Headllines Isentos e Imparcias

A nossa comunicação social é muito boa a arranjar títulos. Em relação à venda da TAP – que me parece um excelente negócio dadas todas as condições, restrições e incertezas – foram estas as headlines que o jornal Público e o jornal Expresso acharam mais apropriadas para as suas páginas online.

Publico_Privatização_TAP

Expresso_Privatização_TAP

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“Conseguimos infligir um dano de 30 milhões de euros na companhia”

A juntar aos transtornos causados aos passageiros e aos prejuízos causados no sector do turismo, Hélder Santinhos, responsável do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC) ainda se vangloria com os efeitos da greve na TAP afirmando: “conseguimos infligir um dano de 30 milhões de euros na companhia e penso que isso não devia ser desvalorizado pelo Governo”.

Boa Sorte lá com isso, Hélder – vais longe!

Efeito de histerese na política

A plasticina, para além de flexível, mantém as suas propriedades na ausência das forças que a deformaram.
A plasticina, para além de flexível, mantém as suas propriedades na ausência das forças que a deformaram.

A histerese é um fenómeno físico frequentemente usado em economia como modelo teórico para estudar efeitos permanentes que tendem a perdurar mesmo na ausência do estímulo que inicialmente os causou. O princípio é simples, mas com importantes implicações: um sistema que tenha sido sujeito a um determinado tipo de choque pode manter as propriedades decorrentes desse choque, mesmo na ausência do estímulo que as gerou. Uma ilustração teórica: reunindo-se condições de pressão e temperatura suficientes para transformar carbono simples em diamante, as moléculas assumirão de forma definitiva esta nova forma, mesmo que a pressão e temperatura voltem ao normal.

Em economia, este fenómeno é usado para, por exemplo, descrever efeitos permanentes do desemprego no mercado de trabalho. Tanto quanto julgo saber, este fenómeno ainda não foi condignamente estudado em ciência política, pese embora as evidências que se amontoam e que sugerem que poderá existir um efeito análogo. A título de exemplo, a reinvindicação do sindicato dos pilotos da TAP. Segundo os próprios, estes reclamam a aplicação de uma cláusula de salvaguarda prometida por António Guterres, em 1999, e que lhes garantia 20% da empresa em caso de privatização. Ignorando as questões de justiça social de tal promessa, ou a clara falta dela, a lição latente é que a acção de um determinado político pode ter efeitos permanentes, e com severas consequências no futuro, ainda que esse político já não tenha qualquer poder executivo ou legislativo, como é o caso. E levanta outra questão: até que ponto poderão os políticos ter o poder discricionário para prometer coisas como esta? Seja como for, e 16 anos depois, sentimos bem as consequências de péssimas decisões políticas.

Com A TAP Privatizada, Quem Prestará O Serviço Público?

Já há “low cost” para os Açores com a farpa a ficar para a TAP

“Ainda antes de haver privatização da TAP, está já a TAP a faltar às obrigações que lhe foram definidas pelo seu accionista”. Directo à ferida, Vasco Cordeiro não poupou nas palavras no dia em que se celebrava o primeiro voo liberalizado para o arquipélago, neste domingo, 29 de Março.

Se houvesse dúvidas, o presidente do Governo regional açoriano concretizou: “seria desleal para com a minha consciência se não desse conta pública de um lamento e de uma incompreensão da minha parte: o facto de a TAP ter abandonado as rotas do Faial e do Pico” – situação que deixa a transportadora nacional nas mesmas circunstâncias das companhias “low cost”.

Vasco Cordeiro acusou a TAP de “ainda como empresa pública, faltar a um compromisso e a uma orientação que o Conselho de Ministros de 15 de Janeiro lhe havia dado”, definindo obrigações nas rotas de serviço público para os Açores.

Mais um bode expiatório

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Se há arte em que o português é exímio, é a arte de culpar o outro. O aumento dos juros da dívida soberana? Culpa dos especuladores. A austeridade? Culpa da Merkel. A mulher espancada? Culpa do Benfica que perdeu o jogo. O ataque terrorista? Culpa da austeridade, da Merkel e da liberdade de expressão, e provavelmente ainda sobrará espaço para culpar os especuladores, através de um intrincado raciocínio ao nível da Ana Gomes.

A atentar pelos comentadores profissionais que à 3ª comentam a bola mas à 4ª são especialistas em tudo, a nova senda na arte de expiar culpas é o brasileiro. A PT? Culpa dos brasileiros. A TAP? Culpa dos brasileiros. Alguém em Portugal decidiu comprar 1/4 de uma empresa da segunda liga das telecomunicações brasileiras pelo seu então valor de mercado? Culpa dos brasileiros. Alguém em Portugal aceita uma fusão, que, em boa verdade, foi uma absorção da PT pela congénere brasileira? Já sabemos de quem é a culpa. Alguém em Espanha decide comprar a Vivo por um valor exorbitante, inundando a PT de capital que foi posteriormente muito mal aplicado? Esta era para enganar. Culpa dos espanhóis, certamente. Se ao menos não tivessem comprado a Vivo. Alguém em Portugal decidiu comprar uma empresa de manutenção terrestre no Brasil que estava à beira da falência e com uma alavancagem de quase 5x o valor da empresa? Culpa dos brasileiros.

Esta falta de reflexividade e de auto-crítica é característica de quem não tem a humildade para assumir os seus erros e responsabilizar-se por isso. Porque, esse sim, é um exercício custoso, só ao alcance dos mais dignos.

Importa-se de Repetir?

Pires de Lima, na sequência do acordo conseguido com os sindicatos que impede despedimentos colectivos durante 30 meses, afirmou que “depois deste acordo a TAP vale mais e provavelmente terá mais interessados a fazer propostas vinculativas” e também que “a TAP saiu muito mais forte depois deste acordo“.

Segundo a lógica do Ministro da Economia – que pelas suas recentes declarações custa a crer que algum dia tenha sido gestor – para uma empresa aumentar a sua valorização e o seu potencial basta anunciar que não vai fazer despedimentos durante vários anos (independentemente das condições de mercado ou em das necessidades de ajustes laborais). Já agora, porque não proibir despedimentos na TAP durante 10 anos? Pela mesma lógica, a TAP ainda valeria mais e teria ainda mais compradores interessados.

Leitura complementar: Existirá Comprador Para a TAP?

Existirá Comprador Para a TAP?

logo_tap_ptO governo parece conseguir sempre encontrar mais formas de reduzir o valor da TAP (uma empresa tecnicamente falida e com grande necessidades de injecção de capital) e de reduzir o interesse dos investidores privados. De acordo com o jornal Público, o governo parece ter agora acordado com nove dos seus sindicatos que não poderão haver despedimentos enquanto o estado for accionista; que os trabalhadores terão assento num orgão que decidirá sobre decisões de impacto relevante na vida e futuro da companhia; que haverá limites ao outsourcing; e mais uma série de outras condições. O incumprimento destas regras dará lugar à anulação do contrato de venda sem qualquer indemnização.

A juntar a tudo isto, existe ainda a incerteza associada com as eleições legislativas que decorrerão este ano, com o PS a afirmar várias vezes que é contra o controlo da TAP inteiramente por privados.

Cada vez mais partilho da opinião do André Azevedo Alves, em que o Governo faria bem em ponderar a falência da TAP.