desligar o suporte vital

“As bond-market pressure is now directed even at Berlin, will Merkel relent and allow the ECB to help the euro? Or will she decide that Germany’s interests must now come first?”, hoje no The Guardian.

Em meados de Julho deste ano, publiquei no Jornal “Vida Económica” uma crónica a que dei o título de “O fim da ilusão” (disponível no arquivo da VE). Nessa crónica, terminei com a seguinte conclusão (previsão): a Alemanha, ela própria, e uma vez confrontada com a solução final para salvar o euro – a monetização da dívida europeia por parte do Banco Central Europeu – sairia do euro por sua livre e espontânea vontade. Enfim, não se trata de uma opinião original, pois muitos outros economistas também já tinham opinado nesse mesmo sentido, porém, neste País em que poucos arriscam as suas convicções de forma aberta e declarada, sobretudo quando estas são contra o pensamento dominante, fui de imediato bombardeado com críticas e apreciações geralmente dirigidas aos lunáticos. Contudo, a cada dia que passa e a cada peça do xadrez que cai – Grécia, Irlanda, Portugal, Itália, Espanha…só falta a França – aquele cenário torna-se cada vez mais provável. E neste aspecto, confesso a minha surpresa pela rapidez no desenrolar dos acontecimentos nas últimas três semanas. Nunca esperei que o processo de contágio, da periferia ao centro, representado na França, fosse tão rápido…

Ora, a emissão de dívida de ontem na Alemanha terá sido, porventura, o mais poderoso dos sinais recentes. E o alerta, mais ou menos, desesperado lançado nas últimas horas pela França ao BCE, pressionando o italiano Draghi no sentido de por a máquina impressora a funcionar, foi a outra face da mesma moeda. Os alemães, por um lado, tentando preservar, e até reter, as suas reservas de valor – as suas tão estimadas Bunds – e, por outro lado, os franceses – muito mais próximos da periferia do que eles próprios aceitam admitir – a puxarem pela depreciação do euro, que por sua vez agradaria a toda a periferia europeia. Se dúvidas existissem quanto à existência de uma consciência europeia, que permitisse a tão almejada união política, a crise do euro destruiu qualquer ilusão naquele sentido. Os alemães não querem socorrer uma Europa que, manifestamente, anda a duas velocidades, nem querem que a zona euro degenere através da ilusão monetária (inflação) necessária para contrariar a magnitude dos desequilíbrios creditícios que afligem uma boa parte dessa mesma Europa. Quanto aos periféricos, depois de tanto se terem tentado diferenciar (cinicamente) entre si, agora, começam a unir-se, mas apenas por mera conveniência do momento. A corda só pode mesmo é partir. Mas de que lado? Do mais forte? Ou do mais fraco?

Enfim, reflectindo sobre os riscos associados a uma e a outra alternativa, a minha resposta é que a corda vai partir, estruturalmente, do lado do mais forte. Porque acredito que, em última instância, será menos oneroso para todos que os alemães saiam do euro – a sua divisa seria mais forte o que, como credores da periferia, permitiria uma desvalorização real da dívida periférica – sem prejuízo de, pelo caminho, se esgotar a paciência de todos em relação à Grécia levando, também, esta a sair do euro. Aliás, ao longo deste ano, no decurso daquelas minhas crónicas na Vida Económica, essa foi a principal tese que fui formulando: 1) a Alemanha sai depois; 2) saindo a Grécia antes. A verdade, porém, é que a velocidade dos acontecimentos poderá conduzir a que a ordem de saída do euro se inverta, saindo a Alemanha primeiro, o que permitiria talvez evitar à Grécia o mesmo desenlace (embora com consequências totalmente distintas). A razão é simples: uma saída da Alemanha não criaria o tipo de risco sistémico que, eventualmente, um “default” descontrolado na Grécia poderia promover.

Mas de uma coisa estou certo: sem união política não há este euro e mesmo que existisse união política, este euro não corresponderia a uma zona monetária óptima. De acordo com a análise contida no artigo do “The Guardian”, existissem hoje os Estados Unidos da Europa e estaríamos, nós europeus, a pagar 6,5% a dois anos e 5% a dez. Não só a curva de rendimentos estaria já invertida (juros mais altos em prazos mais curtos) – o que, por si só, poderia ser sinal de que já nem mesmo os Eurobonds resolveriam o problema de fundo, isto é, as diferenças de produtividade e competitividade no seio da zona monetária – como, também, esta Federação Europeia estaria a pagar juros muito mais altos do que aqueles que a Alemanha hoje paga que, recorde-se, são de 0,4% e 2% a dois e dez anos, respectivamente.

E, portanto, na ausência de convergência e afinidade económica, financeira, cultural e política, o euro, tal como este existe hoje, persiste, mas apenas como um doente em morte cerebral. A realidade, porém, é que quando estamos na presença de um doente em morte cerebral nunca se pede à família que desligue o suporte vital; o médico desliga-o e ponto final. É isso que a Alemanha se encarregará de fazer, mais tarde ou, como parece vir a ser agora, mais cedo.

26 pensamentos sobre “desligar o suporte vital

  1. Luís Lavoura

    Se a Alemanha deixar o euro, os outros países também o deixarão, isto é, (quase) todos eles voltarão a uma moeda própria.

    É que, sem Alemanha, o euro é como um navio sem âncora. Ninguém tem capacidade nem vontade para arcar com as dívidas dos outros.

  2. Só para avisar que eu terminei há momentos a minha greve: chama-se almoço.
    Concordo com o que o Ricardo Arroja escreveu.

    O euro terminou.

  3. boa tarde.
    se a alemanha saí do euro, voltando ao marco, e os restantes países passam a apresentar moedas independentes, ou a mesma, mas de qualquer forma desvalorizada face ao marco, como vão os bancos alemães resistir à restruturação ou falhanço de pagamento por parte dos estados, bancos, e privados dos restantes países?
    além do mais, como vão equilibrar a balança de pagamentos externa se deixarão de ter tanta facilidade de penetração dos seus produtos nesses mercados, estando depois abertos a uma maior importação?

  4. Fernando S

    Vamos ver… Mas talvez seja melhor não vender a pele do urso antes de ele estar morto !…

    Entretanto, o melhor que os “periféricos”, como Portugal, teem a fazer é continuar cada um do seu lado a aplicar a politica de austeridade no pressuposto de que o Euro se aguenta (se o Euro rebenta, a desvalorização competitiva subsequente altera os pressupostos da politica e das politicas).

  5. Paulo Pereira

    Muito bom artigo. Quanto mais depressa a Alemanha sair do Euro, melhor.

    A teimosia Alemanha contra a intervenção maciça do BCE pelo medo de que as compras de titulos pelo BCE gerariam hiper-inflação é uma superstição / lenda .

    O problema da concepção do Euro é que parte de uma ideia errada em como funciona um sistema de moeda-fiat com crédito.
    Os alemães e grande parte dos europeus ainda raciocinam numa lógica de moeda-ouro onde os fundos são limitados.

    Numa moeda-fiat os fundos para comprar divida publica vêm da despesa publica.
    Ou seja a divida publica é apenas uma forma do Estado manter uma escala de taxas de juros que “premeie” os aforradores e que possa servir como controle da inflação.

    O BCE nunca pode ficar sem Euros, nem tem preocupações de solvabilidade (ver por exemplo artigos do Banco Central Suiço um dos pouco Bancos Centrais que coloca a nú o funcionamento dos Bancos Centrais).

  6. PedroS

    Suspiro…. Paulo, como prova que os receios de hiper-inflação são lenda? Existe algum caso de hiper-inflação que não tenha sido causado por emissão de moeda exagerada em relação à quanitidade de riqueza produzida?

    PS: “Riqueza” é diferente de “quantidade de moeda”. Se pensa o contrário, tenho umas notas de triliões de dólares do Zimbabwe para lhe dar em troca do seu apartamento 😉

  7. Paulo Pereira

    Pedor S,

    Pois é , as lendas Zimbabweinas mantêm-se por longos periodos de tempo, como grande parte das lendas.

    Hiperinflação é causada por destruição da capacidade produtiva de uma economia e por desvalorização exagerada da moeda aumentando muito os custos das importações , sem que exista uma redução dos gastos publicos.

    A compra de titulos pelo BCE não destroi nenhuma capacidade produtiva , nem provoca aumento de gastos publicos pelo que não pode causar hiper-inflação.

  8. Miguel Noronha

    Essa teoria é muito estranha. Quer dizer que se eu imprimir mais moeda para a mesma quantidade de bens produzidos não vai existir nenhum efeito ao nível dos preços nominais?

  9. Miguel Noronha

    É muito bom! Quer dizer que os governos podem despreocupadamente imprimir dinheiro para pagar as contas sem grande preocupações.

  10. Paulo Pereira

    Miguel Noronha,

    O FED e o BOJ compraram 15 % do PIB respectivo de titulos e isso não teve efeito duradouro na inflação (teve um efeito de curtissimo prazo por especulação em comodities que a seguir se dissipou).
    O aumento sustentado da inflação dá-se por um aumento sustentado da procura sobre bens reais.

    A expressão imprimir mais moeda não contém informação. O processo de compra de titulos pelo BCE é o seguinte :
    – BCE compra titulos a um investidor não banco , este recebe “dinheiro” (chamam-lhe reservas) e deposita numa conta bancária (ou o produto da venda é creditado pelo BCE directamente nessa conta do investidor) , a seguir normalmente vai investir em titulos com o mesmo perfil . Se for um banco é o mesmo.
    – no final do dia os bancos depositam no BCE o dinheiro (reservas) , que é o que está a acontecer, porque não pode ser de outra forma, é pura lógica e contabilidade, porque em agregado o dinheiro (base monetária = reservas + notas) só pode estar no BCE ou em Notas.

    Infelizmente só o Banco Central Suiço e o Banco de Inglaterra publicam artigos a explicar isto que é tão simples.

    A moeda-fiat permite aos estados gastarem sem preocupações monetárias, mas não os faz escapar à lei da procura e da oferta e aos deficits correntes que são os limites reais dos gastos publicos.

  11. Luís Lavoura

    Paulo Pereira, pode dar-me o linque de um desses artigos do Banco Central Suíço que põem a nu o funcionamento dos Bancos Centrais?

  12. Rui

    Quando um país sai do euro, a sua dívida manter-se-á em euros ou passará para a Nova Moeda.

    Isto é caso a G´récia saia do Euro e adopte um “Novo Dracma”a sua dívida passará a ser cotada nessa moeda ou mantém-se em euros?

  13. #16
    A dívida permanecerá na moeda dos países das suas entidades credoras.

    e como muita divida do Estado de Portugal está nãos mãos da Banca Portuguesa…logo…

  14. João Branco

    “A dívida permanecerá na moeda dos países das suas entidades credoras.” Possivelmente sim, mas não é garantido. Tenho a certeza que os governos e tribunais locais dos países devedores tentarão indicar que a lei da conversão da moeda se aplica a tudo. No final, haverá muitos recursos para instâncias internacionais, e nessas instâncias provavelmente acabará por ser esse o entendimento, se não for nenhum “grande” o devedor (por exemplo, se for a França ou mesmo a Itália duvido que o resultado sejam “favas contadas”).

  15. Zebedeu Flautista

    Se o Euro cair eu voto no calote. Começai a aprender o oficio de bate-chapas que os BMWs e Mercedes vão ter de durar muitos anos.

  16. Rui

    Parece-me que a divisa das dívidas existentes é crucial quanto a uma eventual saída do euro de qualquer país.
    Penso que se a dívida for convertida na nova divisa faz sentido sair do Euro, caso permaneça em Euros dificilmente irá compensar para um país sair do Euro pois com a desvalorização da sua nova divisa face ao Euro a dívida irá aumentar.

  17. Ricardo Arroja

    “Parece-me que a divisa das dívidas existentes é crucial quanto a uma eventual saída do euro de qualquer país.”

    É precisamente por essa razão que é mais fácil e menos oneroso que seja a Alemanha a tomar a iniciativa de abandonar o euro.

  18. economista

    Questão pertinente ? Por agora (enquanto formos vivos…) nem o euro acaba nem a Alemanha sai do euro …Por agora (e já há muito tempo…) apenas uma necessidade de uma unica soberania orçamental supranacional … É a unica ambição que a Merkel pretende para alem da sua reeleição …Mas que farão os politicos sem a sua querida liberdade orçamental para conquistar os estupidos votos que lhes garantam a manutenção do seu poder ? Pescadinha de rabo na boca ? Equilibrio sem votos (o melhor é uma ditadura ? “abre nuncio” ) ou estupidos votos com o descalabro a que assistimos …Desemprego e recessão económica e as suas tragicas consequencias são apenas meros acidentes de percurso !…Parece que isto já acontece desde 1340 com a Inglaterra . A Espanha já lá vai com 18 ! A França com 9 e Portugal com pelo menos 7! … Onde já está a Sabedoria do Povo ?
    Já lá vão oito seculos de loucura ecocómica !… E não há meio de aprendermos (economia)!…
    E depois de 34 anos , também não de democracia !
    Economia e Astrologia , vai dar tudo ao mesmo … Se Fernando Pessoa fosse vivo também já estaria a falar de Economia . Oculos habent et non videbunt …

  19. Paulo Pereira

    É perfeitamente possivel manter duas moedas em circulação , o que permite uma transição sem grandes sobressaltos.

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