Um contributo para o futuro do PSD

Eis um excelente contributo para a discussão sobre o que deverá ser o PSD do futuro:

[…] precisamos vitalmente de outra coisa, precisamos de mais liberalismo, de mais liberdade económica, de mais espírito empresarial. Sem mais “crise” (das que falava Schumpeter) e sem mais “boa” insegurança, não somos capazes de mudar. O estado tudo faz para nos poupar a essa insegurança, e, como toda a Europa, afundamo-nos, pouco a pouco, na manutenção, geracionalmente egoísta, de um modelo social insustentável a prazo e que nos condena a definhar. É verdade que duvido que hoje alguém consiga ganhar uma eleição propondo o fim do conforto providencial, mas isso remete para a perda de margem de manobra democrática, face ao crescendo demagógico. E nem sequer vale a pena apelar á racionalidade, porque ela, a não ser para meia dúzia de iluminados normalmente sem fome e com emprego certo, aconselha a ter a pomba na mão a troca-la pelas duas que estão a voar. Estamos de facto, um pouco tramados, mas se calhar foi sempre assim na história.

Pacheco Pereira Vintage, ano de 2005.

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Bardam€rda para o Fascismo!

Estou farto, mas mesmo fartinho de palhaços que deviam saber melhor chamarem defensores de estado mínimo de fascistas. É burrice, ignorância, ou má-fé: escolham.

Para esclarecer, vou usar o diagrama mais simples, o Diagrama de Nolan (teste minúsculo) para explicar as diferenças entre Passos Coelho e a Alt-Right/Trump. Melhor, vou fazer uns desenhos. (por favor abram o mais)

  1. Gráfico base, com os nomes mais comuns

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Uma homenagem a Pacheco Pereira. O de 2005

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Endereço-me a Pacheco Pereira. A Pacheco Pereira de 2016. Para ser mais preciso, Pacheco Pereira de 1 de Maio de 2016, que amanhã não saberemos que versão de Pacheco Pereira será. Se Pacheco Pereira vintage, idos anos 70, que se envolvia em arrufos e calduços em florestas, quando as contendas entre radicais de esquerda eram verdadeiros duelos, e não remoques enviados via iPhone ao sabor de um gin, 12€ o copo; se Pacheco Pereira versão 2005, «perigoso neoliberal» de «direita radical», que rogava por «mais liberalismo, mais liberdade económica, mais espírito empresarial», e que se queixava do «modelo social insustentável». Dado que o modelo social não mudou assim tanto em 10 anos e Portugal não se tornou mais liberal presumo que as críticas se mantenham — quem mudou foi Pacheco Pereira. Recordemos, pois, Pacheco 2005.

Em retrospectiva, Pacheco Pereira de 2005 era um visionário. Com a excepção de duas ou três pessoas, ninguém em Portugal falava de liberalismo, quanto mais assumir-se liberal. E, porém, já nessa altura Pacheco Pereira clamava por uma cura — «mais liberalismo, mais liberdade económica» — para a maleita que assola Portugal já lá vão — e aqui Pacheco pecou por defeito na sua crónica do Público — bem mais do que 40 anos, o socialismo.

Na verdade, é possível encontrar laivos de socialismo que precedem a 3ª República. Já na 1ª República se começa a instalar a estatização e o socialismo económico — a lei do congelamento das rendas, ao contrário do que geralmente se apregoa, surge nesta altura. O enlevamento com o socialismo remonta mesmo às invasões napoleónicas, à revolução «liberal» e à crescente influência da maçonaria e dos jacobinos em Portugal, e sedimenta-se com o Estado Novo — o condicionamento industrial, o proteccionismo económico, o planeamento central, a Câmara Corporativa. Enfim, a estatização da economia, prática comum a quase todos os regimes ditatoriais, da esquerda à direita. Aliás, é durante o Marcellismo que se instala o Estado-providência, que depois acaba por dar origem ao Estado-social moderno. O socialismo atinge depois o seu ponto mais alto, e também de inflexão, com o PREC, levando o país à falência, renovada a cada par de décadas. Pacheco Pereira de 2005 sabe tudo isto.

De maoísta a social-democrata, de social-democrata a liberal, de liberal a socialista, perdão, social-democrata, Pacheco Pereira de 2016, espírito jacobino, montagnard, descreve inimigos e conspirações em todo o lado. Toda e qualquer opinião que saia fora do perímetro estabelecido pela esquerda pensante é, máxima sentenciada, crime de lesa-pátria. E Pacheco Pereira 2016 incorpora esse modus operandus, que procura e automaticamente encontra e crucifica dissidência intelectual.

Vejamos. A «deriva» do PSD e do CDS a que Pacheco de 2016 frequentemente alude, que mais não foi do que a observância, quiçá temporária, de princípios elementares de bom senso — um país falido não tem dinheiro; quando não temos dinheiro temos de «apertar o cinto», já dizia Manuela Ferreira Leite — é vista como um afastamento do socialismo que tantas coisas boas trouxe a Portugal, cuja lista se exaure com 3 bancarrotas em 40 anos e a humilhação de assistir a ex-repúblicas da União Soviética, ainda em pós-convulsão da debacle comunista, a ultrapassarem-nos. Apupemos, portanto, a esses perigosos neoliberais, apoiantes da austeridade que mata, já dizia o Papa Francisco, que ousam saltar fora da cartilha socialista que rege Portugal. Apupemos, pois, a Pacheco Pereira de 2005.

Essa sempre foi, note-se, a especialidade da extrema-esquerda, realidade que Pacheco Pereira dos anos 70 conhece bem: afogar qualquer dissidência intelectual. Recordemos um episódio irónico: quando Zeca Afonso, próximo do LUAR, vai a Grândola cantar «Grândola, Vila Morena», é apupado por militantes do PCP e obrigado a abandonar o palco. Pacheco Pereira vintage, anos 70, então militante do PCP(m-l), grupo dissidente do PCP, que plasmava as tensões estalinistas e maoístas, saberia bem o que é ser-se sectário, ao mesmo tempo que lutaria contra o sectarismo, tudo em prol de um proletariado unido. Não por acaso, cabe hoje ao PCTP-MRPP acusar o PCP de ser um movimento revisionista por ter aderido ao «sistema» e à «brincadeira burguesa» que é o Parlamento, e com isto desistido da revolução. Muitas cambalhotas dadas, cabe, pois, a Pacheco Pereira de 2016 a tarefa de acusar o PSD e o CDS de serem um pouco menos socialistas, quando ele próprio, tempos idos de 2005, desejava o mesmo. Verdade seja dita, todo o espectro fugiu da extrema-esquerda e se recentrou. Que o PS do Tempo Novo tente acantonar-se com a extrema-esquerda é mero lapso anacrónico, que durará tanto tempo quanto o tempo de vida da geringonça, e cairá de podre. Mas, sobre a radicalização do PS, Pacheco Pereira de 2016 não parece ver qualquer problema. Pelo contrário, ai de quem ouse criticar o BE ou o PCP, estandartes do ideário venezuelano.

Pacheco Pereira 2016 vive então atormentado com o pensar diferente, ou melhor, com o pensar diferente do espartilho socialista, que com as diferenças no seio da geringonça parece conviver bem. Crónicas e crónicas afins onde repetidamente se refere a bloggers — essencialmente ao Insurgente e ao Blasfémias — sem nunca ter a coragem de dar nomes, acusando-os de serem «radicais de direita», «perigosos neoliberais», crucificando-os por, lá está, não seguirem a cartilha socialista. Omite os nomes para não os promover, arguirá. Depois, precisamente porque não personaliza a crítica que é, mais do que ideológica, ad hominem, pega num conjunto avulso e distorcido de posições, baralha bem, e chama àquilo de «direita radical». Ficamos a saber que os «perigosos radicais de direita» idolatram Putin, Trump, o MPLA e o Partido Comunista Chinês. A persona está construída, só falta dar nomes. Que liberais apoiam Putin, Trump, o MPLA ou o PCC? Desconheço. Mas isso não coíbe Pacheco Pereira de 2016 de os ver em todo o lado.

E, no entanto, era tão simples traçar o perfil intelectual desses «perigosos neoliberais de direita». Basta, por instantes, que Pacheco Pereira de 2016 se recorde de Pacheco Pereira de 2005: precisamos de mais liberalismo, de mais liberdade, de menor interferência do Estado. Queremos mais liberdade na educação, queremos um Estado social mais justo — que ajude aqueles que efectivamente precisam e deixe os restantes em paz. Queremos um Estado sustentável, que não gasta mais do que obtém em receitas; e queremos que os cidadãos não sejam afogados em impostos, para que possa sobrar algum para o tal «espírito empresarial». Pacheco Pereira 2005 clamava por tudo isto. Que falta fazem a Portugal os conselhos de Pacheco Pereira de 2005.

Pacheco Pereira, as presidenciais e o Observador 2

Tendo a discordar do André Azevedo Alves quanto ao grau de satisfação de Pacheco Pereira com a actual campanha presidencial. Vejamos: dos 10 candidatos presidenciais, 9.5 são de esquerda. Eu diria que o neo-Pacheco Pereira, que recupera o Pacheco Pereira clássico dos anos 70 e rejeita o liberalismo que este perfilhava entre os anos 90 e circa 2009, deve estar profusamente feliz.

Política de empobrecimento – estrutural

Pacheco Pereira - 3 dedos

Política de empobrecimento. Não é por a expressão ser ilimitadamente estúpida que deixou de entrar e instalar-se na converseta de treta da esquerda. Esta tarde foi a vez de Carlos César. Se me lembro, quem primeiro a começou a usar foi o pensador Pacheco Pereira, o mais apto dos fabricadores de non-sense que por aí andam, disparando-o sempre com imensa gravitas. O homem nasceu para aquilo. Normalmente faz seguir a expressão «política de empobrecimento» pelo termo «estutural», o que dá um eco definitivamente profundo ao disparate.

Vá, um exemplozinho simples com dois indivíduos: o Pacheco e o Pereira. Ambos partem da mesma situação, com um capital de 50, e ambos têm o mesmo rendimento anual, 90.

O Pacheco torra 100 por ano, para o que tem de pedir emprestados 10, se não quiser simplesmente desfazer-se de bens do capital inicial, igualmente numa parcela de 10; já Pereira, não, limita-se a torrar o que ganha: 90. Ao fim de 1 ano, qual é o valor, a riqueza, de Pacheco e o valor, a riqueza, de Pereira? Pacheco conserva os bens de capital do início, que estão lá todos, mas acumulou uma dívida de 10; feitas as contas, está com uma riqueza de 40. Na verdade, já não é dono da totalidade dos seus bens. A continuar assim, há-de ter um rico futuro.

E Pereira? Bom, Pereira também conserva os bens da casa de partida, mas não fez dívidas, de modo que continua a valer os mesmos 50, que quase toda a gente sabe, possivelmente até Pacheco Pereira, são mais do que 40.

Até 2011, fomos um país de Pachecos, e logo durante década e meia, até um pouco mais; verdade: estamos literalmente carcomidos por dívidas; desde finais de 2012 que nos tornámos Pereiras. Deixámos de empobrecer todos os anos. Pacheco Pereira acha que, na mudança, empobrecemos estruturalmente, e já não há taralhoco que, podendo, não repita a baboseira.

Ordem velha

REVISTA-ordem-nova

Dez anos antes da Revolução Francesa concretizava-se no novo mundo aquilo que vinha a ser teorizado no velho. Precede ao ensaio da beligerância os ensaios de uma formidável revolução intelectual. De um lado, os conservadores e tradicionalistas, passe a redundância, condignamente inspirados em Edmund Burke. Do outro, os radicais: os românticos contratistas, seguidores de Rousseau; os utilitaristas, guiados por Bentham e mais tarde pelos dois Mill; e, enaltecimento desnecessário, um dos percursores do individualismo, da lei natural, também contratista, John Locke, que inspirava então grandes pensadores como Voltaire, Hume, Smith. Todos eles emergidos do iluminismo europeu com algo em comum: a razão como método de teorização.

Principiava-se sem príncipe aquilo que Paine viria a escrever e descrever como a Idade da Razão. Aquele território, antecâmara de um projecto que havia de inspirar a humanidade, assistiu ao gladiar de duas destas correntes: de um lado, a ala conservadora, filiada nos Federalistas e encabeçada por Randolph, Calhoun e John Adams. Fazia fé na Providência enquanto instrumento de acção política, fazia fé nas tradições, destilação por vezes etílica de séculos de experiência, também ela por vezes ébria; e fazia fé na coroa britânica. Ou, não fazendo fé, não lhe fazia ré. Do outro, os republicanos, Jefferson aos ombros de Locke, Paine e Bacon; e percursor de Madison e Jackson. É necessário recuar vinte séculos até à República de Sócrates e Platão e à Política de Aristóteles, talvez com excepção da república clássica romana a que Cicero não fez jus e do calculismo político de Machiavelli, para encontrar período tão fértil quanto este. Vindicou-se Jefferson: quebrava-se de uma só assentada aquilo que Disraeli considerava ser o crux da acção política conservadora: coroa, aristocracia e igreja. Fecha-se uma janela, abre-se um mundo. Começava a emergir a verdadeira liberdade.

Posto isto, um pouco de estória moderna: a menina que gosta de sardinhas e o rapaz que afogava a Bélgica umas três vezes (falha as duas primeiras) para que a menina possa continuar a comer o peixe. A estória da menina das sardinhas é parte integrante de um texto que, crê o autor, em sentido literal de crença, figurar uma recensão crítica, crítica essa à minha réplica a Pacheco Pereira. Recuperando o original, porque o diabo está nos detalhes: o propósito era alertar que nem toda a direita tem de ser “patriota”, pelo menos na definição subjacente à de Pacheco Pereira, que é a de Portugal contra a Europa, Portugal contra a Alemanha, Portugal contra os mercados financeiros, Portugal contra a China porque produz mais barato e “rouba empregos” a portugueses de Portugal, a do Portugal proteccionista, a do Portugal habitada pelo português que compra português porque é de Portugal, porque o que é português é bom e o resto é mau. Enfim, a do Portugal defunto e definhado que de tão depauperado só tem as memórias das origens e os símbolos e os brasões como recordação e, no caso do autor, decoração. E de um ou dois velhos do Restelo a dar pálrea.

No sentido trôpego que Pacheco Pereira lhe deu, o patriotismo constitui a prerrogativa de que o proteccionismo, o isolacionismo e tudo o que aparente proteger um país é, de facto, para o seu bem. É aqui que discordamos. É contra o nosso interesse a imposição de medidas mercantilistas que protejam o mercado interno, como é também contra o nosso próprio interesse não cumprir o expediente orçamental que “a Alemanha nos impõe”. Tal como, aparentemente, a Corn Law protegia o Reino Unido, era contra o seu próprio interesse lei tão déspota e nefasta, não obstante a aparência de “patriótica”. Aqui, ser patriótico é não ser patriota. Nesses termos, declarei-me apatriota. Mas se ser patriota é apenas proteger o país do seu estado, e já agora dos outros patriotas, como gizou Paine, então sou um irredutível e incomensurável patriota.

Como se cruzam a estória e a história? A estória da menina das sardinhas é, para lá de tirado de um clube de leitura promovido pela Verlag Franz Eher Nachfolger, contra-ideário ao meu assumido libertarianismo, e perde-se no meio de iguais iguarias de retórica simples e muito pouco aristocrática: eu sou um tal de, quem quer que eu seja, que sou um poeta, viajado e ainda um poeta viajado, que nem Neruda a escrever cartas de apreço a Stalin a bordo do trans-siberiano. Sou da “Direita Angelina Jolie”. E sou-o porque estou do lado do racionalismo, em prol de Jefferson, do lado daqueles que renegam a coroa, a aristocracia, a providência e a tradição como forma de fazer política, embora respeite a liberdade religiosa e todas as monarquias parlamentares que assim o desejam ser. Não respeito todas as tradições mas respeito os indivíduos que as defendem. Porque descreio o nacionalismo e porque, mais grave de tudo, encontro no indivíduo e não na nação, no rei ou no roque a expressão mais bela deste universo, deste Deus, do outro ou de nenhum, seja o indivíduo português, francês ou marroquino. Porque para mim Edward Snowden é um herói e para Manuel Rezende um criminoso, um revoltoso de Ipiranga.

Esta direita que não é “Angelina Jolie” e este “patriotismo” conhecemos bem, e o autor ainda melhor. Está lá, na Ordem Nova, eternizado por Marcello Caetano: “é anti-moderno, anti-liberal, anti-democrático, anti-burguês e anti-bolchevista [valha-nos isto!]. É contra-revolucionário, reaccionário, católico, apostólico e romano, monárquico, intolerante e intransigente, insolidário com escritores, jornalistas e quaisquer profissionais das letras, das artes e da imprensa”. E, permitam-me acrescentar, é bafio, é velho e ultrapassado.

Termina o Manuel Rezende com a certeza que afogaria três vezes a Bélgica, o que confirma o meu temor inicial: para além de Estado e estatismos, esse patriotismo também conduz a despotismo. Sorte a nossa que em Waterloo tombou um deles. E creiamos e queiramos que muitos se erguerão, para além de mim, para impedir que um outro a quem as vestes não auguram bom presságio afundasse a Bélgica três vezes (pelo menos). A bem da Nação.