Um país sem memória não se governa

Lembram-se da inflação? Não? É porque a vida tem sido boa com o euro. O meu artigo hoje no Jornal Económico.

Um país sem memória não se governa

Na minha infância era a inflação, 20,9%, em 1978. Com a AD, em 1980, 16,1%. E, em 1984, a meio da intervenção do FMI, em pleno Bloco Central, quando Soares era primeiro-ministro, foi de 28,5%. Apenas em 1987 desceu abaixo dos 10%. Foi um feito. Ainda me lembro das primeiras páginas dos jornais: a inflação estava abaixo dos dois dígitos. O país tinha futuro. Já não era sem tempo.

E o tempo passou e o país esqueceu-se. Já não se sabe o que é o salário não chegar ao fim do mês porque os preços aumentaram. Como é que o que se recebe em Dezembro não chega para as mesmas compras feitas em Janeiro? As empresas desconhecem como se gerem stocks, como se vende a crédito, quando há inflação. Imagine o leitor vender um produto pago 90 dias depois. Quanto dinheiro perdeu? Pois, não foi fácil. É muito difícil.

E tem sido fácil, tem sido possível às famílias anteverem os gastos do ano, às empresas planearem como serão os próximos meses, anteciparem investimentos, compras, vendas, salários, gastos, ganhos, porque sabem quanto vale o dinheiro hoje, daqui a duas semanas, dois meses e até mesmo dois anos. Este paraíso económico devemo-lo ao euro.

Infelizmente não aproveitámos todas as potencialidades. É que durante a minha infância ouvi vezes sem conta que o problema do país eram os salários baixos. E como é que se resolvia o problema dos salários baixos? Com uma moeda forte. É claro que tivemos azar: a moeda forte caiu-nos do céu. Conseguiu-se sem produtividade e sem capital. Que se obtém com poupança, sem défices, e com bom investimento. Como não tínhamos nada disso, como não fizemos nada por isso, a moeda forte passou por nós sem os proveitos que podia gerar. Tal como nada se fez para se aproveitar o euro e subir os salários, nada se fez nos últimos meses para tirar proveito das ajudas do BCE, do baixo preço do petróleo e das matérias-primas. Em vez de reformas que preparem o país para quando as condições mudarem, o Governo distribui benesses entre aqueles que o apoiam, sequestrando o Estado a esses interesses.

Imagino o leitor a sorrir neste momento: a inflação é um perigo? Onde? Mas talvez saiba que Trump pretende gastar em infra-estruturas e implementar políticas proteccionistas; que o dólar se está a valorizar contra o euro e o que tudo isto junto traduz.  Em 2017 vai-se travar uma dura batalha entre dois campos: os que dão valor ao dinheiro e os que o querem desvalorizar. E este último objectivo consegue-se com inflação.

Até agora a Alemanha é quem mais se opõe à política monetária do BCE. Para os alemães, a subida de preços é inaceitável. Tal como deveria ser para nós. Infelizmente, este Governo, e a maioria que o sustenta, não se importa. Até o prefere. Porque com inflação é muito mais fácil iludir as pessoas. Às vezes olhamos para os problemas e não nos apercebemos que esquecemos como era. O quanto custou e o que jurámos nunca querer repetir.

Sobre os jornais

O meu artigo hoje no ‘i’.

Sobre os jornais

Perdoem-me os jornalistas, mas vou falar de jornalismo. Da minha perspectiva, enquanto leitor de jornais e revistas, sobre a transformação do modo como lemos notícias e somos informados, ou desinformados.

O meu avô lia o “Jornal do Fundão” para se manter a par do que acontecia na região de onde vinha. Todos os dias comprava um vespertino que lia com cuidado. E todos os dias aguardava pelo noticiário das oito e via o que acontecia no mundo. Para ser informado, ele passava pela papelaria e comprava o jornal quando regressava a casa ao fim do dia. Tinha de se sentar, de o abrir e de o ler. Tinha de ter iniciativa.

A internet e os tablets mudaram isso. Com acesso directo à notícia a toda a hora, a maioria fica-se pelos títulos dos artigos, cuja leitura adia para mais tarde, para um momento em que outros títulos lhe tiram o tempo que tinha para ler o que o tempo já deixou para trás. Pior que isso, a notícia vem ter connosco, sem esforço. Esta passividade matou o interesse.

E sem interesse não vejo grande futuro nos jornais diários em formato de papel. A época do meu avô já não existe. Uma publicação precisa de ter conteúdos para nos fazer sair da redoma em que vivemos e sermos ativos. E para termos algo que tenhamos tempo de ler, a imprensa escrita talvez deva ser menos generalista e menos periódica. Noticiar não é ir atrás da notícia. Deixem os títulos com o telemóvel e examinem o que se passa. Precisamos disso. Porque se pensar é perigoso, não pensar é muito pior.

Eu, André, me confesso

Os meus pais escolheram o meu nome porque, além de gostarem, não havia muitos. E durante anos fui o único André: na escola, na universidade e entre os meus amigos. Não havia outro. Ao pé dos Carlos, Nunos, Joões, Paulos, Pedros, eu era o André. Sabia bem.

Só poucos anos depois de iniciar a minha vida profissional comecei a conhecer outros Andrés. Primeiro, um, e achei piada. Mas depois outro, e estranhei; e outro e outro, e aos poucos fiquei rodeado deles. Como eram todos mais novos, dei–me conta que, anos depois de eu ter nascido, o nome se tornara popular. Atrás de mim havia uma catadupa de Andrés. Não eram milhares, mas dezenas de milhares. A singularidade do nome desapareceu.

Quando nasceu o meu filho, escolhemos um nome do nosso agrado e que, ao mesmo tempo, não fosse muito comum. Todos os anos volto à lista dos nomes mais escolhidos no ano anterior e temo o pior. Ainda não foi desta e o miúdo vai-se safando. Caso o nome se banalize, a probabilidade de pertencer a outra geração ajudá-lo-á.

As modas massificam, matam. E não há muito a fazer a não ser aceitar. O problema é que o nome, pelo menos esse é o meu entendimento, é o mais pessoal que podemos ter e, ainda por cima, dado pelos nossos pais. Não há presente maior. E o que me impressiona, não posso deixar de dizê-lo, é a forma como se escolhe algo tão importante sem que se o eleve acima da moda. Nestes dias admiro mais quem tenha a coragem de escolher Vanessa ou Guiomar porque gosta do que os que vão para Martim ou Matilde porque sim.

Mário Soares

soares4_07_01_2017-925x578

Soares em mil caracteres. O meu texto no Jornal Económico sobre Mário Soares.

Mário Soares, um génio político incongruente

Somos livres porque Mário Soares esteve do nosso lado contra os comunistas. Não tivesse tido o discernimento e a coragem de o fazer, e a vida da geração dos meus avós, dos meus pais, e a minha, teria sido desgraçada. Por isso estou-lhe profundamente grato.

Mas Mário Soares foi muito mais que esse momento. Era o ‘bochechas’ que perdeu para Sá Carneiro e para quem ia perdendo o centro político. Não fosse Camarate como teria sido a carreira política do então líder do PS?

Soares foi o primeiro-ministro da austeridade que, 30 anos depois, criticou em nome de interesses que, quando necessário, combateu. Ganhou a presidência com coragem e 8% nas sondagens. Mas teve azar com as duas maiorias absolutas de Cavaco.

Implacável, não aceitou que o país não precisasse dele. Entrincheirado numa esquerda à qual não pertencia, defendeu um mundo diferente daquele que ajudou a fazer. O último Soares combatia ainda, mas contra a inevitabilidade do fim, luta para a qual qualquer coisa servia.

A minha mãe não faz anos todos os dias

Como nem todos os dias são festa, o meu desejo político para 2017 limita-se a que, aos com discernimento, lhes seja permitido não contrair mais dívida dos outros; consigam ser responsáveis pelos seus actos, sem que isso seja considerado egoísmo, mas mera justiça. Já seria muito. Para muitos até demais. O meu artigo no Jornal Económico.

A minha mãe não faz anos todos os dias

A Europa enfrenta três ameaças em 2017: racismo, proteccionismo e populismo. Três que têm origem numa só: dívida. Ou encarado de outra forma, falta de capital, de dinheiro para atender ao comércio que não pára de crescer num mundo globalizado. É o mercantilismo de outrora, quando se desvalorizava moeda para incentivar a produção nacional, que regressa agora entre os que querem uma Europa diferente.

Enquanto a acumulação de dívida não criou problemas de maior, o projecto europeu foi-se alargando e aprofundando sem entraves. Tirando um ou outro aviso, como os de Margaret Thatcher, que no célebre discurso de Bruges deu a conhecer a sua visão da Europa que precavia os povos europeus dos problemas que vivemos agora, ninguém se preocupou muito com o futuro. A Europa andava e isso era o que interessava.

A moeda única europeia, que tantos entenderam como fulcral para a Europa e que hoje consideram um entrave às suas políticas, é o principal alvo das três ameaças acima referidas. Com o euro, moeda que pressupõe políticas orçamentais rigorosas, o capital, o dinheiro, só surge com poupança, investimento e aquele risco em que apenas os prudentes sabem incorrer. Prudentes, porque comedidos; comedidos, porque é o seu dinheiro que está em causa.

É esta ligação entre o dinheiro e quem investe que se perde quando os Estados entram na equação. É desta forma que surge a dívida que não se paga, se acumula e nos afoga anos mais tarde. E qual é a solução que nos é apresentada? Não a difícil que é pagar, mas a fácil que é ignorar. Quem ignora segue em frente, embora com um preço: é preciso justificar o não querer saber. Como? Com a imigração, a globalização e o ataque às instituições. A livre circulação de pessoas, de bens, de capitais, e as organizações que as permitem, combatem-se com racismo, proteccionismo e populismo. As ameaças que atacam a Europa e que nasceram da dívida que, há muitos anos, a mina.

Por que motivo é que a visão europeia de Thatcher foi ignorada? Porque era demasiado pragmática. Porque antevia problemas que poucos quiseram ver quando tudo corria bem. E porque o pragmatismo na política obriga a explicar devidamente as escolhas que, quando feitas com o coração se justificam por si mesmas. O tal populismo. Foi assim em 1988, em 1998, 2008, 2016 e será em 2017. Para quê doutra forma se há um caminho mais fácil?

É assim em Portugal e na Europa. Em todo o lado. Não tenhamos, pois, ilusões: 2017 não será o ano em que deixamos o passado lá atrás. A resposta é chutar para a frente. Que não funciona é tão certo como a minha mãe não fazer anos todos os dias. Mas a maioria quer e é o que vamos ter. Assim, o meu desejo limita-se a que, aos com discernimento, lhes seja permitido não contrair mais dívida dos outros; consigam ser responsáveis pelos seus actos, sem que isso seja considerado egoísmo, mas mera justiça. Já seria muito. Para muitos até demais.

Os mergulhos de Marcelo

O meu artigo hoje no ‘i’ é sobre os mergulhos de Marcelo.

É muito interessante perceber que, apesar de representar tudo o que o país, ao que por aí se diz, não tolera, Marcelo é popular por garantir que nada muda.

 

Os mergulhos de Marcelo

Porque é que o mergulho de Marcelo na praia de Cascais me incomoda? Não é só o show-off de alguém que precisa de se exibir que me chateia. Isso terá naturalmente uma explicação qualquer, para a qual não sou a pessoa mais indicada. O que me incomoda é a ostentação de Marcelo não ser escrutinada apesar dos intentos por trás dos mergulhos.

Outro seria trucidado. Mas Marcelo, apesar de afilhado de quem é, amigo da casa de Ricardo Salgado, mergulha no mar em plena baía de Cascais e o país sorri porque o Presidente é a garantia de que o país fica como está. A cumplicidade tem destas coisas. O que de outra maneira seria inadmissível é aceite como compensação de que nada muda.

E a forma complacente como fala com as pessoas, não como um Presidente eleito pelo povo, mas pelo destino. Porque Marcelo acredita nisso: que estava destinado a ser chefe de Estado. Diz–se que é comportamento de rei, algo que estranho num país alegadamente republicano e que elegeu um Presidente.

Um país que não se importa que Marcelo queira ser popular com afectos e beijinhos para preencher o vazio de poder que surgirá caso a geringonça falhe. A mensagem de ano novo apelando a mais crescimento é um aviso tão fácil e valioso quanto os afectos que distribui. Ele sabe que não há crescimento sem contenção orçamental e que a conseguida foi à custa de artimanhas contabilísticas e do BCE. Para Marcelo está tudo bem, ao mesmo tempo que, prevenindo, se desresponsabiliza. Este Presidente gosta de mergulhar, mas o país não tinha de ir com ele.

Inflação regressa à Alemanha?

Até agora o problema era a deflação, que não ajudava ao investimento. Qualquer dia, quando nos recordarmos que inflação é subida de preços (o PCP lembrou-se disso ontem), a razão para a crise será outra que não o dirigismo político da economia.

Trump: um presidente dos trabalhadores

E se Trump for o presidente de todos os trabalhadores? Como é que fica a esquerda? O meu artigo no Jornal Económico.

Trump: um presidente dos trabalhadores

Quem diria? Donald Trump, o homem de negócios, o especulador que faliu empresas tirando daí proveitos próprios; o arrogante e execrável Trump vai ser um presidente das massas trabalhadoras. Quem o refere é Rich Lowry, editor da National Review, num artigo publicado este mês na Politico Magazine, com o sugestivo título de “The Party of Workers”.

Atenção que falar de trabalhadores não é falar de pobres. As políticas de Trump não visam reduzir a pobreza, mas subir os salários. Aproveitando um mal-estar cujas razões poucos conseguem expor, Trump simplificou o problema explicando que os salários não têm aumentado devido à imigração. O seu raciocínio é ajudado porque a população de imigrantes nos EUA aumentou, desde o início deste século até 2014, de 31 para 42 milhões.

A solução de Trump para este problema é reduzir a entrada de estrangeiros. Com menos pessoas a trabalhar os salários sobem. E se, com a subida dos ordenados, as empresas pensarem em se instalar nos países onde a mão-de-obra seja mais barata, Trump pune-as com impostos e tarifas aduaneiras sobre os seus produtos. É assim que Trump se transforma, de um homem do capital num defensor dos trabalhadores. Juntemos a esta política as obras públicas de renovação das infra-estruturas dos EUA, que a sua administração conta para criar empregos, e está visto como vão ser, caso Trump cumpra o que diz, os próximos anos na América.

Muitos comentadores norte-americanos estão excitadíssimos com a perspectiva de um novo Roosevelt. Mas há problemas. Um país não se desenvolve, não enriquece, só com menos impostos e mais despesa pública. É preciso progresso tecnológico e inovação. A redução dos impostos e o aumento dos gastos públicos origina dívida que obriga a racionar o futuro. Aquele momento em que Trump já não será presidente e, por isso, por ora não interessa nada.

O proteccionismo de Trump até pode criar um aumento temporário dos salários e do emprego. Mas um país fechado não inova e, mais cedo ou mais tarde, é ultrapassado por outros que produzem melhor e mais barato. A que se junta a inflação, um risco natural para qualquer país que feche as portas à globalização. A inflação: essa forma de austeridade que tantos desejam e que afecta especialmente os que ganham menos e que têm mais dificuldade para fazer frente ao aumento dos preços. Para a evitar, a Reserva Federal já anunciou o aumento das taxas de juros e promete mais em 2017.

Taxas de juros mais altas podem ser um problema para países como Portugal. Mas como é habitual, será algo que o Governo vai empurrar com a barriga. Entretanto, vai ser muito difícil à esquerda dizer mal de Trump depois de tantas críticas lançadas à austeridade de Angela Merkel. Até porque, apesar de ainda nem sequer ter tomado posse, os anúncios de Trump já estão a estimular a economia e as bolsas fervilham na Europa. Como o socialismo, tão avesso à especulação, tanto queria.

O ano em que ninguém quis saber

O meu artigo no ‘i’ sobre o ano português que termina.

O ano em que ninguém quis saber

O ano está a terminar e é hora dos balanços. Por todo o lado leio que o país está excelente. O Público, num especial sobre 2016, descreve-o como o ano dos êxitos improváveis e pergunta se a auto-estima voltou. Até a novela do aeroporto regressou à baila com o Expresso a noticiar que a construção de um  novo pode avançar já em 2019. Isto depois de sabermos que já há planos para a expansão do Metro de Lisboa.

Algo de muito estranho se passou este ano e que poderá explicar como é que saímos da depressão profunda da troika e chegámos à euforia contagiante da geringonça. Mas o quê?  É certo que o BCE compra dívida pública portuguesa, mantendo o país a soro. Mas e depois? Ninguém se pergunta como vai ser quando essa ajuda terminar? Ninguém se preocupa?

Lembram-se daquelas reformas que durante anos ouvimos dizer que eram indispensáveis? Agora já não não precisas para nada. Afinal o país até está melhor sem estas. Até porque essas reformas implicavam mudanças de hábitos e os portugueses estão habituados a não mudar as suas práticas. Como governante hábil que é António Costa percebeu isso e deu-nos isso.

Daqui a muito tempo os portugueses do futuro estudarão estes anos para conhecer Portugal. Para se conhecerem a eles próprios. Um país que fecha os olhos porque dessa forma não se passa nada. Não querer saber é um remédio. E quando o Carmo e a Trindade caem pergunta-se porque é que ninguém avisou. Não é verdade. Os avisos estão aí. O problema é que ninguém quer mesmo saber.

Bom Natal

Foi um ano difícil. Cheio de incertezas e pejado de desafios. Mas é nestas alturas que devemos olhar para trás. Para ver como foi, como as dúvidas que temos hoje outros tiveram também.

Esta mensagem de Natal da Rainha Isabel II, em 1957, a primeira ser televisiva, ilustra bem isso mesmo. Vejam-na. Nela fala-se do mundo que muda muito depressa, nos deixa desamparados e como temos de ter coragem e atenção aos valores que guiaram os nossos avós para enfrentar o ano que vem. Na época, 1958. Agora, 2017.

P.S.: a Rainha também fala da visita a Portugal, mas não confirma ter visto Marcelo.

O preço da sorte

O meu artigo de hoje no Jornal Económico.

O preço da sorte

Conta-nos Heródoto que Polícrates, o tirano de Samos, recebeu uma carta do faraó Amásis, na qual este expressava a sua preocupação pela boa sorte daquele. Nessa carta, Amásis dizia nunca ter conhecido um homem com tanta sorte que não tivesse terminado na miséria. Para afastar o fatal preço da sorte, Amásis sugeriu que Polícrates deitasse fora o seu objecto mais valioso e de que mais gostasse. Polícrates assim fez e lançou ao mar um anel com esmeraldas que usava com muita frequência. O primeiro azar foi que este regressou a terra dentro do estômago de um peixe. Sabendo disso, Amásis desfez a aliança que tinha com Polícrates que, pouco depois, foi empalado e mandado crucificar por Orestes de Sardes.

Ninguém deseja o mesmo fim a António Costa, nem sequer, excepção feita aos que crêem nas teorias da conspiração, alguém ainda acredita no fatalismo da sorte e do azar. O certo é que Costa tem tido sorte. Melhor: aproveita muito bem a que vai tendo. Tal como Polícrates, Costa meteu os aliados no bolso e vangloria-se dos resultados que apresenta. Proventos que, como os de Polícrates, têm pouca base de sustentação. No entanto, enquanto a sorte durar, Costa sorri.

A sorte de Costa é que o BCE tem comprado dívida pública portuguesa baixando os respectivos juros. Com a política monetária do BCE, Portugal continua a viver sob assistência financeira, mas sem contrapartidas. A sorte de Costa é que a DBRS mantém Portugal seguro por um fio, apenas porque o custo do colapso de um país do euro é superior ao dano de uma notação errada. A sorte de Costa é que a Alemanha tem eleições em Setembro e Merkel prefere que Costa sorria e Marcelo seja afectuoso, a dar um presente de mão beijada à extrema-direita. A sorte de Costa é que as eleições francesas são na Primavera. A sorte de Costa é que o mundo está em stand-by até ao Verão.

A moeda da sorte de Costa tem um outro lado: a política monetária do BCE dificulta a poupança de que Portugal carece; as eleições francesas e alemãs renovarão as exigências europeias (se não puserem um ponto final na política de assistência em que vivemos), e a banca portuguesa vai ter de deixar de financiar empresas amigas do poder, a começar pela CGD. Sim, pela Caixa Geral de Depósitos, sob pena de derrocada.

A sorte de Costa tem uma data limite. Mesmo em cima das autárquicas, que o PS espera vencer. A sorte de Costa é o nosso azar. Azar porque, durante este compasso de espera, o país não aproveita para reduzir a dívida pública (de acordo com o Banco de Portugal, atingiu 133,1% do PIB); não desce a despesa, mas compensa o défice com mais impostos e taxas que matam a economia. Não poupa, não investe, nem canaliza dinheiro para quem pode fazer a economia crescer. Azar dos azares, nem nos poderemos desforrar: quando a sorte de Costa acabar, ele fica ligado à folga usufruída por uns tempos e o povo paga a conta. Polícrates não teve tanta sorte.

Alojamento local e o direito de propriedade (2)

Podem as assembleias de condomínio impedir o alojamento local? A resposta afirmativa foi dada pelo Tribunal da Relação de Lisboa, dando razão aos interesses dos demais proprietários de um prédio que fica devassado com as constantes entradas e saídas de pessoas que mudam todas as semanas.

Ainda em Novembro tive oportunidade de escrever sobre este assunto no jornal i. Na altura referi que “os condomínios podem impedir o alojamento local”.

Esta decisão da Relação de Lisboa é muito importante, não só nesta questão particular do alojamento local e dos direitos dos demais proprietários, mas porque exemplifica bem como, numa sociedade liberal, num Estado de Direito, os direitos, mais que protegidos de forma arbitrária por um poder central através de uma decisão cega que não olha aos caso concreto, devem ser protegidos pela boa aplicação da lei que passa, obrigatoriamente, pela discussão jurídica. Por isso, o Direito, enquanto ciência, é tão importante. Por isso, os advogados e juízes são importantes e, por essa mesma razão, o bom funcionamento dos tribunais é indispensável para que as nossas liberdades sejam efectivamente defendidas.

As elites gostam dum país sossegado

imgres

36 anos depois da morte de Francisco Sá Carneiro, Portugal encontra-se na mesma situação que o então líder do PSD descreveu quando deu título ao seu livro escrito em 1978: num impasse. No meio de uma grave crise orçamental e bancária, sem crescimento económico digno desse nome, a maioria prefere aceitar que nada de grave se passa. Com o dinheiro do orçamento compra-se o silêncio dos que, interesseiramente, vivem à sombra do Estado, contra os quais todos protestam mas que, espantosamente, compõem a maioria; através da banca financiam-se empresas públicas e concedem-se empréstimos a privados que não produzem, mas consomem. Entretanto, a imprensa anda sossegada com dados económicos ilusórios que mais não são que fogo de vista; com a ajuda dos comentadores de serviço deleita-se com a habilidade com que Costa, mascarando a verdade, se mantém no poder e, em vez de o denunciar, parece preferir as elites que gostam, sempre gostaram, de um país assim: sossegado, tranquilo, imóvel.

Há 10 anos publiquei n’O Insurgente este texto sobre Sá Carneiro. Lê-lo faz impressão: Portugal está na mesma.

O criminoso Fidel

Justificar os actos de Fidel Castro é uma falta de respeito para com as suas vítimas. Se elas sofreram o que sofreram o mínimo que nos cabe fazer é não irmos na onda dos que branqueiam as história. O meu artigo de ontem no ‘i’.

O criminoso Fidel

O ditador Fidel Castro morreu e muitos teceram-lhe elogios. Como é  possível que tantos se tenham rendido à imagem falsa de um lutador romântico? Perante o que li e ouvi nos últimos dias sou forçado a perguntar se, caso seja necessário, essas pessoas estarão do lado certo no combate à opressão.

Fidel matou, prendeu, torturou um povo que, apesar de tudo e com muito medo à mistura, o aguentou durante 57 anos. Mais de um milhão de cubanos fugiu, não de Cuba, mas de Fidel. Fugiram em barcaças, preferindo o mar infinito à prepotência, arrogância, autoritarismo e crueldade do ditador.

Muitos morreram na viagem. Mais ainda morreram porque ficaram. De fome, na miséria, perseguidos. E os que viveram, fizeram-no com medo. Em silêncio. O tempo ensina a esconder as lágrimas e 57 anos são tempo de sobra para se aprender a esconder as emoções e a verdade.

A morte de Fidel é uma esperança para os cubanos. Esta conclusão, por muito triste que seja, diz tudo sobre a personagem. Sublinhar quem foi verdadeiramente Fidel não é apenas impedir que este passe incólume, como pretendem tantos que por aí andam a apregoar a justiça mas que admiram ditadores. É o mínimo de respeito que nós, que tivemos a sorte de não sofrer às mãos de um Fidel Castro, devemos ter para com as suas vítimas. Eles sofreram e nós não somos capazes de contar a verdade? Porque se não formos capazes de o fazer agora, quem nos garante que estaremos presentes quando for preciso?

Este homem também ganhou hoje

philippe-seguin

Conforme indicam as primeiras projecções, François Fillon venceu as primárias da direita francesa.

O politicamente correcto não permite excepções

francoishollandetoutsimplementn-b

Numa entrevista ao Journal du dimanche, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, diz estar pronto para se apresentar às primárias do partido socialista. Para Valls, o livro dos dois jornalista do Monde, Gérard Davet e Fabrice Lhomme, “Un président ne devrait pas dire ça”, que conta as inconfidências de Hollande no decorrer de conversas privadas tidas entre o ainda presidente da França e os dois jornalistas no decorrer do seu mandato, pode ter sido a gota de água que o força a decidir-se.

Não deixa de ser curioso que possa ser este livro a pôr um termo final na carreira de Hollande. Na verdade, e como ainda este mês referiu Patrick Besson, Hollande mostrou-se neste livro tal qual ele é, um homem inteligente e apaixonante, e não como pareceu ser durante 5 anos, um pateta vazio. Alguém que pensa os assuntos e fala deles sem receio das palavras. O politicamente correcto fez mais uma vítima neste ano de 2016: Hollande. Ao homem que quis ser normal não é permitido ser excepcional. Mesmo que tenha capacidades para isso.

A esquerda não socialista

macron_alcock_002__1050056c

Foto: Ed Alcock / M.Y.O.P.

Quem é Emmanuel Macron? O meu artigo no Jornal Económico sobre o candidato de esquerda não socialista às presidenciais francesas, que pode pôr um ponto final nos preconceitos da esquerda.

A esquerda não socialista

‘La bataille qui est la notre, c’est de rendre les individus capables’

Emmanuel Macron, L’Obs, 10/11/2016

Emmanuel Macron é, a par com François Fillon, a figura política francesa mais interessante do momento. Conselheiro de Hollande, ex-ministro da Economia, Macron foi responsável pela lei com o seu nome que visava desregulamentar a lei do trabalho, mas que caiu porque Hollande e Valls não aguentaram a pressão dos sindicatos.

Macron tem 38 anos e, como lembra a cantora Françoise Hardy, além de cortês é alguém de esquerda que se define como não socialista. É o primeiro de muitos que estão para chegar. Em França, Espanha e em Portugal. A esquerda não tem de ser socialista e Macron está a mostrar o que isso significa. Os efeitos na política francesa serão imensos, agora que as sondagens colocam o PS na mão de Arnaud Montebourg, que é contra a globalização, é proteccionista e tem uma visão da economia que se situa entre Donald Trump e Marine Le Pen.

A 10 de Novembro, o L’Obs publicou uma entrevista com Macron em que este elencava as suas propostas para a lei laboral e para o ensino. Criticando o modelo actual, regulamentador, injusto e ineficaz, que favorece os que trabalham no Estado ou nas grandes companhias, em detrimento dos que o fazem por conta própria ou nas pequenas empresas, Macron propõe uma lei laboral que, não esquecendo o que considera ser essencial para a esquerda, difira de sector para sector de acordo com as suas especificidades. Para ele, diálogo social passa por nem tudo ter de ser prescrito por lei. Empresas e trabalhadores devem ter espaço de manobra para acordarem as regras de trabalho que mais lhes aprazem.

O mesmo raciocínio tem relativamente ao ensino. Neste domínio, defende um tratamento diferenciado entre as escolas, com o Estado a compensar financeiramente os professores que queiram leccionar nos estabelecimentos situados em zonas sensíveis. Ao mesmo tempo, suprime a carta escolar e o determinismo que o local de residência tem na escola que um aluno deve frequentar. O direito de escolha dos indivíduos é finalmente aceite por alguém de esquerda.

As presidenciais francesas vão ser muito importantes devido à possibilidade de Marine Le Pen vencer. De acordo com as últimas sondagens, esta dificilmente não passará à segunda volta, a não ser que Emmanuel Macron se consiga explicar. Se o fizer, a esquerda, depois de Hollande, Tsipras, Corbyn e Iglésias, verá, finalmente, uma luz ao fundo do túnel.

Christophe Guilluy é um geógrafo francês que alertou há dias na Le Point para a percepção comum de abandono que trabalhadores, agricultores e empregados de escritório, que tanto votam à esquerda como à direita, têm dos problemas. O sentimento de abandono puxa-os para a extrema-direita. E neste desafio de os fazer regressar, Macron à esquerda, tal como François Fillon à direita, pode ter um papel fulcral. Esperemos que consiga.

Cheios de gente que desistiu

E se os desiludidos destes novos tempos, em vez de álcool afogarem as mágoas com abacates? O meu artigo no ‘i’.

Cheios de gente que desistiu

If you are under 40 and starting to read this, I politely suggest that you turn the page.” Foi assim que o colunista australiano Bernard Salt iniciou o seu artigo no “Australian”, em Outubro. Nascido em 1956, Salt escreveu sobre os cafés hipster difíceis de frequentar por quem esteja na meia-idade: os assentos são demasiado baixos para quem depois precisa de se levantar, o barulho dificulta a conversa e por aí em diante.

Mas o que mais chocou este baby boomer foi o preço. Cerca de 22 dólares australianos (15 euros) por uma fatia de pão com queijo feta grelhado e pêra-abacate esmagada. Com 60 anos, Salt diz pagar isso na boa. Mas a pergunta sai-lhe na escrita e causou polémica na Austrália: porque é os putos não poupam este dinheiro e compram uma casa? Quinze euros várias vezes por semana dá quanto?

As palavras de Salt causaram indignação, mas batem no ponto. E este artigo interessou-me porque, apesar de duas décadas mais novo que Salt, também não percebo. Quando estava nos 20, poupava. Não lanchava em sítios caros nem tomava o pequeno-almoço na rua. Poupava. Pensava no meu futuro, que na altura não tinha fim e valia a pena pensar nele. Divertia-me sem torrar dinheiro.

E o que vejo quando olho para os novos cafés de Lisboa, pejados de gente a gastar dinheiro que eu tenho mas que prescindo de deixar ali, ponho-me a pensar que talvez a questão seja mesmo essa. Os millennials, a geração do milénio, não gosta do futuro que vê e come abacates para esquecer. Aqueles sítios estão cheios de gente que desistiu.

Católico e liberal

f

«Je suis profondément laïque dans ma conception du pouvoir, mais j’ai un engagement religieux, j’ai une foi et je n’accepterai pas que l’État m’empêche de la pratiquer»
François Fillon, Le Point, 23/08/2016.

Caso Fillon seja o candidato da direita às presidenciais francesas muito se falará do seu liberalismo económico e do seu catolicismo. É possível ser-se liberal e católico? A resposta está aí em cima.

A derrota do populismo

6219082lpw-6223817-article-francevoteprimariesrepublicains-jpg_3909196_660x281

A vitória de François Fillon não é apenas uma surpresa ou uma vingança do ‘colaborador’, como o chamava Sarkozy. Fillon é a personificação do político rigoroso e sério que os novos tempos pareciam ter posto de parte. É um anti-Sarkozy, um anti-Trump, como tantos referiram ontem, em França.

É também mais um xeque ao presidente que ainda contava com a probabilidade de se defrontar com Sarkozy e, dessa forma, se manter mais 5 anos no Eliseu.

Uma surpresa, não só por Fillon não ter sido apontado como favorito pelas sondagens, mas porque o seu programa, sendo de mudança, não choca nem é populista. A França está em crise e os franceses, ao contrário do que se julga à primeira vista, não estão resignados. Há anos que se discutem as razões para o sucedido e as soluções que os tirem da situação onde se encontram. Sarkozy e Hollande foram duas decepções porque não estiveram à altura dos desafios. A expectativa é que à terceira seja de vez.

Quem diria que seria de França que se veria o primeiro sinal de bom senso, direcção e rumo num Ocidente que parece virado do avesso.

As presidenciais francesas

Porque é minha intenção acompanhar as presidenciais francesas da melhor forma que me for possível, não posso deixar de, antes de mais nada, revelar as minhas preferências:

  1. François Fillon;
  2. Emmanuel Macron, e
  3. Alain Juppé.

François Fillon, além de ser o mais liberal, é o único que não esqueça o combate ao défice das contas públicas e ao endividamento crónico do Estado. Fillon, ao contrário dos outros candidatos (à direita o pior de todos nesta matéria é Sarkozy), não se tem esquecido de afirmar que com endividamento não há recuperação económica.

Até muito recentemente Fillon tem surgido em 3.º nas sondagens das primárias à direita, logo, de fora da segunda volta (que terá lugar a 27 de Novembro) e, por esse motivo, uma carta fora do baralho. No entanto, as últimas sondagens indicam o contrário: Fillon pode bater Sarkozy na primeira volta e Juppé na segunda. Se tal acontecer, será o candidato da direita contra Macron, Le Pen e quem quer que os socialistas apoiem.

 

Summit à portuguesa

O meu artigo no ‘i’ de hoje.

Summit à portuguesa

A Web Summit foi uma oportunidade para quem precisa de um investidor. Mas a sua realização em Lisboa foi utilizada pelo governo para convencer meio mundo de que Portugal é um excelente país para se iniciar um negócio, e Lisboa uma cidade fabulosa para um empreendedor ficar no Bairro Alto até às quatro da manhã, dar um saltinho à Ericeira, onde surfa uma onda, almoçar no Chiado, dar um giro pelo Príncipe Real e ainda passar pela empresa onde, qual passe de mágica, faz um milagre antes de jantar numa esplanada com vista para o Tejo.

Como advogado, conheço vários empreendedores. Não levam esta vida. Trabalham horas e dias e semanas e meses, sem férias, sem descanso, sem parar. Sem parar de trabalhar, de pagar contas, de se preocuparem.

Um empreendedor sofre. Não recebe subsídios estatais, não beneficia de incubadoras, de programas de aceleração de empresas ou startups, fablabs, e outras inúmeras formas de gastar o dinheiro dos outros. Arrisca o que é seu e espera que alguém se junte a ele. Por isso, sofre. Infelizmente para o próprio, gosta desse sofrimento e não sabe viver doutra forma.

O país quer inovação? Esqueça a praia, as esplanadas e as ajudas estatais. Aposte no equilíbrio orçamental, no pagamento da dívida pública, na estabilidade fiscal, na liberalização do arrendamento e do trabalho e apetreche-se com tribunais que dão resposta a tempo e horas. Dá trabalho? Dá. É mais difícil? É. Mas os resultados são melhores que os tidos com experiências de deslumbramento fácil.

O dedo na ferida

Interessante entrevista de um homem polémico em França. Que os seus avisos de hoje não sejam as nossas lamentações amanhã.

A vitória de Trump

O meu artigo no ‘i’ de quinta-feira sobre a vitória de Trump.

A vitória de Trump

Trump ganhou. A sua vitória é mais um episódio da luta contra a globalização e os valores liberais. Trump, Tsipras, Iglesias, Le Pen, Jerónimo e Catarina Martins: todos diferentes, todos iguais. O Ocidente não se está a adaptar à globalização. Há indústrias que morrem, trabalhos que deixam de existir. E no meio desta convulsão há pessoas que sofrem e de que o populismo se alimenta.

Na América, muitos não perceberam que os eleitores do Tea Party não são a favor do livre mercado. São contra a distribuição da riqueza distinguindo os cidadãos entre merecedores e não merecedores de apoios. Um liberal (no sentido europeu) não distingue pessoas. Crê que estas devem escolher, sendo as suas escolhas, certas ou erradas, aquilo a que se chama mercado.

Desta diferenciação entre bons e maus à anti-imigração vai um passo. Muito curto. Se há os que merecem, quem não merece são os outros. Os de fora. Os eles. Embora a força dos EUA esteja na imigração constante, não há volta a dar. A anti-imigração está aí.

Trump surgiu porque a elite política não percebeu a mensagem e, perante o problema, não indicou um caminho. Ao contrário de Reagan, Trump nunca falou sobre um país ideal, mas para as massas. A sua mensagem de pessimismo tocou no que o americano branco médio vê: que vive pior.

Os votantes de Trump não acreditam em nada. Estão inseguros e têm medo. Trump prometeu–lhes protecionismo económico e controlo de fronteiras. Infelizmente, em vez de uma resposta aos problemas para que Trump apontou, gozou-se com ele. Quem ri por último, ri melhor.

O futuro da advocacia

A minha visão, enquanto advogado, do futuro da advocacia e da Ordem dos Advogados.

O futuro da advocacia

A Ordem dos Advogados, que elege o seu Bastonário no dia 18 de Novembro, está a passar por um lento processo de transformação. Durante muitos anos, os advogados trabalhavam todos por conta própria em pequenos escritórios. Essa unidade permitiu que a Ordem fosse dirigida por uma elite. Hoje existem, a par com os pequenos escritórios, centenas de advogados a trabalhar para sociedades e advogados que são empregados de empresas. Trata-se de realidades muito diferentes entre si porque a relação do advogado com o cliente, o exercício da profissão como actividade liberal, é totalmente distinta.

Esta discrepância de realidades fragilizou a Ordem e explica alguma da crispação existente. Explica a maior agressividade dos últimos anos e uma certa confusão entre o que deve ser uma associação pública profissional e o que é um sindicato. A diferença entre os vários modos de exercer a profissão, seja na prática individual, seja como contratado das grandes sociedades ou integrado nas empresas, está a criar divisões que, caso não haja cuidado, poderão conduzir uma cisão na Ordem.

Em Junho, João Afonso Fialho, presidente da Associação das Sociedades de Advogados de Portugal, disse numa entrevista ao Jornal de Negócios que “a Ordem não tem interesse nas sociedades de advogados”. Dada a diversidade mencionada em cima a suas palavras soam a uma queixa sobre a dificuldade da Ordem representar todos os tipos de exercício da profissão.

O mal-estar instalado, a necessidade de a Ordem se fazer valer, obriga esta a ser mais activa e mais crispada. A restrição do acesso à advocacia, a redução da concorrência, o desrespeito gradual das regras deontológicas, são outros sinais de desadaptação aos novos tempos.

A imposição de regras de acesso à advocacia, defendidas por todos os candidatos à Ordem dos Advogados, deve-se ao receio da concorrência e substitui o mercado, ou seja os clientes, na livre escolha de quem os pode representar. O regime de acesso à advocacia, preconizado pela Ordem, pode colocar de parte jovens que poderiam ser excelentes advogados, mas que não têm a oportunidade de fazer prova disso mesmo exercendo a profissão que desejam.

Outro problema é o desrespeito da deontologia profissional, essencialmente o relaxe das regras de cortesia, tão importantes que são para a confiança e a célere resolução de processos. À primeira vista tal parece incongruente, mas não é.  A descortesia profissional é um sinal do mal-estar de uma profissão que se fecha sobre si mesma.

Em Janeiro de 2008, tive a oportunidade de escrever para a Revista Atlântico, juntamente com Adolfo Mesquita Nunes, um artigo sobre este tema. Os problemas de então, bem como as soluções referidas na altura, mantêm-se actuais. Há 8 anos sugerirmos a liberdade de associação, que ninguém aprova. No entanto, se não houver cuidado, é o que teremos.

A recuperação económica de Obama

Miguel Monjardino, no Expresso, 24 de Setembro de 2016, antevendo a vitória de Donald Trump. De certa forma, a Administração Obama foi um falhanço, e a recuperação económica que a Europa crê ter acontecido nos EUA, inexistente.

Donald Trump pode ganhar as eleições presidenciais a 8 de novembro. Chegou a altura de escrever isto. A estrada política para a Casa Branca é muito estreita mas as últimas semanas mostraram que a sua vitória deixou de ser impensável.

A um mês e meio das eleições, praticamente todas as sondagens apontam para um resultado final muito disputado, especialmente no caso de Gary Johnson do Partido Libertário e Jill Stein dos Verdes continuarem na corrida. Trump está à frente em estados cruciais como Ohio ou Florida.

À entrada da reta final da campanha eleitoral, a onda política e emocional parece favorecer o candidato apoiado por uma nova coligação de republicanos.

Vista do lado de cá do Atlântico, este estado de coisas é chocante. A taxa de desemprego nos EUA está nos 4,9 por cento. Nos últimos seis anos, foram criados mais de 14 milhões de empregos. A economia recuperou da grande recessão de 2008-2009.

Washington pode não ser uma capital omnipotente como foi no final dos anos 90 mas, mesmo assim, continua a ser respeitada e indispensável a nível internacional. As suas universidades e empresas são as melhores do mundo.

Nos últimos anos, os EUA transformaram-se numa potência energética, um acontecimento que terá enormes consequências daqui para a frente.

Como é que se explica então o enorme sucesso da campanha de insurreição política liderada por Donald Trump desde o ano passado? Quais são as suas fontes a nível interno e externo? Começando pelo primeiro ponto, a taxa de desemprego é um número enganador. Como Nicholas Eberstadt chamou a atenção no início do mês no “Wall Street Journal”, cerca de 7 milhões de homens entre os 24-54 anos deixaram de procurar emprego nos EUA. A tecnologia, os baixos níveis de crescimento económico e a evolução da sociedade norte-americana ajudam a explicar estes números.

Trump tem vindo a convencer muitos americanos que coisas como o discurso politicamente correto, a viragem dos democratas à esquerda, a imigração ilegal, o comércio livre, e a estratégia adotada por democratas e republicanos desde o final da Guerra Fria em 1989 minaram a vitalidade da sociedade e da economia do país.

Segundo a CNN, o candidato dos republicanos é mais credível do que Clinton a nível económico (56%-41%). Estes números podem mudar até novembro mas, dão-nos uma ideia do desapontamento ou da ansiedade de metade do eleitorado norte-americano.

Passando ao segundo ponto, Trump acha que a ordem liberal internacional construída por Washington já não serve os interesses dos EUA. Uma administração Trump seria tentada a renegociar os principais tratados comerciais internacionais e prestaria muito menos atenção à segurança e defesa da Europa e do leste da Ásia. A única exceção seria o Médio Oriente onde Trump tem ideias muito diferentes das de Obama em relação às insurreições da Al-Qaeda e do Daesh e às ambições estratégicas de Teerão.

Portugal, tal como a maior parte dos países europeus atlânticos, venera os EUA de Barack Obama. A derrota de Hillary Clinton é simplesmente inconcebível para nós. Trump, todavia, pode ganhar.

As pilhas lixam isto tudo

Há alguns anos saí de Lisboa às 4 da manhã, no meu mini cooper vermelho de capota branco, a caminho do Porto para uma inquirição de testemunhas. Cheguei ao tribunal às 9. Já na sala de audiências, e durante a inquirição da segunda testemunha, a escrivã interrompe-me muito atrapalhada com um:
– ai!
– O que foi? – perguntou-lhe o juiz.
– O gravador não está a gravar. Não sei porquê.
– Chamem o Carlos – diz o juiz – ele percebe destas coisas. E apanhem a testemunha que saiu há pouco. Temos de repetir a inquirição.
Um funcionário sai a correr à procura da primeira testemunha. Entretanto, a senhora levanta-se, sai e volta com o Carlos.
O Carlos, que tresandava a tédio, olha para o gravador, pega-lhe, vira-o e revira-o, e diz:
– O gravador não tem pilhas.
Foi com muito esforço, e com todo o respeito que um órgão de soberania me exige, que não me escangalhei a rir.

Da palermice

Acho piada aos portugueses que, mesmo sendo governados pelo PS com o apoio dos comunistas, mesmo tendo sido governados por Sócrates, concluem, sem mais nem menos, que os americanos só podem ser ‘isto e aquilo e o outro’ porque podem votar em Donald Trump.

Trump é mau. Apela ao pior que há em cada um. Mas o PCP e BE e este PS fazem o mesmo. Baseiam-se no medo que a mudança provoca, na desconfiança como forma de relacionamento. Dividem o país entre s bons que recebem e os maus que pagam. Apelam à fúria contra o neoliberalismo, contra os alemães, esses tipos em tempos nazis. E governam-nos. Apesar de terem falido o Estado e nos terem feito sofrer o que sofremos nos últimos 5 anos, governam-nos. Se há coisa pior que um retrógrado, é um palerma.