Francisco Louçã, o diáfono

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Francisco Louçã, a propósito da morte de Fidel, lavou a ditadura cubana com uma mestria ímpar no blog do Público, Tudo sobre Economia. Como? Usando a velha táctica estalinista — removendo-a da fotografia. Ou, neste caso de palavras, nunca se referindo a qualquer ditadura. Afinal, parece, foram 50 anos de uma afável estabilidade política, que reuniu pleno consenso da população, reflectido num Parlamento unipartidário. Uma bonita época, que pôs termo à ditadura de Baptista, liderada por um grande herói revolucionário, Fidel Castro.

Fá-lo com técnicas básicas de retórica, que de tão óbvias o deveriam fazer corar de vergonha. Perante perguntas directas, claras e objectivas a indagar se Francisco Louçã subscreve a falta de democracia e de liberdade, ele divaga com o Ku Klux Klan ou com Trump. Nunca diz, de uma forma clara e objectiva, que a democracia e a liberdade são valores fundamentais. Não o diz porque, em boa verdade, está a ser honesto. Para um trotskista, democracia e liberdade são meros artifícios, que podem até travar o caminho da revolução. É o consequencialismo em plena exuberância — os fins (a revolução) justificam os meios (supressão da liberdade).

Ao longo dos seus artigos, onde recorre a terceiros para se refugiar — Marcelo foi, Papa disse, RTP cobriu —, em nenhum momento refere, ainda que de passagem, que Fidel foi um ditador, usando a dualidade no tratamento da cobertura jornalística da morte de Fidel vis-à-vis a morte de Pinochet para mostrar que, dado não ter existido cobertura da morte Pinochet nem visitas de Marcelo, então este é um ditador, e Fidel não. Usa o facto da imprensa ter uma predilecção por populistas de esquerda (Tsipras) e por ditadores de esquerda (Fidel) para provar, qual método aristotélico, que Fidel não pode ser ditador, caso contrário não teria esta cobertura.

Este comportamento de Louçã não é novidade. Tive oportunidade de o testemunhar numa conferência sobre dívida pública, em que ele foi orador. Francisco Louçã conseguiu falar uma hora sobre dívida pública sem referir «défice» uma única vez — como se um existisse sem o outro.

Mas nada disto é mais elucidativo do que as prosápias que redigiu a responder a quem o confronta com uma pergunta simples, de resposta objectiva:

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— As suas convicções incluem a democracia e a liberdade?
— Não precisava de ter ficado ofendida. Eu só lembrei que Marcelo Rebelo de Sousa […]

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— E as dezenas de milhares de fuzilamentos, a ordem de Fidel?
— Uma vergonha que um ministro tenha ido ao funeral

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— E o que dizer de uma Cuba onde a liberdade escasseia, onde Fidel imperava e era dona do poder?
— Demissão do director da SIC e do Expresso

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— Sabe dos fuzilamentos de La Cabana?
— [Fuzilamentos?] Impugne-se Marcelo, já

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— Fidel foi um brutal e meio doido ditador, não lhe parece?
— De acordo, vamos fazer uma petição pública para a demissão de Marcelo

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— Que tem a dizer sobre os fuzilamentos?
— Sou contra a pena de morte [nb: os fuzilamentos não foram sujeitos a condenação judicial; Francisco Louçã desvia para a questão da pena de morte para evitar reconhecer e responder à questão dos fuzilamentos — desonestidade intelectual, especialidade do próprio]. E sobre os que diziam que Hillary participava em rituais satânicos, hein?

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— E os fuzilamentos, os assassinatos extra-judiciais, as perseguições de dissidentes?
— Esqueça lá isso, isto é sobre Trump, não é sobre Fidel

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— Era Fidel Castro um ditador, sim ou não?
— Não facilitarei revisionismos históricos que ofendem a memória dos antifascistas [portanto, os fuzilamentos e a ausência de democracia são um revisionismo]. Abaixo Trump.

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— Em Cuba não existe oposição, os jornalistas portugueses foram presos, Fidel deixou o poder em família [ao seu irmão, Raul], Fidel deixa um país com a população a viver na miséria, Fidel e companhia mataram mais gente do que Salazar e Pinochet juntos, etc.
— Quem é contra Fidel, apoia Trump; quem é a favor de Trump, apoia Marcelo

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— Fidel, o castrador das liberdades em Cuba
— Trump já explicou isso.

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— Pinochet foi ditador? Foi. Salazar foi ditador? Foi. E Castro? Também.
— Também li o comunicado de Trump

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— Não há uma palavra para as vítimas da ditadura cubana?
— Trumpista!

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— Como é que justifica objectivamente que o regime de Salazar foi tão mais opressivo que o de Fidel?
— Salazar, mau; Fidel, bom; Ditadores de direita, maus; Ditadores de esquerda, bons

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— Houve ou não houve crimes em Cuba?
— O argumento Trump

***

E mais haveria para destacar, mas cansei-me. Isto é Francisco Louçã, candidamente a deflectir a história, a negar a ditadura, a escamotear um ditador, a lavar mais branco. Os fins assim justificam.

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29 thoughts on “Francisco Louçã, o diáfono

  1. Pingback: POLITEIA

  2. Filipe Costa

    O Xico usa dialecto ofensivo, demagógico e agressivo. Usar -trump e Marcelo para branquear Fidel, nem lembra ao Diabo.

  3. JMS

    Não consigo entender as pessoas que seguem, com uma FIDELidade canina, este pobre palhaço (pobre cerebralmente, claro, até porque não consta que faça parte das estatísticas sobre a pobreza. Se fizesse não bolsaria as habituais inanidades).

    Ou, se calhar, até entendo.

    Obrigado comunicação social (vulgo merdia). Apenas se esqueceram que nem toda a gente é tão burra como essa escumalha gostaria que fôssemos.

    Bem que trabalham nesse sentido há dezenas de anos mas não conseguem, nem nunca conseguirão.

    Felizmente.

  4. lucklucky

    Uma excelente demonstração de má fé ou de caso clinico pois pode demonstrar um processo de pensamento do personagem.

  5. mariofig

    São-lhe apontados definitivos erros na sua lógica. São-lhe colocadas questões claras e directas que expõem a fragilidade dos seus argumentos. Mas ele (Louçã) mantém-se impávido, sereno, alegremente a olhar nos olhos quem o confronta, sem mostrar quaisquer sinais vergonha, sem se encolher perante o peso do que lhe é dito, ou sequer titubear embaraçado pelo número dos que o confrontam.

    São os claros sinais de um sociopata.

  6. Excelente post.
    É preciso desmascarar este nojo.
    Mas atenção, quando o nojo refere o cata-vento, não é por acaso, é porque as suas atitudes servem para branquear e ajudar a reescrever a história. Tem sido uma vergonha.
    A verdadeira direita liberal e democrática, tem que ser implacável com esta tralha.

  7. JMS

    Fernand Personne,

    Infelizmente não.

    Os media transformaram, ao longo dos anos, pessoas distraídas em autênticos cobardes.

    É absolutamente proibido dizer mal da esquerda, como já deve ter reparado…

  8. JMS
    Tem razão, os merdia sei que alinham pelo esquerdume. Mas aqueles excertos, acima, das perguntas e respostas pertencem a um blog. Mesmo que o dito cujo pertença a um jornal, as pessoas, tendo liberdade para perguntar, também deviam ter o à-vontade de mandar o anacordado-anacleto p’ro caralho porque o sabujo estava ali a gozar descaradamente com as pessoas . E eu acho que essas pessoas que o interrogaram, não eram assim tão distraídas nem cobardes.

  9. As respostas do Louçã fizeram-me lembrar um post do Insurgente e as respostas de uma senhora (não vou dizer o nome se não bloqueia-me outra vez).

  10. É literalmente o que diz o Luk. Isto demonstra mais a perfídia da cabecinha do Louçã que mil comícios.

    Com isto só engana um sem carácter igual.

  11. JMS

    Fernand,

    Tem toda a razão, as pessoas foram directas nas perguntas e, no mínimo, o que se poderia esperar do outro lado seria alguma seriedade nas respostas. Coisa praticamente impossível num diálogo com alguém de extrema esquerda e alguns de esquerda também.

    O Louçã, ou qualquer outro idiota de esquerda, sentem-se no direito de responder da maneira que melhor lhes aprouver, exactamente por serem levados ao colo pelos media (não é uma obsessão minha, é a mera constatação dum facto).

    Esperar alguma seriedade da esquerda mainstream é totalmente para esquecer.

    Quando um país europeu de 10 milhões de pessoas, em pleno século XXI, se sujeita a personagens deste calibre, não se pode queixar do estado caótico, em termos financeiros e económicos, em que se encontra. A nossa sorte é estarmos na UE e no euro. Caso contrário estaríamos bem pior do que a Venezuela.

    Precisamente o que a esquerda pretende para justificar a sua existência.

    É triste mas, infelizmente, verdade.

  12. Isto é outra coisa- não é política- é mesquinhez de sem carácter.

    Até pode existir gente mil vezes mais perigosa politicamento. Mas, o que fica aqui, não é um retrato ideológico em abstracto- é uma polaroide de um cretino inquisidor fariseu que não passa de um estúpido e de um frouxo.

  13. Este cronista agora virou-se para o ataque ao BE. Talvez se tenha percebido que foi o BE e não o PS ou PCP que levou a Direita a perder a maioria. E o acréscimo eleitoral no BE foi essencialmente de jovens, não me parece é que a Direita tenha alguma proposta alternativa para atrair esse eleitorado. Se essa proposta alternativa é mais flexibilização e por essa via uma diminuição dos custos do trabalho traduzindo em linguagem corrente salários mais baixos não me parece que a geração mais bem formada de sempre vá nessa cantiga.

  14. Rodrigo

    Quando um partido tão irrelevante para a direita centra tanto as suas atenções, algo realmente vai mal no PSD/CDS e nos seus “seguidores”.

  15. O Daniel Oliveira, sem ele mesmo, escreveu um artigo muito interessante a explicar porque não era grande fã do Castro.

    Algures no artigo, refere o facto de após 50 anos no poder Castro só confiar no próprio sangue para a transição de poder. Como diriam os Monty Python “Say no more!”

  16. JMS
    Obrigado pela resposta pois percebo melhor o que escreveu (merdia e colinho)

    Responder a perguntas sérias e directas com “coisas” sem relação alguma e sem sentido, usando uma desonesta pseudo-superioridade moral e intelectual (típico do esquerdume) que disfarça muito mal uma atitude de gozo, é uma filha-da-putice que só merece ser respondida com um palavrão.

    Quando não há possibilidade de um diálogo, é assim que se responde a idiotas.

  17. lucklucky

    “Quando um partido tão irrelevante para a direita centra tanto as suas atenções, algo realmente vai mal no PSD/CDS e nos seus “seguidores”.”

    O Bloco de Esquerda é o Partido com mais Poder em Portugal. Domina a Cultura. pois está em todos os jornais e TV’s,

    É a razão porque nenhum jornalista em Portugal que tenha conhecimento deu a notícia da morte do Ditador escrevendo “ex..Ditador Cubano morreu”

    Todos escreveram “Líder Histórico Cubano” ou “Líder Cubano”

    Mais uma vez referir que este é um excelente post que deu trabalho ao coligir todos os exemplos e merece ser gravado e linkado.

  18. Insuportável. Irritei-me só de ler. É impressionante a forma inábil, trapalhona e falsamente erudita como o padreco responde às pessoas. Se se dá ao trabalho de responder aos comentários é porque considera isso ser um exercício útil. Já responder da maneira que faz só serve para confirmar o que, felizmente, cada vez mais pessoas começa a perceber: com uma certa esquerda, não há debate de ideias possivel pois o mesmo já parte inclinado. Neste caso em concreto, em que lhe são colocadas questões de forma directa (e não vi nenhuma indecente ou mal-educada), o cobarde esconde-se atrás do teclado e da ausência de contraditório para mostrar aquilo que é: um demagogo anti-democrata da pior espécie. Que a agremiação de palhaços que o mesmo deixou em legado obtenha tantos votos já é algo que me deixa boquiaberto. Ou não: em Itália estão quase no poder e em Espanha o PODE(R)mos já por lá anda. Que tristeza.

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