A propósito da Suécia e do “milagre escandinavo”

Diz-se dos países nórdicos que são exemplos civilizacionais, a população é a mais feliz, a mais confiante, exalta-se a excelência da qualidade de vida, invejam-se os níveis de prosperidade e todo um certo bem estar social. Daquele nicho, controlam os prémios Nobel, o Ikea, a  H&M, petróleo suficiente para competir com a Arábia Saudita, o melhor sistema de educação, o melhor sistema de saúde, o melhor isto, o melhor aquilo. Constrói-se um mito, tiram-se lições e profundas conclusões e há sempre alguém disposto a alegar, em qualquer discussão, o modelo social nórdico e a respectiva “qualidade de vida”. Para mim, nascida e criada na melhor cidade para se viver (apesar de algumas desavenças com o bigode de Fernando Ruas, reconheço-lhe algum mérito enquanto autarca), isto é irritante. Até que aparece um inquérito como o da Agência dos Direitos Fundamentais da UE a concluir que a violência sobre as mulheres é elevadíssima nos países Escandinavos, uma notícia sobre o tratamento dos ciganos na Suécia ou um Michael Booth a revelar alguns factos. Entre idas e vindas por terras gélidas Booth, residente na Dinamarca e casado com uma dinamarquesa, desmonta, país por país (Dinamarca, Suécia, Finlândia, Noruega e Islândia), a exaltação à volta das maravilhas daqueles hotspots da social democracia. Dos Dinamarqueses, escreve Booth que são os reis do endividamento privado (quatro vezes mais que os italianos – o suficiente para justificar uma advertência do FMI) e os responsáveis pela quarta maior pegada ecológica por habitante, a nível mundial. Quanto à igualdade económica, Booth explica que segundo o maior diário dinamarquês, “o número de pessoas que vivem abaixo do limiar de pobreza duplicou na última década“. Os Noruegueses, entre outras coisas, são comparados a traficantes de droga  por se vangloriarem pela utilização apenas de energias renováveis e, simultaneamente, vendendo combustíveis fósseis ao resto do mundo. A dependência de anti-depressivos também é um traço típico do cidadão Norueguês.  Da Finlândia, são conhecidas as bebedeiras de sexta-feira (o álcool é a principal causa de morte entre os homens) e as cenas de pancadaria, por isso não surpreende que seja o país com a taxa de assassinatos mais elevada da Europa Ocidental (o que talvez explique a invasão de literatura policial originária destas bandas).  Ainda, na última classificação do PISA (Programme for International Student Assessmen), a Finlândia caiu para os últimos lugares. Booth qualifica de “indulgente” o povo sueco e destaca que este país “neutro” é o maior exportador de armas do mundo. O desemprego jovem é mais elevado na Suécia do que no Reino Unido e ultrapassa a média europeia.

Depois de conhecer este trabalho de Booth e de ler o seu livro The Nearly Perfect People (cheio de humor), compreendem-se melhor as declarações de Sócrates quando, em 2005, dizia que o modelo que o inspirava era o da social-democracia nórdica. Por outro lado, oxalá Michael Booth não venha a Viseu, andam por aí uns mitos autárquicos por desvendar…

nórdicos