E há quem fale em “truques”

Ontem, António Costa usou a expressão “aproveitamento político” para classificar a polémica em torno do verdadeiro número de vítimas do incêndio de Pedrogão Grande. No dia seguinte, hoje, o DN destaca que o Presidente da República é contra “aproveitamento político das vítimas de Pedrogão”. Uma leitura do artigo do DN mostra, aparentemente, que Marcelo não usou a expressão. O título advém do critério editorial de destacar a interpretação de uma pequena parte da entrevista concedida pelo PR para se adaptar à “narrativa” lançada com as declarações do Primeiro Ministro na véspera. Enquanto, na verdade, o artigo do DN até cita o PR abundamentemente por forma a justificar um título como “Marcelo exige que governo apure tudo cabalmente”.

Note-se, no que toca a apuramentos cabais, que Marcelo Rebelo de Sousa fica ele próprio mal na fotografia. Foi o primeiro, logo no dia do incêndio, a concluir que foi feito o máximo possível, condicionando a priori o inquérito que necessariamente se seguiria. Que António Costa de queixe de aproveitamento político é que é realmente escabroso; quando o seu partido foi o primeiro, logo nos dias seguintes ao incêndio, a tentar passar responsabilidades para o anterior governo. Além disso, como lista José Manuel Fernandes, o nome de António Costa está inegavelmente ligado a múltiplas más decisões políticas no que toca a incêndios, protecção civil e floresta.

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Falta de experiência?!?!?


Hoje a capa do Jornal de Notícias, possivelmente aproveitando o período de férias do seu director, fala do mal-estar entre os bombeiros pela falta de experiência das estruturas de comando. Nada podia ser mais injusto. O governo mudou as estruturas de comando em Abril, uns bons dois meses antes de começar a época de incêndios. Mesmo contando com os feriados, tolerâncias de ponto, uma ou outra baixa e as 35 horas semanais, deu imenso tempo para ganhar experiência. As estruturas de comando, para além de terem para mais de 3 meses de experiência no seu posto, são veteranas do pior incêndio e pior época de incêndios de que há memória. Se isto não é experiência, não sei o que é experiência!

Esta acusação é ainda mais injusta se olharmos aos casos concretos. Em Janeiro deste ano noticiava-se que:

“Os 25 comandantes de bombeiros do distrito de Aveiro reuniram de emergência, ontem à noite, para decidir medidas a tomar tendo em vista impedir a nomeação de Augusto Vidal Leite para segundo comandante operacional distrital (CODIS).
Augusto Vidal Leite, de 32 anos, tem o posto de terceira classe – a mais baixa da classe de bombeiros – na corporação da Murtosa. É presidente da concelhia do PS da Murtosa e, segundo várias fontes contactadas pelo CM, a sua nomeação é vista como política.”

Note-se como o PS sacrificou um presidente de uma concelhia para servir o país e ajudar no combate aos incêndios. Parafraseando a melhor primeira-dama que o país já teve: foi feito tudo o que podia ser feito.

Insert brain

Parece que o Dr Pedro Nuno Santos, que se tornou famoso pela putativa capacidade de pôr as pernas dos banqueiros alemães a tremer, terá afirmado que confia que o Dr Pote D’Unto…perdão, Dr Alguidar de Banha…ai, perdão, Dr António Costa “voltará” a ganhar as eleições em 2019. Que mal pergunte, quando é que o Dr Pote D’…perdão, Dr António Costa ganhou as eleições para que possa “voltar” a ganhá-las?

Jacques Hamel

A perna curta da manipulação centralista

Novo Banco: Os termos de um negócio reescrito

“É pegar ou largar. Foi assim que o Novo Banco (NB) se dirigiu esta semana aos seus obrigacionistas, “propondo-lhes” a troca de obrigações sénior, emitidas pelo banco, por contrapartida de dinheiro.”

Destaque do meu artigo de hoje no ECO – Economia Online. Sobre os termos do negócio Novo Banco, que já estão a ser reescritos.

O choradinho centralista

Ficamos hoje a saber que, sem qualquer concurso público, a televisão Pública decidiu atribuir a organização do Festival da Eurovisão a Lisboa, alugando para isso um recinto privado: o MEO Arena. Não foi nenhuma surpresa. Afinal, apesar de todo o fingimento posterior, duas horas após a vitória de Salvador Sobral a própria RTP já tinha anunciado que a Eurovisão seria em Lisboa. Ficamos sem saber exactamente quanto vai custar o Festival organizado num recinto privado em Lisboa e quanto teria custado organizado noutras cidades, possivelmente utilizando recintos mais baratos pertencentes ao Estado, como é caso do Europarque. Ficou também por saber quanto pagará a cidade de Lisboa pelo privilégio de receber o Festival e quanto será pago pelos restantes contribuintes. Até a ultra-corrupta Ucrânia fez um concurso público para decidir o local de Organização do Festival. Mas em Portugal não precisamos disso. Nada de novo num país habituado a engolir faltas de transparência na utilização de dinheiros públicos (afinal, são só 30 milhões de euros) e a aceitar esta macrocefalia como algo normal. Nada mais seria de esperar de um país que vê a presidência da Câmara de Lisboa como um degrau natural para liderar o país (António Costa, Santana Lopes e Jorge Sampaio foram todos presidentes da CML e Marcelo Rebelo de Sousa chegou a ser candidato).

Lisboa tem o melhor sistema de transportes públicos, as melhores escolas, os melhores hospitais, uma companhia aérea e televisão pública dedicadas a servir os seus interesses, capta quase todos os organismos públicos, redacções de jornais, televisões e, por arrasto, boa parte das empresas privadas. Lisboa tem assim os melhores empregos e recebe a maioria dos eventos de renome. Lembrem-se disso da próxima vez que ouvirem o choradinho habitual sobre o valor das rendas no centro de Lisboa, o alojamento local, o turismo, o aeroporto sobrelotado ou a falta de estacionamento. Se os Lisboetas querem rendas mais baratas, então que apoiem a descentralização de organismos, serviços e eventos. Se não o fizerem não têm qualquer autoridade para se queixarem das rendas. Se não querem suportar rendas altas, podem sempre ir viver para fora dos 10 quilómetros quadrados à volta do Marquês onde acham que cabe todo o país.

Racionamento

“Durante 5 anos ninguém morreu” . Não, não é o início de um romance desaparecido de Saramago, é uma história real de uma aldeia da Roménia onde estive há uns anos. A economia centralizada de Ceausescu falhava muitas vezes em produzir os bens necessários (enquanto produzia outros em excesso). Era comum o racionamento de bens essenciais como o leite e cereais. Cada pessoa recebia uma senha e tinha direito a um certo montante de cada um dos bens. Quando morria deixava de ter acesso aos bens em causa. Excepto, claro, se ninguém soubesse que tinha morrido. Nesse caso, a família podia receber um pouco mais de leite e cereais do que o planeador central tinha alocado a cada um. Nas aldeias mais isoladas, onde era mais fácil de esconder estas situações, passavam anos sem que morresse uma pessoa.

Em Portugal, felizmente, não temos esse problema com bens alimentares que são abundantemente produzidos e distribuídos por cadeias privadas de supermercados. Em Portugal, como no resto do mundo desenvolvido, a produção e distribuição dos bens alimentares pela economia de mercado fez com que o problema se invertesse: hoje os excessos alimentares matam muito mais do que a fome, que é virtualmente inexistente na maioria dos países desenvolvidos.

Mas nem todos os sectores foram poupados a esse destino. Os serviços de educação continuam a ser geridos centralmente. Sem surpresa, estão também sujeitos a racionamento. E tal como os aldeões da Roménia que não morriam, há habitantes no centro de Lisboa que são encarregados de educação para muitas crianças, muitos dos quais sem qualquer relação familiar. Há notícias de problemas com moradas falsas nas principais escolas de Lisboa e pancadaria à porta das escolas no período de inscrições (as filas de racionamento na Roménia também eram frequentemente palco de confrontos e violência). Numa economia de mercado, a Filipa de Lencastre já teria aumentado a lotação ou teria sido construída uma escola ao lado para absorver todos os residentes que ficam sem lugar. Mas no sector da educação não há mercado: há estado. E enquanto os funcionários públicos do Ministério da Segurança Social, do INE e da CGD continuarem a poder inscrever os filhos nas melhores escolas públicas, enquanto, para todos os efeitos, tiverem direito aos seus colégios privados dentro da rede pública, ninguém mexerá uma palha para alterar o sistema e tirar incentivos à fraude.

Como não consigo culpar os aldeões romenos que não enterravam os seus mortos, também não culparei quem inventa moradas falsas para dar a melhor educação possível aos seus filhos. Eu faria o mesmo.

Logística na Coreia do Oeste

Como o Estado não divulga a lista de Pedrógão…

Seguradoras não conseguem pagar às famílias porque Estado mantém lista em segredo:

A não divulgação da lista oficial de vítimas mortais pelo Estado está a bloquear a chegada de ajuda monetária às vítimas de Pedrogão. Luís Marques Mendes revelou na SIC uma queixa da Associação Portuguesa de Seguradores às autoridades. Nádia Piazza, presidente da futura associação de apoio às vítimas, vai pedir audiências ao Presidente da República e outras entidades.

O dinheiro dos donativos não está a chegar a Pedrógão. Os familiares das vítimas de Pedrogão não estão a ter acesso nem aos fundos doados, nem aos seguros.

596100.pngLamentável!

Nota: a lista parcial de vítimas foi já publicada pelo Jornal i. E já tem mais de 64 nomes.

Os Sapos de Jerónimo e Catarina

Sapos Jerónimo e Catarina

A coleção de vídeos ridículos de Catarina a defender o governo está a ficar grande.

Aceitam-se sugestões do melhor nos comentários.

Trumpgate #37 – A visão de um Progressista

Gosto de ler sobre um assunto diversos pontos de vista.
Aqui fica mais um, de alguém que não gosta de Trump (ou “Donnie Tiny Hands” nas palavras dele), que lê a comunicação mainstream, mas que vai mais fundo. Aconselho:

Fico à espera dos que me vão dizer que este vídeo não é credível porque estes três são grande fãs de Trump. 🙂

Nota: Para evitar isto, obviamente este artigo complementa este meu e este do Bruno.
Leitura adicional: Ensaio sobre a Cegueira Política (Bruno no Jornal Económico)

Optimismo antropológico

Os nomes das pessoas que morreram nos incêndios em “segredo de justiça” é das desculpas mais esfarrapadas que me lembro de ler ou ouvir. Como é que as doações chegam às famílias, como é que as Seguradoras indemnizam quem devem se os dados destes estão em “segredo de justiça”? Mas pronto, é sempre possível descer mais baixo, é sempre possível que quem nos pastoreia atinja níveis de miséria insuspeitos de poder sequer existir. Sou um optimista antropológico mas às vezes fica difícil.

O confisco da morte

Responsabilidades

Quando os jornais tinham relevância, sabíamos das mortes pelas páginas da necrologia, ou simplesmente pela conversa da vizinha. O anúncio da morte não era algo que estivesse na disposição do burocrata, ou que tivesse de ser interpretada ao abrigo de uma qualquer novilíngua processual. Agora, as mortes são anunciadas pelo Ministério Público, e estão sujeitas – pasme-se – a “segredo de justiça”. Alguém me explica qual a razão jurídica que justifica que o anúncio da morte possa ser confiscado e silenciado?

Saber a real dimensão do desastre de Pedrógão, para lá das minudências burocráticas ou do newspeak orwelliano que pelos vistos capturou os poderes tradicionais do nosso sistema democrático, tornou-se um imperativo de liberdade. O jornalismo tem uma boa oportunidade para mostrar aos cidadãos que, perante a captura dos poderes tradicionais, enredados num duplopensar completamente oco, ainda tem capacidade de ser Quarto Poder, vital para o saudável funcionamento de uma sociedade livre.

Quantas pessoas morreram na tragédia de Pedrogão Grande? (3)

Quantas pessoas morreram na tragédia de Pedrogão Grande? (2)

“…é este o número validado pelas autoridades competentes…”

Continue reading “Quantas pessoas morreram na tragédia de Pedrogão Grande? (2)”

Quantas pessoas morreram na tragédia de Pedrogão Grande?

Custa a acreditar que isto possa acontecer em Portugal em 2017: Incêndios. Empresária contou mais de 80 mortos em Pedrógão Grande

Isabel Monteiro, empresária de 57 anos, natural de Lisboa, reuniu uma base de dados com as vítimas mortais do incêndio dos concelhos de Pedrógão Grande e já contabilizou mais de 80 mortos, dos quais 69 estão confirmados pelas famílias com nomes completos, localidade e local da morte.

A intenção era criar uma lista de vítimas para a criação de um memorial na Estrada Nacional 236, hoje conhecida como “Estrada da Morte”, mas foi ao recolher a informação junto das famílias, funerárias, bombeiros e dados da comunicação social que Isabel constatou que o número de vítimas mortais seria superior ao número oficial divulgado pelas instituições do Estado. Começou então uma investigação de fundo e o total de mortos contados até à data, na sua base de dados, já ultrapassa os 80.

Continue reading “Quantas pessoas morreram na tragédia de Pedrogão Grande?”

No iPhone do Ricardo…(14) Alex Kidd

Querem Retro gaming? Isto sim, é retro:

A geringonça ganha, ficou em segundo

Jogo da Glória: regras e regulamentos, a crónica de Alberto Gonçalves no Observador.

(…) 93. Ferro Rodrigues, personalidade que existe para que as alforrecas não pareçam tão inúteis, jura haver “espasmos” da “direita” e da “extrema-direita” contra ele. E elabora: “Há pessoas que, quando algumas coisas mais graves acontecem, mostram que o seu conceito de democracia não é o mesmo do que o da maioria dos portugueses”. Ao almoço, você subscreve tudo a quem o queira ouvir (cerca de um empregado de mesa). Avance para a casa que lhe apetecer.

99. Aparentemente, Portugal é o único país da UE avesso a sanções à Venezuela. O governo desmente, o que provavelmente confirma o facto. Você liga para o “Opinião Pública”, da SIC Notícias, mas a meio da ligação esquece-se se concorda com o governo, com as sanções, com a ausência de sanções ou com o progressismo do sr. Maduro. Recue cinco casas. Você recusa-se a recuar, avança até ao final e ganha o jogo. Parabéns! Você alcançou a Glória. Você também demonstrou ser um rematado imbecil, mas em Portugal isso não constitui obstáculo a coisa nenhuma.

Cenas da vida autárquica a 3 meses das eleições

No Porto, Rui Moreira decide a criação de uma empresa municipal a 3 meses das eleições. Na reunião da Assembleia Municipal, o mais fervoroso defensor da ideia é um recente dissidente do PSD, agora apoiante de Rui Moreira. Esperemos então que Moreira, depois de limpar o seu nome no caso Selminho, seja capaz de dizer quem será a administração desta nova empresa municipal ANTES das eleições para evitar qualquer suspeita de compra de favores. Seja como for, decidir a criação de uma empresa municipal a menos de 3 meses de uma eleição (que teoricamente até poderia perder) nunca é boa ideia. Certamente que a criação da empresa municipal podia esperar mais 3 meses.

Em Lisboa, a Câmara Municipal atribui um contrato de outdoors a uma empresa criada 6 dias antes do fim do concurso. Para além de ter sido criada 6 dias antes das eleições, teve a imensa pontaria de num concurso de mais de 3 milhões de euros com ofertas confidenciais, conseguir oferecer mais 10 mil euros do que o segundo colocado. Atribuir grandes contratos a 3 meses das eleições nunca é boa ideia. Atribuir contratos publicitários levanta ainda mais dúvidas. Se por azar esses contratos são atribuídos a empresas criadas 6 dias antes e com imensa pontaria na oferta que fazem, então a necessidade de esclarecimentos é ainda maior. Para esclarecer qualquer dúvida, convém saber exactamente quem tem interesses nesta empresa vencedora e garantir que não são os mesmos com interesses na gestão da campanha de Medina. Por transparência, Medina devia também divulgar quanto paga a quem faz a gestão de imagem na sua campanha e que não está a ter “preço de amigo”.

Moreira e Medina são, até prova em contrário, pessoas sérias, e certamente não terão problemas em acabar com qualquer dúvida que possa existir em relação a estes dois temas.

Compreender o putinismo LXIX

Punitive Psychiatry Reemerges in Post-Soviet States, de Madeline Roache.

Discarded after the Soviet collapse, punitive psychiatry has reappeared again in Russia under President Vladimir Putin, as well as in some neighboring states.

Last summer, Crimean Tatar political activist Ilmi Umerov was receiving treatment for high blood pressure in a Simferopol hospital when FSB officers showed up one day and hauled him off to a psychiatric facility for an evaluation. Umerov, a former deputy chairman of the Mejlis, the Crimean Tatar representative body, had been a vocal critic of Russia’s annexation of Crimea.

In May 2016, the FSB charged him with criminal separatism after he declared, in Tatar: “We must force Russia to withdraw from Crimea.” At the psychiatric facility, a doctor quickly let him know that he would be punished, not treated. “You just need to admit that you’re wrong, and everybody will stop bothering you,” Umerov, in an interview with Euromaidan Press, quoted the doctor as saying. “Simple as that.” When Umerov would not make a deal, he was detained at the facility.

The conditions he endured were appalling. According to his lawyers, he was kept in an overcrowded room with severely mentally ill patients, denied access to his heart and diabetes medications, and forced to go long stretches of time without food.

Umerov was released three weeks later, but he remained subject to criminal prosecution. His trial commenced in June. Human rights activists point to Umerov’s case as an indicator of a troubling resurgence of punitive psychiatry in the former Soviet space.

The practice of using psychiatry to punish religious and political dissidents, including many well-known writers and artists, became notorious during the late Soviet era. The method was reportedly the brainchild of then-KGB Chairman Yuri Andropov, who saw psychiatry as a tool of systematic political repression: victims would be released only after retracting “wrong ideas” that the authorities deemed dangerous to Kremlin rule.

Discarded after the Soviet collapse, punitive psychiatry has reappeared again in Russia under President Vladimir Putin, as well as in some neighboring states.

Over the past five years across the former Soviet Union, more than 30 similar instances have been documented in which activists and journalists have been improperly detained in psychiatric institutions, sometimes for as long as 10 years, reports the Federation Global Initiative on Psychiatry (FGIP), a human rights watchdog. Experts say the real number of victims could be considerably higher. (…)

A citação é uma tecnologia heteromasculina e neoliberal

A ciência produz-se através de artigos científicos que são submetidos para revistas internacionais, com revisão por pares, e que geralmente dão o seu contributo em cima de outros trabalhos já publicados e revistos (raramente, ou nunca, uma contribuição é 100% original, no sentido em que faz sempre uso de algum método ou saber anterior). Ora, este processo desencadeia um subprocesso de citações, onde prestamos o devido reconhecimento ou crítica a um trabalho passado.

Carrie Mott e Daniel Cockayne (juro), «cientistas sociais» especializados em gender studies, argumentam que isto de contar citações é um instrumento, e cito, «neoliberal», que contribui para a «reprodução da heteromasculinidade branca do pensamento geográfico». Urge, assim, que os feministas e anti-racistas se insurjam contra esta ferramenta do neoliberalismo, e que «resistam a estas tecnologias anti-éticas de predomínio das hierarquias na produção científica». Trocando por miúdos, entre o prémio Nobel reconhecido pelos seus pares que tem dezenas de milhares de citações e um tolinho qualquer que diz que os pénis são uma construção social, a diferença é só mesmo o preconceito hereropatriarcal.

Abstract

An increasing amount of scholarship in critical, feminist, and anti-racist geographies has recently focused self-reflexively on the topics of exclusion and discrimination within the discipline itself. In this article we contribute to this literature by considering citation as a problematic technology that contributes to the reproduction of the white heteromasculinity of geographical thought and scholarship, despite advances toward more inclusivity in the discipline in recent decades. Yet we also suggest, against citation counting and other related neoliberal technologies that imprecisely approximate measures of impact, influence, and academic excellence, citation thought conscientiously can also be a feminist and anti-racist technology of resistance that demonstrates engagement with those authors and voices we want to carry forward. We argue for a conscientious engagement with the politics of citation as a geographical practice that is mindful of how citational practices can be a tool for either the reification of, or resistance to, unethical hierarchies of knowledge production. We offer practical and conceptual reasons for carefully thinking through the role of citation as a performative embodiment of the reproduction of geographical thought.

E para manter esta tradição herero-patriarcal e neoliberal, eis a citação: Mott et al (2017) – Citation matters: mobilizing the politics of citation toward a practice of ‘conscientious engagement’. Gender, Place & Culture – A Journal of Feminist Geography.

O PCP, o Augusto Santos Silva e a Venezuela

Entre o nojo e um ministro aldrabão.

Todos têm direito ao disparate

Se calarem Gentil Martins por ser médico, terão de calar Francisco Louçã por ser economista. A minha crónica no i.

Todos têm direito ao disparate

Uma das críticas feitas a Gentil Martins, quando declarou que a homossexualidade é uma anomalia, reside no facto de este não ser um médico qualquer. Na verdade, Gentil Martins é um médico pediatra conceituado. A sua opinião é tida em conta, muitas vezes como verdadeira apenas porque proferida por ele.

Compreendo este ponto de vista, apesar de Gentil Martins ser quem é por ter mantido as suas posições ao longo da vida. Mas o argumento falha também porque, se o seguirmos, muitos outros intervenientes do espaço público, pessoas cujas opiniões são tidas em conta, teriam de pensar duas vezes antes de falar; seriam talvez proibidos de o fazer, o que seria inadmissível num Estado de direito como é Portugal.

A título de exemplo, o economista Francisco Louçã teria de ter muito cuidado com os seus comentários em matéria económica, na medida em que estes estão inquinados pelo seu projeto político. Louçã utiliza as suas credenciais de economista quando, na verdade, está a fazer política. As suas afirmações têm pouca base científica, servindo apenas para sustentar o seu projeto político.

Partindo daqui poderíamos dar outro salto em frente, desta vez em direção a Jerónimo de Sousa. O líder do PCP sabe melhor que ninguém no que deu o comunismo. Apesar disso, defende-o com unhas e dentes. Pior: fá-lo em nome dos pobres, que foram os que mais sofreram com os regimes totalitários que o seu partido apoiou. Ora, da mesma forma que não passa pela cabeça de ninguém calar Louçã e Jerónimo, não me parece que se deva calar Gentil Martins.

Trumpices

Trumpismo no seu melhor. As autoridades podem apreender a propriedade de pessoas que nem sequer estão acusadas de crime, incluíndo em estados onde esta forma de roubo se encontra banida. Só pode ser fake news pois a fonte é jornalista da CBS.

Sobre o André Ventura

andre

 

Não mencionei o candidato pelo PSD a Loures no último texto porque, de facto, não era dele que queria falar. Queria falar de quem, na resposta ao mesmo, construiu uma série de argumentos que são falsos. Gente que só vai ao bairro fazer campanha ou comprar droga, como muitos jotinhas e ex-jotinhas por este país fora ou gente que faz carreira a vitimizar os moradores sob pretexto de ajuda, como uma legião de psicólogos e sociólogos, não têm lugar neste debate e foram, consequentemente, os meus principais alvos. Elenquei-lhes uma série de mimos que não foram, como se disse, insultos, mas sim eufemismos. Mas hoje, tendo já escrito o essencial a respeito do problema, vamos ao caso Ventura.

O André Ventura falou muito bem nas entrevistas que foi dando e explicou de forma muito clara o problema, sem nunca culpabilizar o todo pela parte, ainda que a parte seja substancial. Foi menos brejeiro que Carlos Teixeira, quando presidia ao município. Aliás, erro, não foi brejeiro de forma alguma. Na entrevista ao I cometeu um erro que não é admissível a quem passeia por estes círculos há tanto tempo: generalizou para fazer brilharete e, consequentemente, enfiou toda uma comunidade na lama. Foi racista, independentemente de eu não acreditar, pelo que li e pelo que ouço de quem o conhece pessoalmente, que ele o seja. Pagará, ou não, o preço político, que remédio.

Agora fingir que não existem problemas nos bairros sociais – problemas que vão muito além da comunidade cigana e que metem negros e brancos ao barulho – é criminoso. E afirmar que há por cá gente de bem, ou que não faltarão negros e ciganos de bem, o que é verdade, não invalida que também habite por cá uma quota parte de gente de índole questionável. Não se deixem enganar em pensar que uma mão lava a outra. Vocês têm sujado ambas.

Para terminar, o último texto não foi dirigido exclusivamente à comunidade cigana, como o debate à volta do mesmo leva a crer, ainda que esta seja uma das visadas por motivos que são óbvios. Foi dirigido a toda uma comunidade com leis e costumes paralelos aos do restante país. Falar apenas de ciganos no debate que procurei abrir ontem revela aí um fetichismo pelo tema que empobrece o mesmo, porque o deixa a meio. Da mesma forma que falar em violência policial e racismo nos bairros de Lisboa deixa o tema pela metade, não fossem os bairros do Porto, em que os brancos são maioria, sujeitos aos mesmos casos – de violência por parte de arruaceiros, uns do bairro e outros da polícia, porque também os há.

Como sacanear o parlamento – parte 2

“É na arbitragem das taxas de juro associadas aos diferentes prazos que está a borla aos bancos. Custa-me acreditar que o Ministro das Finanças não tenha feito estas contas.”

Destaque do meu artigo de hoje no ECO – Economia Online. Sobre a falta de transparência governamental e a má liderança do parlamento.

Trumpices

O Trump parece que está a esforçar-se para manter vivo e bem nutrido o Russia Gate.

Press secretary Sean Spicer confirmed Trump and Putin spoke at the G-20 heads of state dinner, hours after their formal bilateral sit-down. But he wasn’t able to say how long they spoke or what they discussed.

According to Tuesday reports, in their second conversation, Trump spoke with the Russian leader for roughly an hour, joined only by Putin’s translator. The meeting had previously gone without mention by the administration.

“There was a couples only social dinner at the G-20. Toward the end, the president spoke to Putin at the dinner,” National Security Council spokesman Michael Anton said.

Trump’s interactions with Putin are the subject of particularly intense scrutiny in the U.S., because of the ongoing special counsel and congressional investigations into possible collusion between the Trump campaign and Moscow.

That Trump was not joined in the conversation by his own translator is a breach of national security protocol, according to Ian Bremmer, president of the Eurasia Group, though one that the president likely would not know about.

O novo normal anormal de Trump parece passar por interromper a história do encontro do Donald Jr para anunciar o seu próprio segundo encontro com Vladimir Putin (até ao momento) mantido em segredo. Numa ideia, a doutrina Trump reside na capacidade de distracção de tudo o que o que o próprio Trump e a sua família fazem com o precioso detalhe do Presidente norte-americano de se ter reunido a sós com o bully do Kremlin e do tradutor russo.

Leitura complementar: Trump, Russia, and the Misconduct of Public Men.

 

Convite ao desinvestimento

A imagem deste post retrata faixa de protesto do Bloco de Esquerda (BE) pendurada em frente à sede da Altice (ex-PT) e proprietária da marca MEO. E aquela diz muito sobre a política do BE, em particular, e de muitos portugueses em geral: a propriedade privada não é lá muito privada.

O mercado de telecomunicações, como todos outros, depende das vontades e preferências dos consumidores, que ao longo do tempo mudam. Exemplo disso poderia ser primeiro-ministro António Costa ter afirmado, durante debate do Estado da Nação, que escolheu diferente operador para sua casa.

Mas a intenção do socialista líder do governo português não foi elogio à liberdade de escolha dos consumidores mas, sim, ataque directo às opções de gestão da Altice. Como os neocomunistas aprendizes totalitários do BE fazem com habilidoso jogo de palavras e discursos esquivos que, bem visto, só têm um real significado: “a empresa não é vossa, é dos trabalhadores” (claro que, depois, nem os trabalhadores nelas mandam, pois assim tornar-se-iam também proprietários!). No que respeita a socialistas, comunistas e neocomunistas direito ao que é vosso terá sempre estatuto temporário.

Alterações nos mercados, pelas acções dos consumidores, implicam necessariamente mudanças nas empresas que tencionam manter-se em operação. Durante muitos anos a PT, fruto também do seu historial como empresa pública e líder de mercado, foi algo complacente com o crescimento da concorrência. No entanto, o maior erro foi cometido já depois de privatizada, ao continuar a ser instrumento das ambições políticas de governantes. Maus investimentos reduziram valor da empresa, acabando por ser alvo de oferta de aquisição da Altice. 

Antigos accionistas venderam porque o dinheiro recebido valia mais, para eles, que continuação como proprietários da PT. Altice comprou porque acreditava que, implementando mudanças estruturais e estratégicas, a empresa pode vir a valer mais do quanto nela gastou. Estava errada. Não contou com classe política que pretende manter status quo de em tudo e todos querer mandar.

Nota: a reboque da propaganda do BE muitos dirão que Governo deve agir “em defesa dos postos de trabalho”. Só que quanto mais eficazes forem menor o valor da empresa. E maior o convite para que não se invista em Portugal.

Você já morou num Bairro Social?

Há um enorme problema na comunidade cigana, um problema, ainda que em menor escala, com a comunidade africana e um problema gravíssimo, que transcende raça e etnia, e inclui os brancos, nos bairros sociais por este país fora. Quem achar o contrário, ou tem a paisana à perna e não acha grande piada à ideia, ou tem que começar a sair do condomínio fechado, passear nos subúrbios, andar de transporte público a más horas, deixar o gabinete da universidade e passar a leccionar numa escola de bairro, algo do género. Essa bolha do politicamente correcto onde vocês se enfiaram, uma das causas da imunidade que grassa e das reações, algumas bárbaras, que lhe sucedem, mata pessoas. E quando eu digo que mata pessoas não o escrevo num sentido figurativo, mas num bem real.

Vocês, doutorzinhos da merda nas vossas conferências da treta do raio da problematização que vos pariu, vocês políticos com sabidos problemas de coluna, vocês sociólogos da vitimização, vocês betinhos do Bloco de Esquerda, têm sangue nas mãos. É claro que vocês, nos vossos condomínios, não estão sujeitos a levar um tiro por sugerirem ao jovem à vossa frente que fumar um cigarro no metro é capaz de não ser lá grande marco civilizacional, não têm um largo grupo de familiares armados que nem uma célula terrorista a tentar arrombar-vos a porta porque a vossa mulher não consentiu que uma sujeita a ultrapassasse na fila do supermercado, não vivem sob a ameaça de tiroteios, assaltos, espancamentos, entre outras cenas que hoje são parte do quotidiano. Vocês não viram armas e drogas no vosso 5o ano de escolaridade, não havia disso no colégio.

Vocês são os mesmos mentalmente desavantajados que quase armam uma guerra civil porque uma pita se atirou à professora devido a um telemóvel – coisa comum que é capaz de se repetir no mesmo dia – e depois ligam para os direitos humanos nas questões de peso. Quando morre um puto esfaqueado por um telemóvel ou um mãe numa bala perdida eu não vos vejo no funeral nem nos jornais a soluçar de indignação. Quando uma miúda é proibida de ir à escola não berraram: “racistas”! Criaram turmas segregadas, medida digna aos olhos de uns quantos boers. Quando um traficante é apanhado, com mais espingardas que o Rambo e uma garagem que mete inveja a muitos jogadores da bola não vos vejo armar a paródia que armaram ao senhor do Pingo Doce. Quando os polícias são corridos a balas ou duas comunidades decidem reencenar um western não há escandaleira?

Claro que não coitados, são vítimas do sistema capitalista e racista ou da puta que vos pariu. E ainda se indignam por os sujeitos serem discriminados quando voltam. “Olhe, eu tenho aqui uns anos por sequestro, tráfico de drogas, umas navalhadas em goela alheia e umas caçadeiras que tinha lá em casa, mas sou um homem honesto, dava um excelente relações públicas da sua empresa”. Quem sofre? As pessoas de bem, trabalhadores, das próprias comunidades, que se vêm acorrentadas a um espaço que vive – e com sorte sobrevive – com leis e costumes que transcendem as da sociedade portuguesa, ocupadas com guerras diárias enquanto outros se ocupam com em contar os novos géneros, insultar os turistas ou partir barbearias.

Ide lá jogar polo aquático com o Salvador, escrever a vossas crónicas dignas de analfabetos funcionais, beber um gin com salada com a malta da jota, mas deixem os problemas de gente grande para homens. Os canalhas não têm lugar aqui.

Aceitar ‘os nossos’ é fácil

Podemos não concordar com ela, mas todos têm direito à sua opinião. É quando não concordarmos que o respeito se torna, não importante, mas indispensável. Aceitar quem pensa como nós é fácil. Tentar compreender, debater, contradizer as ideias daqueles de quem discordamos, isso sim é o que nos torna em verdadeiros amantes da liberdade.