O Estado Mamão

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Uma empresa paga 2500 euros por um empregado e esse mesmo empregado só recebe líquidos cerca de 1400 euros (2000 e pouco de salário bruto), isto é, 45% do total pago pela empresa vai para o Estado.

A nossa classe média é taxada cá como se fosse rica. A mesma classe média que noutro país europeu do centro ou do norte seria uma classe média-baixa ou até baixa. Temos impostos de ricos e salários de pobres.

Escalões De IRS Para 2020

Fazendo serviço público, disponibilizo aqui as tabelas dos escalões de IRS para 2020 (fonte).

De referir que o governo actualizou os escalões de IRS para 2020 em apenas 0,3%, abaixo da inflacção que o governo estima para 2020 entre 1,2% e 1,4%, facto que só por si representa um aumento encapotado de impostos (fonte).

Fazendo as contas para o rendimento mensal bruto necessário para atingir cada escalão (contabilizando o efeito no rendimento colectável do máximo entre 4104€ e as contribuições para a segurança social; e depois dividindo o valor por 14 meses), obtemos a tabela e o gráfico abaixo.

Em Portugal, quem ganha até 9125,79€ por ano (651,8€ mensais) está isento de IRS (fonte).

De referir também que em Portugal, quem ganha 2934€ por mês é considerado super-rico, atingindo o sexto escalão de IRS e é sujeito a uma a taxa marginal de IRS de 45%. De facto, excluindo à Bélgica, Portugal é o país da União Europeia onde mais cedo se atinge a taxa marginal de 45% (fonte).

De referir ainda que, em termos de progressividade, 84% de todos os agregados familiares portugueses (dos que têm menos rendimentos) pagam apenas 16% de todo o IRS. Os 16% dos agregados familiares portugueses com maiores rendimentos pagam 84% de todo o IRS. Mais supreendente (ou talvez não) é que os cerca de 2500 agregados familiares com maiores rendimentos (representando apenas 0,1% de todos os agregados familiares portugueses), sozinhos pagam cerca de 8,5% de todo o IRS (fonte). Enfim. Para a esquerda, o IRS nunca será suficientemente progressivo.

Disponibilizo os cálculos que serviram de base às tabelas e gráfico acima aqui.

Portugal É O País Com O Pior Crescimento No Grupo Dos 15 Países “Amigos Da Coesão”

Via Jorge Costa no Facebook:

É oficial: a Grécia passou a Portugal o testemunho do pior crescimento económico no Grupo dos 15 Países da Coesão. Vamos ver o Governo a celebrar isto. E os média também. E se continuarmos assim, felizes e contentes na mediocridade, em breve seremos o país mais pobre da União Europeia. Já fomos ultrapassados pela R. Checa, Estónia, Lituânia, Malta, Eslovénia e Eslováquia. Agora já só faltam 7: Bulgária, Grécia, Croácia, Letónia, Hungria, Polónia, Roménia. O que é preciso é sermos pobres e resignados. Ou mesmo contentes com a nossa sorte, se alinharmos com o Governo.

Recorde-se que os países que fazem parte dos “amigos da coesão” e que “exigem exigem manutenção do orçamento da UE” (fonte) são também conhecidos como “os países receptores líquidos do orçamento da União Europeia”.

Enfermeira, católica e a favor da eutanásia

Sou católica. Fui catequista durante mais de uma década. Acredito em Deus e na ressurreição do seu filho. Mas descobri estes dias que o meu Deus é diferente do Deus da maioria dos católicos. É que o meu Deus jamais castigaria quem, preso em sofrimento num corpo, escolhesse antes partir. O meu Deus não forçaria ninguém a viver com dores excruciantes, não forçaria ninguém a viver num corpo que não lhe obedece e que, para tudo, precisa dos demais.

Decidi abster-me de discutir publicamente o tema da eutanásia, sobretudo pela complexidade do tema, pelas dúvidas que tenho e, muito importante, porque tem havido argumentos absurdos que se encontram por aí, que em nada contribuem para uma conversa digna. A única coisa que fiz publicamente foi dar uma ou outra informação.

Entre amigos e outros conhecidos a história é outra e, uma das coisas que tenho notado, é que tenho vários amigos católicos a favor. Curiosidade: poucos são os que dizem publicamente que são a favor. Estão no seu direito de guardar a sua opinião, tal como eu tenho feito, pelo que nem posso reclamar muito. Mas acho curioso isso acontecer, talvez pelo medo de como podem ser vistos pelos seus amigos católicos que são contra…normal, sobretudo com a Igreja a fazer campanha pelo não. Por falar em Igreja, já agora deixar uma pequena nota: o Papa Francisco, que tanto já falou do combate à corrupção, vai receber o Lula da Silva no Vaticano. Extraordinário.

Voltando ao principal, acho que faz falta ter um debate entre católicos sobre este tema. Discutir o tema tendo em conta o nosso Deus. Textos contra há vários publicados na imprensa. A favor acho que nem vi, daí que hoje partilhe aqui um dos poucos textos que vi – porque felizmente me enviaram – de alguém católico que é a favor. Por coincidência, esta pessoa também é profissional de saúde, pelo que partilho aqui também outro texto seu (antes de reproduzir os textos deixo também os links dos posts onde foram partilhados. Este e este).

Quanto ao resto… quem quiser que discuta, de forma digna de preferência. Algo difícil nos dias de hoje.

 




Sou enfermeira. Há dez anos que todos os dias convivo com a dor, a morte e o sofrimento. Sei exactamente a que cheira a miséria, conheço de cor o cheiro ácido das melenas e continuo a arrepiar-me com o cheiro putrefacto de algumas úlceras de pressão. Ainda era estudante, do último ano da licenciatura, quando, em contexto de paliativos domiciliários, vomitei no quarto de uma doente. Porra, tudo ali gritava morte. Aquele cheiro ainda hoje me assombra. A merda, a bílis, o exsudado e os tecidos mortos das feridas. Não aguentei.

Mas depois aqui ando, a discutir o direito de morrer com gente que nunca viu sofrimento sem ser em filmes e que acha que com cuidados paliativos tudo se resolve. Como se os melhores paliativos do mundo mudassem o facto de alguém estar preso a uma cama, a comer por uma sonda, a urinar por outra, a sujar fraldas atrás de fraldas e a criar escaras que, sim, às vezes são inevitáveis. Como se os paliativos mudassem a realidade de quem tem que respirar 16h por dia, através de um buraco que os médicos lhe abriram na garganta, com a ajuda de um ventilador. Não é uma questão de não ter dores, de ter uma linda vista para o rio ou a família por perto. É uma questão de não querer, de não aceitar, viver assim.

Atrás das secretárias ou dos ecrãs de computador, lá onde não chega o cheiro da morte e onde não se ouvem os gritos das dores que a morfina não resolve, é fácil opinar. É fácil falar bonito sobre as escolhas dos outros quando temos umas pernas que nos obedecem, quando a incontinência para nós é apenas uma palavra usada nos anúncio das fraldas e quando a pior dor que já sentimos se resolveu com tramal. Difícil é estar lá, dar a mão a essas pessoas e dizer-lhes que, mesmo contra a sua vontade, terão que continuar a sofrer. Porque alguém decidiu por elas sobre a sua própria vida. Porque alguém decretou que não estão capazes de decidir por si mesmas ainda que as suas faculdades cognitivas estejam intactas.

É, eu também tinha opiniões muito romanceadas antigamente. Mas acho que as vomitei todas em Fernão Ferro, na casa da doente de 41 anos que apodrecia numa cama e que repetia incessantemente duas palavras: “deixem-me morrer”.

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Sou católica. Fui catequista durante mais de uma década. Acredito em Deus e na ressurreição do seu filho. Mas descobri estes dias que o meu Deus é diferente do Deus da maioria dos católicos.

É que o meu Deus jamais castigaria quem, preso em sofrimento num corpo, escolhesse antes partir. O meu Deus não forçaria ninguém a viver com dores excruciantes, não forçaria ninguém a viver num corpo que não lhe obedece e que, para tudo, precisa dos demais.

Não sei que Deus é o de algumas pessoas que parece arrogar-lhes a autoridade moral de decidir pelos outros o que é melhor para si, de os forçar a viver quando essa não é a sua vontade. Quão superiores se acham aqueles que acreditam que as suas convicções se devem sobrepor à autodeterminação dos demais?

Durante anos ouvi na Igreja que Deus nos deu livre arbítrio. Então com que direito há quem queira agora retirá-lo aos demais? O meu Deus não é assim. O meu Deus é misericórdia, bondade e perdão. O meu Deus receberá todos aqueles que, em sofrimento profundo, escolherem repousar nos seus braços.

E não tentemos confundir os demais. Os cuidados paliativos, tão necessários, não são a resposta para esta questão. Há quem, simplesmente, não queira viver num corpo que não lhe obedece, sem poder mais que piscar um olho para dizer que tem sede. Mesmo que não tenha dores, mesmo que esteja rodeado pelos que ama. E quem somos nós para lhe dizer que tem que aguentar? Quem somos nós para o obrigar a viver assim?

Cansada de falsos argumentos, cansada de ver tentativas de assustar os outros com argumentos tão vazios como “depois começa-se a matar quem dá muito trabalho”. Já leram as cinco propostas? Alguma delas em algum momento remete para aqui?

A nossa vida é nossa. A nossa morte também. Cada um de nós devia ter o direito de decidir em sã consciência quando é que chega. Quando é que o sofrimento passa a ser intolerável. E nem todo o sofrimento se alivia com morfina, sabiam?

Quem acha que decidir sobre o término da própria vida é intolerável tem bom remédio: não o faça. Mas que ninguém ache que tem o direito de obrigar outros a viver em sofrimento em nome de um Deus que depois dizem ser de amor. Quem ama tem compaixão. Quem tem compaixão respeita o sofrimento dos demais e não se ocupa a minimizá-lo. Quem tem compaixão não vive preso em movimentos circulares que não o deixam ver nada além de si próprio.

Comecei a falar de Deus mas vou acabar no absoluto paganismo de uma série de ficção: se “all men must die”, então que muitos o possam fazer dignamente, conforme a sua vontade.

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Portugal Na Cauda Do Crescimento Na União Europeia

A comissão europeia publicou hoje as previsões de crescimento do Inverno de 2020. Novamente, Portugal aparece na cauda da lista perdendo terreno para os países comparáveis e que mais directamente concorrem com Portugal.

A este própósito vale a pena analisar estes dois gráficos abaixo (retirado daqui) sobre a evolução do PIB per capita e sobre a média do crescimento anual entre 2008 e 2018 de um conjunto de países Europeus onde se inclui Portugal.

 

 

PAN – Partido Animais e Natureza, Mas Não Pessoas

O PAN é um partido inimigo da liberdade, extremamento ditatorial e autoritário, em que no seu programa eleitoral abundam as palavras: “proibir”, “obrigar”, “restringir”, “impedir” e “limitar”. O partido cavalga uma onda de popularidade ambiental defendendo um regresso ao modo de vida ao tempo das cavernas – não só para os militantes e simpatizantes do partido, mas para todos os seres humanos do planeta.

Num pequeno interlúdio lúdico, não posso deixar de registar a proposta número 710 do seu programa eleitoral em que o PAN defende a “abolição da utilização de animais em espectáculos tauromáquicos” – imagino que que PAN idealize um espectáculo tauromáquico que em vez de touros tenha pessoas com cornos a perseguir pessoas às cavalitas a fingir que são cavalos.

Adiante, por duas vezes o PAN propôs a redução do IVA da alimentação para animais de companhia (fonte).  Depois da Iniciativa Liberal propor a reduçaõ do IVA para alimentação para bébés, a medida foi chumbada com os votos contra do PS e a abstenção do BE, PCP, PSD e PAN, sabendo o PAN que que essa abstenção levaria a que o IVA sobre a alimentação para bébés se mantivesse na taxa máxima de 23%  (fonte).

Para o PAN, os animais estão acima das pessoas.

As árvores morrem de pé

Debater a eutanásia de uma forma panfletária ou seguindo um guião ou uma cartilha não me entusiasma. Não tenho frases eloquentes para escrever sobre o tema, nem estou seguro que seja possível ter respostas translúcidas para um dilema que é íntimo, de humanidade, e que se coloca no epílogo da vida. Com total honestidade, não tenho orgulho na minha posição, nem um libelo acusatório para quem sobre este tema pense diferente. Há muito que não tenho paciência para a Constituição, e já não sei bem o que é juridicamente um “direito absoluto”. Cada vez respeito mais a complexidade que é lidar com a dor, o sofrimento e a exigência de carácter que tal implica. Fico aliás estupefacto com a aparente facilidade com que tantos em ambas as barricadas são capazes de dissertar sem dúvidas sobre alguns dos assuntos que, para muitos de nós, humanos com sentido e consciência, mais nos tiram o discernimento: o sofrimento na doença e a hora da morte. Admito que esta degenerescência no debate seja mais um sinal dos tempos, onde na Torre de Babel em que voluntariamente nos fechamos se escreve muito mais para os que compreendem a nossa linguagem, para alicerçar agendas, e bastante menos para analisar o próprio tema e construir as pontes que, desejavelmente, deveriam ser o suporte das soluções em sociedades plurais, tolerantes e saudavelmente recheadas de diferenças.

Da minha parte, espero ter sempre força e ânimo para que a doença não me vença, ser capaz de dar sentido à dor e ao sofrimento para nunca desejar a morte. Espero que quando os meus olhos se apaguem possa ver uma luz na escuridão e sentir o calor de uma mão amiga, familiar, de alguém que me ame. Espero nas minhas limitações físicas ouvir ao longe um eco ensurdecedor de todos os que me rodeiam. Espero morrer fisicamente esvaziado mas com o coração cheio de amor.

Tenho medo que a hora da minha morte seja precedida de um hiato silencioso, suspensa por um derradeiro ato burocrático, em que pessoas que me desconhecem procurem avaliar na minha fragilidade se ainda existe uma réstia de discernimento e capacidade para decidir o meu caminho. Tenho medo de morrer desejando a morte, aguardando a minha viagem final um salvo-conduto, cheio de carimbos e autorizações. Assusta-me pensar que posso vir a morrer sozinho, com as mãos vazias e geladas, desejando uma injecção que me alivie a dor de me ter tornado dispensável e não amado. Espero, se me faltar a força de espírito para querer viver, que a minha morte seja ao menos acelerada por um ato de amor.

Tenho medo de morrer sozinho, nas mãos dos que possam interpretar na minha fragilidade, a minha vontade. Espero que a minha morte não implique o preenchimento de mais um formulário passível de copy-paste, sujeito a apostilha e imposto do selo.

Quando debatemos a eutanásia, não falamos hoje todos a mesma linguagem, nem partilhamos os mesmos valores. Para muitos (desconfio ainda assim que cada vez menos), a recusa da eutanásia passa por não se aceitar que a vida possa ser disponível às mãos dos nossos semelhantes. Para muitos, como eu, viver é um ato de responsabilidade, cujas incidências aceitamos, mas cujo fim não nos compete comandar. A minha vida não me pertence, sou apenas o seu guardião, não tendo por isso a liberdade de decidir quando ela começou, ou quando terá de acabar.

A cultura dominante porém hoje recusa crescentemente esta visão. A liberdade para dispor integralmente do próprio corpo é algo que hoje se assume como um pressuposto na discussão, e que a maioria considera já como um dado de partida. Viver já não é uma responsabilidade, mas apenas um direito. Somos além disso cada vez menos preparados para aceitar o sofrimento inevitável, para lhe dar sentido, para saber viver em alegria na fragilidade, mesmo quando a marca da dor é muito forte. Na cultura dominante são aceitáveis fórmulas de sofrimento, se forem desejadas, no desporto, no trabalho, até nas nossas vidas íntimas, mas paralisamos se elas resultarem das circunstâncias de uma vida onde a fragilidade e a decadência físicas são incontornáveis. Acresce que com a evolução tecnológica e científica a nossa esperança de vida tende a aumentar exponencialmente, mas muitas vezes num contexto de limitação e doença prolongada muito exigentes para cada um de nós, para os que nos rodeiam – e para o chamado “erário público”.

Ora, no contexto cultural e social em que vivemos, dificilmente a eutanásia deixará de se impor no curto prazo, seja nesta legislatura, seja numa legislatura próxima. Há muito que os valores dominantes estão alinhados para valorizar a recusa do sofrimento e o arbítrio da pessoa sobre a sua vida e o seu corpo, e cada vez mais a eutanásia e outras fórmulas de morte assistida ou facilitada serão a solução fácil para dar resposta às múltiplas circunstâncias às quais não vamos conseguir dar resposta. Mesmo muitos dos que hoje têm medo da morte ou a recusam, serão empurrados pelas circunstâncias para uma lenta e solitária decadência física, com falta de cuidados, progressiva ou até abruptamente abandonados à sua sorte. A eutanásia e outras fórmulas de morte assistida ou facilitada são hoje genuinamente vistas por muitos como expressões de livre arbítrio e, até, de misericórdia e generosidade; ora, estes sentimentos e convicções convenientemente acalmarão, no contexto das vidas de hoje, as consciências dos saudáveis, cegando voluntariamente a burocratização da morte. Se a vida – e todas as suas incidências – se tornou apenas num direito e não numa responsabilidade que nos vincula a todos, porque não associar a liberdade a um redentor sopro de morte?

O mundo que favorece a afirmação da eutanásia enquanto valor e enquanto expediente há muito que está a ser construído. Quem hoje o recusa, já só apenas resiste, pois pouco tem a propor à maioria que não compreende a sua linguagem. Agora, se as nossas convicções são fortes, e válidas, como acredito que são, temos de saltar os muros que nos isolam, sem saudosismos, e fugindo do conforto das frases feitas das soluções do passado que não respondem aos problemas do nosso tempo. E nisso há muito a fazer: há uma nova linguagem que importa construir, que motive as futuras gerações para sair das Trevas em que já estamos mergulhados. Até lá, resta-nos a dignidade de morrer de pé, como as árvores, firmes nas nossas raízes, esperando que a natureza se renove, afirmando um novo tempo.

One short sleep past, we wake eternally, / And death shall be no more, Death thou shalt die

Um sono curto passado, e acordaremos eternamente, / E a morte não o será mais, a morte morrerá

(John Donne)