Efeito de histerese na política

A plasticina, para além de flexível, mantém as suas propriedades na ausência das forças que a deformaram.
A plasticina, para além de flexível, mantém as suas propriedades na ausência das forças que a deformaram.

A histerese é um fenómeno físico frequentemente usado em economia como modelo teórico para estudar efeitos permanentes que tendem a perdurar mesmo na ausência do estímulo que inicialmente os causou. O princípio é simples, mas com importantes implicações: um sistema que tenha sido sujeito a um determinado tipo de choque pode manter as propriedades decorrentes desse choque, mesmo na ausência do estímulo que as gerou. Uma ilustração teórica: reunindo-se condições de pressão e temperatura suficientes para transformar carbono simples em diamante, as moléculas assumirão de forma definitiva esta nova forma, mesmo que a pressão e temperatura voltem ao normal.

Em economia, este fenómeno é usado para, por exemplo, descrever efeitos permanentes do desemprego no mercado de trabalho. Tanto quanto julgo saber, este fenómeno ainda não foi condignamente estudado em ciência política, pese embora as evidências que se amontoam e que sugerem que poderá existir um efeito análogo. A título de exemplo, a reinvindicação do sindicato dos pilotos da TAP. Segundo os próprios, estes reclamam a aplicação de uma cláusula de salvaguarda prometida por António Guterres, em 1999, e que lhes garantia 20% da empresa em caso de privatização. Ignorando as questões de justiça social de tal promessa, ou a clara falta dela, a lição latente é que a acção de um determinado político pode ter efeitos permanentes, e com severas consequências no futuro, ainda que esse político já não tenha qualquer poder executivo ou legislativo, como é o caso. E levanta outra questão: até que ponto poderão os políticos ter o poder discricionário para prometer coisas como esta? Seja como for, e 16 anos depois, sentimos bem as consequências de péssimas decisões políticas.

Com A TAP Privatizada, Quem Prestará O Serviço Público?

Já há “low cost” para os Açores com a farpa a ficar para a TAP

“Ainda antes de haver privatização da TAP, está já a TAP a faltar às obrigações que lhe foram definidas pelo seu accionista”. Directo à ferida, Vasco Cordeiro não poupou nas palavras no dia em que se celebrava o primeiro voo liberalizado para o arquipélago, neste domingo, 29 de Março.

Se houvesse dúvidas, o presidente do Governo regional açoriano concretizou: “seria desleal para com a minha consciência se não desse conta pública de um lamento e de uma incompreensão da minha parte: o facto de a TAP ter abandonado as rotas do Faial e do Pico” – situação que deixa a transportadora nacional nas mesmas circunstâncias das companhias “low cost”.

Vasco Cordeiro acusou a TAP de “ainda como empresa pública, faltar a um compromisso e a uma orientação que o Conselho de Ministros de 15 de Janeiro lhe havia dado”, definindo obrigações nas rotas de serviço público para os Açores.

Mais um bode expiatório

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Se há arte em que o português é exímio, é a arte de culpar o outro. O aumento dos juros da dívida soberana? Culpa dos especuladores. A austeridade? Culpa da Merkel. A mulher espancada? Culpa do Benfica que perdeu o jogo. O ataque terrorista? Culpa da austeridade, da Merkel e da liberdade de expressão, e provavelmente ainda sobrará espaço para culpar os especuladores, através de um intrincado raciocínio ao nível da Ana Gomes.

A atentar pelos comentadores profissionais que à 3ª comentam a bola mas à 4ª são especialistas em tudo, a nova senda na arte de expiar culpas é o brasileiro. A PT? Culpa dos brasileiros. A TAP? Culpa dos brasileiros. Alguém em Portugal decidiu comprar 1/4 de uma empresa da segunda liga das telecomunicações brasileiras pelo seu então valor de mercado? Culpa dos brasileiros. Alguém em Portugal aceita uma fusão, que, em boa verdade, foi uma absorção da PT pela congénere brasileira? Já sabemos de quem é a culpa. Alguém em Espanha decide comprar a Vivo por um valor exorbitante, inundando a PT de capital que foi posteriormente muito mal aplicado? Esta era para enganar. Culpa dos espanhóis, certamente. Se ao menos não tivessem comprado a Vivo. Alguém em Portugal decidiu comprar uma empresa de manutenção terrestre no Brasil que estava à beira da falência e com uma alavancagem de quase 5x o valor da empresa? Culpa dos brasileiros.

Esta falta de reflexividade e de auto-crítica é característica de quem não tem a humildade para assumir os seus erros e responsabilizar-se por isso. Porque, esse sim, é um exercício custoso, só ao alcance dos mais dignos.

Importa-se de Repetir?

Pires de Lima, na sequência do acordo conseguido com os sindicatos que impede despedimentos colectivos durante 30 meses, afirmou que “depois deste acordo a TAP vale mais e provavelmente terá mais interessados a fazer propostas vinculativas” e também que “a TAP saiu muito mais forte depois deste acordo“.

Segundo a lógica do Ministro da Economia – que pelas suas recentes declarações custa a crer que algum dia tenha sido gestor – para uma empresa aumentar a sua valorização e o seu potencial basta anunciar que não vai fazer despedimentos durante vários anos (independentemente das condições de mercado ou em das necessidades de ajustes laborais). Já agora, porque não proibir despedimentos na TAP durante 10 anos? Pela mesma lógica, a TAP ainda valeria mais e teria ainda mais compradores interessados.

Leitura complementar: Existirá Comprador Para a TAP?

Existirá Comprador Para a TAP?

logo_tap_ptO governo parece conseguir sempre encontrar mais formas de reduzir o valor da TAP (uma empresa tecnicamente falida e com grande necessidades de injecção de capital) e de reduzir o interesse dos investidores privados. De acordo com o jornal Público, o governo parece ter agora acordado com nove dos seus sindicatos que não poderão haver despedimentos enquanto o estado for accionista; que os trabalhadores terão assento num orgão que decidirá sobre decisões de impacto relevante na vida e futuro da companhia; que haverá limites ao outsourcing; e mais uma série de outras condições. O incumprimento destas regras dará lugar à anulação do contrato de venda sem qualquer indemnização.

A juntar a tudo isto, existe ainda a incerteza associada com as eleições legislativas que decorrerão este ano, com o PS a afirmar várias vezes que é contra o controlo da TAP inteiramente por privados.

Cada vez mais partilho da opinião do André Azevedo Alves, em que o Governo faria bem em ponderar a falência da TAP.

Dez razões para privatizar a TAP

José M B Roquette no Diário Económico

Há males que vêm por bem. A greve veio obrigar a pensar além da polémica e, ironicamente, talvez seja a prova suficiente da necessidade de privatização. Por outro lado, também evidenciou as visões do Estado que têm os partidos da governação. Cabe-nos perceber se queremos um País com mais Estado e tudo o que isso implica de rigidez da economia, carga fiscal e sobretudo mais margem de manobra [para] os políticos e menos para o sector privado

Interesse púbico e provisão privada

Luís Aguiar-Conraria (A Destreza das Dúvidas)

Não é de todo obrigatório que o interesse público e os sectores vitais da economia nacional tenham de estar entregues a empresas públicas. Por exemplo, a alimentação é absolutamente vital e penso que não passa pela cabeça de ninguém nacionalizar todas as empresas alimentares em Portugal. Diria até que o argumento funciona ao contrário: a alimentação é um sector tão essencial que não podemos correr o risco de o entregar à gestão de mandatários de governos

Manifesto pela TAP

Este accionista gostava de voar para fora da TAP.
Este accionista gostava de voar para fora da TAP.

Caros subscritores do manifesto pela não privatização da TAP, nomeadamente António Pedro Vasconcelos, Adriano Moreira, António Arnaut, António Sampaio da Nóvoa, Dom Januário Torgal Ferreira, Francisco Louçã, Mário Soares, Lídia Jorge, Siza Vieira, Sérgio Godinho, e tantos outros que gostam de brincar às empresas com o dinheiro dos outros,

Agora que se juntaram, façam um fundo de investimento e entrem na corrida pela compra da empresa. É win-win para toda a gente: a TAP continuará a ser vossa, um sentimento de posse que vos tem preocupado muito; e nós deixaremos de ser vossos sócios, algo que apraz a qualquer mente lúcida. Muito obrigado.

TAP, uma história exemplar

Excerto do artigo de Paulo Ferreira no Diário Económico

Recordo uma conversa com década e meia. Estávamos no final dos anos 90 e acompa-nhei o Sérgio Figueiredo, então director do Diário Económico, a um almoço de trabalho com o presidente da TAP, Manuel Ferreira Lima.

Com o jornal em fase de afirmação e crescimento levávamos uma proposta: oferecer o jornal do dia aos passageiros da classe executiva da TAP. Não estávamos a inventar nada porque o Financial Times já o fazia com a Air France. Quando os passageiros da classe executiva entravam no aparelho já encontravam no respectivo assento uma cópia do jornal do dia com um pequeno autoco-lante que dizia “Cortesia da Air France”. Para esta era mais um “mimo” feito aos clientes. Para o FT era uma forma de aumentar a circulação e influência junto de um segmento importante.

Ferreira Lima ouviu, gostou da ideia mas, lamentou, não podia aceitar. Explicou porquê. Colocar um jornal em cada um dos assentos da classe executiva – serão 15 ou 20 por avião? – antes da entrada dos passageiros seria uma rotina nova para o pessoal de cabine, não prevista na lista de tarefas que constava dos acordos da empresa. Para que os trabalhadores passassem a desempenhá-la a administração teria de abrir negociações laborais e atrás desse outros temas seriam colocados em cima da mesa pelos sindicatos, como contrapartida. Era abrir uma caixa de Pandora numa empresa que vivia em permanente convulsão laboral. Uma insignificância que não ocuparia mais de um minuto a um elemento da tripulação era, por isso, impraticável.