Um país cheio de idiotas (1)

Como que para confirmar o estado miserável da imprensa portuguesa (ainda por cima económica, que should know better), o Diário Económico dá voz acrítica à idiotice de uma xafarica de iletrados que dá pelo nome de Observatório dos Mercados Agrícolas. Seguramente um dos conselheiros de confiança da inefável ministra Cristas. Pois o dito observatório, que na verdade mais do que observa, «considera que o lucro dos supermercados e hipermercados supera os 50% na venda de alguns produtos alimentares». Conclui daí, brilhantemente, que na promoção dos 50% de desconto do Pingo Doce, o dito «ainda fica a ganhar dinheiro».

Do mesmo modo que muita gente confunde facturação com lucros, erro de palmatória que quando cometido por pequenos empresários os leva rapidamente à falência, outra tanta confunde margem bruta com margem líquida. Uma empresa pode vender um produto por X e comprá-lo por Y. X-Y não representa o lucro completo do negócio; representa apenas a margem bruta, directa, sobre a venda. A empresa terá de subtrair a X-Y todos os restantes custos operacionais, como salários, rendas, serviços externos, para obter o valor a que se chama margem operacional; depois terá ainda de subtrair a este valor os custos de amortização de investimentos e os juros pagos à banca e outros credores como obrigacionistas. Obterá então a margem líquida ou lucro líquido, que é aquele que é distribuido pelos donos da empresa ou reinvestido no negócio.

Se olharmos para as contas da Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce, podemos ver que as vendas totais em 2011 foram de 9838 milhões de euros. O lucro líquido para o mesmo período foi de 340 milhões de euros, o que equivale a dizer que teve uma margem líquida de 3,5%. Ou seja, o quilo de alface, que custou 0,4 euros no produtor, leva em cima com os custos de transporte, refrigeração, armazenamento, mais os salários das pessoas envolvidas, mais os custos do supermercado, rendas ou amortizações, salários dos funcionários, bem como provisões para as várias alfaces que vão se estragar e ter de ser deitadas fora, mais a quota parte dos salários dos empregados nos serviços centrais, mais a publicidade na TV, os folhetos e sabe-se lá que mais custos (habitualmente chamados de overheads, talvez por passarem completamente por cima da cabeça dos cromos no Observatório do Raio que os Parta). Depois de todos estes custos é que o quilo de alface custa 1,8 euros. E por isso é que a margem líquida é de 3,5%.

20 pensamentos sobre “Um país cheio de idiotas (1)

  1. ricardo saramago

    Os observadores nunca produziram, distribuiram ou venderam fosse o que fosse.
    A única coisa que produzem são montes de papel e custos para os contribuintes.
    São estes cabeças de ar condicionado que consomem as taxas e os impostos cobrados aos observados.
    São incapazes de ver seja o que for para além dos cafézinhos, dos jornais desportivos e recibos de vencimento.

  2. Alexandre Gonçalves

    Caro Miguel.
    Mas porque é que chegamos a este estado das coisas? Porque neste país muito poucos sabem fazer contas.
    Mas se reduzirmos esse universo aos que gerem o dinheiro dos outros, aí arrisco então esses são todos analfabetos nessa matéria.
    Enfim….

  3. Alexandre Gonçalves

    Deixo uma pergunta aos reguladores:

    Como será que o Ebay consegue funcionar sem NENHUMA intervenção regulatória.Como?
    Sou comprador assíduo nesse mercado e nunca até agora tive nenhum problema.
    Reparem que o estado não mete o bedelho e a coisa funciona lindamente.

  4. Carlos Coutinho

    Fazendo umas contas ainda mais simples:
    Comprei a 10€ aplico-lhe 50% que será o meu lucro e o preço é 15€.
    A promoção foi 50% do preço de venda ou seja o Pingo Doce recebeu 7,5€ e pagou 10€.
    Acho que no primeiro ciclo ainda ensinam estas coisas.
    A explicação mais complexa já é para gente mais letrada que nunca chega aos trabalhos nos observatórios!

  5. Joaquim Amado Lopes

    Miguel Botelho Moniz,
    “Observatório do Raio que os Parta” chegava. Essa gentinha não quer entender as aspectos mais simples do que é gerir uma empresa (complicava a “mensagem política” das suas “observações”) pelo que não vai querer entender a sua explicação.

  6. ignorante

    1-Mais de 60% dos produtos vendidos pelo Pingo Doce não seriam vendidos, e por passar o prazo de validade, iriam ser deitados fora..
    Logo, e de acordo com a gerência já está previsto que a venda dos 40% compense este prejuízo…

    Ora, se fizermos desconto de 50% no segundo valor (40%), que foi o que de facto perderam, é igual a uma perde de 20%.

    Logo, 60% + 20% = 80%

    O dobro dos 40% habituais…

    Claro que a 1ª percentagem dada depende dos produtos, pois nem todos têm curtos prazos de validade… mas a ideia é óbvia.

    2-Que eu saiba, o Pingo Doce não tem uma percentagem do mercado sequer perto dos 50%, e por isso alguns desses ilustres magníficos têm de rever os seus conceitos.

    3-O Dumping está tipificado pela União Europeia para vendas no exterior mais baratas que no próprio país onde são produzidos… mas visto que não existem fronteiras e podemos ir comprar mercadorias e bens a qualquer país sem taxas alfandegárias, este conceito dentro da própria união faz pouco sentido. Trata-se do mercado, dos conceitos base da oferta e procura…

    4-Ah e tal mas é preciso proteger os outros… Que outros? Os que não venderam, mas que mantêm lucros astronómicos? Os que não venderam e já não vendiam antes? Os produtores que num mercado livre não perderam qualquer direito ou garantia? Há uma procura de proteger todos os coitadinhos quando há novidade e quando aparentemente há lucros. Parece que a Jerónimo Martins e Soares dos Santos irritaram muitos políticos e fugiram a muitas influências e interesses. Agora estão a pagar a conta, com mais publicidade gratuita e mais lucros.

    5-eu continuava, mas para quê? Só não vê quem não quer ver…

  7. Dervich

    Enfim, pontos de vista, eu também posso dizer que uma empresa que, entre margem bruta e margem líquida, tem uma diferença de 46.5%, é uma empresa que funciona mal…aliás, essa é mais ou menos a margem pela qual se acusa o estado de funcionar mal…

  8. «eu também posso dizer que uma empresa que, entre margem bruta e margem líquida, tem uma diferença de 46.5%, é uma empresa que funciona mal…»

    Claro que pode. Aqui n’O Insurgente defendemos o direito de todos a dizer disparates. Verdade seja dita, se tal não acontecesse teríamos menos sobre o que escrever aqui no blog.

  9. André Vilhena

    O post é muito esclarecedor e mostra o estado de desinformação existente. No entanto, no argumento apresentado creio que foi feita uma extrapolação abusiva, uma vez que a Jerónimo Martins engloba o Pingo Doce (entre outros) e, portanto, a margem de um não é necessáriamente igual à do outro. É assim?

  10. JS

    Idiossincrasias do exercício da política em Portugal.
    Alguns “produtores”, incapazes, ou inábeis, de se organizarem como parte significativa da cadeia de distribuição -já que, como dizem, é ali que está o lucro(?)- preferíram, e muito bem, fazer o mais fácil e de efeito imediato: “loby” político perante uma Ministra jovem, ingénua, inexperiente, hiper-activa, com uma filosofia cultural pró-Estado, representante do CDS(?!).
    Chamem-lhes parvos.

  11. Dervich

    “jovem, ingénua,(…), hiper-activa, com uma filosofia cultural pró-Estado”

    Então isso é necessariamente mau?!… Está explicada a causa do desemprego jovem na Europa…

  12. Caro André Vilhena,

    “Extrapolação abusiva” é forte. É verdade que a JM tem mais do que o PD, no entanto o que está para lá do PD também é esmagadoramente retalho (supermercados na Polónia). O raciocínio mantém-se. Além disso, a margem líquida de 3,5% está dentro dos benchmarks de retalho em todo o mundo.

  13. André Vilhena

    Concordo plenamente que o raciocínio em nada se altera e, de facto, talvez o termo “abusivo” tenha sido abusivo da minha parte… E obrigado pelo esclarecimento.

  14. Pingback: Enfim « O Insurgente

  15. António Machado

    só um idiota não percebe que transportar, acondicionar e vender um quilo de alface custa cinco vezes mais do que produzi-la.

  16. Pingback: Por falar em idiotas | Aventar

  17. Pingback: Absoluta Idiotice « O Insurgente

  18. ricardo saramago

    “só um idiota não percebe que transportar, acondicionar e vender um quilo de alface custa cinco vezes mais do que produzi-la.”
    Não esquecer as normas de embalagem, rotulagem, prazos, licenças, auditorias, taxas de carbono,casas de banho para deficientes, segurança alimentar, o que não se vende e se estraga, mais os resíduos e por aí fora. A malta julga que todas estas modernidades e alcavalas não custam dinheiro aos consumidores.
    Julgam que as empresas pagam tudo isto “do bolso do patrão” tal como julgam que quem paga a TSU é o “patrão”.

  19. Ricardo Silva

    «considera que o lucro dos supermercados e hipermercados supera os 50% na venda de alguns produtos alimentares»… explique-me então porque não o pode ser? Não estou a dizer que este é o valor efectivo da margem mas o que escreve no texto não refuta esta afirmação… Porque a margem líquida nos produtos alimentares pode ser efectivamente de 50% e a margem líquida global ser 3,5%… Apesar de o fazer utilizando o RLE o que não acho muito correcto porque se estamos a analisar a componente operacional do negócio devemos usar a margem do EBITDA… E esse foi 7,34%… e mesmo assim a margem liquida nos produtos alimentares pode ser 50% ou não?! Não podemos simplificar as coisas desta forma… são estruturas demasiado complexas para esse tipo de raciocínio… apesar de eu perceber a mensagem que quer transmitir…

  20. Pingback: Promoção 1º de Maio (2012) | O Insurgente

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