A inutilidade dos sindicatos segundo Fernando Pessoa

Diz Fernando Pessoa, esse liberal desconhecido, em Ideias Filosóficas sobre os sindicatos no tempo dele (ainda muito se adequa ao nosso tempo):

“Um sindicato ou associação de classe — comercial, industrial, ou de outra qualquer espécie — nasce aparentemente de uma congregação livre dos indivíduos que compõem essa classe; como, porém, quem não entrar para esse sindicato fica sujeito a desvantagens de diversa ordem, a sindicação é realmente obrigatória. Uma vez constituído o sindicato, passam a dominar nele — parte mínima que se substitui ao todo — não os profissionais (comerciantes, industriais, ou o que quer que sejam), mais hábeis e representativos, mas os indivíduos simplesmente mais aptos e competentes para a vida sindical, isto é, para a política eleitoral dessas agremiações. Todo o sindicato é, social e profissionalmente, um mito.

Mais incisivamente ainda: nenhuma associação de classe é uma associação de classe. No caso especial da sindicação na indústria e no comércio, o resultado é desaparecerem todas as vantagens da concorrência livre, sem se adquirir qualquer espécie de coordenação útil ou benéfica (…)

Nem resulta da acção do sindicato qualquer coordenação útil que compense estas desvantagens todas. Não tendo uma verdadeira base de liberdade, o sindicato não coordena a classe como indivíduos; não tendo nunca uma direção profissionalmente superior, o sindicato não coordena a classe como profissionais; não tendo outro fim senão o profissional e o económico, o sindicato não coordena a classe como cidadãos”.

Parece que está a falar da Fenprof.

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Salvar a Europa!

“O título (“Salvar a Europa de si própria”) é pujante, mas depois de lido o texto, a pujança dá lugar à pungência.”

Destaque do meu artigo de hoje no ECO – Economia Online. Mais um manifesto…

Uma ideologia qualquer

Permitam-me, em jeito de discurso, cumprimentar os meus camaradas João Silva e Bernardo Blanco, com quem me estreio no Insurgente. Acompanho-os agora como acompanhei antes, no late Tempos Livres, um blog de liberais imberbes que ainda teve uma dose respeitável de likes e partilhas no Facebook – nada mau. Os imberbes, e falo agora sobre o João e o Bernardo, estão mais do que preparados para ser insurgentes graúdos, como se vê bem nas postas que linkei acima. Agora, neste momento Hello World, venho fazer valer a minha barba.

E não haverá melhor abertura para esta estreia do que afirmar que há alturas em que é melhor ficar calado. E há. Não é preciso ser governante, político, ”intelectual” ou um simples blogger para sentir a pulsão, que desconfio ter contornos existenciais em muitas cabeças, para se ter um forno industrial de opiniões prontas a sair sobre o assunto do dia. É na realidade uma tarefa simples, especialmente se tivermos inimigos bem identificados e se acharmos que algo de muito grave acontecerá – a queda do Ocidente, da UE, a vitória do marxismo cultural, do Islão, da islamofobia, do feminismo radical, do patriarcado ou do André Ventura – se o post não for publicado o mais depressa possível. É uma pulsão que se dá maioritariamente entre a saída do trabalho e o jantar, após breve consulta das notícias do dia, e, quem não estiver pronto a tomar uma posição heróica, peremptória e fundamental sobre seja que assunto for está, naturalmente, em apuros.

Os anos têm sido intensos em assunto e as disputas mais ou menos ideológicas à direita têm-se debruçado sobre temas que pouco dizem respeito à realidade indígena. Desde Brexit a Bolsonaro, alguma direita liberal ou conservadora tem-se obcecado sucessivamente em dar resposta a questões que não se colocam em Portugal; curiosamente, algumas clivagens revelam-se mais intensas quando se referem a assuntos externos. Quanto aos internos, reina uma rejeição epidérmica da Geringonça que parece ser suficiente para dar corpo a um discurso político. A minha humilde explicação para o fenómeno tem pouco de fenomenal: desde que o tema Sócrates foi delegado à justiça e o PSD\CDS se deixou traumatizar sob um programa de ajustamento que apoiava e abominava que, dentro e fora dos partidos, se está ainda a procurar dar corpo a um rumo novo. Dou o processo como natural, ainda que por vezes doloroso: o ciclo político nacional e internacional mudou bastante desde 2015 e ainda há muito por aprender sobre o que aí vem.

Continua a ser difícil, contudo, ser capaz de me pronunciar sobre todo o acto de governos aquém e além-mar sem antes exercer alguma reflexão sobre os meus valores. Ela levará, eventualmente, mais tempo, e a realidade dedica-se pouco a libertar-nos do incentivo a macaquear respostas feitas. As barreiras ideológicas que se esboçaram nas últimas décadas estão em movimento, e, ainda que muitos se limitem a ficar onde sempre estiveram, estes dão por si, pelo movimento do próprio chão, em pólos opostos. O desafio para quem entende, como este vosso amigo, que deverá ter um ou dois cêntimos a acrescentar sobre o que se passa por aí, não é trivial. As posições que tomamos também se formam a partir de aliados ou adversários cuja constância é assumida; a ideia de um ressurgimento da direita nacionalista por todo o mundo não era evidente há 10 anos atrás. Era relativamente fácil desenhar as ”linhas de falha” entre os blocos político-ideológicos, e o exercício de crítica e afirmação política era mais fácil. No entanto, surgem à direita e à esquerda novas divisões internas que, aparentemente, nos levam a ter de tomar decisões em cima da hora.

Sobre isto diria, à partida, que a ideia de que devemos sempre tomar posição sob pena de sermos vítimas de ‘fraqueza’ ou desânimo insustentável é uma gigantesca falácia. O recato é recomendável, principalmente quando alguns desejam interrompê-lo para construir narrativas baseadas na importação de fenómenos. Desde considerar o Observador como inequívoco bastião do populismo direitista até à divisão da direita nacional entre bolsonaristas e haddadistas, não faltaram desculpas para se desviar os debates nacionais para focos alienígenas. A culpa, como afirmei acima, prende-se com a falta de uma narrativa endógena à direita portuguesa. As consequências, contudo, estão à vista, e António Costa ameaça-nos com uma bela maioria absoluta em 2019.

Não é um dever ético alinhar em debates cujos termos estão enviesados à partida. De outra maneira, ficamos rendidos a todos os maioritarismos que a história nos empresta, sabendo o quão desastrosas podem ser as consequências destes. Para um liberal, o recato não será necessariamente irresponsável. Se lhe sobrar dever, será o de contestação dos termos do debate. E começará bem se contestar a sucessiva definição de todo o santo tema como ”civilizacional”. Não é só Graça Fonseca. Todos os debates sobre o clima internacional têm-se enquadrado como civilizacionais e absolutamente determinantes. Os dilemas estratégicos e ideológicos que a direita enfrenta não têm uma dimensão abaixo de metafísica: é tempo de grandes decisões, grandes protagonistas e grandes movimentos históricos.

A liberdade, no entanto, não foi feita para ser defendida à conta da providência de alguns. Já se inventaram, como se continuará a inventar, todos os artifícios possíveis para a limitar em seu nome. É uma ideia irresistível, mas não a devemos confundir com ”libertação”. A liberdade é um estado precioso, precário e normalmente temporário; um intervalo entre ”grandes decisões”, onde nos deixam tempo e espaço para nos dedicarmos às pequenas. Por isso, defendo os ultramontanos, os alienados, os incluídos, os cisgénero, os transgénero, os monogâmicos e os poligâmicos. É o único contexto onde podemos, confortavelmente, compreender cada um destes e outros grupos e, quando nos forem antipáticos, tolerá-los. Ela perde-se sim, quando estes se tornam em instrumentos políticos na cauda de movimentos profundos e ”transformadores”. Perde-se sim, no meio da jacobinice que sempre infectou a esquerda e agora alguma direita, sedenta de colocar as suas revisões da história à cabeça do Estado. Foi sim, em liberdade, que vimos o mundo crescer em prosperidade e diminuir em distância, que vimos modos de vida a multiplicar-se e a coexistir e vimos democracias surgirem e consolidar-se.

O sistema não é mau de todo não só porque permite uns e outros conviverem, mas porque me permite a mim duvidar sem medo de ser desleal às concepções favoritas da minha comunidade, do meu grupo ou do meu Estado. Defender e proteger esta liberdade da embriaguez da esquerda e de quem a imita também não basta. Ela não deixa de ser um projecto aspiracional e sempre promissor. É muito mais do que as caricaturas que se compram à esquerda e nalguns jornais arregimentados. É fonte de prosperidade e, surpresa, de ”civilização”.

Finalmente, devo dizer que desconfio de quem clama aceder à realidade apesar de todas as ideologias, sistemas de pensamento ou preconceitos de outra ordem qualquer. Desconfio de quem já entendeu isto tudo, de quem sabe para onde isto vai e de quem sabe como levar isto para lá. Naturalmente, desconfio de mim mesmo. Na dúvida, escolho a liberdade e deixo a irresponsabilidade para quem procura ”grandes decisões” – para quem procura, por fim, delegar num herói qualquer a persecução do Bem. Para isso serve uma ideologia qualquer. E a liberdade não paira aí.

Da solidão na política

Theresa May é uma mulher só. Isso não é necessariamente cupla sua, às vezes vem com o cargo e as circunstâncias. “Uneasy lies the head that wears a crown” escreveu Shakespeare sobre Henrique IV, o irmão da “nossa” Filipea de Lancastre…
 
May certamente não assumiu um cargo fácil, mais a mais em circunstâncias dificílimas. Vale a pena recordar que May nem sequer seria a favor do Brexit, mantendo-se no entanto suficientemente ambígua para poder suceder a Cameron caso o Brexit ganhasse o referendo – como aconteceu. Nesse sentido escolheu de alguma maneira o seu momento para surgir na liderança de partido e governo. Igualmente da sua responsabilidade foram as eleições de 2017 que prometiam estabilidade e reforço da maioria Conservadora mas resultaram num governo sem maioria estável, apesar dum número de votos superior a muitos de Thatcher, p.ex.
Mas ainda assim a impressão que fica é que nada disso lhe dificultou o trabalho com as negociações do Brexit. É certo que possivelmente uma maioria folgada lhe permitiria descartar os deputados cépticos e levar avante a votação que hoje adiou, mas a verdade é que o acordo é simplesmente mau demais. O problema de May é que provavelmente tem a noção (ou pelo menos a convicção) que este é o acordo possível. E a assimetria de informação prejudica a percepção pública do acordo (está a ver ali em cima onde escrevi “mau demais”?) quando só quem esteve envolvido nas negociações sabe o que lhe custou.
E tem sido muito assim com a UE. Sempre que surge um processo complicado, fecham-se as portas das instituições e os líderes saem, horas, dias, ou semanas depois para trazer um texto aprovado. Quando têm de o levar a votos (seja em referendos como no caso da chamada “Constituição” europeia ou a Parlamentos mais independentes dos seus governos como o caso do inglês) a coisa tem tendência a correr mal. Mas poder-se-ia negociar de outra forma? Mais aberta, mais espelhando as divergências e as dificuldades ultrapassadas para vender também publicamente o esforço por detrás desse consenso? Não sei. Mas a Europa não pode permanentemente cozinhar textos nas suas instituições que depois quando têm de ir a jogo nos estados-membros não têm apoio.
E sei o seguinte: em todo este processo do Brexit, a UE comportou-se como um cônjuge traído que vai para o divórcio com o fel na boca e a vingança no coração. As declarações de vários responsáveis europeus, do inenarrável Guy Verhofstadt ao sr. Barnier passando pelo felizmente desaparecido Juncker, foram permanentemente duma arrogância contra uma decisão soberana dum estado-membro que a mim, europeu de nascença, me causam asco e me levam a repensar se estamos assim tão bem na “União”. Um clube como a UE tem de ter jogo de cintura justamente para acomodar as várias sensibilidades e não pode fazer birra quando há uma divergência. O acordo obtido pareceu-me aquando da sua publicação impossível de aceitar por Londres (como parece confirmar-se) e tenho poucas dúvidas que foi por imposições mesquinhas de Bruxelas. E não sei se compensa participar num clube assim.
A UE nos últimos anos tem se transformado num colosso em que as ideias luminosas de quem tem para si o monopólio do europeísmo não deixam espaço para a divergência – e não falo, claro, das políticas do Euro, claras desde a sua instituição voluntária e aliás sucessivamente aligeiradas. O fim da necessidade da unanimidade numa série de matérias, nas votações do Conselho, após o Tratado de Lisboa foi celebrada pelos eurocratas como um avanço para a Europa que agora poderia tomar decisões muito mais facilmente e sem a morosidade da unanimidade. O que a Europa se esqueceu é que velocidade não anda de mãos dadas com ponderação e uma Europa muito rápida pode desagregar-se.
A Europa precisava um bocadinho de calma. De parar para pensar e consolidar. A saída do Reino Unido, em vez de ser vista como uma afronta, deveria ser vista como um aviso. Uma Europa de paz é valiosa de mais para ser sacrificada só porque há uma sede de avançar com reformas e legislação (veja-se a censura que está para ser imposta aos criadores de conteúdos no youtube, facebook ou também aqui neste blogue só porque o lóbi dos direitos de autor consegue convencer dois ou três actores chave no processo legislativo, contra os interesses das populações) que se meteram nas cabeças de alguns burocratas. A paz, que é justamente assinalada como dos maiores resultados da integração europeia ainda que a par com o valioso contributo da NATO, não se vai perder por deixarmos mais tempo à UE para se desenvolver. Aliás, se calhar são hoje percepcionadas muitas mais ameaças à paz do que em qualquer dos últimos 30 anos (seja no Leste com a Rússia ante portas, seja no Sul com os fluxos migratatórios que bem ou mal causam apreensão, por muito que nos gabinetes governamentais não se perceba) e não se vislumbra grande acção da União nisso.
A senhora May está sozinha e se calhar não passa o ano em Downing Street, mas a verdade é que a UE está longe de sair vencedora daquilo que sempre achou ser uma batalha, quando deveria ser a construção duma relação diferente com os amigos de sempre. Quem sabe se este processo não vai acabar por deixar mais arrependidos em Bruxelas que em Londres.

O PAN, a PETA e o IRA entram num bar

Apanham uma cadela e saem de gatas.

Diferenças Privado vs Público

Esta imagem da Iniciativa Liberal mostra bem as diferenças entre quem trabalha no sector privado e no sector público. As diferenças entre quem trabalha no privado e quem trabalha para o Partido do Estado (mesmo que haja uma parte que trabalhando no público, não deseje pertencer a esse “partido”). Aquela coisa do Artigo 13° da Constituição, o Princípio da Igualdade, só serve quando dá jeito aos socialistas não é? Pior do que isto tudo é que é uma parte do privado que sustenta todo o público.

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O PS sabe bem onde ir buscar votos e aponta ao seu eleitorado alvo sem medos com todos os meios que tem (entenda-se dinheiro de impostos para comprar votos). O PSD disse alguma coisa em relação a isto? Aliás, algum partido com lugar no parlamento disse? Eu nada vi nas redes sociais. Rui Rio anda mais ocupado a dizer pelo Twitter que a ideologia do PSD é a verdadeira social democracia. Ainda bem para ele e para o PS-B… ou PSD, desculpem. Faz muito bem a Iniciativa Liberal, como novo partido sem medos de desagradar a quem tiver de ser, em mostrar de forma clara isto às pessoas.

 

 

Entretanto nas ruas de Paris…

Um vídeo breve recolhido por um jornalista activista americano nas ruas de Paris. Se quiserem ver mais, podem ver os últimos vídeos do canal onde há por exemplo um vídeo de mais de 3 horas com ele no meio dos protestos.

Eu diria que este país está tramado, quer com Macron quer com Le Pen, mas como estamos a falar da França, não preciso de reforçar a ideia.