a má prestação de Hollande não advém das suas incapacidades políticas, mas da armadilha em que os socialistas caíram.

Lembra a Le Point que tudo começou no Outono de 1989. Nesse ano, mais precisamente a 18 de Setembro, Fatima e Leila, duas raparigas de 13 e 14 anos, são impedidas de continuarem na escola que frequentam. A decisão é do director do estabelecimento de ensino que argumenta que o véu que utilizam é incompatível com o bom funcionamento da escola. Foi um escândalo e o PS dividiu-se entre os que eram favor da proibição do véu, entre eles Valls, e os que foram contra, entre os quais, Hollande. E também, como agora, houve quem não tivesse tomado partido, como foi o caso de Mitterrand. Aquele grande político do tempo em que os políticos tomavam decisões.

Os que eram contra a exclusão das alunas alegaram que a laicidade do Estado não permitia proibir. “Il est exclu d’exclure”, nas palavras de Jospin. E como esta esquerda não tinha referências religiosas, era laica, achou que o problema se resolvia proibindo os cristãos de se dizerem cristãos, por serem muitos, e permitir os muçulmanos de serem muçulmanos, porque eram poucos.

Mas já não são. São muitos e em muitos lugares a maioria. E os socialistas continuam a não saber como lidar com o fenómeno. O falhanço do socialismo em França, ao contrário do que está a suceder noutros locais do mundo, veremos como vai ser em Portugal quando rebentar a bolha em que vivemos, prende-se tanto com a destruição do conceito de laicidade do Estado como com a crise económica. A França perdeu a sua identidade e o Estado Republicano e Laico, que era o seu garante, traiu-a.

Este era um problema que De Gaulle anteviu difícil de resolver: como é que um Estado laico não se imiscui na religião se, por exemplo, ao financiar escolas públicas laicas, dificulta o acesso às religiosas? E se em 2017, Valls, categoricamente laico perante todos, perdeu para Benoît Hamon, que defende que os muçulmanos sejam compensados do ostracismo a que pretensamente estão sujeitos, é porque assistimos ao culminar da desintegração de um conceito a que nos habituámos.

Não deixa de ser interessante que Fillon se defina como cristão, a Frente Nacional discuta se o inimigo é a União Europeia ou o Islão e Macron recuse a laicidade como religião. A Europa recristianiza-se e, de certa forma, o laicismo para combater o catolicismo foi derrotado pelo islamismo.

Ser independente

Há os que trabalham porque precisam de dinheiro para viver; há os que trabalham porque querem ganhar dinheiro ou construir algo. Por fim, há os que trabalham só porque querem ser independentes. O meu artigo hoje no ‘i’.

Ser independente

“Gente Independente” (Cavalo de Ferro), de Halldór Laxness, é um livro sobre a vida de um homem, um islandês chamado Bjartur, que quer ser independente na Islândia do início do século XX.

Para ser independente trabalha no duro durante 18 anos para uma família, poupando e juntando tudo o que pode; prescinde do que um homem precisa para existir, de forma a conseguir o que um homem precisa para viver: um pedaço de terra onde tenha as suas ovelhas, trate delas e elas depois tratem de si: “O homem que possui a sua própria terra é um homem independente” (pág. 18). Não precisa de luxos, desdenha o luxo, um encargo, que o desfoca do seu objetivo: ser independente.

Não ser livre. Ser livre passa por não assumir compromissos, que é o contrário do que a independência reclama. Um homem independente não prejudica ninguém. Não é um peso, um empecilho. Não causa impacto porque alguém assim não quer influenciar a vida dos outros.

E como é que se ganha a independência? Sem dívidas. Laxness escreveu este livro nos anos 30. Além de tremendamente bem escrito, é actual. E como é que se vive sem dívidas? Com obstinação. Viver sem dívidas exige muito de nós. É preciso teimosia, viver obsessivamente um fim. Não pactuar com o provável. Esperar sempre o pior. Com resiliência e em silêncio. “(…) agora era proprietário de terra escriturada no notário (…), era rei no seu reino, e os pássaros eram os seus convidados”(pág. 46). A independência é algo tão nosso que apenas nós a valorizamos.

E se este senhor for o próximo presidente da França?

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Em Novembro escrevi este artigo para o Jornal Económico sobre Emmanuel Macron. Agora, que Fillon se encontra debaixo de um escândalo e Hamon radicaliza o PS, perceber quem é Macron torna-se obrigatório para compreender a França. Porque é da França, juntamente com a Alemanha, que virá o garante da continuação da União Europeia.

Benoît Hamon e o fim da social-democracia

Benoît Hamon, vencedor das primárias do PS às presidenciais francesas é uma novidade importante a reter. Até agora, e este fenómeno é muito visível em Portugal, os socialistas fazem depender as políticas sociais do crescimento económico e este da produção e do consumo. Ironia das ironias, o socialismo é hoje o grande defensor do consumismo desenfreado em cima do qual se constroem tantos castelos de areia. É aqui que Hamon inova num partido que se quer social-democrata: com ele os socialistas querem apoio social, o rendimento universal, sem crescimento económico. A economia é secundária. O que interessa é distribuir e que essa distribuição passe pelos corredores do poder. O que se perde hoje recupera-se amanhã em direitos e políticas publicas que fortalecem o Estado. Hamon é uma novidade para a social-democracia, mas ao inovar desta forma a social-democracia tem os dias contados.

Está a Europa a caminho do fim?

O meu artigo hoje no ‘i’.

Está a Europa a caminho do fim?

A 25 de Maio de 2016 tive oportunidade de alertar, no então “Diário Económico”, para o calendário eleitoral dos meses seguintes. Era o Brexit em Junho, Trump em Novembro e as presidenciais francesas, em Abril/Maio deste ano. E na altura referi que tanto a vitória do Brexit como a de Trump poderiam extremar a política francesa, favorecendo a Frente Nacional.

Marine Le Pen sabe disso há muito tempo e desde cedo se colou politicamente a Trump. Foram os elogios ao candidato republicano durante as primárias e até uma breve passagem pela Trump Tower neste mês de Janeiro.

Se não devemos cair no exagero de Nicolau Santos que, no “Expresso”, declarou caminharmos para a terceira guerra mundial, também não podemos estar desprevenidos. Muitos dizem que Trump é uma incógnita e que, com o tempo, vai mudar. Que ia mudar durante as primárias, para as vencer, depois das primárias se quisesse bater Hillary, e na tomada de posse porque assumiria pose de Estado. Até hoje.

É difícil alguém ser tão claro quanto Trump. Nada é uma incógnita, apesar de muitos não quererem aceitar que seja verdade. O proteccionismo económico, o nacionalismo (que não é patriotismo), a demagogia, o que boa parte da esquerda, sem se aperceber, tanto exigiu e confundiu com decência, estão de volta. A vitória de Trump pode ter repercussões na Europa, a começar pela Holanda em Março. Uma Europa que só não se desintegrará se Fillon ou Macron ganharem em França e Merkel vencer na Alemanha, nas eleições a terem lugar no fim do Verão.

Factos alternativos

Quando uma conselheira de Donald Trump diz que uma mentira não é mentira mas um facto alternativo, pergunto-me se nos EUA têm andado a aprender alguma coisa com o nosso governo. Uma suspeita que já tinha em Setembro quando escrevi este artigo no ‘i’ sobre a nova mentira. Uma palavra feia, para a qual os profissionais da coisa rapidamente arranjaram uma expressão mais adequada.

Republicano, socialista e laico?

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Benoît Hamon, o vencedor da primeira volta das primárias do PS francês não é apenas um proteccionista à semelhança de Donald Trump. Representa também, no que diz respeito aos direitos que reconhece aos muçulmanos em França, o fim da laicidade republicana do socialismo francês.

Um país sem memória não se governa

Lembram-se da inflação? Não? É porque a vida tem sido boa com o euro. O meu artigo hoje no Jornal Económico.

Um país sem memória não se governa

Na minha infância era a inflação, 20,9%, em 1978. Com a AD, em 1980, 16,1%. E, em 1984, a meio da intervenção do FMI, em pleno Bloco Central, quando Soares era primeiro-ministro, foi de 28,5%. Apenas em 1987 desceu abaixo dos 10%. Foi um feito. Ainda me lembro das primeiras páginas dos jornais: a inflação estava abaixo dos dois dígitos. O país tinha futuro. Já não era sem tempo.

E o tempo passou e o país esqueceu-se. Já não se sabe o que é o salário não chegar ao fim do mês porque os preços aumentaram. Como é que o que se recebe em Dezembro não chega para as mesmas compras feitas em Janeiro? As empresas desconhecem como se gerem stocks, como se vende a crédito, quando há inflação. Imagine o leitor vender um produto pago 90 dias depois. Quanto dinheiro perdeu? Pois, não foi fácil. É muito difícil.

E tem sido fácil, tem sido possível às famílias anteverem os gastos do ano, às empresas planearem como serão os próximos meses, anteciparem investimentos, compras, vendas, salários, gastos, ganhos, porque sabem quanto vale o dinheiro hoje, daqui a duas semanas, dois meses e até mesmo dois anos. Este paraíso económico devemo-lo ao euro.

Infelizmente não aproveitámos todas as potencialidades. É que durante a minha infância ouvi vezes sem conta que o problema do país eram os salários baixos. E como é que se resolvia o problema dos salários baixos? Com uma moeda forte. É claro que tivemos azar: a moeda forte caiu-nos do céu. Conseguiu-se sem produtividade e sem capital. Que se obtém com poupança, sem défices, e com bom investimento. Como não tínhamos nada disso, como não fizemos nada por isso, a moeda forte passou por nós sem os proveitos que podia gerar. Tal como nada se fez para se aproveitar o euro e subir os salários, nada se fez nos últimos meses para tirar proveito das ajudas do BCE, do baixo preço do petróleo e das matérias-primas. Em vez de reformas que preparem o país para quando as condições mudarem, o Governo distribui benesses entre aqueles que o apoiam, sequestrando o Estado a esses interesses.

Imagino o leitor a sorrir neste momento: a inflação é um perigo? Onde? Mas talvez saiba que Trump pretende gastar em infra-estruturas e implementar políticas proteccionistas; que o dólar se está a valorizar contra o euro e o que tudo isto junto traduz.  Em 2017 vai-se travar uma dura batalha entre dois campos: os que dão valor ao dinheiro e os que o querem desvalorizar. E este último objectivo consegue-se com inflação.

Até agora a Alemanha é quem mais se opõe à política monetária do BCE. Para os alemães, a subida de preços é inaceitável. Tal como deveria ser para nós. Infelizmente, este Governo, e a maioria que o sustenta, não se importa. Até o prefere. Porque com inflação é muito mais fácil iludir as pessoas. Às vezes olhamos para os problemas e não nos apercebemos que esquecemos como era. O quanto custou e o que jurámos nunca querer repetir.

Sobre os jornais

O meu artigo hoje no ‘i’.

Sobre os jornais

Perdoem-me os jornalistas, mas vou falar de jornalismo. Da minha perspectiva, enquanto leitor de jornais e revistas, sobre a transformação do modo como lemos notícias e somos informados, ou desinformados.

O meu avô lia o “Jornal do Fundão” para se manter a par do que acontecia na região de onde vinha. Todos os dias comprava um vespertino que lia com cuidado. E todos os dias aguardava pelo noticiário das oito e via o que acontecia no mundo. Para ser informado, ele passava pela papelaria e comprava o jornal quando regressava a casa ao fim do dia. Tinha de se sentar, de o abrir e de o ler. Tinha de ter iniciativa.

A internet e os tablets mudaram isso. Com acesso directo à notícia a toda a hora, a maioria fica-se pelos títulos dos artigos, cuja leitura adia para mais tarde, para um momento em que outros títulos lhe tiram o tempo que tinha para ler o que o tempo já deixou para trás. Pior que isso, a notícia vem ter connosco, sem esforço. Esta passividade matou o interesse.

E sem interesse não vejo grande futuro nos jornais diários em formato de papel. A época do meu avô já não existe. Uma publicação precisa de ter conteúdos para nos fazer sair da redoma em que vivemos e sermos ativos. E para termos algo que tenhamos tempo de ler, a imprensa escrita talvez deva ser menos generalista e menos periódica. Noticiar não é ir atrás da notícia. Deixem os títulos com o telemóvel e examinem o que se passa. Precisamos disso. Porque se pensar é perigoso, não pensar é muito pior.

Eu, André, me confesso

Os meus pais escolheram o meu nome porque, além de gostarem, não havia muitos. E durante anos fui o único André: na escola, na universidade e entre os meus amigos. Não havia outro. Ao pé dos Carlos, Nunos, Joões, Paulos, Pedros, eu era o André. Sabia bem.

Só poucos anos depois de iniciar a minha vida profissional comecei a conhecer outros Andrés. Primeiro, um, e achei piada. Mas depois outro, e estranhei; e outro e outro, e aos poucos fiquei rodeado deles. Como eram todos mais novos, dei–me conta que, anos depois de eu ter nascido, o nome se tornara popular. Atrás de mim havia uma catadupa de Andrés. Não eram milhares, mas dezenas de milhares. A singularidade do nome desapareceu.

Quando nasceu o meu filho, escolhemos um nome do nosso agrado e que, ao mesmo tempo, não fosse muito comum. Todos os anos volto à lista dos nomes mais escolhidos no ano anterior e temo o pior. Ainda não foi desta e o miúdo vai-se safando. Caso o nome se banalize, a probabilidade de pertencer a outra geração ajudá-lo-á.

As modas massificam, matam. E não há muito a fazer a não ser aceitar. O problema é que o nome, pelo menos esse é o meu entendimento, é o mais pessoal que podemos ter e, ainda por cima, dado pelos nossos pais. Não há presente maior. E o que me impressiona, não posso deixar de dizê-lo, é a forma como se escolhe algo tão importante sem que se o eleve acima da moda. Nestes dias admiro mais quem tenha a coragem de escolher Vanessa ou Guiomar porque gosta do que os que vão para Martim ou Matilde porque sim.

Mário Soares

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Soares em mil caracteres. O meu texto no Jornal Económico sobre Mário Soares.

Mário Soares, um génio político incongruente

Somos livres porque Mário Soares esteve do nosso lado contra os comunistas. Não tivesse tido o discernimento e a coragem de o fazer, e a vida da geração dos meus avós, dos meus pais, e a minha, teria sido desgraçada. Por isso estou-lhe profundamente grato.

Mas Mário Soares foi muito mais que esse momento. Era o ‘bochechas’ que perdeu para Sá Carneiro e para quem ia perdendo o centro político. Não fosse Camarate como teria sido a carreira política do então líder do PS?

Soares foi o primeiro-ministro da austeridade que, 30 anos depois, criticou em nome de interesses que, quando necessário, combateu. Ganhou a presidência com coragem e 8% nas sondagens. Mas teve azar com as duas maiorias absolutas de Cavaco.

Implacável, não aceitou que o país não precisasse dele. Entrincheirado numa esquerda à qual não pertencia, defendeu um mundo diferente daquele que ajudou a fazer. O último Soares combatia ainda, mas contra a inevitabilidade do fim, luta para a qual qualquer coisa servia.

A minha mãe não faz anos todos os dias

Como nem todos os dias são festa, o meu desejo político para 2017 limita-se a que, aos com discernimento, lhes seja permitido não contrair mais dívida dos outros; consigam ser responsáveis pelos seus actos, sem que isso seja considerado egoísmo, mas mera justiça. Já seria muito. Para muitos até demais. O meu artigo no Jornal Económico.

A minha mãe não faz anos todos os dias

A Europa enfrenta três ameaças em 2017: racismo, proteccionismo e populismo. Três que têm origem numa só: dívida. Ou encarado de outra forma, falta de capital, de dinheiro para atender ao comércio que não pára de crescer num mundo globalizado. É o mercantilismo de outrora, quando se desvalorizava moeda para incentivar a produção nacional, que regressa agora entre os que querem uma Europa diferente.

Enquanto a acumulação de dívida não criou problemas de maior, o projecto europeu foi-se alargando e aprofundando sem entraves. Tirando um ou outro aviso, como os de Margaret Thatcher, que no célebre discurso de Bruges deu a conhecer a sua visão da Europa que precavia os povos europeus dos problemas que vivemos agora, ninguém se preocupou muito com o futuro. A Europa andava e isso era o que interessava.

A moeda única europeia, que tantos entenderam como fulcral para a Europa e que hoje consideram um entrave às suas políticas, é o principal alvo das três ameaças acima referidas. Com o euro, moeda que pressupõe políticas orçamentais rigorosas, o capital, o dinheiro, só surge com poupança, investimento e aquele risco em que apenas os prudentes sabem incorrer. Prudentes, porque comedidos; comedidos, porque é o seu dinheiro que está em causa.

É esta ligação entre o dinheiro e quem investe que se perde quando os Estados entram na equação. É desta forma que surge a dívida que não se paga, se acumula e nos afoga anos mais tarde. E qual é a solução que nos é apresentada? Não a difícil que é pagar, mas a fácil que é ignorar. Quem ignora segue em frente, embora com um preço: é preciso justificar o não querer saber. Como? Com a imigração, a globalização e o ataque às instituições. A livre circulação de pessoas, de bens, de capitais, e as organizações que as permitem, combatem-se com racismo, proteccionismo e populismo. As ameaças que atacam a Europa e que nasceram da dívida que, há muitos anos, a mina.

Por que motivo é que a visão europeia de Thatcher foi ignorada? Porque era demasiado pragmática. Porque antevia problemas que poucos quiseram ver quando tudo corria bem. E porque o pragmatismo na política obriga a explicar devidamente as escolhas que, quando feitas com o coração se justificam por si mesmas. O tal populismo. Foi assim em 1988, em 1998, 2008, 2016 e será em 2017. Para quê doutra forma se há um caminho mais fácil?

É assim em Portugal e na Europa. Em todo o lado. Não tenhamos, pois, ilusões: 2017 não será o ano em que deixamos o passado lá atrás. A resposta é chutar para a frente. Que não funciona é tão certo como a minha mãe não fazer anos todos os dias. Mas a maioria quer e é o que vamos ter. Assim, o meu desejo limita-se a que, aos com discernimento, lhes seja permitido não contrair mais dívida dos outros; consigam ser responsáveis pelos seus actos, sem que isso seja considerado egoísmo, mas mera justiça. Já seria muito. Para muitos até demais.

Os mergulhos de Marcelo

O meu artigo hoje no ‘i’ é sobre os mergulhos de Marcelo.

É muito interessante perceber que, apesar de representar tudo o que o país, ao que por aí se diz, não tolera, Marcelo é popular por garantir que nada muda.

 

Os mergulhos de Marcelo

Porque é que o mergulho de Marcelo na praia de Cascais me incomoda? Não é só o show-off de alguém que precisa de se exibir que me chateia. Isso terá naturalmente uma explicação qualquer, para a qual não sou a pessoa mais indicada. O que me incomoda é a ostentação de Marcelo não ser escrutinada apesar dos intentos por trás dos mergulhos.

Outro seria trucidado. Mas Marcelo, apesar de afilhado de quem é, amigo da casa de Ricardo Salgado, mergulha no mar em plena baía de Cascais e o país sorri porque o Presidente é a garantia de que o país fica como está. A cumplicidade tem destas coisas. O que de outra maneira seria inadmissível é aceite como compensação de que nada muda.

E a forma complacente como fala com as pessoas, não como um Presidente eleito pelo povo, mas pelo destino. Porque Marcelo acredita nisso: que estava destinado a ser chefe de Estado. Diz–se que é comportamento de rei, algo que estranho num país alegadamente republicano e que elegeu um Presidente.

Um país que não se importa que Marcelo queira ser popular com afectos e beijinhos para preencher o vazio de poder que surgirá caso a geringonça falhe. A mensagem de ano novo apelando a mais crescimento é um aviso tão fácil e valioso quanto os afectos que distribui. Ele sabe que não há crescimento sem contenção orçamental e que a conseguida foi à custa de artimanhas contabilísticas e do BCE. Para Marcelo está tudo bem, ao mesmo tempo que, prevenindo, se desresponsabiliza. Este Presidente gosta de mergulhar, mas o país não tinha de ir com ele.

Inflação regressa à Alemanha?

Até agora o problema era a deflação, que não ajudava ao investimento. Qualquer dia, quando nos recordarmos que inflação é subida de preços (o PCP lembrou-se disso ontem), a razão para a crise será outra que não o dirigismo político da economia.

Trump: um presidente dos trabalhadores

E se Trump for o presidente de todos os trabalhadores? Como é que fica a esquerda? O meu artigo no Jornal Económico.

Trump: um presidente dos trabalhadores

Quem diria? Donald Trump, o homem de negócios, o especulador que faliu empresas tirando daí proveitos próprios; o arrogante e execrável Trump vai ser um presidente das massas trabalhadoras. Quem o refere é Rich Lowry, editor da National Review, num artigo publicado este mês na Politico Magazine, com o sugestivo título de “The Party of Workers”.

Atenção que falar de trabalhadores não é falar de pobres. As políticas de Trump não visam reduzir a pobreza, mas subir os salários. Aproveitando um mal-estar cujas razões poucos conseguem expor, Trump simplificou o problema explicando que os salários não têm aumentado devido à imigração. O seu raciocínio é ajudado porque a população de imigrantes nos EUA aumentou, desde o início deste século até 2014, de 31 para 42 milhões.

A solução de Trump para este problema é reduzir a entrada de estrangeiros. Com menos pessoas a trabalhar os salários sobem. E se, com a subida dos ordenados, as empresas pensarem em se instalar nos países onde a mão-de-obra seja mais barata, Trump pune-as com impostos e tarifas aduaneiras sobre os seus produtos. É assim que Trump se transforma, de um homem do capital num defensor dos trabalhadores. Juntemos a esta política as obras públicas de renovação das infra-estruturas dos EUA, que a sua administração conta para criar empregos, e está visto como vão ser, caso Trump cumpra o que diz, os próximos anos na América.

Muitos comentadores norte-americanos estão excitadíssimos com a perspectiva de um novo Roosevelt. Mas há problemas. Um país não se desenvolve, não enriquece, só com menos impostos e mais despesa pública. É preciso progresso tecnológico e inovação. A redução dos impostos e o aumento dos gastos públicos origina dívida que obriga a racionar o futuro. Aquele momento em que Trump já não será presidente e, por isso, por ora não interessa nada.

O proteccionismo de Trump até pode criar um aumento temporário dos salários e do emprego. Mas um país fechado não inova e, mais cedo ou mais tarde, é ultrapassado por outros que produzem melhor e mais barato. A que se junta a inflação, um risco natural para qualquer país que feche as portas à globalização. A inflação: essa forma de austeridade que tantos desejam e que afecta especialmente os que ganham menos e que têm mais dificuldade para fazer frente ao aumento dos preços. Para a evitar, a Reserva Federal já anunciou o aumento das taxas de juros e promete mais em 2017.

Taxas de juros mais altas podem ser um problema para países como Portugal. Mas como é habitual, será algo que o Governo vai empurrar com a barriga. Entretanto, vai ser muito difícil à esquerda dizer mal de Trump depois de tantas críticas lançadas à austeridade de Angela Merkel. Até porque, apesar de ainda nem sequer ter tomado posse, os anúncios de Trump já estão a estimular a economia e as bolsas fervilham na Europa. Como o socialismo, tão avesso à especulação, tanto queria.

O ano em que ninguém quis saber

O meu artigo no ‘i’ sobre o ano português que termina.

O ano em que ninguém quis saber

O ano está a terminar e é hora dos balanços. Por todo o lado leio que o país está excelente. O Público, num especial sobre 2016, descreve-o como o ano dos êxitos improváveis e pergunta se a auto-estima voltou. Até a novela do aeroporto regressou à baila com o Expresso a noticiar que a construção de um  novo pode avançar já em 2019. Isto depois de sabermos que já há planos para a expansão do Metro de Lisboa.

Algo de muito estranho se passou este ano e que poderá explicar como é que saímos da depressão profunda da troika e chegámos à euforia contagiante da geringonça. Mas o quê?  É certo que o BCE compra dívida pública portuguesa, mantendo o país a soro. Mas e depois? Ninguém se pergunta como vai ser quando essa ajuda terminar? Ninguém se preocupa?

Lembram-se daquelas reformas que durante anos ouvimos dizer que eram indispensáveis? Agora já não não precisas para nada. Afinal o país até está melhor sem estas. Até porque essas reformas implicavam mudanças de hábitos e os portugueses estão habituados a não mudar as suas práticas. Como governante hábil que é António Costa percebeu isso e deu-nos isso.

Daqui a muito tempo os portugueses do futuro estudarão estes anos para conhecer Portugal. Para se conhecerem a eles próprios. Um país que fecha os olhos porque dessa forma não se passa nada. Não querer saber é um remédio. E quando o Carmo e a Trindade caem pergunta-se porque é que ninguém avisou. Não é verdade. Os avisos estão aí. O problema é que ninguém quer mesmo saber.

Bom Natal

Foi um ano difícil. Cheio de incertezas e pejado de desafios. Mas é nestas alturas que devemos olhar para trás. Para ver como foi, como as dúvidas que temos hoje outros tiveram também.

Esta mensagem de Natal da Rainha Isabel II, em 1957, a primeira ser televisiva, ilustra bem isso mesmo. Vejam-na. Nela fala-se do mundo que muda muito depressa, nos deixa desamparados e como temos de ter coragem e atenção aos valores que guiaram os nossos avós para enfrentar o ano que vem. Na época, 1958. Agora, 2017.

P.S.: a Rainha também fala da visita a Portugal, mas não confirma ter visto Marcelo.

O preço da sorte

O meu artigo de hoje no Jornal Económico.

O preço da sorte

Conta-nos Heródoto que Polícrates, o tirano de Samos, recebeu uma carta do faraó Amásis, na qual este expressava a sua preocupação pela boa sorte daquele. Nessa carta, Amásis dizia nunca ter conhecido um homem com tanta sorte que não tivesse terminado na miséria. Para afastar o fatal preço da sorte, Amásis sugeriu que Polícrates deitasse fora o seu objecto mais valioso e de que mais gostasse. Polícrates assim fez e lançou ao mar um anel com esmeraldas que usava com muita frequência. O primeiro azar foi que este regressou a terra dentro do estômago de um peixe. Sabendo disso, Amásis desfez a aliança que tinha com Polícrates que, pouco depois, foi empalado e mandado crucificar por Orestes de Sardes.

Ninguém deseja o mesmo fim a António Costa, nem sequer, excepção feita aos que crêem nas teorias da conspiração, alguém ainda acredita no fatalismo da sorte e do azar. O certo é que Costa tem tido sorte. Melhor: aproveita muito bem a que vai tendo. Tal como Polícrates, Costa meteu os aliados no bolso e vangloria-se dos resultados que apresenta. Proventos que, como os de Polícrates, têm pouca base de sustentação. No entanto, enquanto a sorte durar, Costa sorri.

A sorte de Costa é que o BCE tem comprado dívida pública portuguesa baixando os respectivos juros. Com a política monetária do BCE, Portugal continua a viver sob assistência financeira, mas sem contrapartidas. A sorte de Costa é que a DBRS mantém Portugal seguro por um fio, apenas porque o custo do colapso de um país do euro é superior ao dano de uma notação errada. A sorte de Costa é que a Alemanha tem eleições em Setembro e Merkel prefere que Costa sorria e Marcelo seja afectuoso, a dar um presente de mão beijada à extrema-direita. A sorte de Costa é que as eleições francesas são na Primavera. A sorte de Costa é que o mundo está em stand-by até ao Verão.

A moeda da sorte de Costa tem um outro lado: a política monetária do BCE dificulta a poupança de que Portugal carece; as eleições francesas e alemãs renovarão as exigências europeias (se não puserem um ponto final na política de assistência em que vivemos), e a banca portuguesa vai ter de deixar de financiar empresas amigas do poder, a começar pela CGD. Sim, pela Caixa Geral de Depósitos, sob pena de derrocada.

A sorte de Costa tem uma data limite. Mesmo em cima das autárquicas, que o PS espera vencer. A sorte de Costa é o nosso azar. Azar porque, durante este compasso de espera, o país não aproveita para reduzir a dívida pública (de acordo com o Banco de Portugal, atingiu 133,1% do PIB); não desce a despesa, mas compensa o défice com mais impostos e taxas que matam a economia. Não poupa, não investe, nem canaliza dinheiro para quem pode fazer a economia crescer. Azar dos azares, nem nos poderemos desforrar: quando a sorte de Costa acabar, ele fica ligado à folga usufruída por uns tempos e o povo paga a conta. Polícrates não teve tanta sorte.

Alojamento local e o direito de propriedade (2)

Podem as assembleias de condomínio impedir o alojamento local? A resposta afirmativa foi dada pelo Tribunal da Relação de Lisboa, dando razão aos interesses dos demais proprietários de um prédio que fica devassado com as constantes entradas e saídas de pessoas que mudam todas as semanas.

Ainda em Novembro tive oportunidade de escrever sobre este assunto no jornal i. Na altura referi que “os condomínios podem impedir o alojamento local”.

Esta decisão da Relação de Lisboa é muito importante, não só nesta questão particular do alojamento local e dos direitos dos demais proprietários, mas porque exemplifica bem como, numa sociedade liberal, num Estado de Direito, os direitos, mais que protegidos de forma arbitrária por um poder central através de uma decisão cega que não olha aos caso concreto, devem ser protegidos pela boa aplicação da lei que passa, obrigatoriamente, pela discussão jurídica. Por isso, o Direito, enquanto ciência, é tão importante. Por isso, os advogados e juízes são importantes e, por essa mesma razão, o bom funcionamento dos tribunais é indispensável para que as nossas liberdades sejam efectivamente defendidas.

As elites gostam dum país sossegado

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36 anos depois da morte de Francisco Sá Carneiro, Portugal encontra-se na mesma situação que o então líder do PSD descreveu quando deu título ao seu livro escrito em 1978: num impasse. No meio de uma grave crise orçamental e bancária, sem crescimento económico digno desse nome, a maioria prefere aceitar que nada de grave se passa. Com o dinheiro do orçamento compra-se o silêncio dos que, interesseiramente, vivem à sombra do Estado, contra os quais todos protestam mas que, espantosamente, compõem a maioria; através da banca financiam-se empresas públicas e concedem-se empréstimos a privados que não produzem, mas consomem. Entretanto, a imprensa anda sossegada com dados económicos ilusórios que mais não são que fogo de vista; com a ajuda dos comentadores de serviço deleita-se com a habilidade com que Costa, mascarando a verdade, se mantém no poder e, em vez de o denunciar, parece preferir as elites que gostam, sempre gostaram, de um país assim: sossegado, tranquilo, imóvel.

Há 10 anos publiquei n’O Insurgente este texto sobre Sá Carneiro. Lê-lo faz impressão: Portugal está na mesma.