Cereal Killers

Vou criar um grupo extremista de defesa dos hortícolas. O nosso objectivo será semear o pânico.

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O estranho caso de Emídio Lúcia-Lima, deputado do PAN e terrorista

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Esta é a verdadeira história de Emídio Lúcia-Lima. Começa em pequenino, ainda nem havia nascido. Sua mãe, vegan e praticante de reiki, e seu pai, voyeur de árvores e de outras pessoas não humanas, preparavam o parto natural. Estava lá também o cão, que auxiliava e garantia a limpeza do espaço. Era forte o cheiro a incenso e a seitã do dia anterior, aquecido ao lume, que tinha esturricado. O pai gritava força e contorcia-se em posição de bakasana, inspirando assim a mãe. Ao fim de muitas horas de contemplação da relva, de três ou quatro canas índicas e do pai em posição fetal, eis finalmente que sai Emídio, de cordão umbilical numa mão e com um ramo de stevia noutra, que aquilo lá por casa foi um forrobodó há duas noites atrás. O panegírico dos dois em honra a Osha, que juntou as forças da natureza para que tudo corresse bem, era incompreensível, até porque era em hindu. O almoço estava muito bom, sim. Juntaram num tacho duas folhas de louro, uns ramos de alecrim e tomilho lá do jardim, um pouco de sal e pimenta e a placenta. Ainda deu para guardar em tupperwares vegan, que são caixinhas feitas de papel, e reaqueceram ao jantar. O Emídio cresceu para ser um rapaz forte, apesar das anemias constantes. Bebeu do leite materno até aos 8 anos de idade, altura a partir da qual disse à mãe que queria algo mais gourmet, que era vegan mas gostava de experimentar coisas novas, e fez a transição para o leite de soja e para bagas goji. Entrou numa escola daquelas naturalistas, que não são bem escolas, mas espaços onde as crianças se borram ainda mais do que o normal. Teve o seu primeiro desgosto amoroso aos 12 anos, quando escrevemos aquelas cartas parvas com duas caixas a perguntar se a pessoa de quem nós gostamos quer namorar connosco. Nunca recebeu resposta do pinheiro e até ao dia de hoje não sabe bem o porquê, mas desconfia de que o pinheiro gostava era do bad boy de 14 anos, repetente nas aulas de Criação Corporal e Introdução à Biodanza, que perseguia passarinhos e comia os frangos ainda eles eram bebés no ovo — ah, é sempre assim, exclamava ele, preferem sempre os maus. Lúcia-Lima cresceu e tornou-se num homem poliamoroso, pansexual, pananimal e pangénero, amando tudo e o seu contrário. Mantinha uma relação com uma andorinha e com um gnu, e de vez em quando dava uma escapadela com uma árvore de pêra-abacate, por quem se apaixonou na ressaca do pinheiro. É sempre assim, procuramos um amor que compense outro que não correu bem. Tudo isto era aceite entre todos, ou não mantivessem também a andorinha e o gnu relações duplas e até triplas. Aos 16, Lúcia-Lima já participava em manifestações no Terreiro do Paço e em Benavente, no festival do chouriço. Levava sempre a sua t-shirt a dizer «Friend with a broccoli» enquanto gritava coisas como «Mais tofu! Menos marisco!» ou então «Sejamos conscienciosos com as pessoas não humanas que coabitam no nosso espaço», palavras de ordem muito fortes que dirigia às pessoas humanas. O «Touradas só de humanos! Free Touros!» também era recorrente, até porque isto era uma questão civilizacional e o Partido Socialista votou contra esta questão civilizacional, os bárbaros. Os pais, entretanto, divorciaram-se. A mãe não tolerou ver o pai abraçado a uma árvore dona Joaquina, que dava umas belas pêras (toda a gente tem um passado, e os pais do Emídio não eram excepção). Isto revoltou-o muito e vai daí junta-se a um grupo terrorista, o IRA. O que acontece a seguir já todos sabemos — vai para o calabouço e, pior, é obrigado a comer entrecosto de porco e pica-pau para o resto da sua vida.

Esta é a história de Emídio Lúcia-Lima. Quando encontrar alguém como o Emídio, não o insulte, não o agrida. Adopte-o.

Louçã, o bom pai de família

Há algo que me chamou a atenção na Convenção do Bloco: o papel assumidamente tutelar de Louçã, que se desmultiplicou em intervenções, recomendações e afirmações, qual pater familias, a explicar-nos o que o Bloco é, deve ser, e irá ser. Menorizando a liderança, retirando-lhe palco, enaltecendo as virtudes dos que são @s seus/suas discipul@s preferid@s. Toda esta performance teve lugar num ambiente de reverência embevecida dos media, que nunca questionaram Louçã pelo exercício desta magistratura honorária e quase aristocrática. Pensei para com os meus botões: “imaginem o que seria se Cavaco Silva, Passos Coelho, Paulo Portas, ou até José Sócrates ou Carlos Carvalhas, assumissem idêntico papel nos seus partidos“. Pois é, o Bloco pode querer ser Governo, e até vir a ser Governo, mas o seu Congresso mostrou-nos uma organização que ainda funciona como um Kindergarten, em que políticos-mirim são levamos à escola pela mão do papá.

Pensamento (a)crítico

Enquanto jovem, sou um traidor de classe. Não sei bem de que classe mas sei que a traio. Isto porque “jovem” é uma daquelas palavras cuja elasticidade semântica permite os mais diversos malabarismos poéticos. O jovem tanto é aquele ser primitivo para o qual a bebedeira representa o mais elevado grau de existência, como é o agente do progresso e de um mundo melhor. A única coisa comum a todas as definições é que o “jovem” não pode ter mais de 30 anos. A partir dos 30, a bebedeira passa a ser sinal de “disfuncionalidade” e aqueles que acreditam que vão mudar o mundo viram, grosso modo, idiotas (consumandos, pelo menos).

Traio a classe porque permaneço impecavelmente abstémio no que toca à esbórnia e, de modo geral, apenas os encantos dionísiacos fariam com que algo como mudar o mundo me passasse pela cabeça. Para minha surpresa, pressionam-me mais para ser um agente da mudança do que para fumar um charro, coisa que me indigna. Se é para fazer algo, tem de ser feito em condições. Julgo-me perfeitamente capaz de fumar um charro mas não sei se sei, nem se quero, mudar o mundo.

Ajuda não me falta, contudo. A sapiência juvenil é reiterada aos pontapés e todos tem algo a dizer sobre o jovem enquanto agente da mudança. O discurso, por norma, resulta de uma curiosa mistura de retórica “web summit” com conteúdo digno do acampamento do Bloco. Usualmente, é proferido por seres que gostam de mascarar o seu ressentimento em eufemismos: não são jovens mas têm “espírito jovem”.

O mito fundador desta gente é o maio de 68. Pelo que entendo, foi uma espécie de Pentecostes herético. Se em 33 o Espírito Santo foi derramado sobre os discípulos pela primeira vez, em 1968 foi a vez do “espírito crítico” ser derramado sobre a juventude. Do nada, o jovem passou a ser portador de uma ímpar sabedoria. Até 2 de maio, drogado; depois de 2 de maio, salvator mundi.

O cristianismo primitivo assistiu a fenómenos como o de Pseudo-Dionísio, o Areopagita, que se apresentava como um dos convertidos por São Paulo mesmo tendo vivido no século V. O secularismo progressista também assiste a uma série de herdeiros de 68 cuja proximidade ao movimento faz com que o Areopagita pareça honesto. As viúvas de 68 narram apaixonadamente os feitos dos jovens empoderados, que entenderam as injustiças de uma sociedade que os aprisionava e, num ato de salutar rebeldia, saíram à rua para mudar o mundo.

O que as viúvas não conseguem entender é o repentino término da “revolução do desejo”. O que freiou o avanço dos jovens empoderados? Qual foi o empecilho civilizacional que impediu que as preces dos jovens franceses continuassem a ser ouvidas? Que revolução é esta que terminou no conforto do lar burguês? Bem, a minha hipótese é a seguinte: ficaram cansados. O mesmo tédio daquela vidinha chata de gente rica que está génese das manifestações serve para explicar o fim das mesmas. Afinal, brincar à “comuna de Paris” é giro mas cansa.

E é esse fenómeno que explica a própria viúva de 68, esse ser de “espírito jovem” que, entediado com a sua impotência, quer ensinar a rapaziada a salvar o mundo. Tudo isto cabe na fórmula mágica reiterada aos pontapés pelos pedagogos contemporâneos: “pensamento crítico”. O crítico funciona aqui como o social em “justiça social”: serve para negar o antecedente. “Pensamento crítico” é, essencialmente, um eufemismo usado para legitimar ativismos poucos informados.

A metodologia dos apologistas do “pensamento crítico” é peculiarmente curiosa: passa por desconstruir as ideias que os jovens ainda nem conhecem. Tive o prazer de assistir ao processo em tempo real quando dei por mim a ouvir uma abordagem crítica da Estética, abordagem esta que ia “abrir horizontes” e fazer com que pensássemos fora dos limites estabelecidos pelas análises históricas da disciplina. Não costumo confiar em pessoas que querem abrir horizontes, mas lá tentei entrar nessa de pensar fora da caixa. Resumindo: duas horas depois, eu era perfeitamente capaz de desconstruir a noção tradicional de experiência estética e, como brinde, de desvelar o racismo acobertado pelo chapéu de Malania Trump. Entretanto, não faço a mínima do que seja a noção tradicional de experiência estética.

O fenómeno tem-se repetido e a minha conclusão tem sido confirmada: “pensar criticamente” é apenas uma forma de justificar a substituição dos clássicos pelos autores que são mais simpáticos ao pedagogo. Essa coisa de entender o mundo implica um esforço que não está ao alcance do jovem. Para quê ler Aristóteles se pode ler a opinião de Judith Butler sobre Aristóteles? Como é que ia sobrar tempo para mudar o mundo se os jovens tivessem de se entregar à maçada de o entender? Afinal, uma análise crítica dos clássicos traz à tona o pensamento patriarcal, esclavagista e racista que serviu para para legitimar séculos de opressão e consolidação de estruturas de poder.

E é neste tom que se substitui a educação pela ideologia, o estudo pela indolência doutrinária e o pensamento pelo ruminar de chavões progressistas. E assim se formam os jovens que vão mudar o mundo. Jovens que nunca leram Aristóteles mas sabem pensar Aristóteles criticamente. Jovens que nunca leram Aquino mas sabem pensar Aquino criticamente. Jovens que nunca leram Kant mas sabem pensar Kant criticamente. Só não sabem pensar Foucault e Horkheimer criticamente.

A cultura do desmazelo financeiro

“A ética empresarial do Estado está infelizmente suportada na opacidade. Quanto menos se publicar melhor, quanto menos se escrever melhor, quanto menos se falar melhor ainda.”

Destaque do meu artigo de hoje no ECO – Economia Online. Sobre a transparência das contas do Estado e o regresso ao passado.

Festa Brava

António Costa prossegue dizendo ainda a Alegre: “Como homem da Liberdade tem também de respeitar os cidadãos que, como eu, rejeitam a tourada como manifestação pública de uma cultura de violência ou de desfrute do sofrimento animal”. E critica “o novo politicamente correcto [que] é ser politicamente ‘incorrecto’”. O primeiro-ministro faz ainda uma revelação: “Choca-me que o serviço público de televisão transmita touradas. Mas não me ocorre proibir a sua transmissão”.

TOURADA

Imaginem que era Trump e não Obama

“No more deportations”, gritava o sujeito.
O vídeo fala por si. Deixem nos comentários o que diriam de Trump se fosse ele.