Haja ciência para além do estado

A redução do número de bolsas de doutoramento do FCT têm causado alguma indignação nos meios académicos e entre aquela esquerda para a qual qualquer corte de despesa pública, mesmo na situação actual, é motivo para rasgar as vestes. Para estes, a redução do financiamento estatal corresponde ao fim da ciência em Portugal, porque esta só pode sobreviver pelo e através do estado. Só pode haver conhecimento e desenvolvimento ciêntífico se for o estado a fazê-lo ou, pelo menos, a financiá-lo.

Um dos principais argumentos é o de que o financiamento estatal à investigação é indispensável porque o tecido económico português é pouco sofisticado e sem capacidade financeira para financiar estudos académicos avançados. Este argumento faz pouco sentido. Faz pouco sentido, em primeiro lugar, porque contraria a posição de que o investimento em investigação favorece a economia do país: afinal, se continuamos a ter um tecido produtivo pouco avançado, de que serviram décadas de dinheiro dos contribuintes injectado em bolsas de investigação? Em segundo lugar, faz pouco sentido porque muitas empresas já investem em formação académica avançada. Mas grande parte desse financiamento vai para um único tipo de curso: o MBA. Para aqueles que estiveram em Marte nos últimos 20 anos e desconhecem o significado destas três siglas, um MBA é uma espécie de campo de férias para adultos onde profissionais de várias áreas aprendem rudimentos de gestão no intervalo de festas (perdão, actividades de networking), treinam o inglês e participam em conferências dadas por gestores de sucesso que nunca fizeram eles próprios um MBA. Tudo isto, por um custo superior, às vezes bastante superior, ao de programas de doutoramento. Se as empresas não tivessem dinheiro para investir em formação avançada não o fariam num produto de tão baixa qualidade como são os MBAs. Apesar de estarem num patamar ciêntífico bastante mais elevados, os programas de doutoramento continuam a ser preteridos pelas empresas. Porque é que as empresas preferem enviar os seus engenheiros para MBAs do que para programas de doutoramento? Por um motivo simples: os primeiros são desenhados para agradar às empresas, os segundos para agradar ao júri da FCT. Se mesmo cursos tão overrated e overpriced como são os MBAs conseguem financiamentos do tecido empresarial, não será complicado que programas de doutoramento de alto valor acrescentado também o sejam. Claro que para tal seria necessários que esses programas fossem mais atractivos para as empresas. Tornar os programas de doutoramento mais atractivos para as empresas exige esforço, mudança de mentalidades numa área do ensino, o ensino superior, que de tão estatizado se tornou infléxivel e avesso à mudança.

É evidente que existe uma boa parte da investigação que não entra, nem entrará, na lógica empresarial de impacto no curto/médio-prazo. Para esses casos, existirão fundações, organizações filantrópicas e, se quisermos, o Estado para financiar. O que não pode continuar a existir é o actual monopólio do Estado no financiamento do conhecimento, que desvirtua os incentivos de investigadores, doutorandos e universidades. Há males que vêm por bem e o actual corte ao financiamento de bolsas de doutoramento pode ser a oportunidade necessária para que universidades, professores e doutorandos, em estado de necessidade e sob pressão, adaptem as suas práticas actuais. A investigação académica nunca sobreviverá dependendo apenas do seu impacto na “economia real”, mas também não se deve eternizar no conforto da dependência estatal.

23 pensamentos sobre “Haja ciência para além do estado

  1. Surprese

    Hoje já existe o DBA (Doctorate of Business Administration) para investigação em gestão aplicada às empresas.

    Sem surpresas, a FCT não financia DBAs, pois não são equivalentes a graus académicos, não obstante serem muito mais úteis para a economia do que Doutoramentos em Marketing para provar que uma pessoa demora mais tempo a comprar um carro do que uma escova de dentes, estes sim com potencialidade de financiamento da FCT.

    Quando andei por esse mundo da investigação perdi as dúvidas: a FCT só financia aquilo que não interessa à economia, pois o que interessa as empresas financiam, ou os próprios investigadores pagam do seu bolso para futuro retorno profissional, como foi o meu caso.

  2. jmelo

    O autor deste post deverá também ele ter andado em Marte nos últimos 20 anos, já que não faz puto de ideia do que é a Ciência em Portugal. Comparar Ciência com MBAs é, no mínimo, ridículo.

  3. Carlos Guimarães Pinto

    jmelo, se ler atentamente o post verá que não estou a comparar MBAs a doutoramentos, apenas a utilizar os MBAs para demonstrar como há dinheiro na economia privada para suportar estudos académicos avançados. Se não houvesse, não se financiariam MBAs.

  4. Luís Lavoura

    a FCT só financia aquilo que não interessa à economia, pois o que interessa as empresas financiam

    Evidentemente.
    Ver post a dizer isso mesmo no blogue Delito de Opinião.
    É ridículo ir pedir às empresas que se substituam ao Estado a financiar a investigação quando o Estado já só financia investigação que, pelas suas caraterísticas, não é passível de ser financiada por empresas.

  5. Luís Lavoura

    há dinheiro na economia privada para suportar estudos académicos avançados

    Claro que há. Mas apenas para financiar aqueles estudos que interessam de forma direta e imediata às empresas em questão.
    Mas grande parte da ciência não tem interesse direto e imediato para nenhuma empresa. É por isso que o financiamento estatal (ou de fundações beneméritas) é essencial.

  6. João Bettencourt

    Este é um dos posts mais imbecis que já li aqui no Insurgente. Fico-me apenas por este apanhado:

    ” um MBA é uma espécie de campo de férias para adultos onde profissionais de várias áreas aprendem rudimentos de gestão no intervalo de festas (perdão, actividades de networking), treinam o inglês e participam em conferências dadas por gestores de sucesso que nunca fizeram eles próprios um MBA.”

    “Porque é que as empresas preferem enviar os seus engenheiros para MBAs do que para programas de doutoramento? Por um motivo simples: os primeiros são desenhados para agradar às empresas”

    Ou seja, o que agrada às empresas são “campo de férias para adultos” com festas e oportunidades para practicar o inglês. Não me soa que as universidades, pelo menos as sérias, estejam muito interessadas em transformar os seus programas de doutoramento em planos de actividades lúdicas e de melhoramento pessoal de futuros “cientistas da economia real”

  7. Carlos Guimarães Pinto

    Repare o João, que até um campo de férias para adultos é mais adequado às necessidades das empresas. Imagine o que seria se as universidades fizessem um esforço para oferecer algo de qualidade.

  8. k.

    O post está mal construido;

    Não existe monopólio do Estado relativo ao financiamento de investigação teórica. Simplesmente, o Estado é o único que o faz porque este tipo de investigação não é passivel de ser monetarizado, portanto uma empresa não o fará.
    Este tipo de investigação é um bem público – na definição económica do termo – e ficamos todos mais pobres no longo prazo se não for feito (a afectação entre o tipo de investigação é tambem discutivel, claro).

    Relativamente a investigação aplicada, ai as empresas podem (e deviam..) financiar; É deste tipo de investigação que saem ipods, novos tipos de travões para carros, etc. Em suma, inovação de mercado.
    Ai o Estado não devia ter de investir, sequer. Mas infelizmente, o tecido empresarial Português também raramente mostra iniciativa para isso..

  9. João Bettencourt

    Caro Carlos,

    Espero então, pelo seu bem, que não tenha gastado cinco anos numa licenciatura e que tenha aproveitado esse tempo para aprender inglês e frequentar campos de férias. Quanto à qualidade da investigação, se esta é medida pelo interesse das empresas na mesma, então temo que, de acordo com o seu post, num futuro próximo o panorama da investigação científica em Portugal vislumbre nada mais que escolas de turismo e de literatura inglesa.

  10. David Calão

    As Universidades não são centros de formação profissional. Se calhar se se percebesse o que é suposto uma Universidade fazer não se dizia tanto disparate.

  11. Lourenço

    O Ipod, referido por K, é um excelente exemplo para demonstrar a grande confusão que vai neste post. E bem verdade que o Ipod foi desenvolvido e criado por uma empresa privada, mas as tecnologias subjacentes ao seu funcionamento que o tornam um produto apelativo resultam de investigação financiada pelo erário publico há duas ou mais décadas. Senão vejamos alguns exemplos: mp3 (Fraunhofer-Gesellschaft, instituto financiado em grande parte pelo contribuinte alemão), wifi (CSIRO, instituto financiado pelo contribuinte australiano), internet (vários organismos estatais ou ligados à Defesa de diversos países e também financiados por dinheiro público).

  12. Carlos Guimarães Pinto

    Sim, e na Coreia do Norte as pessoas alimentam-se do que as cooperativas estatais produzem, ficando assim comprovado que, sem estado, morriam à fome.

  13. Carlos Guimarães Pinto

    Não falei em interesse das empresas (esse falta e muito, precisamente porque os planos de doutoramento não são atractivos), falei em capacidade financeira. Essa existe, e para o comprovar está o desperdício em MBAs.

  14. lucklucky

    E tivemos os aristocratas de esquerda, de um país que dizem está na pobreza e desigualdade a recomendarem que se gaste dinheiro numa actividade elitista.

  15. Antunes

    A Investigação nas Universidades não se dedica só a áreas sem aproveitamento. Infelizmente parece haver uma coordenação insuficiente entre as Univs e as empresas, e há uma falta de investimento dos privados em projectos científicos que podem ser capitalizados (o estado não investe tão pouco quanto isso, falta é uma segunda parte que existe nos outros países e não existe cá, a da vontade dos privados em partilhar também desse esforço)

    Esta questão, ainda que pertinente, não é tanto a que está a ser discutida. Não é por termos cada vez mais bolseiros num laboratório que as empresas vão decidir aproveitar mais esse investimento. Diminuir as bolsas era inevitável porque não podemos formar doutores e investigadores ao ritmo que temos formado nos últimos anos. É preciso virar o investimento também para outras peças fundamentais da investigação. Para usar um exemplo frequente deste blog, se a investigação tem o propósito de ter o maior número de envolvidos possível, então substituam-se os microscópios por colheres.

  16. k.

    “Carlos Guimarães Pinto em Janeiro 20, 2014 às 13:16 disse:
    Não falei em interesse das empresas (esse falta e muito, precisamente porque os planos de doutoramento não são atractivos), falei em capacidade financeira. Essa existe, e para o comprovar está o desperdício em MBAs.”

    ?
    Portanto para si, se os planos de doutoramento tivessem “mais qualidade”, ia haver mais procura de doutorados.
    Bem, mas se muitos doutorados “fogem” do pais, para encontrar trabalho noutras paragens, certamente não é por falta de qualidade.
    Por outro lado, que projectos têm as empresas para empregar doutorados? De facto, não se trata de capacidade financeira – é mesmo capacidade para inovar.

  17. miguel

    Existem muitas áreas em que o Estado vai ter de continuar a apoiar, mesmo que as “empresas” ou o próprio Tecido empresarial do Estado não venham a ter um impacto directo com esse suporte financeiro do Estado. O “retorno” poderá não ser sempre palpável pois valores mais elevados se colocam, como civismo, direitos humanos, questões sociais e de evolução, enfim, tudo questões que elevam o valor intrínseco de uma população… Nem tudo é passível de ter KPI’s… como por exemplo nas áreas ligadas às Humanidades (Literatura, Filosofia, Linguística, etc). Ou só se podem financiar MBA’s ou similares que tenham “retorno” financeiro… quem diz isto, não capta conceitos de Universidade ou Investigação. Ademais, existem diversos casos de empresários de sucesso a nível internacional com formações de base em áreas de humanidades, que depois por alguma razão ou por outra vão lá fazer os cursos de verão/campos de férias, para serem “acreditados” para o mundo empresarial.

  18. lucklucky

    “Bem, mas se muitos doutorados “fogem” do pais, para encontrar trabalho noutras paragens, certamente não é por falta de qualidade.”

    Não? Como suspeito que não queria criticar os impostos soci@listas, os actuais e os que estão para vir… podemos falar do empregadedorismo…

  19. Rui Sousa

    Se a prática científica em Portugal estivesse à espera de fundações e filantropos caía tudo de velho. Não somos uns Estados Unidos da América, onde cada grande empresa tem já no seu ADN o propósito de ajudar o desenvolvimento científico, para bem da sociedade. Filantropos a sério, contam-se pelos dedos. Gulbenkian para as Artes, Fundação Champalimaud para a investigação médica, algumas iniciativas regionais, PT nas novas tecnologias… De resto, muito pouco. Não há interesse, nem houve interesse mesmo em tempo de vacas gordas.
    Assim sendo a dependência estatal é a única tábua de salvação para a investigação em certas áreas. Por mais voltas e argumentos de “economia real” que queiram ir buscar, a própria economia real diz que não está disponível para esse contributo.
    E já agora, peço desculpa, mas comparar um MBA a um Doutoramento é o mesmo que comparar um livro do Eça ao da Margarida Rebelo Pinto. São objectivos diferentes, com vista a resultados e a uma utilização distintos.

  20. Uma das vantagens dos blogues é a rapidez das reacções, e frequentemente, a reactividade das reacções. Um dos inconvenientes, é a precipitação, a falta de cuidado com as formulações das hipóteses e teses, o abuso de “obviamente”, do “toda a gente sabe” e “non sequitur” que passam por silogismos. Não tem de ser assim, como recordo com saudade o blogues “Semiramis” da autoria de uma “Joana” e que terminou em Fevereiro de 2006, como recordarão alguns leitores d’O Insurgente.

    Um dos maiores prazeres que tenho em responder a um post é contestá-lo ou demonstrar a sua falsidade, o que é fácil num caso como o presente porque me basta apresentar um indivíduo ou ocorrência para refutar as afirmações que resultem de abusos de discurso.

    Assim, penso que este post se deveria intitular “há ciência para lá do estado” no modo indicativo (certeza) e não conjuntivo (conjectura, desejo), como mostrarei a seguir.

    Começo pelo argumento: “se continuamos a ter um tecido produtivo pouco avançado, de que serviram décadas de dinheiro dos contribuintes injectado em bolsas de investigação?”. Num registo mais sério, responderia com a necessidade de acumulação de saber (algo como uma versão intangível da “formação bruta de capital fixo”) e com a constituição de uma massa crítica (conceito usado na física nuclear e na sociologia) para gerar uma reacção em cadeia de ganho de saber. Num registo mais zombeteiro, contra-argumentaria que os suícos desperdiçam montanhas de fundos públicos ao financiarem publicamente a economia mais competitiva do mundo (Country Benchmarks, World Bank, 2009; EU Innovation Union Scoreboard, 2013). Fica-me a impressáo que é parecer do autor que o investimento público em I&D é por omissão mal empregado e que criará argumentários que apoiem essa tese e que serão desenhado à medida dos países ricos, remediados ou pobres. O segundo argumento auto-destrói-se ao afirmar que “as empresas já investem em formação académica avançada” e que a maioria desse investimento vai para “campos de férias para adultos onde profissionais de várias áreas aprendem rudimentos de gestão no intervalo de festas”.

    Continuando em “porque é que as empresas preferem enviar os seus engenheiros pra MBAs do que para programas de doutoramento?”. Para refutar esta afirmação basta-me recordar pelo dois casos nas minhas relações profissionais de pessoas cujos programas de doutoramentos em universidades públicas portuguesas foram co-financiados pelas empresas empregadoras. Um desses casos é uma empresa cotada em bolsa, o outro é uma PME. É desonesto falar disso como uma conjectura quando o programa existe e funciona (http://www.fct.pt/apoios/bolsas/regulamentobde). O autor seria mais honesto se fizesse uma análise crítica, enquanto cidadão eleitor, da eficiência dos programas reais em vez de negar a sua existência. Como corolário, é falsa a afirmação “o que não pode continuar a existir é o actual monopólio do Estado no financiamento do conhecimento”. Esse monopólio não existe hoje em Portugal. QED.

    Um dos aspectos que me parece mais importante no financiamento ou co-financiamento da I&D pelas empresas é o problema do retorno do investimento, que o autor omite. Quando uma empresa favorece de qualquer forma um avanço científico ou tecnológico, os seus clientes serão provavelmente beneficiados, assim como serão, após um breve intervalo, os concorrentes mais atentos dessa empresa. E é aqui que os investidores se podem sentir mais cépticos ao tomarem nas mãos todos os riscos e partilharem as recompensas com aqueles que ficaram de lado a ver. O modelo actual aceite em Portugal é que tudo o que é financiado ou co-finaciado pelo Estado deve ser de disponíbilidade universal e gratuita (onde é que eu já ouvi criticar o acesso universal e gratuito?). Isso é um bem comum e gratuito cujo valor ma parece imenso. Há outras soluções de acesso universal mas pago (por exemplo, as patentes), mas os países europeus parecem mais reticentes em financiar o acesso restrito e pago ao saber (por exemplo, trade secrets).

    A determinação do grau razoável de divulgação entre pares e para o público exterior, do saber aprendido no âmbito de um projecto europeu que envolve universidades, organizações de I&D com financiamento público e empresas, é um ponto de contencioso qie encontro na minha vida profissional. A publicação de artigos com revisão pelos pares também apresenta dificuldades para as empresas: por um lado o processo de revisão é mais moroso do que o tempo de acção das empresas, por outro, por outro o grau de novidade exigível para aceder a uma conferência ou, mais ainda, a um “journal”, é um investimento cujo retorno é difícil de medir para lá do efeito na reputação da organização.

    Não basta haver vontade de colaboração entre sector público e privado, é preciso encontrar formas mutuamente benéficas de partilhar riscos e recompensas.

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