O Governo da vaca voadora

costa_vaca_voadora No Público de hoje, o João Miguel Tavares argumenta que o célebre episódio em que António Costa achou por bem “oferecer à ministra da Modernização Administrativa a vaca voadora na cerimónia do novo Simplex” foi, “no seu cândido simbolismo vacum, o apontamento político mais esclarecedor do ano”: “o primeiro-ministro”, escreve o João Miguel, “pegou na vaquinha por um fio de coco, carregou num botão e as asas da vaca leiteira começaram a bater alegremente, enquanto ele declarava, todo dentes e sorrisos: ‘Não há impossíveis! A prova é a de que até há vacas que voam!’, e, “e de repente”, “ali estava, diante de nós, o símbolo perfeito do regoverno socialista”.

Percebo o argumento: “munido de inesgotáveis pilhas e fé em gado alado, António Costa está a governar o país como se as vacas pudessem voar”. Como o mesmo João Miguel Tavares disse no Governo Sombra, António Costa “vai ter com a esquerda” e, inundado de pedidos de menos horas de trabalho, mais salários e feriados, diz-lhes que “tudo isso é possível”; e quando o mesmo António Costa “vai a Bruxelas” e lhe dizem “como é que é possível cumprir” as obrigações do Estado português com essas medidas, o Primeiro-Ministro responde-lhes “com a mesma convicção” que “é possível; de certeza que é possível”; mas “qualquer pessoa lhe vai dizer ‘não, as duas coisas não são compatíveis’. Percebo o argumento, mas não concordo com ele. Porque tendo sido esse momento um símbolo perfeito do que tem sido a governação de António Costa, não o foi por António Costa governar como se acreditasse em vacas que voam.

Tal como sabe que não exibiu, na cerimónia de propaganda em causa, nenhuma demonstração que as vacas voam, visto que não era nem uma vaca (mas um brinquedo) nem capaz de voar (apenas suspenso no ar por um fio pendurado em mãos humanas), António Costa sabe perfeitamente que os seus compromissos com os partidos que o “suportam” (apropriado termo) não são compatíveis com os compromissos com “a Europa”. Tal como sabe que a vaquinha de brincar comprada no aeroporto de Heathrow não é nem vaca nem voadora, o Primeiro-Ministro sabe que as suas políticas são tão “vacas voadoras” como ela: a ideia de que o Estado pode reanimar a economia, ou a de que cabe ao Governo orientar a sociedade nas “apostas” que os seus membros devem fazer, e mais, “apoiar” os “projectos” potencialmente “ganhadores”, são ideias em que, tal como fingiu estar mesmo a falar de uma demonstração de que é possível as vacas voaram para dar uma (como agora se diz) “narrativa” à sua performance propagandística, António Costa finge acreditar, porque fornecem uma (como agora se diz) “narrativa” que justifica aquilo que ele e os seus correligionários pretendem realmente com as suas políticas: na senda dos seus antecessores (imediatos ou mais longínquos) usar os meios que o Estado suga a quem lhe paga (cada vez mais) impostos para satisfazer as suas clientelas predilectas, quer (no seu caso particular) através dos “aumentos” na Função Pública quer nos “apoios” com que substitui o mercado da interacção e livre escolha dos indivíduos pelo mercado da influência política. São políticas que não trazem nenhum bem ao país, como António Costa bem sabe, mas que talvez permitam ao PS comprar votos suficientes para sustentar o seu poder e dispensar os seus parceiros (tenho dúvidas), e só isso interessa ao Governo.

Resta que, tal como António Costa tinha plena consciência que o seu brinquedo não voava nem era uma vaca, também quem o via tinha a perfeita noção de que Costa tinha essa plena consciência. Da mesma forma, tal como António Costa não acredita na encenação em torno das suas políticas, também quem o vê tem a perfeita noção de que a governação socialista (como a dos seus antecessores mais imediatos ou mais antigos) não tem como objectivo aqueles que a propaganda enuncia, mas a da mera satisfação das clientelas e grupos de interesse que em torno dela orbitam, e que essa propaganda não passa de uma “estória” com que se enfeita a realidade. E esse é talvez mesmo o principal problema da governação de Costa: alimenta o já bastante encorpado cinismo mútuo de governantes e governados, em que nem uns nem outros acreditam minimamente na retórica e propaganda com que diariamente os primeiros inundam os telejornais para supostamente seduzir os segundos, e que por nem uns nem outros acreditarem nela, leva os primeiros a agirem na mais completa duplicidade e os segundos a não terem qualquer confiança neles, degradando cada vez a saúde do nosso sistema político e as condições para que se possam fazer as reformas que o país realmente precisava que se fizessem, e desliga o debate político da realidade em que vivemos, transformando-o num mero conjunto de palavras artificiais que não reflectem minimamente o país e os seus problemas.

No seu artigo de hoje e no Governo Sombra desta semana, o João Miguel Tavares quase teve razão ao dizer como este Governo é o “Governo da vaca voadora”. Mas é precisamente na diferença entre o “quase” e o “completamente” que se pode compreender realmente a verdadeira natureza da governação de António Costa.

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6 pensamentos sobre “O Governo da vaca voadora

  1. Ser político hoje em dia serve para preparar o futuro após se deixar a política… Já não se rouba como antigamente… O essencial hoje em dia é arranjar contactos que nos garantam um bom emprego no futuro… Foi por isso que o PS aceitou… mesmo que lá fiquem um ou dois anos, criarão uma excelente agenda de contactos… Quem vir a seguir ou faz micro-reformas para enganar a Europa e meter o dinheiro a correr ou faz o mesmo …

  2. Prova indirecta

    Trezentos e vinte trogloditas , apoiados por um sindicato da CGTP , paralisam um país …

  3. E depois digam que não é genético!!
    Da capacidade negocial às vacas sagradas ou não e o mais que nos espera. A culpa também é dos burros para quem ao votar o que contava era a pureza teórica e não deram os passos necessários para consolidar o caminho das pedras.

  4. ecozeus

    Por fim, descoberto o verdadeiro símbolo da geringonça!
    Uma ilusão … as vacas nunca voaram e jamais voarão!
    Tornou-se perigoso comer as “mioleiras” deste governo … as vacas voltaram a estar loucas !!!

  5. Pingback: Outras razões para termos de meter mais 4 mil milhões na Caixa Geral de Depósitos – O Insurgente

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