Carlos Abreu Amorim e a difícil convivência do poder político com o liberalismo

As mudanças de opinião podem ser um sinal de inteligência e honestidade intelectual. Alguém que nunca pare de aprender, acabará eventualmente por mudar ou ajustar as suas opiniões. Não tenho muita consideração com quem forma uma opinião aos 20 anos (necessariamente baseada em pouca informação) e não a muda ao longo da vida.
Não há por isso nada de errado nestas declarações de Carlos Abreu Amorim. Todos os dias pessoas mudam de opinião e eu gosto de pensar que são mais os que percorrem um caminho oposto ao dele. Mudar de opinião é normal e a mudança dele já era evidente há bastante tempo. Só para os mais desatentos será uma surpresa que ele não se considere liberal.
Claro que nestas coisas o contexto importa. O liberalismo é uma doutrina que procura retirar poder da esfera política, devolvendo-o aos indivíduos. Quanto mais socialista for um país, maior será o poder dos políticos. Tornar-se socialista apenas depois de atingir um cargo de poder político deixa suspeitas de uma mudança de conveniência. A forma forçada como o anúncio desta conversão aparece (em resposta a uma pergunta muito pouco relacionada com as suas convicções pessoais); a potencial chegada de um bloco central liderado pelo PS (onde assumidos liberais certamente não terão lugar); e a desculpa dada para essa conversão (uma crise num sistema financeiro centrado numa economia monetária estatizada) fazem suspeitar que há algo mais do que uma conversão intelectual.
Carlos Abreu Amorim é, agora de forma assumida, mais um dos que apoiam o sistema económico que nos trouxe até aqui. Um sistema que dá poder e prestígio social aos que, como ele, assumem cargos políticos, mas que em Portugal e no resto do Mundo apenas trouxe miséria aos outros.

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15 pensamentos sobre “Carlos Abreu Amorim e a difícil convivência do poder político com o liberalismo

  1. Fernanda

    E, agora a política do “mais um bocadinho” e do “mais inteligente”:

    “O Estado emagreceu, mas precisa ainda de emagrecer um bocadinho mais, embora agora de uma forma mais inteligente”,

    (Passos Coelho)

  2. Dezembro

    liberal? social democrata? CDS? PND? Ca está alguém que muda muitas vezes de opinião e de partido. Aguardemos os próximos capítulos.
    P.S.: Quando perdeu as eleições em Gaia também disse que se retirava da politica. Pelos vistos mudou de opinião.

  3. Fernanda

    Parece que não é só o CAA.

    “As pessoas fartam-se deste modelo de sociedade em que o trabalho lhes rouba a sua dimensão enquanto pessoas. As pessoas fartam-se deste modelo de sociedade em que o desemprego as priva de se realizar.”

    A nove meses e meio das eleições, os “liberais” agitam-se com as declarações de um cada vez mais isolado Passos Coelho armado em Galaaz na sua Quest for the Holy Grail.

    De “liberais” a sociais-democratas? Será?

    Ou, o por-se a jeito para saltar da jangada de pedra?

  4. castanheira antigo

    È difícil ser liberal num país onde a propaganda socialista é maciça e onde a respectiva retórica é politicamente e socialmente correctas .durante cerca de 40 anos.
    Ser liberal em Portugal exige muita inteligência , estoicismo e muita coragem . È mais fácil e conveniente ser socialista sem dúvida nenhuma no contexto em que vivemos.

  5. Fernanda

    O que é difícil é ser-se “liberal pouco inteligente”

    Torno a citar:

    “-O Estado emagreceu, mas precisa ainda de emagrecer um bocadinho mais, embora agora de uma forma mais inteligente”, (Passos Coelho)

    Este “embora agora de uma forma mais inteligente” significa que a política que tem vindo a ser seguida foi pouco inteligente?

  6. tina

    CAA é uma cabeça de vento, que faz lembrar uma mulher de esquerda, tal como lhe disse uma vez num comentário a um seu post no Blasfémias.

  7. hustler

    A Fernanda não leu a crónica com olhos de ler, “E por aqui me fico mas os leitores podem prosseguir com o texto. É simples: basta escrever uma coisa e o seu contrário.”, o exercício que a escritora propõe, é o confronto entre uma qualquer situação e a sua causa. A resposta é invariavelmente a mesma, na cabeça das pessoas tudo é culpa do capitalismo, « culpe-se o capitalismo se se tem/culpe-se o capitalismo se não se tem, culpe-se se o capitalismo se se é/culpe-se o capitalismo se se não se é, culpe-se o capitalismo se se faz, culpe-se o capitalismo se se não se faz». O que a cronista pretende transmitir, é que existe, presentemente, um bode expiatório para a condição dos indivíduos, o capitalismo. Se no passado, os valores tinham um peso maior que o materialismo, no presente, a situação inverteu-se e a sociedade de consumo passou a ser o valor mais importante. A condição de cada indivíduo é analisada à luz da sociedade de consumo, e é isso que a autora pretendeu transmitir.
    Não há qualquer leitura política e ideológica deste texto, há apenas uma constatação de um paradoxo, de como uma coisa boa (a elevação do nível de vida via capitalismo) conseguiu empobrecer os valores das pessoas.

  8. Rogério Alves

    É um dos problemas do liberalismo ou do libertarianismo: quem chega ao poder vira socialista e não chegando ao poder não consegue reduzir o tamanho do Estado

  9. lucklucky

    “As pessoas fartam-se deste modelo de sociedade em que o trabalho lhes rouba a sua dimensão enquanto pessoas. As pessoas fartam-se deste modelo de sociedade em que o desemprego as priva de se realizar.”

    Nada impede alguém de fazer uma cooperativa com outras pessoas que concordem.
    Já pessoas como a Fernanda impedem as outras de dizer Não.

  10. Pingback: Carlos Abreu Amorim e o liberalismo | O Insurgente

  11. Pingback: A natureza liberal das ovelhas humanas | O Insurgente

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