Esperam-se as alternativas…

Vamos lá a ver: eu também não gosto de cortar nas minhas despesas.

Eu também gostava de ter rendimentos sem trabalhar. Eu também gostava de ter um trabalho em que quando fingia que trabalhava ganhasse o suficiente para uma vida descansada e sem preocupações. Eu não sou masoquista e certamente aprecio um suave “dolce far niente”, seja ele absoluto ou pelo menos relativo – i.e., finjo que faço e ganho como se fizesse.

Eu também gostava que o Estado tivesse dinheiro infinito vindo de Marte para me proporcionar a continuidade do “modelo social” que gerações anteriores “conquistaram”. Que fechando os olhos o problema desaparecesse. Que palavras doces resolvessem o problema actual e pudéssemos todos regressar aos abusos de 2006, 2007 e 2008. Que os “credores” não esperassem que lhes pagássemos de volta.

Eu também gostava de acreditar em todas as fantasias que por aí se dizem em todas as sedes partidárias. Eu também gostava de ignorar a economia, a história, a matemática e a lógica e acreditar na poesia e nos amanhãs que cantam. Eu também gostava de não ter qualquer pudor em mentir, qualquer moral para poder ser popular e qualquer inteligência para permitir ser feliz sem grandes preocupações.

Mas infelizmente sou realista e sei o que se está a passar. A “pool” de recursos físicos a diminuir, o crédito a aumentar, a pirâmide demográfica a inverter, a taxa de juro a evoluir n direcção contrária à necessária, … Sei demais para acreditar que esta “austeridade” seja passageira – sobre a necessidade de equilíbrio de contas, sobre as estratégias dos demagogos (ex: Galamba e a tentativa de sair do Euro para roubar as poupanças dos cidadãos para o estado via cunhagem), sobre a dificuldade de reversão da demografia, sobre como evoluíram no passado sociedades sobre-endividadas e crescentemente avessas aos conceitos de risco, lucro, brio e liberdade.

É assim com um sorriso triste que leio mais esta notícia: Sondagem mostra vontade de renegociar ou denunciar acordo com a troika. Tantos a querer acreditar que não é preciso esforço para sair da solução actual. Se a política do estado se alterasse – no sentido de mais despesa, sublinhe-se – tudo se resolveria. Faz-me lembrar esta imagem: o povo prefere uma mentira piedosa. E já agora a citação da tecnologia “fascismo” no Civ4.

Mostra porque chegamos ate aqui. E mostra que não há muito que se possa fazer. Ou nos adaptamos ou emigramos.
PS: Isto não quer dizer que eu concorde com tudo o que diz a Troika (por exemplo, não concordo com o aumento do imposto sobre os combustíveis). Mas caso não tenham reparado, se não houver o dinheiro deles, muita coisa teria de ser cortada de emergência. O que se calhar também não era mau de todo…

Sobre os tais cortes na Educação

Concordando com o Relatório do FMI no que toca à Educação, devo acrescentar que não admito que o Governo mexa nas propinas sem antes tratar dos professores, seja na quantidade, seja na remuneração A raison d’être do sistema de ensino é, em primeiro lugar, a formação, não o emprego dos formados.

O custo médio de um aluno nos ensinos básico e secundário, que ronda os 4415 euros, deve servir de base para uma reforma estrutural, que reduza custos, aumente a concorrência e, sobretudo, a autonomia e a competência das escolas. O mesmo vale para o ensino superior onde, a serem aumentadas as propinas, não poderão deixar de ser criados/reforçados mecanismos – envolvendo ou não a banca privada – que possibilitem a todos o acesso. Se é verdade que uma visão estritamente social condenou a geração presente, uma visão estritamente tecnocrata nesta área poderá vir a condenar a geração futura.

Mais Imprevisões

Já dizia o Niels Bohr que “É difícil fazer previsões, sobretudo sobre o futuro”. O que acho preocupante é que em intervalos de tempo tão curtos, as previsões estejam sistematicamente a ser ajustadas por várias entidades – Governo, Banco de Portugal, Troika, OCDE e União Europeia – sempre na pior direcção, o que leva a crer que ainda possam ser actualizadas brevemente para valores ainda piores.

Previsoes

Pessoalmente, já não atribuo credibilidade praticamente nenhuma tanto às previsões dos indicadores económicos como às metas do défice e da dívida pública. Aparentemente é sempre possível conceder mais tempo e adiar as reformas inadiáveis. O dinheiro para pagar as contas, esse pequeno pormenor, há de surgir por milagre – a constituição portuguesa é capaz de conter uma fórmula mágica algures por entre os seus 296 artigos.

Fontes: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 (a, b) e 11 (a, b).

Unlucky Number Seven

O press release conjunto da Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu (aka ‘A Troika‘) relativo à sétima avaliação do programa de ajustamento pode ser encontrado aqui e aqui. Aguardamos pelo relatório final.

A apresentação de hoje do Vítor Gaspar encontra-se aqui.

Leitura complementar:

Os números que não foram contados na manifestação de 2 de Março

No dia 2 de Março muitos milhares de Portugueses saíram à rua para manifestar-se. Entre 10.000 e 10.000.000 de pessoas foram manifestar-se, não a favor de medidas ou política concretas, mas sim contra o Estado do país. É fácil estar contra a situação em que vivemos. Pessoalmente também estou contra. Conheço poucas pessoas que não estejam contra.

Interessante seria saber quantos é que estarão de acordo se fossem colocados a votos medidas em concreto. Por exemplo, quantos, dos que estavam na manifestação seriam a favor de, de facto, mandarmos lixar a troika. De dizermos, queremos abandonar o programa, não contamos mais convosco. Nem com o vosso dinheiro nem com as vossas políticas. Nas últimas eleições apenas o PCP foi claro, como sempre foi, em relação ao Euro. Tiveram menos de 10% dos votos. Porque o mandar lixar a troika implica mandar lixar o Euro. Será que mais de 10% dos que se manifestaram no dia 2 votariam a favor de uma política coerente com o título da manifestação?

A verdade é que esta manifestação foi, como as anteriores, foi o único meio de expressão da frustração que a maioria sente. O único.

E se existissem outros grupos de activistas? E se a manifestação fosse com um título diferente? “Contra os aumentos de impostos!, Pela Liberdade! Exigimos uma reforma do Estado!. Quantos manifestantes seriam? Esse é o cálculo que gostava de estar a fazer um destes dias.

Quantos estiveram em Lisboa no 2 de Março?

O 2 de Março foi um aglomerado de pessoas muito diferentes mas, que no seu conjunto, defendiam ideias inconciliáveis. O  facto de que é este grupo que está nas ruas e não outros, é em si preocupante. Mas o mais difícil de aceitar em todo este enredo é a contagem das pessoas envolvidas.

João Pedro Pereira, jornalista do Público (!), lançou a dúvida: “Terreiro do Paço, onde não cabem 180 mil, ficou por encher“. Recomendo todo o artigo, mas sublinho que o João Pedro a meio escreve “Com uma multidão de densidade média – cerca de duas pessoas por metro quadrado –, o espaço fica cheio com 88 mil pessoas.” Mas este este artigo não vai ao ponto de dividir a praça em pequenas secções, estimar densidade e a dimensão de cada uma e, baseando-se em matemática “simples”, calcular uma estimativa fidedigna do número de pessoas na praça. E foi isso mesmo que o colega Economista da FEP Fausto Amaral fez e teve o cuidado de me enviar. Ficam aqui o texto e as imagens:

(clicar nas imagens para ver em tamanho original)

Como passei o Sábado em casa a ouvir a SIC Notícias, a RTP e a TVI, das 19:00 até às 23:00, ouvi por diversas vezes que havia quem considerasse que 1,5 milhões de portugueses estavam nas ruas a protestar contra a Troika. De recordar que isto representa 15% da população portuguesa, 27% da população activa, e 51% de todos os individuos que em 2011 tiveram o civismo de sair de casa e votar num dos partidos da esquerda Portuguesa.
É uma estimativa claramente exagerada, que parece criada simplesmente com o intuito de representar um número maior que a estimativa apresentada na anterior manifestação. E este é um problema dos últimos meses/anos, todos os organizadores de manifestações – sejam partidárias, apartidárias ou sindicais – sentem a necessidade de comunicar que tiveram um número cada vez maior de indivíduos a manifestarem-se.
Por sua vez, os jornalistas em vez de verificarem os dados que recebem, passam horas e horas a emitir as mesmas barbaridades e a tecer opiniões positivas sobre um tão elevado número de manifestantes – sem fazer uma simples análise primeiro!
Sectores

Através da recolha de imagens por satélite no serviço Google Maps, é possível dividir a praça do Comércio por sectores únicos.

Ao mesmo tempo, analisando as fotografias aéreas da multidão, e as fotografias retiradas desde o palco é possível chegar a valores mínimos e máximos para cada um dos sectores.

Foto do Palco 4 a 5 pessoas por m2

Não é uma ciência exacta, óbvio, mas conseguimos estimar com alguma proximidade os números de manifestantes que se deslocaram à Praça do Comércio por volta da hora do pico máximo (mas transmitida pela SIC cerca das 20h).

Tendo em conta as fotos retiradas desde o palco, podemos ver que as pessoas estão próximas, agrupadas com a família e/ou amigos existindo grande liberdade de movimentos, contudo é possível ver alguns pequenos espaços vazios entre os grupos.

ouro-3279

Tendo isto em conta não parece provável estarem mais de 6 pessoas por metro quadrado neste sector. Assim este é o nosso valor máximo de densidade para toda a Praça do Comércio, uma vez que não faz sentido as pessoas estarem agrupadas de forma mais compacta noutras zonas que não em frente ao palco.

A estimativa atingida é de sensivelmente 71.100 pessoas, tendo em conta um erro de 10% nos resultados não será erróneo afirmar que estavam presentes na Praça do Comércio entre 64.000 a 78.200 pessoas, visto de outra maneira 0,64% a 0,78% da população portuguesa, ou de outra forma ainda: um pouco mais que a capacidade do estádio da Luz; e menos que um excelente dia de Rock In Rio Lisboa.

Visão-Aerea-Com-SectoresPrevisoes 2 de MarçoComo não há ideias saídas da manif para debater, deixem nos comentários a vossa própria apreciação.
Eu estimo 50.000.

Lembrem-se que o Papa encheu a praça com 80.000 a 100.000.
Por comparação com os 800.000 da organização, recordo…

Infantilidades do 2 de Março

Reivindicações dos dias de hoje – Simultaneamente:

  • Menos impostos – São muito altos, matam a Economia e provocam desemprego.
  • Mais despesa – Há que manter o Estado Social. E o estímulo à Economia. E a cultura. E…
  • Não paguem aos usuários – Mas eles que continuem a financiar o Estado Português.
  • A mim não – Se há que fazer cortes, cortem noutro sector. No meu não dá jeito.
  • A festa é fixe pá – Não há uma alternativa clara e logo não haverá consequências políticas. Mas ao menos a malta juntou-se e esteve junta.

Já agora, ficam aqui o artigo do João Cortez sobre as “propostas” do PS.

A Troika é agiota?

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Ainda sobre o texto referido neste post, do Ricardo Reis no Dinheiro Vivo:

  1. Quem é que com as suas políticas levou à contratação de juros agiotas?
  2. E já agora… o que é um juro agiota? 3,2%?!?

Eu por mim até nem sei se me oponho a que não se paguem juros: corrigia-se já o problema e pronto. Ninguém nos emprestava e para o ano o Défice era 0 de imediato.

Só não sei é se os mesmos que agora pedem o não pagamento dos juros dos empréstimos iriam gostar de não receber o mês de Dezembro…