O Passado de Sócrates

A Semana Política

Nos últimos dias, o Público publicou duas reportagens acerca do passado de José Sócrates: a primeira acusando-o de ter assinado projectos realizados por um indivíduo cuja função profissional o impedia de, legalmente, realizar esses mesmos projectos (como explica o João Miranda, sendo responsável pela sua fiscalização, não poderia ser o responsável pela sua elaboração), o que a confirmar-se, faria do actual Primeiro-Ministro um cúmplice de um desvio à lei; a segunda, publicada ontem, acusa-o de, enquanto deputado, ter recebido indevidamente um subsídio. Como Pacheco Pereira escreve no Público, Sócrates enfrentaria bem menos problemas se assumisse os seus “pecadilhos”, pois “ninguém lhe pediria mais contas”. Talvez, o que não elimina a gravidade das suspeitas acerca do passado do Primeiro-Ministro, pois elas confirmam, aos olhos da opinião pública, as suspeitas que muitos têm acerca dos “políticos” e do seu comportamento: o Presidente de República pode achar que nada disto é relevante, mas a descredibilização do Primeiro-Ministro arrasta consigo a descredibilização da classe política em geral, e o silêncio e a indiferença presidencial contribuem para a degradação da situação. Mas o mais grave de tudo isto é mesmo a forma como Sócrates reage. A mínima dúvida que se levanta acerca do seu carácter e do seu percurso é logo classificada como “um ataque pessoal motivado pelo ressentimento e pela mesquinhez”. O Primeiro-Ministro acha que estas palavras fortes e o tom irado com que as profere o tiram da complicada situação em que se viu envolvido. Mas o problema é que o “ataque pessoal”, longe de ser um exemplo de um “jornalismo reprovável”, foi um trabalho feito como deve ser, que apresenta documentos, provas, e que levanta dúvidas que deveriam ser esclarecidas. Ao limitar-se a fazer um ataque, ele sim “pessoal”, “mesquinho” e “ressentido” ao Público (denegrindo o trabalho dos seus jornalistas sem responder às questões por eles levantadas), o Primeiro-Ministro deixa a suspeição no ar. Os desmentidos de Sócrates ao jornal, como se pode ler na edição de ontem, deixam muito por responder e entram (como já acontecera com o caso da sua “licenciatura”) em contradição com outras declarações e informações prestadas anteriormente. Como bem diz o Adolfo, ao desmentir de forma pouco satisfatória as acusações do Público, Sócrates faz com que o olhar inquisitório não se concentre apenas em eventuais ilegalidades cometidas no passado (já de si suficientemente graves), mas também (e essencialmente) na veracidade das declarações que hoje, como Primeiro-Ministro, faz aos portugueses. A coisa não vai acabar bem para ninguém.

13 pensamentos sobre “O Passado de Sócrates

  1. Nolung

    É óbvio que o Sócrates perdeu a última réstia de credibilidade que tinha (ainda teria alguma?). Mas a porcaria que se tem vindo a descobrir acerca dos malabarismos do governo PSD/PP (convenientemente esquecidos por este e outros blogues) não deixa grande escolha ao eleitorado num cenário pós-Sócrates. Nada que alguém minimamente educado não tenha percebido há muito…

  2. Manuel Ferreira

    Caríssimos
    É óbvio que os ataques a José Sócrates decorrem das mudanças que ele está a fazer e que afectam os interesses instalados. Os ataques vindos do JAC, do Públcio, também, têm explicação óbvia. Vindos da vossa parte que querem menos Estado é que não são compreensíveis, Quem nas últimas 3 décadas diminui o estado como o Sócrates está a fazer? Vá…Ora digam lá? Ninguém! Só se pode concluir uma coisa: com forte probabilidade a maioria dos autores deste blogue estão a ser pagos com o dinheiro dos nossos impostos ou dito de outra maneira são funcionários públicos ressabiados. Só pode!!!
    Sócrates está a aproximar oo direitos dos trabalhadores do sector privado aos do sector público. Não gostam?! Gosta a maioria do povo português, como eu! Sejam felizes!

  3. Há aqui uma ingenuidade no post que supõe que a credibilidade é uma coisa objectiva. Será apenas para uma minoria insignificante, para os restantes há uma sensação de credibilidade que deriva de factos complexos e pouco objectivos. Todos estes factos são insignificantes e antes de perder tempo ao analisá-los há que desvendar os mecanismos mentais que levam a esta triste situação. Sem isto todo o esforço é feito em vão.

  4. Caro Manuel Ferreira.
    Estas notícias sobre o passado de Sócrates podem certamente ter por trás as motivações que aponta, contudo uma coisa são as motivações do jornalista outra é a veracidade da notícia (ou a falta dela). Como escreve o Bruno (que não é funcionário público – garanto) tudo indica que é verdadeira.

    Mais um comentário. Ao contrário do que afirma o governo de Sócrates não reduziu o peso do Estado. O peso da despesa pública continua a aumentar. Assiste-se também à continuada intromissão dos poderes públicos sobre a esfera privada quer com a aprovação de legislação intrusiva que através de poderes e direitos “especiais” que os governantes se outorgam. Poderá dizer que os anteriores governos não fizeram melhor. Talvez, mas isso não é isso que torna este melhor.

  5. Constata-se um relativo silêncio sobre este assunto, apesar de tudo. De facto o mais grave não é o que aconteceu há 20 anos, mas a maneira como Sócrates reage hoje, negando as evidências e disparatando sobre as motivações de outros. Esse silêncio só se compreende por duas razões:
    1) o receio que há quanto às alternativas a Sócrates como Primeiro-Ministro (Menezes não seria ainda pior?);
    2) os prováveis “telhados de vidro” de outros.

  6. António Barreto aborda, no seu «Retrato da Semana», no «Público» de ontem, estas e muitas outras contradições – de Sócrates, mas não só. Essa crónica, tal como as anteriores, pode ser lida no blogue onde ele as publica, [aqui].
    .

  7. Manuel Ferreira

    Uma coisa ninguém ousa contestar, são os números de efectivos da Administração Centra:
    1999 – 568.548
    2005 – 578.407
    2006 – 463.615
    Despesas pesssoal em milhões de Euros % do PIB:
    2005- 21.541 – 14,5%
    2007- 20.744 – 12,20%
    Se isto não é diminuir o “peso do estado” que nome tem?
    E quem ousou redefinir as funções do Estado? Sócrates!
    Umas leituras de F. Hayek é o que vos recomendo…
    Com estima

  8. Manuel Ferreira

    Se fizerem um balanço sério ainda acabam a aplaudir a generalidade das medidas do Governo de Sócrates!

  9. A racionalização dos serviços do Estado é sempre de louvarmas no sei se no nº de funcionários que apresenta estão incluidos os institutos públicos.
    O critério mais utilizado para aferir da dimensão do Estado na Economia é o peso da despesa pública. Este não tem diminuido. Os OE apresentados por Sócrates prevêem sempre o crescimento da despesa bem acima da inflação.

  10. Manuel Ferreira

    Caro Miguel,

    Antes de Sócrates havia 93 Institututos úblicos hoje há 70. Os números indicados referem-se apenas à Administração Central. O peso da Despesa Pública em 5 do PIB diminui pela primeira vez,em 30 anos (dados de 2007).
    Até para criticarmos devemos estudar bem…
    Já agora, antes de Sócrates havia 5.984 lugares para dirigentes na AP, hoje há 4.516, diminuiram 1.468 o que corresponde a 24,5%. Existe muita boa gente a clamar contra o excessivo peso do estado e depois são os primeiros a refugiarem-se na sua manta e nos seus benefícios. Quantos autores deste blogue dependem do dinheiro dos nossos impostos?!
    Eu trabalho no sector privado, aplaudo as medidas de José Sócrates e se tivesse 10 votos, seriam todos para ele. Harmonizar a segurança social do Sector privado, com as reformas do sector público, é apenas umas das razões que me levam a votar desse modo. Outra é fazer avaliações (sérias) de desempenho na Administração Pública. Afinal somos todos accionistas da empresa que é o Estado. Eu sou, pelo menos….E todos os anos, sou forçado a reforçar os meus capitais.Temos o direito a exigir um bom desepenho,e uma gestão eficiente dos recursos.
    Com consideração pelo vosso Blogue, penso que andam a dar tiros nos próprios pés!
    Quem fez melhor do que José Sócrates para diminuir o peso do Estado?!

  11. “Antes de Sócrates havia 93 Institututos úblicos hoje há 70. Os números indicados referem-se apenas à Administração Central”

    Foram extinguidos vários IP’s certo. E o pessoal? Foi absorvido pelos outros IP’s? E as competências desses IP’s passaram para outras IP’s ou será que o Governo deixou de as exercer?

    “O peso da Despesa Pública em 5 do PIB diminui pela primeira vez,em 30 anos (dados de 2007).”

    Ainda não tenho dados para 2007. Presumo que se esteja a basear em dados provisórios.

    “Quantos autores deste blogue dependem do dinheiro dos nossos impostos?!”

    E como é que eu sei se realmente trabalha numa empresa privada? E mesmo que isso seja verdade qual é a percentagem da sua facturação que depende do Estado? E o que que estas considerações interessam para esta discussão?

    “Harmonizar a segurança social do Sector privado, com as reformas do sector público, é apenas umas das razões que me levam a votar desse modo.”

    Eu votava nele se me deixasse optar por um sistema à minha escolha em vez de me obrigar a descontar para este que está condenado á insolvência. Também não gosto que me mudem as regras a meio do jogo. Se um privado fizesse o mesmo arriscava-se a perder os clientes para não falar em eventuais indemnizações. Como é o Estado…

    “Eu trabalho no sector privado, aplaudo as medidas de José Sócrates e se tivesse 10 votos, seriam todos para ele.”

    Eu não.

  12. Jsilva

    Jsilva ou Manuel Ferreira são “pseudónimos” da mesma pessoa que não depende do estado e acredita que a sua diminuição é uma necessidade. De facto, a avaliar pelo que dizem, a tarefa de José Sócrates não é fácil. ” O estado deve, mas não pode, porque até os ditos liberais não deixam, reduzir a sua proliferação”, palavras adaptadas de A. de Jasay. Podemos não apoiar o Governo por razões ideológicas mas temos de reconhecer que é o PM que mais fez em ordem a diminuir o peso do Estado.
    Ao argumentarem da forma que o fazem, só pensam nos direitos e esquecem-se dos deveres. Von Mises deve revolver-se no túmulo..

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