Ignorância, ideias pré-concebidas e evolucionismo

No meu texto de ontem sobre as tácticas políticas à volta do referendo da co-adopção, defini a maioria do eleitorado português desta forma:

“A grande parte do eleitorado português pertence a um grupo que se pode classificar de conservadores socialistas. Pessoas que pelos mesmos motivos, preconceito e ignorância, são conservadores nos costumes e socialistas na economia.”

Para que não restem dúvidas, tentarei desenvolver e esclarecer um pouco este ponto. Antes de mais, convém esclarecer qualquer dúvida de interpretação. Não digo ali que todos os socialistas e conservadores nos costumes o sejam por ignorância e preconceito. O que digo é que a maioria do eleitorado é socialista na economia e conservador nos costumes por esses motivos, porque é essa a posição natural por defeito do ser humano. Obviamente, alguém pode chegar à mesma posição ou posições semelhantes através do estudo e conhecimento, e muitos o fazem. Aliás, a maioria das pessoas que lêem este blogue e que se revêem nestas posições estarão nessa situação. Mas a verdade é que a maioria do eleitorado não é conservador ou socialista por ter estudado ou pensado nos assuntos económicos e sociais que suportam a sua posição. São-no por se terem mantido na ignorância em relação aos temas e basear as suas posições no preconceito (a utilização da palavra preconceito aqui está mais relacionada com o inglês “preconception” do que com o significado negativo moderno dado à palavra em português). E existe uma razão evolutiva para a existência desses preconceitos.

Comecemos pelo socialismo. A humanidade existe há cerca de 200 mil anos. Durante grande parte deste período não existiram os três factores que levaram ao forte crescimento económico da modernidade: especialização no trabalho (para além da que existiu desde sempre entre homem e mulher), trocas comerciais ou a possibilidade de acumulação generalizada de capital. Antes disto, e durante grande parte da existência humana, predominava uma economia de subsistência em que os indivíduos colaboravam em tribos para a sobrevivência comum. Neste caso, a desigualdade era um risco para a sobrevivência do grupo. Para que um elemento do grupo tivesse mais de algo, seria necessário que outro tivesse menos. A desigualdade na distribuição do produto do trabalho poderia levar à desintegração do grupo. Não por acaso, aqueles que ofereciam maior resisência à desigualdade foram aqueles que ganharam o desafio da evolução. Por isso, a aversão natural, pré-concebida, à desigualdade é algo que se mantém ainda hoje.

O caso da tendência natural ao conservadorismo nos costumes é ainda mais fácil de explicar. A única forma de uma sociedade prevalecer é, obviamente, através da sobrevivência e reprodução. Num ambiente de altas taxas de mortalidade, o sucesso reprodutivo de uma sociedade era particularmente importante para a sua sobrevivência. Daqui resultou a aversão natural a tudo o que ponha em causa, ou tenha posto no passado, o sucesso reprodutivo de uma sociedade: o aborto, a homossexualidade, a igualdade de género ou actividades sexuais não reprodutivas. Também é natural a preferência por instituições que favoreçam esse sucesso reprodutivo como é o caso da família tradicional. A discriminação étnica resulta também de um processo de selecção natural (quando elementos de etnias diferentes se encontravam nas suas migrações há 10 mil anos atrás, quem pensam que sobrevivia: os que estenderam a mão ou os que elevaram as armas?).

Algumas destas tendências naturais fazem hoje menos sentido na sociedade moderna. A obtenção de conhecimento formal tende a diminuir o peso destas tendências naturais no posicionamento político dos indivíduos. Não é por acaso que pessoas que tenham estudado economia tendem a aceitar melhor e até desejar os mecanismos de mercado que levam à desigualdade. Da mesma forma, pessoas que estudam sociologia e psicologia tendem a defender mais os direitos de homossexuais e minorias. Claro que isto não é o fim da história, e o facto de certas posições tenderem a ser menos preponderantes entre pessoas menos informados não significa que estejam erradas ou que a busca do conhecimento resulte, necessariamente, numa aproximação à verdade.

14 pensamentos sobre “Ignorância, ideias pré-concebidas e evolucionismo

  1. lucklucky

    Contesto que essa aversão à desigualdade seja baseada na História.

    Sou mais da opinião que os mais fortes tendiam aglutinar junto de si pessoas mais fracas. A maior parte das sociedades antigas tinham (usando a terminologia do presente) : Nobreza, Religião, População, Escravos. Com diferenças acentuadas de umas para outras e mesmo entre elas.

    A aversão à desigualdade apareceu no mundo das ideias.

    O que há e sempre houve é aversão à diferença – mas uma diferença cultural não económica.

    Com a mesma cultura, deuses, valores fazer a guerra torna-se mais possível, sem ela não há confiança para arriscar a violência.

  2. k.

    “Para que um elemento do grupo tivesse mais de algo, seria necessário que outro tivesse menos. A desigualdade na distribuição do produto do trabalho poderia levar à desintegração do grupo. Não por acaso, aqueles que ofereciam maior resisência à desigualdade foram aqueles que ganharam o desafio da evolução. Por isso, a aversão natural, pré-concebida, à desigualdade é algo que se mantém ainda hoje.”

    Biologicamente, os pais tentam alimentar a familia; Fora dai, não me convence que num grupo de caçadores primitivos, o “chefe” (o mais forte) não ficasse com uma parte maior do mamute para a sua familia.

    “Daqui resultou a aversão natural a tudo o que ponha em causa, ou tenha posto no passado, o sucesso reprodutivo de uma sociedade: o aborto, a homossexualidade, a igualdade de género ou actividades sexuais não reprodutivas. Também é natural a preferência por instituições que favoreçam esse sucesso reprodutivo como é o caso da família tradicional.”

    Explique então porque temos aversão à poligamia. Afinal, sendo eu um macho de sucesso, devia ser perfeitamente aceitável eu andar por ai a polinizar montes de femeas.
    Por outro lado, já escrevi noutro post: Homossexualidade existe em 1500 espécies. Não é nem “anormal” nem “antinatural”.

    “A discriminação étnica resulta também de um processo de selecção natural (quando elementos de etnias diferentes se encontravam nas suas migrações há 10 mil anos atrás, quem pensam que sobrevivia: os que estenderam a mão ou os que elevaram as armas?). ”

    Isto é perfeitamente falso – a demonstrar isso é a assimilação dos Neandertais, que eram de outra espécie…

    “Não é por acaso que pessoas que tenham estudado economia tendem a aceitar melhor e até desejar os mecanismos de mercado que levam à desigualdade.”

    Errado – não entrando em considerações teóricas, num “mecanismo” de mercado perfeitamente funcional, não há desigualdade. Existe desigualdade precisamente porque é praticamente impossivel haver mercados “perfeitos”. E mesmo a resolução de ineficiencias de mercado deve, em primeiro lugar, ser com o auxilio de outros mecanismos de mercado (por exemplo, mercado de CO2).

    “Da mesma forma, pessoas que estudam sociologia e psicologia tendem a defender mais os direitos de homossexuais e minorias.”

    Tem dados para afirmar isto? Porque é que pessoas que estudam veterinária são mais ou menos “pró minorias”?

  3. lucklucky

    “Errado – não entrando em considerações teóricas, num “mecanismo” de mercado perfeitamente funcional, não há desigualdade.”

    Esta deve ser uma definição de mercado esquerdista inventada no momento.

  4. “A maior parte das sociedades antigas tinham (usando a terminologia do presente) : Nobreza, Religião, População, Escravos.”

    Eu penso que o CGP não se está a referir às sociedade agricolas (sobretudo pós-invenção do arado) mas às sociedades de caçadores-recolectores ou de agricultura itenerante (posso estar totalmente errado, mas tenho a ideia que essas sociedades foram a maioria esmagadora da existência humana).

    E essas sociedades tendem a ser relativamente igualitárias, tanto em rendimento como em poder – para começar, nem sequer produzem riqueza suficiente para alguém viver muito melhor que os outros; e, sem diferenciação funcional suficiente para haver um exército profissional, a autoridade tende a ser apenas a liderança pessoal e carismática, em que o “chefe” apenas é “chefe” porque alguém lhe obedece.

    Veja-se as descrições de Tacitus sobre os Germanos (que até eram um povo muito mais evoluído do o nivel de desenvolvimento que estou referindo) – não me apetece estar a reler o texto dele para ver se era mesmo isso, mas tenho a ideia que ele apresentava a sociedade germânica como muito mais igualitária que a romana (há mesmo com escravos e isso, mas de forma muito menos acentuada)

  5. Ainda outro ponto:

    “Sou mais da opinião que os mais fortes tendiam aglutinar junto de si pessoas mais fracas.”

    A maneira usual dos mais fortes (ou mais bem sucedidos) aglutinarem junto de si os menos bem sucedidos é trocarem riqueza por status – distribuirem bens por toda a gente da aldeia para ganharem o seu apoio para quando for preciso (e em sociedades sem polícia cuja segurança deriva da vendetta executada por familiares ou amigos, é bom ter uma rede de apoiantes) – veja-se os traficantes de droga, que, quando podem, tendem a cultivar a imagem de benfeitores públicos da sua zona de influência. Imagine esse processo a decorrer durante milénios (com os ricos que partilham a riqueza a ganharem prestigio e sucesso reprodutivo e os que não partilham a serem mortos à primeira oportunidade) para se desenvolver uma aversão genética, talvez não tanto à desigualdade, mas sobretudo à não-partilha.

  6. Se calhar já estou a ser muito chato, mas ainda mais este ponto:

    “O que há e sempre houve é aversão à diferença – mas uma diferença cultural não económica. ”

    Dá-me a ideia que as tais sociedades antigas com grande desigualdade (com “nobreza”, escravos e afins) até eram bastante “tolerantes” face à diferença cultural, desde, claro, que os “diferentes” ficassem no seu lugar – isto é, era perfeitamente normal essas sociedades serem multi-étnicas e multi-religiosas, e cada etnia ou religião terem as suas profissões especificas (o exemplo com que estamos mais familiarizados é o dos judeus e a sua especialização no comércio, mas também encontramos facilmente casos de sociedades em que os nobres e os camponeses falavam línguas diferentes). O sociólogo Ernest Gellner até tinha a teoria que o nacionalismo e as limpezas étnicas eram o resultado da sociedade moderna – esta requer a mobilidade social, e para haver mobilidade social tem que haver uma cultura comum (sobretudo na língua); as sociedades em que “filho de sapateiro será sapateiro” é que se podem dar ao luxo de ter montes de grupos étnicos diferentes, já que eles não precisem de se misturar socialmente.

    O problema desta conversa de “sociedades antigas” é que não distingue claramente entre sociedades “tribais” (descentralizadas, relativamente igualitárias e culturalmente homogéneas) e sociedades “estatais” (centralizadas, com grandes desigualdades de riqueza e poder e frequentemente multiculturais); eu dá-me a ideia que o CGP estava pensando sobretudo nas sociedades “tribais” (por regra historicamente anteriores às outras).

    [Já agora, poderíamos pensar se o feudalismo medieval não seria um híbrido resultante da conquista do Império Romano por povos tribais, e se muita da especificidade daquilo a que chamamos “civilização ocidental” não será exatamente o resultado dessa mistura; mas já estou a divagar totalmente face ao tema inicial]

  7. Pingback: A Co-Adopção n’O Insurgente | Ricardo Campelo de Magalhães

  8. lucklucky

    “Ou uma definição de igualdade diretista inventada no momento.”

    Não sei como, como se pode dizer que o mercado “perfeitamente funcional” torna todos iguais? O mercado só tem razão se as pessoas decidirem diferente, decisão diferente quer dizer que não pode existir igualdade.Num mercado há escolha. A escolha só faz sentido com pessoas com opiniões diferentes.

    “sociedades de caçadores-recolectores ou de agricultura itenerante (posso estar totalmente errado, mas tenho a ideia que essas sociedades foram a maioria esmagadora da existência humana).”

    Sim mas é irrelevante, desde o início existiram pessoas dominantes.
    Já vem desde o primeiro momento em que várias mulheres escolheram um único homem para acasalar. E o próprio argumento não se sustenta com interrupção históricas.

    Quando eu digo cultura diferente falo de população que têm celebrações publicas diferentes e são uma importante percentagem embora minoritária da população mas suficiente bem organizada. Uma pequena minoria que está a um canto não preocupa a não ser em períodos extremistas ou de dificuldades. Uma peste é suficiente para colocar sob suspeita uma determinada comunidade que seja um pouco diferente.
    Podemos falar das guerras religiosas – não é sequer necessário ir buscar os bombos da festa: os Judeus. Basta ir aos diversos grupos cristãos que tinham diferentes opiniões sobre a trindade, o próprio Jesus etc.

    Não é por acaso que um dos primeiros documentos de igualdade – neste caso não de fins – veio com o Direito Romano. Já em plena civilização.

    “O sociólogo Ernest Gellner até tinha a teoria que o nacionalismo e as limpezas étnicas eram o resultado da sociedade moderna ”

    Da sociedade moderna ou do aumento de população?
    Quando mais possibilidades de contacto entre diferentes mais hipótese de conflito ou de aliança.

  9. povão

    Existe uma outra classificação :
    Os portugueses eleitores que esfolaram o Futuro e os Politicos eleitos que “chularam” o Passado , o Presente e o Futuro !!!:

  10. «Não sei como, como se pode dizer que o mercado “perfeitamente funcional” torna todos iguais?»

    Suspeito que isso deriva de uma definição muito peculiar de igualdade, em que desde que todos possam vender os seus produtos no mercado (mesmo que uns tenham para vender produtos muito mais valiosos que os outros) e comprar outros produtos nesse mercado (mesmo que tenham um diferente poder de comprar) há “igualdade” (pelo menos, é a única maneira de isso fazer sentido)

    “Sim mas é irrelevante, desde o início existiram pessoas dominantes.”

    Não é não, se esse dominio fosse mais fraco nessas sociedades do que na atual; claro que podemos fazer uma tipologia de sociedades em que chamamos “igualitárias” às que tenhum uma distribuição da riqueza e poder correspondente a um indice gini de 0 e chamar “desigualitárias” às que tenham um indice Gini entre 0.000000…..001 e 1 (e concluir que todas essas sociedades eram desigualitárias), mas acho que isso não faz grande sentido; independentemente de sempre terem existido pessoas dominantes, basta que durante a maior parte da existÊncia humana tenha havido menos desigualdade que a atual para se poder assumir que a desigualdade atualmente existente não estará de acordo com a que estamos “geneticamente” preparados para aceitar; pondo as coisas de outra maneira – a desigualdade de nivel de vida entre o membro médio de um bando de chimpazés e os membros mais importantes do bando é provavelmente muito menor do que entre o Belmiro de Azevedo e o português médio (pelo menos em comforto material e poder – no caso do acesso às fêmeas, talvez a sociedade chimpazé seja mais desigualitária que a nossa), e ainda menos da entre o saudita médio e um principe da família real (aí inclusivamente no acesso às fémeas).

    “Da sociedade moderna ou do aumento de população?”

    A teoria dele era mesmo que era culpa da sociedade industrial – o exemplo que ele deu num texto dele até era a da Europa de Leste: durante séculos viveu sob impérios multi-culturais, mas com a modernização no século XIX (que implica uma cultura alfabetizada, logo um sistema educativo formal, logo um Estado ao serviço de uma cultura especifica a controlar esse sistema educativo) todas as minorias linguisticas começaram a querer o seu próprio Estado (o que nas zonas em que viviam várias grupos à mistura abriu caminho às limpezas étnicas e coisas do género)

  11. Pingback: Igualitarismo, evolução e mamas | O Insurgente

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