Portugal e Grécia são os únicos países europeus pobres que ficaram mais pobres desde 2007

Apesar de estarmos pior quero deixar um elogio ao governo actual e, um muito maior ainda, ao governo anterior que, apesar de não terem feito todas as reformas necessárias, não foram nas cantigas da esquerda radical (de uma ala do PS, BE e PCP).

Felizmente, apesar de Portugal ter regredido, ficou muito longe de estar tão mal como a Grécia. Basta olhar para a diferença no gráfico.

Agora, convém perceber o que não fizemos e não estamos a fazer para estarmos a ser completamente ultrapassados pelos países de leste. Estamos na cauda da Europa. Convém perceber e corrigir rápido.

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O Berardo Expiatório

Quem vir as inúmeras manifestações públicas de virtude a vilipendiar Joe Berardo poderia facilmente ser induzido em erro: Até parece que a Caixa Geral de Depósitos não era o braço armado de sucessivos governos para financiar operações de pessoas amigas do regime. Até parece que os créditos concedidos pela CGD a investidores, para comprarem ações da PT e do BCP, não tinham como propósito fazer pender as decisões das Assembleias Gerais dessas empresas num determinado sentido, pretendido pelo governo (e por Ricardo Salgado). Até parece que os administradores da CGD Santos Ferreira e Vara não se tornaram administradores do BCP depois dos créditos concedidos aos novos acionistas.

O grau de demagogia relativamente a Berardo atinge o cúmulo nas declarações do Primeiro-Ministro, que se manifesta muito indignado pela CGD ficar sem receber a totalidade de um crédito para compra de ações tendo apenas estas últimas como garantia (e isto não é totalmente verdade, pois as garantias foram reforçadas depois), quando isso era a prática corrente do banco na altura e estando a tutela do banco sob um governo do seu partido e de que ele próprio tinha feito parte até umas semanas antes. A lata estanhada do PM é incrível, quase igualada pelo grau de hipocrisia das declarações de José Miguel Júdice, que “ameaça” devolver a condecoração que recebeu se Marcelo não retirar o grau de Comendador a Berardo. Ainda assim o populismo demagógico mais miserável veio de Paulo de Morais, que sugeriu que Berardo enriqueceu à custa do crédito que potenciou esta operações desastrosa para todos os envolvidos, como se tivesse desviado o dinheiro.

Não há inocentes nesta indignação colectiva. Todos os partidos deram para o peditório. O que é extraordinário, tendo em conta que a dita indiganação ajuda a atirar areia para os olhos dos portugueses e esconde as responsabilidades do PS e de vários membros do atual governo num periodo que foi altamente lesivo dos interesses dos contribuintes. Mas nada disso interessa. Todos a bater no peito: Queimem o porco capitalista na fogueira! Malandro! Gatuno! O que interessa a carga fiscal mais elevada de sempre quando o malandro do Berardo conseguiu um crédito sem aval pessoal e não foi morar para debaixo da ponte?

Da responsabilidade orçamental

Costa a queixar-se do CDS/PSD por irresponsabilidade orçamental, faz-me lembrar aquele bom pai de família, o verdadeiro tuga da estirpe macho latino, que depois de ter torrado o plafond do mês com o PCP/Bloco de Esquerda em copos e gajas, ameaça ir-se embora de casa porque descobriu que a mulher – “essa grande p…” – esteve a flirtar sem consequências com o carteiro, e lhe prometeu umas gorjetas lá para o Natal.

Segundo debate na TV

Hoje à noite estarei na RTP-1 para o meu segundo debate televisivo sobre as eleições europeias.

O czar das finanças

“Centeno: recursos públicos devem ser usados sabiamente.” (via Negócios 10/05)

A intervenção do ministro das Finanças sintetiza a sua filosofia política: ele é o sábio. Na minha opinião, trata-se de uma abordagem muito perigosa e manifestamente anti-liberal, por várias razões. Primeiro, porque legitima a opacidade que inviabiliza o escrutínio da governação. É uma crítica que se aplica inteiramente a este ministro em particular, conhecidos que são os seus truques governativos. Segundo, porque permite ao sábio das finanças a centralização da despesa do Estado que, constituindo uma prática não-democrática, submete a execução do Orçamento do Estado aos humores do ministro. É também uma forma de nada fazer pela gestão descentralizada da administração pública. Terceiro, em resultado de um e de dois, porque distancia o Estado dos contribuintes, que são a base da legitimidade governamental. Em suma, é uma filosofia anti-liberal ou, dito de outra forma, czarista.

A crítica anterior em nada invalida o mérito e a necessidade dos especialistas. Recordo-me, aliás, de uma obra, publicada há uns anos, intitulada “A morte da competência” de Tom Nichols, que apontava a necessidade de valorizar o conhecimento específico, numa sociedade em que qualquer um facilmente se sente um especialista. A sociedade precisa dos seus especialistas, isso é indiscutível, e os especialistas também precisam de manter as suas reputações. Mas a valorização do conhecimento especializado numa sociedade aberta e democrática não se faz com os especialistas em bicos de pés. Faz-se com informação, discussão e deliberação. Um processo em que é o especialista que procura persuadir o cidadão, que seguidamente lhe passa o cheque depois de passado o crivo. Mas em Portugal temos o inverso. Temos a soberba do especialista, que sequestra os recursos do cidadão com mais e mais impostos, mas a quem os cidadãos devem ouvir e obedecer passivamente. Temos um czar.

O polígrafo para este homem!

“Não há corte nenhum de 7% e também não há aumento nenhum porque trata-se de uma proposta. É uma das mentiras desta campanha, a ideia de que Portugal aceitou um corte de 7% nos fundos de coesão.”, no Negócios de hoje 10/05.

Podem começar por aqui (p.29). O ex-ministro do desinvestimento, que em representação do governo português negociou a dita proposta (que inclui um corte de 7%, sim senhor), é agora o candidato da desinformação.

Quem governa o governo?

“A percepção de que o primeiro-ministro é “um artista” não é necessariamente um activo. Mas, num país de artistas, sempre é melhor do que ser olhado como um nabo.”, Bruno Faria Lopes, no Negócios (10/05)

“Presidente de câmara do PS nomeou marido como chefe de gabinete. “É mais barato”, justifica”, no Observador (9/05).

Os textos anteriores reflectem bem a actuação política de muitos em Portugal. Não há coerência. Não há rectidão. Apenas manha, aldrabice e muita falta de vergonha. Mais do que novos poderes, faltam em Portugal novos contra-poderes que limitem e contrariem aqueles que usurpam a democracia desta maneira. Que disciplinem aqueles para quem literalmente vale tudo. Caso contrário, a “filosofia” instalada levará a que sejam uns atrás dos outros, cada qual à espera da sua oportunidade para sacar e aldrabar. A mudança faz-se, não com a substituição de uns por outros iguais ou piores, mas com a eliminação do espaço que conduz à sacanice. Isto passa por recolocar o Estado no seu devido lugar: torná-lo um meio ao serviço das pessoas – a tal linha vertical de que tenho falado e que coloca as pessoas no topo – e não um fim em si mesmo. Passa por restituir a liberdade de escolha das pessoas, valorizando não os grupos, mas sim cada indivíduo.

Disse um dia Nietzche que “Madness is rare in individuals but in groups, parties, nations and ages it is the rule”. Ora, o que a perspectiva liberal enaltece, ao contrário do socialismo (nas suas diferentes formas), é precisamente a valorização das pessoas, quer na pessoalidade e na individualidade de cada pessoa, quer na liberdade de associação entre várias pessoas com propósitos comuns. Se o foco estiver nas pessoas será possível construir um futuro de soma positiva e criar a esperança. Um futuro verdadeiramente inclusivo. Pelo contrário, se o foco estiver nos grupos e na usurpação de poder, então, será um jogo de soma nula com muita desesperança e revolta à mistura. É, por isso, por paradoxal que pareça, que a valorização pessoal é o melhor caminho para a coesão social. Quem votar na Iniciativa Liberal, não estará necessariamente a votar em mim nem no partido. Estarão a votar nas ideias que eu defendo. Estarão a votar em mim um poder que eu tenciono devolver a si.