O Reconhecimento Do Fracasso Do Planeamento Central

Passos Coelho afirmou ontem que “há universidades que mantêm cursos que não fazem sentido“; que “haverá um dia em que essas instituições chegarão à conclusão de que não faz sentido manterem essa oferta“; e ainda que “não tenham dúvidas, há hoje um grande desacerto entre a procura que as empresas fazem de mão de obra qualificada, de oferta diferenciada de tipo superior e aquela que o mercado disponibiliza“.

Que outra coisa seria de esperar do planeamento central e da falta de um mercado livre e verdadeiramente concorrencial para o ensino superior?

13 pensamentos sobre “O Reconhecimento Do Fracasso Do Planeamento Central

  1. MP

    O assunto resolvia-se com a publicação de uma lei que obrigasse as empresas a darem emprego a estes licenciados. e uma outra a obrigar os consumidores a adquirirem os bens e serviços por eles produzidos. E umas impressoras portáteis de trazer à cintura para imprimir notas.

  2. Nuno Cardoso da Silva

    Bem pensado! Imaginem alguém que tem imenso gosto pela filosofia e desejo de ter uma formação superior nesse campo. Como os filósofos são pouco produtivos, em termos de plantar batatas, fazer automóveis ou trabalhar numa companhia de seguros, acabava-se com esse desperdício de dinheiro e deixava de haver formação superior em filosofia. O pobre que queria ser filósofo que fosse tirar um curso de gestão para ser útil à sociedade! Isso é que estaria certo! Isso é que seria deixar os mercados decidirem o que os consumidores querem! É, não é?…

  3. rmg

    Nuno Cardoso da Silva

    Esse tipo de generalizações é fácil demais , não se perca …

    O problema não é as pessoas que gostam de filosofia tirarem cursos de filosofia .
    O problema é as pessoas tirarem esse ou outros cursos sem saídas profissionais suficientes para o número dos que se formam e depois queixarem-se ou , pior que isso , quererem que o Estado lhes resolva o problema .
    Ou melhor dizendo , o contribuínte , muitas vezes aquele que não pôde dar um curso aos próprios filhos e a quem é exigido que pague para os filhos dos outros .

    Não deve ter reparado mas o mesmo problema se pode pôr para um número razoável de profissões e especializações e a vários níveis mas , como não passam pelo seu campo profissional , pelos vistos não lhe interessam para o debate .
    Imagine que de repente havia muita gente a querer ser amolador ambulante …

    PS – Um dos meus filhos quis algo assim há 20 e tal anos e eu achei muito bem mas desde que fôsse com o dinheiro dele e não com o meu , ganho a fazer 50 a 60 mil kms por ano a correr de um lado para o outro .
    Assim foi trabalhar e tirou o curso em pós-laboral – hoje já o ouço dizer à filha dele o que eu lhe disse a ele na altura , pois o curso dos “sonhos” nunca lhe serviu para nada …

  4. Comunista

    “Como os filósofos são pouco produtivos, em termos de plantar batatas, fazer automóveis ou trabalhar numa companhia de seguros, acabava-se com esse desperdício de dinheiro e deixava de haver formação superior em filosofia.”

    Noutros tempos, Nuno, a proliferação de cursos como filosofia, literatura, história, enfim, humanísticas, era apresentado pelo capitalismo como sinal de liberdade e criatividade acrescida das suas sociedades face à URSS – hoje são cursos para inúteis. Veja que por dentro do clamor pela diferença que a direita atira para o ar eatá um projecto completamente uniformizador, solvente da diferença. Enfim, é risível ver esta malta a falar do valor da diferença quando eles, no concreto, detestam a diferença.

    Nada como um dia após o outro.

  5. Nuno Cardoso da Silva

    RMG,
    A maior parte das vezes só se sabe se um curso “tem saída” depois do curso já estar feito. Mas, para além disso, um curso não é só um meio para contribuir para o PIB, é também uma forma de valorização pessoal. Poder-me-á dizer que se é valorização pessoal, então cada um que financie do próprio bolso essa valorização. Mas a comunidade não precisa só de bens e serviços, precisa também de cultura, de arte, de reflexão mais ou menos especulativa. Coisas que só os dotados podem proporcionar. E os dotados podem não ter dinheiro para financiar do seu bolso a sua formação. E o seu dom não é necessariamente reconhecido antes de desabrochar. A comunidade tem de correr o risco de contribuir para a formação de pessoas que depois não saberão o que fazer com ela. Eu tenho uma filha que se licenciou em psicologia – algo que a sociedade acha que é útil – e depois nunca exerceu essa profissão. Dedicou-se à joalharia e é reconhecida como uma joalheira de valor. Na sua visão o dinheiro usado no seu curso de psicologia foi bem gasto, mas não serviu para nada. E se esse dinheiro tivesse sido utilizado num curso de joalharia isso teria sido provavelmente considerado por si um “desperdício”. Admito que haja aconselhamento para evitar que muitos jovens sigam um curso que não é adequado nem a si nem à sociedade. Mas o princípio da liberdade de escolha tem de ser respeitado. Se um jovem quiser estudar história ou filosofia e depois chegar à conclusão de que tem de andar a lavar pratos para viver, o problema é dele. A sociedade deve proporcionar a todos por igual uma formação na área escolhida por cada um. Mesmo se alguns acharem que isso é um desperdício.

  6. rmg

    Nuno Cardoso da Silva

    Como sempre agradeço a sua resposta , já há dias falámos que o facto de não estarmos de acordo muitas vezes só nos enriquece , quem concorda comigo não me traz nada de novo .
    Claro que a sua maneira de abordar os assuntos é importante pois pode ser provocador mas não me tenho dado conta que tenha sido alguma vez irresponsável .

    Diz V. que só se sabe se um curso “tem saída” depois de ter sido tirado e aí discordo.
    E discordo porque não tenho uma visão “local” destas coisas : um engenheiro ou um médico encontram trabalho em qualquer sítio do mundo com uma facilidade que é difícil reconhecer que um licenciado em filosofia ou em “humanidades” de um modo geral possa encontrar .
    Basta ver o que é que neste momento proporciona oportunidades de trabalho reais .

    Que a comunidade precisa disso tudo que diz não tenho dúvidas e V. interpretou-me muito mal , não percebo porquê porque acho que fui claro : não está lá que eu seja contra os cursos A ou B e quem os tira mas sim que quem os tira e não encontra saídas terá que aguentar em vez de chorar (e curiosamente é isso que V. depois confirma) .

    Não acho desperdício absolutamente nenhum um curso de joalharia mas , por exemplo , já acho que a partir de certa altura um curso de psicologia passou a sê-lo pois desde o início deste século é entre esses licenciados que tem havido muito desemprego , precisamente por excesso de oferta (desconheço se a situação se mantém ou se reequilibrou naturalmente ) .

    O princípio da liberdade de escolha assenta noutras premissas , por isso lhe contei que o meu filho tirou o curso “que queria” por conta dele (e com muito mérito , temos os dois bastante orgulho nisso).
    É que eu nunca achei um princípio saudável andar a pagar cursos sobre os quais tenho dúvidas aos filhos – imagine se os 4 tinham querido isso , ainda deviam andar a tirar mestrados passados os 40 anos …

    PS – Este meu filho tem o 12º ano e isso não o impede de ser chefe do serviço de pessoal de uma empresa com 120 pessoas , sendo simples a razão da promoção : entrou para lá há 20 anos pelo fim da escala hierárquica , conhece aquilo tudo como os dedos das mãos , resolve os assuntos com o traquejo , tem é poucas teorias …

  7. José Silva vaz

    Estou aqui a pensar se não deviam deixar de existir outros cursos que não os de economia ou finanças. Assim estes cursos forneceriam às nossas empresas indivíduos altamente qualificados e úteis! Para quê outros ramos do conhecimento? Para custarem dinheiro ao pais? Estes economistas que aqui tanto teorizam tirariam em dois tempos o pais da miséria em que este se encontra. É claro que há outros trabalhos e qualificações necessários mas nada que não se consiga apenas com tarimba! Quais cursos qual treta! É claro que mais de 90 por cento dos cursos da treta de que tanto se fala são oferecidos pelas universidades privadas, mas é claro tal deve-se apenas à concorrência imperfeita!

  8. Nuno Cardoso da Silva

    Só queria assegurar ao RMG que não queria minimamente menosprezar as suas opiniões. Pelo contrário. Discordamos em muita coisa mas nunca considerei uma perda de tempo ler o que escreve. Se todos discordassem do que digo ou escrevo da forma inteligente e elegante do RMG provavelmente já teríamos chegado aqui à conclusão de que há consensos possíveis. Que não seriam exactamente nem o que eu quero nem o que ele quer, mas que nos levaria mais próximo do que todos precisamos para resolver os problemas do país. O que não podemos é manter uma posição de sobranceira superioridade de uns face aos outros, como se aqueles que não vêem as coisas da mesma maneira que nós fossem necessariamente burros, ignorantes ou desonestos.

  9. rmg

    Nuno Cardoso da Silva

    Mais uma vez agradeço a atenção que me deu e as suas palavras .
    Estou óbvia e totalmente de acordo consigo .
    Há sempre consensos possíveis quando se quer “construír” algo e é do encontro das várias
    opções e opiniões que se faz o caminho de todos .

    A sua última frase é em si um exemplo de honestidade intelectual , que por ser raro é ainda mais precioso .

  10. rmg

    José Silva vaz

    Não vi aqui nenhum economista , eu sou engenheiro desde 1970 e desde chefe de secção até director-geral em médias e grandes empresas da indústria (pesada) fiz de tudo na vida ao longo de 40 anos , tendo trabalhado em 5 distritos de norte a sul de Portugal .

    Tenho um filho que subiu com tarimba como tenho outros que tiraram curso .

    Por acaso tendo eu e a minha mulher um curso superior também gostaríamos que todos os filhos o tivessem .
    Não têm mas são gente trabalhadora e competente no que faz .

    Qual é exactamente a sua ideia ?
    Ou é apenas mais um elitista armado aos cucos?

  11. José Silva vaz

    Mg ,

    Tal como vc sou eng mas apenas desde 1973. Ao longo da minha vida profissional tb exerci várias funções técnicas , de direcção e até de administração em várias empresas industriais quer nacionais quer multinacionais. Ao longo desse percurso tive oportunidade de conhecer vários profissionais de grande gabarito sem contudo possuírem algum grau acadêmico . alguns apenas tinham a 4ª classe outros o antigo curso das escolas industriais.Portanto não tenho nada contra os tarimbeiros , mas acho que a educação ou melhor a escolaridade pode poupar-nos anos de tarimba!Por outro lado também acredito que cada um deverá escolher a sua formação (claro que será sempre condicionada por diversissimos condicionalismos…) ..Claro que não faz sentido licenciar ninguém em cinema ou marketing do papel etc , Mas querermos apenas que a escolha recaia sobre critérios meramente utilitaristas é absurdo! No limite os portugueses deveriam então preparar-se para tratarem dos velhos reformados europeus que se pretende que venham para cá acabar os seus dias ou então fazer uns cursos de criados de mesa e de camareiros para atenderemos turistas que para cá vêm passar uns dias…ou polirem os golden passports, que o governo tem vendido!

  12. Renato

    Prezado Nuno

    Creio que há duas maneiras de entender o texto. Se alguém entender que só os cursos que atendam às coisas praticas devem ser mantidos, então o texto está realmente errado. Inclusive em termos de vagas ofertadas. Até onde entendo, ninguém obrigou os atuais alunos de história, filosofia e sociologia a fazerem tais cursos. Creio que os alunos estão informados (e seus pais e professores tem a obrigação de informar) que a demanda de profissionais nessa área se resume às carreiras de professores e pesquisadores, em número muito limitado. Há quem faça cursos por diletantismo, inclusive algumas pessoas já no final da vida profissional, ou aposentados. Cada um busca para si aquilo que satisfaz não só o corpo, mas também a alma.

    Agora, há uma outra forma de entender o texto. Pode significar que os cursos que existem não são adequados às demandas profissionais de cada área. As empresas reclamam sempre sobre esse assunto, e em parte estão certas, em parte não. Muitas empresas gostariam que os formandos tivessem um maior enfoque prático, e menos enfoque científico. Creio realmente que há muitas situações em que seria adequado que os formandos tivessem mais percepção dos problemas práticos. Mas isso não significa que esteja correto o desprezo à formação teórica. É importante que os profissionais tenham compreensão das bases teóricas dos métodos que utilizam.

    Há também empresas que buscam justamente profissionais com mais base teórica. Vou dar um exemplo: Aqui no Brasil, mestres de obra são oficiais com mais experiência e conhecimentos práticos, escolhidos para chefiar os outros trabalhadores. A pessoa inicia sua carreira como ajudante (sem qualquer tipo de conhecimento), aprende com os profissionais algum ofício (carpintaria, eletricidade, hidráulica, armação, etc) e após algum tempo de prática é promovido a oficial (profissional). Quando se torna mais experiente, torna-se “encarregado”, tendo profissionais sob da sua área sob sua ordem (pode ser o armador chefe, por exemplo). Se tiver muita experiência e mais amplitude de conhecimentos, se torna Mestre de obras, chefiando as diversas equipes, e reportando-se ao engenheiro da obra. Muito bem, há empresas que mudaram este esquema, e contratam só tecnólogos (portanto, pessoas formadas com curso superior) para o cargo de mestre-de-obras. Não são obrigadas a isso, apenas sentiram a necessidade de mestres com mais base teórica.

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