O perigo do “neoliberalismo” chinês

Anterior post do LA levanta uma curiosa questão: qual o motivo para um militante do Bloco de Esquerda designar a China de “regime neo-liberal”???

A razão pode estar no facto dos bloquistas terem expectativas de um colapso financeiro nas bolsas asiáticas (sendo a queda da semana passada apenas um prelúdio) e, consequentemente, a ocorrência duma depressão económica. Tal evento – quando acontecer – será um excelente instrumento de propaganda socialista, dado ser, para estes, a melhor “prova” do falhanço do capitalismo.

Mas, como se pode verificar em artigo do New York Times, o “milagre chinês” é, também, resultado de políticas socialistas:

Foreign exchange reserves have soared across much of the developing world, in countries as diverse as Brazil, Thailand and India, but particularly in China. The reason lies in powerful currency intervention, as these countries strive to keep their exports competitive in Western markets by curbing the appreciation of their currencies against the dollar.

They have bought vast amounts of dollars from their exporters, giving back local currency in exchange. And then they have struggled with what to do with these dollars.

Most central banks have invested their dollars in American securities, particularly Treasury bonds and notes, but sometimes mortgage-backed securities as well. In recent years, these giant purchases have helped hold down interest rates that American home buyers pay for mortgages and the federal government pays to finance its budget deficits.

A maioria dos eleitores não consegue identificar as políticas monetárias dos Bancos Centrais como tentativas socialistas de gerir a economia. As consequências dessas intervenções serão, portanto, atribuídas ao capitalismo e não ao socialismo.

9 pensamentos sobre “O perigo do “neoliberalismo” chinês

  1. “A razão pode estar no facto dos bloquistas terem expectativas de um colapso financeiro nas bolsas asiáticas”

    Desde que existe Bloco de Esquerda (e, antes, o PSR) que a “linha oficial” é essa: que a China é “neo-liberal”; logo, essa posição não deve derivar de qualquer previsão momentãnea sobre a evolução das bolsas chinesas.

    Já agora, refira-se que,nos primeiros tempos do governo de Chavez, a posição do PSR era de que era um governo neo-liberal, e o Ruptura/FER também considera que Fidel Castro tem uma politica neo-liberal (ou seja, nós, na extrema-esquerda, temos um conceito de “neo-liberal” talvez ligeiramente diferente do vosso)

  2. Miguel,

    Então – até tenho receio em perguntar – o que, para o Bloco de Esquerda, significa uma sociedade “socialista”???

  3. Uma sociedade socialista é a que existe na cabeça dos aspirantes a ditadores da extrema-esquerda. Como na prática o socialismo invariavelmente (e inevitavelmente) produz resultados catastróficos, todos os regimes socialistas que existem ou existiram são “neo-liberais”.

  4. «Então – até tenho receio em perguntar – o que, para o Bloco de Esquerda, significa uma sociedade “socialista”???»

    (vai ser uma explicação um bocado longa e, provavelmente, chata, mas lá vai)

    É dificil dizer, porque o BE tem pessoas de muitas correntes, de sociais-democratas até a auto-proclamados anarquistas (tal como o CDS também tem “liberais, democratas-cristãos e conservadores”) – na prática, acaba por ser o “menor denominador comum”, i.e. a social-democracia + o “fracturantismo”

    No entanto, as duas correntes organizadas que têm uma ideia mais explicita do que querem são a APSR (ex-PSR), de Louçã , e o Ruptura/FER (que é, mais ou menos, a “oposição”), que definem, ambos, “socialismo” como a combinação entre a “propriedade estatal dos meios de produção” com “um Estado governado por Conselhos Operários, com delegados revogáveis a qualquer momento pelas bases” (a tese deles é que a propriedade estatal está para o socialismo, como a crisálida para a borboleta – é condição necessária mas não suficiente).

    Agora, a explicação provável para a mania de chamar “neo-liberais” a regimes comunistas – tanto a APSR como a FER (são fundamentalmente clones ideológicos) consideram que um sistema de “propriedade estatal” sem “poder dos Conselhos Operários” é instável (já que os “burocratas”, por um lado, não terão informação e incentivos suficientes para gerir a economia, e, por outro, quererão ser proprietários – podendo transmitir essa propriedade aos filhos – em vez de apenas “gestores”), e que a saída só pode ser, ou a “revolução operária”, ou a restauração do capitalismo. Assim, para esses grupos, os regimes de tipo “comunista” têm, forçosamente, de estar a “restaurar o capitalismo” (ou seja, no jargão moderno, serem “neo-liberais”) – faz parte do seu dogma ideológico (“regimes do tipo da URSS, China ou Cuba irão restaurar o capitalismo se não forem derrubados pelo proletariado, e quem duvidar é revisionista”).

    (isto é uma versão simplificada)

  5. Miguel Madeira,

    Obrigado pelo comentário.
    Julgo que a informação é relevante para todos os leitores d’O Insurgente.

    Já agora, uma questão adicional: como conseguem os “Conselhos Operários” fazer o cálculo económico dada a “propriedade estatal dos meios de produção”?

  6. «Já agora, uma questão adicional: como conseguem os “Conselhos Operários” fazer o cálculo económico dada a “propriedade estatal dos meios de produção”?»

    A maneira mais fácil de eu responder a essa questão seria deixar definitivamente de lado o trotskyismo e o comunismo-conselhista e ficar pelo anarco-mutualismo…

  7. Já agora, refira-se que,nos primeiros tempos do governo de Chavez, a posição do PSR era de que era um governo neo-liberal, e o Ruptura/FER também considera que Fidel Castro tem uma politica neo-liberal (ou seja, nós, na extrema-esquerda, temos um conceito de “neo-liberal” talvez ligeiramente diferente do vosso)

    Miguel, bons comentários… mas que raios, “neo-liberal” é ou não insultuoso para a extrema-esquerda? E é tudo neo-liberal, só não sendo o comunismo puro e duro e o anarco-mutualismo?

  8. Pingback: Dragão vermelho perdeu a chama? | O Insurgente

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