O mundo da (nossa) dívida de hoje

Para o quadro mental de todos os que antes escreveram sobre a dívida e sobre os manifestos, convirá recordar a realidade do mundo e realidade econômica mundial em que Portugal se insere.

Não se trata apenas de relembrar o exemplo do Japão que tem um rácio de dívida sobre PIB com números brutais. A maioria dos países da OCDE, e talvez a totalidade deles, viu esta medida de endividamento de um país aumentar, e de forma generosa ao longo dos últimos 5-10 anos. Os EUA, o Reino Unido, a Franca e qualquer um dos países ditos desenvolvidos tem assente o combate a crise num relaxamento monetário (taxas de juro baixas e algum grau de QE), e num crescimentos do stock de dívida, permitida pelos tomadores da mesma: uns domésticos (com mais peso no caso Italiano e Japonês) e outros internacionais (caso notório dos EUA).

O mundo, dito ocidental, procedeu a uma massiva transferência de riqueza ao longo destes 10 anos, na prática com a liberalização do comércio internacional, para os países produtores de petróleo e para os ditos países emergentes, com a China a cabeça. Este movimento, só tem equivalente inverso, quando os ditos países , há séculos atrás, procederam a uma extração de riqueza de muitos países da América Latina, de África e de algumas, poucas, possessões asiáticas.

Neste contexto, concreto, em que Portugal se insere, a situação da sustentabilidade da dívida e do seu , ou não , pagamento, é tão verdadeira, e tão real como para muitos outros países. Portugal sendo um caso especial, por ser um caso em que o stock de dívida privada e pública, subtraída de riqueza acumulada interna é das mais altas do mundo ocidental, é também ainda assim , não tão diferente de muitos casos que não acabaram no passado, nem em reestruturação, nem em “default”. Porquê?

E a pergunta concreta que nós teremos que fazer, é : haverá tomadores “ad-eternum” da nossa dívida ?

É necessário entender a resposta a esta questão , à luz da enorme quantidade de alternativas, semelhantes em muitos detalhes, de emissões de dívida com que Portugal concorre em cada momento nos mercados internacionais. Todas elas com um capital acumulado de credibilidade e de história carregada de inexistência de discussão acerca de “default” na sua opinião interna.

E a resposta , do meu ponto de vista , é a de que haverá compradores e tomadores , para além das instituições oficiais , desde que haja demonstrações práticas, concretas e explícitas de que somos bons pagadores, que honramos compromissos e que tudo fazemos, para criar as tais condições de crescimentos por que muitos clamavam e que parecem estar a materializar-se neste início de 2014.

Se como o Manifesto dos 70 advoga, fossemos renegociar a dívida de forma “honrada” , esse capital de confiança acumulada com o esforço de muitos e com os impostos de alguns portugueses, a resposta à questão colocada acima passaria a ser negativa! E isso afectaria a actual e as futuras gerações da mesma forma que marcou o nosso “default” do fim do século XIX.

Em Portugal temos uma boa definição para os que não pagam o que devem, queremos receber esse epíteto colectivamente?

5 pensamentos sobre “O mundo da (nossa) dívida de hoje

  1. JS

    Exactamente.
    Há quem, por ter tido sempre uma boa situação financeira, simplesmente não saiba o que é ter que “pedir dinheiro emprestado”. Não imagina o que é ter que pagar o que se pediu, MAIS o juro acordado.
    Mas também há quem, patologicamente, sabe que não terá que pagar as dívidas que contraiu. Sobretudo se quem “já está em dívida” são os netos, dos outros.

  2. Louis François

    A questão que se coloca não é se pagamos ou não pagamos. A pergunta a fazer é se a nossa economia cria valores suficientes para pagar juros e capital. Esperamos que os outros países do euro resolvam por nós ou teremos um haircut daqui a 5 a 10 anos o mais tardar. Nessa altura o que nos vão chamar? Cumpridores?

  3. Caro Louis Francois, chamar-nos-ao , caso tal aconteça, no quadro global de um excesso de dívida do mundo ocidental, e que tento exprimir no meu post, tão cumpridores como todos os outros, europeus, americanos, ingleses, etc, etc. Quanto a criação de valor da economia portuguesa, espero que o novo paradigma , qualquer que ele venha a ser, possa ditar uma melhor afectação de recursos no nosso país que impeça que uns poucos decidam o destino de muitos impostos em prol de obras públicas sem retorno económico claro

  4. jo

    Claro que haverá sempre tomadores para a dívida, com juros de 100% ou 200%. A questão é que já não há tomadores para a nossa dívida. Os que aparecem pedem um juro demasiado alto para ser pago.
    Quem tem de fazer essas contas é o tomador, não quem empresta. E essas contas não estão a ser feitas. O governo ao aceitar juros de 4 e 5% em vez de assumir que tem de restruturar, está só a chutar a resolução do problema para o futuro, agravando-o ao mesmo tempo.
    Para quem se diz prejudicado pelas gerações passadas, dizer que a solução é empobrecer o país nos próximos 20 anos não está mal como hipocrisia.

  5. A realidade dos factos de 2011 negam a sua primeira frase e os juros não chegaram a 100% quando o ministro das Finanças anunciou que não haveria mais capacidade de emitir e obrigou o PM a recorrer a troika. Hoje a verdade é que há investidores dispostos a comprar de novo apesar de serem juros bem mais baixos do que naquele então. Quanto ao nível de juros , de 4 ou 5%, para uma parcela do stock de dívida num dado momento de tempo não é determinante. O que interessa é o custo global médio da dívida emitida e esse custo tem vindo a descer consistentemente, com poupanças em 2013 e que serão ainda maiores em 2014. Hipocrisia não é característica que me assista, mas antes aqueles que querem fazer obra com o dinheiros dos outros, sem o querer devolver. A minha idade está suficientemente avançada para saber que os grandes prejudicados não são os meus contemporâneos, mas sim a geração seguinte e a dos meus filhos , mas ainda suficientemente distante da situação de pensionista para saber que já fui “reestruturado” pela regras que se me aplicarão nesse futuro .

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