Olof Palme vs. Louçã mentiroso

(…) a distinção entre preferências expressas e preferências reveladas. Traduzindo para português corrente, as expressas são as que dizemos ter quando alguém nos pergunta, ou seja, o que queremos pensar que somos ou o que queremos que outros pensem sobre nós, enquanto as reveladas são o que fazemos na prática, que demonstram o que realmente somos.

O Bloco de Esquerda expressa preocupar-se muito com os rendimentos mais baixos. Mas, quando confrontado com uma proposta que sobe o rendimento disponível de milhões de Portugueses, rejeita-a porque a mesma também beneficia uma minoria ínfima de “ricos”. E revela desta forma a sua real preferência e ambição: não é fazer com que deixem de haver pobres, mas sim que deixem de haver ricos.

Grande texto do Bruno Pinho, entitulado Olof Palme vs. Louçã (e seus discípulos).

Sobre a torção do pepino

No Observador:

Como argumentou C.S. Lewis, o poder de quem define um programa de estudo está não no plantar de teorias concretas nas mentes em formação dos jovens, mas antes na sub-reptícia instalação de pressupostos e axiomas na sua mente. Anos mais tarde, colocados perante uma determinada controvérsia, os jovens bem doutrinados assumirão automaticamente um dos lados do debate sem sequer reconhecerem que se trata de uma controvérsia.

Síndrome de Estocolmo portuguesa

Dois recentes acontecimentos da atualidade portuguesa fizeram eclodir uma ampla discussão que se tem vindo a movimentar por todos os seus refúgios. Desde o teclar furioso, triturador e surdo dos novos microditadores da opinião que habitam as redes sociais (e, quais caudilhos cegos às críticas e divergências, atestam a veracidade das suas opiniões pelo suporte ciberpopular que agregam), até aos espaços mais tradicionalmente mediáticos dos jornais. Uma nota: urge distinguir claramente estes dois espaços de opinião, enquanto a realidade o autoriza, uma vez que o progresso aponta para a vassálica aglutinação do segundo ao primeiro.

Os gatilhos dos corridos e escorridos rios de tinta e pegadas digitais foram, desta feita, o abaixo-assinado pela defesa da objeção de consciência na educação e a aprovação do curso de Medicina da Universidade Católica Portuguesa. Ainda a braços com uma crise sanitária e no prefácio do combate a uma colossal crise social e económica, há quem tome estes tópicos por de somenos, nomeadamente o relacionado com a disciplina de Educação para a Cidadania. Não poderia estar mais em desacordo, na medida em que a reação a ambos não poderia ser mais sintomática da limitadora relação de dependência dos portugueses para com o Estado, e do paternalismo retrógrado verificado no sentido oposto.

Direitos Humanos, Igualdade de Género, Desenvolvimento Sustentável: tudo domínios constituintes, entre outros, da disciplina em causa, e cuja apresentação a jovens portugueses considero positiva. Como motor de debate (nunca de doutrinação), pode até trilhar caminho para uma análise saudável de quais deverão ser os valores comuns para uma sociedade democrática e vibrante, uma sociedade em que se possa discutir sem acusações extremistas, por exemplo, se a própria obrigatoriedade desta disciplina se justifica. É, também e no entanto, um jogo perigoso, porquanto manuseia construções ideológicas mais ou menos contemporâneas, e, por isso, sensíveis a forças desestabilizadoras que podem manipular, ou até vir a dominar, essa contemporaneidade. Demais, a ténue linha entre doutrinação e fórum de debate está dependente de quem a leciona. A maior parte de nós concordará que deverá existir igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, de forma a materializarem o seu rumo enfrentando o mesmo grau de obstáculos. E se for ensinado que um agressivo sistema de quotas é o meio ideal para atingir esse fim? A concordância não será tão universal neste caso, pois que o meio poderá rasteirar a meritocracia, já tão maltratada em Portugal. Não me choca a existência da referida matéria, como de igual modo não me espanta, minimamente, a objeção de consciência levantada, colocando a disciplina num plano opcional. De resto, por todas as suas especificidades, assim o deveria ser, não fazendo qualquer sentido que quem não a frequente se veja atrasado no seu percurso académico. Nem no seu percurso como cidadão.

O que mais admira nesta história é a vozearia que emergiu contra a objeção de consciência e o abaixo-assinado. Vozearia, em grande parte, de timbre autoritário, que vê como ultrajante um movimento em tudo natural de um pai para com os filhos, removendo do Estado o derradeiro papel de educador e transmissor de virtude. Mas só assim o entendem porque nele veem, desde 2015, uma plataforma para a veiculação dos seus valores, imutavelmente bons e melhores. Apregoam, de olhar fixo, o seu conceito de liberdade, mas assustam-se quando o pressentem em choque com o que tentam edificar. Ora, confundem tremendamente educação com escolaridade, e talvez devessem frequentar a disciplina que por estas semanas têm defendido, de forma a vislumbrar o quão triste seria uma sociedade que de uma disciplina dependesse para ser cívica.

Viajando, agora, para o segundo tema. Foi com grande satisfação que me cruzei com a notícia que dava conta da aprovação do curso de Medicina da UCP, uma verdadeira pedrada no charco num dos domínios que mais tabus encerra à sua volta em Portugal: a educação. Logo se fez ouvir o puritanismo de que só o ensino público poderia ministrar tal curso. Porquê? Grande parte, por tribalismo futebolístico, pelo que avancemos. Outra, antevendo uma resultante má qualidade profissional. Justo, a qualidade a quem confiamos a nossa saúde é algo que nos deve apaixonar.

Apaixonar, mas não toldar a visão. Não é, obviamente, por ser uma universidade privada que o ensino será pior. Demais, dado o contexto atual, atrevo-me a dizer que as provas apresentadas pela UCP certamente terão sido cabalmente positivas, pois facilmente se adivinharia o tumulto e escrutínio que se seguiria, e seguirá, a esta estreia. Claro que a qualidade poder-se-á vir a verificar má, e, se assim o for, que o mercado trate de curar, ou adormecer, o curso.

É, então, salutar que os portugueses demonstrem esta desconfiança vivaz para com assuntos que os apaixonem. Certo é que a nossa saúde nesse quadro se insere. Seria contudo ótimo que essa desconfiança não tivesse como força motriz o inflexível dogma ideológico, antes uma verdadeira ânsia de melhoria. Uma ânsia que levasse os portugueses a ser tão desconfiados, também, para com o governo e a máquina pública do Estado, que tanto impacto tem na nossa saúde. Temos, agora, cerca de 50 mil milhões de razões que viajarão de Bruxelas que fundamentam esse grau de exigência para com uma Administração Pública que tantas provas miseravelmente negativas tem dado. Concluo com um repto para que esses, os que mais gritam por liberdade enquanto de censória caneta na mão a impedem, prossigam com a exigência. Que combatam também a dependência melosa para com o Estado, para que a vida possa prosperar com e além dele.

José Campos Costa

Governo cria linha de crédito para financiar pagamento de impostos?

Em vez disto podiam… sei lá… diminuir impostos.

A medida ainda está a ser desenhada, mas ao que o ECO apurou destina-se a PME e profissionais liberais e pode ser usada para financiar o pagamento de qualquer tipo de imposto.

O Estado vai dar dinheiro, que vem de impostos ou que mais tarde será pago com impostos, para as pessoas/empresas pagarem impostos. É isto.

Avante com a festa

Ao contrário de muitos, concordo com a realização da Festa do Avante.

Também concordo com o PCP quando critica ajudas do Estado (“lucros privados, prejuízos públicos”).

Para manter coerência, o camarada Jerónimo de Sousa deve incluir, no preço do bilhete, seguro que pague custos de testes e internamento de infectados com Covid-19.

É que, como muitos, não estou disposto a pagar possíveis consequências desta Festa “política”.

Os empregos criados por Costa

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No Jornal de Notícias de hoje aparece o título da foto. É incrível como os jornais compram esta conversa aldrabona de que os governos criam empregos. Pior: Neste caso os empregos são “criados por Costa”. Que se saiba os únicos empregos criados pelo actual PM, durante toda a sua vida, foram os tachos para os correligionários e para o amigo mega-consultor.

E a adorável ironia de que os empregos são criados por ele e destruídos pelo Covid? É que apesar de tudo, a relação entre as decisões do governo relativas ao confinamento que causaram esta destruição de emprego é mais directa do que a suposta relação entre políticas públicas e a criação de emprego. Mas enfim. É para isto que servem os milhões dos contribuintes que subsidiam os media.

Niall Ferguson e Yascha Mounk sobre as Ameaças à Democracia Liberal

O primeira debate/conversa do novo projeto de Yascha Mounk, Persuasion, foi com o brilhante historiador Niall Ferguson. Embora considere a análise de Mounk geralmente equivocada (tanto por confundir conceitos como por aplicar análises semalhantes a contextos distintos), não devemos subestimar muitos dos seus avisos. Existe, efetivamente, um perigo no “populismo” que se Mounk se refere (o perigo está exatamente no referente de “populismo”, pois não creio que o sentido da palavra seja claro, pelo menos na forma como Mounk a utiliza). Ferguson não discorda de Mounk em praticamente nenhum ponto. Porém, o historiador britânico deixa claro que a perceção de relevância de Mounk (e de grande da media “liberal”) é completamente equivocada. O grande perigo iliberal vem não do “populismo” mas, antes, de muitos auto-proclamados liberais que, numa tentativa desenfreada de expiar os pecados da civilização ocidental, minam as suas instituições e práticas. Na verdade, o próprio populismo que Mounk denuncia pode ser lido, seguindo as lentes de Ferguson em The Great Degeneration (ou O Declínio do Ocidente, publicado pela D. Quixote), como um subproduto da podridão generalizada das instituições liberais clássicas. Deste modo, Ferguson defende que a grande ameaça à Democracia Liberal vem de uma esquerda crescentemente iliberal, anti-democrática, que vê nas instituições ocidentais a razão dos seus pecados (e não aquilo que os amenizou) e que, dada a sua visão de mundo, não consegue sequer contemplar ideias que nos parecem tão basilares como a liberdade de expressão.

 

A Ciência e o Lobo

No Observador:

O problema grave nestas situações é a instrumentalização da ciência para fins políticos, que resulta numa relativização da própria ciência. Factos e teorias científicas não devem ser escolhidos “a la carte” para sustentar opiniões políticas e tentar desqualificar as posições contrárias, sob pena de se quebrar a relação de confiança que permite a aplicação prática do conhecimento científico.