Macron, um fenómeno político

Passei a dar particular atenção à actuação política de Emmanuel Macron, quando este foi escolhido para suceder a Arnaud Montebourg na pasta da economia. Foi nesse cargo que o jovem ministro apresentou uma lei de liberalização da actividade económica, a conhecida Lei Macron, que tanta celeuma deu entre a esquerda. A lei foi, aliás, para parte do PS, uma das muitas traições de François Hollande que os seus camaradas não perdoaram.

Quando há um ano Macron fundou o movimento En Marche!, era difícil ignorar que o homem queria ser presidente da França. Manuel Valls e Hollande ficaram estupefactos, mas aquele ministro, o único que tinha mostrado coragem em mudar alguma coisa no meio do marasmo francês, tornara-se altamente popular. Demasiado popular para ser afrontado.

Em Agosto de 2016, Macron abandona o governo e lança-se na corrida ao Eliseu. As sondagens colocavam-no em terceiro lugar atrás de Marine Le Pen e de quem viesse a ser o candidato dos Republicanos. A partir daí foi sempre a subir, não de forma abrupta, mas consistente resistindo a tudo e a todos.

Macron não é um homem providencial. Tal coisa não existe. Mas não deixa de ser estimulante e encorajador, como foi para mim, acompanhar ao longo de todos estes meses, a carreira fulgurante de um homem vendo nele um possível vencedor ou, na pior das hipóteses, alguém que iria marcar a eleição presidencial francesa. A minha intervenção ontem na TVI 24 foi o culminar de um processo de análise, que foi sendo desenvolvido nos artigos que escrevi sobre o tema ao longo destes meses. Só por isso tenho a dizer que valeu a pena assistir ontem à vitória de Emmanuel Macron. O rei ia nu e ele foi o único que o disse em voz alta.

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O principal resultado da noite eleitoral em França

Présidentielle 2017 : un revers inédit dans la Ve République pour les deux grands partis français

Leitura complementar: uma vitória de pirro.

Par toutatis, os vencedores gauleses

Cartoon de Olivier Ménégol.

O candidato da extrema-esquerda, poderá aguardar pelo Carnaval para vestir o traje de Presidente.

Bênoit Hamon, candidato socialista alcança uns honrosos seis por cento dos votos e o apoio do camarada António Costa. Este último terá sido fundamental na apresentação dos equilíbrios que geraram satisfação incontida no eleitorado em geral e no Partido socialista francês, em particular.

França: uma nova república?

Com o PS reduzido a pó e a eliminação na primeira volta do candidato da direita tradicional, a França está a assistir ao nascimento de uma nova república, com novos protagonistas principais e novas ideologias.

A derrota de Fillon, que se esperava, pode significar um novo arranjo partidário da direita. Veremos isso, nas legislativas. Por agora, depois de Hamon ter apelado ao voto em Macron, é provável que Fillon faça o mesmo. Os programas são relativamente próximos e Macron conseguiu levar para a sua candidatura alguns antigos apoiantes de Fillon, políticos e empresários próximos deste que, ao longos dos últimos anos, se cruzaram com a nova estrela da política francesa.

De Hillary a Marine

Em Novembro passado, muitos defendiam a eleição de Hillary Clinton com o argumento de que seria um grande avanço ter pela primeira vez uma Presidente mulher nos EUA.

Aplicando o mesmo critério, o que acharão das opções nestas eleições presidenciais em França?

They seem quieter today…

Presidenciais francesas na TVI24

Hoje, às 23.30, vou estar na TVI24 a comentar os resultados da primeira volta das presidenciais francesas. Até lá.

Euro, dívida, banca

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A minha recensão ao livro do PCP — Euro, dívida, banca, publicada no jornal ECO.

A proposta do PCP para “romper com os constrangimentos” e “desenvolver” Portugal está condensada em oitenta e nove páginas de tamanho A5, o que é uma pechincha literária dado o desiderato económico a que se propõe. O livro “Euro, dívida, Banca” remete de imediato para panfletos políticos de igual espécie, como o incontornável Manifesto Comunista. Mas esta parecença é casual, esvanecendo-se logo na primeira página. É que, se Marx e Engels fazem um uso irrepreensível da escrita, construindo uma narrativa que, discordando-se da ideia, é possível seguir com interesse, o livro do PCP é a este respeito sofrível, sendo sofrível o qualificativo a que alguma comiseração obriga.

França: e se hoje ganharem os extremos?

Nestas eleições presidenciais francesas, tal como noutras recentes, é evidente a desilusão nos usuais partidos de poder. Candidatos populistas como Marine Le Pen (extrema-direita) e Jean-Luc Mélenchon (extrema-esquerda) sobem nas intenções de voto. Com ainda muitos indecisos (segundo sondagens), além de haver possibilidade de “voto envergonhado” (alguns eleitores não admitem em público votar nos populistas), e se hoje os dois extremistas forem os vencedores desta primeira volta?

Pode acontecer…

No Observador: Quem é quem nas eleições presidenciais?

Pat Buchanan e Donald Trump

Uma leitura muito interessante: ‘The Ideas Made It, But I Didn’t’ – Pat Buchanan won after all. But now he thinks it might be too late for the nation he was trying to save.

“Pat was the pioneer of the vision that Trump ran on and won on,” says Greg Mueller, who served as Buchanan’s communications director on the 1992 and 1996 campaigns and remains a close friend. Michael Kinsley, the liberal former New Republic editor who co-hosted CNN’s “Crossfire” with Buchanan, likewise credits his old sparring partner with laying the intellectual groundwork for Trumpism: “It’s unclear where this Trump thing goes, but Pat deserves some of the credit.” He pauses. “Or some of the blame.”

(…)

Less memorably, the 2000 campaign also brought Buchanan into contact for the first time with Trump. The New York real estate tycoon and tabloid favorite was also mulling a run for the Reform Party’s nomination at the urging of Jesse Ventura, the former professional wrestler who had won Minnesota’s governorship on the third-party ticket in 1998. Trump never followed through, but true to the form he would display 16 years later, the future president took pleasure in brutalizing his potential competition. Trump devoted portions of a book to highlighting Buchanan’s alleged “intolerance” toward black and gay people, accused him of being “in love with Adolf Hitler” and denounced Buchanan while visiting a Holocaust museum, telling reporters, “We must recognize bigotry and prejudice and defeat it wherever it appears.”

The irony today is unmistakable.

Continue reading “Pat Buchanan e Donald Trump”

O grupo de comunicação do DN, JN e TSF é um buraco

Vale a pena ler o artigo de opinião de Jão Miguel Tavares, A Global Media e o nosso homem em Macau.

(…) Perplexidade 5: As movimentações accionistas via Macau não espantam apenas pela estranha empresa KNJ, que supostamente investe “na área do imobiliário, saúde e restauração” (entradas no Google sobre a KNJ Investment antes de 2016: zero). Quem se apresentou em Portugal como mediador do negócio entre Global e KNJ foi Paulo Rego. Em 2006, era José Sócrates primeiro-ministro, Paulo Rego foi nomeado director-adjunto da Lusa. Rego foi uma escolha surpreendente. Era à altura coordenador da revista Macau e tinha ligações a uma empresa de trading que levantaram dúvidas à ERC acerca da compatibilidade com a função de jornalista. Juntamente com o director Luís Miguel Viana, Paulo Rego dirigiu a Lusa numa das épocas mais governamentalizadas da sua história.

Perplexidade 6: Afonso Camões foi administrador da Lusa entre 2005 e 2009 e seu presidente entre 2009 e 2014, quando saiu para dirigir o JN. Afonso Camões viveu em Macau entre 1991 e 1999, onde foi, entre muitas outras coisas, administrador da Teledifusão de Macau (TDM) e director da revista Macau. Paulo Baldaia disse-me um dia que ser jornalista é fazer perguntas. Aqui está uma: que negócio, afinal, foi este?

Eles é que são os presidentes

O prof. Marcelo no jardim-de-infância, a crónica de Alberto Gonçalves no Observador.

(…) Soube-se recentemente que os representantes de alguns clubes da bola recebem um relatório semanal com as opiniões que, a bem da isenção de cada um, devem reproduzir nos programas televisivos em que participam. No fundo, isto não é mais do que a imitação do que acontece no mundo partidário, onde os comentadores do ramo – invariavelmente independentes – se limitam a debitar o evangelho aprendido na respectiva sede. Umas vezes, é o futebol que segue a política. Outras, como quando governantes contemplam jogos ao lado de dirigentes desportivos ou se atropelam para tirar uma “selfie” com Cristiano Ronaldo, é a política que anda a reboque do futebol. O importante é que a velha e saudável promiscuidade não se perca.

Por sorte, nem todos se contentam em manter viva a tradição: há aqueles que procuram renová-la. O PSD, por exemplo, arriscou um passinho em frente e, na sensata convicção de que duas desgraças juntas produzem uma benesse colectiva, propôs à câmara de Loures um senhor que se notabilizou a falar de penáltis na CMTV. Além de constituir um gesto de simpatia para com os autarcas que passaram a analistas de arbitragem, a coisa promete. E já começou a cumprir.

Para início de conversa, o sujeito em causa, um tal André Ventura, acusou o FC Porto de “ingerência eleitoral”. Certas almas ofenderam-se sem razão. É natural que o sr. Ventura leve para a disputa as únicas referências que compreende, mesmo que absurdas. Se o escolhido fosse um cozinheiro, toda a gente esperaria que a campanha se centrasse no plágio de ementas. E, a julgar pelas amostras, aposto que o PSD candidatou um cozinheiro algures. Falta de respeito pelo poder local? Talvez, e o engraçado é que o poder local merecia ainda pior.

3 mulheres polícia Suecas… 1 refugiado… Resultado: humilhação

A realidade impõe-se na Suécia:

Quando ao fim de 2:50 ele pega numa pedra final e a atira contra o vidro do carro sem qualquer oposição, lembro-me dos jogos da juventude e parece-me ouvir “Humilliation”. Patético. No que a Suécia se tornou…

Este vídeo faz-me lembrar da grande diferença entre Bill Maher (esquerdista mas não mangina) e Michael Moore (total mangina) neste vídeo histórico (ver aos 8:43):

Todo o vídeo é muito revelador e se apreciam o género recomendo.

Cegueira socialista

Fotografia: Juan Barreto, AFP.

O que vê o ilustre deputado Miguel Tiago, do pcp, nesta imagem? Uma senhora em frente a um blindado sem ninguém lhe fazer mal.

Por falar em cegueira, vale a pena recuperar o legado de Hugo Chávez ao mundo, segundo o chefe dos socialistas britânicos.

O PS está a levar a melhor em Portugal

O meu artigo no Jornal Económico.

O PS está a levar a melhor em Portugal

Em 2011 o Partido Socialista faliu o país. Narrativas à parte é um facto contra o qual não há argumentos, nem sequer verdades alternativas. E houve alertas, avisos para que o Partido Socialista não falisse Portugal, deixasse de alimentar com dívida a dívida que nos sufocava.

Veio a troika, nos termos e condições negociados pelo PS, e que PSD e CDS implementaram. A partir do momento em que tiveram a sorte de perder as eleições em 2011, os socialistas esqueceram o que fizeram, ignoraram o que acordaram com os credores e puseram-se à parte de qualquer solução para o endividamento que implicasse cortes na despesa pública. O PS sabia na altura, como sabe agora, que os principais visados desses cortes orçamentais constituíam a sua base eleitoral. A austeridade foi a salvação do Estado, mas seria o fim do PS se o Partido Socialista pactuasse com ela. E isso, os socialistas não podiam aceitar.

E não aceitaram comportando-se, entre 2011 e 2015, como bem sabemos. Entretanto, na Europa, outros partidos socialistas, que não tiveram o discernimento do português, pagaram caro a sua honradez. O PASOK desapareceu da Grécia, o PSOE está de rastos, o PSF como sabemos, o Labour entregue a um radical, na Holanda foi feito em pedaços e na Alemanha, o SPD – responsável pelas reformas que salvaram o Estado social alemão – está há mais de dez anos arredado do poder.

Mas em Portugal, não. Em Portugal, o PS é de outra lavra. Tem outra cultura. É muito mais esperto. E esperto como é salvou o socialismo português revertendo as medidas mais impopulares do anterior governo, como os cortes dos salários e das pensões, mas esqueceu todas as que, sendo indispensáveis, o PSD nunca poderia apontar o dedo ao PS.

Assim, Costa não reverteu o brutal aumento de impostos de Gaspar. Como é que o PSD pode criticá-lo de não o fazer se foi o PSD que subiu os impostos? Costa cortou no investimento público; mas como é que o PSD pode criticá-lo se o PSD defendeu menos investimento público para que haja mais investimento privado? Costa reverteu as medidas que desfavoreciam o seu eleitorado e, para agradar a Bruxelas e conservar o financiamento do Estado pelo BCE, manteve aquelas relativamente às quais o PSD nada pode dizer.

Assim se salvou o PS português, mesmo que à custa do país. E se o PS tem agora um futuro luminoso à sua frente, o mesmo não pode dizer Portugal. Preso neste colete de forças de uma elite que nos governa e que salvou a pele, o país fica-se pela mediocridade de que nunca se libertou. Para que tal acontecesse seria preciso que o PSD apresentasse um programa reformador e liberal, o que não se espera. O PS levou a melhor em Portugal, o que não significa que seja o melhor para todos.

Hoje é feriado no Brasil: Tiradentes

O dia de amanhã, 22 de abril, é o dia em que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil. Por aqui, não é nem nunca foi feriado, embora de alguns anos para cá tenha passado efetivamente a ser, porque ao menos no estado do Rio de Janeiro foi criado o “dia de São Jorge”, que todos sabem efetivamente ser o dia de Ogum. E é verdade que, devido à mistura que o povo faz, mantendo a tradição dos escravos, entre entidades do catolicismo e do candomblé, as igrejas dedicadas a São Jorge ficam lotadas de fiéis do orixá africano.

Mas eu queria mesmo era falar de Tiradentes. Será que é conhecido em Portugal? Não faço a menor ideia. No Brasil, Tiradentes é um personagem talvez melhor conhecido do que o próprio imperador Pedro II. Isso porque, como Tiradentes opôs-se à monarquia portuguesa, virou ícone da república brasileira. Isso porque Tiradentes, enquanto acontecia a Revolução Francesa (foi degolado em Minas Gerais em 1792), queria instaurar uma república no Brasil.

O que nos dá o que pensar, talvez um pouquinho mais em Portugal do que no Brasil, é que o principal motivo do ressentimento contra os portugueses na região das minas era a cobrança de impostos. A Coroa portuguesa ficava com intoleráveis VINTE POR CENTO da produção de ouro. O marquês de Pombal, agravando a situação, decidira estabelecer metas de produtividade para o Brasil, e as autoridades deram início à “derrama”, que era o equivalente ao midnight knock on the door para ver se o sujeito tinha algum ouro em casa para enviar ao marquês de Pombal.

O que aliás me lembra que o prefeito de São Paulo, tão louvado como “gestor” quanto o velho marquês, acaba estabelecer uma multa de 100% sobre impostos sonegados — e na definição dele de “sonegação” estão honest mistakes da contabilidade. Suponho até que, em Portugal, como no Brasil, também aconteça esta maravilhosa inversão do ônus da prova: quando o Estado acusa você de não ter pago imposto, você é que tem de provar sua inocência, não o Estado que tem de provar a culpa do sonegador.

Mas divago. Talvez pudesse divagar mais, lembrando de George W. Bush prometendo em sua primeira campanha que “ninguém terá de pagar mais do que um terço de sua renda…” Imaginem isto, um sujeito em Minas Gerais, em 1792, sendo morto e esquartejado por ressentir-se de 20% de impostos, e de cotas de arrecadação.

O imperialismo contra-revolucionário ataca

O PCP diz estar do lado do povo venezuelano, que tem sido vítima de uma «ingerência do imperialismo». O PCP tem razão. Pelas fotos percebe-se nitidamente, se dúvidas houvesse, que se trata de uma contra-revolução burguesa.

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Fonte: In Venezuela, The ‘Mother of all Marches’, The Atlantic.

Pela vacinação dos Economistas antes de viajarem para o mundo da política

Um dos fenómenos mais curiosos dos tempos que vivemos é a acefalia que morde alguns economistas com extensa carreira académica quando decidem dedicar-se a esse mundo cão que é a política. Não que não compreenda que para sobreviver na selva tenham de assumir uma postura mais agressiva – afinal, os economistas e os docentes sofrem das mesmas ansiedades que os comuns dos mortais, e a política local é um pouco como o faroeste – mas, ainda assim, é um mistério da natureza esta tendência para o harakiri que exibem no momento em que procuram atingir o estrelato. Alma amiga diz-me que isso poderá explicar-se à luz do Princípio de Peter. Eu não vou tão longe, mas acredito com convição que o problema é mesmo da evolução da ciência, que ainda não descobriu a vacina que torne imunes os cidadãos comuns ao vírus da política, ambiente para o qual nem todos os sistemas imunológicos estão preparados.

O candidato à Câmara do Porto (“CMP”), Professor Doutor Álvaro Almeida fez no twitter um conjunto de afirmações que importa desde logo avaliar.

A primeira das quais diz respeito à que põe em causa a redução do endividamento da CMP: “Gostava de saber qual a teoria económica que defende que é boa gestão pública reduzir a dívida em 70% em 3 anos“. Não sendo versado nas teorias económicas dominantes na Faculdade de Economia do Porto, há um conceito básico, na economia das pessoas comuns, ignorado olímpicamente por keynesianos e socialistas no momento de fazer gestão da coisa pública, denominado custo de oportunidade, que ajuda a explicar esta decisão.

O custo de oportunidade faz referência ao valor da melhor opção não realizada ou ao custo do investimento dos recursos disponíveis em detrimento de outros investimentos alternativos. O custo de oportunidade corresponde ao encargo associado à renúncia na hora de tomar uma decisão. O custo de oportunidade pode também explicar-se como o custo de um investimento não levado a cabo, isto é, o custo de não se ter adoptado a melhor alternativa disponível. Num momento em que as taxas de juro estão a um nível historicamente baixo, a amortização de dívida antiga, com elevada probabilidade subscrita a um custo superior ao atual, parece ser uma boa opção. Qualquer pessoa percebe isso. Poupa-se nos juros. Ou seja, se a dívida não tivesse sido amortizada, o custo de oportunidade corresponderia aos diferencial de juros que não se teriam poupado*. Em Finanças Públicas, esse valor corresponderia a impostos. Portanto, ao optar por amortizar dívida, a CMP promoveu uma redução de impostos.

(*) Mesmo que a dívida fosse indexada, o simples facto de se optar pela amortização terá sido uma boa opção, por ter associado um ganho correspondente ao diferencial entre o juro pago e o juro recebido, sabido, como se sabe, que os juros da dívida têm por definição uma remuneração mais alta do que as aplicações de capital.

Acresce que é nos momentos em que existe alguma bonança que se deve proceder a amortização de dívida, para permitir alguma folga em momentos de dificuldade. Parece que o PSD de Álvaro Almeida esquece o que se viveu em Portugal em 2011 e 2012.

A única forma de pôr em causa esta decisão de amortização de dívida seria apresentando investimentos alternativos que poderiam ter sido feitos, com rendibilidades superiores, opção essa que, quando se fala de gestão pública, se cruza também com concepções de índole política (em qualquer caso, por aqui já estamos vacinados para saber a diferença entre as rendibilidades dos investimentos públicos, calculadas antes e depois do investimento estar concluído**). Algo que Álvaro Almeida não justifica, porque não nos diz como investiria (assumindo que despesa pública é investimento) esta liquidez, agarrando-se, surpreendentemente, à questão fiscal, para afirmar que os montantes usados para amortizar dívida deveriam ter sido usados para, pasme-se, reduzir impostos. Algo que, como se viu, opera automaticamente pelo simples facto de se ter procedido a uma amortização de dívida.

(**) Recordam-se do que nos dizia o Ministro Teixeira dos Santos e o Primeiro-Ministro José Sócrates quando aumentavam exponencialmente a dívida para fazer “investimentos virtuosos” com “rendibilidades fantásticas”?

E este é talvez o ponto que mais me choca, porque tecnicamente, uma redução de dívida pública corresponde a uma diminuição fiscal. Quando confrontado no twitter com esta evidência, Álvaro Almeida escudou-se na ideia que ao amortizar dívida em montantes que ele considera “excessivos”, se está a prejudicar as gerações atuais em benefício das gerações futuras: “Uma redução de dívida demasiado rápida é uma péssima decisão porque coloca um peso demasiado grande nos contribuintes atuais“. Para se saber se a amortização adoptada pela CMP é “demasiado rápida” ou “demasiado lenta“, Álvaro Almeida teria de nos demonstrar que as utilidades associadas aos investimentos que deram origem ao endividamento estão muito para lá do prazo adoptado para a amortização. Cenário indemostrável face à natureza do endividamento da CMP.

A decisão da CMP determina que as receitas de hoje sejam utilizadas para reduzir a sua dívida, hoje, permitindo que os cidadãos do amanhã possam ter mais opções, alocando menos recursos ao pagamento da dívida do passado. Que seja um economista que supostamente defende o espaço político do centro-direita a fazer estas afirmações, é algo de completamente supreendente, e que estou seguro, fará corar com vergonha alheia muitos dos seus apoiantes, que gostaria de ver por aí a defender os méritos de semelhantes teses.

Ao contrário do que Álvaro Almeida afirma, a questão da redução do endividamento e a opção por não gastar só porque se tem dinheiro em caixa não é uma matéria justificável à luz da teoria económica, mas das opções políticas. E aí parece-me legítima a discussão que procura clarificar porque razão a CMP não cumpriu na totalidade a execução da despesa orçamentada. É importante perceber as razões que fundamentam tal resultado. Em qualquer caso, ficámos já a saber, por estes dias, que Álvaro Almeida faz parte do núcleo de políticos que, desde logo, considera que não há dívidas excessivas, e que, havendo dinheiro em caixa por ineficiente execução da despesa – lol! – considera que se devem fazer “investimentos públicos” – sem dizer sequer quais – em vez de reduzir a carga fiscal das gerações futuras.

Podemos ainda tirar mais duas conclusões:

  • A primeira, é que Rui Moreira é seguramente o primeiro político da História de Portugal que é questionado – e criticado por uma oposição supostamente à direita – por não ter gasto tudo o que tinha à sua disposição, gerindo com parcimónia – a CDU chama-lhe “Tio Patinhas” – o dinheiro que não lhe pertence.
  • E que Álvaro Almeida faz parte do núcleo de políticos que, desde logo, considera que não há dívidas excessivas, e que tendo dinheiro em caixa, prefere fazer “investimentos” em vez de reduzir a carga fiscal das gerações futuras.

A vida tem destas ironias. Quem diria que no Porto, PSD e CDU se uniriam numa Geringonça pouco invicta para atacar a sobriedade nos gastos do Presidente em exercício.

Nota adicional: em resposta a uma interpelação que fiz no Twitter, “E se a taxa de juro dos empréstimos amortizados for onerosa face às condições atuais? E o custo de oportunidade, ignora-se?“, Álvaro Almeida respondeu: “Se a taxa de juro for onerosa, substitui-se dívida cara por dívida barata“. Tirem, à luz deste post, as vossas conclusões.

Compreender o putinismo LXVI

Testemunhas de Jeová, alvo de perseguição por parte do estado de Vladimir Putin.

Russia bans Jehovah’s Witnesses deeming it an ‘extremist’ organisation after prosecutors said it ‘destroys families and fosters hatred’

Russia’s Supreme Court has banned Jehovah’s Witnesses on Thursday It ruled the organisation was ‘extremist’ and shut down its headquarters

Authorities have put several publications on the banned extremist literature list

Russia’s Supreme Court has banned the Jehovah’s Witnesses, deeming them an ‘extremist’ organisation.

The ruling means the religious group’s 175,000 followers in Russia are equated to Islamic State members.   (…)

Coisas estranhas

Há cerca de uma semana o Observador publicou uma reportagem sobre uma rede de influências (chamemos-lhe assim para evitar processos legais) dentro do PSD Lisboa. À primeira vista, isto seria uma excelente oportunidade para a sempre eficaz máquina de propaganda do PS. Seria de esperar que os outros orgão de comunicação social também pegassem no tema. Podíamos ter aqui em mão um novo caso offshores, com o benefício adicional de que aqui existirem mesmo negócios suspeitos e a ligação ao PSD ser inequívoca. No entanto, ninguém pegou no assunto. Os orgãos oficiais e menos oficiais da propaganda socialista nem sequer mencionaram o assunto. O resto da imprensa também evitou desenvolver a questão. Passados apenas 6 dias, o caso morreu. Porque será? Será que a concelhia do PSD Lisboa tem um lugar especial no coração da imprensa e dos socialistas? Se é verdade que tem, porque será?

Revolução francesa

A grande maioria dos comentadores está pasmada com o que se passa nas presidenciais francesas. Na verdade, entre os quatro candidatos com possibilidades de passarem à segunda volta apenas um, François Fillon, pertence a um dos partidos tradicionais. Dos restantes três, Jean-Luc Mélenchon e Marine Le Pen, apesar de estarem na política há muito tempo, pertencem a partidos charneira e propugnam políticas radicais, em grande parte contrárias às seguidas nas últimas décadas. Já quanto a Emmanuel Macron, apesar de estar mais dentro do sistema do que quer fazer crer, Macron tem vários padrinhos políticos fortemente posicionados na estrutura do Estado e no sector empresarial francês, não seguiu os trâmites normais do processo de ascensão política.

No entanto, para um espectador atento, nada disto é uma surpresa. Há alguns anos que a França está a passar por um profundo processo de transformação política. Em 2015 tive oportunidade de escrever precisamente sobre isso para o Diário Económico e, entretanto, muita mais água correu de baixo da ponte. Foi o livro de Éric Zemmour, ‘Le suicide français’, publicado em 2014, um sucesso de vendas e no qual o autor culpa o Estado republicano e laico pelo enfraquecimento do poder político, mas também Alain Finkielkraut, cujo livro ‘L’identité malheureuse’ tem dado que falar. Já dei conta de Finkielkraut aqui no Insurgente, aquando do seu episódio com a Nuit Dedout, quando este filósofo francês apelidou de fascista o movimento de extrema-esquerda. Finkielkraut é tão ou mais crítico que Zemmour, embora procure soluções mais razoáveis. ‘L’identité malheureuse’ aborda de um modo politicamente incorrecto a imigração e a ferida que esta provocou na identidade francesa. O capítulo sobre o laicismo é sublime na forma como defende o ensino público e na crítica ao mau uso que a hipocrisia dele fez.

Há muitos mais autores como Pascal Bruckner e a sua defesa da liberdade individual. Outro, é Michel Onfray. A forma como Onfray foi ostracizado pelas correntes políticas de esquerda é muito importante para se perceber o descalabro da esquerda moderada francesa. Há precisamente um ano, desta vez no Jornal ‘i’, referi-me a este homem que, apesar de esquerda, foi por esta banido porque, como Onfray depois explicou, está dominada pelo ódio. Onfray pôs o dedo na ferida e se dermos um pouco de atenção ao que ele escreve, percebemos Benoît Hamon, Jean-Luc Mélenchon, Arnaud Montebourg e, sim é verdade, Marine Le Pen.

Como a esquerda se pôs à margem deste debate político é de realçar que a transformação política ocorrida se fez à direita. Unicamente à direita. Esta revolução de pensamento ocorreu na direita e faz-se agora notar nas eleições presidenciais de 2017. Como? Com o descalabro do PS francês, com o discurso de Fillon, que só não vencerá devido ao caso dos empregos fictícios e com o surpreendente surgimento de Macron. Este, com um discurso relativamente moderado pode, caso vença e imponha o seu partido nas legislativas, ser o novo De Gaulle francês, que ele tanto admira. A esquerda, com o PS de Mitterrand reduzido a pó, Mélenchon com propostas de um mundo antigo e uma Marine Le Pen (sim outra vez, de esquerda, como referiu Zemmour) representa um risco sério à França e à Europa precisamente por não ter evoluído.

Macron e Fillon até podem não passar à segunda volta. Mas se tal suceder, não é porque não tenham ouvido as críticas feitas à orientação política seguida nos últimos anos. Se ficarem de fora no Domingo é porque vieram demasiado tarde. Se Marine Le Pen e Mélenchon passarem à sua segunda volta, com um programa político e económico preconceituoso e a cheirar a mofo será porque a esquerda não quis fazer parte deste debate. Se colocou à margem e, à margem, ficou parada no tempo. Como Portugal, a França está dividida: de um lado, encontram-se muitos dos que estão protegidos por leis que prejudicam os que ficaram ou querem ficar de fora do feudo; de fora do domínio dominado por um conjunto de políticos que vêem neste sistema uma forma simples de garantir votos, vencer eleições e governar com a legitimidade que dizem ser democrática.

A revolução francesa a que assistimos é prova de que um verdadeiro debate político pode mudar o cenário partidário de um país. Se vem a tempo é o que ficaremos a saber já no Domingo.

26 Manifestações em Caracas na “Mãe de Todas as Marchas”

Se ouvirem a peça da EuroNews, ficam a saber que na “Mãe de todas as Marchas” houve manifestações nas principais cidades Venezuelanas e que só na capital houve 26 pontos de partida que depois confluíram no centro da cidade onde uma massa humana de várias dezenas de milhar exigiram eleições antecipadas. Já na CBS Miami podem ouvir sobre os protestos de venezuelanos em Miami em solidariedade com os compatriotas, explicando aos repórteres os motivos de tal protesto. Já neste artigo da Globo podem ler os protagonistas e as causas da crise (incluindo o “desabastecimento”).

Reações em Portugal: na imprensa, foca-se a morte dos manifestantes. Suponho que para que os leitores/ouvintes depois tolerem melhor a repressão das GNB, MNB e FAB quando esta se intensificar; nos partidos à esquerda, PCP lidera a revolta contra a intromissão imperialista (ler original), enquanto o Bloco faz um relato desapaixonado e rigoroso do PREC Venezuelano como se achasse este tipo de acontecimentos normais e banais.

A sério, em que tipo de país é que eu vivo!

No Hay Comida

(imagem de Maio de 2016, em protestos contra as filas em Caracas)

 

Do essencial e do acessório

Maria Filomena Mónica teve o azar de escrever sobre um tema que a fez cair nos tentáculos e na ironia muito própria do Padre Portocarrero e de uma das suas fãs, a Mafalda Miranda Barbosa, que aproveitaram a ligeireza jurídica com que tratou do tema dos casamentos nulos à luz do direito canónico, para produzirem publicamente várias lições de sapiência, que muito impressionaram este país tão ignorante das questões da Teologia e do Direito.

As virtudes jurídicas e teológicas vertidas da pena do Padre Portocarrero e da Mafalda Miranda Barbosa não me merecem contestação, pese embora pudessem ter dado um pouco mais de atenção ao esclarecimento do conceito de “anulação”, que também opera no caso dos atos nulos. Mas, enfim, e simplificando, sou capaz de arriscar dizer, sem ser acusado de impiedade, que as lições de sapiência que nos foram oferecidas pelo Observador, são férteis na explicação do acessório, ignorando o essencial. E explico porquê, ex ante, não vá cair um raio sobre a minha cabeça.

Do que percebi, Maria Filomena Mónica contesta – sendo esse o motivo da contenda – algo que qualquer pessoa que viva neste mundo sabe: que a nulidade dos casamentos católicos, durante séculos, serviu sobretudo as classes mais abastadas, capazes de suportar o custo e as inerências de um processo caro e de acesso difícil, dada a irredutibilidade histórica da hierarquia da Igreja em tornar a tramitação simples e célere. A nulidade sempre foi um privilégio de classe, como diriam os marxistas, estando destinado ao povo a vida em pecado. A mácula, é do conhecimento popular, e parece que também da mãe de Maria Filomena Mónica, ia diminuindo à medida que se subia na escala social, não sendo por acaso que o pobre do Thomas More acabou fechado na Torre de Londres, por não ter capitulado aos caprichos de Henrique VIII, como seria normal e adequado numa época em que a Igreja ainda ressacava dos Papas Bórgias. Vai daí o Rei de Inglaterra criou a sua própria Igreja, que lhe permitisse resolver as coisas diretamente com Deus, e com a sua (parece que má) consciência, sem ter de se sujeitar à mediação e complexidades dos intermediários que, em nome dos fiéis, têm como função levar – e trazer – a carta a Garcia.

A virtude da Igreja, em pleno século XXI, diria, não fica beliscada por se reconhecer algo que é uma realidade evidente. Aliás, os sistemáticos defeitos de fabrico do processo de nulidade do casamento foram reconhecidos pelo Papa Francisco que, em 2015, promoveu uma série de alterações que, não ferindo aquilo que é a integridade do casamento religioso, procurou mitigar os efeitos perversos da sua tramitação, com especial enfoque na morosidade, na produção da prova e – pasme-se -, no seu custo, a saber:

  1. O processo para se iniciar já não necessita de ser acionado por ambos os cônjuges, mas apenas por um;
  2. O processo passou a ser mais simples, não sendo necessárias duas sentenças, mas apenas uma, prevendo-se ainda um processo breve, que em muitas circunstâncias possibilita a nulidade por via administrativa sem que seja necessário recorrer a um Juíz;
  3. Prevê-se que a nulidade seja tendencialmente gratuita, reconhecendo-se que até à data o fator pecuniário era fator de exclusão para muitos, que não podiam pagar um processo que dificilmente custaria menos de 10 mil euros.

É caso para se dizer, literalmente, que por cá temos personalidades que são “mais papistas que o Papa“. Mas ninguém duvide que sabem bastante de Direito e de Teologia, embora usem esses conhecimentos a la carte. Como dizia o outro, “com a verdade me enganas“, o que, não sendo provavelmente pecado, não fica muito bem a quem usa batina.

Tenho uma lágrima no canto do olho

Parece-me pacífico que o Ministério Público não deveria, na fundamentação de uma decisão de arquivamento, insinuar culpas que não foi capaz de provar. É, infelizmente, um hábito frequente, que ocorre recorrentemente, não apenas em processos em fase de inqúerito, mas também em sede judicial: é que são várias as sentenças onde juízes não abdicam de deixar a sua marca pessoal sobre aquilo que tiveram de apreciar, convictos que estarão que, não obstante a dificuldade de produção de prova, o réu será culpado. São inúmeros os casos em que tal acontece, sem que tal mereça a atenção de uma certa opinião publicada. Até se fica com a ideia que as instituições da justiça só correm riscos de apreciação mediática quando beliscam o conforto dos donos do país.

Dito isto, fico fascinado com a veêmencia com que alguns colunistas defendem o Estado de Direito, quando as vítimas deste bullying judicial são personagens com ascendente social, como Dias Loureiro e José Sócrates. Não me leiam mal: considero que qualquer um dos dois tem direito à defesa do seu bom nome, e merece que a sua presunção de inocência não seja manchada por visões subjetivas de quem tem a espinhosa missão de fazer justiça em Portugal. Daí que até hoje nunca me tenha pronunciado sobre nenhum processo judicial em curso.

Mas em igual medida, assim como não me motiva desenvolver processos de intenção em relação a matérias que cabe aos tribunais e às magistraturas decidir, não me vejo a rasgar as vestes na defesa do “Estado de Direito”, quando por alguma razão, o sistema judicial belisca poderosos em decadência.

Serve a presente prosa para suportar a seguinte conclusão: sentir-me-ei ridículo – e espero que as circunstâncias da vida me poupem a tal vergonha – se algum dia tiver de verter um desagravo com odes à coerência e às pitonisas da justiça, como o que escreveu o Diretor do DN, e que termina com a comovente frase, que muito me sossegou:

“(…) podem estar descansados, no DN vamos continuar a bater-nos pela defesa do Estado de Direito e estaremos sempre na linha da frente para fazer jornalismo de acordo com as regras estabelecidas e não em defesa de interesses próprios (…)”.

 

A oportunidade perdida do Governo Português

Durante a campanha para as legislativas, apontando várias vezes os desequilíbrios e assimetrias de poder na Europa, exaltando o imperativo de refundar o projeto europeu, o PS propôs-se defender os interesses portugueses com uma voz mais grossa, em Bruxelas, prometendo também, caso vencesse as eleições, uma menor submissão portuguesa na Europa.

Também o programa socialista, em particular o Capítulo III, prometia “novos impulsos”, “reequilíbrios económicos e sociais”, correção de “assimetrias”, etc. E eis que, aquela que era apenas uma promessa eleitoral de uma esquerda cheia de brio pela pátria, finalmente se materializa: diante de câmaras e flashs, o governo fez-se representar por um secretário de Estado que, a transbordar de testosterona política, enche o peito de furor patriótico para manifestar a tal voz grossa portuguesa ao ministro das finanças holandês – “aquele-cujo-nome-não-se-pronuncia” – na sequência de uma polémica já muito glosada.

Mas a oportunidade socialista de liderar os destinos europeus, refundar as políticas financeiras do Eurogrupo e pôr na ordem os países do Norte, não se esgotou neste momento televisivo de glamour para consumo interno: o ministro das Finanças português era então sondado para substituir aquele que tem sido tratado, de forma bastante grosseira, como o Lord Voldemort das finanças europeias.

As condições pareciam estar a ser criadas para que Centeno fizesse valer a posição socialista, para partilhar a fórmula mágica que tem vindo a implementar em Portugal, para reverter o “fanatismo ideológico” e austeritário e defender, na Europa, uma política menos penalizadora da economia e do tecido social. Enfim, para liderar o programa de “reformas estruturais” diferentes que se propôs aquando da campanha.

É por isso surpreendente que o PS não queira aproveitar esta oportunidade argumentando que a liderança do Eurogrupo não está nas prioridades do governo. Pelo contrário, dessa cartilha de prioridades parece estar o apoio ao ministro das Finanças espanhol, Luís de Guindos que, em 2013, em entrevista ao “Financial Times” enaltecia a qualidade das políticas implementadas na Zona Euro. Este apoio a Guindos, um defensor da austeridade nos anos de crise e das políticas adotadas pela Europa, o ministro que implementou cortes substanciais na despesa espanhola para reduzir o défice, amplamente criticado pela esquerda espanhola, indicia que o PS ultrapassou o espasmo patriótico e ocasional de outrora, deixando escapar a oportunidade de demonstrar e de dinamizar, ao nível europeu, a ‘alternativa’ à austeridade que tem vindo a implementar por cá.

Texto publicado ontem no jornal i.

Nós, os Verdocas e as Vacinas

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Reparo numa situação caricata. Vejo que se verifica, como em poucas vezes, um consenso relativamente à crítica aos pais que não vacinaram os miúdos. Mas a gravidade da situação está na hipocrisia patente em criticar a atitude, olvidando a ideologia. Se um casal de rednecks do Sul dos EUA deixasse – como muitos deixam – morrer uma criança por negligência de tratamento médico, atitude esta consequência do seu conjunto de valores, as redes sociais e os jornais estariam recheados de notícias e comentários contra o (suposto) tenebroso obscurantismo dos cristãos. Partir-se-ia, portanto, da atitude para a ideologia que -supostamente – a causa. Ora eu ainda não vi ninguém a expor o grau de demência dos hippies naturalistas que lançam vivas à homeopatia e outras formas de banha da cobra – só falta, tendo em conta os tempos, exigirem terapias de Reiki no SNS – e que preferem vacinar os cães em detrimento dos filhos. Talvez sejam os mesmos que enchem o facebook com máximas que nos explicam que os animais são preferíveis às pessoas. É a modernidade que, além de desumanizar, amplia nichos circenses, legitimados por leituras dignas do Prof. Mambo e pelos partidos e agremiações que conhecemos de outras festas, numa eterna batalha contra forças secretas e, acima de tudo, contra o Homem, essa criatura repelente.

O caro leitor já apanhou, certamente, sujeitos destes à mesa – se não apanhou, certamente tem sorte. Eles têm dietas que os imunizam das doenças, têm tratamentos “com milénios de história” que os curam delas – o que refuta o ponto anterior, mas quem falou em lógica? Eles amassam a sua com a autoridade moral de quem se libertou de todos os químicos que o capitalismo lhe enfiou pelo bucho e de todos os medicamentos – inúteis pela certa – que uma consipiração que começa na indústria farmaceutica e descamba nos Bilerberg o obriga a tomar. Você, caro leitor, é uma besta sem auto-consciência espiritual que se vai deixando levar pelos homens do poder. Essa dorzinha já os tipos na Babilónia sabiam curar. E se não for caso de médico chama-se um xamã. Eles sabem, pois. Leram uma vasta bibliografia  de livros, panfletos e artigos da internet, foram a inúmeros colóquios, workshops e acampamentos, estando portanto bem mais habilitados que o vulgo – os médicos não contam, pois estão comprados – para dissertar sobre a saúde das massas. O mundo apelida-os de loucos – Matias Damásio é sempre apropriado nestas situações – mas loucos somos nós.

E, por meio desta loucura auto-infligida – choca-me a leviandade com que se lança no escárnio o sujeito que vai implorar ao Santo por ajuda, respeitando, ao mesmo tempo, gente que, além de prejudicar terceiros com o seu obscurantismo, ainda faz questão de tentar institucionalizar a coisa. E vem sempre um idiota útil – Lenine sempre teve uns apelidos porreiros para distribuir – pregar o respeito. Vamos lá ser coerentes. E além da coerência, sempre vital, admitir que tratamos de um problema de saúde pública, em que o suposto argumento da liberdade individual não escuda terceiros do potencial epidémico da questão da não-vacinação, nem protege as crianças à guarida desta gente, em questões como a de outros tratamentos ou na da nutrição. Evocar argumentos Rothbardianos sobre a legitimidade da negligência, além de suicídio assitido para o movimento liberal – assistido por Rothbard – em nada ajuda a um debate cada vez mais importante na sociedade actual e que não se pode guiar por teorias sem qualquer aplicação viável ao nosso mundo. Enquanto aguardo as vossas reacções vou ali ver se os meus orixás me tratam esta dor nas costas.