Samsara governativa

samsara

Samsara é, no budismo, o ciclo de nascimento e mortes sucessivas que é apenas interrompido pelo moksha, a libertação ocorrida quando se alcança a plenitude espiritual – ou, no budismo mahayana, pela transferência de mérito de um bodhisattva simpático. Mas até lá resta aos pobres mortais (de todas as espécies) penarem na vida atual os castigos ou gozarem as recompensas merecidas pelas aleivosias ou virtudes das vidas anteriores. E na presente vida já se sabe que se trabalha – mesmo que em forma de, sei lá, alforreca – para os tais castigos e recompensas que abundaram na vida seguinte.

Nos próximos meses até às eleições legislativas de outubro de 2015 – e ninguém com juízo supõe que o PR vá antecipar a data das eleições só porque o PS faz birra e quer muito porque lhe é conveniente eleitoralmente – o governo não vai fazer mais do que tentar escapar à sorte (ou à justiça) do samsara. Que remeteria PSD e CDS para a opisição com grupos parlamentares diminutos.Tendo como único mérito ter evitado catástrofe maior do que aquela com que nos confrontamos nos primeiros meses de 2011, iludido o segundo resgate que tantos deram como certo tantas vezes, os partidos do governo vão agora tentar convencer os eleitores de que afinal na próxima legislatura é que será o tempo de implementarem o programa eleitoral que apresentaram em 2011 e não cumpriram. Isto ao mesmo tempo que adotam um eleitoralismo – reviravoltas com a diminuição da sobretaxa do IRS, medidas pró-natalidade,… – ao mesmo tempo que Passos Coelho tenta preservar ao máximo a sua imagem de anti-eleitoralista. Sabe-se lá por que razão, está convencido que os portugueses apreciam doses de tough love dos seus governantes.

Não tendo avançado com a prometida reforma do estado nos primeiros meses da legislatura – reorganização dos serviços, extinção de institutos e observatórios exóticos, encolher entidades reguladoras obesas e despesistas que prestam serviços medíocres aos mercados e aos consumidores, concentração dos recursos públicos nas funções que o governo considerasse primordiais retirando-se das restantes, etc. – não o farão certamente no último ano de legislatura. Esta reforma não é tarefa para um governo acossado – e muito justamente – por todos.

A maior dificuldade? Convencerem os eleitores de que farão uma reforma penosa e contra todos os interesses instalados numa legislatura mais amena do que a presente quando escolheram não a fazer na situação de garrote que foi o resgate da troika.

9 pensamentos sobre “Samsara governativa

  1. Manolo Heredia

    Espero que o ACosta inaugure a prática saudável de apresentar o programa de governo sob a forma de um orçamento de estado para 2015, a que o PS promete submeter-se.
    É que de boas intensões está o inferno cheio…

  2. tina

    Não vale a pena ler análises sobre a atuação do governo em que nenhum lado se menciona a interferência do Tribunal Constitucional em eventuais reformas.

    Por exemplo como se pode fazer “reorganização dos serviços, extinção de institutos e observatórios exóticos, encolher entidades reguladoras obesas” se o TC proibiu despedimentos?

  3. tina

    “O Tribunal Constitucional (TC) chumbou algumas das normas previstas no Código do Trabalho de 2012 relacionadas com a extinção do posto de trabalho, com o despedimento por inadaptação e com a sobreposição da lei em relação aos contratos colectivos no que respeita ao descanso compensatório e à majoração das férias.”

    Pode ler aqui tudo:
    http://www.publico.pt/economia/noticia/tribunal-constitucional-chumba-algumas-alteracoes-ao-codigo-do-trabalho-1607137

  4. balio

    Antecipar as eleicoes (por 3 ou 4 meses) nao e um capricho do PS, justificado por uma qualquer conveniencia eleitoral, e sim uma conveniencia para o proximo governo, que tera que elaborar um orcamento de Estado muito rapidamente.

  5. jo

    Gostava de saber que pancada bíblica deu nesta gente que só fala em reformas dolorosas.
    Parece que o objetivo de governar deixou de ser melhorar a sociedade para passar a ser preparar uma expiação pelos pecado de ter tentado viver melhor.
    Porque razão só vivemos melhor colocando metade da população na miséria?
    Claro que os opinadores nunca se consideram na metade miserável.
    Economia budista do pecado original. Era o que nos faltava!

  6. Nuno

    A data das eleições está na constituição. Se a data é inconveniente e há um consenso sobre isso, revê-se a constituição.

    Não se pede ao governo que se demita e ao presidente que dissolva a assembleia porque desta vez é mais conveniente.

  7. PedroS

    “Antecipar as eleicoes (por 3 ou 4 meses) nao e um capricho do PS, justificado por uma qualquer conveniencia eleitoral, e sim uma conveniencia para o proximo governo, que tera que elaborar um orcamento de Estado muito rapidamente.”

    Ninguém impede os partidos de preparar e apresentar propostas de orçamento antes de Outubro. Aliás, seria bastante mais interessante e útil uma campanha em que cada partido apresentasse, defendesse e discutisse a sua proposta de orçamento do que os tristes exemplos de nevoeiro verbal e tribalismo exacerbado que fazem normalmente.

  8. tina

    “Gostava de saber que pancada bíblica deu nesta gente que só fala em reformas dolorosas.”

    Porque o PIB português não aguenta o peso da sua função pública. Logo à cabeça, 70% dos impostos coletados são para pagar salários. E a iniciativa privada já paga tantos impostos, IRS, IRC, IVA, não sobra nenhum dinheiro para investimento, expansão e crescimento da economia. Por isso há tantos desempregados, quase todos do sector privado, menos de 2% provém da função pública.

  9. José Silva vaz

    Tina, você continua a debitar a treta que lhe chega aos ouvidos fazendo um directo para a boca sem filtrar com os miolos. . Sempre o Tribunal Constitucional a impedir a magnífica governação em curso….mas afinal não está a economia a crescer como afirmam o Coelho o Portas e o Lima? Não está o desemprego a descer ?.. Não somos os melhores da UE na descida? Não estamos à frente de tantos países no ranking dos países amigos do investimento? Tina estamos a caminho do céu mesmo com o T C a puxar para o inferno! Já agora seja um pouco mais selectiva quando falar de impostos … Mete tudo no mesmo saco mas não deve esquecer a virtuosa fiscalidade verde do ministro dos sacos de plástico Moreira da Silva …essa é da boa …E as rendas da electricidade das auto-estradas não impedem o investimento….Ponha a cabecinha a funcionar e deixe -se de tretas

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