As relações entre gerações

Hoje no Expresso online:

Mas esse não é o único campo em que a propalada solidariedade intergeracional está desequilibrada e a precisar dum debate aberto. Os encargos com dívida do estado que crianças que ainda nem nasceram vão ter de suportar ao longo da sua vida são verdadeiramente obscenos e deveriam envergonhar qualquer político que hoje namore aumentos de despesa ou reduções de receita para fins imediatos de satisfação de certos lóbis e necessidades eleitorais. E é pena que aparentemente não tenhamos aprendido nada com os anos da troika.

É ir, ler e voltar. Oh, e olá outra vez!

Vou tentar ser positivo…

Como estamos no Natal, uma época de esperança e felicidade, ao olhar para 2014 vejo algumas luzes no horizonte. A saber:

  1. Indicadores avançados – como por exemplo o PSI-20, que subiu desde 3 de Julho de 5200 para 6600 – parecem indicar que, se a economia não vai crescer, pelo menos estancou a queda que tem grosso modo experimentado nos últimos 5 anos. Se bem que não acredite num cenário Irlandês, pelo menos Portugal destaca-se claramente do cenário Grego. Não estou aqui a defender o governo, note-se. Para mim o governo é um agente entre muitos e, tal como não é responsável por tudo o que de mau acontece, também não é responsável por tudo o que de bom acontece. No caso concreto, sublinhe-se o papel primordial das exportações e o papel essencial de algum empresariado Português (o da economia transaccionáveis) no processo.
  2. Quanto à crise demográfica, esta parece estar para durar. Mas pelo menos há hoje uma melhor percepção por parte da população (e, pasme-se, até por parte de alguns jornalistas!) de que a Segurança Social é “pay-as-you-go” e não “fully-funded”. Nos mais jovens, há uma revolta crescente por “estar a pagar por algo que já se sabe que não vou receber” e “contra o qual nada se pode fazer”. Mas a questão é que quantos mais assim pensarem, mais se poderá fazer a longo prazo. E para quem há tanto tempo alerta para esta situação, o facto de ela ser hoje cada vez mais “common knowledge” só pode ser apreciada.
  3. Em termos sociais, a crise provocou um aumento brutal de necessidades, mas eu vejo cada vez mais exemplos de privados a chegarem-se à frente e a substituírem o estado num papel que ele deixa cada vez mais desocupado (enquanto tenta protelar o mais possível o despedimento de pessoas de “horário zero” em diversos sectores, da educação à construção naval (!)). A sociedade civil ajuda voluntariamente, por iniciativa própria e com iniciativas de impacto directo e sem grande burocracia envolvida. A álguem que como eu acredita que o apoio aos mais desfavorecidos é um dever cristão e nunca deveria ser uma imposição sobre pena de prisão, inúmeros casos que vi estes dias nas notícias deixam-me esperançoso de um futuro melhor numa sociedade mais inclusa e menos dependente (nem que seja um diferença residual) do estado que há uns anos pensava que a todos podia chegar.

Acho que 2014 só pode ser melhor que 2013. Podem aproveitar a caixa de comentários para dizer as vossas expectativas para 2014 e até exemplos de solidariedade que viram nestes dias e que achem interessantes aqui partilhar, até para estimular outros a participar.

É Fácil Ser Solidário Com o Dinheiro dos Outros

Depois dos trabalhadores da RTP e da Lusa terem afirmado a sua solidariedade com os trabalhadores da ERT – a televisão pública grega, afirmando que “somos todos gregos”; surge agora uma carta subscrita por 63 “personalidades” portuguesas entre as quais se encontram Jorge Sampaio, Francisco Louçã e Manuel Alegre, como forma de repúdio contra o “apagão” da ERT.

A toda esta gente “solidária”, o meu conselho é que não enviem palavras, mas que enviem euros;  e que em vez de cartas enviem cheques. É fácil ser solidário quando o que está em causa é o dinheiro dos outros, neste caso dos gregos.

A Solidariedade

Regra geral, quem defende mais “solidariedade” é quem dela mais beneficia, ou seja os mais “pobres” – sejam pessoas, regiões ou países. “Solidariedade” neste contexto pode ser definida como “a transferência coerciva de riqueza legitimamente adquirida” de uns indivíduos para outros. Quem defende mais solidariedade, na realidade está a defender que se imponha que “os outros” sejam mais solidários. Isto porque quem quer ser verdadeiramente solidário não precisa de defender ou impor que os outros o sejam – basta praticar a solidariedade de forma livre quando e como bem entender.

Quando no contexto europeu se fala em mutualização da dívida, mutualização de prestações sociais, e mais solidariedade – para que fique bem claro – está-se a falar na transferência de riqueza de uns países para outros, ou mais concretamente, da riqueza produzida pelos cidadãos de alguns países para cidadãos de outros países receptores.

Para quem acha que será pacífica esta “solidariedade” a nível Europeu – entre países independentes entre si e culturalmente bastante diferentes – será interessante analisar esta notícia sobre o Brasil:  Brazil’s oil revenue-sharing law goes into effect; producing states file appeal to high court. Essencialmente, foi passada uma lei que distribui as receitas da produção de petróleo de forma mais repartida entre todos os estados Brasileiros – produtores e não produtores. Logo de imediato, os três maiores estados produtores de petróleo – Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo – apelaram ao supremo tribunal alegando que esta lei é inconstitucional.

Se o problema fosse esse…

Monti sugere que, mais do que financiamento, o sul da Europa precisa de solidariedade: “Se a Alemanha e outros países estão interessados em que a atual política em Itália tenha futuro, [devem dar] apoio moral, não financeiro”, disse o estadista italiano, segundo traduções da entrevista feitas pelas agências EFE e Bloomberg.

Julgo que a “solidariedde não monetária” nunca foi problemática na UE. Aliás as tensões entre os países-membros só se tornaram notórias quando os falidos países do Sul se lembraram de exigir um aumento incodicíonal da “mesada” aos países do Norte. Na UE as declarações de amor eterno nunca foram problema e sempre foram tãp abundantes como inconsequêntes.