CDS – Uma Reflexão Pré-Congresso

img_817x4602016_06_13_15_50_22_287628

O CDS padece, desde a sua génese, de uma lamentável disposição a ser bengala. Esta disposição, originada, a meu ver, por um medo de parar, permite-lhe ir andando, mas também o impede de correr. Nas ocasiões, poucas, em que o CDS resolveu tentar aspirar a marcar a sua posição no espectro político, ora obteve votações expressivas da parte do povo português – ver este artigo de Richard A. H. Robinson -, ora foi esmagado por circunstâncias da época, como o foi o choque de Lucas Pires e do Grupo de Ofir – ver artigo do Adolfo MN – com a ascensão do Cavaquismo. Faz falta pensar, sobretudo pensar. Os tecnocratas que nos apoquentam, os que nos bombardeiam diariamente com chavões como challenge e leadership e branding, não entenderam, ou não quiseram entender, o poder da marca na política: e essa marca é a ideologia, firme, segura de si.

Ao ambicionar diminuir-se ideologicamente, para com isso assaltar o eleitorado ao centro, o CDS consolida a desconfiança já tremida daquela que é a sua base: a direita. E porque um mal nunca vem só, enxota de vez os desapontados, aqueles que nos mais de 40% de abstenção não se reconhecem neste sistema putrefacto do arco da governação. Hipoteca o futuro por umas migalhas no presente, apesar de ser, mais tarde do que imaginam os arautos da serenidade do bom povo português, Pinheiros de Azevedo desta vida que tomam por fumaça o êxodo dos jovens da política, candidato a como os outros perecer na poeira do tempo, olhado daqui a uns anos como relíquia de uma época menos afortunada.

Continue a ler “CDS – Uma Reflexão Pré-Congresso”

António Costa: Uma Análise Comparativa

antonioSão inúmeras as comparações que se vêm fazendo acerca da ascensão de António Costa, porque o povo é criativo e a ternura da arte e das letras tem-se feito bom desafogo para os males da vida. E certamente dói na existência assistir a tal figura ocupando o ofício chave da nação, na bonita ironia de ver o bobo da corte fantasiar o ministério numa corte de bobos.

Haverá quem o compare a um pirómano que, qual Nero, lançará o país nas chamas, dispenso provavelmente a harpa, pois não se lhe conhecem talentos nem dotes culturais e convenhamos que música ao povo já ele deu em demasiada. Mais ainda que esta comparação é injusta, pois o mundo é um lugar taciturno para os sonhadores e rapidamente – como com Tsipras – se faria à força do pirómano bombeiro. Bruxelas, qual pai severo e rigoroso, a bem do filho prontamente o colocaria na ordem, que o estudo é muito bonito e forma os homens para vida, que aquelas saídas ao Sábado são para acabar e que aquela moça que teima em frequentar a casa que nem uma arrendatária por caridade olha muito de esguelha e, já diziam os antigos, quem olha de esguelha não é de fiar.

Há também quem compare o ofício do ministério, com Costa, ao de uma mulher de má vida, pelo que terei, mais uma vez, que rebater o argumento, não por salvaguarda do próprio, mas por respeito a uma profissão que – salvo a condenação eterna por encomenda de algumas almas mais beatas – guarda mais respeito que o mesmo. E mais inadequada se põe esta analogia do ministério como bordel, quando temos em conta que é a raison d’etre deste deixar satisfação nos seus fregueses, que entram de calças na mão, satisfeitos à saída. Já o bordel do ministério de esquerda, como o quereis pintar, seria o imediato oposto, com o povo – ou parte dele – podendo até entrar satisfeito, mas saindo por certo com as calças na mão – sobrando em comum apenas os bolsos vazios.

Continue a ler “António Costa: Uma Análise Comparativa”

O PSD – ou o CDS – é o “Partido dos Ricos” ?

alfaiateÉ praticamente impossível cruzar o Facebook de uma ponta a outra sem nos depararmos com lamentos perante este resultado eleitoral e pela afluência às urnas dos ricos e da classe média alta que elegeu os “bandidos”. Ora este tipo de discurso ainda parte daquela velha visão aparvalhada de quem imagina uma sociedade que vota nos partidos segundo o nível de rendimento, com o maior dos capitalistas a votar no CDS, num extremo e a plebe a votar no BE e no PCP, no outro.

Esta teoria teria desde logo como consequência mostrar ao país os magníficos índices de desenvolvimento social dos distritos a norte, como Braga, Bragança ou Vila Real, onde aparentemente a percentagem de pobres é bastante diminuta e a de ricos, em alguns conselhos, é avassaladora. Concelhos como Ponte de Lima, Valpaços ou Boticas deviam ser estudados a par de Hong Kong em matéria de desenvolvimento económico tal é, no ideal esquerdóide, a concentração de capital nestas áreas. Aos eleitores do BE só poderíamos apontar aquela grande fatia, na sua maior parte gente de classe média para cima, muito letrada e urbanizada, como possíveis sabotadores infiltrados.

É portanto um exercício de demagogia aparvalhada lançar a ideia de que no PSD e no CDS votam os ricos e que quem tráz a carteira mais leve vota à esquerda. Até porque quem se debruçar sobre os programas dos partidos à esquerda da coligação observará uma série de propostas para obras públicas, reforço da função pública, subsídios às artes e regulações económicas que pretender redistribuir o dinheiro de quem está na penúria – juntamente com uma série de privilégios – por secções da sociedade bem mais abastadas.

O real problema é que a alta burguesia que comanda a esquerda em Portugal nunca engoliu bem o facto de que o zé povinho não tenha absorvido a doce melodia dos amanhãs que cantam e teime em preterir os seus fiéis defensores a troco dos servos do grande capital. A este povo sereno falta-lhe valores revolucionários. Esses senhores que vêm o mundo dos seus gabinetes nas universidades, dos seus palcos culturais , entre outros nobres poleiros, não conseguem descodificar o que vai na cabeça da plebe. E entende-se o porquê: eles nunca o foram. Não é portanto estranho que à esquerda caviar irrite que essa gentalha de pé rapado, incapaz de interpretar um parágrafo de Marx , que enche concertos do Tony Carreira e vira costas à magnificência do cinema lusitano, vote de acordo com a sua vasta ignorância. É o socialismo snob pseudo-intelectual da capital que ainda há uns tempos lançou uma Jihad a um puto de 16 anos que fez pela vida, que troça da escolha de roupa de Passos Coelho e que já veio aqui defender que o povo era parvo porque via muitos American Pies. São estes os Revolucionários de ténis Lacoste.Como escrevi há uns tempos no Mises, estamos condenados a aturar o “maoista de rolex. Gente que afronta diariamente o modo de vida do mundo ocidental, com os seus supostos vícios, luxos e as suas injustiças, mas não dispensa um bom sapato de boutique italiana ou um voo de primeira classe para um show no Olympia em Paris.”

Felizmente para si, o povo terá sempre nestas figuras de alto garabito no mundo intelectual um guia para compreender o que é melhor para si, não vá pelo meio alguém descobrir que um foram um conservador autocrático alemão e um liberal inglês – um conde e um barão, respectivamente –  quem construiu as bases do Estado Social. Reza a lenda que se o país pacato que (sobre)vive na crise viesse a saber como vivem e falam as altas cúpulas do PSD/CDS – e arrisco dizer do arco da governação – a esquerda radical teria uma votação avassaladora. A mim parece-me mais correcto admitir que, descobrisse o país como se vive e fala nas cortes da esquerda caviar esta estaria há muito a debater-se com a extinção. Esses sim são pobres. De espírito.

Um Socialista A Falar Sobre Os Socialistas

portasO líder do CDS-PP, Paulo Portas, afirmou em Espanha no congresso do PP espanhol que “os socialistas são muito bons a gastar o dinheiro dos outros“, mas recorrem aos partidos do centro-direita quando o dinheiro acaba.

Isto, como se os partidos do centro-direita não fossem socialistas… Alguns exemplos muito rápidos:

Portas quer menos 2.000 funcionários públicos, Seguro quer menos 4.000

Carlos Guimarães Pinto, no seu blog pessoal Montanha de Sísifo:

portasseguroPaulo Portas irá negociar com a troika o aumento do défice de 2014 de 4,0% para 4,5%Seguro quer mais. Antes de congratular Paulo Portas pelos 0,5% adicionais de défice acordados com a Troika, ou de aplaudir Seguro quando ele vier pedir 1%, convém perceber quais os custos deste feito.

Cálculos por alto: os 0,5% de défice correspondem a 1.000 milhões de Euros. Ao custo de mercado da dívida pública portuguesa, isto serão cerca de 70 milhões em juros por ano. Isto corresponde ao salário de mais ou menos 2000 funcionários públicos.

É o número de funcionários públicos que terão que ser despedidos para nos próximos anos para pagar por este tremendo “feito” da ala esquerda do arco da governabilidade.

O Gato Portas de Schrodinger

schroedingerfull

Na experiência hipotética de Schrodinger, um gato encarcerado numa caixa opaca vê o seu destino ditado por uma pequena partícula subatómica que está sujeita a um fenómeno quântico de superposição. Nesta situação, a partícula existe em qualquer dos seus estados teoréticos (partícula, onda, etc.). É um determinado estado que vai ditar o destino do gato: se a partícula entrar em decay, um medidor de Geiger irá detectar a energia e libertar um gás que matará o gato. Caso não esteja em decay, o felino permanece vivo. A interferência de um observador dita o destino da partícula e, consequentemente, do gato. No entanto, até que a caixa seja aberta, o estado do gato é uma consequência do estado da partícula que, por sua vez, está em vários estados ao mesmo tempo. Ergo, o gato está vivo e morto ao mesmo tempo.

Schrodinger não poderia antever que, volvidos tantos anos após a sua hábil interpretação de Copenhagen, iria surgir alguém num pequeno reduto especializado na cultura republicana de bananas, que não apenas tem tantas vidas quanto um gato, está também em vários estados. E tudo ao mesmo tempo.

Senão, vejamos. Da partícula subatómica, Paulo Portas herda a propriedade de poder estar em vários estados ao mesmo tempo. A de estar dentro e fora do Governo. A de tomar decisões que são irrevogáveis e revogáveis. A de não ser Ministro da Economia e subitamente sê-lo, ainda que oficiosamente. A de ser o próprio partido que encabeça, e a de não ser, caso o próprio partido que ele encabeça, assim não o deseje.

Do gato, Portas levou claramente a infinitude de vidas e a habilidade de, caia como cair, se reerguer. Fintando o inexorável dos destinos, Portas sai de cena e retorna, que nem Sebastião caiado. Estilo mais tordo ou acinético, o seu regresso é mitigado por um revisionismo histórico que pinta e repinta os acontecimentos, com tantas de-mãos que no final ninguém se recorda bem da gravidade dos ditos.

O objectivo de Schrodinger era demonstrar que uma lei da mecânica quântica é incoerente quando analisada à luz da física Newtoniana dos grandes objectos. Embora a partícula esteja simultaneamente em vários estados, o gato não está. Pelo menos neste universo. Tal como a partícula, Portas depende da interferência do observador. Esperemos que o observador mate o gato.

Adenda: um comentador acusou-me de ter plagiado este artigo do Carlos Fiolhais, que foi publicado em Maio no Público. Desconhecia por completo esse artigo ou qualquer outro que fizesse uma metáfora com o gato de Schrodinger. Até porque a metáfora apropria-se perante a dualidade revogável/irrevogável, situação que, pelo menos no contínuo espaço-tempo onde vivo, só ocorreu agora.

Eleições Antecipadas são Solução?

Fantasias, o meu artigo de ontem no Diário Económico:

Estes dias li numa página de humor: “Portugueses até vão para a rua, mas depois lembram-se de Seguro e voltam para dentro”.

Estes dias li numa página de humor: “Portugueses até vão para a rua, mas depois lembram-se de Seguro e voltam para dentro”. Ri, mas de facto nesta crise a melhor apólice de seguro de Passos não é Portas, é Seguro.

A esquerda logo a seguir às eleições começou a tentar desestabilizar o Governo para voltar ao poder e retornar às mesmas políticas despesistas que nos puseram nesta posição, como se a solução para quem tenha demasiadas dívidas seja contrair mais dívidas e pagar cada vez mais juros. “Estimula a economia e o crescimento”, dizem os que esquecem o falhanço do aeroporto de Beja. O Tribunal de Contas Francês tem outra opinião, e está a obrigar Hollande a reduzir o número de funcionários públicos e a congelar salários e progressões nas carreiras – acordando os Franceses para a dura realidade de impraticabilidade das políticas socialistas e atirando a popularidade de Hollande para valores historicamente baixos. Portugal ir a eleições, ao contrário do que fantasia a esquerda, não terá grandes consequências.

Ganhe quem ganhar, o programa está escrito até Junho de 2014. Ganhe quem ganhar, um político profissional criado nas juventudes partidárias será primeiro-ministro. Ganhe quem ganhar, a equipa sairá da elite que governou Portugal nos últimos 40 anos. Ganhe quem ganhar, Portugal terá uma dívida superior a quando foi à falência em 1892 – e só tem a opção de nos próximos anos produzir mais do que consome. Assim eu pergunto: qual a finalidade de ir a eleições antes de Junho de 2014? Para se gastar dinheiro na troca de cadeiras e nada de substancial mudar? Para haver uma nova crise de confiança que faça disparar os juros e afundar a bolsa? Para eleger um professor de Teoria do Estado e História das Ideias Políticas e Sociais que recentemente provou desconhecer o conceito de média?

Políticas de esquerda só serão possíveis quando houver dinheiro. Até lá, a estabilidade política deverá ser o nosso activo mais valioso e o resto são fantasias de sonhadores.

O país vem já a seguir

O André já o tinha feito, mas julgo que nestas circunstâncias não devemos ser parcimoniosos com os elogios. É importante enaltecer o momento e, a uma só voz e em nome de todos aqueles que procuram oportunidades de rentabilidade anormais, agradecer este desconto magnífico no preço das OTs a 2 anos, que equivale a um aumento de 33% no yield-to-maturity do valor dos cupões. E claro, agradecer também a enorme exposição internacional que isto trás a Portugal. É sempre bom dar matéria ao Financial Times.

Paulo Portas é amigo dos reformados, dos contribuintes e dos especuladores. Mas com amigos assim, não sobra espaço para muitos inimigos.

GOV_PT_BONDS_2YR

Sobre Gaspar

MARIA-LUIS-ALBUQUERQUE-E-VITOR-GASPAR-DR

O exercício de comentar trabalho alheio é-me caro, embora não desprazeroso. Ninguém excepto o próprio está ciente de tudo o que o possa ter condicionado e do que, entre acções, intenções e manipulação política, de facto foi resultado da sua vontade. Mas dado que o cargo era público, penso ser não apenas apropriado como consentâneo com o dever de cidadania a injusta tarefa de julgar.

De uma assentada: só ficaram desiludidos com o trabalho de Vítor Gaspar aqueles que reviam nele, ou em qualquer outra pessoa que ocupasse o cargo de Ministro das Finanças na República Portuguesa (e esta parte é importante), o salvador da pátria. A minha faceta de iconoclasta tem tendência a rejeitar a ideia de um paladino da nação, capaz de lhe devolver a glória e honra, outrora arrebatada. Até porque, da última vez que isso aconteceu, Hitler foi eleito.

Também não serve isto para desculpar a intempérie. As chuvas, isto é. Vítor Gaspar, dentro daquilo que o mainstream económico é capaz de gerar, fez o óbvio, mas ao contrário. Iniciou uma consolidação fiscal. Qualquer livro introdutório de macroeconomia sugeriria começar por um corte na despesa espúria e improdutiva e no investimento público inconsequente, corte que pode ter efeitos de crowding in do sector privado como se sucedeu na Letónia. Esse mesmo livro provavelmente advertiria contra uma subida de impostos — especialmente IRC e IRS —, pois reduz o rendimento disponível das famílias e, consequentemente, o investimento e ainda a capacidade de desalavancar (o consumo, propulsionado pelo crédito, era inevitável que não retraísse). O livro diria também que um corte abrupto, ou “cold-turkey”, tem geralmente uma recuperação mais rápida, mas com maiores riscos. Ou seja, teoricamente, Vítor Gaspar deveria ter começado por cortar na despesa e somente depois, se ainda necessário, considerar o aumento de impostos. Acredito que fosse esta a sua intenção. O resultado foi o contrário.

Politicamente, Gaspar fez aquilo que a Constituição, o Tribunal Constitucional, os sindicatos, as ordens e todo o poder instalado em Portugal permitiram que fizesse. Como foi bem patente, qualquer reforma profunda em Portugal é tarefa de nível hercúleo. Não sabemos para onde vamos, mas sabemos que não vamos por lado algum. Ora, se economicamente a via era óbvia, politicamente o caminho estava minado logo à partida. Duas provas sustentam esta posição. A primeira é lógica. Se fosse possível conduzir tais reformas, já teriam sido feitas. A Alemanha reformou o seu mercado laboral em 2004. A segunda foi observável. Na manutenção do sustentáculo do corporativismo, sindicatos e associações patronais associaram-se e tomaram posições conjuntas. Ninguém em Portugal quer deixar de viver à custa do Estado.

Assim sendo, as minhas expectativas para este ou para qualquer outro Ministro das Finanças não passam pelo que ele pode fazer, isto é, pela maximização do bem comum que ele pode alcançar, mas pelo menos que ele pode destruir, isto é, pela minimização dos danos causados pela sua ação. E, nessa perspectiva, Gaspar não esteve mal. As finanças públicas de Portugal de hoje são indubitavelmente melhores que as de ontem. Mas como o nosso fado é irredutível, melhores que as de amanhã. Como disse Teixeira dos Santos uma vez em aula, um Ministro das Finanças de Portugal não é mais do que um contabilista de livro de cheques em punho a ser mandatado para assinar cheques de projectos já vinculados. Gaspar conseguiu, ainda que temporariamente, mudar isso.

P.S. – Entretanto, Paulo Portas demite-se porque discorda da escolha para nova Ministra das Finanças, como se isso fosse assim tão importante. É a reiteração daquilo que aqui escrevo. Observando o pantanal que é a política portuguesa, Gaspar não esteve assim tão mal.