A Pátria do Subsídio

Com o meu texto sobre Privatizar a RTP recebi logo umas mensagens a dizer que não ligo à cultura e que se sou contra a RTP então também sou contra subsídios à cultura. Não ligar à cultura sou totalmente o oposto em pessoa. Ser contra subsídios à cultura sou exactamente isso. Deixo aqui uma crónica do Miguel Esteves Cardoso, presente no livro “Os Meus Problemas” de 1988, que me marcou especialmente quando a li há uns tempos. Incrível como está tudo igual ainda.

As políticas actuais são uma perversão da cultura. Fazem lembrar o salsicheiro que, para vender mais salsichas, despreza a publicidade e limita-se a abrir vinte novas fábricas de salsichas. O problema da cultura portuguesa não está na oferta, mas na procura. (…)

Se não, Portugal tornar-se-á rapidamente na Pátria do Patrocínio, sabendo-se de antemão que não há Pai para tantos. Os poucos consumidores das artes já se cansam e desanimam de ouvir tantas madalenas culturais a chorar por causa do subsídio que não veio, de tantos pobrezinhos, pintores ou cineastas, à procura de um padroeiro, e de tanta afilhadagem burocrática que usa os jornais para mostrar que está zangada com as comadres do Estado. Nenhum Estado consegue ser uma Nossa Senhora do Amparo para uma tão grande multidão de necessitados. É uma loja que começa a precisar de ser desamparada.

Um dia disseram-me que Portugal precisava de um avanço cultural e que isso só lá ia com mais dinheiro do Orçamento de Estado (leia-se dinheiro dos pagadores de impostos) para subsídios para a cultura. Que “avanço cultural” é esse não sei, até porque vejo aí um bom grau de subjectividade.

O que sei é que o “avanço cultural”, qualquer que seja, não necessita de concursos duvidosos onde se atribuem subsídios a artes que ninguém procura, muitas delas nem sendo “artes” no sentido clássico possivelmente. Se querem cultura, façam-se à vida e fomentem a procura, em vez de quererem mais apoios à oferta (que vêm de impostos). O que sei é que o “avanço cultural” não necessita de investimento público, pode precisar de investimento claro e aí há duas soluções: ou a pessoa começa a fazer e vende (tem receita) ou arranja investimento privado (bolsas, patrocínios, mecenas, etc.). Tanta arte que se produziu em Itália nos Séc XV e XVI e tanto que era patrocinado por Mecenas (Miguel Ângelo e Da Vinci tiveram mecenas para dar um exemplo óbvio). Fernando Pessoa, um grande liberal nos dias sóbrios (ou talvez o inverso), é o poeta português mais conhecido do mundo e nunca recebeu um euro de financiamento estatal. A equipa olímpica dos US – a mais medalhada do mundo – só tem financiamento privado. E há muitos mais exemplos.

Como diz o MEC, “nenhum Estado consegue ser uma Nossa Senhora do Amparo para uma tão grande multidão de necessitados”. Não só não consegue como não deve, acrescento eu. Façam-se à vida, como os outros todos que vos subsidiam, e promovam o vosso trabalho para que apareçam pessoas à procura do mesmo e a pagar por ele. E se quiserem algum tipo de incentivo justo lutem por incentivos à procura (redução de impostos a quem apoia/investe e a quem procura/paga cultura). É que já não há paciência, nem dinheiro, para a Pátria do Subsídio.

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8 pensamentos sobre “A Pátria do Subsídio

  1. Sem a eterna subsidiação estatal à cultura, como é que o PS teria a “cóltura” a fazer-lhe petições de apoio, nas quais os assinantes proferem barbaridades como “Costa será uma lufada de ar fresco” (coisa espantosa para se dizer que alguém que esteve, desde o berço, enterrado até ao queixo na política)? Se fossem empresas e particulares em vez destes políticos a financiá-los, acham que o PS teria os Botelhos, Vasconcellos, Infantes e Velosos desta vida a fazerem-lhes fretes propagandísticos ao estilo Triunfo da Vontade?

  2. mg42

    O Vaticano não era um Estado, e o Ludovico Sforza patrono de Leonardo Da vinci e de varios artistas não era o regente de Milão. A estátua da liberdade não foi paga pelos impostos das cidades francesas, o Lincoln Memorial e o Mount Rushmore National Memorial, não foram financiados pelo congresso americano.

    % de numero de medalhas olimpicas por habitante de cada país:

    Hungria 0.0050
    Suecia 0.0049
    Alemanha 0.0020
    Australia 0.0020
    Russia 0.0013
    UK 0.0012
    França 0.0010
    USA 0.00078

  3. mg42

    Ora cá está para quem despreza a rtp estatal como o Bernardo e prefere o Netflix privado…

    “My adopted hometown will soon be the base of operations for a A NEW NETFLIX MOVIE starring aging elitist hippies Robert Redford (estimated net worth: $170 million) and Jane Fonda (estimated net worth: $120 million).

    A state economic development commission unanimously voted last week to fork over $1.5 million in taxpayer-funded “incentives” for the liberal duo’s romantic flick, arguing that it will generate “great publicity.””

    worldtribune.com/life/1-5-billion-in-annual-subsidies-by-states-to-hollywood-productions-could-have-paid-a-lot-of-schoolteachers/

    Oh bernardito, já isto não serve para a vossa cantilenga , pois não ?

    “The NEA is “dedicated to supporting excellence in the arts, both new and established; bringing the arts to all Americans; and providing leadership in arts education”.
    “The National Endowment for the Arts (NEA) is an independent agency of the United States federal government that offers support and funding for projects exhibiting artistic excellence. It was created by an act of the U.S. Congress in 1965 as an independent agency of the federal government.”
    Between 1965 and 2008, the agency has made in excess of 128,000 grants, totaling more than $5 billion. From the mid-1980s to the mid-1990s, Congress granted the NEA an annual funding of between $160 and $180 million.”
    en.wikipedia.org/wiki/National_Endowment_for_the_Arts

    Vocês insurgentinhos copinhos de leite do iniciativa liberal, se ao menos fossem consultar o arquivo do comité da vossa militância internacionalista. Pelo menos não passavam tanta vergonha, nas apresentações de análises medíocres, banhadas com massivas doses de cantilenga rectórica .

    mises.org/library/hollywood-and-state-longtime-partnership

  4. Carlos Guerreiro

    O problema em Portugal não é só o “financiamento” das artes (que significa dar dinheiro aos amigalhaços para viverem à custa do contribuinte), mas a invenção de fundações, observatórios, altas autoridades, institutos, estruturas de missão e mais termos que inventam, tudo para encher de “camaradas”, tudo estruturas sem qualquer cativação.
    Andou tudo preocupado com as vergonhas da Begonha e não viu o essencial, como uma criatura desta recebia cerca de 4.500,00€ mensais da câmara municipal de Lisboa? Como é que a estrutura de apoio ao especulador Robles custava cerca de 1 milhão de euros anuais?
    Continuem preocupados com o acessório e não vejam o elefante no meio da sala.

  5. Luís Lavoura

    Eu não vejo com muita clareza qual é a diferença entre o Estado dar dinheiro a um artista e o Estado abater IRS a uma pessoa que deu dinheiro ao artista.

    Em ambos os casos o Estado dá dinheiro ao artista, embora no segundo caso o faça indiretamente.

    Eu quando vivia nos Estados Unidos dei ocasionalmente dinheiro a artistas (lá é usual). Mas o meu IRS não era afetado por tais doações, nem eu era suposto declará-las.

  6. Luís Lavoura

    Se não fosse o patrocínio estatal às artes, metade da pintura, escultura e arquitetura europeias (e de outros países) não teriam existido.

  7. > Se não fosse o patrocínio estatal às artes, metade da

    Camarada, se olhar para os catálogos dos museus e as enciclopedias, antes de o Estado ter metade do PIB, também não tinha metade da despesa em ‘vanitas vanitatum et omnia vanitas’

    E o gosto dos aristocratas sempre era melhor do que o dos burocratas.

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