E a saúde dos pobres?

Médicos querem sempre sistemas públicos. Percebe-se: é uma maneira de fixarem preços e, criando um monopólio e uma escassez artificial, ganharem muito mais do que em concorrência. Permitem-se depois algumas excepções, se eles conseguirem ganhar ainda mais em consultas “privadas”, se receberem parte do salário livre de impostos via “prestação de serviços”, se conseguirem cobrar ao estado por exame (fazendo o paciente fazer o dobro dos exames necessários), ou se conseguirem ter uma empresa de “seguros” de saúde pelo meio. Tudo menos um cliente-pagador, mesmo que seja para uma consulta de rotina.

Mas depois há que justificar o saque. Claro que se ganha muito mais neste sistema que diferencia paciente de pagador, mas há que arranjar um racional para o justificar. Os pobres! Há que providenciar cuidados gerais para todos, mesmo para os pobres! E depois claro, prestar cuidados especiais aos membros do interesse corporativo (outros médicos) e ter um sistema paralelo para fazer os ricos pagarem mais. Sempre controlando o número de médicos existentes para que não haja cuidados de saúde a mais pois isso poderia ter efeitos nefastos. Quais? Como justificar isso? Pela qualidade dos serviços prestados: um estudante de 17 não seria um bom médico. E nem vou comentar sobre quão frequente é um filho de médico ser muitas vezes médico e como se garante esse resultado.

Bem, este artigo é mesmo sobre um artigo no Liberdade.BR em que se fala sobre: que sistema protege melhor a saúde dos pobres: o livre mercado ou o monopólio público. Aqui fica:

“É incrível como algumas pessoas acham que nós não podemos pagar médicos, hospitais e medicamentos, mas pensam que nós podemos pagar por médicos, hospitais, medicamentos e toda a burocracia governamental para administrar isso”. ~ Thomas Sowell 

O Sistema Único de Saúde, é o aparato estatal, criado para prover os brasileiros com um serviço médico, hospitalar, laboratorial e farmacêutico que fosse gratuito, universal e de boa qualidade, como estabelece nossa utópica Constituição.
Como era de se prever, tem sido um fracasso colossal. Não é gratuito, nem universal e tampouco de boa qualidade.
Ingenuidade imaginar que os pobres não pagam pelo serviço de saúde pública. Pagam a sua cota, e pagam pesado, através dos elevados impostos, embutidos nos preços de tudo que adquirem. Pagam, também, com a inflação, quando o governo, ardilosamente, imprime dinheiro sem lastro, desvalorizando o poder de compra da população. Os impostos pagos pelos pobres, não são moleza. Reduzem seu poder aquisitivo à metade. Em média, 50% do que é gasto nos supermercados, nas farmácias, nos bares, no uso do telefone ou da energia elétrica, enfim, vai para os cofres do governo, que encontra sempre uma maneira de desperdiçá-los.
Fica óbvio, que os pobres pagam pelos serviços de saúde, e pagam caro. Pois quando recebem atendimento, ele é lastimável. Às vezes, acabam pagando com a própria vida, ou com seqüelas, pela falta de cuidados adequados. Esse quadro não é privilégio dos pobres, os demais cidadãos, condenados a penar pelo SUS, sofrem com o mesmo padrão de qualidade. Nessa troca forçada, pagam e recebem o quê? Serviço lastimável, ou serviço nenhum. Trata-se de um sistema desumano e impessoal. Os pacientes não são tratados com dignidade, nem há empatia entre o médico e quem o consulta. Cada usuário é um encargo suportado pela fria máquina do Estado.
Para obter um serviço de saúde melhor, tem-se que despender duplamente, com os impostos e com o que for adquirido, voluntariamente, da iniciativa privada. Esses serviços também são caros, por conta das obrigações legais que são impostas às empresas que os fornecem. O desrespeito à liberdade individual na contratação de médicos, hospitais e na compra de medicamentos, é decorrência do Estado autoritário, que alega proteger os cidadãos, como se fôssemos estultos. Com arrogância, é exigido dos serviços privados, o que a saúde pública promete e nunca conseguiu cumprir e jamais conseguirá.
É imprescindível reformular nossa Constituição, para devolvermos às pessoas a liberdade necessária para escolherem seus médicos, hospitais, farmácias e medicamentos, sem a interferência do Estado. Para permitir à iniciativa privada, em regime concorrencial, em um ambiente de livre-mercado, fornecer à população os serviços e produtos que esta deseja e necessita.
Mas e os pobres, ficarão sem assistência?
Os pobres já estão sem assistência. Sob a tutela do Estado, enfrentam o mau atendimento, filas intermináveis, listas de espera eterna. Percorrem verdadeiros corredores da morte, como condenados, cujo único crime é ser brasileiro e, como agravante, ser pobre.
Sim, é incrível estarmos todos, inclusive os pobres, a pagar por médicos, hospitais e medicamentos, recebendo em troca, altas doses de imperícia, burocracia e escárnio.
Como pode quem não sabe previnir tentar remediar?

E digo mais: quem já leu sobre Freeconomics (breve apresentação em inglês) e já usou serviços como os do Google pode imaginar muitas consultas a serem gratuitas numa manobra de hospitais para cativarem pacientes. E muito outras consultas a serem tão baratas que se tornam populares e acessíveis – a custarem muito menos do que um pobre paga em IVA nos produtos que consome numa semana. E claro que os seguros de saúde seriam só para situações realmente graves e não para consultas de rotina, demasiado baratas para serem interessantes para incluir no pacote.

Seria um mundo em que os médicos receberiam menos, mas em que os serviços seriam muitos mais abundantes, baratos e acessíveis. Como no mercado da alimentação, se pensarem um pouco. Mas nós não queremos isso, pois não?

Sobre a situação em Portugal podem ler este artigo (de 2011). Mas claro, vai ser feito alguma coisa. Como sempre, o horizonte nunca chega mas a promessa mantém-se. E o povo acredita e paga mais um bocado. Até o dia em que o Orçamento de Estado tenha mesmo que ser equilibrado (i.e., défice 0) por não haver mais “usuários” e “especuladores” disponíveis para pagar a farsa.

14 pensamentos sobre “E a saúde dos pobres?

  1. a

    “Médicos querem sempre sistemas públicos. Percebe-se: é uma maneira de fixarem preços e, criando um monopólio e uma escassez artificial, ganharem muito mais do que em concorrência.” O estado é monopólio no produto, mas monopsónio nos usos: a distorção gerada a jusante é compensada por outra a montante. Pode confirmar, por exemplo, que os salários dos médicos são muito mais elevados nos EUA do que em qualquer outro país da OECD, em tudo o resto comparável menos na organização dos serviços de saúde.

  2. Há aqui uma coisa que me faz confusão e o Ricardo espelha isso muito bem no seu post: há um sentimento quase corporativista nisto. E nem é culpa da classe em geral (conheço bons médicos que não se importariam de ter mais concorrência), mas da Ordem. Dizem que vamos ficar, em breve, com desemprego na classe… mas importamos médicos sul-americanos para os centros de saúde locais. Algo aqui não está bem e, na minha humilde opinião, é a Ordem que emperra as coisas. E depois temos coisas deste género: http://www.publico.pt/educacao/noticia/defendidas-quotas-para-travar-entrada-de-mulheres-nos-cursos-de-medicina-1195406

  3. lucklucky

    A questão para começar começa por ser cultural. Os Médicos e em menor parte os Professores transformaram a sua profissão – e conseguiram convencer a sociedade – que fazem algo nobre , ou seja são parte da nobreza. E para isso pagam-se e são ineficientes de acordo…

    Veja-se a coisa que os Médicos e Professores mais odeiam: O Mercado Livre.

    Já os plebeus que tratam da comida: criação, pesca, agricultura, fruta, etc… Não. Ou os que fazem sabonetes…

    Nesses não há escassez.

    É aliás uma das mais importantes razões porque há cada vez menos crianças – a influência que estas profissões aristocratas cada vez mais têm nos custos de um filho. Ter uma criança é quase ou mesmo mais do que ter Ferraris. Logo tornam-se inevitavelmente raras.

  4. VidalFerreira

    Estou no 12ºano de Ciências e Tecnologias e em princípio vou conseguir entrar em Medicina no ano que vem (pelo menos a minha média é substancialmente superior à da faculdade com a maior média de entrada). Sendo assim, como futuro estudante de Medicina vejo com bastante apreensão todas estas estratégias da Ordem dos Médicos. SNS para proteger os pobres? O que os pobres querem é o melhor serviço pelo MENOR PREÇO possível. E idem aspas a classe média. Não percebo como se possa dizer que um aluno de 17 não tenha qualidade suficiente para ingressar em Medicina, ou seja, não é suficientemente profissional para lidar com a vida de terceiros, mas um motorista de um autocarro (que provavelmente nem licenciatura tem) é suficientemente profissional para ser responsável pelas vidas das pessoas que transporta… Tudo autêntica demagogia!! Só não vê quem tem interesses corporativos instalados! Pessoalmente e falo por mim, não gostaria lá muito de ser médico no SNS, mas a falta de alternativas empurram-me para aí. Isto porque, adivinho já a falta de motivação para trabalhar na medida em que médicos trabalhadores e competentes recebem o mesmo que médicos incompetentes.
    Concorrência JÁ! Quem é bom vence e é selecionado naturalmente. Quem não o é, paciência!

    A saúde em Portugal paga-se caro, muito caro, muitas vezes com a própria vida!!

  5. Lobo Ibérico

    Caro Vidal,

    “Pessoalmente e falo por mim, não gostaria lá muito de ser médico no SNS, mas a falta de alternativas empurram-me para aí. Isto porque, adivinho já a falta de motivação para trabalhar na medida em que médicos trabalhadores e competentes recebem o mesmo que médicos incompetentes.
    Concorrência JÁ! Quem é bom vence e é selecionado naturalmente. Quem não o é, paciência!

    A saúde em Portugal paga-se caro, muito caro, muitas vezes com a própria vida!!”

    quando acabar o curso, já encontrou um cliente. 😉
    Libertarians put their money where their mouth is.

    Saudações libertárias!

  6. Pisca

    Vidal essa cabecinha está toda feita num oito, porque é que não se dedica a aprender bordados de Arroiolos sempre se evita mais um anormal armado em médico a olhar o livro de recibos para despachar fregueses

    É com cada cromo ….

  7. Lobo Ibérico

    “Vidal essa cabecinha está toda feita num oito, porque é que não se dedica a aprender bordados de Arroiolos sempre se evita mais um anormal armado em médico a olhar o livro de recibos para despachar fregueses

    É com cada cromo ….”

    And not a single fuck was given that day…

  8. Medico

    Declaração de interesses: sou medico
    Como é habitual os comentários relativos à área da saúde revelam uma profunda ignorância e terminam sempre no mesmo: malandros dos médicos que só querem ganhar dinheiro a custa dos doentes! O artigo vem do Brasil onde o sistema é bem diferente e onde se ganha até 10x mais.
    Aqui ficam algumas coisas que deveriam servir para reflectir:
    1. Há outros profissionais na área da saúde que representam um papel igualmente importante, para o bem ou para o mal
    2. Já temos um número de médicos per capita acima da media da OCDE. Com a proliferação de faculdades e o brutal aumento do numerus clausus em breve estaremos numa situação insustentável. Com a quantidade de licenciados a sair das faculdades em breve não vai ser possível fazer formação de especialidade. Para quem não sabe sem especialidade não se pode exercer medicina nos centros de saúde, aparentemente onde mais falta haverá de médicos
    3. No nosso sistema a esmagadora maioria trabalha no sistema publico. Tanto faz 1, 2 ou 100 exames ou cirurgias. O vencimento é o mesmo.
    4. A saúde em Portugal não é cara. Pelo contrario é das mais baratas da Europa.
    5. Porque não se discute verdadeiramente a separação publico-privado?
    Muito mais haveria para dizer…

  9. Rui

    que artigo mais parolo… essa de que os privados resolveriam os problemas da saude é daqueles mitos que já foram mais que provados que estão errados pois os EUA que têm um sistema de saúde prepronderantemente privado, gastam o triplo do dinheiro per capita e têm piores indicadores de saúde…

  10. dfg

    O preço da medicina nos Estados Unidos resulta, em parte, de uma intervenção governamental que proibiu o equivalente norte-americano às associações de socorros mútuos de prestarem cuidados de medicina e de contratarem médicos – pela intervenção da ordem dos médicos dos Estados Unidos.
    Este comentário é feito com base um único documentário – que me pareceu bastante interessante visto num canal televisivo, pelo que deverá ser investigado.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.