O acordo

[Acta da reunião entre o Presidente da República (Aníbal Cavaco Silva) e o secretário-geral do Partido Socialista (António Costa)]

Cavaco: Bem-vindo.
Costa: Obrigado senhor presidente.
Cavaco: Vamos lá então ao que interessa. Quais as conclusões que retirou dos resultados das eleições legislativas?
Costa: Senhor presidente, é simples. A coligação Portugal à Frente não conseguiu a maioria na Assembleia da República. E face ao novo cenário político achamos que o senhor deve indigitar-me imediatamente como primeiro-ministro.
Cavaco: Como assim?
Costa: Para Portugal não perder tempo senhor presidente. Já todos sabemos que um governo da coligação de direita será chumbado no Parlamento.
Cavaco: E todos os deputados do seu partido aprovam a moção de rejeição? É que tenho ouvido vozes dissidentes…
Costa: Tratam-se de um ou dois militantes sem representação. Todo nós no partido estamos ansiosos para ocupar… desculpe… governar.
Cavaco: Mas para governar o senhor precisa de um acordo com Bloco de Esquerda e Partido Comunista.
Costa: Acordo?
Cavaco: Sim. Senão terá apenas a tal maioria negativa que no dia das eleições o senhor disse não ser suficiente.
Costa: Temos uma alternativa real e credível.
Cavaco: Explique-me então os parâmetros desse acordo.
Costa: Tenho garantias que o governo de Passos Coelho não será aprovado.
Cavaco: Pois. Isso já percebi. Mas que acordo de governo tem com Bloco e PCP?
Costa: Que acordo?
Cavaco: Se você está disposto a chumbar solução governamental à direita então está a dizer que já tem acordo com restantes partidos para formar governo?
Costa: Senhor presidente, para eu formar governo primeiro tem de me indigitar como primeiro-ministro.
Cavaco: Vamos ser claros. É que PSD e CDS têm um acordo assinado…
Costa: Desculpe interromper senhor presidente, mas eles não têm a maioria necessária para governar.
Cavaco: O seu partido também não tinha essa maioria nas legislativas de 1995, 1999 e 2009.
Costa: Ahhh, mas é evidente que os partidos de direita nunca se teriam coligado com a extrema-esquerda.
Cavaco: E agora o PS está disposto a fazer esse acordo com a extrema-esquerda?
Costa: A questão essencial é que a direita não tem maioria.
Cavaco: Se o senhor não me pode apresentar um acordo terei de indigitar o senhor Passos Coelho.
Costa: É uma perda de tempo…
Cavaco: Tem de entender que não posso trocar um governo minoritário por outro ainda mais minoritário. Preciso de garantias.
Costa: Senhor presidente, a esquerda tem maioria absoluta no Parlamento!
Cavaco: Essa maioria não me parece existir. É que o seu programa eleitoral até está bem mais próximo do PaF do que do Bloco ou PCP.
Costa: Não é assim que analisamos os resultados das eleições. A maioria dos portugueses rejeitou a continuação da austeridade.
Cavaco: Está a dizer que o PS agora rejeita o Tratado Orçamental?
Costa: Não!!! O nosso programa é claro. Vamos cumprir todos os compromissos com União Europeia.
Cavaco: Ok, já percebi. Vai dar outro nome à austeridade. E partidos à esquerda estão de acordo com o vosso programa?
Costa: PS não vai governar com programa dos outros.
Cavaco: O mesmo disse Passos Coelho e o senhor não foi capaz de fazer cedências. Catarina Martins e Jerónimo de Sousa cederam nos seus programas?
Costa: As negociações estão a correr bem.
Cavaco: Pois, mas noto que ainda não têm acordo.
Costa: Que acordo?
Cavaco: Oh diabo! Assim não vamos lá. Olhe, vou indigitar o líder do PSD e depois logo vemos como corre. Dou por finalizada a reunião.
Costa: Eu respeito a sua decisão mas o senhor está apenas a adiar o óbvio. Boa tarde senhor presidente.
Cavaco: Boa tarde.

[À saída António Costa telefonou a Porfírio Silva, membro do Secretariado Nacional do PS]

Costa: Porfírio, o presidente vai indigitar o Passos Coelho. Mas estamos no bom caminho para ser governo.
Porfírio: Boa chefe. Então já temos acordo com Bloco e PCP?
Costa: Que acordo?

PS_BE_PCP

 

3 pensamentos sobre “O acordo

  1. Tretas

    Pois, tem a sua piada!
    Mas mais nada do que isso.
    Pragmatismo, sim isso.
    Mais linhas ou menos do acordo o que teremos será um a governo de Costa com Catarina dentro ou não é irrelevante para o BE o que lhe interessa são os observatórios, as ARS as CCDRs e outros organismos que serão minados de BEs e PCPs e nunca mais serão os mesmos, não considerando que interesse para muito!
    No fim de besta Costa passa a bestial, daqui a 1 ano já ninguém se lembra de nada, olhemos para a bancarrota.
    Com as máquinas partidárias os média amigos a narrativa a renovação a reinvenção da narrativa e o interesse de Portugal para o PSD fazer passar o orçamento e … por ai …. adiante.
    Pois pragmatismos, Costa é um animal (Hiena) politica mas tenho de lhe dar valor.
    Conquistar e manter o poder.
    Grande Costa. Por muito que me doa, não considero que os meus erros possam ser apagados com os erros dos outros, não é sr. passos!

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