Mad World

Na sequência das denúncias de assédio e abuso sexual por figuras públicas, uma mãe da vila inglesa de North Shields resolveu subir a parada e exigir a retirada de um perigoso livro da lista de leituras da escola do seu filho de seis anos. Trata-se da Bela Adormecida, estando Sarah Hall preocupada com o impacto no seu filho do comportamento predatório do príncipe (que beija Aurora sem o consentimento desta). Se ao menos Harvey Weinstein e Kevin Spacey não tivessem sido expostos ao livro dos irmãos Grimm ou mesmo, quem sabe, ao filme da Disney…

Com notícias destas e outras como a das Rainhas Magas vem-me à cabeça o refrão da canção: “It’s a very very mad world…” (na versão de Gary Jules para o Donnie Darko).

Anúncios

O sacrifício do cordeiro

1046218.jpeg

Não é cordeiro nem se sacrificou, mas Ricardo Araújo Pereira foi estendido e simbolicamente enterrado pela turba inquisitorial que policia o pensamento e que faz birra porque o mundo teima em não ser como tweetam. O crime do Ricardo? Ter opinião — e não ser um cordeiro.

Percebe-se. Afinal, há coisas invioláveis à luz da mais nobre ética republicana. A primeira é duvidar da sacrosantidade de José Sócrates e da incapacidade das amásias em questionar de onde vinha o dinheiro — o que acontece em Formentera fica em Formentera. A segunda é achar que até não estamos mal, e que aqueles rituais obscurantistas de supressão da liberdade de expressão e de ideias, tão em voga no séc XVI, não devem ser mais do que um pequeno compêndio nos livros de história.

Daqui se conclui que se não estás com eles, estás contra eles, Ricardo. Ou contra elas. Ou contra el@s. Ainda que tenhas defendido a legalização do aborto, pairado pelo PCP, votado no Bloco, apoiado o Livre, não é aceitável que não alinhes em toda e qualquer causa progressista do dia.

Se dúvidas houvesse da importância do progresso, ainda ontem se dava conta de mais um flagelo acometido no Reino Unido, que só não tomou outras proporções porque uma mãe atenta decidiu interceder. Não é que foram passar o filme da Bela Adormecida na escola da filha de 6 anos? Esse mesmo, o filme em que a Princesa, que não havia previamente autorizado o beijo do Príncipe pois encontrava-se a dormir, foi beijada de supetão. Ilustrado, sim, mas assédio sexual.

Perguntam-te enfim, como derradeiro momento de redenção, antes mesmo de desembrenharem a faca: de que lado vais estar, Ricardo? Eu não sei, mas o jardim visto do lado de lá do manicómio parece um lugar bem mais agradável.

Um País Amigo Do Investimento

Podem organizar quantas Web Summits quiserem e pode muito bem continuar o António Costa a pregar e a repetir vezes sem conta em conferências que “Portugal é um óptimo sítio para investir”. As acções valem muito, mais muito mais do que qualquer palavra.

Depois da não-redução da taxa de IRC para 19% como acordado entre o PS e o PSD ainda no tempo de António José Seguro, a Esquerda Unida (a.k.a. Geringonça), aprovou ontem um aumento da  derrama do IRC para empresas com mais lucros – que, populismo à parte, são as empresas que mais interessam manter e captar para Portugal.

Os lucros das empresas começam a ser tributados a partir de 1,5 milhões de euros, com uma taxa de 3% até 7,5 milhões. De seguida vem uma taxa de 5% dos 7,5 até aos 35 milhões. Até aqui, a taxa era de 7% para lucros a partir dos 35 milhões, mas com esta alteração aumenta dois pontos percentuais.

Mais nocivo do que a medida em si, é o sinal que é dado aos investidores. Hoje é este aumento, amanhã será outro. Empresas bem sucedidas não são bem vindas aqui aqui. Continuarão a existir felizmente muitos outros países que acolherão estas empresas de braços abertos.

Benfica 2017/18 continua a somar recordes!

Benfica em risco de se tornar a pior equipa portuguesa de sempre na ‘Champions’

12 golos sofridos e apenas um marcado. Benfica de Rui Vitória está a caminho de entrar para a história pelas piores razões.

O pior Benfica de sempre

Cinco jogos para a Liga dos Campeões, cinco derrotas, doze golos sofridos e um marcado. As estatísticas do Benfica falam por si, falam de uma crise. Com a derrota em Moscovo, os encarnados consolidaram o estatuto de pior cabeça de série de sempre

Continue reading “Benfica 2017/18 continua a somar recordes!”

The EU budget after Brexit

Commission gets glimpse of post-Brexit EU budget horrors

In the worst-case scenario, radical budget cuts would mean no more cohesion funds in most of Western Europe.

Continue reading “The EU budget after Brexit”

Marcelo, o presidente dos sofredores

Terá Marcelo pena de nós por não passarmos da cepa torta? A minha crónica hoje no i.

Marcelo, o presidente dos sofredores

Na semana passada escrevi sobre como Marcelo mudou desde o princípio do seu mandato presidencial. Hoje faço-o sobre como essa mudança prova o quanto Portugal se mantém igual. É cada vez mais certo que o crescimento económico que temos presenciado está a ser distribuído através de favores que visam a manutenção do PS no governo, a satisfação dos interesses dos sindicatos do PCP e a agenda do BE.

Tal como no passado, a conjuntura internacionalmente favorável que vivemos não está a ser aproveitada para reformar o Estado e libertar a economia. O país vai pagar muito caro cada dia que passa com o atual governo. Marcelo já o percebeu e age em conformidade. Nas últimas semanas tem consolado as vítimas dos incêndio, da mesma forma que, dentro de algum tempo, consolará as vítimas das atuais políticas.

Marcelo é hoje mais um consolador da nossa tragédia que um político. Cada abraço de conforto que dá, cada palavra de força que profere vai nesse sentido: consolar um país cujo fado é sofrer. É muito interessante ver como, enquanto Cavaco, apesar de todas as suas idiossincrasias, apelava ao esforço e à vontade para se superarem as dificuldades, Marcelo se contenta em consolar os pobres porque serão sempre pobres.

Ao vê-lo no seu afã por estar com os que sofrem, este novo Marcelo que nos surge triste, contristado, com pena dos portugueses, faz-me crer o quanto ele finalmente compreendeu o sacrifício imenso que é viver aqui, de forma pequena. Sem horizontes, sem esperança, sem saída.

Partido Socialista, O Partido Da Austeridade

Ainda antes de qualquer pedido de ajuda internacional ou assinatura de qualquer memorando de entendimento com a troika para a execução de um programa de ajustamento, vale a pena recordar as iniciativas austeritárias do governo do Partido Socialista, então liderado por José Sócrates, para o orçamento de estado para 2011 (fonte):

MEDIDAS DO LADO DA DESPESA

  1. Reduzir os salários dos órgãos de soberania e da Administração Pública, incluindo institutos públicos, entidades reguladoras e empresas públicas. Esta redução é progressiva e abrangerá apenas as remunerações totais acima de 1500 euros/mês. Incidirá sobre o total de salários e todas as remunerações acessórias dos trabalhadores, independentemente da natureza do seu vínculo. Com a aplicação de um sistema progressivo de taxas de redução a partir daquele limiar, obter-se-á uma redução global de 5% nas remunerações.
  2. Congelar as pensões.
  3. Congelar as promoções e progressões na função pública.
  4. Congelar as admissões e reduzir o número de contratados.
  5. Reduzir as ajudas de custo, horas extraordinárias e acumulação de funções, eliminando a acumulação de vencimentos públicos com pensões do sistema público de aposentação.
  6. Reduzir as despesas no âmbito do Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente com medicamentos e meios complementares de diagnóstico.
  7. Reduzir os encargos da ADSE.
  8. Reduzir em 20% as despesas com o Rendimento Social de Inserção.
  9. Eliminar o aumento extraordinário de 25% do abono de família nos 1º e 2º escalões e eliminar os 4º e 5º escalões desta prestação.
  10. Reduzir as transferências do Estado para o Ensino e sub-sectores da Administração: Autarquias e Regiões Autónomas, Serviços e Fundos Autónomos;
  11. Reduzir as despesas no âmbito do Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC).
  12. Reduzir as despesas com indemnizações compensatórias e subsídios às empresas.
  13. Reduzir em 20% as despesas com a frota automóvel do Estado.
  14. Extinguir/fundir organismos da Administração Pública directa e indirecta.
  15. Reorganizar e racionalizar o Sector Empresarial do Estado reduzindo o número de entidades e o número de cargos dirigentes.

MEDIDAS DO LADO DA RECEITA

  1. Redução da despesa fiscal: a) Revisão das deduções à colecta do IRS (já previsto no PEC); b) Revisão dos benefícios fiscais para pessoas colectivas; c) Convergência da tributação dos rendimentos da categoria H com regime de tributação da categoria A (já previsto no PEC).
  2. Aumento da receita fiscal: a) Aumento da taxa normal do IVA em 2pp.; b) Revisão das tabelas anexas ao Código do IVA; c) Imposição de uma contribuição ao sistema financeiro em linha com a iniciativa em curso no seio da União Europeia.
  3. Aumento da receita contributiva: a) Aumento em 1 pp da contribuição dos trabalhadores para a CGA, alinhando com a taxa de contribuição para a Segurança Social; b) Código contributivo (já previsto no PEC).
  4. Aumento de outra receita não fiscal: a) Revisão geral do sistema de taxas, multas e penalidades no sentido da actualização dos seus valores e do reforço da sua fundamentação jurídico-económica; b) Outras receitas não fiscais previsíveis resultantes de concessões várias: jogos, explorações hídricas e telecomunicações.

Privilegiar insolvências céleres

“O atraso da justiça é, assim, a maior falha de governo em Portugal. E, por favor, não me venham com a treta do “à política o que é da política, à justiça o que é da justiça”.”

Destaque do meu artigo de hoje no ECO – Economia Online. Sobre a urgência de acelerar os processos de insolvência em Portugal, cujos prazos de resolução estão novamente a aumentar.

25 de Novembro

Alguns poderão estar esquecidos, outros nunca terão ouvido, outros estarão equivocados e alguns terão escutado uma versão deturpada ou selectiva da coisa. Mas quando Jaime Neves e os restantes comandos impedem o golpe dos pára-quedistas de Tancos, impedem não apenas um golpe militar, mas o golpe militar da extrema-esquerda que visava garantir que Portugal passava de uma ditadura de direita para uma ditadura de esquerda, comunista e à boa moda soviética, isto assumindo que os arrufos entre estalinistas e maoístas se resolviam. Isto foi no dia 25 de Novembro de 1975. O 25 de Abril sem o 25 de Novembro teria sido uma mera mudança de cores de camisola. É, portanto, uma data tão alusiva à democracia como é o 25 de Abril, e, como tal, merece ser recordada, celebrada, felicitada, festejada.

Um dos partidos que mais fez pela consolidação do 25 de Novembro foi precisamente o PS de Mário Soares. Que o Bloco de Esquerda, que mais não é do que a agremiação da UDP e do PSR, radicais que buscavam essa ditadura comunista, e o PCP, que, bom, é o PCP, não celebrem o 25 de Novembro parece-me coerente. Afinal, o sonho de uma ditadura comunista foi gorado. Que o PS alinhe no circo é que é absolutamente inaceitável. Uma vergonha.

António Costa, O Neoliberal

Muito bem, o primeiro-ministro António Costa a explicar que a austeridade não é uma opção ideológica, mas sim uma questão de realidade e de matemática. As imagens foram retiradas daqui e daqui.

Afinal

Afinal as hipóteses do Porto eram limitadas; afinal, as melhorias na economia europeia vão trazer taxas de juros mais elevadas, o que não nos ajuda nada. Afinal, o governo cede nos professores porque está preso pelas clientelas do PCP e do BE; afinal, o PCP não derrubou o muro; afinal, a dívida pública é ainda mais colossal do que era em 2011. São muitos os afinais. Porque, afinal os tempos felizes que vivemos foram ao género dos tempos felizes de outrora em que o país, apesar de pobre, se dizia único, com um povo simpático e acolhedor. Afinal isto está tudo igual e somos governados pela mesma mentalidade que governou o país naqueles 40 anos que alguns de nós desejávamos longínquos. Mas não são. Perseguem-nos, porque afinal tudo se resume a muito pouco.

A desigualdade salarial entre homens e mulheres e entre regiões em Portugal

O sexo e as cidades: uma visão regional das disparidades salariais. Por Carlos Guimarães Pinto.

Curiosamente, a diferença salarial de uma mulher no Norte em relação a um homem com as mesmas características (9,3%) é ligeiramente inferior do que em relação a uma mulher que trabalhe na Área Metropolitana de Lisboa (9,9%). Para uma mulher a trabalhar no Norte do país, a região onde vive tem um efeito mais negativo no seu salário do que o sexo com que nasceu.

Continue reading “A desigualdade salarial entre homens e mulheres e entre regiões em Portugal”

Pessoa, Simenon, Gomes Ferreira, Cardoso Pires e Agostinho da Silva

O Pedro Correia teve a gentileza de me convidar para escrever um texto para o Delito de Opinião, e eu escrevi sobre o meu encontro com certos escritores. E Agostinho da Silva, claro. A inesquecível conversa, era eu um miúdo, que tive com Agostinho da Silva.

Socialism happens

No iPhone do Ricardo… (31) E a Rússia?

O Hino tem a sua força, mas a música russa tem de ser: Stars of St. Petersburg – Kalinka

Não resisti. E na Síria? Depois queixam-se que são invadidos…

Malcolm Young 1953-2017

Well done Malcolm, I’ll have that drink on you. \m/

 

A CP e o último comboio Intercidades para o Porto

A esquerda está a dar cabo do Estado social

Hoje no Jornal Económico.

A esquerda está a dar cabo do Estado social

Primeiro soubemos das cativações orçamentais. Depois que essas cativações tinham sido a causa para o dito sucesso do défice de 2% do PIB, em 2016. Como não há milagres, apesar de na crença de alguns as vacas voarem, percebemos que as cativações compensaram os aumentos salariais na função pública, que é a plataforma eleitoral do Governo.

Mais tarde fomos sabendo outras coisas. Soubemos da má resposta das autoridades ao incêndio em Pedrógão, das deficiências do Estado no combate aos incêndios de 15 de Outubro, da anedota pública que foi o roubo de Tancos, das listas de espera nos hospitais que têm vindo a aumentar, das escolas, algumas sem professores outras sem comida decente para crianças. Uma lista interminável de falhas do funcionamento do Estado, das quais o surto legionella no São Francisco Xavier é apenas mais uma gota de água num oceano que, caso o Governo fosse outro que não este seguro pela extrema-esquerda e um ciclone de categoria 5 pairaria sobre nós.

Conforme noticiado pelo Público, o Conselho Nacional de Saúde, um órgão independente consultivo do Governo terá concluído que faltam cerca de mil milhões de euros para a saúde. Não é por nada, mas quando ouço rumores de que falta dinheiro na saúde, que há atrasos no pagamento a fornecedores e os partidos de extrema-esquerda se calam é porque o assunto, além de grave, os compromete. O que me assusta: sempre que os extremistas, e os comunistas são extremistas se nos recordarmos do que disseram aquando do centenário da revolução bolchevique, estão comprometidos é porque algo muito grave e perigoso se passa.

É chocante a forma como o Governo, e quem o sustenta, mentiu antes da troika, durante a intervenção da troika e agora, depois do programa de resgate financeiro a que o Estado se teve de submeter para salvar a sua dimensão social. Até 2011, com a economia estagnada, o PS comprometeu o país, apesar de alguns avisos em contrário, a um programa de dispendiosas obras públicas para fazer a economia mexer. O resultado foi a falência do Estado. Durante o programa de resgate que visou salvar o Estado social, a esquerda, da pretensamente moderada à extremista, acusou o governo de o destruir porque se cortavam salários apesar de se manterem as despesas sociais. Como se pagar salários na função pública fosse uma obrigação social e não laboral. Já em 2017, enquanto se cativa dinheiro que falta faz a quem precisa, aumentam-se salários, repõem-se regalias.

Agora que o Estado vai perdendo a sua dimensão social a esquerda já não sai à rua porque os seus não são os que mais beneficiam dos cuidados de saúde nem das políticas sociais. Os seus são apenas os que votam e esses são os que lhe interessam.

Constitutionalism in a Plural World

~

No próximo dia 23 de Novembro apresentarei a comunicação “Beyond Constitutional Rules: the case of the Constitution of the Portuguese Republic of 1976” (elaborada em co-autoria com Inês Gregório e Daniela Silva) no âmbito da conferência internacional “Constitutionalism in a Plural World” no Campus da Foz da Universidade Católica Portuguesa, no Porto. Mais informações, incluindo o programa completo da conferência, aqui.

Sobre o fim anunciado do ensino vocacional

O triste fim anunciado do ensino vocacional. Por Inês Gregório.

(…) a erradicação dos cursos vocacionais contribui para perpetuar o desprestígio social relativamente a esta via de ensino. Uma imagem negativa que se reflecte principalmente na ideia de que estes cursos se destinam apenas aos menos capazes, àqueles que não conseguem ter aproveitamento nas vias académicas de ensino. Um estigma que penaliza duramente quem mais precisa: os alunos com mais dificuldades no sistema actual e os provenientes de contextos sociais menos favorecidos, que são deixados para trás por um ensino que não os acompanha e que não acomoda as suas motivações e necessidades particulares.

Uma discussão séria e alargada sobre a estruturação de percursos de ensino com formação de natureza profissional, nomeadamente no que diz respeito a questões éticas mais sensíveis como o momento de introdução desta diferenciação ou o regresso a percursos de natureza académica, é bem-vinda em qualquer momento. Já a eliminação em absoluto dos cursos vocacionais (e a sua substituição por uma opção que se revelou pouco estruturada e incapaz de responder aos desafios do elevado abandono escolar e da falta de qualificação dos jovens portugueses) parece ser uma opção meramente ideológica e baseada num preconceito intelectual que vai contra a generalidade das recomendações das instituições internacionais e contra as melhores práticas de outros países da União Europeia.

A greve dos professores e a “bolha”

Por que é que os professores não têm razão (ou não têm toda a razão). Por José Manuel Fernandes.

O argumento dos professores parece imbatível: se aos outros trabalhadores da administração pública vai ser contado todo o tempo de serviço para efeitos de evolução na carreira, porque haverão os professores de ficar de fora? Mais exactamente, porque ficam de fora “nove anos, quatro meses e dois dias de tempo de serviço”, como dizem os sindicatos, contabilizando os períodos entre agosto de 2005 e dezembro de 2007 e entre 2011 e 2017?

Visto desta perspectiva a lógica sindical parece imbatível e a irritação dos professores uma maré imparável. Mas temos de ter também a perspectiva do contribuinte (serão mais 650 milhões de euros em salários de funcionários públicos), tal como não podemos perder a perspectiva de todos os que, não sendo trabalhadores do Estado, não beneficiam deste inominável princípio em que “a antiguidade é um posto”. No mundo real, aquele que fica fora do ambiente protegido em que vivem os professores e os outros funcionários públicos, não é assim. Nunca poderia ser assim. Sobretudo é cada vez menos assim.

É esta perspectiva que me interessa, pois é ela que interessa à maioria dos portugueses que pagam impostos e não sabem o que é isso de “promoções automáticas”. Pelo contrário: conhecem bem o mundo em que os empregos não são para a vida, em que as passagens pelo desemprego quase sempre se traduzem na aceitação de empregos com uma menor remuneração, o mundo em que muitas vezes se negoceiam reduções salariais e não promoções “porque sim”.

Esta greve dos professores teve o mérito de nos recordar como é diferente a “bolha” em que vivem aqueles para quem este Executivo tem governado – as corporações que vivem do Estado ou à sombra do Estado – e a dura realidade dos que têm que fazer pela vida e pela criação de riqueza.

Marcelo mudou, mas de pouco nos vale

A minha crónica hoje no i.

Marcelo mudou, mas de pouco nos vale

Para mim, como Presidente da República, o mudar de vida neste domínio é um dos testes decisivos ao cumprimento do mandato que assumi e nele me empenharei totalmente até ao fim desse mandato.” Marcelo Rebelo de Sousa, em 17 de outubro de 2017, ao finalizar o seu discurso em Oliveira do Hospital.

É importante relembrar estas palavras do Presidente da República porque marcam um ponto de viragem no seu mandato.

Até então, Marcelo andava sempre junto a Costa, apoiava o governo, alinhava, embora com as reservas normais numa pessoa minimamente inteligente e sensata, no optimismo dos socialistas. Marcelo ria, sorria, falava, gesticulava, tornara-se um homem fútil, um Presidente supérfluo que não fazia contraponto ao governo, mas à oposição. Alegre, jovial, folgava os bons tempos com que os bons ventos vindos do exterior bafejavam o seu mandato. Marcelo desfrutava ao mesmo tempo que rebaixava Passos, troçando do seu azar.

Mas depois Passos saiu, a tragédia instalou-se e Marcelo, qual verdadeiro animal político, mudou. Ele sabe que a felicidade da primeira parte do seu mandato não tem bases para se manter e que tudo se esboroará sem que se perceba bem como. É para esse tempo que Marcelo se prepara. Assim, enquanto Costa e Medina se abraçavam na abertura da Web Summit, quais crianças felizes e contentes, Marcelo visitava os sem-abrigo. Porque Marcelo já não tagarela; ainda sorri, mas de um jeito triste, e já não se ri por tudo e por nada. Marcelo deixou de querer estar na roda e já não dança. Mudou porque as circunstâncias mudaram. Tornou-se sério e passou a ser levado a sério.

O problema, no entanto, é que a ação de Marcelo não vai resolver problema nenhum. O país continua a endividar-se, e o Estado sequestrado por interesses vários; não há reformas que reduzam a despesa pública, nem Marcelo, mesmo que a isso estivesse disposto, podia fazer o que quer que fosse. Desta forma, caminhamos para o pior dos cenários numa democracia: um Estado endividado, preso por variadíssimos interesses que vão das empresas dependentes dos decisores políticos aos sindicatos que precisam de mostrar serviço, passando pelas fundações e demais entidades públicas. Com uma classe política desacreditada e um Presidente generoso, popular, mas totalmente incapaz de propor as mudanças que são indispensáveis, temo que muitos dos que hoje culpam a liberdade económica por todos os males do mundo acabem por apontar o dedo também ao liberalismo político. Marcelo mudou, mas a mudança serve-nos de alguma coisa?

Transferência De Rendimentos

A Direção geral da Administração e Emprego Público revelaram que entre Janeiro e Setembro deste ano, o número de funcionários do Estado cresceu 0,8% (mais de 5 mil), ultrapassando a fasquia dos 660 mil trabalhadores (661.429), tendo a subida acontecido sobretudo no ministério da educação e no setor empresarial do Estado (fonte). 660 mil trabalhadores representam cerca de 14% do total da população empregada em Portugal (fonte).

O salário bruto médio dos funcionários públicos, que têm um horário de trabalho semanal de 35 horas, era cerca de 1.686,90 euros em Julho deste ano, o que corresponde a um aumento de 1,7% em relação ao período homólogo do ano anterior. Por comparação, em Abril de 2105 o salário bruto médio de um funcionário público era de 1.404,20 euros enquanto que o salário bruto no sector privado em que o horário de trabalho semanal é de 40 horas era de 950,90 euros (fonte).

Salvem o socialismo africano

Parece que Robert Mugabe não terá muitas condições para para continuar a realizar obra.
O ditador africano há mais tempo no poder instaurou um regime violento, autoritário e sobre o qual pendem múltiplas violações grosseiras da liberdade.
As reformas socialistas implantadas à força e acompanhadas pela banda sonora do racismo foram a via verde para o precipício, com os ataques à propriedade privada, a nacionalização de propriedades e o abandono forçado das terras, sob a ameaça de armas.
Para o regime de Robert Mugabe, a democracia pouco mais é do que um mecanismo processual onde são eleitos os seus representantes. E o até agora eterno Presidente sempre venceu as eleições e com resultados estratosféricos, com as consequências devastadoras que estão à vista de todos.

Privilegiar a concentração empresarial

“É necessário privilegiar o desenvolvimento económico através da concentração de pequenas empresas.”

Destaque do meu artigo de hoje no ECO – Economia Online. Sobre as vantagens de alguma concentração empresarial na base da pirâmide. (recomendo que leiam o texto na íntegra antes de me atribuírem o que quer que seja!)

…at which academic thought and indeed higher education have ceased to exist

Higher Education’s Deeper Sickness

The overall campus figures include professional schools and science, technology, business and mathematics departments. In most humanities and social-science departments—especially those central to a liberal education, such as history, English and political science—the share of left-of-center faculty already approaches 100%.

The imbalance is not only a question of numbers. Well-balanced opposing views act as a corrective for each other: The weaker arguments of one side are pounced on and picked off by the other. Both remain consequently healthier and more intellectually viable. But intellectual dominance promotes stupidity. As one side becomes numerically stronger, its discipline weakens. The greater the imbalance between the two sides, the more incoherent and irrational the majority will become.

What we are now seeing on the campuses illustrates this general principle perfectly. The nearly complete exclusion of one side has led to complete irrationality on the other. With almost no intellectual opponents remaining, campus radicals have lost the ability to engage with arguments and resort instead to the lazy alternative of name-calling: Opponents are all “fascists,” “racists” or “white supremacists.”

In a state of balance between the two sides, leadership flows naturally to those better able to make the case for their side against the other. That takes knowledge and skill. But when one side has the field to itself, leadership flows instead to those who make the most uncompromising and therefore intellectually least defensible case, one that rouses followers to enthusiasm but can’t stand up to scrutiny. Extremism and demagoguery win out. Physical violence is the endpoint of this intellectual decay—the stage at which academic thought and indeed higher education have ceased to exist.

Sócrates, o blogger e o ghostwriter

Sócrates. O que o blogger e o ghostwriter disseram à Justiça

Da ditadura do politicamente correto

Um país com a riqueza patrimonial de Portugal deve, na minha opinião, colocar os seus monumentos nacionais ao serviço dos agentes económicos, para que estes os rentabilizem, desonerando os contribuintes dos elevados custos de manutenção dos mesmos. Acresce que a riqueza dos nossos edifícios são um fator diferenciador de atração de Portugal ou dos países que, à nossa semelhança, souberam ao longo de séculos ocupar um lugar especial na História. A utilização dos espaços públicos para fins privados deve ser feita, obviamente, com regras e normalidade, e a lei aprovada em 2014 introduziu, precisamente, esse sentido de equilíbrio de permitir que, caso a caso, fosse definida a adequação do uso dos monumentos. A lei de 2014 não veio propriamente permitir a utilização privada dos espaços públicos, mas introduzir regras numa prática que já existia anteriormente, num ambiente, pelo que percebi, de alguma opacidade normativa – uma vez que antes de 2014 já era prática corrente em alguns monumentos realizar atividades diversas de natureza festiva ou cultural sem que preços, e cadeias de aprovações, estivessem devidamente previstas. Estranho? Não. Até os franceses, que não passam por dificuldades financeiras, e têm os seus monumentos entre os mais bem mantidos do mundo, rentabilizam o seu património, com grande extensão, como aliás poderão ver aqui, na página do Palácio de Versailles dedicado às “private functions.

O que é assustador nesta historieta toda é pensar como os nossos responsáveis (?) políticos vivem ao sabor dos caprichos das redes sociais, que verdadeiramente definem a agenda, o debate – e, mais grave, a ação política. Foi isso que assistimos aquando dos incêndios de Pedrógão. Ou no caso do Urban Beach, discoteca conhecida pelos seus constantes desacatos. Ou no famoso livrinho para-meninos-e-meninas da Porto Editora. Basta alguém indignar-se, incendiar as redes sociais, e tornar o assunto viral, para que as pernas dos nossos governantes tremam que nem as dos banqueiros alemães. Ao bom estilo Twitter Trump, António Costa rapidamente alinhou com a turba cega,  culpando os seus antecessores, numa lógica Lucky Luke, em que o passa-culpas é disparado twittado mais rápido que a própria sombra. Pelo caminho, fica uma sensação que a decisão não é ponderada, não é pensada, e não merece o tempo de amadurecimento normal nestas situações. O importante é o goofy manter o equilíbrio em cima da prancha, backside e a disparar para a direita, adiando a arrebentação. Pedrógão, Tancos, Porto Editora, Urban Beach, Legionnella, Panteão. Vamos então surfando na onda, até que ela arrebente. O mar, esse, tem andado agitado, e promete.

 

21:30 no Porto Canal

Mais logo, a partir das 21:30, estarei no Porto Canal a debater o estado do país com o Prof. Daniel Bessa e o Presidente da AEP, Paulo Nunes de Almeida, sob moderação de Júlio Magalhães.

Leitura recomendada

O sarilho catalão, opinião de Bruno Alves no Jornal Económico.

Como mais ou menos toda a gente, tenho acompanhado com interesse e estupefacção os acontecimentos na Catalunha, onde um grupo de gente de penteados esquisitos e higiene pessoal duvidosa parece estar empenhado em dar início a uma nova guerra civil espanhola. Mas maior interesse e estupefacção tenho tido com o entusiasmo com que aqui em Portugal e um pouco por essa Europa fora muita gente parece ter simpatia e apreço pelas acções e opções dos “independentistas” catalães. Mais tolos que tolos só mesmo os tolinhos que os seguem.

Os argumentos da autodeterminação do “povo” e da ilegalidade do processo de secessão com que os dois lados se digladiam não me comovem particularmente. Os “povos” não têm vontade: uma parte dos ditos tem uma vontade, outra tem outra, e as duas não formam uma terceira, “Geral”. Um país torna-se independente quando uma dessas partes consegue ter força (nas suas várias formas) para a impôr ao país de que fazia parte e à parte do seu “povo” que não quer tornar-se independente. Os EUA, por exemplo, tornaram-se independentes não por ter sido a vontade do “nós, o Povo” supostamente autor da Declaração de Independência, mas porque a parte do povo que queria ser independente ganhou uma guerra civil à parte que não queria, e décadas mais tarde, a Confederação não se tornou independente porque quem queria ser independente não conseguiu ganhar uma guerra civil aos que não queriam que eles fossem independentes, não por a secessão ser ilegítima. (…)