Sociologia da indignação

Sou um homem de gostos simples e remediadas doidivanas no que à folia diz respeito: a arte circense não me atrai, os Monty Python reformaram-se, pelo que sobra o Bloco de Esquerda. Ou o que resta dele.

Coube a José Soeiro, intercalando a passa de um cigarro e um parágrafo de um projecto lei para criminalizar o piropo, o tento de nos providenciar farta farra. Até começa bem, queixando-se de uma decisão que havia sido tomada «sem que os pais e encarregados de educação tenham sido sequer consultados». Isto, em bom rigor, é uma precisa descrição da escola pública.

Mas a indignação é outra. Imagine-se que, entre a panóplia de irrelevâncias que são ministradas ao gosto dos cientistas da educação, alguém se lembrou de fazer umas sessões de empreendedorismo nas escolas, alertando assim a indefesa criança portuguesa que existe vida para além da dependência do Estado. Por engano, acertaram.

Tamanha heresia. Invocando as suas habilidades enquanto sociólogo, Soeiro vê nisto o propósito de propagandear, imagine-se, a «doutrinação sobre a beleza do mercado» ou a «magia da criação do valor». E sobre o projecto de simular ter uma empresa? A religião do empreendedorismo, jura o próprio. Faz sentido, até porque o seu ofício é outro — é promover a dependência daqueles que vivem à custa destes. E nesse plano, ter crianças independentes que querem criar um negócio seu, prosperar na vida e não depender de ninguém diminui-lhe, se é que mais é possível, o eleitorado.

Finalmente, e puxando dos seus galardões de cientista social, Soeiro informa-nos que, enquanto na Noruega 7% da população é empreendedora, já no Gana 66.9% da população está auto-empregada, concluindo assim, com a leveza de um pensamento brando, que é nos países pobres onde se é muito empreendedor. Mais uma vítima da escola pública. Felizmente, têm tendência a concentrar-se no Bloco de Esquerda.

9 pensamentos sobre “Sociologia da indignação

  1. Esse triste (creio que foi ele, se não foi ele foi outro da laia dele, mas quase de certeza foi o sociólogo Soeiro), quando há uns anos foi à escola onde eu dava aulas falar de política ou democracia ou não sei quê, com os sequazes a dar boletins de inscrição do BE a uns putos no final da palestra, não estava preocupado. Isso já não era uma acção “a favor do mercado”, portanto era legítima. Cada vez metem mais nojo, estes esquerdalhistas hipócritas. Puritanozinhos de terceira, que ao menos os originais faziam a barba e andavam mais apresentáveis.

  2. Sérgio

    Ou quando o BE ia às escolas fazer propaganda pelo casamento gay, isso tudo bem e razoável…

  3. lucklucky

    Talvez isto elucide o que é esta esquerda:

    Is having a loving family an unfair advantage?

    http://www.abc.net.au/radionational/programs/philosopherszone/new-family-values/6437058

    “One way philosophers might think about solving the social justice problem would be by simply abolishing the family. If the family is this source of unfairness in society then it looks plausible to think that if we abolished the family there would be a more level playing field.”

    ou

    “I don’t think parents reading their children bedtime stories should constantly have in their minds the way that they are unfairly disadvantaging other people’s children, but I think they should have that thought occasionally.”

  4. macamelo

    No Mundo civilizado, programas semelhantes sao curriculares. No setimo ano, o meu filho mais velho e os colegas nao so se habilitaram a premios, obtiveram mesmo rendimento do projecto.

  5. Alexandre Tavares

    Mas o que ele diz sobre o auto-emprego entre os países pobres e ricos não está correcto?
    A maior parte dos empreendedores dos países ricos começa a trabalhar por conta de outrem num determinado sector e resolvem trabalhar por contra própria quando a oportunidade aparece ou quando decidem arriscar. Nos países pobres, como não há oportunidades de emprego em estruturas já montadas, as pessoas não têm outra hipótese senão começar a trabalhar por conta própria em trabalhos que não seja preciso muita experiência ou não qualificados. Aliás, em Portugal com a crise, os jovens mais ou menos qualificados que queiram ganhar mais que o salário mínimo têm basicamente duas escolhas: ou emigram (o que não é uma vida fácil) ou começam a trabalhar por conta própria sem experiência num sector num mercado deprimido contra uma concorrência já traquejada nessas andanças, aumentando significativamente as hipóteses de falharem.
    Sem contar com facto que nem toda a gente nasce para liderar. A esmagadora maioria são bons soldados mas só alguns destes é que serão bons generais.

  6. macamelo

    A medida do empreendedorismo numa sociedade nao se mede em numero de individuos auto empregados mas em valor criado/accao. Empreendedorismo num posto de trabalho assalariado eh bem mais importante pois enquadra a criacao de valor numa organizacao capaz de a potenciar.

    Eh preciso saber o q eh empreendedorismo antes de dicertar sobre ele. Claramente faltaram ao sociologo umas accoes da junior achievement qd andava na escola.

  7. LV

    Subscrevo a análise de MAL. Receio é que a conclusão: “concluindo assim, com a leveza de um pensamento brando, que é nos países pobres onde se é muito empreendedor. Mais uma vítima da escola pública. Felizmente, têm tendência a concentrar-se no Bloco de Esquerda.” padeça do mesmo mal que MAL (no pun intended) sublinha no artigo. Mesmo que de sinal contrário. E se há tanto libertário a ter frequentado escolas públicas.
    Saudações,
    LV

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