Guerra e preconceito II

Cara Ana,

Não acredito que quem critique Israel seja anti-semita. Era o que faltava, uma entidade, uma organização ou entidade humana estar situada acima da crítica ou do humor. Não foi esse o meu objectivo. O que pretendi transmitir, é aliás bastante diferente:  muitos “discursos” e comentários da extrema-esquerda que criticam Israel assentam que nem uma luva nos mitos do anti-semitismo, moldados, manipulados a outras realidade e motivações.
São essas que acho perigosas e falaciosas porque roçam o anti-semitismo e o anti-sionismo mas em termos teóricos,  intelectuais, se quiser, não tenho argumentos que destruam essas  ideias que considero verdadeiramente más. Mas também, confesso que não estou aqui para “evangelizar” ou doutrinar ninguém. Uma coisa é certa, as leituras recomendadas nada têm a ver com a situação actual e do terreno, são o que são: leituras complementares que acho sensatas. E nos dias de hoje, não é nada mau…

Parece-me é claro como a água engarrafada que existe um interesse em demonizar o Estado de Israel. De preferência através de uma forma processual kafkiana: Se faz não deveria ter feito, se não faz é porque o deveria fazer.

O ideal seria a existência de uma Palestina livre, democrática, autónoma a
coexistir ao lado de um estado de Israel liberal. Na realidade,  a procura da salvaguarda  da segurança dos seus cidadãos é a principal preocupação de Israel. Perante os factos de terror diário a que se assistem por aquelas paragens, quem no seu perfeito juízo tem autoridade moral para demonizar o único estado democrático de toda aquela região? E por muito que custe, o Estado pelo menos como eu o conheço, é uma construção da guerra e a paz é um momento.

14 pensamentos sobre “Guerra e preconceito II

  1. tric

    ” Perante os factos de terror diário a que se assistem por aquelas paragens, quem no seu perfeito juízo tem autoridade moral para demonizar o único estado democrático de toda aquela região? ”

    é impressionante como se passam cheques em branco aos Judeus!!?? depois da no que dà, graves crises “financeiras”…

  2. “Não acredito que quem critique Israel seja anti-semita”

    Eu não seria tão assertivo RC.
    É verdade que a verbalização do antisemitismo “racial”, está hoje limitada aos meios neonazis, que suscitam pronto repúdio, e islâmicos que suscitam “compreensões” e “explicações”.
    Mas o antisemitismo de raiz económica com pontuadas na teoria da conspiração, mais conhecido por anti-sionismo é, pelo contrário, uma doutrina com larga aceitação nos meios de esquerda. Dizer-se que se criticam as políticas de Israel é, na maioria dos casos, uma forma politicamente correcta de dizer o indizível.

    “A detestação de Israel é a alavanca para a suspeita levantada sobre quem condena o antisemitismo. E, nesse sentimento de suspeita, a linha divisória entre “anti-sionismo” e antisemitismo esbate-se. Falando dos outros, revelam-se a si mesmos.” (Paulo Tunhas)

    E este antisemitismo tem profundas raízes na esquerda, do sec. XIX, que se indignava com o “feudalismo financeiro” atribuído a proeminentes homens de negócios de origem judaica .
    Karl Marx, ele próprio um judeu, dizia que “a sociedade burguesa engendra constantemente o judeu em suas próprias entranhas”.

    A mutação “anti-sionista”, de um bem sucedido virus milenar, infecta hoje por completo a “esquerda moderna”, que se sente perfeitamente livre para invocar o velho demónio do antisemitismo, agora convenientemente travestido de anti-sionismo, ou “apoio à causa palestiniana”.

    De resto só assim se compreende porque razão esta gente tem sempre no radar um país mais pequeno que o Alentejo, com uma população muito menor que a nossa, e faz de conta que nada mais existe no mundo, desde a Coreia do Norte ao Sudão, passando pelos Grandes Lagos, Zimbabwe, etc, onda a escala da miséria humana é arraasadora.

    Mas não…nunca os veremos a manifestar indignações contra “as políticas” do Sudão, etc.

  3. Eu até aceito que haverá muito “preconceito” na oposição de muita gente às politicas israelitas, mas creio que é mais um preconceito “anti-ocidental” do que anti-semita – se Israel fosse habitado por cristãos arianos, aposto que receberia as mesmas criticas (o mesmo mecanismo a funcionar há umas décadas atrás – havia 3 estados africanos governados pelos antigos colonos – África do Sul, Rodésia e Libéria – mas só havia protestos internacionais nos 2 casos em que os “descendentes de colonos” tinham uma aparência física ocidental).

    E como escrevi noutro sitio, a maior parte do pessoal que se manifesta contra Israel compra livros do Noam Chomsky e da Naomi Klein, e alguns se calhar até gostaram do “Nobel” ter ido para o Krugman, o que acho que refuta a tese do anti-semitismo.

  4. ruicarmo

    Caro Lidador,
    obrigado pelo seu contributo.

    Caro Miguel Madeira,
    agradeço também o seu comentário.
    Penso que seria óptimo se quem se manifestasse contra Israel, comprasse livros… 🙂

  5. O Miguel Madeira tem alguma razão, mas não toda.
    É verdade que se naquela zona existisse ainda um reino franco, ou qq derivado do “colonialismo ocidental”, muitos dos tontos que dão pinotes continuariam aos saltos.
    Mas Israel congrega esses e muitos outros.
    Trata-se de judeus, milenares bodes expiatórios de todos os males da humanidade. Esquerda, extrema-direita, islão e até franjas católicas encontram aqui um mafarrico comum.
    O problema é que a esquerda encontrou forma de embrulhar esta pulsão primária e visceral na santificação de uma “causa palestiniana”, e isso permite verbalizar todos os ódios sem os pruridos causados nas consciências pela traumática história das perseguições aos judeus. Ser-se antisemita dá má imprensa, ser-se “anti-sionista”, engole-se melhor e ser-se pela “causa palestiniana” é o cúmulo da sofisticação.
    Mas tratam-se apenas de camadas de uma matrioska. No centro está o velho ódio aos judeus.

    Amir Taheri, um iraniano fugido dos aiatolas escrevia não há muito tempo, que a “esquerda europeia encara os muçulmanos como os novos proletários do continente” e que a sua “ideologia se constrói hoje em torno de 3 temas; o ódio aos EUA, o ódio aos judeus, e a esperança de colapso do sistema económico mundial”

    Ou seja, uma parte do ódio a Israel por parte de alguma esquerda, tem também muito a ver com o desprezo que essa mesma esquerda demonstra para com a democracia “burguesa” e pela ligação que fazem ao capitalismo e aos americanos, outros demónios disponíveis e nesse aspecto o M Madeira acerta no alvo.

    Ao alvorecer do dia 29 de Abril de 1945, momentos antes de morrer no seu bunker de Berlim, com o exército vermelho a escassos metros , Hitler dizia:

    “Passarão os séculos, mas nas ruínas das nossas cidades e monumentos, renovar-se-á o ódio contra aqueles que são os verdadeiros responsáveis por isto: o judaísmo internacional!”(
    Adolf Hitler, My Political Testament)

    A profecia de Hitler estava quase certa. Apenas errou no prazo.
    Onde escreveu “séculos”, devia ter escrito “anos”.
    Porque o antisemitismo, às claras, disfarçado de “anti-sionismo” ou de “solidariedade com o povo palestiniano”, varre novamente a Europa.
    60 anos depois da profecia de Hitler, exige-se às claras a destruição de Israel, e pretensos “cientistas” afadigam-se em reescrever a história, negando-a, para abrir caminho à racionalização do ódio e do racismo.

  6. Caro Rui Carmo
    Obrigada pela sua amável resposta que só agora descobri. Li-a com a máxima atenção, assim como todos os comentários que surgiram em sequência…
    Agradeço igualmente a sua sugestão de leituras. Sim, tem toda a razão. É preciso informarmo-nos e não nos indignarmos sem tentar perceber as razões dos conflitos.
    Agradeço igualmente a atenção que colocou na distinção entre o preconceito anti-semita e a opinião de quem procura ver para além dessa dimensão.
    Talvez a minha indignação se prenda precisamente com o facto de me sentir próxima tanto de uns como de outros: cresci no conhecimento das nossas raízes culturais e civilizacionais (e já agora biológicas). Cultural e civilizacionalmente, somos muito mais próximos de judeus e árabes do que pensamos. Sim, talvez seja por isso mesmo que nos é insuportável a ideia da perseguição aos judeus (Inquisição e Holocausto). Mas que também nos é insuportável a ideia da utilização desse argumento para manter uma “lógica bélica”. E porque nos é insuportável imaginar uma população (não importa o número, uma única morte já é térrível!) encravada num terreno, sem viabilidade económica, sem futuro, a “viver da caridade ocidental”. E agora, atacada daquela maneira violenta. (Não estou a esquecer os ataques do Hamas, mas tudo me soou a pretexto…)
    É absolutamente verdade que me deveria indignar com o que se passa no Zimbawé! E outros locais de África onde a morte é diária. África e o terrível sofrimento que ultrapassa todos os limites… é absolutamente verdade. África e a corrupção generalizada. África e a fome. África e os refugiados.
    Agradecendo uma vez mais a sua amável resposta e a sua sugestão de leituras,
    Com os meus cumprimentos. Ana

  7. Já agora MM, tem a certeza que a Libéria era governada, nesse tempo por “antigos colonos”?
    É que, se a memória não me falha, o nome do país deriva da escravos americanos libertados e regressados ao continente e o nome da capital ( Monróvia), uma homenagem ao Presidente Monroe, que tornou isso possível. Isto já no sec XIX.
    Mas posso estar a ver mal….

  8. Pingback: Anti-semitismo ou anti-ocidentalismo? « O Insurgente

  9. “Já agora MM, tem a certeza que a Libéria era governada, nesse tempo por “antigos colonos”?”

    Como bem assinala o MM, não é pelo facto de serem negros que deixavam de ser colonos.

  10. “não é pelo facto de serem negros que deixavam de ser colonos.”

    POr essa lógica imbatível, não há um único país do mundo que não seja governado por colonos. A espécie humana ocupou os vazios do planeta…colonizando.
    Ó pecado original.

    De qq modo percebo a ideia do Madeira. E nem seria necessário ir à Libéria. Há uma data de ilhas caribenhas onde quem manda hoje são descendentes dos negros africanos. Ou nos zulus, que chegaram à Africa Austral depois dos boers.

    E se bem que reconheça validade na sua tese do anti-ocidentalismo, enraízada, penso eu, na “culpa do homem branco”, há uma especificidade de ódio ao judeu, no encarniçamento de esquerda contra Israel.
    Não é só Fannon…

  11. Pronto, vamos por de uma forma mais rigorosa:

    «havia 3 estados africanos governados em que a maioria autócne era governada por uma minoria de descendentes antigos colonos, estava na prática privada de direitos politicos e sujeita a discriminação – África do Sul, Rodésia e Libéria – mas só havia protestos internacionais nos 2 casos em que os “descendentes de colonos” tinham uma aparência física ocidental»

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